Pegar um quadrado de ar e transformá-lo em um espaço humano será sempre um ato político. Quem faz isso é arquiteto – e os há mais e menos lúcidos. O arquiteto Gabriel Borba vai mais longe. Ele questiona o quadrado.
Sua exposição se chama Papéis: caminhos do visível, na Casa Galeria. Dava para começar falando de papéis – 1) matéria fibrosa amorfa de origem vegetal que, ao ser reduzida a quadriláteros finos e flexíveis, serve para escrever, imprimir, desenhar, embrulhar, limpar e construir; 2) representação de funções teatrais ou sociais pré-estabelecidas e identificáveis.
Depois de papéis, iríamos para caminhos – e suas linearidades sempre arbitrárias. E terminaríamos, sob aplausos, com a última palavra do título: visível. Explicitaríamos então tudo que não o é, justamente por escapar a estruturas compreensíveis de antemão.
Mas acabo de ler um comentário sobre o conto Entropy, de Thomas Pynchon, e é por aí que vou.
No conto, uma festinha do balaco quebra a ordem de um edifício. No final, a janela quebrada do apartamento mais ordeiro sugere que o fechamento daquele sistema de vida acabou. Seus habitantes terão de passar a conviver com uma energia vinda de fora, não ordenável, não estabilizável: a da cidade.
Na exposição, as coisas se dão de forma menos alegórica. Borba, eu já disse, questiona o fechamento, o quadrado. Faz isso obrigando esse quadrado a se apresentar de três jeitos diferentes. Três. Não dois. Dois, e ele recairia em esquemas binários dos quais o mundo não está cheio de fato, mas bem que gostaria.
Seu quadrado é o campo espacial de um ato artístico já executado; é a representação de outras espacialidades – artísticas ou não; e é um espaço de potencialidades, não finalizado, aberto a novos atos artísticos ou não (embora, em uma galeria, qualquer ato se inclua no artístico).
Em uma série sem título, o papel branco é furado, tal como a janela de Pynchon. Essa destruição ocorre no meio, no que a racionalidade catalogadora chamaria de centro. E vem em forma de incisões em elipses perfeitas, ângulos retos, círculos, linhas paralelas. A ordem é o que destrói. Por cima, a desordem que constrói, no gestual, no impulso sem lei ou plano de um lápis ou do nanquim. O quadrado do papel é obrigado a incluir o que está por trás dele. Suas possibilidades de ordem são desmentidas. Sua forma também. Assim como sua utilidade pragmática. Enquanto isso, a potencialidade de mais traços ou acidentes continua.
Em outra série, os nomes são nomes de água, esse estado da matéria tão pouco afeito a comportamentos sistematizáveis, tão próprio a transformações de energia: Cachoeira, Lagoa, Chuvisco, Garoa.
Falei aí em cima daquilo que a racionalidade catalogadora chamaria de centro. Em Face, uma impressão estourada de um rosto, há uma linha em branco que o divide pelo meio exato. Exato? Só se você cair no hábito de ordenação, porque rostos são sempre muito bons para destruir ilusões de simetria.
A obra Branco te deixa inseguro quanto a qual quadrado você deve privilegiar, e que pode incluir o quadrado por onde você anda. A obra Olhar também: para onde você deve olhar, se o quadrado inclui a parede, se o caminho da tua visão segue um barbantinho que atravessa, real, concretíssimo, um, ahn, papel fotográfico que representa outro espaço que representa… deixa pra lá. Em Ordem, o humor do arquiteto, ao agrupar pessoinhas/pinceladas em umas poucas células de seu papel quadriculado. A série Garatuja são telas também das mais concretas, de fibra grossa, onde estão pintadas outras telas, que…
Quer ordem? Quer sistemas com organização interna compreensível? Eis um para você:
Des’que Dada Desse
Desse Dada Deus
Desdeu Dada Dedos
Dada Deu
Ssshhhiii Pla!
Dado Diabo
Dada deu
Ou qualquer outro universo fechado, auto-regulado, com a letra de sua preferência.
(Esse se chama Em D, e está bem na entrada da galeria. Mais um sorrisinho.)
O caso é que a quebra da ordem, ou imprevisto, ou entropia, diz Borba, é o que de fato cria. Ou revoluciona.



