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Adorno deu um ultimatum: ou a arte sustentava seus elos com o mundo cá fora ou defendia até a morte sua autonomia. E por morte ele queria dizer isso mesmo: a morte da arte, ou pelo menos de sua eficácia, depois de cortado o oxigênio que por cima dela sopra nossa humilde labuta do dia-a-dia.

Teatro da despedida #1 – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás É desse fino fio que fala Tatiana Blass no seu excelente Teatro da despedida, na Galeria Millan.

São três objetos e 11 telas, a maioria delas de grande formato e com uma subdivisão, o Teatro para cachorros e aviões.

No título dessa subdivisão já o escopo abrangido: o muito potente, o grande, o que paira lá em cima. E o furreca, o sujo, o viralatismo de nossa vida diária.

E aí não é nem o caso de ir mais para trás ainda, antes de Andorno. Saussure. Porque o homem que primeiro pensou a linguagem em termos de estrutura e relação, e não de eventos isolados, também já havia dito: a ligação entre uma coisa e outra é arbitrária. Falou arbitrária. Podia ter dito ficcional.

Blass fala de seu difícil ofício. Vamos começar combinando: o que achamos que é a realidade, o objetivo, é uma construção (uma concordância parcial, por assim dizer) coletiva na qual nos inserimos mal e mal. E só não caimos no mais ridículo solipsismo porque fazemos sem parar uns cálculos estatísticos de probabilidade. É provável, ou improvável, que aquilo que estamos vendo possa ser visto de uma forma mais ou menos parecida pela pessoa ao lado. Haveria então algo além daquilo em cada aquilo visto. E esse algo além – além dos cacoetes e maneiras individuais ou, já que o campo é arte, estilo – seria então o que chamamos de realidade, objetividade ou até mesmo de verdade. O algo além, o algo compartilhável. Quer dizer, talvez compartilhável.

Então, em linguagem de linguista, a arte (ou a linguagem, qualquer uma) teria sua contingência a cada manifestação e, também, algo extra-contingência. Teria uma relação de auto-referência, de cognição fechada, e uma relação de alo-referência, em que entraria uma semiótica imprecisa, flexível.

Blass questiona essa simpleza ao reposicionar sua arte em terreno bem menos estável e, portanto, epistemologicamente bem menos conservador.

Seus cachorros derretem. São de parafina, não sobreviverão ao fim da exposição.

Suas pequenas figurinhas pintadas sossobram embaixo de uma tinta posterior e aleatória, não-significante. Essas talvez sobrevivam um pouco mais.

Coxia (detalhe) – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Quanto menos dorme, quanto menos sono há – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Embora – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás Sua até sumir; sua carne – fotografia de Elvira Vigna para o Aguarrás

O que diz Blass é que a arte não pode mais escolher entre sua autonomia e sua referência. Está à beira da morte, essa arte. Há um tempão. E enquanto não morre, fala dela mesma e, de quebra, de todos nós – incapazes, nós também, de fazer essa escolha entre brecar um ‘real’ que nos passa ou delirarmos todos mais ou menos juntos, em um tempo não-temporal. No quadro, o aviãozinho que já passa e o outro que ainda vem, desde o fundo da tela. O cachorro que quase vira a esquina, mas ainda não vira. O cachorro e o homem que estavam lá inda agorinha, antes de uma pincelada sumir com metade de seus corpos.

Blass coloca textos em suas telas e eu também gosto imensamente disso. Gosto de textos. Adoro textos. Acho que textos, que até há cinco minutos, eram uma coisa tão antiga, são desde esse nanossegundo de agora, o que há de mais atual. Nada mais atual do que textos. São algo de pós-morte, os textos.

Um deles:

Não sabia se era pela vontade da despedida ou por simples covardia. Ir embora, sem dúvida ou acerto, meio a meio. Talvez fosse o fim esperado, a vingança programada, a saída definida. Mas não foi assim que foi, ir embora seria muito adequado. Por isso permaneceu ali, ainda quieto, num silêncio desbotado.”

Comecei com Adorno e Saussure. Para não perder a embocadura de nomes lustrosos, ataco de Habermas. Ele concorda com Blass. Diz que a vida insossa, cuja contingência mata a arte com sua presença e também com sua ausência, é visão que merece reparo. São duas faces de uma mesma moeda. Moeda no latu. Latim, pípol, não é o latido do cachorro do quadro. E, sim, também no seu sentido strictu. Pois Habermas já falava, em coro com seu mestre e amigo, o Adorno, que o interesse tudo rege. Mas, juntas ambas as coisas – vida e arte – estariam obrigatoriamente, ele garante. A radicalidade da experiência artística compensa a pobreza da experiência não-artística (ou, vamos ser caridosos, a pobreza da experiência não criativa). A gente racionaliza as coisas e vai levando. Ou, em linguagem mais douta: “A negação (da vida) íntrinsica na arte é fruto de sua resistência à assimilação a tudo que for habitual ou pré-interpretado. Mas a trivialidade só poderá ser quebrada por uma negação que mantenha de algum modo um ponto de contato com a vida mundana – que é o que libera as forças necessárias para a renovação de um estado de comunicação sempre ameaçado pela entropia.

Voalá.

Mas fino fio it is. Blass faz referência, com seus cachorros, ao cachorro que Guillermo Vargas Habacuc deixou morrer de fome e sede dentro de uma galeria, em 2007. O costa-riquenho achava que fazia arte ao repetir um viralatismo que era o dele, artista. (A lembrança dessa referência foi de Carolina Vigna-Marú, a editora do Aguarrás.)