— Eu te amo!
— Você não pode me amar.
— Mas, por que eu não…
— Por que não sou humana. Sou apenas uma actóide, uma máquina sem coração e você não pode amar uma máquina.
Tempo de Comédia (Sir Alan Ayckbourn).
Faz bastante tempo que a TV vem primando pela competência com que exalta a mediocridade, pela capacidade quase ilimitada que tem de produzir absurdos midiáticos e inseri-los no cotidiano das pessoas. Raros são os exemplos que escapam dessa avalanche de insignificâncias e entre reality shows aqui e novelas de conteúdo duvidoso ali, a TV vai sobrevivendo da audiência das massas. Novelas rasas, aliás, é o que nos interessa aqui, visto que, quanto mais o tempo passa, mais iguais elas vão ficando (e olha que nem entrei no mérito dos enlatados norte-americanos ou de exemplos genéricos como os “Hechos por Televisa”!).
“Tempo de Comédia”, peça que abre a temporada 2010 de espetáculos jovens do SESI/SP, trata exatamente disso, da “inculturação” — ou seria aculturação, no sentido de negação da cultura?! — da mídia de massa e da produção de conteúdo em séries desprovidas de qualquer atributo ou originalidade. Na história, em um futuro não tão distante, robôs substituíram atores nas novelas de baixo orçamento. O jovem e idealista escritor Adam Trainsmith, numa visita à rede de TV de seu tio, conhece o famoso diretor de comédias aposentado Chandler Tate que, passada a fama, vive agora às custas de dirigir atores robóticos em novelas de quinta, os chamados “actóides”. Durante as gravações, o protagonista mecanizado comete uma série de erros que fazem com que uma actóide coadjuvante comece a rir sem parar. Mais tarde, sozinho no estúdio, Adam presencia a mesma atitude por parte do robô durante a exibição de uma comédia antiga. Temendo ser isso um defeito, a actóide tenta entender os mecanismos do humor através de exemplos práticos — num revival interessante sobre as comédias pastelões do início do cinema mudo — e Adam vê nisso uma vantagem a ser explorada. Ele a apelida de Jacie (um “erro de entendimento”, por parte dele, de seu número de ordem: JC-F31-333) e convence Chandler a criar um programa de comédias especialmente para ela. Porém, nem tudo são flores no paraíso das low price comedies. A diretora regional da emissora, Carla Pepperbloom, vendo seu interesse romântico se esfumaçar, decide vetar o projeto e manda apagar a memória de Jacie. Para evitar isso, Adam decide fugir e levar a actóide consigo, abrindo a história para uma série de situações inusitadas que finda com a inevitável paixão do escritor pelo robô.
Traduzida a partir do texto “Comic Potencial”, do inglês Sir Alan Ayckbourn, um dos dramaturgos mais encenados no mundo, a peça traça um paralelo interessante entre arte e realidade, neste contexto, com um pezinho também na ficção científica, levantado a questão, através de uma sátira mais do que pertinente, de qual é o papel da TV nos tempos que virão.
O jovem e ingênuo Adam traz em si a aura do artista em início de carreira (quem já não teve ganas de mudar o mundo através de sua arte inovadora?!), para quem tudo é possível, basta empenho e força de vontade, criando um contraponto com o já combalido diretor, cuja vida se baseia principalmente em memórias de um passado já distante e para quem o futuro, como um reflexo de suas novelas robotizadas, não apresenta nenhuma perspectiva de melhora. Através de seu entusiasmo e de sua paixão pouco comum, Adam reinventa o mito de Pigmalião (escultor que tentou reproduzir a mulher ideal e que, ao apaixonar-se por ela e ter seu desejo atendido por Afrodite, que transformou a estátua em mulher, acabou trilhando um caminho diferente daquele traçado pelos deuses), e coloca em cheque questões sobre o que nos torna humanos, nossa capacidade de se apaixonar e sobre a relação entre riso e amor.
Jacie, por sua vez, é o exemplo perfeito da inconstância do ser. Versão feminina e low profile de Andrew Martin (personagem vivido por Robin Williams no filme “O Homem Bicentenário”), ela o tempo todo tenciona a originalidade, mas o único que consegue é repetir as velhas fórmulas das novelas que já protagonizou. Quando finalmente consegue “sentir” algo inédito (que, por coincidência, é o início da doença chamada amor), fato não originado do banco de memórias, seus circuitos não compreendem a nova diretriz e ela, literalmente, “entra em parafuso”.
Outra crítica interessante que vem à tona é a questão da massificação da cultura e do sistemático processo de produção adotado pela mídia — notadamente o da TV — em que tempo conta mais do que qualidade e esta, aplicada minimamente em todas as produções, serve de alimento para as massas. Também aqui a questão do “meio agindo sobre o homem” e, neste caso, também sobre a máquina, é bem pertinente. Como numa espécie de axioma universal, a trama mostra que não importa se homem ou máquina; no final, o que vale mesmo é a estrutura de poder: manda quem pode, obedece quem tem juízo!
Inicialmente dividido em dois núcleos distintos — cenário da novela protagonizada pelos actóides e o backstage, onde diretor e técnicos coordenam a produção — e depois num sem número de fragmentos, o espetáculo consegue manter uma dinâmica interessante durante suas quase duas horas de duração (embora, no final, fique aquela sensação de que o tempo foi esticado um pouco demais), graças em grande parte ao ótimo entrosamento dos atores.
Com referências a Buster Keaton e a série cômica “O Gordo e o Magro”, o espetáculo aposta no tradicional esquema do roteiro de humor entrecortado por situações cômicas — temperadas aqui e ali com pinceladas de romantismo incidental —, inversões de expectativas, repetição de situações e até em clássicos da comicidade universal, como as tortas de creme que voam entre os personagens, resgatando o velho humor do cinema mudo.
Dirigida por Eliana Fonseca, a peça traz no elenco Julia Carrera, Eduardo Muniz (ambos, idealizadores do projeto), Malu Pessin, Ricardo Ventura, Lívia Lisboa, Sergio Rufino, Bia Borin e Livia Guerra. Aliás, vale destacar os atores Luiz Damasceno, como o diretor decadente que não se conforma em ter se tornado um simples “diretor de actóides” e Luciano Gatti que consegue roubar a cena cada vez que aparece.
Através de apropriações mais que oportunas de exemplos bem próximos de nós, seja de programas nacionais, músicas da moda ou menções a celebridades instantâneas, o espetáculo consegue arrancar boas risadas da plateia, além de plantar aqui e ali o germezinho da incerteza acerca de como estamos contribuindo para a disseminação dessa arte feita para as massas.
E a cultura? Bem, a cultura que fique em segundo, terceiro ou quiçá em quarto plano. Afinal, para os números da audiência — e o riso feliz dos patrocinadores e do público geral — o lixo sempre vai ser tratado um luxo.