Pierre Verger, uma ponte sobre o Atlântico
No final da década de 40, lá pelos idos de 47-48, Pierre Verger ganhou uma bolsa de estudos do Instituto Francês da África Negra (IFAN) para estudar a origem dos cultos africanos, com ênfase nos que se instalaram no Brasil. Foi assim que ele, morador da Bahia desde 1946 – dizendo que ali “é um dos poucos lugares do mundo onde há a possibilidade de se viver sobre o mesmo plano amistoso, com pessoas de origem étnica diferente” – e que já tinha interesse pela cultura e religiosidade afro, começou a ergue a sua “ponte sobre o Atlântico”, na qual fluíam e refluíam as tradições negras do Brasil e da África Ocidental.
Dessa maneira, mais que estudar (e, obviamente, fotografar), Verger acabou sendo o mensageiro entre esses dois mundos, testemunhando o fluxo e o refluxo das tradições. Mais que ver, viveu: recebeu a alcunha de Fatumbi (“nascido de novo graças ao Ifá”. Ifá é um oráculo africano) e posteriormente foi iniciado como Babalaô (um adivinho através do jogo do Ifá, com acesso às tradições orais dos Iorubás, que é um dos maiores grupos étnicos da África Ocidental).
Enfim, o fato é que, em 1948, Pierre Verger saiu de Salvador para dar início aos estudos, mas antes de atravessar o Oceano, digamos que ele veio “conferir a negritude latina”. Desembarcando em Belém, realizou uma série de fotografias do Ver-o-Peso e de alguns rituais religiosos de origem africana. Quando deixou a cidade, foi para região das Guianas, sendo que uma parte das fotografias desse período, sobretudo as que registram populações Marrons do Suriname, são inéditas. Uma exposição organizada ano passado, e que agora está em Belém, tenta trazer à luz essa parte das viagens de Verger.
Intitulada Pierre Verger, uma ponte sobre o Atlântico, a exposição teve início em abril de 2009 em Caiena. Depois passou por Kourou, Saint-Laurent-du-Maroni e Paramaribo. Chegou à capital do Pará em dezembro e permanece até 31 de janeiro, quando segue para Martinica e, em seguida, para outras Ilhas das Antilhas. Por esse itinerário, fica claro que um dos interesses dessa exposição é justamente difundir o registro que Verger fez da cultura desses povos entre os próprios.
Em Belém, onde alguns elementos que não estavam nas mostras anteriores foram acrescentados, a exposição está dividida em três salões. Assim que se entra no Mabe (Museu de Arte de Belém), vê-se aproximadamente 10 fotografias que Pierre fez durante sua estadia na cidade: barcos, velas, negros carregando sacos na cabeça, terreiros, festas. (Aqui me permito um comentário bairrista, porque, como paraense, senti orgulho na beleza de cidade que Verger congelou no tempo).
No segundo salão, entende-se a “ponte” que há pouco foi falada. Fotografias que o francês fez na África, no Brasil e em regiões do Caribe se misturam. Na verdade, na maioria das vezes, sem ler as legendas, somos levados a crer que as fotos pertencem ao mesmo lugar, digo, ao mesmo espaço geográfico.
A cultura, as danças, as pessoas, as festas que ele retrata são muito parecidas, mostrando realmente essa relação de proximidade e unicidade entre o mundo negro. A disposição das fotos reforça essa impressão deveras apaixonada. Por exemplo, são postas, lado a lado, imagens de duas mulheres de vestido floral em festa de Orixás, mas uma no Brasil, outra na África; outro registro mostra pessoas negras na África vendo uma foto dos negros brasileiros e de pessoas negras no Brasil vendo uma foto dos negros africanos, reiterando aquilo que o nome Ponte sobre o Atlântico quer metaforizar.
Na terceira parte da exposição, há, enfim, as 34 fotos feitas no Suriname, mostrando registros das populações Ndyuka, do Vilarejo de Wanhatti, no Rio Cottica. Há fotos da estrutura do vilarejo, de rituais, de danças e dos habitantes, claro. Registros preciosos de uma população que posteriormente seria arrasada pela Guerra Civil no país.
Uma projeção de imagens relacionadas às populações da América Negra, bem como imagens feitas pelo fotógrafo Christophe Chat-Verre durante uma viagem pelos rios guianenses, completam esse salão.
Só pela raridade e ineditismo da coisa, essa exposição de Pierre Verger já valeria. Pela beleza do trabalho, também. Mas, o melhor é pensar que se Verger acabou ajudando a construir essa ponte sobre o Atlântico Negro, a iniciativa dessa exposição nos permite ver com mais clareza essa conexão.
Mais – Pierre Verger nasceu em 11 de novembro de 1902, em Paris. Com sua Rolleiflex acabou fotografando nos cinco continentes. Apaixonou-se pela Bahia e pela cultura africana. Fotógrafo que muito tinha de etnógrafo, acabou escrevendo diversos estudos, artigos e livros sobre a gente e os costumes que avidamente capturou. Sobre essa relação entre a cultura negra brasileira e africana escreveu diversas obras, sendo que uma das mais influentes é Fluxo e Refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo de Bénin e a Bahia de Todos os Santos dos séculos XVII a XIX.
Belém já recebeu algumas exposições sobre esse fotógrafo, inclusive a fundamental O Olhar viajante de Pierre Fatumbi Verger, em 2003. Pierre Verger, uma ponte sobre o Atlântico, fica no Museu de Arte de Belém até 31 de janeiro. Visitação de segunda à sexta, entre 9 e 17 horas; sábados e domingos, entre 9 e 13 horas.
Diego Velázquez é jornalista, formado pela Universidade da Amazônia, Belém, Pará.































