Piedade
“Então, eu cheguei lá.
Eles, sombreados na paisagem do ninho adúltero,
no interior da casa simples da Estrada Real da Piedade,
me esperavam… Ali, não houve piedade…
Nem minha, nem de ninguém”
Euclides da Cunha (in Piedade)
Não é de hoje que as paixões humanas servem de matéria inspiradora para artistas, poetas e loucos. Desde os dilemas existenciais clássicos, magistralmente transpostos para os palcos gregos, aos amores virtuais tão em voga nestes dias de aldeia global, os sentimentos humanos encontraram na representação encenada sua face mais verdadeira. E, dentre todos eles, a traição sempre figurou como a mais inevitável das fraquezas humanas. Seja escancarada, como o envolvimento pueril entre primo e prima, ou velada, concebível apenas na imaginação do amigo supostamente traído, ela deu margem à criação de obras memoráveis, representantes únicas de paixões efêmeras e tragédias anunciadas.
Assim é com Piedade, peça que comemora os 10 anos da Cia. Bendita Trupe. O espetáculo, com direção de Johana Albuquerque e dramaturgia de Antônio Rogério Toscano, apresenta o encontro póstumo das três figuras centrais do crime ocorrido em 1909 na Estrada Real da Piedade, no Rio de Janeiro, e conhecido como “A Tragédia da Piedade”: Euclides da Cunha, o famoso escritor da obra “Os Sertões”, Anna da Cunha, sua esposa, e Dilermando de Assis, o jovem amante de Anna.
Após retornar de uma viagem de autoexílio à longínqua Amazônia, Euclides descobre-se traído e abandonado por Anna e busca vingar sua honra indo armado ao encontro do amante, um jovem militar campeão de tiro, e da esposa. Na escaramuça, Dilermando o mata em legítima defesa, passando a ser permanentemente atacado pela opinião pública. Porém, mesmo após o escândalo da traição e da morte do escritor, Anna de Cunha, viúva, casa-se com seu amante, então absolvido do crime, gerando nova controvérsia que culmina com a morte de seu filho, Quidinho, também pela mão de Dilermando.
Durante o espetáculo, as três personagens ficam o tempo todo em cena, interagindo num cenário indefinido, uma espécie de limbo existencial, que ora evoca os pensamentos conflitantes de Euclides, ora traz à tona a aura de paixão proibida que envolveu os amantes. Neste lugar vazio, que é tudo e nada ao mesmo tempo, os três protagonistas se defrontam e se confrontam, Euclides buscando entender os motivos que levaram sua esposa a traí-lo; ela, lembrando-o da solidão de seu casamento, da casa vazia, de sua constante ausência e Dilermando tentando encontrar um lugar só seu, um canto vago entre os meandros da conturbada relação do casal onde possa situar sua paixão juvenil.
A peça vai se construindo à medida que cada um, sob um ponto de vista bastante particular, apresenta sua versão dos fatos que levaram à tragédia, num colóquio onde todos têm a chance de dizer aquilo que nunca foi dito, na tentativa de reconstruir sua imagem diante do outro. Assim, têm-se vislumbres dos momentos vividos por cada um deles, flashes de cenas, depoimentos, memórias e ressentimentos, fragmentos de cartas e diálogos que apresentam fatos e verdades que antecederam, culminaram e sucederam o famoso crime da Estrada Real da Piedade.
No papel de Euclides, o ator Leopoldo Pacheco abre o espetáculo apresentando o cenário geral da tragédia, suas motivações e o final trágico que o levou àquele lugar, numa espécie de inversão dos acontecimentos. Jacqueline Obrigon e Daniel Alvim, esposa e amante respectivamente, tem, em seguida, a oportunidade de também apresentar seus argumentos começando, a partir daí, um jogo de palavras em que cada um tentar mostrar para o outro a sua verdade dos fatos.
Enquanto Euclides para justificar-se se utiliza da desculpa do escritor atarefado que tem por obrigação apresentar o Brasil de verdade aos brasileiros que pouco ou nada conhecem dele, Anna se coloca no papel da mulher presente de um marido sempre ausente, que conhecia como ninguém “os entendimentos das letras e mapas, espírito pré-modernista que fizera os olhos de todo um povo se voltarem para o interior do país, para o homem forte até então sem voz nem vez, mas que jamais se empenhara em conhecer as linhas de seu corpo, as necessidades e anseios da própria mulher”. E Dilermando, por sua vez, questiona-se até que ponto estava errado em amar uma mulher casada, cujo marido achava-se ausente, sequer sendo lembrado por fotografias ou cartas.
A partir destes fragmentos, de opiniões não expressadas anteriormente e, portanto, desconhecidas antes da tragédia, o triangulo vai construindo um novo diálogo e, mais importante, vai se construindo, tecendo delicadamente uma nova relação. Aqui, as definições desaparecem; Euclides não é mais apenas um escritor, Anna, não se afigura como simples adúltera e Dilermando não é só o amante que matou com frieza. Não há julgamentos, culpados ou inocentes. Antes, há uma tentativa de compreensão, neste limbo existencial, daquilo que não pode ser perpetuado como equívoco, uma última tentativa de perdão e de entendimento entre este insólito triangulo amoroso.
Deste modo, cada um argumenta não para provar-se correto na atitude e obter a verdade final como prêmio de consolação, mas sim, para demonstrar uma outra vertente dos acontecimentos, livre da hipocrisia e do conservadorismo reinante da época, e apresentar possíveis novas imagens de cada um dentro desta perspectiva diversa.
Mais do que julgamento, a peça traz um olhar libertador sobre os acontecimentos que culminaram n’A Tragédia da Piedade, deixando para o público, cem anos depois, a tarefa de encontrar os motivos que os levaram a este fim.
Dramaturgia: Antônio Rogério Toscano
Direção: Johana Albuquerque
Cia. de Teatro Bendita Trupe
Rober Pinheiro é publicitário e escritor, formado em Comunicação Social pela PUC/SP e pós-graduado em Literatura Contemporânea.







































