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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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21/05/2010

Tempo das caçadoras, de Miguel Carqueija

Já conhecia o texto de Miguel Carqueija do livro Farei meu destino, onde o autor mostrava sua capacidade de lidar com personagens jovens em histórias assumidamente voltadas para jovens sem tentar disfarçá-las de algo mais que uma aventura. Na resenha que escrevi, indiquei os prós e contras de maneira esquemática, tópicos que aproveitei para revisitar terminada a leitura de Tempo das caçadoras, e percebi que apenas os contras haviam ficado para trás.

Antes de tudo, Tempo das Caçadoras, segundo o prefácio, é a sequência de O Fantasma do Apito, mas poderia ser lida de forma independente. Dividida em duas partes, O Clube da Luluzinha e O Olho Mortal, dá continuidade à história de três meninas que foram enviadas para um castelo e lá se envolveram com mortes que levavam ao misterioso Conde de Bruxelas. Como não li O Fantasma… não tive base para entender a motivação das meninas e da policial que as acompanha na perseguição ao tal Conde. Então, apesar de ser parte de uma história maior – a série Liga Mundial – contada de forma modular, aconselho a leitura do primeiro livro para que se aproveite a evolução dos personagens em sua totalidade.

Em o Clube da Luluzinha, o grupo de protagonistas acaba parando numa estranha pousada no meio do nada, devido a uma tempestade. Lá elas precisam lidar umas com as outras, com a necessidade de estar em grupo, e também com um misterioso assassinato. É um texto que evoca a tradição policial, mas usando seus elementos de maneira ágil, através das brincadeiras constantes que as personagens fazem umas com as outras nos diálogos e na percepção das cenas. Num texto mais longo, o autor teria tempo de desenvolver melhor as ferramentas que parece conhecer bem. Aqui, o ritmo não permite. Mas isso não estraga a brincadeira. O importante não é descobrir o assassino, e sim pegar o momento de respiração suspensa em que se pergunta “quem matou?†e aproveitar isso nas relações entre personagens.

Vale comentar que Miguel Carqueija consegue lidar com vários deles ao mesmo tempo sem parecer um rodízio de falas aleatório. É coisa que me irrita e distraí do texto o autor decidir que cada personagem precisa falar pelo menos uma vez em cada cena, alternando uma por uma as vozes presentes. Em Tempo das Caçadoras isso ocorre de forma natural.

Em O Olho Mortal, as três meninas e a policial que as acompanha caem na estrada novamente em busca do Conde, o mote que uniria as duas partes. Para que o leitor não se frustre por não ver o morte realizado, elas chegam a encontrá-lo, mas isso não é simbólico para esse módulo isoladamente, somente para a série como um todo.

Ao contrário da primeira, mais fechada no mistério que se propõe, a segunda parte parece fazer a ponte para uma nova história, dando apenas um gostinho do Conde de Bruxelas, que entra num pé e sai no outro. É divertida, puxa mais para a aventura do que para o mistério, mas será mais bem aproveitada quando o texto da Liga puder ser lido inteiro, num livro só.

Ainda assim, um bom clímax que mantém os pontos fortes do autor e mostra que sua aposta em histórias juvenis pode render bons frutos.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Tempo das caçadoras, de Miguel Carqueija



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