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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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21/02/2010

Os dias da peste, de Fábio Fernandes

O cinismo

Sou um leitor cínico, o que se reflete no meu trabalho como crítico. Hoje em dia, estou mais interessado no que posso tirar de um livro do que naquilo que o livro tem por si só a me oferecer, e isso tem um motivo prático e não ególatra. Quando um original está na gaveta, seja na escrivaninha ou na pasta do computador, pertence apenas ao escritor e a mais ninguém. Sua lógica, entrelinhas e significados ocultos são interpretados pela pessoa que os constrói, garantindo a eficiência dos dramas e a risada no fim das piadas. Se isso não acontece, o escritor aperta o delete e começa o processo novamente.

Quando um livro é editado e efetivamente lido ele passa a ser 50% do leitor e as entrelinhas mudam de contexto, pois dependem da bagagem de cada um que conferir suas páginas. Nesse ponto, s dias da peste é um livro arquitetado em camadas, e o leitor apreciará momentos distintos de acordo com o grau de proximidade com o autor. É um terreno explorado na literatura do cotidiano com muito sucesso e que tem minha simpatia desde sempre. O novo livro de Elvira Vigna – Nada a Dizer – e o livro de Ivana Arruda Leite – Ao homem que não me quis – que resenhei recentemente estão aí que não me deixam mentir. Brincar com a verdade literária – por definição uma mentira – é fonte eterna de boas narrativas. Graças aos meus 50% nessa leitura, ou melhor, por ter algum contato com o autor Fábio Fernandes, pude identificar influências pontuais de sua própria vida na vida do protagonista Arthur, um representante do homem cercado de apetrechos tecnológicos, se não conectado biomecanicamente ao seu entorno, mais do que interligado psicologicamente a ele.

“Mas não tenho muito o que comemorar: o excesso de trabalho na empresa se transformou subitamente em seca, porque ninguém está conseguindo resolver os problemas dos computadores e parece que os usuários finalmente estão percebendo isso. A universidade ainda não pagou o salário do mês passado e já estou no cheque especial – que está ficando cada vez mais difícil de utilizar, porque ninguém está aceitando cheque de papel.â€

Antes de continuar, ressalto que não é preciso conhecer o autor para entender o livro. Não tenho contato com Ivana Arruda Leite e isso não me impediu de identificar nem de me divertir com os pontos tangentes entre real e imaginário apresentados em sua história. É um tempero extra numa trama bem contada e não o ingrediente principal. O mesmo vale para Os dias da peste. Confie nos seus 50%. O autor confiou nos dele.

Já que o tema aqui é cinismo, Arthur é um belo de um cínico. Encantou-se e desencantou-se com o advento dos blogs, reuniu anotações em papel e mais tarde passou a registrar tudo em um podcast gravado em tempo real no aparelho pendurado em seu ouvido. Bem, talvez eu esteja exagerando, mas o importante é entender que a necessidade de registro de Arthur é também a nossa, que se dá em blogs, e-mail, orkut, facebook, sms e outros mil sites numa tentativa de gritar eu existo! e, quem sabe, driblar a mortalidade.

É justamente com o grito de eu existo! dos computadores que o livro começa.

A sátira

Os dias da peste é uma sátira aos velhos tempos que ainda não vivemos. Boa parte da trama se passa ali na curva da história, em uma época ligeiramente para trás, ao mesmo tempo presente e mais à frente no futuro. Porque nosso hoje é um pouco de tudo misturado, ele é retrô, estagnado e hiper-realista. É um futuro que sim, chegou, não do jeito espetaculoso que previam nos filmes, mas de um jeito sorrateiro movido a marketing e produtos onipresentes em nosso cotidiano. O aspirador de pó só não fala porque ele não precisa.

Arthur é professor universitário e técnico de computadores. Como todo bom técnico, ele vive do desespero alheio. Basta você começar a arrancar os cabelos para ele ter o que fazer. Esse nível de desespero aumenta quando os computadores parecem enlouquecer de vez e não querem desligar nem com o fio arrancado da tomada. A primeira suposição, claro, é a de um vírus com potencial de infectar qualquer máquina conectada à Internet. O monitor passa a exibir frases personalizadas baseadas nas informações contidas no HD. Se você é um daqueles navegantes que adora sites pornôs, já pode imaginar o tipo de mensagens que seu computador exibiria. Para evitar o problema, basta permanecer desconectado… e morrer de tédio. A segunda suposição, que logo se torna uma certeza, é bem mais interessante: as máquinas estão conseguindo se comunicar, e os humanos chatos que as criaram precisarão conviver com isso.

