Sendo idioticamente didática: música eletrônica ressensibiliza as pessoas de dois modos.
1) Pela recuperação de sons urbanos, apresentados em nova contextualização. Você pega ruídos cotidianos que nem são mais escutados e os exibe, obrigando o fruidor a se perceber meio surdo na sua vida diária.
2) Pelo aumento em decibéis de todos os sons que seu sintetizador seja capaz de fazer, obrigando o fruidor a ficar surdo e, com isso, perceber que tem orelhas.
A divisão é idiota porque em geral vemos as duas coisas juntas. O grupo Hapax, que eu adoro, e suas geniais latarias e restos de carros. Ou o Chelpa Ferro e os ambientes domésticos ampliados até você ouvir, o quê?, o liquidificador ligado, o rrrr de um ventilador.
John Cage com suas estações de rádio e com seu silêncio zen. Bruce Nauman e o uso do campo diegético em vídeos mudos.
Então era isso mais ou menos o que eu esperava: uma coisa ou outra. E provavelmente as duas juntas. Mas Ricardo Carioba me apresentou outra estratégia no seu concerto do MIS-SP.
Por uns oito minutos ouvi um som surdo e contínuo, com pequenas mudanças de frequência, uma espécide de modulação em um mesmo pitch, bem monotônico. Depois uma pausa. E depois então a entrada, aos poucos, de um ritmo quebrado, ternário. Aí umas analogias de solos metálicos, de cordas. Uns ecos de trovoadas, tempestades, maremotos, gritos, vento. Ondas, em suma, fossem elas de qualquer tipo de energia. Tudo em uma alternância de compassos em números ímpares, sem possibilidade de descanso, sem repetições sincopadas, sem cadência.
Agora, o engraçado. Não sei se foi só eu, mas acho que não. Enquanto se escutava o som contínuo e baixo, estável, do início da apresentação, foi me dando um desconforto, uma desestabilização. À medida que entrava a desestabilização dos harmônicos ternários e altíssimos, fui me sentindo em casa. Eu já sabia isso de mim, que quando entra o previsível me vem uma claustrofobia danada. Mas foi engraçado reafirmar isso, assim, fenomenologicamente, por assim dizer.
Em outro espaço do MIS, o artista apresentou uma instalação, a Escape para outra estática, em que aquele mesmo eu do concerto vira cores, e sente a mesma coisa: a instabilidade é minha casa.