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ISSN 1980-7767

ano 7
edição atual: número 35, janeiro & fevereiro de 2012

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01/09/2010

Os Pequenos Deuses da Trapaça

De quando em quando recebo e-mails de escritores, que como eu, usam da internet para divulgar suas obras. Algumas vezes temos gratas surpresas, uma delas foi Manuel Carreiro, autor de “Os Pequenos Deuses da Trapaça”. O primeira coisa que notei em seu e-book, foi os pequenos detalhes, que logo me mostraram, de um lado o humor do autor sobre o próprio ofício, de outro a reflexão profunda sobre a forma de se publicar um livro.

Tive vontade, ao escrever estes breves comentários de apenas analisar os aspectos formais da obra do autor, pois valeria à pena me ater a eles, mas não seria justo com o autor não ressaltar o texto. De tal forma, gostaria de de ressaltar a primeira ironia do livro. Quem já comprou algum livro editado na América do Norte, deve ter notado que nas primeiras páginas, derramam-se elogios ao autor, sempre feitos por personalidades de respeito, para Manuel Carneiro quem o recomenda é somente aqueles que jamais poderiam ter lido o livro. Defuntos elogios ou elogios defuntos, os vermes que primeiro roeram as carnes de Brás Cubas, agora homenageiam Manuel Carreiro.

Tenho certa afeição à fábulas. O conto, em sua origem, tem a tradição fabular, e seus fiapos costumam ficar aparentes nos dentes dos escritores com formação filosófica. Desde o título “Pequenos deuses da trapaça” quanto na escolha da narrativa curta e direta, impregnada de metáforas e palavras cuidadosamente escolhidas por seus significados simbólicos a obra me remete à fábula. Talvez pela influência da obra crítica de Italo Calvino, procuro os elementos fabulares que ele escolheu para a literatura que ele esperava (v. Seis Propostas para o próximo milênio – Ed. Cia das Letras). O texto de Manuel Carreiro apresenta todas: 1) leveza, 2) rapidez, 3) exatidão, 4) visibilidade e 5) multiplicidade. Vale lembrar que a sexta, e última (Consistência), nunca foi escrita pelo italiano que faleceu antes de escrever para o ciclo de palestras que faria em Harvard.

Assim, o conjunto de contos do autor (aqui referidos como contos por apresentarem a forma breve e sem entrar na classificação das formas, que para mim é apenas ilustrativa e acadêmica), formam um pequeno universo de fábulas de nosso tempo. Está lá sua reflexão do (anti) herói moderno, em constante crise com seu mundo. Não vejo como é possível fazer literatura de relevância sem explorar cada aspecto dessa ruptura definitiva.

Não há como ler um dos contos de “Os Pequenos Deuses da Trapaça” sem ao final ter mais dúvidas que certezas. A primeira, talvez única, certeza é que estamos diante de um texto em que nenhuma palavra está fora do lugar, como se cada uma delas fosse resultado de reflexão. Esta é a reflexão que nos gera a exata dúvida que nos leva de volta ao início do conto. A angustia que encontramos no texto está na imagem refletida do leitor sobre o texto buscando não se identificar com cada linha que parece envolvê-lo. Não queremos estar no texto de Carreiro, mas somos levados à releitura exatamente pela dialética Hegeliana dessa busca cíclica.

O impulso cíclico (e reflexivo), não é vicioso, como pode esperar o leitor rasteiro, mas virtuoso. Nas palavras do autor é um livro de resistência e hermético na forma. A leitura fácil das redes sociais é negada. Por certo, ao pensar “que merda é essa?” (como deseja o autor) o leitor precisa abrir mão das facilidades do conteúdo vazio e rasteiro da era da informação e encarar a reflexão com o sabor amargo dos remédios.

Sem entrar na descrição de cada um dos contos, vale ressaltar especialmente o conto “Quero ser outro”. Nesta pequena estória, o autor trabalha com a dualidade do ser humano, sobre aqueles impulsos de admiração e inveja que nos faz querer ter/ser algo que não temos/somos. O conto encerra ao mesmo tempo com uma frase reflexiva mas que dá o ar de “causo à moda antiga”.

Creio que vale a pena, para quem for ler a “Os Pequenos deuses da Trapaça” degustá-lo lenta e pacientemente, pensando a cada conto sobre o que leram e preparados para voltar ao seu início. Como uma boa piada, voltando ao tema do humor, cada sorriso que a obra nos proporciona, mostra nossa capacidade de rirmos de nós mesmos.

Segue abaixo, pequena entrevista que realizei com o autor Manuel Carreiro:

1. Eu notei bastante humor em pequenos detalhes do seu livro. Entre eles os trechos de resenha de autores já falecidos, que não poderiam ter lido seu livro. Qual é a importância do humor em sua prosa?

