Avatar e Distrito 9
É tão fácil falar bem quanto falar mal de Avatar, basta escolher um viés e seguir em frente. Isso se dá não só porque ele traz um bom punhado de qualidades e defeitos, mas porque ele foi feito para ser entendido por qualquer pessoa, sem muito esforço. Se você está dividido entre os comentários dos seus amigos, saiba que o mais provável é que todos estejam certos, seu intelecto não está em jogo na decisão. Não é preciso escolher uma bandeira de amor ou ódio, deixe isso para a política e para o futebol.
Antes de qualquer coisa, é importante ressaltar o caráter de cinema-experiência de Avatar. Por ser em 3D, supõe-se maior imersão do espectador na história e nos cenários. Esse foi o meu primeiro filme com a tecnologia e ainda não tenho o vocabulário técnico exato, mas vou dividir a experiência 3D em duas partes. A primeira é o 3D que se vê dentro da tela, em profundidade, e que vou chamar de sombreamento. A segunda é o 3D que se vê para fora da tela vindo em nossa direção e que vou chamar de projeção. O sombreamento é o grande responsável pela imersão no universo apresentado, dada pela simples quebra da imagem bidimensional, aproximando-a do real. A projeção é a responsável pela ilusão da interatividade, ou interatividade segura, que dá vontade de esticar os dedos para tocar as bordas dos cenários. Com reação de novato, desviei de uma granada atirada lá para o final do filme. Fica aqui a confissão. Se você já assistiu, deve se lembrar da cena.
Segundo meu sobrinho de oito anos, existem filmes melhores em termos de projeção. Não vi o fiasco Beowulf, mas acredito que o cinema-videogame de Viagem ao Centro da Terra seja um bom exemplo disso. Avatar, de fato, tem poucos momentos do tipo. São plantas exóticas na lua explorada, chuviscos de explosão e um personagem ou outro que se destaca da tela. Talvez o cientista James Cameron soubesse que a projeção é mais cansativa visualmente que o sombreamento, e por ter em mente um filme longo tenha economizado nos efeitos especiais e ajudado a poupar os olhos dos espectadores. O importante é não menosprezar o sombreamento. Se em princípio parece apenas um retoque visual, com a evolução da tecnologia tende a reforçar sua importância como elemento de linguagem. Várias vezes durante a projeção, pondo e tirando os óculos, me peguei pensando no que Orson Welles faria se tivesse acesso ao 3D na época de Cidadão Kane, em quantas camadas de ação conseguiria destrinchar seus filmes. Num universo mais próximo, vale pensar na farra que Peter Jackson (King Kong, Senhor dos Anéis) fará com o 3D.
James Cameron é um criador de mundos que tem seu currículo atrelado ao avanço tecnológico. Graças a ele você conheceu o Exterminador do Futuro 1 e 2, Alien – o oitavo passageiro, O Segredo do Abismo e… Titanic. Enfileirando os projetos do Cameron parece mesmo que houve falha na Matrix e o diretor de ficção-científica acabou fazendo o drama romântico que se tornou a maior bilheteria da história do cinema, mas se pensarmos na tecnologia submarina necessária para pesquisar os destroços do Titanic, no que foi construir uma réplica do navio em diversas proporções para as filmagens e na paixão de Cameron pelas profundezas abissais, o ponto fora da curva volta a ter sentido. Chatice da história à parte, a cena do Titanic afundando é mesmo memorável.
Quem diz que a tecnologia empobrece o cinema entende pouco do assunto. Os dois avançam lado a lado, seja na criação de um novo efeito especial caríssimo, na expressão facial de Gollum, na compra de um novo trilho de câmera ou numa steadycam mais leve, de última geração.
Volto à minha reação com a granada, o instinto de desviar a cabeça para o lado, e penso em L’arrivée d’un train à La Ciotat, dos irmãos Lumière, e a suposta reação do público, que teria levantado e corrido ao ver o trem chegar na tela. Aproximadamente 115 anos me separam dessas pessoas e, de repente, me parece crível que tenham tido essa reação. Ninguém se espanta com sustos em um filme de terror, com a tensão no suspense, com as lágrimas no drama, mas só saímos correndo de um filme quando ele é ruim e assim será até que a imersão do 3D seja completa. O fato é que entendi o público de Lumière por vivenciar a retomada do cinema-experiência, pensando-a pelo seu aspecto técnico e não só pela linguagem, numa dissociação teórica apenas para comparação, já que A Chegada do Trem era desprovido de narrativa, trama, planos, etc., todos elementos essenciais na criação de um filme hoje em dia.
