Após treze anos de guerra incessante contra as colônias africanas, Portugal começou a sentir o desgaste desta empreitada através não somente dos levantes que ocorriam com cada vez mais frequência entre os povos colonizados, mas também e principalmente pela insatisfação dos próprios portugueses, cansados que estavam de uma luta que se arrastava há mais de uma década e que nada mais trazia além de pesares.
Embora Portugal sustentasse a manutenção das Guerras Coloniais pelo princípio político da defesa daquilo que considerava como seu território nacional, baseando-se ideologicamente num conceito de nação pluricontinental e multirracial, as nações africanas, notadamente Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, justificavam os movimentos de libertação com base no princípio inalienável de autodeterminação e independência, num âmbito internacional de apoio e incentivo à luta. E, não tão distante do campo das ações político-geográficas, esta guerra se refletiu também e de maneira bastante acentuada na literatura de ambos os lados durante boa parte da segunda metade do século XX, principalmente em face à situação político-social vivida durante o período das guerras coloniais e da nova ordem estabelecida depois da queda do salazarismo no dia 25 de abril de 1974, através da Revolução dos Cravos.
O tema mais recorrente nas obras ficcionais portuguesas deste período passou a ser a Guerra Colonial, e as produções literárias a respeito do assunto focavam o teor crítico da guerra, como uma forma de recuperar e retratar, na ficção, a sucessão de barbáries cometidas por Portugal contra a África. O romance refletia um momento de mudanças e questionamentos próprio do país na época, que procurava, entre outras coisas, sua autodefinição. Essa mistura entre a história e a ficção, além da busca por dados e vivências que fossem reais, não impediu que a linguagem criativa utilizada nas obras fosse explorada ao máximo, dando forma a uma característica que poderia ser incorporada, e aceita, como literatura portuguesa.
O romance português buscava, assim, encontrar, tanto no contexto anterior quanto posterior à Revolução dos Cravos, sua característica marcante e sua identidade. Uma literatura que envolvesse toda a vivência dos portugueses da época da ditadura salazarista, a passagem pela revolução e os dias atuais através de uma linguagem metafórica e plural. O pensamento acerca da história e a busca por sua recuperação, nos altos e baixos, também marcariam as ideias artísticas das produções essencialmente portuguesas.
O filósofo e pensador francês Paul Ricoeur afirmou que um texto literário historiográfico relaciona-se com seu referente da mesma maneira como o veículo de uma metáfora relaciona-se com seu conteúdo. Assim, um discurso histórico passaria a ser uma espécie de metáfora ampliada — a definição tradicional de alegoria — e, por conseguinte, deveria ser visto como pertencente à ordem da fala figurativa, tanto quanto às ordens das falas literal e técnica. É, talvez, neste contexto que mais assertivamente se enquadre o livro “Capitão de Abril”, de Salgueiro Maia, que figurará, aqui, como exemplo pertinente para o melhor entendimento da literatura histórico-ficcional desta época.
Mistura de história real e ficção com pitadas de prosa literária, o livro traça de forma gradativa — com se, com isso, também passasse do texto literário a um texto mais histórico — uma visão que buscava abranger todos os aspectos que caracterizaram a pré-revolução, desde os motivos que levaram os portugueses à guerra, às dificuldades do dia-a-dia dos soldados e o seu quase esquecimento por partes “dos portugueses que aqui ficaram” [referência ao distanciamento existente entre Portugal e os soldados que foram enviados à África] e os motivos que levaram ao levante de 25 de Abril. No início do livro, a figura quase mítica do Capitão Gaspar dá à história um quê épico e, de certo modo, também caricatural, como um ensaio de retorno às grandes eras em que os portugueses eram tidos como os Senhores do Mundo. Contudo, à medida que o livro avança e o lado histórico ganha maiores proporções — e o Capitão sai de cena, enredado pelas tramas paralelas da história e da sua própria vida —, começam também a surgir os questionamentos acerca da guerra e do papel que Portugal desempenhou nela, como se os portugueses, através do narrador, questionassem seu legado enquanto colonizadores e voltassem o olhar mais para dentro de si, para as barbáries que se sucediam em sua própria terra. Aqui, é como se houvesse um questionamento do próprio ser português e, com isso, um questionamento também acerca da história corrente de Portugal.
Isto vai ao encontro do que diz o historiador francês Paul Veyne, quando expõe que não existe um método para se contar uma história, porque a história não faz exigências. Contanto que se relatem coisas verdadeiras, ela fica satisfeita. Ela só procura a verdade, e nisso não é uma ciência, que procura a exatidão, caracterizando-se assim como o mais original do gênero histórico.
Neste contexto, é como se o colonizador assumisse os olhos do colonizado, tomando seus sentimentos como fomento para enraizar suas próprias mudanças. A literatura passa, então, a ser instrumento de uma nova consciência, a buscar, através dos relatos de sua própria história, os motivos que os conduziram até aquele estado de coisas e a força para criar as bases da mudança.
