Um passeio ao centro da cidade é sempre interessante. Não, não se concentre nos camelôs, operadores de trânsito apitando ou entregadores de propaganda. Concentre-se na cidade e, perdoem o clichê, no seu coração: o Centro. Se a cidade tem vida própria, o centro tem vida própria dentro da vida própria. Outro clichê: ele tem uma pulsação diferente.
Todos os dias você passa ali, com pressa, calor e cansaço. Toda a sensibilidade que se possa ter desaparece ao avistar um termômetro de rua e descobrir que ele marca trinta e muitos graus. Um pensamento gritando é mentira, tá muito mais! invade sua mente e ganha a atenção de todas as células do seu corpo. Em todos eles, buzinas, apitos e motores compõem a trilha sonora que preenche seus ouvidos e tomam conta das últimas partes ociosas que você possa ter.
É nesse mesmo Centro que está em cartaz a exposição Sinestesia, de Leonardo Miranda. Cinco galerias do 2º andar do Centro Cultural da Justiça Federal são ocupadas pelo trabalho realizado pelo artista nos últimos cinco anos. Como título pressupõe, sinestesia vem do grego syn (união) e aisthesis (sensação), a exposição é baseada na combinação de sensações distintas numa impressão única.
A entrada da exposição já é um bombardeio de imagens. Ao observar as paredes com coisas escritas, o chão cheio de papeis e folhas e ouvir a música alta, ouvi, instintivamente minha mãe gritando pra eu ir arrumar meu quarto. Era uma imagem mental imediata: de algum modo, a obra de arte estava falando comigo.
Seguindo pela área de exposição, pode-se ver as mais diferentes formas de arte. Tem de tudo: fotografia, vídeo, escultura, poesia, música, instalação. Talvez possa parecer uma grande confusão e, de fato, é. Entretanto, isso não diminui a potência do trabalho. O excesso de informações gera uma expansão dos sentidos e redimensiona a experiência do espectador. Você quer ver tudo, ler tudo, ouvir tudo, por isso, fica mais atento. Ao caminhar pelo espaço, as sensações vão surgindo, misturando-se e se transformando em outras.
Além disso, a exposição também é feita pela apropriação das sensações do espectador. Existe um estímulo para que cada visitante deixe sua impressão no local. As paredes são escuras e há giz branco espalhado por todo o ambiente. Folhas de papel e canetas também estão à disposição, próximas de um varal e pregadores. A ideia é que a parte mais interessante é a de cada um: pode escrever, pode rabiscar as paredes, pode fotografar, pode encostar e mexer na maioria das obras. Ninguém vai te olhar de cara feia ou dizer pra ficar atrás da linha marcada no chão.
Portanto, é fundamental perceber que Sinestesia estabelece um laço importante com o público: quem vai, sente-se bem-vindo. A conexão fundamental com espectador, que todo tipo de arte precisa, é feita desde o primeiro momento no espaço. O espectador se sente fundamental para que o processo aconteça e isso garante o sucesso do trabalho e a satisfação de quem visita.
Dessa maneira, todo o caos do lado de fora do centro cultural é transposto artisticamente para dentro dele. Não se preocupe, não há operadores de trânsito apitando pelos corredores. Mas há o ambiente da explosão de informações e da mistura de sensações. Uma sugestão: visite a exposição no final de semana. Ir ao centro do Rio no sábado à tarde ou no domingo agrega ao passeio um elemento a mais: a cidade está em repouso. Todo aquele ambiente, de certo modo hostil, sentido durante a semana, está ausente. O contraste é a primeira experiência sensorial de uma visita nada óbvia. É comum entrarmos em algum lugar, uma livraria ou café, para fugir do caos diário. Entrar em Sinestesia é mergulhar nele. Um caos seguro e interessante.
Serviço
Sinestesia, de Leonardo Miranda
Centro Cultural da Justiça Federal
Avenida Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro
Aberto de terça a domingo, das 12h às 19h.
(21) 3261-2550
Até 12/02.