“Y lo vi alejarse, con una manzana en el bolsillo de la chaqueta y sosteniendo en la cabeza la letra U. La fruta es para que tenga algo que comer en el camino, pensé yo. Pero, ¿que le va a hacer com la U?
— Esto es para que te acuerdes de que un dia hemos de volver. Unidos, volveremos a vivir en una España sin guerras — me contestó desde lejos el vendedor de frutas”.
Teruel y la continuidad del sueño (El Bachín Teatro)
A Guerra Civil Espanhola (1936-1939), evento que colocou em lados apostos nacionalistas e republicanos, é tida, até hoje, como um dos episódios mais traumáticos que antecederam a 2ª Guerra Mundial.
Imortalizada na obra Guernica, de Pablo Picasso, a guerra pela manutenção da II República teve de um lado as forças do nacionalismo e do fascismo, aliadas as classes e instituições tradicionais da Espanha como o Exército, a Igreja e os grandes latifundiários e, do outro, a frente popular que formava o Governo Republicano, representando os sindicatos, os partidos de esquerda e os partidários da democracia.
Para a direita espanhola a guerra nada mais era que uma versão moderna das antigas Cruzadas Cristãs, cuja missão era livrar o país da influência comunista e da franco-maçonaria e restabelecer os valores da Espanha tradicional, soberana e católica. Para tanto, era preciso esmagar a República que havia sido proclamada em 1931, com a queda da monarquia. Em contrapartida, para a esquerda, era preciso dar um basta ao avanço do fascismo que já havia conquistado importantes países da Europa, como a Itália (em 1922), a Alemanha (em 1933) e a Áustria (em 1934).
E foi justamente esse enfrentamento ideológico que fez com que a Guerra Civil Espanhola deixasse de ser apenas um acontecimento de caráter eminentemente nacional e se tornasse uma querela de poder entre forças que então disputavam a hegemonia do mundo. Nela, envolveram-se a Alemanha nazista e a Itália fascista, que apoiavam o golpe do General Franco e, na outra ponta, a União Soviética, que se solidarizava com o governo Republicano.
Essa pequena aula de história espanhola serve aqui como amostra do cenário que se desenhou como pano de fundo para a encenação da peça Teruel y la continuidad del sueño, que o grupo argentino El Bachín Teatro apresentou durante a V Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, evento que aconteceu no Centro Cultural de São Paulo.
Mistura de elementos históricos e encenação teatral, a peça se passa em fevereiro de 1938, em Teruel, Espanha. A cidade acaba de ser recuperada pelos nacionalistas (partidários do General Franco), mas ainda restam alguns pontos de resistência republicana; tiroteios, escaramuças e combates isolados de pequena importância perduram como gesto de resignada oposição por parte daqueles que desejam livrar o país do poder opressivo do ditador Franco. Em meio a tudo isso, encontramos um casal de artista na frente de batalha dos brigadistas internacionais que se negam a abandonar a cidade, enquanto preparam um espetáculo para ser apresentado ao pintor Rafael Alberti, em Madri.
Mais do que tratar da guerra que assolou a Espanha, o espetáculo põe em relevo o papel destacado que artistas e intelectuais de todo o mundo tiveram durante o conflito e expande a questão deixando no ar a pergunta acerca da função da arte — e, por extensão, de seus criadores — como interventora em momentos de crise. A peça, narrada por um locutor posto fora da cena principal, acontece todo o tempo na sala do casal de jovens artistas. Lá, são discutidas as ações adotadas pelos combatentes e os rumos dos combates, tanto os falados quanto os armados, o abandono forçado dos lares por parte do povo em razão dos conflitos (como o vendedor de frutas da epígrafe), revividas lembranças dos tempos em que a arte era funcional e discutido o papel que eles, enquanto artistas, deveriam desempenhar, além de esboçados sonhos de um futuro em que os caminhos novamente serão pavimentados por uma paz duradoura e livre.
Enquanto os jovens fazem planos de burlar a guerra e levar a peça a Madri, o locutor segue narrando a história com o distanciamento típico da profissão. Até que, em certo momento, é interpelado por ambos os lados e posto literalmente contra a parede. A peça faz uma crítica interessante sobre partidarismos e neutralidade, evidenciando que uma vez que nenhum dos lados é escolhido, involuntariamente acaba-se favorecendo aquele que tem mais chances de vencer.
Durante o espetáculo, os atores ficam separados do público por uma malha semitransparente, onde são projetadas fotografias e gravuras que ora explicitam os planos de guerras e “a espera de nove tanques que nunca chegam”, ora falam das personagens e suas maquinações. Este recurso confere ao espetáculo um ar de distanciamento e, ao mesmo tempo, de clausura, como se os atores, trancafiados naquela sala pequena e separados do mundo (entenda-se, público) por aquela cortina que narra fatos imagéticos e histórias estáticas, representassem toda a solidão e perda ocasionadas pela guerra. A própria musica que permeia o espetáculo evidencia essa dualidade liberdade/prisão. Todas elas remetem ao sofrimento, à consternação, como a marcha marcial que anuncia a chegada do ditador. Mas, por mais negro que seja o futuro e por mais borrado que estejam os sonhos, sempre haverá esperança e, nesta história, ela é representada pela repetição exaustiva de uma pequena melodia, cantada à capela pelos integrantes da trupe de teatro, sem qualquer arranjo ou escala que não sejam as batidas cadenciadas de seus pés, mas que soa com um alento bem-vindo em meio ao pessimismo generalizado.
O espetáculo, encenado pela primeira vez em 2009, celebra os dez anos da companhia composta por poetas e militantes que trazem em sua formação a verve do teatro independente argentino. Com influências de Bertolt Brecht, a companhia busca, através de suas montagens, dar voz e vez aos excluídos e tomar uma posição firme frente às injustiças sociais que marcaram historicamente a América latina.
Um dado curioso sobre a peça: o ator, autor e diretor Manuel Santos Iñurrieta presta uma homenagem póstuma a seu tio-avô Andrés Guarido Eleno, um dos muitos soldados que morreram em solo espanhol, revivendo seu papel na peça e representando, além disso, o sonho que ele e outros tantos deixaram para as gerações futuras. Uma mostra interessante de que, não importa a época ou a situação, sempre haverá alguém disposto a ergue a voz e protestar contra os desmandos daqueles que governam.