Yonamine
Nem sei se é elogio. Mas o artista angolano Yonamine – em exposição na Soso e presença confirmada na próxima Bienal – usa umas estratégias poéticas que lembram as de Agostinho Neto, o herói nacional, poeta e polÃtico da mesma Angola.
E não sei se é elogio porque Agostinho Neto teve lá suas controvérsias que poderiam ser resumidas em uma única atitude icônica: ele escrevia em português, a lÃngua do opressor.
Pausa para um Google básico:
Neto atuou no MPLA, movimento fundado em 1956. Em 1962 se torna o primeiro presidente do paÃs, cargo que ocupa até a morte, em 1979. Sempre tentou unificar as tribos e dar tratamento igualitário à s linguagens tribais. Apesar de seus esforços, uma guerra interna opondo grupos étnicos esmaga o paÃs por 27 anos. Poderia ter sido menos não fossem o interesse e a participação pouco disfarçada das mesmas potências estrangeiras que Neto tanto tinha tentado atrair – entre elas Estados Unidos e uma Ãfrica do Sul ainda afundada no apartheid. Médico formado na Universidade de Coimbra, nunca abandonou a poesia.
Voltando para Yonamine e a comparação entre as duas poéticas:
Em Sábado nos musseques, Neto usa a repetição dos sintagmas (“Britar pedra / acarretar pedra / britar pedra / acarretar pedra / ao sol / à chuva / britar pedra / acarretar pedra.“) e foi por aà que eu entrei, só para descobrir outras similaridades depois. Yonamine também é fã da força das repetições. E nisso ele encavala com outra caracterÃstica marcante do Neto, que é o uso do “idioma†estrangeiro, dominador. Pois as repetições de Yonamine se dão em composições pop. Pop. Se houvesse uma linguagem artÃstica representante em tempo integral de uma determinada cultura, seria a pop. E a cultura representada por ela é, claro, a dominadora-americana-consumista-secular. O oposto a um “africanoâ€, termo abusivo e ocidental, mas, que fazer, é nessa linguagem ocidental e abusiva que faço o artigo.
No entanto, o mais importante não é 1) a técnica da repetição, nem sequer 2) o uso de uma linguagem oposta ao que se quer dizer com ela.
Há uma terceira similaridade.
Na raiz mesmo da poética de um e outro há o que em linguÃstica se chama estratégia de provocação. Funciona assim: você começa reforçando (sim, com o auxÃlio da repetição) imagens da desesperança, enumerando – e repetindo – o pathos da tensão que será apresentada. E aà você vira. Apresenta imagens otimistas, heróicas. Ou, como no caso de Yonamine, simplesmente bem-humoradas – o bom-humor sendo, para quem vive nos extremos, no limite, o heroÃsmo possÃvel dos dias de hoje. Por exemplo: alguns de seus quadros se chamam Miami be, Ócaraócoroa, Loco-motion, e Offoffo (foto – detalhe) – esse último a repetição de um sÃmbolo adulterado da ONU, entidade que mantém de fora os interesses dos, bem, africanos.
É eficaz. Foi.
Em que pese o português dos poemas de Neto, foi esse “assimilado†que obteve a independência de Angola.
O uso de “assimilados†pelo colonisador português foi bem estudado. Gilberto Freire era de opinião que assimilava-se por bondade d’alma e por motivos históricos: os portugueses já eram miscigenados desde sempre, com as invasões mouras, por exemplo. Mário de Andrade concorda em termos, mas aponta que a assimilação era falsa, pois não se dava em todas as instâncias de poder, pelo contrário. O caso é que a história mostra que, se o Império tentava assim se manter mais forte com menos gastos militares, a coisa não deu lá muito certo. Nem com Neto e, acho, também com Yonamine. A desenvoltura no trato da “lÃngua†artÃstica internacionalizada é menos uma posse a mais da cultura dominante em um paÃs periférico e mais um paÃs periférico a berrar que houve crime, e rir dos criminosos, sem deixar de lhes apontar um dedo.
Em Mussunda amigo, Neto se dirige a um conterrâneo que ele chama de Mussunda, e fala de seu dilema em adotar os códigos do opressor. Eis um pedacinho:
“Para aqui estou eu / Mussunda amigo / escrevendo versos que tu não entendes. / Não era isto / o que nós querÃamos, bem sei. / Mas no espÃrito e na inteligência / nós somos! / Nós somos, / Mussunda amigo. / Nós somos. / Inseparáveis.â€
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.







































