Chico Science
Você pode gostar ou não do Chico Science. Mas tem de saber que ele coloca uma pergunta interessante: quem é o fracote? Ao juntar maracatu e rock (e ciranda e coco e funk e hip-hop), ele não teve medo.
O medo, por exemplo, de Ariano Suassuna, seu conterrâneo, para quem Chico deveria se chamar Ciência, e desistir de vez de chegar perto do grande horror, o diabo em pessoa, a influência estrangeira.
Não foi o que Chico fez. Fez o contrário. O grande horror, o diabo em pessoa, parece dizer ele, é o tambor do maracatu – e o ritmo estrangeiro que se proteja dessa influência desagregadora, capaz mesmo de modificá-lo irremediavelmente. Modificar o rock, o hip hop. Não o contrário. Ou pelo menos, está bem, em partes iguais, ambos se modificando mutuamente e sem parar.
Parar. A ocupação Chico Science do Itaú Cultural acertou ao pôr o velho Ford do artista na abertura. E fazer desse veÃculo o suporte para a principal atração, um documentário com depoimentos e shows de Chico Science e das bandas a quem influenciou. É isso mesmo. A ideia é que o hibridismo não para.
Pois se não tem começo, como haverá de ter fim.
Maracatu, por exemplo, são dois. Um é o de nação, outro é o rural. O primeiro vem da mistura de várias tradições afro-brasileiras (pois é, meu branquelo leitor, a Ãfrica não é uma coisa só) misturadas com o portuga arabizado que aportou por aqui. O segundo tem tudo isso e mais uns chocalhos bem indÃgenas.
Quer dizer, esquece começo.
Ah, e tem mais, alguns instrumentos, como a alfaia, trazem um caráter nitidamente religioso (não me pergunte qual religião porque aà complica ainda mais). O instrumento precisa passar por um ritual de sagração antes de ser usado, e alguns toques só podem ser dados por quem de direito.
E agora vamos à s músicas. Umas são muito claras: falam do hÃbrido, do mestiço. Outras, as melhores, são isso, em vez de falar disso. Por exemplo:
Peguei o balaio, fui na feira roubar tomate e cebola.
Ia passando uma véia e pegou minha cenoura.
Ai minha véia, deixa a cenoura aqui.
Nada mais caipiramente maroto. Só que acompanhado de guitarra elétrica. E com aquela gravação distorcida, tÃpica do reggae jamaicano. Fica uma coisa assim meio de hoje e daqui, com vários ontens, todos aparentes. O inÃcio do grupo Nação Zumbi foi um encontro com o Lamento Negro, uns músicos de comunidade carente da periferia de Recife. Esse foi o principal “ontem”. E não sumiu.
Na época (anos 1990) falou-se também em herança Tropicalista. Mas o Tropicalismo tinha uma aderência à indústria de massa e o Mangue aderia à s pernas das pessoas. Usava a indústria e seus canais de divulgação, mas sempre com um “não” embutido. Por exemplo, não era bonitinho. Mas o Tropicalismo também está lá.
HÃbrido, segundo Herom Vargas, doutor em semiótica da PUC-SP e autor de tese sobre Chico Science, é o que vai incorporando o que pinta sem anular os estágios anteriores. Não para para fazer sÃntese. Segue em frente.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.


































