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Globalização?! Bem, a definição é simples. Vejamos: temos o glo, que pode ser do inglês to go, que significa ir, junto ao bah, uma expressão gaúcha que significa “aprovação, alegria”, e lização, que é algo como alisar. Então, globalização significa: “um gaúcho viado que vai ser alisado e vai gostar!”.

NuConcreto (Circo Mínimo)


O circo sempre foi um lugar de encantamento e magia, onde tudo era possível para aqueles dispostos a acreditar. Trapezistas voadores, homens que desafiavam a morte encarando bocas escancaradas de leões ou o passeio vagaroso de um elefante, palhaços dispostos a acabar com a tristeza de qualquer um, mesmo que para isso tivessem que cambalhotear até ficarem tontos…

Dos circos mínimos da minha infância, com suas entradas a um real e bailarinas de formas arredondadas, aos shows tecnológicos do Cirque de Soleil, que minha pobre carteira ainda não tem idade para ver, a arte circense sempre evocou essa aura lúdica, trazendo para os 3,5 metros do palco toda a magia que não podia caber no nosso cotidiano banal.

Mas, como tudo na vida, também a magia do circo muda e, da inocência vivida nas longínquas tardes de sábado, restou apenas o picadeiro central e cinco trapezistas palhaços que, vestidos de estereótipos, se afiguram desagradavelmente parecidos conosco.

A eles se incorporou o teatro e, dessa mistura, saiu um dos melhores grupos de arte cênica da atualidade, representativo de ambas as vertentes: A Cia. Circo Mínimo. Fundado em 1988 por Rodrigo Matheus, a proposta da companhia era a de extrair os conceitos básicos que perpassam as artes circenses e inseri-las dentro de um espaço cênico, voltando-se à discussão de temas atuais. Ao longo deste tempo, o Circo Mínimo já produziu mais de 14 espetáculos, entre eles, Prometeu (1993), Deadly (1997), Ladrão de Frutas (2002) Road Movie (2006) Miranda e a Cidade (2008) e o último, NuConcreto, apresentado em curta temporada no Espaço Caixa Cultural em comemoração aos 20 anos da companhia.

O espetáculo foi livremente inspirado na obra “Por uma outra Globalização — do pensamento único à consciência universal”, do geógrafo Milton Santos e traz para o palco alguns de seus principais conceitos, transformados em imagens cênicas através do uso da técnica do Mastro Chinês.

O espetáculo, assim como o livro, aborda três aspectos da globalização tidos pelo geógrafo como o cerne dos problemas atuais: a globalização como fábula – aquela que é “vendida” como sendo a solução para todos os problemas da sociedade contemporânea, a globalização como perversidade – aquela que de fato acontece, gerando as consequências sociais que vivemos hoje, e a terceira vertente, uma outra globalização, a do dever ser, que é deixada em aberto para o público em forma de uma pergunta que necessita de resposta urgente, resposta esta que não será dada pelo grupo, ao menos, não neste espetáculo.

NuConcreto é absurdamente interativo e a todo o momento a plateia é forçosamente convidada a se mover de um lado para outro para evitar aviõezinhos de papel, bombinhas jogadas ao acaso, tintas, fogo, fumaça e torres móveis que ora revelam uma personagem escondida, ora adquirem contextos totalmente novos para dar vazão às peripécias do grupo. Esta eterna movimentação cria um link interessante com a rotina diária a que estamos submetidos/acostumados, mas que soa totalmente bizarra quando apresentada em sua totalidade.

Na “histótia” imaginada pelo Circo Mínino, cinco atores “personificam” arquétipos comumente encontrados em qualquer esquina de uma cidade grande. Desde o poderoso empresário, que traz na mão o controle de absolutamente tudo, passando pela fútil cria da classe média gerada pelo consumismo desenfreado ao pobre que, não tendo voz ou vez, tem que se virar como pode, a trama fragmentada vai se construindo à medida que cada um tenta se situar no meio deste caos previamente orquestrado. A cada nova cena o espectador/participante é convidado a, mais do que refletir, sentir-se incluído no meio de temas que tratam da influência da cultura de massa sobre a sociedade, ou do desejo desenfreado pelo poder e pelo dinheiro. Sente nos olhos e ouvidos as consequências da desigualdade e o quanto as ações isoladas são inúteis diante da passividade da maioria. Apesar de abordar tantos assuntos problemáticos, todo o espetáculo é perpassado por uma comicidade irônica, como se, no final, tudo não passasse de metáforas poéticas, de brincadeira de circo.

Além do inquietante sobe-e-desce dos atores, das torres móveis que não deixam ninguém em paz e das constantes interações com a plateia, a sonoplastia é outro ponto forte do espetáculo. Músicas fragmentadas, depoimentos (como o que abre esta resenha), questionamentos e respostas enviesadas, funcionam como complemento perfeito para a colcha de retalhos que, afinal, conhecemos há tempos, e que tristemente mostra como a grande maioria das pessoas está alienada em relação ao que está acontecendo no mundo.

No final, ninguém escapa ileso. Rico ou pobre, fútil ou engajado, todos somos vítimas da mesma máquina que segue imperturbável rumo à construção/destruição desta perfeita sociedade capitalista.

Uma cena digna de nota: durante todo o espetáculo, um mesmo produto — um cavalinho de brinquedo — é oferecido como item indispensável por diferentes representantes das camadas sociais. Cada um com seu valor e sua utilidade prática, dependendo do grado social em que se encontra o negociante da vez. No final, todos surgem novamente no palco, produtos em mãos, mas apenas o cavalo do “pobre” não tem cerca que o prenda ou destino que o guie. E, este mesmo cavalinho, numa interessante brincadeira dos deuses do teatro, caiu umas quatro vezes, sendo levantado pela plateia apenas para cair de novo, numa insistente busca por um caminho que, aliás, ninguém ali sabia qual era.

Talvez uma prova de que a arte realmente imita a vida e que, mesmo diante de tantas quedas, o pobre seja, dentre todos os arquétipos sociais, o único que ainda tem fé em continuar.