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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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24/05/2010

Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa

O último romance de José Eduardo Agualusa, chamado Barroco Tropical, publicado recentemente, é uma pérola. De início, é intrigante. Em seguida, perturbador. E, finalmente, emocionante.

A narrativa é bastante surpreendente, criativa, diferente. Tudo parte do romance de uma cantora angolana de grande sucesso internacional, chamada Kianda, com o amante, o escritor Bartolomeu Falcato. Em torno dessa história bastante tocante e instável emocionalmente, principalmente por parte da cantora, que mantém vícios um tanto quanto comuns no meio artístico, ganham espaço outras questões políticas, que revelam, por exemplo, tradições muito contestáveis em relação a tratamentos de saúde em Angola, falcatruas políticas, assassinatos, propinas, enfim, todo o campo semântico ligado à palavra “políticaâ€. Por outro lado, vem à tona também uma história muito curiosa a respeito de anjos. Anjos negros. Em princípio, essa parece ser uma faceta fantástica da narrativa. Mas apenas parece, porque ao mesmo tempo em que são relatadas aparições de anjos negros num capítulo, num clima bem misterioso, revolvido por simbolismos, em outra parte da narrativa discute-se sobre confecção de asas, sobre militantes políticos que em certa altura da guerra colonial se vestiam de anjos, ou seja, situações mais realistas, que fazem crescer no leitor curioso a vontade de devorar o livro para saber o que está por trás dos benditos anjos negros.

Outro ponto do texto que chama nossa atenção é a quantidade de referências que ele carrega. São dezenas de referências de todos os níveis: histórico, cultural, social, político; e para todos os públicos, gostos, classes, nacionalidades, etc. Até a Marília Gabriela dá o ar de sua graça! O que me faz lembrar de ressaltar que Agualusa é figurinha fácil no Brasil. Volta e meia vem participar de eventos literários por aqui. Talvez por isso, por conhecer bem o país, principalmente o Rio de Janeiro (ao que me parece), seus personagens transitam pela região, passeiam no Leblon, visitam o Real Gabinete Português de Leitura, curtem Caetano e Gil e adoram a Bahia.

É bom ressaltar também que o texto permite uma leitura menos profunda, por parte de leitores que não tenham grande conhecimento sobre a guerra colonial, sem prejuízo algum. Nesse sentido, o autor é bastante cuidadoso ao esclarecer alguns pontos históricos que considera mais importantes para a compreensão do texto, sem o peso de um livro de história ou de uma tese de doutorado. Assim, o leitor pode entrar no misterioso universo dos anjos negros e desfrutá-lo satisfatoriamente. Contudo, acredito que seja bem mais tranqüilo e menos trabalhoso embarcar no romance trazendo na mochila algum conhecimento prévio sobre a história de Angola, porque a base de tudo, no final das contas, é Angola e seus intermináveis problemas resultantes da colonização, que, em Barroco Tropical, são retratados de forma bastante negativa (ou realista), uma vez que o romance se passa em 2020 e não há nem sombra de progresso.

Resumindo, quanto ao enredo, é instigante, emocionante, hipnotizante. Quanto à escrita, esta é leve, corrida, com traços de ironia, o que a torna boa mesmo de ler. Não posso deixar de mencionar que o escritor ainda não está usando a nova ortografia da língua portuguesa. Parece que só nós, brasileiros, estamos ligando para essas mudanças…

Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa, 2009, Companhia das Letras

 


Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.

Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa



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