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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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09/02/2010

Wonderland: ações e paradoxos

No final do XIX-início do XX, surgiam na literatura ocidental romances sobre a vida e psicologia de jovens. Era a primeira vez que essa faixa etária tinha a seu dispor o ambiente agregador das escolas secundárias, dedicadas a ela. Essas escolas, na época, se propagavam pelo mundo inteiro.

A experiência descrita era sempre uma experiência grupal. Claro, os eventuais atritos edipianos e tal. Mas eram nas gangues, e nas tensões entre seus membros, que Vargas Llosa, Joyce, Thomas Mann ou Cocteau se faziam.

A adolescência continua em voga, mesmo sem esse nome – já que expandida para outras idades. As experiências grupais não.

A exposição Wonderland: ações e paradoxos, do Centro Cultural São Paulo, é de solitários que enfrentam angústias de uma assertividade adulta que parece lhes escapar.

Fica parecendo uma homenagem engraçada e involuntária à morte de Salinger.

São dez videomakers.

O finlandês Antti Laitinen trouxe seu Voyage. É o artista, solitário, remando um barco/ ilha onde só cabem ele e uma palmeira fake. Viaja por um oceano sem fim nem ninguém.

A mineira Marilá Dardot escreve e apaga palavras sem cessar. As palavras são verbos, portanto representam ações que são assim abortadas. Temos Repensar, Liberar, Perceber, Afirmar.

A argentina Laura Glusman trouxe seu Nado y nada, de 2004, onde uma jovem nada sozinha por um rio. Como a câmera se mexe à mesma velocidade, a impressão é que ela não sai do lugar. Acho que me lembro da mesma sensação em idades mais tempranas.

Cinthia Marcelle vai para reflexões metafísicas. Em seu vídeo, uma escavadeira faz sem cessar um percurso em forma de oito deitado, símbolo do infinito. É filmada de longe e do alto – o que põe em relevo a questão de escala.

Kika  Nicolela acende e apaga fósforos que iluminam por alguns segundos seu rosto, em uma identidade que nos foge – e a ela.

Renata Padovan desenha na paisagem traços que ela não consegue manter por muito tempo. Seu instrumento é uma gelatina pouco consistente.

Rodrigo Castro se dedica a achatar uma garrafa de leite com um ferro quente de passar roupa. Nem tudo tem utilidade prática, nessa idade em que a vida ainda não tem utilidade prática.

Lais Myrrha observa as horas passarem sem que ela possa mantê-las, como parece desejar, em seu momento presente: os números do relógio, por mais documentados que sejam, sempre mudam.

Adriana Aranha quer tudo. Mais precisamente todo o café do mundo. Mas não consegue. E Paola Junqueira tenta fazer o inverso, tenta retirar toda a água do mundo, ou pelo menos de um rio, e também não consegue.

Perto dessa exposição, ainda no Centro Cultural, há outra. E dessa eu gostei muito.

O também videomaker Luiz Marchetti, de Cuiabá, expõe sua instalação de diversos monitores, chamada “A poética dos pequenos furtos”, de 2009.

Ele dá continuidade, curiosamente, à mesma temática adolescente de seus vizinhos de salão. Aqui, jovens que furtaram pequenos objetos se exibem com eles, dançando e fazendo caretas. Cristi roubou inúmeras toalhas de um hotel. Rui roubou óculos Gucci de uma ótica carioca. Daniela roubou shorts muito grandes de um mercado em Londres. Pat roubou algo com a grife Saint Lorent. Roberto roubou dois pares de sutiã de um brechó de velhinhas. Sérgio roubou um calção de outrem em um vestiário masculino.

O engraçado é que nada é muito útil, nem fica particularmente bem na cara ou corpo do ladrão. É uma brincadeira infantil. Mas ao misturar marcas famosas e artigos de segunda mão, lojas caras e brechós, o artista acaba mostrando que adolescente é o consumo.

Os jovens ladrões de Luiz Marchetti também agem e se exibem sozinhos. Mas, por serem muitos, trazem de volta, ainda que de forma imperfeita, a experiência de grupo que encantou outros criadores, em outros tempos.

 


Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.

Wonderland: ações e paradoxos



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