Perdoa-me por me traÃres
Perdoa-me por me traÃres (1957) estreou nesta sexta, dia 21 de maio, em Ipanema, no Rio, homenageando os 30 anos da morte de Nelson Rodrigues (1912-1980), que será completado em dezembro.
A montagem dirigida por Claudio Handrey é um exemplo de teatro de qualidade que consegue revisitar um texto bem conhecido com muita competência. Cenário simples, ótimos atores e a escolha de um texto de Nelson que dispensa comentários geraram um espetáculo impecável.
São 100 minutos que nos fazem mergulhar naquele universo rodriguiano que nunca deixará de ser chocante ao apontar a hipocrisia da sociedade. A adolescente Glorinha, ao se prostituir numa casa especializada em satisfazer polÃticos, desperta em seu opressor tio Raul, que tomou conta dela após provocar o suicÃdio da mãe e a internação do pai, a vontade de revelar os segredos de famÃlia que levaram todos à ruÃna, em que os fins trágicos dos personagens representam o fim dos desejos reprimidos. No fim da peça, Raul tem em sua morte a vingança e a libertação da sobrinha. Peça densa, cheia de questões que nos fazem perceber o quanto o texto, do final da década de 50, foi marcante na época.
Nelson Rodrigues é Realista. Portanto, como é peculiar ao gênero, seu texto traz a crÃtica à sociedade e o erotismo em seu corpo. A peça Perdoa-me por me traÃres – assim como Os sete gatinhos, O beijo no asfalto, Bonitinha, mas ordinária, entre outras – traz também o tom da tragégia grega para a sociedade carioca do século XX, surgindo, assim, o que chamamos de “tragédia carioca”.
Alguns pontos merecem destaque, como a trilha sonora, bem incorporada, enfatizando os momentos de tensão à moda antiga, a maquiagem em tons de preto simbolizando os rostos desesperados – aliás, as expressões paralisadas nos rostos dos atores muitas vezes parecem máscaras, aquelas velhas máscaras do teatro grego – e os tons escuros de alguns figurinos que trazem em si o lado obscuro dos personagens.
Essa montagem é um exemplo do valor de um clássico. Ironias, drama, dor, desejos, tÃpicos de Nelson, estão encenados nesta peça. Vale a pena assistir aos acertos do diretor, à boa atuação do elenco e ao fôlego do texto.
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Claudio Handrey
Elenco: Leonardo Miggiorin, Claudio Handrey, Charles Davis, Breno Guimarães, Bianca Montanas, Andressa Lameu, Alice Motta, Patricia Ramalho, Tamires Nascimento, Fabiana Aveiro e Manuellita Lustosa
Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema / RJ
Doidas e Santas
“Doidas e Santas†estreou ontem no Rio de Janeiro, Teatro do Leblon, sala Tônia Carrero e fica até 25 de julho. A montagem é boa: uma comédia romântica de Regiana Antonini baseada em crônicas de Martha Medeiros, dois simpáticos atores, Cissa Guimarães e Giuseppe Oristanio, e uma ótima atriz que interpreta três papéis, Josie Antello, dirigida por Ernesto Piccolo.
O texto trata de um momento da vida da personagem Beatriz, um tÃpico estereótipo de uma mulher chegando aos 50 anos. Insatisfação, questionamentos, problemas com o casamento, o olhar sobre o universo masculino versus o feminino, etc.
O cenário é simples, apenas uma representação de uma sala de estar, com sofá e estante. Os pontos mais engraçados ficam por conta das falas da mãe de Beatriz. O tom é bom e se mantém bom até o fim. Nenhum problema. Talvez tenha um público bem especÃfico, talvez não ganhe milhões de prêmios, mas o que isso importa?
Enfim, cumpriram o que estava na proposta: deram conta do texto de Martha Medeiros, criando um momento de descontração, de entretenimento agradável. Tudo dentro do esperado.
Texto: Regiana Antonini
Direção: Ernesto Piccolo
Elenco: Cissa Guimarães, Giusepe Oristanio e Josie Antello
Cenário: Sérgio Marimba
Direção de Produção: Maria Siman
Os Difamantes
Os Difamantes, texto de Martha Mendonça e Nelito Fernandes, com direção de Ernesto Piccolo, traz o problema da qualidade dos programas televisivos e questiona os atributos das celebridades instantâneas.
