Lobos nacionais não devem nada aos de fora
Lobisomens! Por que eles têm que ser monstros? Eu sou um adorador desses seres e sei o quanto é difÃcil achar algo sobre eles que não seja de fora. Recentemente Meyer os trouxe para a luz (e não era a do seu vampiro luminoso) do mercado pop, até mesmo Shakira gravou um clipe chamado She Wolf. Mas o que poucos sabem é que os lobisomens já evoluÃram muito, não tanto como os vampiros, em questão de mÃdia, mas em suas histórias.
Eu nunca gostei da versão original do Brasil para um ser tão forte e enigmático como os lobisomens e isso me levou a procurar tudo sobre eles (grande parte veio de fora) e cheguei a pensar que não existissem autores de lobisomens nacionais, mas estava enganado. Ainda bem!
Nessa matéria vou deixar de lado os nossos amigos de fora e falar do que nossos autores andaram aprontando com seus lobos. Existe de tudo um pouco. Mais românticos, agressivos, mitológicos ou humanos. Alguns são lobos de verdade, outros parecem outros animais. Andam na lua cheia sobre quatro patas ou em duas. Temem a prata ou riem dela.
Eu sou mais dos lobisomens “Annette Curtisâ€, aqueles que são extremamente fortes, violentos e choram quando batem com porta na mão. Eu que sempre gostei do tema torci o nariz ao conhecer esse romance americano Sangue e Chocolate, mas me encantei ao ler ele. Transformação sendo algo mais espiritual que carnal, a personalidade não aflorando numa besta selvagem sem razão, mas num predador perfeito. Pra mim isso seria um sonho. Imagine apenas com poder do seu desejo poder modificar a sua natureza, não só fisicamente, mas por inteiro. Vivian – a loup garou do livro de Annette – não quer um romance, não quer ser popular e muito menos está disposta a largar tudo que é por um romance Twilight. Ela quer ser livre pra correr em sua forma de loba pela floresta. Sentir o gosto e o cheiro de ser um animal livre de qualquer preocupação social, apenas correr e ser livre. Hoje essa seria a idéia de paraÃso de muita gente.
Fui me aventurando pela internet e pelas bibliotecas sabendo que falar de literatura de lobisomens não é fácil. Não é como achar Bram Stoker em qualquer sebo ou megastore. Muita da produção escrita está fragmentada na internet. Há muitos textos trazendo os lobisomens com uma nova roupagem e nos livros há ainda a idéia clássica em muitos, mas isso já esta mudando. Por que os novos lobos ainda não chegaram na literatura nacional com força? Bem, digo por minha experiência. Uma editora dificilmente publicará um livro de lobisomens sem um vampiro como protagonista ou pelo menos um sanguessuga.
Muitos editores consideram o lobisomem um ser fora de moda. Algo que assusta crianças do interior e que não pode ser explorado comercialmente. Sangue e chocolate não tem vampiros e vendeu o que J. K. Rowling vendeu de Harry Potter. Será mesmo que lobisomem tem que ser condenado a viver na sombra dos “senhores das presas�
Fora do Brasil eles vêm crescendo no cinema e na literatura, mas aqui eles ainda são vistos com certo preconceito. Lobisomens têm uma coisa muito regional (o que é ótimo) e isso afastou a idéia que eles pudessem ser interessantes. Caçando arduamente achei ótimos exemplos de que o mercado está se expandido aos autores de lobisomens, pelo fato deles estarem voltando. Aos poucos algumas editoras já estão abrindo as portas aos uivos da meia noite.
Recentemente a antologia Metamorfose – a Fúria dos lobisomens (livro de que participo) me mostrou inúmeros autores com quem conversei por Orkut, MSN e Skype e que me levaram achar coisas maravilhosas. Existem muitos autores de lobisomens criando romances, contos e fazendo isso com originalidade, mas não tem espaço para mostrar, o que é uma pena. Vale à pena procurar na internet blogs e grupos de discussão sobre esse tema, eu recomendo uma olhada no blog de André Bozzetto.
