Underground
 Frenesi. Já no inÃcio de tudo há um intenso frenesi. Uma frenética banda de metais impõe um ritmo veloz e empolgante, como se abrisse as cortinas para um espetáculo circense. Uma loucura cuidadosamente anunciada. A banda perseguirá os personagens em diversos momentos da pelÃcula (debaixo d’água, inclusive) e nas mais de três horas de duração, ela será pano de fundo de alegorias, tiroteios, brigas, canhões e romance. Ah, esqueci de dizer, há um macaco também. E por mais louco que esse conjunto possa parecer, o pomposo Festival de Cannes laureou toda essa confusão com sua distinta Palma de Ouro de 1995.
A pelÃcula em questão chama-se Underground e é por meio dessa geléia-geral: alegorias, tiroteios, banda de metais, canhões e macacos, que o cineasta Emir Kusturica transforma-a em uma tragicômica narrativa de guerra, que usa o paradigma iugoslavo para alfinetar a própria condição humana do homem como o lobo dele mesmo.
Em Underground conta-se a história de construção e fragmentação do território iugoslavo, desde a Segunda Guerra Mundial até a queda do Estado Comunista de Tito. No entanto, aquilo que mais vai nos sensibilizar como espectadores, é o aprisionamento de um grupo de pessoas durante 20 anos num porão, passando de refugiados a prisioneiros.
Nesse lugar, desenvolvem sua própria realidade (vida em sociedade, regras, eventos, tradições), mas sempre alheios a tudo que se passa ao redor, no “mundo realâ€. Assim, todos são facilmente orquestrados, para não dizer subjugados, pelas mãos de Marko, que a todos manipula para resvalar seu interesse próprio.
Na verdade, o que há de extraordinário nesse filme é a forma como o patético, o cruel e o violento ganham ares leves e cômicos, num lirismo plenamente representado na seqüência final, na qual as cizânias do inferno terreno são sublimadas em prol da utopia da terra prometida.
Veja também:
Visões interessantes sobre guerra e subjugação humana imposta pelos próprios homens podem ser vistas, também, em Nossa Música (2004), de Jean-Luc Godard; Dogville (2003), de Lars von Trier; e Arquitetura da Destruição (1988), de Peter Cohen.
Diego Velázquez é jornalista, formado pela Universidade da Amazônia, Belém, Pará.







































