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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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1/1/2010

Lot Amorós

Mais um espetáculo multimídia. E fiquei com um desejo entalado. Que aparecesse, em meio à arte tecnológica (definição: tecnologia usada em experiências estéticas), alguém bem gay. Camp. Lembra o camp?

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO espetáculo – nos últimos dias de dezembro/09, MIS-SP – era o resultado de um intercâmbio de estudantes entre o laboratório do Museu de Imagem e do Som e o centro de artes visuais Hangar, de Barcelona. O artista era o espanhol Lot Amorós (com participação da bailarina brasileira Leila D.). E o título era Eva.

Nos primórdios da Criação do Universo, uma Eva em carne e osso (Leila D.) olha espantada à sua volta. Trata-se de uma nova Criação de um novo Universo. Leila D., por exemplo, em vez de folha de parreira, usa uma roupitcha prateada, tipo astronauta de história em quadrinho. Ela corre de cá para lá, sempre muito espantada, e na tela atrás dela aparecem diagramas computadorizados de sua velocidade corporal. Representações em wireframe de seu corpo. Reduções geométricas de suas formas em quadrados perfeitos (aquele que é composto por números eles também quadrados). Em 3D. Espirais de Arquimedes. Também em 3D. A representação gráfica do teorema de Poincaré (uma rosquinha). A curva de Fibonacci (a do caramujo).

E mais: explosões de raios de luz concêntricos e em prisma.

Música de começo-de-mundo. Não sou culta o suficiente. Pode ter sido Mozart. Ou a trilha sonora do Planeta dos Macacos. Não sei.

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásAntes me explicam, ligeiramente constrangidos, fazendo hora para que a coisa afinal funcione e o espetáculo se inicie, que se trata de uma câmera de raios infra-vermelhos que capta a imagem em resolução de 600 frames por segundo e que depois passa para outra câmera que. Acho que eu deveria ter ficado impressionada. Não fiquei.

Sabe o que me impressionaria? O camp.

Alguém que usasse isso mesmo, produzindo os mesmos impressionantes feixes de luz, com a mesma trilha sonora, tudo igual. Mas caçoando. O que falta nessa arte é a crítica radical, arrasadora, de um movimento que, tendo a virulência que só os outcasts têm, a virulência de uma cicuta social, não apresentasse o bom-mocismo, o politicamente-correto, a postura de eu-é-que-estou-certo de quem sabe que está fazendo algo importante. Porque, não me entenda mal. Acho a arte tecnológica importante. Quero dizer, na teoria. A inclusão de novos instrumentos para fazer a mesma coisa de sempre: arte. É claro que é importante. Mas talvez aí esteja o problema – no que se entende por arte. Esses engenheiros de computação dublês de artistas ninguém-mais-avançado-do-que-eu acham que arte é fazer bonito, é fazer perfeito. Deve ter a ver com algum tipo de deformação na formação. A deles. A de engenheiros de computação. Ou com uma sexualidade de questionamentos facilmente resolvíveis, uma sexualidade de adões e evas.

Talvez ainda cheguem lá. Kitsch eles já são. Depois da demo de feixes de luz, me brindaram com fotos de mitos anteriores à Eva atualizada do palco. Sim, Martin Luther King. Sim, o cogumelo atômico. Ahn, My Lai. E até mesmo a Marilyn Monroe.

(Para os igualmente incultos, mas de menor idade, My Lay foi aquele massacre com napalm no Vietnam. Você já viu, sim, é a menina correndo nua pela estrada, o corpo queimado.)

E a própria Eva, claro.

espetáculo Eva, no MIS-SP - fotografia de Elvira Vigna para o AguarrásO espetáculo acaba com ela, já menos espantada, se levantando e depois caindo frente a um sol de plasma, naquele laranja que só aditivo químico consegue dar. Lindo. É. Pois é. Susan Sontag disse, sobre a assunto, que kitsch todos nós somos. Mas camp, só tendo um auto-conhecimento ultra-moderno, sem ilusões. Assumo meu lado kitsch. O tal do sol era lindo. E eu ainda punha um Roberto Carlos da boa fase para completar. Mas, hélàs, gosto mesmo é do camp.

 


Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.