Beatriz e MaurÃcio, representados por Maria Clara Gueiros e EmÃlio Orciollo Netto, nos mostram como o tédio de um casamento pode torna-se inspiração. O Pillow Talk Show: mais um programa ruim na televisão que tem sucesso garantido.
MaurÃcio fica obcecado pela chance de ficar famoso. Bia ainda consegue ser mais resistente. No fim, decidem não entrar para esse mundo e percebem que não há aventura mais louca do que o próprio casamento.
A peça não trata apenas de questões ligadas às celebridades, são narradas também histórias de relacionamentos e detalhes do comportamento de homens e mulheres, apontando a graça do cotidiano. O público se identifica com o texto e ri não somente dos atores, mas de si mesmo.
Ver as reclamações do casal é realmente cômico. A TPM de Beatriz é absurdamente engraçada, por exemplo. Ou a leitura comentada da revista Caras, com suas manchetes que nada dizem.
Os atores parecem se divertir muito durante o espetáculo. A troca entre os dois é ótima. Eles, mesmo depois de algum tempo em cartaz, ainda conseguem rir das piadas e deles próprios.
Maria Clara Gueiros é hilária. Capaz de contar a piada sobre português mais antiga e nos fazer rir. Já sabia que ela tinha habilidade para comédia, mas é mais do que isso. Eu poderia falar muito sobre ela, porém, reconheço que para a peça ser tão boa contou com o talento de todos os envolvidos.
Atores habilidosos e um texto agradável geraram um ótimo resultado. Receita simples, mas que, devido aos múltiplos acertos, conseguiu construir uma peça de qualidade.
Texto: Martha Mendonça e Nelito Fernandes
Direção: Ernesto Piccolo
Elenco: Maria Clara Gueiros e Emilio Orciollo Netto
Temporada: Até 20 de dezembro.
Teatro dos Grandes Atores. Shopping Barra Square. Rio de Janeiro.
O Bem do Mar
Estreou no Teatro do Leblon, sala Fernanda Montenegro, Rio de Janeiro, neste último dia 15, o musical “O Bem do Marâ€, com direção de Antonio De Bonis. São 14 atores em cena e 7 músicos interpretando 68 músicas de Dorival Caymmi.
Em “O Bem do Marâ€, procura-se levar ao palco elementos das letras de Caymmi, compondo cenas tipicamente baianas e mostrando com competência a cultura brasileira cantada por Dorival, em que o cotidiano servia de inspiração para as suas composições, retratando tudo com simplicidade e talento bem peculiares.
São 120 minutos de espetáculo, com 10 minutos de intervalo. Ao que deram a denominação de Bloco I – Lembranças, se comparado aos demais blocos, não é muito convidativo. Porém, nas outras partes (Bloco II – Copacabana By Night, Anos 50 e Bloco III – Histórias de Pescadores), o espetáculo melhora consideravelmente.
As músicas, muitas vezes compondo um pout-pourri, são bem interpretadas, a movimentação no palco também é interessante e, tranqüilamente, nos transportam para a Bahia de Dorival Caymmi. Destaco o bom jogo de luzes e os probleminhas no áudio, que, provavelmente, serão corrigidos para as próximas apresentações.
Os atores cantam e dançam bem. Algumas vozes, inclusive, são graciosas e há partes muito boas do musical que, com certeza, se destacam. De modo geral, não é um espetáculo impecável, mas realiza bem a proposta. Â
Bom. Um bom espetáculo. Tudo dentro do esperado, mas nada de surpreendente.
Músicas: Dorival Caymmi                                Â
Concepção e Direção: Antonio De Bonis
Roteiro: Antonio De Bonis e Douglas Dwight
Direção Musical e Arranjos Vocais: Ricardo RenteÂ
Elenco: Ana Velloso; Dandara Mariana; Daúde; Dério Chagas; Fábio Ventura; Fael Mondego; Flavia Santana; Gabriel Tavares; Izabella Bicalho; Lilian Valeska; Marcelo Capobiango; Marcelo Vianna; PatrÃcia Costa e Thiago Thomé.Â
Músicos: Alfredo Machado, violão; Rodrigo Villa, contrabaixo; Fernando Pereira, bateria; Firmino, percussão; Flávia Chagas, violoncelo; Luiz Flavio Alcofra, violão e Ricardo Rente, sopros.
