Reconhecível não é sinônimo de descritível. Em Marcone Moreira reconheço algo que não sei descrever. Nem ele. Suas obras são, justamente, sobre o que não está lá.
Não sei mas vou tentar. Por exemplo: a fragilidade das referências se torna, em si, o tema. Reverberações, rastros. Memórias compartilhadas embora não-arrumadas, em que a repetição nas várias telas – ou madeiras velhas – passa a ser a ordem possível e aposta. Uma temporalidade, portanto, que se faz a si mesmo, e no presente. E então, há os buracos.
Essa memória é de um passado de terra e rios, de trabalho. As madeiras são de embarcações, carrocerias de caminhões. Da época em que caminhões tinham carroceria de tábuas e que barcos não conheciam fibra de vidro. Aliás, de uma época ou de um local, porque o espacial e o temporal se misturam muito aqui.
Marcone não faz enunciados pessoais. São memórias/rastros grupais, culturais. Cada obra é o produto de um agrupamento de agentes enunciativos.
Em Horizonte vazado você se debruça sobre o que não mais existe, nos buracos que mostram a parede que está por trás. Nas telas da série Acúmulos há os vocábulos ao contrário de uma língua não mais útil. Corrosivo um dia irá desaparecer na ferrugem que já lhe come as pontas. Contínuo não estava mais na galeria, tinha sido deslocado para a SP-Arte – em uma ironia não intencional. Mas Seringal estava lá, com sua madeira de barco.
É assim uma coisa em camadas. Camadas de passados, de tempos. É Deleuze quem via desse modo o cinema: camadas de tempos coexistindo em ordens não necessariamente cronológicas, e onde o novo – ou o sentido – se produzia do lado de fora. Sempre o que não é filmado, o que a câmera não enquadra é o que dará sentido ao que de fato se vê. Em Marcone, é na junção dos tempos-espaços. Ou no seu caos, em sua abstração. Não é que o abstrato, desse jeito que Deleuze descreve e que tem a ver com o que Marcone faz, seja algo oriundo do que de fato está lá. A abstração – que é sinônimo de sentido – não é uma espécie de “possibilidade” do existente. Só rearrumar de um jeito diferente que, pronto. Não. Em vez de possibilidade a se realizar, a ser buscada, a abstração/sentido já está lá desde sempre, embora não implementável. É uma virtualidade sempre presente, e não uma possibilidade ausente. O sentido, em Marcone, é real e reconhecível, lá, quase concreto, não fora fantasmático.
E isso tem a ver com uma visão de mundo muito curiosa. Em vez de uma ordenação possível e sempre atualizável, ainda que com partes não absorvíveis ou à disposição para serem absorvidas, o mundo de Marcone tem um passado e um futuro presentificados, simultâneos. O que vai acontecer já existe antes. Embora não previsível porque, sim, há buracos.
É engraçado o vocabulário imperialista que lida com esse enunciado coletivo que é o de Marcone. Quando o assunto é tempo, se trata sempre de algo pré-alguma coisa. Pré-industrial, por exemplo. Ênfase no industrial, e o resto que se arranje a partir desse estado (o industrial), que é subentendido como o “correto”, o “natural”, o “bom”. É engraçado também os sintagmas de espaço: América ou, pior, América Latina. América é o europeu nos vendo, e América Latina faz menção a um Império Romano longe para caramba. O pré e o pós aqui acontecem ao mesmo tempo.
É a vingança. Nas cosmogonias – como a que espirra rastros em Marcone – há sempre o que não morre. Palimpsestos que se mantêm nesses prés e pós, nesses apêndices de um outro, considerado o mais importante.
Marcone é de Marabá. Ganhou o Marcantônio Vilaça com uns encaixes de barco chamados cavernames. Umas peças curvas que fazem o suporte das tábuas dos cascos. Soltas no chão, elas não falam dos barcos, mas das correntezas em que barcos dançam, eles e elas igualmente presentes, sem estarem lá. A exposição de Marcone foi montada na Galeria Lurixs, do Rio, e se chama Superfícies.



