Anno Dracula, de Kim Newman
Anno Dracula foi publicado em 1992 e chegou ao Brasil em 2009 pelas mãos da Aleph, talvez motivada pela atual onda de vampiros crepusculares que agitou o mercado. Ironicamente, o livro tem uma pegada mais adulta e sombria, e tenderá a agradar mais a fãs de autores como Neil Gaiman ou Joe Hill do que fãs de Stephenie Meyer. Peguei o livro buscando uma literatura de entretenimento mais simples e me surpreendi com a densidade do texto. Demorei a entrar no clima e organizar as informações, mas vencidas as primeiras páginas, me diverti com o universo louco de Kim Newman, que consegue com sucesso criar uma versão decadente da era vitoriana, tomada por essa praga chamada vampirismo.
Fã assumido de obras vampirescas, Kim Newman desenvolve uma linha alternativa da história contada por Bram Stoker. Drácula não só venceu Van Helsing como desposou a Rainha Vitória e se tornou o PrÃncipe Consorte, com grande influência no jogo polÃtico inglês. Drácula mantém a conhecida crueldade, empalando inimigos e perseguindo qualquer um que atrapalhe suas ambições de se manter no poder. Newman manteve a complexidade das teias de influência do mundo real e desenvolveu diversos grupos ligados à Rainha, ao PrÃncipe e ao submundo, cada qual com seu interesse, que vão se alternando durante o livro para mostrar a fragilidade do sistema imposto por Drácula.
A história deixa de lado qualquer resquÃcio de glamour vampiresco. Há amores, ciúmes e conspirações, mas de um jeito peculiar que reforça o aspecto de condenação e não o de dádiva daqueles que se transformam. Com o vampirismo assumido e disseminado, há vampiros mendigando, se prostituindo, e a imortalidade não vale mais do que um par de centavos, literalmente. Mães não prostituem mais o sexo das filhas, mas seus pescoços. O sangue impuro de Drácula se espalhou sem controle e gerou crias doentes que não conseguem se transformar em animais e acabam com os corpos disformes em um meio termo à espera da morte. Transformar-se em vampiro é mais uma via de ascensão burocrática do que um flerte com a eternidade.
O fio condutor da trama é um falso mistério. Um assassino conhecido como Faca de Prata está matando prostitutas vampiras. Pela sopa de referências proposta no livro, fica claro que o sujeito é Jack, o Estripador. Assumindo que as consequências das mortes são muito mais importantes para a trama do que a identidade do assassino, Kim Newman faz a revelação logo na primeira linha. A graça é ver todo mundo girar ao redor do respeitável psicopata sem saber quem ele é. De fato, mais do que parar as mortes, os homens no poder querem que a prisão de Jack tenha um propósito, o que alimenta a rede de segundas e terceiras intenções que permeia os capÃtulos. Kim Newman parece querer dizer que é impossÃvel saber tudo sobre alguém, mesmo um alguém que viva todo dia ao seu lado, tenha ele séculos de existência ou trinta anos de idade.
Embora Anno Dracula seja uma história fechada, de inÃcio, meio e fim dentro de sua proposta, ele possui duas continuações ainda não publicadas no Brasil: The Bloody Red Baron (passado na Primeira Guerra Mundial) e Dracula Cha Cha Cha.
Em Anno Dracula você encontrará os personagens do clássico de Bram Stoker, Lorde Ruthven, Jack, Dr. Moreau, Dr. Jeckyll, Rainha Vitória, Oscar Wilde, Florence Stoker (esposa de Bram Stoker), entre dezenas de outras referências e participações especiais.
Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.







































