Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo
De modo geral, não me identifico com histórias de guerra. Procuro passar longe de filmes do gênero, inclusive os clássicos, e perco aí parte da bagagem que deveria ter como roteirista, Apocalypse Now ocupando a ilustre cadeira de exceção à regra por ser uma aula indispensável de cinema. Talvez utilize esse filtro instintivo pelo fato de a guerra ser real demais para se acomodar com harmonia em meus pensamentos. Informação demais para alguém de sonhos intranquilos como eu. A guerra está sempre lá, acontecendo. Ela habita o passado, preenche o presente dos jornais, incomoda em uma falsa iminência no futuro.
Apesar dessa resistência natural, dois livros de guerra vieram parar em minhas mãos recentemente: The Age of Ra e Selva Brasil. O primeiro mistura mitologia egípcia e ambientes militares. Achei que ia encontrar uma pegada maior de fantasia e encontrei a narrativa tradicional de guerra, com diálogos bem capengas para alguém com o currículo de James Lovegrove. Voltou para o final da lista. O segundo é uma história alternativa de Roberto de Sousa Causo, um dos mais conhecidos autores de ficção-científica brasileira. Efeito contrário ao Age of Ra, esse não consegui parar de ler.
Citando a orelha do livro, Selva Brasil acompanha um grupo de soldados em direção a um ponto desconhecido do Amapá, fronteira com a Guiana Francesa, onde deverão substituir outra unidade do exército brasileiro. Esse grupo, entretanto, se depara com desertores e um experimento que não entendem muito bem, mas parece indicar a existência de uma realidade paralela, um Brasil bem diferente do deles, que talvez seja parecido com o nosso.
O Brasil do livro de Causo é um país marginal, inimigo das grandes potências, quase uma Colômbia, e vive um
embargo similar ao de Cuba. Nesse Brasil, Jânio Quadros tentou invadir as Guianas e apoiou a Argentina na invasão às Ilhas Malvinas. Estados Unidos, França e Inglaterra enxotaram todo mundo e aproveitaram para tomar parte da Amazônia. Desde então, as potências enfrentam a coalizão latino-americana e alimentam conflitos na região para tentar invadir nosso país de vez.
Mas a graça toda de Selva Brasil é que, apesar da pesquisa que dá base ao livro, o que move a história é o drama do protagonista, sempre narrando diretamente para o leitor, como se estivesse gravando uma mensagem que, lá no final, vamos descobrir a quem é direcionada. Roberto de Souza Causo, o personagem, fala de sua vida pessoal ou do que é tentar ter uma vida pessoal em um país sufocado pela guerra. É um cara que tem lá suas frustrações e tenta achar um motivo para seguir em frente. A ambientação é eficiente e prende a atenção logo no começo, mas o elemento mágico é realmente o protagonista. Causo trabalhou de forma minuciosa as palavras, definiu um jeitão de falar bem peculiar – indo além do uso das gírias e jargões militares – que torna o personagem verossímil, e nisso a ficção é captada como um depoimento sincero. Fruição a serviço da história. Para o leitor e para o livro, pouco importa qual o experimento secreto conduzido no meio da floresta. O que está em jogo é a transformação do Causo personagem em um ambiente opressor onde pensar demais ou de menos pode significar a morte.
De bônus, ficou um gostinho similar ao que senti lendo Kaori, de Giulia Moon, de que somente Causo autor poderia ter escrito Selva Brasil, mais ninguém. Entra fácil para a lista de melhores que li esse ano. Estava me devendo há tempos ler uma narrativa longa do autor, pelo visto comecei pelo livro certo.
Selva Brasil
Roberto de Sousa Causo
Editora Draco
109 páginas
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































