Cresci ouvindo que a Mona Lisa era a obra de arte mais bela e famosa do mundo. Lembro que quando criança, muitas vezes me surpreendia pensando a respeito e perguntando-me: Por quê? Para mim, aquela imagem não passava de uma cara pálida com cores mortas… Tenho consciência que minha interpretação daquela época refletia meus repertórios, o que pressupõe que nossas visualidades são culturalmente construídas (Martins 2007a).
Tempos depois, há cerca de quatro anos atrás, ao ler o jornal O Globo, deparei-me com uma matéria que me fez dar gargalhadas por lembrar da situação que vivenciava na infância. Reproduzo abaixo o texto que marcou esse incidente.
Tentemos imaginar essa cena: num dia qualquer, em agosto de 1911, um modesto vidraceiro italiano entra no Museu do Louvre, em Paris, e furta a Mona Lisa (até então uma pintura renascentista mais ou menos conhecida do público em geral). Durante dias, por mais inusitado que isso possa parecer, ninguém deu pelo sumiço do quadro, atribuindo sua remoção a uma simples manutenção. Uma vez acionada, a polícia francesa inicia suas investigações, mas ironicamente ignora o culpado (que já trabalhara para o museu) acreditando tratar-se de um roubo genial, que só poderia ter sido realizado por um verdadeiro Da Vinci do crime. Pois bem, dois anos depois, o vidraceiro tentou vender o quadro e acabou sendo denunciado, voltando a pintura para o seu lugar de origem. Para completar essa história sui generis, no período em que a pintura esteve desaparecida, milhares de pessoas se acotovelaram no museu para contemplar a parede vazia. Sim… Foi exatamente isso o que aconteceu, embora não pareça fazer qualquer sentido. Desde então, o quadro de Leonardo da Vinci tornou-se a obra de arte mais famosa do mundo (SCHÖEPKE, 2006).
Engraçado que senti-me aliviada com a matéria. Foi como reconhecer que não estava ‘louca’ por não concordar com tal fama. A propósito, nada contra Leonardo da Vinci, ao contrário.
Refletindo sobre essas questões, cheguei à conclusão que, muitas ‘verdades’ são naturalizadas como ‘corretas’ e ‘universalizantes’. Desde muito cedo, o nosso olhar é condicionado – e por que não dizer formatado – a essas verdades. O que esquecemos, na maioria das vezes, é de pararmos para pensar sobre ‘quem estabelece’ o modo correto de julgar ou interpretar obras de arte.
Dito de outro modo, o julgamento que é destinado a obras de arte muito tem a ver com relações de poder. Será que a Mona Lisa, teria o mesmo impacto social se tivesse sido pintada por mim? Ou ainda, se nunca tivesse sido roubada?
O adestramento que nosso olhar, geralmente, desde cedo é submetido, parece não dar vez à possibilidade da existência de múltiplas perspectivas de visão. Isso não denota necessariamente nossa posição de vítimas perante o sistema, mas, sobretudo, a necessidade de uma educação orientada para tais questões.
É preciso, mais do que nunca, descronstruirmos essa visão romântica que até hoje parece perdurar perante as obras de arte. Visão esta, tendenciosa a recrudescer o “(…) etos das belas artes (…)” e a fazer “(…) vistas grossas às mudanças decorrentes da perda do estatuto ontológico da arte (…)” (MARTINS, 2007b, p. 69).
MARTINS, Raimundo. A cultura visual e a construção social da arte, da imagem e das práticas do ver. In: OLIVEIRA, Marilda (org.) Arte, educação e cultura. Santa Maria: Editora da UFSM, 2007a, pp. 18-40.
MARTINS, Raimundo. Porque e como falamos da cultura visual? Visualidades – Revista do programa de Mestrado em Cultura Visual. Goiânia, v. 4, n. 1 e 2, pp. 65-79, dez. 2007b.
SCHÖEPKE, Regina. Roubo de obra famosa inspira reflexão sobre o olhar. O Globo. Rio de Janeiro, 28 jan. 2006.