O humor é importante para abrir caminho pra ironia. Aquela página das resenhas dos autores falecidos é apenas um dos diversos aspectos do livro que visam fazer chacota da indústria cultural e do mercado editorial. Aliás, eu procurei fazer um livro sutil, mas altamente subversivo na sua sutileza. O título desta página das resenhas (International praise for “Os pequenos deuses da trapaça”, by Manuel Carreiro) está em inglês justamente para parecer pomposo e para fazer troça destas páginas ridículas muito comuns aqui na América do Norte, onde os resenhistas dos jornais fazem comparações esdrúxulas como “o novo Elvis da crítica cultural”, “um verdadeiro pop star das letras”, “top da lista do new york times review do caralho a quatro”, apenas para alavancar as vendas de um livro que é, geralmente, muito ruim. Coloquei os comentários na língua original do autor (inglês, português e alemão tosco, porque não sei nada de alemão) no intuito de apontar para a grande bobagem que essas páginas são. E também pra forçar a curiosidade de um leitor atento. O leitor curioso de verdade vai ao dicionário conferir o que tá escrito ali… A citação do Gutemberg, por exemplo, é extremamente irônica e cortante em tempos de e-books e de aparelhos de leitura – mas me pergunto se alguém foi pelo menos ao Google translator pra conferir o que tá escrito ali! Há outras coisas que considero engraçadas no livro. O conto sobre Adão e Eva é na verdade uma piada. O comportamento do personagem número um do conto “Quinta-feira” é patético e triste. Os meninos de “Quero ser outro” são ridículos como nós, querendo sempre ser outra coisa que não nós mesmos. Acho que meu livro possui um humor meio amargo, mas também necessário. Mas é um livro que ri principalmente do autor.

2. Por que a preferência pela forma curta?

Fernando, em determinada altura da minha vida, resolvi assumir a minha incompetência. Eu já havia decidido há alguns anos atrás que eu jamais seria capaz de escrever um romance relevante. Sinceramente acho os meus contos relevantes. Não digo que sejam melhores nem piores do que os de ninguém, mas são relevantes porque são instigantes e abertos. Convidam o leitor atento a pensar um pouco. Claro que escrevo em busca de um leitor ideal. E o meu leitor ideal é lento, preguiçoso, vagaroso. Gosta de ler bem devagar, reler um trecho. Coçar o queixo. Pensar um pouco. Sublinhar. Dobrar a página e maltratar o livro. Desdobrar a página. Retomar a leitura. O livro do meu leitor ideal tem manchas de café e farelo de pão dentro dele, porque ele carrega o livro consigo. Ele não sacraliza o objeto. Ele gosta do que vai lá escrito. E aquilo o influencia. Ele sente o que lê. E a única maneira que encontrei para me expressar foi assim – escrevendo contos. Por ora, não vou mais escrever ficção. Pode ser que daqui a 10, 15 anos, se me for dada a graça de estar vivo, apareça algo. Mas por ora, fico 4 anos escrevendo a minha tese-manifesto de doutorado sobre a crise da educação contemporânea e rascunhando um roteiro de filme.

3. Este é um livro de estórias. como você diferencia Estória e História e porque essa escolha para seu livro?

Na verdade não faço distinção entre Estória e História. Até mesmo porque a História também é uma arte narrativa. Ela é uma Estória. Coloquei “Estória” lá por duas razões: uma é fazer uma espécie de homenagem ao João Guimarães Rosa. A outra é resgatar uma palavra tão bonita que caiu em desuso. Resgatar a palavra também é afrontar o desuso.

4. No livro existe, de maneira recorrente, a decomposição de palavras. em que aspecto foi importante a reflexão sobre a forma na expressão do conteúdo na composição do livro?

Decompus e fundi palavras para dar ritmo à narrativa, para inserir pistas sobre os paradoxos e enigmas presentes no texto. Pensei bastante sobre a forma. Houve um momento em que achei que a decomposição, a fusão, a inversão de palavras, enfim, tudo aquilo estava errado. Daí limpei todo o texto. O livro inteiro. O texto ficou fácil, gostoso, compreensível, amigo do leitor. Daí me senti desonesto. Achei que a melhor forma de ser legal com o leitor é não sendo amigo dele. É fazer algo que perturbe a sua alma sossegada. Daí procurei sujar o texto mais com esses elementos todos. Achei que era mais honesto escrever pra mim. O conto “Onde a mulher teve um amor feliz é a sua terra natal”, por exemplo, me tomou 3 anos ininterruptos de trabalho. Jamais o abandonei por 3 anos. Reescrevi, tornei-o mais acessível, compliquei novamente, cortei, reescrevi à mão. Achei que era necessário o livro ser formalmente quase hermético assim para manter o seu caráter subversivo. Quando digo que ele é subversivo, quero dizer que ele força o leitor a pensar e a refletir. (Por isso espalhei espelhos pelo texto). Até por isso, sei que pouca gente irá lê-lo. Ele é um livro anti-twitter, anti-mensagem ao celular, anti-falar ao telefone e dirigir, anti-MSN, anti-redes sociais. Gosto de imaginar um leitor imprimindo o e-book em casa, encadernando o livro e levando ele para uma floresta. Ele dá uma banana pra civilização, e fica horas, com um lápis à mão lendo e pensando – “que merda é essa?”

E essa inquietude muda sua vida pra sempre.



Vale Lembrar que o Livro “Os pequenos Deuses da Trapaça” está disponível para download no site do Autor: http://ospequenosdeusesdatrapaca.wordpress.com/

 


Fernando de F. L. Torres é advogado, formado pela PUC-SP e escritor. Publicou o livro "Estudos sobre a Leveza" pela Ed. Multifoco e colabora com as revistas eletrônicas Aguarrás e Mundo Mundano. No Blog Arlequinal costuma a escrever sobre literatura e artes.

Os Pequenos Deuses da Trapaça



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