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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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04/08/2010

O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca

Quando fazia escola de cinema, minha professora de estrutura dramática – de quem guardo ótimas lembranças, mas não consigo me lembrar do nome – apresentou Abril Despedaçado, de Walter Salles, com tamanha riqueza de detalhes que ficamos nós, os alunos, refletindo na aula seguinte se o filme mostrado por ela não seria melhor do que aquele filmado de fato pelo diretor, e também qual seria a triangulação entre esses dois pontos de vista e o do albanês Ismail Kadaré, autor do livro que foi livremente adaptado por Salles.

Já disse em resenhas anteriores que não acredito em um texto imparcial, muito menos em um texto sobre um texto, que é o caso de uma resenha, porque em tudo que lemos ou vemos, 50% cabe a quem exibe e 50% a quem olha, sendo o olhar um filtro instantâneo que não se controla e que depende da bagagem do dono desse olhar, não necessariamente no sentido pedante e intelectual, mas no das coisas que nos cercam ou nos faltam enquanto planejamos a vida.
Digo isso porque o olhar é um ponto importante do recorte proposto pelo autor e porque foram vários os pequenos detalhes me fizeram gostar do novo livro de João Paulo Cuenca, O único final feliz para uma história de amor é um acidente. Eu que passo o dia no computador, imerso na internet, já deixei de ter um pensamento linear faz tempo, pois lido com pequenos blocos de informações que chegam e se vão, são selecionados e descartados sem parar, o que não deixa de ter a ver com a estrutura narrativa múltipla do livro. Vou tentar explicar alguns desses detalhes em um recorte meu, criado sem nenhum sentido prático, apenas por diversão, já que literatura, às vezes a gente esquece, também serve para tal.

Yoshiko

Da primeira vez que li uma chamada sobre o livro na internet, me chamou atenção a Companhia das Letras, teoricamente avessa à literatura especulativa, vendê-lo como um “romance que se passa em um futuro próximo na cidade de Tóquio”. Fãs de ficção-científica estão acostumados com autores do gênero usando os termos near future e far future para situarem seu livro diante do público, e, de repente, lá estava a Cia das Letras usando near future em um release sem medo de ser feliz, o que considero um bom sinal, já que caminho entre a literatura especulativa e realista como leitor e autor. Para quem piscou nas últimas notícias do mundo literário, O único final feliz para uma história de amor é um acidente (um título de mais de meia tuitada) faz parte da coleção Amores Expressos: os autores publicados dentro dela viajaram para diferentes cidades do mundo para se inspirar. Cuenca, você já deve ter adivinhado, viajou para Tóquio para escrever essa teia de estranhas histórias de ódio e amor.

Uma delas se passa entre Yoshiko e o Sr. Okuda. Ele, um poeta supostamente aposentado, visto como artista sensível pelo Japão e como um homem cruel pela família, é o pai de Shunsuke, o protagonista, e dono de Yoshiko. É Yoshiko quem abre o livro e nos conta que ela é a versão high-tech de uma boneca inflável, uma andróide de 50 milhões de ienes com todas as medidas feitas sob encomenda para agradar aos caprichos do Sr. Okuda, inclusive os sexuais e suas modestas medidas. De vez em quando, Yoshiko assume a narrativa em letras vermelhas e compartilha sua visão de mundo com o leitor. Tudo que sabe vem das experiências que passa com o Sr. Okuda, das poesias que ele recita para ela e de suas explicações contraditórias sobre o mundo. A evolução de pensamento de Yoshiko carrega uma ironia leve que vai se acentuando no decorrer da história e se integrando à trama principal.

“Antes do Sr. Atsuo Okuda abrir a caixa, tudo estava escuro. Mais que isso: não havia nada para ser iluminado antes do Sr. Okuda abrir a caixa. Se o Sr. Okuda nunca houvesse aberto a caixa, nada existiria. O mundo só começou a partir do momento em que o Sr. Okuda abriu a caixa e disse a palavra. Ele disse: Yoshiko. E Yoshiko ficou sendo o meu nome”.

Além de poeta, pai insensível e parceiro sexual de uma andróide, o Sr. Okuda também é dono de uma agência de espionagem e assiste a tudo de seu periscópio.

