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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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26/08/2010

O historiador como colunista

Peter Burke escreve periodicamente para a Folha de São Paulo e resolveu, recentemente, juntar tudo, todos os ensaios, e publicá-los em forma de livro. Não sozinho, é claro. Ele não precisa disso. A responsável foi a Civilização Brasileira, um dos milhares de selos do Grupo Record.

Eu não assino a Folha, logo nunca havia lido seus textos de jornal. E existe uma enorme diferença entre aquilo que se escreve para uma coluna de jornal e o que se escreve na Academia, como é o caso dele. Como historiador e professor, seus textos costumam ser mais longos, específicos, aprofundados. Já no jornal, os caracteres são contados e o tema, ou pelo menos o título, precisa ser muito atraente para gerar interesse por parte do leitor de jornal, que é um público muito variado. Bom, o fato é que ninguém investe tempo na leitura de um texto que não parece atraente.

No caso de Peter Burke, ele soube se adaptar ao jornal com maestria. Escreve sobre todo tipo de assunto, de fofoca a Michel de Certeau. Os textos são curtos, são também leves e até superficiais. Mas não tão superficiais a ponto de transformá-los em textos bobos ou inconsistentes. Até porque essa característica seria improvável num texto escrito por Peter Burke. São bons. Funciona assim: O Peter levanta um tema, desenvolve-o um pouco e deixa-o no ar. Você decide se vai querer pesquisar mais sobre o assunto depois ou não. É muito simples e dá certo. Esse livro de ensaios de que falo, O historiador como colunista, é como um catálogo de pré-projetos para uma pós-graduação. Aliás, essa definição seria um ótimo chamariz para as vendas dispararem!

Um dos ensaios mais curiosos é o intitulado “A leitura tem uma história?â€, da seção “A história social do cotidianoâ€. Nesse texto ele comenta a transição da forma como é feita a leitura. Explica que antigamente as leituras eram públicas, feitas em voz alta. Com o tempo, a leitura foi se tornando uma atividade individual, solitária. Durante essa transição, muitos liam silenciosamente, mas fazendo movimentos labiais. E, no final das contas, atualmente, as pessoas lêem de todo jeito. Alto, baixo, sozinhos ou em público. É interessante. Mas o que me fez pensar mesmo foi o encerramento do ensaio, em que o autor conclui sua proposição assim:

“na história cultural a mudança é mais aditiva do que substitutiva; em outras palavras, quando novas idéias, novos objetos ou novas práticas aparecem, coexistem com outros mais velhos, em vez de os expulsar.†(p 230)

Será mesmo? No caso da leitura, que é uma prática, funciona, mas penso nos vinis, nas fitas cassete e no CDs, e em como esses objetos estão todos sendo substituídos pelos mp3 e cia. Hoje em dia, os discos de vinil são peças de colecionadores, a tiragem é mínima. As fitas sumiram do mapa. Os CDs estão sendo gradualmente superados e logo serão esquecidos. É claro que tudo isso acontece em longo prazo, mas existe um prazo. Fica difícil acreditar numa coexistência justa. Não acho que o vinil e o mp3 estejam coexistindo no momento.

Isso tudo me leva a pensar nos e-books. Eu, como amante dos livros de papel que sou, gostaria de me convencer de que o e-book não vai expulsar o livro tradicional da face da terra.

Outro dia li uma matéria que dizia que o Japão não sabe mais o que é livro impresso. Os jovens leem romances no celular. Isso é um extremo. Bom, o Japão é um extremo. Mas em outros países, como Estados Unidos e Alemanha, muitas editoras já trabalham com venda de conteúdos digitais para equipamentos de leitura eletrônica. E a tendência é mesmo que esse mercado cresça. A nova geração de leitores vai poder fazer mais uma atividade na frente de uma tela. Vai poder clicar em links no meio de um romance e ir para um dicionário, quem sabe. As crianças vão ouvir sons, ver ilustrações se movimentando e etc. O “livro†vai ter sempre o mesmo peso, vai poder ser levado para todo o lugar. Tudo muito encantador e atraente.

Por outro lado, as tomadas serão muito requisitadas. Os direitos autorais terão que ser levados a sério. E as anotações feitas nos livros impressos não ficarão mais para a posteridade. Os pesquisadores do século XXII ficarão desapontados com a perda desse precioso material. Quanto a isso, Peter Burke tem toda a razão:

“os historiadores têm boa razão de se alegrar com o fato de que algumas pessoas leem com os dedos [...], sublinhando frases ou escrevendo comentários sarcásticos nas margens dos livros [...]. Depois da passagem de uma geração ou duas, esses rabiscos marginais, como os grafites nas paredes, deixam de ser irritantes e se transformam em preciosos indícios sobre atitudes do passado. Existe uma quantidade dessas anotações e elas agora são estudadas cada vez mais profundamente.†(p. 228)

Não me considero uma pessoa radical, mas agradeço muito por ter uma idade que vai me permitir comprar e conviver com os livros impressos até meus últimos dias. Que fique claro que não quero morrer cedo, só espero que essa mudança ocorra num prazo bem longo!

 


Juliana Porto Fontes é formada em Letras pela UFRJ, com especialização em Literatura Brasileira e mestrado em Estudos de Literatura, ambos pela PUC-Rio.

O historiador como colunista



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