Temporada: até 20 de dezembro.
Por um fio
Assisti ontem, dia 23 de julho, no Teatro SESC Ginástico, a estréia no Rio de Janeiro de “Por um fio”, peça baseada no livro, com o mesmo tÃtulo, do médico Drauzio Varella. Os atores Rodolfo Vaz e Regina Braga, esposa de Drauzio, narraram, como é explicado previamente na sinopse, onze das histórias contadas no livro pelo médico, com a direção de Moacir Chaves.
Realmente não precisava mais do que uma boa leitura. As histórias, em que o médico relata-nos como seus pacientes compreendem a morte e a vida, são ótimas. Já li três de seus livros – Carandiru, Por um fio e Borboletas da alma – e todos me encantaram. Gosto muito do jeito como ele escreve e gostei da forma como levaram seu texto para o palco.
No cenário de J.C. Serroni, composto por troncos de árvores sem folhas, bancos de praça e um painel com árvores de folhas amareladas, são contadas as histórias dos pacientes terminais, que acabam se entrelaçando com episódios da carreira do médico. As personagens são descritas de forma muito eficiente e vemos que “nada transforma tanto o homem quanto a constatação de que seu fim pode estar perto”.
Os atores dividem a voz do médico e as vozes das personagens. As ironias da vida, que algumas vezes são cômicas, as posturas diante da morte, o amor pelo próximo e pela vida, o contato com os pacientes, uma experiência mais pessoal, são expostas de maneira graciosa.
A melhor impressão da peça é a de que souberam aproveitar bem o texto. Os recortes, que conseguem revelar exatamente as emoções que se encontram no livro, somados às boas atuações, indicam claramente o motivo do seu sucesso.
Baseado no livro de Drauzio Varella
Direção: Moacir Chaves
Elenco: Regina Braga e Rodolfo Vaz
Cenografia:Â J C Serroni
Duração: 70 min
Temporada: até 13 de setembro
Local: Teatro SESC Ginástico – Av. Graça Aranha, 187 – tel: 2279-4027
Horários: 5ª a domingo, às 19h
Ingressos: 5ª e domingo, R$30,00, R$15,00 (meia) e R$7,50 (comerciários)
6ª e sábado, R$40,00, R$20,00 (meia) e R$10,00 (comerciários)
Cortiços
O Brasil foi muito bem representado no FESTLIP 2009 pela Cia de Teatro Luna Lunera (Brasil – Belo Horizonte). O espetáculo “Cortiços”, baseado na obra O Cortiço de AluÃsio Azevedo, é uma ótima leitura feita pela Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro, com a direção do mesmo Tuca Pinheiro, responsável também pela maravilhosa trilha sonora.
A sinopse diz o seguinte: “Estalagem São Romão: naquele chão encharcado, naquela umidade quente e lodosa, um aglomerado pulsante de gente. O espetáculo recorta a obra O Cortiço, de AluÃsio Azevedo, para dela extrair corpos, garrafas e lÃquidos que atravessam os inúmeros cômodos da alma do homem em seu estado bruto.” Porém, a peça foi muito mais do que isso.
É um espetáculo bem popular, com referências bem brasileiras. As letras das músicas se encaixam perfeitamente no texto. O cenário é composto por um tablado de madeira em cima do palco, um pouco acima do chão, cercado por garrafas pets, cheias de lÃquido, ou de sabão, por todos os lados, uma escada, um quadro negro e uma tina com água corrente. Este cenário, somado ao barulho da água, à ótima iluminação e à música, formaram o ambiente perfeito para que os atores começassem o show. O texto um pouco desconexo diz mais do que um texto perfeitamente coeso. Há também cenas lindÃssimas, como, por exemplo, do ato amoroso entre Bertoleza e João Romão, que foi brilhantemente representada.