O Periscópio

Faz tempo que Big Brother is watching you deixou de ser um jargão de 1984 de Orwell. Somos uma sociedade conectada em tempo integral, exposta em mídias sociais, viciada em shows que exploram a realidade de n maneiras diferentes. Essa sociedade exibicionista e voyeurista é abordada por Cuenca como mais uma camada narrativa. O leitor não só acompanha a vida do protagonista Shunsuke, como o acompanha espionando a vida de sua amada Iulana, virando parceiro de sua invasão de privacidade em um convite direto:

“Através da janela do café, vemos Misako chegar vestindo um sobretudo branco que cobre suas pernas até a metade do tornozelo. Os botões do casaco são dourados, assim como os detalhes das botas do salto alto, as unhas e o tom geral da maquiagem”.

Shunsuke, e agora o leitor, é espionado, mas também espiona. Está dos dois lados ao mesmo tempo, o que permite ao autor preservar um olhar estrangeiro sem comprometer a credibilidade do protagonista como nativo. No fim das contas, O único final feliz… é um mosaico de pessoas (ou não) que não se adéquam ao seu entorno. Iulana, interesse amoroso de Shusuke, é de fato uma estrangeira, pouco fala do japonês, em nada se parece com as japonesas. Desde o início ela é feita para ocupar o papel de outra mulher – uma japonesa, por isso um encaixe impossível – e quando deixa de ser simplesmente uma substituta, Shunsuke percebe que não a conhece de verdade, um não conhecer comum a vida nas grandes metrópoles. Já ele, apesar de japonês, é alguém que não gosta da vida que leva, do emprego que não pensará duas vezes em largar, da sina maldita de seu pai. Sua inadequação é outra, mas também persistente.

O Fugu

Para os ignorantes como eu que não sabiam disso, fugu é o baiacu. Ele está lá na capa da Retina_78 que é linda e tem como seu único pecado ceder à mistura de “Orange and Teal” que se tornou obsessão nos filmes a cartazes Hollywoodianos. Ele está presente através da figura de Suguro Shibata, braço direito do Sr. Okuda e professor da Associação do Fugu Harmonioso de Tsukiji, especialista em cortar o baiacu e tirar tudo que possa envenenar os que gostam de degustá-lo, e também como o fugu número 572 do lote 09.4509, do qual acompanhamos parte do percurso num comparativo ao estado de espírito de Shunsuke e sua incapacidade de descobrir que rumo tomar na vida sob a sombra (e câmera indiscreta) do pai.

Falando em pai, Shunsuke reservou ao dele o apelido carinhoso de Sr. Lagosta Okuda, por vê-lo em seus delírios dessa forma, com cara de lagosta, a despejar suas verdades sobre a vida do filho em forma de poesia.

Gyodai

Como não gostar de um livro que tem o Gyodai, passeando assim, como quem não quer nada, no meio da cidade? Se você não tem a minha idade, talvez não saiba que esse monstrinho simpático com um olho enorme era um personagem-chave da série japonesa Changeman. Quando o Esquadrão Relâmpago conseguia destruir o vilão do episódio, o Gyodai aparecia e lançava um raio no cadáver, fazendo com que ele não só voltasse a vida como também se tornasse um monstro gigante, prontamente combatido pelo robô gigante dos Changeman. Além de ser mais uma brincadeira com as referências da cultura japonesa presentes no livro e mais uma referência ao olhar, o Gyodai marca o ponto em que o realismo e o fantástico se mesclam fora dos delírios do protagonista, e passam a ser indivisíveis, numa naturalidade que é comum à juventude fã de videogames, 3D, animes e cosplay, e abrindo caminho para o final, aquele, do acidente.

Assim como Lars von Trier fez em Dogville no começo de cada capítulo visual, J.P. Cuenca explicita a tragédia no título e no início do texto, uma jogada, não sei se intencional, que desloca a atenção do final do livro para o processo que leva até ele, permitindo aproveitar melhor seus múltiplos olhares, como uma mosca, como a sala do periscópio, numa jornada fragmentada por um mundo underground que pode ser Tóquio ou os recônditos da mente do protagonista e de seu parceiro de voyeurismo, o leitor.

 


Eric Novello é escritor e roteirista, formado no Instituto brasileiro de audiovisual - Escola de cinema Darcy Ribeiro.

O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca



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