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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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22/03/2010

Entrevista com Rodrigo del Arc

01. VocĂȘ comentou no Ășltimo pocket show que trabalhava de manhĂŁ, estava ocupado a tarde e sĂł de noite conseguia parar para compor. Como foi o processo? VocĂȘ criou um cantinho Ă  parte de tudo para trabalhar suas mĂșsicas ou a adrenalina do dia ajudava de alguma forma?

Em 2007, quando estava compondo o disco que viria a ser o “A KIND OF BOSSA”, a minha vida estava virada de ponta-cabeça. Tinha perdido meu pai inesperadamente e tive que arrumar um trabalho fixo rĂĄpido para poder ajudar em casa. NĂŁo foi nada fĂĄcil, e realmente trabalhei demais naquele ano, incluindo folgas e feriados em que eu arrumava uns comerciais de TV para fazer. Lembro que no ano nĂŁo trabalhei apenas 7 dias, sendo que em um destes dias eu fiquei bastante doente. Foi uma situação nada agradĂĄvel para mim, pois, alĂ©m de tudo, eu queria dedicar todo o meu tempo para a mĂșsica e nĂŁo podia. O tempo livre que sobrava para a mĂșsica era quase sempre no perĂ­odo da noite.

Eu, na verdade, acho difĂ­cil separar um cantinho Ă  parte do dia para compor, porque na maioria das vezes as ideias vem quando paro um minuto para descansar. EntĂŁo foram incontĂĄveis madrugadas em que eu ficava acordado junto com os meus parceiros, Edu e Nick, para compor, arranjar e produzir as mĂșsicas. Quando a inspiração nĂŁo vinha, a gente dava uma volta no centrĂŁo de SĂŁo Paulo. A gente falava de arte, conversava, tomava um cafĂ© (e quantos cafĂ©s a gente tomou!), muitas idĂ©ias surgiam assim, no meio de uma conversa, daĂ­ a gente pegava o violĂŁo e corria para o computador para gravar tudo!

02. E como foi encontrar brasilidade nessa mistura de sonoridades que Ă© o A Kind of Bossa? VocĂȘ sentou jĂĄ sabendo o que queria fazer ou foi definindo o som aos poucos?

A sonoridade do disco foi se definindo aos poucos, nĂŁo estava preocupado em ficar preso a um Ășnico estilo, ou a “estilo” algum. Acho que a brasilidade vem das minhas influĂȘncias e dos ritmos brasileiros que me fascinam. O Brasil tĂĄ no swing e na “malandragem”, no bom sentido da palavra, Ă© claro. No começo atĂ© estranhava algumas misturas, depois fui acostumando e acreditando cada vez mais no que estava fazendo. Isso foi se definindo pela emoção, o termĂŽmetro era o simples fato de eu estar curtindo ou nĂŁo. Acho que mĂșsica pode ser feita assim; a sua emoção Ă© o que determina o que vai ficar e o que nĂŁo vai ficar numa mĂșsica.

03. Ouvi da minha irmĂŁ no Rio a mĂĄxima que “Ao vivo o Del Arc faz todo o sentido”. Aqui em SĂŁo Paulo tive uma impressĂŁo parecida, de que o som do cd, os vĂ­deos no youtube, as tuitadas com os fĂŁs, tudo isso se soma num crescente ao vivo, numa energia diferente. Como vocĂȘ vĂȘ essa relação do som do artista apresentado no cd e do som feito ao vivo?

Eu realmente me emociono muito cantando. Quando estou no palco, quando eu canto, eu estou tentando dizer alguma coisa, quero passar uma mensagem e sentir cada palavra da letra. Quero estar integrado na mĂșsica, junto com ela, vivendo ela.

