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Edgar Morin, pensador francês nascido 1921, escreveu, entre os anos de 1960 e 1961 o primeiro volume do intitulado Cultura de Massas no Século XX, no qual, dentre outras propostas, descreve a formação de uma Mitologia Moderna surgida com o desenvolvimento da chamada Indústria Cultural.

Michel Gondry, diretor francês nascido em 1963, que, com uma filmografia de longas metragens um tanto reduzida, apenas quatro, mostra-se prolífico por ter conseguido criar uma estética própria. Duvidas? No seu universo criativo estão máquinas que apagam as dores do amor perdido; idas e vindas no tempo; monstro feito de linhas de tricô; cavalo de pano que voa; fitas VHS; urso de pelúcia gigante; mulher com corpo coberto de pêlos. O sonho. A memória, o esquecimento, a lembrança.

Bem, e qual o motivo dessas apresentações? Em 2004, Gondry finalizou o seu Eternal Sunshine of The Spotless Mind ou, no Brasil, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças que, dentre os feitos, conta com a premiação no Oscar de 2005 como o “Melhor Roteiro Original” (Charlie Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth). Sem ser clichê, realmente pode-se falar e pensar muito sobre essa película: a narrativa fragmentada, os truques visíveis, o tempo, a memória, o romance, o final feliz. No entanto, por hora, olharemos para os personagens e quem vai dar uma força é o Morin.

No elenco de Brilho Eterno há grandes celebridades como Kate Winslet, Jim Carey, Elijah Wood, Kirsten Dunst e Marc Ruffalo. Mas, diferentemente do que se espera dos grandes astros, todos corporificam personagens que não simbolizam o protótipo de heroísmo, do comportamento bravo e equilibrado que se espera de um herói.

O que acontece é que todos personificam uma espécie de carência afetiva, de fraqueza perante os dilemas e insucessos da vida: Clementine (Kate Winslet) é impulsiva e bipolar; Joel (Jim Carey) é solitário e conformista; Mary (Kirsten Dunst) sofre por amar um homem casado e por não se sentir suficientemente inteligente para atrair sua atenção; Stan (Marc Ruffalo) ama Mary mas não consegue ser correspondido; Patrick (Elijah Wood) tem problemas de relacionamento com mulheres e tenta conquistar Clementine “roubando” as lembranças e experiências vividas com Joel. Em suma, são personagens que corporificam a solidão, angústia e desilusão do homem pós-moderno.

Edgar Morin explica que o herói concebido pela Cultura de Massas, diferentemente do herói trágico ou do herói lastimável, “e que desabrocha em detrimento deles, é o herói ligado identificativamente ao espectador. Ele pode ser admirado, lastimado, mas deve ser sempre amado. É amado, porque é amável e amante.” (MORIN, 2005, p.92).

Dessa forma, mesmo que o personagem não seja humanamente superior (equilibrado, potente), basta que ele crie essa relação de empatia, que ele seja simpático, para que, mesmo desajustado, seja abraçado pelo público. Essa é a sensação que temos quando vemos Clementine e Joel, por exemplo. Ela é desequilibrada e impulsiva, ele é solitário e passivo, mas ambos só querem amar, só querem encontrar alguém “legal” que lhes dê paz de espírito, um sentimento comum e plenamente compreensível do público. Isso cria essa relação de identificação e empatia para com os personagens, tornando-os heróis dessa saga do homem contemporâneo para vencer a solidão. Dessa forma, é natural que esse filme, mesmo com sua inventividade narrativa e imagética, tenha grande apelo popular.

O ator se torna cada vez mais “natural” até parecer não mais como um monstro sagrado executando um rito, mas como um sósia exaltado do espectador ao qual este está ligado por semelhança e, simultaneamente, por uma simpatia profunda. (Ibid., p.92)

Aliás, é essa simpatia criada na relação personagem-público que fazem as produções cinematográficas pertencentes à cultura de massas necessitarem do providencial final feliz. “[...] o happy end introduz o fim providencial dos contos de fadas no realismo moderno, mas concentrado num momento de êxito ou realização.” (Ibid., p.94). Em outras palavras:

O happy end não é reparação ou apaziguamento, mas irrupção da felicidade. Há vários graus de felicidade no happy end, desde a felicidade total (amor, dinheiro, prestígio), até à esperança da felicidade, onde o casal parte corajosamente pela estrada da vida. Raros e marginais são os filmes que acabam com a morte ou, pior ainda [...] com o fracasso do herói. (Ibid., p.93)

Em suma, verifica-se que a cultura massificada acabou impondo essa estrutura de felicidade e êxito ao cinema, classificando os filmes que tentavam fugir ao padrão como marginais ou alternativos. Nesse sentido, Brilho Eterno, embora renove a maneira como se conta uma história de amor, acaba preferindo manter essa estrutura do êxito do herói, da redenção, em vez de uma escapada mais “realista” ou desesperançosa, indicando uma espécie de hibridação entre aquilo que se chama de Cultura de Massas e a dita Alta Cultura no trabalho desse cineasta, funcionando, inclusive, como indicativo do pós-modernismo contido em sua produção.


REFERÊNCIAS

BRILHO Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Direção: Michel Gondry. Produção: Anonymous Content. Intérpretes: Jim Carrey; Kate Winslet; Kirsten Dunst; Mark Ruffalo; Elijah Wood e outros. Roteiro: Charlie Kaufman. Música: John Brion. Universal, c2004. 1 DVD (108 min), widescreen, color.

 MORIN, Edgar. Cultura de Massas no século XX – volume 1: Neurose. 9°ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.