Disto isso, deixo a tecnologia de lado por um momento para falar do roteiro. Me escapa na prática e conceitualmente a visão que um diretor precisa ter para pensar na beleza de seus planos em 3D. Não sei se o que é bonito em Abraços Partidos de Almodóvar também o seria com retoques de sombreamento e projeção, e outra vez me lembro de Orson Welles.
Mas roteiro é roteiro em qualquer lugar, e Avatar me incomoda desde a idéia inicial. Dos quatorze aos vinte e quatro anos, trabalhei em laboratório, primeiro com biotecnologia, depois com farmacobotânica e mais tarde com bioquímica, entrando aí os extras das aulas da faculdade de farmácia. Difícil não rir de uma trama que coloca um minério raro (que serve para o que mesmo?) como mais valioso que todo o banco genético de uma lua interligada bioquimicamente, geneticamente, biologicamente, com conexão, inclusive, entre o reino vegetal e animal. Pandora seria canibalizada por indústrias farmacêuticas, biogenéticas, nanotecnológicas. Seria invadida por biopiratas, traficantes e pesquisadores. Um Na’vi vivo valeria rios de dinheiro em qualquer laboratório. O extrativismo predatório de recursos minerais é palpável hoje, existirá amanhã, mas me parece datado demais para o projeto Avatar. O Sci-fi dos cinemas está sempre atrás da ficção-científica na literatura, mas isso não justifica a preguiça de James Cameron ao isolar o mundinho onde a história se passa. Usar a destruição da vida como elo de conexão da trama futurística com a nossa realidade, um pelo extrativismo o outro evidenciado agora pela mudança climática mais do que pelo extrativismo em si, implica saber o valor comercial da natureza. Que não existe no filme.
Me incomoda também a simbologia de corpo e espírito que vai ganhando peso ao longo da história. Primeiro o homem corrompe o corpo,indo em busca da árvore que está sobre os minérios. Depois, corrompe o espírito, indo atrás da árvore sagrada. Lá pelo meio, quando o efeito de embasbacamento com o 3D se dissipa, vai nascendo a dúvida: qual é mesmo a trama do filme? Eu que sou contra trilogias picaretas penso que as inúmeras histórias picotadas existentes dentro de Avatar ficariam mais confortáveis divididas em várias partes, quebrando a impressão de compacto dos melhores momentos.
Sei que há outros problemas de roteiro. Cada leitor da resenha pode citar pelo menos dois e nenhum na lista se repetir. O importante é entender que a ingenuidade da história foi pensada de propósito. Voltando a questão dos simbolismos que transbordam do filme, Avatar foi feito para ser didático, se fingindo de primeira experiência plena em 3D e ignorando os que vieram anteriormente. Na história há um humano (o espectador) que entra no Avatar (o personagem). Ele faz isso ao dormir e você ao colocar os óculos. Daí, ele sai para explorar um mundo (a imagem 3D) que só faz sentido dessa forma, inicialmente com atores reais e Avatares, lado a lado. Vários personagens explicam verbalmente o processo, para que não restem dúvidas da aula de imersão. E no final, quando a transformação em Avatar está completa, o espectador ganha seu diploma imaginário, abrindo os olhos para o novo mundo.
Termino o texto fazendo um adendo sobre outro filme de ficção-científica que também chamou atenção e pode complementar a discussão.
Distrito 9 tem um ponto em comum, misturar o real e o imaginário diante de nossos olhos, propondo entre eles a interação social. Pouco me importa se um ET camarão teria vida de favelado em nosso planeta, mas me interessa ver que absorvemos com naturalidade a proposta, ou pelo menos com mais naturalidade a cada dia. A estrada de tijolos amarelos para a identificação do espectador deixa de ser o homem destruidor da natureza e passa ser o conflito social, e conflito social é um assunto sempre em voga, identificável em todas as eras, sem data para terminar.
Enquanto Avatar quer pegar o espectador e levá-lo a outro mundo, Distrito 9 traz o indivíduo do outro mundo para o nosso, abusando de uma fotografia realista. É ele, o alienígena, que se sente deslocado, aprisionado, e precisa aprender nossos costumes para sobreviver. Avatar usa a cultura como ponte entre mundos, Distrito 9 usa a malandragem, a capacidade de se virar em um ambiente totalmente diferente (hostil) do que se está acostumado.
É uma pena que na secura pela textura realista, o filme acabe travestido de documentário e se perca no roteiro e na direção. Por mais que o roteiro de Avatar seja ingênuo e sobrecarregado de informações, ele está lá. Nesse ponto, ganha de longe. Faltou a Neill Blomkamp uma assessoria que não deixasse a história girar em torno de si mesma e que explicasse o uso da câmera como instrumento de linguagem, ausente do início ao fim.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































