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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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23/05/2010

Nada a dizer, de Elvira Vigna

Nada a dizer recebeu resenhas elogiosas no Jornal do Brasil, Jornal Rascunho, Gazeta do Povo, Folha de São Paulo, Correio Braziliense e Estadão, se tornando um dos trabalhos mais comentados da Elvira. Esse é o sexto romance da autora, o quinto publicado pela Cia das Letras, que esnobou o livro A um passo, um romance de vanguarda que deve ter dado nó na cabeça dos editores de lá por mostrar uma história criada na mesma medida pela autora e por quem a lê, uma aula sobre espaços vazios, sobre o que há fora da tela, diria alguém de cinema.

Nada a dizer, de Elvira VignaNada a dizer traz uma história mais acessível, livro para se ler numa tarde sem sentir o tempo passar. Ele vem disfarçado da descrição de uma traição no ponto de vista da pessoa traída. A narradora conta como descobriu que vinha sendo traída, o que significa essa traição para ela, e como pretende superá-la. Mas há muito mais lá, e a traição amorosa é só uma pincelada de um quadro mais complexo de ideais.

Os livros de Elvira Vigna geralmente falam de mulheres que matam, na voz de narradoras que mentem. A narradora de Nada a dizer, ao contrário, quer sobreviver a mentiras, e busca uma verdade dentro de diversas delas, tanto nas de Paulo, o marido, como nas que foram construídas ao longo do tempo pela sociedade numa busca frenética por símbolos auto-impostos de solidez e felicidade. É quase uma vítima de suas antecessoras assassinas potenciais. Enquanto as killers mostravam a classe média com uma entidade fantasmagórica, sombra de si mesma, a narradora de Nada a dizer mostra que a classe média ainda tem lá sua graça, um quê de humanidade, cheia de desejos, ânsias, fraquezas. Ao fingir que fala da falência dos relacionamentos, Nada a dizer mostra a falência de estruturas de pensamento, e faz isso ironicamente caprichando no desenvolvimento da estrutura que carrega o texto.

Meu olhar nerd curtiu o esqueleto que a autora montou para acomodar sua história. Veio dele meu “uau moment”. Curti também o distanciamento momentaneo da narradora, que olha tudo como pesquisadora na bancada do laboratório antes de se aproximar e se transformar também em personagem, como seus objetos de estudo. Elvira montou a piscina, encheu de água e depois pulou.

Como bem diz o release “mais do que o inventário de perdas e danos em que costuma consistir esse tipo de relato, o que se encontra aqui é uma investigação das motivações de cada um dos envolvidos, bem como uma discussão indireta das possibilidades de entendimento amoroso no mundo urbano contemporâneo”.

Para fechar, é bom dizer que o livro não traz nenhuma lição de moral. Não foi patrocinado pela Disney. Ao desmontar os símbolos, precisa lidar com o que está embaixo deles, o tal do mundo real, se concentrando em um reaprender a olhar a si mesmo. Com direito até a mulheres que matam… ou não. Afinal, mesmo uma narradora interessada em verdades pode contar uma mentira de vez em quando.

Nada a dizer
Elvira Vigna
Companhia das letras
161 páginas.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

Nada a dizer, de Elvira Vigna



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