Embora o colonizado não seja citado ou tido como instrumento inspirador da mudança, é dele o ideário adotado pelo colonizador, subjetivamente estando ambos a trabalharem sobre a mesma base ideológica, porém com objetivos diferentes.
Por outro lado, a colonização trouxe consigo um rastro de destruição e morte às nações vítimas do “avanço português”. Findo este período de lutas e de resistência, havia a necessidade de se fazer uma catarse de todo esse sentimento tão sufocado e colocar tudo pra fora, expondo o que era incômodo e expulsando o que não mais convinha ao tempo libertário que surgia. Uma nova geração de escritores, cujas bases literárias estavam profundamente arraigadas no contexto histórico vigente de seus respectivos países, surgiu com a ideia de não apenas criar literatura, mas de conscientizar o povo através da evocação desse passado de conflitos e lutas.
A palavra, então, se torna uma espécie de arma, como forma de combate anticolonial de uma geração que não ansiava apenas pela libertação, mas que também buscava a conscientização coletiva para obter novamente uma identidade cultural, dispersa pela colonização massacrante de Portugal. Essa geração que pregava a descolonização [no sentido de expurgar tudo aquilo que havia sido forçosamente imposto e reaver sua própria identidade], a libertação como colônia e a liberdade cultural, também queria ter sua forma particular de expressão e não ter de seguir modelos que nada tinham a ver com sua realidade. Autores que buscavam algo realmente deles, a construção de uma identidade verdadeira, com uma cara própria, e não aquela imposta pelo colonizador.
Em contrapartida, a literatura colonial vinha como instrumento de validação da colônia, que reafirmava a superioridade do branco em relação ao negro, visto como ser inferior ou alegórico, nunca estudado em profundidade, como se fosse desprovido de qualquer tipo de sentimento interior e destituído de qualquer perspectiva de vida.
O conto “Náusea”, do escritor angolano Agostinho Neto, retrata de modo bem característico o ponto de vista deste período, evocando as raízes da própria cultura daquele que escreve e execrando o que vem de fora. Neto, que desempenhou um papel decisivo na independência de seu país, tornando-se o primeiro presidente de Angola logo após a independência, em 1975, reporta-se a um elemento dominante e de forte apelo histórico, presente na história de ambos os povos, colonizadores e colonizados; reporta-se ao mar. Porém, ele não o vê como os portugueses, que exaltavam seus grandes feitos marítimos, realizados com as grandes expedições, e sim, com os olhos do outro lado, dos que sofreram as consequências destas mesmas expedições. Enquanto para uns o mar trazia vitórias, para outros, ele irremediavelmente aludia à morte.
A literatura, aqui, narra a “verdade histórica” que vem de fora, a fatalidade que cai sobre o povo com a vinda dos intrusos que trouxeram, junto consigo, a transformação de uma realidade. O velho João, após avistar o mar, conta ao sobrinho que aquela infinidade azul não lhe trazia boas recordações do passado, somente lembranças vivificadas de morte. João, figurativamente representado como o homem africano brutalmente colonizado pelo europeu, se desespera ao lembrar-se desses episódios de sofrimento e transformações que chegavam através do mar. Aqui, a história faz uso da literatura para expressar o sentimento de dor e perda pela qual esta personagem passou, “o cheiro deste mar, Kalunga, lhe fazia mal”. Há um sentido conotativo contido nesta náusea, ligado ao que foi remexido, ao passado não morto, trazido subitamente à tona ao rever aquela imensidão azul que tanto o fazia sofrer. O mar era o passado de volta trazendo à superfície, tal qual o fenômeno das marés, tudo aquilo que está no fundo, para ser revisto, regurgitado.
Assim, se a saída encontrada para o português foi a revolução, para o africano a saída foi o vômito, expelir forçosamente esse mal, como forma de eliminar o que o tempo não foi capaz de digerir. Há uma certa urgência neste expurgo, pois somente depois dele é que o velho João — e por definição geral, as ex-colônias africanas — poderiam caminhar novamente em paz. O conto expõe a visão ainda não digerida de um passado de agruras vivido por este povo, a necessidade de eliminação do que não fazia bem, daquela cultura imposta pelo colonizador.
E, aqui, de forma muito sutil, ambas as literaturas novamente dialogam entre si, seja no desejo de libertação e busca da identidade do colonizado, seja na necessidade de retomada da identidade perdida e da “liberdade encarcerada” do colonizador. Novamente a história se veste de literatura para contar como o desejo humano está sempre em busca da renovação, da busca pela identidade, seja ela perdida ou ainda não criada.
Referências Bibliográficas:
MAIA, Salgueiro. Capitão de Abril. Ed. Notícias Editorial. 1997.
NETO, Agostinho. Náusea. Lisboa. Ed. 70, 1980. p. 21-30.
VEYNE, Paul. .”Writing history: essay on epistemology”, tradução de Mina Moore-Rinvolucri (Middletown, 1984), p. 12.
RICOEUR, Paul. “The rule of narrativity: symbolic discourse and the experiences of time in Ricoeur’s thought“, in “In search of meaning”, org. por Theodore F Geraets (Ottawa, 1985), 287-299.