Quantas madrugadas tem a noite
O título é ótimo. Sempre pensei escrever um livro com um título assim, ou algo como Quantos gritos tem o silêncio ou Quantas mortes tem a vida. Acho genial. Milhares de pessoas já devem ter tido essas idéias, mas acontece que apenas uma delas é famosa, escritor conhecido, pelo menos em Angola, o Ondjaki.
No Brasil, com exceção de pessoas do meio acadêmico especializado, acho improvável que alguém puxe conversa na fila do banco sobre Ondjaki. Na realidade, acho pouco provável que puxem qualquer conversa sobre literatura… Mas se isso acontecesse, naturalmente a personalidade seria brasileira, portuguesa ou de qualquer outra nacionalidade, desde que best-seller ou autor consagrado, canonizado, que certamente foi um best-seller em seu tempo.
Em comparação com outros escritores angolanos, Ondjaki é jovem. Começou a publicar há pouco tempo, em 2000 (Actu Sanguíneu), mas já ganhou prêmios e foi traduzido para algumas línguas, o que não significa popularidade, uma vez que ele escreve em português, tem livros publicados no Brasil e ainda assim está longe de ser conhecido pelo grande público daqui.
Também, não se pode esperar muito do público leitor brasileiro. Aqui, a máxima de Silvio Romero ainda funciona consideravelmente: “neste país aquilo que muito agrada, tenho a certeza de que não presta.” Lê-se pouco e mal. É claro que as coisas mudaram bastante desde o final do século XIX, mas a verdade é que o brasileiro continua não lendo. O cidadão alfabetizado, até com formação universitária, com poder aquisitivo, não lê ou lê muito pouco. Por isso é muito comum comemorar quando lêem alguma coisa, nem que seja uma porcaria: pelo menos está lendo…
Está certo que a literatura no Brasil começou a despontar no final do século XIX, quando o valor social do escritor foi reconhecido, o romantismo instaurou, ao seu modo, bastante criticado, a idéia de nacionalismo e etc. É tudo muito recente, sabemos, mas desde então, para justificar a falta de hábito da leitura, as mesmas desculpas são ouvidas: a taxa de analfabetismo é grande, o acesso aos livros é difícil, fisicamente e financeiramente. Acontece que essas justificativas, exceto o analfabetismo, não procedem nos dias de hoje. O livro está acessível. É vendido em cada esquina, em bancas de jornal, em sebos, em camelôs, em cidades pequenas e grandes, no interior, nas capitais. O preço varia de 50 centavos a 500 reais, ou seja, cabe em todos os bolsos. Além disso, há bibliotecas públicas nos grandes centros e, em algumas cidades pequenas, há bibliotecas particulares abertas à comunidade, montadas por cidadãos exemplares que pelo simples gosto de leitura resolveram incentivar o contato com o livro.
Conclusão: o que falta é vontade.
Mas o que Ondjaki tem a ver com isso? Muito. Em Angola, o problema é o mesmo. A diferença é que lá a literatura ampla e divulgada é muito mais recente. Na década de 1950 é que começou a tentar crescer, mas com a ditadura portuguesa dominando as ruas e as vidas das pessoas, tudo ficou mais difícil. A temática dos romances, contos e poemas, era muito recorrente. Tudo muito social, descrevendo as agruras plantadas pela colonização e todas aquelas dificuldades enfrentadas pela população. Eram muitos os pobres, oprimidos, e sem estrutura alguma. A literatura era uma ferramenta de luta, de oposição. Depois de 1975 é que as coisas começaram a melhorar, bem lentamente. Um grupo de escritores fundou a UEA e então um mercado editorial pode se formar. Vários autores publicaram suas obras, mas o assunto abordado, em sua grande parte, mantinha o mesmo caminho anterior a 1975. E não poderia ser diferente. Suas memórias, sentimentos e experiências estavam todas relacionadas ao que viveram durante séculos. Quando não é escravidão, é ditadura. A liberdade é tão jovem quanto Ondjaki. Portanto, as desculpas utilizadas para justificar a falta de leitura do público brasileiro não cabem mais aqui, e sim em Angola, que já tem posto em prática vários projetos culturais de incentivo a leitura, abertura do mercado editorial, financiamentos para novos escritores, e etc. Resta saber se por lá vai dar certo. Por aqui, não sei qual é a solução. No momento, estamos regredindo. Tentamos arduamente fazer crescer a taxa de analfabetismo e tenho certeza de que conseguiremos. No Rio de Janeiro, pelo menos, o empenho é grande. Estudantes chegam ao ensino médio da rede pública estadual sem saber ler. Dessa forma, poderemos culpar o analfabetismo pela falta de leitura com toda a tranqüilidade.
De volta ao Ondjaki, que acabou sendo coadjuvante em meio as minhas reclamações, seu texto continua muito bom. A escrita é leve, informal, os termos africanos empregados no texto imperam. Folheando o livro de relance, é quase outra língua. Mas é gostoso, diferente. Não é um livro imperdível, mas vale a leitura. Quantas madrugadas tem a noite é uma conversa jogada fora, papo de botequim, só que na África. Lá também tem conversa fiada. Algumas menções à política, à tradição, alguns questionamentos, todos regados a muita cerveja. Uma das passagens mais bonitas do texto, se não a mais bonita de todas, é essa:
“Como sabem, sonhar com o mar é sonhar com as lágrimas, e não as lágrimas leves dos momentos felizes, mas as lágrimas de qualquer tristeza que está para chegar…”. (p. 156)
Os angolanos têm uma relação muito dolorida com o mar, que era a via de chegada e de partida das embarcações que levavam os homens, os pais de família, os jovens, para o trabalho forçado. E também trazia as más notícias, quando os mesmos não retornavam.
Quantas madrugadas tem noite foi publicado em 2004 em Portugal, pelo Editorial Caminho. Aqui no Brasil, agora em 2010, foi publicado pela Leya, editora portuguesa instalada recentemente em São Paulo. Com escritórios em Moçambique, Angola, Portugal e Brasil, essa editora pretende fazer um amplo intercâmbio literário entre esses países e divulgar obras dos novos autores africanos.
Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.







































