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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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1/7/2010

Superficial por profundidade

uma pequena reflexão proporcionada pelos  “Estudos sobre a levezaâ€, de Fernando de F.L. Torres

“O mais profundo é a pele.â€
Paul Valéry


O filósofo e o poeta geralmente são vistos como pessoas que “têm a cabeça†nas nuvens, “vivem sonhando acordadosâ€, “perdem tempo demais pensando e não são nada práticosâ€, entre diversos outros clichês comuns numa cultura essencialmente pragmática, técnica e gradualmente robotizada. De antemão, peço ao leitor calma – este texto não possui nenhuma roupagem moralista. Ele pretende apenas resenhar o excelente Estudos sobre a leveza, do advogado, estudante de letras e escritor Fernando de F.L. Torres – e proporcionar algumas reflexões sobre a vida e a arte, a partir do livro e a partir da filosofia.

Este antigo clichê de que a teoria é algo diversa da prática é algo que deveria ser repensado. Embora não se trate de trabalho braçal, pensar, refletir, comunicar sua reflexão é um trabalho árduo que deveria ser melhor compensado. Estudar é algo dificílimo, que requer calma, paciência, cultivo. Em suma, teoria é prática, por mais que insistam em ridicularizar os teóricos (acho que a docência nunca esteve tão desvalorizada como está atualmente, assim como a ciência nunca foi tão mal vista). Pois é exatamente pelo fato de estudar ser algo árduo que, quando recebi o livro de Fernando, fiquei um bom tempo com o título na cabeça. O título pareceu-me um delicioso paradoxo: estudos sobre a leveza, estudos sobre a leveza, estudos sobre a leveza… como algo tão difícil como o ato de estudar poderia se referir à leveza? De que valeria a pena colecionar estudos sobre um tema tão amplo – a leveza? O que é a leveza para o autor? E para os narradores dos contos? Porque o autor chamou os contos de estudos? Onde a leveza se encontra ao longo das narrativas?

Muitas questões surgiram antes da leitura. Felizmente, após ler e reler o livro, nenhuma das questões acima foi respondida. Pelo contrário – o livro despertou mais perguntas. Pra mim, isso é prova de que o livro é bom.

Tenho um amigo escritor em Minas Gerais que diz que um livro de contos vale a pena se ele tiver pelo menos uma história que toque o leitor de alguma maneira. Eu  gostei do livro como um todo, mas tenho que dizer que há pelo menos três histórias (ou contos? ou estudos?) que me marcaram mais. Não vou dizer quais são para evitar que o futuro leitor vá direto a eles. Prefiro convidá-lo a ler o livro todo e encontrar as suas histórias no livro – literatura não é também, um pouco isso? Esse exercício gostoso de alterização?

Uma marca dos “Estudos sobre a leveza†é a linguagem extremamente elegante com o que o autor nos presenteia. O autor não distorce nem brinca com a linguagem, mas ainda assim a linguagem se destaca. As narrativas são simples, diretas, superficiais.

Geralmente usa-se dizer que algo é superficial de maneira pejorativa. Pois eu pretendo subverter essa fórmula batida e inserir aqui o termo “superficial†como um elogio. Explico.

Na seção 4 do prefácio à Gaia Ciência, Nietzsche nos fala que os antigos gregos é que sabiam viver – eles tinham um amor pela superfície, pela forma, pela dobra, pela pele, pela aparência, pelas palavras. “Oh, aqueles gregosâ€, diz Nietzsche – “(…)eles eram superficiais – por profundidadeâ€. O bom artista, vai dizer Nietzsche, sabe que assim como teoria é uma prática, a forma também é conteúdo. Lembro também o famoso aforismo de Valéry, que recuperei e utilizei como epígrafe deste texto – “O mais profundo é a peleâ€. Não há nada para além da superfície – você pode ter uma linda história de amor para contar e não saber dar forma a ela. Sua história será simplesmente incomunicável. Construímos a realidade linguisticamente – se há ou não uma dimensão inaudita para além da linguagem, é uma questão de fé.

O mais engraçado é que os “estudos†do livro são realmente leves, e certamente retratam certa leveza cotidiana. Mas são leves e superficiais por profundidade. Se a linguagem é cristalina, as narrativas curtas e os temas cotidianos, não se engane em pensar que elas são também banais. Pelo contrário – a leveza inerente a cada uma das narrativas proporciona reflexões profundas, despertam emoções, incitam a fantasiar e pensar sobre a existência. Em “Mandala de areiaâ€, temos o relato de um jantar entre amigos que culmina numa inesperada fuga. “Pontualidade†narra a história de uma garota que fora abandonada pelos pais e que passa a morar com o avô. É um belíssimo relato sobre as constantes perdas e ganhos em que somos “jogadosâ€. “Os vermelhos†relata a tardia concretização de um antigo desejo. “Cheiro de café quente†é uma saborosa história, nostálgica, que recupera os tempos em que o café era café mesmo, e não uma bebida chique com mil cremes, chocolates e nomes pomposos. “Esqueça Thanatos!†mostra como somos potência, força, querendo viver, e como até mesmo um ato de infidelidade pode ser apenas uma oculta força vital querendo se afirmar, levando-nos a suprimir qualquer moralidade e a libertar desejos reprimidos. “Inesperado gol†foi, talvez, a história que mais comoveu este amante de futebol e cinema que vos escreve… Gostaria de dizer que não entendo absolutamente nada de futebol e tampouco de cinema, mas assisto jogos e vejo filmes compulsivamente – então foi maravilhoso me colocar no lugar do sujeito que foi trabalhar com filmes antigos e acabou encontrando uma pérola maior que a pérola que ele julgava ter encontrado.

A maior prova de que o livro de Fernando de F.L. Torres é bom, é que ele é inclassificável. Se as minhas pequenas impressões narradas no parágrafo anterior dão a sensação de que ele é, digamos, um “militante†da escola neo-realista, o leitor ficará confuso ao se deparar com a magia de narrativas como “Trinta e três rotaçõesâ€, “Punctum e fiabaâ€, “Elogio à fábulaâ€, “Abstrato!†– por exemplo. Serão fábulas? Narrativas mágicas? Realismo fantástico?

Pra mim, um bom livro tem um pouco de tudo, e não cabe em lugar algum. Ele habita as dobras, os poros. Ele permite espaço para que o ar e as idéias circulem com liberdade. E a circulação de idéias nos leva à identificação, à perda, aos encontros. Acima de tudo, um texto como “Estudos sobre a levezaâ€, que permite que idéias “respiremâ€, nos torna mais inteligentes, sensíveis, compreensivos e solidários na miséria humana. Características que recuperam certa leveza em tempos tão pesados, burros e intolerantes.


Livro desta resenha:
TORRES, Fernando de F.L. Estudos sobre a leveza. Rio de Janeiro: Multifoco, 2009.

 


Manuel Carreiro é escritor e professor nas areas de Filosofia, Letras e Educação. Atualmente desenvolve pesquisa de doutoramento em Filosofia da Educação na Simon Fraser University, universidade pública em Vancouver, no Canadá.