Perdoa-me por me traíres
Perdoa-me por me traíres (1957) estreou nesta sexta, dia 21 de maio, em Ipanema, no Rio, homenageando os 30 anos da morte de Nelson Rodrigues (1912-1980), que será completado em dezembro.
A montagem dirigida por Claudio Handrey é um exemplo de teatro de qualidade que consegue revisitar um texto bem conhecido com muita competência. Cenário simples, ótimos atores e a escolha de um texto de Nelson que dispensa comentários geraram um espetáculo impecável.
São 100 minutos que nos fazem mergulhar naquele universo rodriguiano que nunca deixará de ser chocante ao apontar a hipocrisia da sociedade. A adolescente Glorinha, ao se prostituir numa casa especializada em satisfazer políticos, desperta em seu opressor tio Raul, que tomou conta dela após provocar o suicídio da mãe e a internação do pai, a vontade de revelar os segredos de família que levaram todos à ruína, em que os fins trágicos dos personagens representam o fim dos desejos reprimidos. No fim da peça, Raul tem em sua morte a vingança e a libertação da sobrinha. Peça densa, cheia de questões que nos fazem perceber o quanto o texto, do final da década de 50, foi marcante na época.
Nelson Rodrigues é Realista. Portanto, como é peculiar ao gênero, seu texto traz a crítica à sociedade e o erotismo em seu corpo. A peça Perdoa-me por me traíres – assim como Os sete gatinhos, O beijo no asfalto, Bonitinha, mas ordinária, entre outras – traz também o tom da tragégia grega para a sociedade carioca do século XX, surgindo, assim, o que chamamos de “tragédia carioca”.
Alguns pontos merecem destaque, como a trilha sonora, bem incorporada, enfatizando os momentos de tensão à moda antiga, a maquiagem em tons de preto simbolizando os rostos desesperados – aliás, as expressões paralisadas nos rostos dos atores muitas vezes parecem máscaras, aquelas velhas máscaras do teatro grego – e os tons escuros de alguns figurinos que trazem em si o lado obscuro dos personagens.
Essa montagem é um exemplo do valor de um clássico. Ironias, drama, dor, desejos, típicos de Nelson, estão encenados nesta peça. Vale a pena assistir aos acertos do diretor, à boa atuação do elenco e ao fôlego do texto.
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Claudio Handrey
Elenco: Leonardo Miggiorin, Claudio Handrey, Charles Davis, Breno Guimarães, Bianca Montanas, Andressa Lameu, Alice Motta, Patricia Ramalho, Tamires Nascimento, Fabiana Aveiro e Manuellita Lustosa
Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema / RJ
Jarcélen Ribeiro é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.







































