Rodolfo Vanni
Não é só brincadeira. Embora seja fácil ver a exposição de fotos de Rodolfo Vanni, na Fauna Galeria, só para isso mesmo, dar risada. Ele pega o distraÃdo, o que não era para estar lá, o não-consciente. Ou, em linguagem mais chique, aquilo que Baudrillard gostava de apontar nas fotos bem antigas, quando ninguém ainda tinha o simulacro de si mesmo, ali, já pronto para apresentar a um outro ou à câmera.
Há impagáveis. Exemplo: os astronautas da capa do catálogo, fazendo o gesto que no Brasil é considerado tão feio, e que para eles lá, os gringos, quer só dizer que está tudo bem e vai ficar melhor ainda. Nesta imagem, a câmera pega a falha sem que ela esteja lá. É uma falha entre culturas. Falha de tradução, não de construção. Em outras, a câmera pega a falha de construção. Agora, não mais cultural ou só cultural, mas individual.  E é uma falha que sim está lá. Sempre há uma falha, ainda bem. Nós é que a escondemos – de nós mesmos e da câmera imaginária, que hoje (Baudrillard tem toda a razão) carregamos sem parar, como um alter ego que julgamos melhorado.
Mas não é só brincadeira essa brincadeira que Vanni faz nas cidades em que esteve ou viveu. É só mudar o contexto e transferir o mesmo processo criativo para eventos mais pesados do que um cachorro-quente burguês e familiar, um casamento, uma ida ao dentista. E aà a coisa pesa.
Ninguém quer ver de fato tudo o que se passa. Ou lembrar. As fotos de Vanni, em que pese a titularidade sempre ligada ao local em que foram feitas (Buenos Aires, São Paulo), se referem não a lugares, mas a uma possibilidade. E, por causa disso, elas expressam não o espaço efetivamente fotografado, mas uma temporalidade dúbia, um futuro-passado, um núcleo de alternativas não levadas em frente, mas que podem. É um discurso não duplo, mas multi. O caminho por assim dizer “oficial”, e todos os outros, abortados. E, ao fazer isso, Vanni toma uma posição de questionamentos muito mais profundos, polÃticos. Adeus otimismo da via única, hegemônica, e de mais conceitos oriundos do mesmo botãozinho burro, como ordem global, racionalização econômica, direcionamento do mercado, e por aà vai. Seu foco inclui um julgamento, um apontamento, ainda que com o riso como único castigo.
Pegando realmente pesado, cito Primo Levi em Afogados e sobreviventes: “Nestas condições, mesmo sem haver dúvida da existência dos que mentem conscientemente ou dos que falsificam a realidade, em ainda maior número haverá os que simplesmente levantam âncoras, se distanciam – por um tempo ou para sempre – de suas memórias mais sinceras, fabricando a realidade que lhes dê prazer.”
As condições de que fala Primo Levi são, é claro, as do pós-guerra.
A impressão que dá é que Vanni tem um correspondente contemporâneo e mais superficial do que seria, no século XX, uma “culpa de sobrevivente”. Aquilo que os que se vêem ainda vivos depois de traumas profundos sentem: uma certa desconfiança com o andar normal dos minutos e da vida.
O pior é que, ao dividir um riso, Vanni supõe – e supõe certo, já que riso existe – que sobreviventes desassossegados de algo grave que aconteceu a outrem, ou que deixamos que acontecesse a outrem, de algum modo somos todos.
Deve ser porque afundo no que penso. Mas, ao olhar a capa do catálogo com as palavras Mentiras/Verdades sobrepostas, o que li foi Interditadas. Que quer dizer aquilo que não é dito. E muito menos fotografado.
Metonimicamente, Vanni permite a presença de um rastro desta sombra que intuo. É a sua sombra, presente aqui e ali, no que fotografa.
Elvira Vigna é escritora, com um mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro: "O que deu para fazer em matéria de história de amor", 2012, Companhia das Letras.


















