“O que mais me chateava na IC às vezes era seu excesso de pedantismo. Eu o comparava a um adolescente nerd que acabou de entrar na faculdade e não só se acha, mas se tem certeza. E o pior é que quase sempre o nerd tem razão. O que não o torna menos irritanteâ€.

Revirando meus arquivos neuronais, me veio em mente uma série da Marvel chamada Marvels (acho eu) em que a existência de super-heróis no mundo é mostrada no ponto de vista das pessoas comuns, explorando questões como medo e deslumbramento diante das improbabilidades da vida. Depois de ler a série, genial, abandonei o mundo dos super-heróis.

Os dias da peste adota uma tática parecida ao filtrar o caos político-social pelos olhos de Arthur. O mundo mudou, as máquinas – chamadas de Inteligências Construídas – tem representação até na ONU, mas a vida de Arthur continua um tédio profundo, as contas continuam vencendo no fim do mês e arrumar dinheiro para pagá-las dá um trabalho do cão. A vida de técnico está uma bagunça, a universidade foi para o buraco (quem vai querer ir para a aula com computadores ajudando no ensino em casa?), Arthur continua acima do peso e sem namorada.

Eu que tenho síndrome de Manoel Carlos e gosto de desfile de personagens senti falta de mais interações de Arthur com humanos. Eles estão lá, mas pela opção narrativa de notas-blog-podcast, nunca conseguem ganhar corpo (sem trocadilhos) como o do personagem (gordinho) principal. O deuteragonista que mais se aproxima de Arthur em termos de consistência é, ironicamente, sua IC pessoal. Ele é mais sólido do que qualquer outro. A relação de confiança e desconfiança que existe entre os dois é uma das boas sacadas do livro. Até que ponto é saudável confiar em uma inteligência artificial? O que é bom senso e o que é pura paranóia?

A consciência

E tem o Sant’anna que é a voz da consciência de Arthur e do autor. Sant’Anna é um escritor premiado que foi professor de Arthur em uma oficina literária. Se uma alusão ao Sérgio, vale comentar que não é meu autor nacional preferido, Vôo da madrugada possui alguns contos muito inocentes para quem tem tanto chão, mas que sempre cumpriu com seus livros o papel de entreter este leitor. E uma consciência que nos entretém enquanto nos espezinha soa interessante o suficiente para mim. Nos encontros de Sant’Anna e Arthur nos bares da vida ou em sua casa, ele vive lembrando ao protagonista que máquinas não são gente, pondo em foco o preconceito de via dupla entre literatura do cotidiano e literatura fantástica (no caso a ficção-científica) e dizendo que gente não deve desistir de seus sonhos, o que levanta por tabela a velha lebre do “Do android dream of electric sheep?†na etapa inicial do que seria uma grande transformação na convivência entre homens e máquinas.
Sant’Anna diz ao personagem e ao autor que nunca é tarde para voltar a escrever e que revirar gavetas e blogs pode ser o começo de um bom livro. Ele está lá, com seu mau humor, uma consciência rabugenta, provocando Arthur até que este tenha vontade de xingá-lo, exatamente por saber que ele nunca o fará. Quando Arthur resolve dizer no way, babe, e esgota os argumentos, a consciência se cala pedindo por um café.

“Sant’Anna era o professor. Ele já era famoso nos meios literários, mas nunca foi uma celebridade, não dessas do tipo que vivem nas revistas de fofocas ou nos talk shows da TV. O que acabou sendo ótimo para nós alunos, porque ele não era um sujeito arrogante. Bom, pensando bem, arrogante ele era (…)â€.

É exatamente quando Sant’Anna aparece velho e cansado na porta do apartamento e Arthur percebe que os ídolos humanos não são eternos nem por meio da literatura que a IC de Arthur progride de seu papel de diabo no ombro para uma voz na consciência propriamente dita. A IC, essa sim, tem em si a possibilidade da eternidade se superada a incompatibilidade de hardware entre máquinas e humanos, nascendo aí o embrião do tão falado pós-humanismo.

Que venha mais uma parte da saga desse tecnoxamã, que técnico de informática é coisa do passado.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Os dias da peste, de Fábio Fernandes



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