No CD “A Kind of Bossa”, procurei deixar tudo do melhor jeito possĂ­vel para que todos os elementos na gravação conversassem entre si, que fizessem um sentido. Junto com os meus produtores Nick Gutierrez e Edu MaranhĂŁo, sem pressa, cuidamos dos mĂ­nimos detalhes, atĂ© por isso trabalhamos por quase 2 anos atĂ© finalizar o disco. Esse tempo Ă© muito especial e precioso, um privilĂ©gio. Agora, por mais que o CD seja feito com muito carinho e cuidado com os detalhes, nada se compara com a emoção de viver as musicas ao vivo. No show, eu consigo olhar para a plateia e sentir a reação das pessoas. As energias se somam com as de quem estĂĄ assistindo, a interação Ă© maior. O mais legal de um show Ă© que um nunca serĂĄ igual ao outro.

04. Tem conseguido abertura que esperava? Ou o fato de cantar em inglĂȘs exige uma etapa extra de convencimento das pessoas?

Acredito que estou tendo uma abertura atĂ© maior do que esperava, principalmente no Brasil. Às vezes o inglĂȘs exige sim uma etapa extra. As pessoas precisam sentir mais do que nunca as palavras. Eu vejo isso como um incentivo para me entregar cada vez mais.

05. Fale um pouquinho do contrato no JapĂŁo. Quais sĂŁo as expectativas em torno?

Fui muito bem recebido no JapĂŁo, e estou sendo bem divulgado pelo mesmo selo que trabalha com Milton Nascimento, Seu Jorge, entre outros grandes nomes da MPB. Graças a essa boa exposição, chamei a atenção de outro selo forte na CorĂ©ia do Sul. Vou lançar o disco por lĂĄ tambĂ©m entre abril e maio com 3 faixas extras: uma releitura do clĂĄssico “The Look Of Love”, do grande compositor Burt Bacharach (letra de Hal David), e duas versĂ”es da faixa 5 – “Trip”, remixadas pelo YUBABA que Ă© uma dupla mineira de DJs que estĂĄ crescendo cada vez mais no cenĂĄrio eletrĂŽnico internacional. Estamos na expectativa de ficar mais conhecido por lĂĄ, e futuramente levar o nosso show para a Ásia toda, representar o Brasil e a nossa mĂșsica. Acho que muitas coisas boas devem acontecer este ano por lĂĄ.

06. Como vocĂȘ usa ferramentas como Mypsace e mĂ­dias sociais para divulgar o seu trabalho? Elas realmente fazem a diferença?

As mĂ­dias sociais, como o MySpace, jĂĄ sĂŁo ferramentas bĂĄsicas para o artista de hoje. Eu quero ficar perto dos meus ouvintes, e as pessoas tambĂ©m querem ficar cada vez mais prĂłximas dos artistas. NinguĂ©m quer mais aquele artista enlatado que sĂł se via na televisĂŁo. As pessoas querem mais interatividade, querem participar da carreira, querem fazer parte. E de fato, fazem parte. A conexĂŁo que existe entre o pĂșblico e artista hoje Ă© muito mais prĂłxima do que era hĂĄ 15 anos. Graças Ă  internet esse contato ficou direto, e eu quero ficar por dentro de tudo isso.

07. Para fechar, que mĂșsica vocĂȘ sugere como primeiro passo para quem quer conhecer o seu trabalho? Por quĂȘ?

Pergunta difĂ­cil para mim
 Acho que os sambas “Slip Into Precision” e “The Question Song”. A primeira porque ela abre o disco com uma mensagem: “As coisas boas e as coisas ruins da vida sĂŁo passageiras; viva seus sonhos hoje e acredite no amanhã”. A segunda porque ela aponta o dedo pra vocĂȘ e te diz: “Se vocĂȘ fugir dos seus sonhos hoje, amanhĂŁ eles voltam para te pegar”. NĂŁo adianta ter medo e fugir, seus sonhos sĂŁo o que vocĂȘ Ă©.

WE SHINE INSIDE THE LIGHT

 


Eric Novello Ă© escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Entrevista com Rodrigo del Arc



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