Verbo – parte 4
Quarto dia de performances da Verbo, vou começar com umas atualizações. Joana Bastos, a “peça de acervo”, mais visÃvel do que no primeiro dia, ainda se mantinha fechada no depósito da galeria. As apresentações diárias de Mariëlle Videler continuavam no mesmo tom. Desta vez, os participantes falavam coisas sem sentido e em inglês, berrando e fazendo movimentos inesperados. Os berros também eram inesperados. De esperado, só mesmo a opção desta artista pelo impacto sensorial em detrimento do desenvolvimento de um conceito a ser (des)construÃdo com o espectador. Os participantes, misturados à s pessoas, usavam máscaras iguais, não se apresentando portanto como candidatos a uma identidade a ser negociada, como não o eram a um diálogo. E a máscara lhes tampava os olhos.
Jimmy, the jungle beast é a criação de um dançarino de Petrópolis, Bernardo Stumpf. Ele anuncia no microfone: “Eu tenho essa história..” e conta uma história sobre a qual ele se declara não muito certo como começa. Talvez um avião caiu na floresta e um menino foi seu único sobrevivente. Talvez fosse um problema de dieta alimentar. A questão é que esse menino se torna o rei dos animais.
Ele pega um pilô e delineia na parte da frente de sua camiseta branca os músculos saltados de um gorila ou de um homem muito forte. Vira de costas para o público. Com movimentos contidos, se transforma no próprio gorila/homem forte (muito bom, como expressão corporal). AÃ, de repente, torna a incorporar sua persona inicial e se senta num banquinho para jogar Street fighter II, the world warrior, no computador. Perde. Torna a ir para o meio do espaço. Torna a se virar de costas para a plateia e, por gestos, pede que alguém desenhe nas costas de sua camiseta o mesmo contorno muscular que há na frente. Curiosamente – ou nem tão curiosamente, mas o que merecia todo um artigo só para isso – apenas mulheres se voluntariam para a tarefa. Várias delas. Cada uma faz um musclinho, uma costelinha. Terminado o desenho, mais uma vez ele incorpora o significante da testosterona. Agora os movimentos não têm nada de contidos. Pelo contrário, sua dança é uma espécie de luta entre a street dance e o futebol americano. Perde mais uma vez. Depois de cair no chão repetidamente, decide que aquela é a definitiva. Exausto e suado, tira a camiseta branca e veste uma limpa. A camiseta branca é declarada obra. “Obra sem tÃtulo”, está no papelzinho que ele gruda com fita crepe embaixo do cabide que a expõe. A derrota do macho. Muito bom. Não fosse a camiseta nova que poucas pessoas puderam observar, já que ele se retirou imediatamente. Preta, nas costas há vários logos de empresas patrocinadoras: Rádio Imperial de Petrópolis, Sandra’s Buffet, Gráfica Tupi, Espaço 85, Prefeitura de Petrópolis e outras. Ou seja, falsa derrota. O macho – da racionalidade econômica – sobrevive a (quase) tudo.
A outra grande performance da noite foi a Teoria da fala, de Pedro Barateiro, que se apresenta com uma “antropóloga”. Os dois, segurando suas anotações, mimetizam uma bem-educada palestra acadêmica, em que um fala um pouco e, com sorrisinhos e mesuras, passa a palavra para o outro. E o que eles dizem é o seguinte. Um estudante português comprou um livro num sebo de Lisboa e dentro do livro encontrou um manuscrito, em sua maior parte ilegÃvel. Mas deu para perceber que se tratava do diário secreto de uma pessoa pertencente a uma comunidade que tinha decidido abolir a escrita, e até mesmo as palavras da linguagem, renomeando todos objetos.
O manuscrito, após muita pesquisa, foi considerado como pertencente a uma aldeia desconhecida de uma parte remota de Angola. A região não tem limites precisos, não tem uma etnia única, não há descrição geográfica, mas se sabe que não teria acesso do colonizador ou de outras tribos.Também não há, ao que tudo indica, uma lÃngua-mãe determinada. Até mesmo a época não é precisa: por volta de 1950. Os manuscritos contêm a descrição dos exercÃcios de renomeação dos objetos. Esses exercÃcios foram reencenados pelo estudante português, cujo nome também se perdeu. Há uma “foto” de um desses exercÃcios reencenados pelo estudante português: um cara sem cabeça segurando um pedaço de pau, sentado de frente para a câmera, com fundo infinito por trás. A performance é interessante como parábola da descontextualização e ressignificação a que ela se pretende. E é engraçada na sua caricatura do ambiente acadêmico.
No final da noite, a Vermelho foi invadida por um grupo de performers não convidado. Eles colaram um programa, modificado com pilô vermelho, em que incluem o nome deles, e passaram a atuar em todas as dependências da galeria. Como em qualquer final de expediente, limpam o chão, as janelas. Passam uma vassoura. São a Cia. do Medo, de Rafael Mendes. Bom. E fica melhor como invasão mesmo. Todos os chiques batendo o último papo no pátio e aqueles, ahn, faxineiros atrapalhando. Vou descer do banquinho, mas antes, só uma palavrinha sobre a luta de classes. Pronto. Desci.
A performance não convidada criou um contraponto interessante com a primeira da noite: a Identidade, de Louise D.D. fazia a exclusão que os invasores pretenderam apontar: a cada um que entrava, era oferecido um “crachá” de identificação.
Na palestra da tarde, O mediador Mario Ramiro recebeu Marcus Bastos, doutor em semiótica da PUC-SP; e MaurÃcio Ianês, o conhecido artista da própria Vermelho.
Marcus Bastos falou sobre o rastro, o vestÃgio que as performances geram em vÃdeos gravados ou em qualquer tipo de repetição daquilo que deveria ser único. Falou que rastro, tudo gera. Começou com os duplos holográficos de Star Treck. Modernizou até o skype com câmera. Disse que há o rastro da presença em qualquer coisa que se faça. No skype é um rastro desejado, voluntário. Na câmera de vigilância é o rastro involuntário, indesejado. Citou Foucault e Deleuze, na sua preocupação com os mecanismos de controle. Mas citou também grupos de performers que invertem a relação de poder, usando as câmeras de vigilância como partÃcipes de suas atuações.
Ianês falou que seu interesse pela performance se deve ao fato de essa modalidade de expressão se dar sem mediação de um objeto. É o artista e seu público, sem nada no meio. Depois, mostrou alguns de seus trabalhos.
O mediador Ramiro fez um aporte bom ao lembrar que o rastro – voluntário ou não – se antagoniza de certo modo com a liberdade, que é uma das caracterÃsticas principais da performance. De fato, eis uma arte que agride o mercado (não é vendável), as estabilidades identitárias do público, e até mesmo o corpo privado do artista. Com isso, são poucas ou nenhuma as suas regras e limites.
Elvira Vigna é escritora e crÃtica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Nada a dizer", 2010, Companhia das Letras.







































