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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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01/05/2010

Sobre a escrita acadêmica

Desde o início da minha trajetória universitária e, por extensão, docente, me incomodavam as regras de escrita institucionalizadas como modelo no âmbito em questão. Como se não bastasse a recomendação de ser ‘impessoal’ ao escrever, isto é, de não se colocar no texto, uma série de outros parâmetros legitimados como verdades tem cerceado esse processo. Com efeito,

(…) Não faz muito tempo, em algumas universidades tradicionalistas, ainda não era permitido pesquisar sobre autores que estivessem vivos. Isso resultava num grande incentivo para enfiar uma faca entre as costelas de alguém numa noite de neblina, ou um notável teste de paciência se seu romancista predileto tivesse uma saúde de ferro e apenas 34 anos de idade. Você certamente não poderia pesquisar qualquer coisa que visse a sua volta todos os dias, pois, por definição, isso não merecia ser estudado (…) (EAGLETON, 2005, p. 17).

Se tomarmos como premissa o fato de que toda criação baseia-se em algo que já vimos, ouvimos ou sentimos, isto é, percebemos e/ou vivenciamos, nada, em verdade, é 100% criado no sentido de originalidade que o termo denota. Neste contexto, concebo o ato de escrever como um ato criativo. Logo, minha escrita nada mais é do que um reflexo dos meus repertórios. Me inquieta portanto, as investidas de normatização de relatos acadêmicos. Considero um anacronismo extremo, por exemplo, o fato da academia ‘exigir’ um ‘time’ completo de autores para validar idéias que, muitas vezes, ainda não estão escritas em lugar algum. Quando aluna já me indagava: por que para legitimar o que quero dizer preciso dizer que alguém já disse? Além de não poder escrever em primeira pessoa – o que acarretava um sentimento de baixa auto-estima em relação ao que eu tinha a dizer – eu ainda precisava citar 1000 autores que fortificassem cada idéia do texto proposto. Como odiava as fundamentações teóricas no meu tempo de aluna! Desesperava-me a idéia de perceber que minha pretensão de discurso ainda não tinha sido defendida por ninguém (sim, de preferência morto e importante)… Sem dúvidas um estímulo à desistência, muito embora, em mesma proporção, um convite à resistência!

Hoje, contudo, escrevo tais coisas de tal forma e a comunidade acadêmica silencia… Não há crítica e nem tão pouco barreiras para dizer o que bem entendo, da forma que achar conveniente. Outrossim, é deste modo – em primeira pessoa, com opiniões próprias e citações de autores vivos em sua maioria – que tenho enviado os meus últimos artigos para revistas e congressos nacionais. Por que eles são aceitos??? Por que sou Mestre e professora universitária? É por isto que posso escrever o que quero e da maneira que julgo conveniente? Bom, me parece haver aqui um problema de relações de poder…

Penso que nossos relatos merecem autonomia. Reconheço a importância da pesquisa no que tange a outros autores, perspectivas e descobertas. Ao mesmo tempo, percebo a urgência que a nossa contemporaneidade traz consigo em relação ao desenvolvimento do senso crítico e autonomia de idéias. Sendo assim, concebo a escrita em primeira pessoa como uma expressão de comprometimento de quem narra para com  o seu discurso. Defendo tal exercício e almejo sobremaneira deparar-me com outros escritos dessa natureza, isto é, pessoal. Não se trata de um ataque à tradição, mas, da possibilidade de  entrecruzamento entre o que representa como o que é representado – através da escrita – numa relação de igualdade de voz, vez e por conseguinte, importância.

Referência bibliográfica
EAGLETON, Terry. Depois da Teoria: um olhar sobre os estudos culturais e o pós-modernismo. In: A política da amnésia. Tradução: Maria Lúcia Oliveira. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2005. pp. 13-39.


Nota da editora: os colaboradores do Aguarrás são selecionados por inúmeros critérios e muitos deles sequer possuem o terceiro grau completo. Acreditamos que, muitas vezes, anos e anos de palco e bom humor associados à boa escrita, por exemplo, nos valem mais do que um doutorado em teatro. De uma forma ou de outra, seja no âmbito acadêmico ou em suas experiências de vida, os colaboradores do Aguarrás são selecionados com muita cautela e, a partir deste momento, suas opiniões são sempre respeitadas. Preferimos relatos na primeira pessoa que somem experiências pessoais, vividas, com conhecimento do assunto em pauta. Ao contrário do que relata o artigo da professora Kelly, nós estimulamos os depoimentos na primeira pessoa.

 


Kelly Bianca Clifford Valença é Professora efetiva da Universidade Federal de Goiás / Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada à Educação (CEPAE). Mestre em Cultura Visual pela mesma Universidade.

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