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“Pensei que não seríamos como eles, mas estava enganado. No início, queria saber como tudo aconteceu. Agora sei: os sentimentos surgem assim, de repente”.  Eis que passado uma hora do filme, o personagem aparece e diz uma coisa que, se não idêntica, é similar a essa.  O “eles” são os adúlteros, marido e mulher que traíram seus cônjuges. Mas que importa? A essa altura a traição não é importante, “eles” não são mais importantes. Só há “ele” e “ela”, os traídos, que mais uma vez eram traídos, não por outros, mas por si próprios, pelo que passaram a sentir um pelo outro, um amor tão sublime, tão sutil, tão delicado, que nada mais pode ser feito a não ser prender a respiração e torcer para que todo esse desencontro encontre um caminho feliz.

Há tanto delírio visual e sutileza em Amor à Flor da Pele que não penso em outra palavra se não sublime. Assim diz o meu gasto dicionário Houaiss: “superlativamente belo, esteticamente perfeito; grandioso, soberbo”. Pode parecer exagerado, reservo a cada um uma sentença. Para mim: sublime.

Não há beijos, cenas tórridas de carícias, brigas conjugais por uma evidente traição. Tudo está implícito, sem grandes hermetismos, Wong Kar-Wai, o diretor, nos mostra tudo isso sem escancarar nada, apenas se sabe, porque, como diz a protagonista a certa altura do filme: “notamos certas coisas quando prestamos atenção”.  É um close num encontro de mãos, a cabeça da mulher que encontra o ombro do homem na madrugada, uma única lágrima que escorre, um chegar atrasado e ver que o amor se foi…

Apresentado em 2000, o filme demorou 15 meses para ser concluído, sendo que tem pouco mais de 90 minutos. Obviamente, o perfeccionismo salta às vistas: uma cenografia e fotografia nostálgicas – o longa se passa nos anos 60 –, um figurino bem trabalhado – só  a protagonista deve trocar mais de 40 vezes de vestido. O que, aliás, é fundamental para a percepção de passagem de tempo na história –, além disso, a trilha consegue potencializar qualquer sentimento íntimo dos personagens, vide as canções em espanhol na voz de Nat King Cole ou o instrumental a cargo de Michael Galasso.

O tempo, ou melhor, a sua passagem, também é um dos pontos altos do longa. É um grande paradoxo: o filme passa de uma maneira rápida, quando vês, já acabou. Mas, o tempo interno da película escorre lentamente, com a sutileza que a construção do amor entre os protagonistas requer. Há muitas cenas em câmera lenta para reforçar esse tempo que captura todos os detalhes.

A chuva e a água escorrendo no chão são figuras constantes, reforçando a idéia de tempo como fluxo natural, como espera e não como a artificialidade de uma edição cinematográfica.  Lembra, por exemplo, a obsessão de Alain Resnais sobre as percepções de passado e passagem das horas, tanto que o filme termina com os seguintes dizeres: “Ele se recorda desses anos perdidos como se olhasse por uma janela empoeirada. O passado é algo que ele pode ver, mas não tocar. E tudo que vê agora está turvo e mal definido”.

Há rígidas convenções sociais. Um marido e uma esposa ausentes. Nunca vemos seus rostos, mas seus atos são o que aproximam os protagonistas. Da traição, o amor e um medo enorme de trair. O tempo passa, o desencontro chega, mas se sente que aquilo perdura. Há uma beleza enorme em tudo isso. O que é lindo em Amor à Flor da Pele é que se admite amar, sem dizer que se ama. Vê-se. Apenas, vê-se.

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