Pouco a pouco a idéia de monstros regionais feios e doentes está saindo de cena e o lobisomem mitológico antigo está ressurgindo. O lobisomem tradicional faria inveja ao Lestat de Anne Rice. Na Romênia o lobo é tido como um ser sagrado e existem templos e igrejas antigas que acreditam que para se ter o melhor do homem era preciso ter o melhor do animal e vice-versa. Eu recomendo a leitura de bons autores nacionais que tem levado esse tema em seus livros com originalidade e não estão seguindo a fórmula de Underworld. Segue aqui um breve panorama dos destaques atuais:
Kizzy Ysatis em seu livro O diário da Sibila Rubra nos mostra seu lobisomem Thiago (Fausto) que é extremamente fiel ao vampiro Luar (Raul) e prova de seu sangue para ter imortalidade. Kizzy usa a vertente da lenda dos lobos que diz que nem todos se transformam propriamente em lobos. Os lobisomens de Kizzy têm caracterÃsticas de javalis, tigres e leão. O autor usou o tema “a revolução dos lobos†muito antes do filme.
Giulia Moon em seu romance multicultural Kaori – perfume de vampira nos traz os famélicos (o significado no dicionário é faminto). São mendigos largados pelas ruas que com cair da noite se transformam em cães selvagens e vivem de carne morta. São patéticos e não sabem falar, mas isso mostra não como uma regra. Ao longo da narrativa a autora mostra os famélicos como seres muitos perigosos que podem ter seus impulsos próprios. O que podemos ver em comum entre os famélicos e os lobos mitológicos é sua forma de comunicação: eles sabem quando estão perto de outros dos seus e quando alguns deles está ou esteve perto. Giulia recriou os lobisomens mais “ignorantes†de uma forma que passam a ser criaturas novas e fascinantes. Com certeza vão olhar os mendigos do centro com medo e respeito depois de conhecer os famélicos.
Helena Gomes misturou o que há de melhor nos HQs com paisagem que vão desde Hong Kong, Itália, França e, claro, Brasil. Em seu livro existem humanos com poder de se transformar em animais. O lobo é o personagem principal da trama. Wolfgang nos mostra o lobisomem sedutor. Aquele que fazia as mocinhas da antiga Romênia abanar o fogo em baixo das saias. Dono de um olhar penetrante e de um corpo forte ele traz um lobisomem que faria Jacob Black de Meyer se contorcer de inveja. Ele é o Ômega do Clã, ou seja, o lobo mais fraco. Helena trouxe em seu texto a referência homem-animal, que está se tornando uma tendência forte, antes mesmo de Lua Nova ser escrito. Isso mostra como o Brasil ainda está perdendo tempo não divulgando suas obras com o devido vigor.
Martha Argel é conhecida pelo romance Relações de Sangue e por escrever sobre vampiros como ninguém. Uma autora experiente que trouxe a mostra em seu conto “Mariana e o lobo†um toque psicológico ao personagem. Durante boa parte do conto o lobo conversa com a protagonista e com isso cria uma relação tão pessoal, que nos faz questionar a cada linha o quão ficção-realidade é. O lobisomem de Martha é mais etéreo. Seu conto mostra o “lobo em cada um de nósâ€.
Juliano Sasseron com suas Crianças da noite trouxe os lobos de RPG para as páginas dos livros de literatura com uma pincelada extra de poderes e atitude. Ele cria lobisomens gigantescos e poderosos que fazem os vampiros tremerem de medo. Seus lobos são protetores da natureza. São criaturas que lembram os espÃritos dos antigos rituais xamãs. EspÃritos protetores das florestas.
Leonardo Ragacini é autor de livros de fantasia. Publicou um livro de contos e poemas em 2009 e participa da antologia "Metamorfose - a fúria dos lobsiomens".






