São cinco atores: duas mulheres (Débora Vieira e Júlia Guimarães) e três homens (Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva e Rômulo Braga), que fazem interpretações majestosas e apresentam uma ótima expressão corporal. Eles são várias personagens de destaque e são também as lavadeiras. Esses cinco atores parecem uma multidão em cena, estão sempre presentes no palco e ocupados, a maior parte do tempo trocando as garrafas de lugar, o que da uma movimentação impressionante à peça, ou em conversas paralelas que não atrapalham em nada a atuação principal, pelo contrário, dão justamente o clima confuso apropriado. Destaco o ator que interpretou Bertoleza e Rita Baiana. Todos são ótimos, mas ele foi incrÃvel. Destaco também o ator que interpretou Jerônimo, também muito bom.
Iluminação boa, interpretações ótimas, trilha sonora perfeita. Só tenho elogios. Eu estava um pouco ansiosa para saber quem estava nos representando. Não assisti a outra companhia brasileira, mas fiquei tranqüila depois que assisti a esse espetáculo. Tenho certeza que nossos irmãos de lÃngua foram embora com uma ótima impressão.
Texto original: AluÃsio Azevedo
Concepção: Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro
Direção: Tuca Pinheiro
Cia. Luna Lunera (Brasil – Belo Horizonte) é composta por atores formados pelo Curso de Teatro do CEFAR – Centro de Formação ArtÃstica do Palácio das Artes. Constitui-se oficialmente em 2001 e já recebeu vários prêmios.
Elenco: Cláudio Dias, Débora Vieira, Júlia Guimarães, Marcelo Souza e Silva e Rômulo Braga.
Assistência Dramatúrgica: Zé Walter Albinati, Odilon Esteves e Marcelo Souza e Silva.
Treinamento Corporal: Tuca Pinheiro
Preparação Vocal: Helena Mauro
Oficina de Samba: Juliana Macedo
Cenografia: OSLA Arquitetura – Ed Andrade
Cenário: Artes Cênicas Produções – Joaquim Pereira
Figurino: Juliana Macedo
Iluminação: Felipe Cosse e Juliano Coelho
Trilha Sonora: Tuca Pinheiro
O Homem Ideal
O espetáculo “O Homem Ideal” trazido ao FESTLIP 2009 pelo Grupo M’Bêu (Moçambique – Maputo), tem texto e direção de Evaristo Abreu e as atuações de Yolanda Fumo, Isabel Jorge e Eliot Alex.
O cenário simula um bar e contém alguns bustos que representam os homens que passaram pela vida de Deolinda. O complemento é feito pelas imagens projetadas na tela atrás do balcão. São imagens urbanas, imagens de Deolinda na cidade, que intercalam as cenas e nos transportam para um ambiente urbano. Foi um recurso simples, hoje bem comum, mas muito bem utilizado, muito apropriado à montagem.
O texto trata da história de uma mulher camponesa que vai para a cidade por causa de um homem, que se separa da famÃlia por amor. Perdida num lugar em que não conhece, procura emprego e acaba sendo aceita neste bar por piedade do Barman e vira uma espécie de dançarina e cobaia dos novos pratos feitos pelo cozinheiro recém contratado.
Sua consciência surge como uma mulher comum, como uma cliente do bar que se senta a sua mesa. Diante do seu questionamento, a consciência responde: “Então, a senhora não me conhece? Então, como pode reconhecer a si própria?”. Deolinda responde que está à procura do homem ideal e entram no assunto. Relata os defeitos e os problemas que teve com cada um dos homens com quem já se relacionou e refletem sobre o que aconteceu.
É a história de uma mulher que conversa com sua consciência, mas tem também questões mais profundas do que a discussão sobre o homem ideal. Dentro desse tema, acabam sendo inseridos outros com um apelo mais social e sua consciência pergunta: “Você está à procura de um homem ideal. Não seria melhor procurar um mundo melhor?”. Sua consciência a faz refletir sobre certos pontos, a faz pensar sobre o mundo em que vive.
È um espetáculo leve, bem executado, com boas atuações, que incluem até mesmo um lado cômico bem agradável e dá conta do que se propõe na sinopse.
Direção e Texto: Evaristo Abreu
O Grupo M’bêu foi fundado em Janeiro de 1989 em Maputo e hoje é uma associação cultural constituÃda com dez membros. Suas produções focam na juventude, tentando sempre dar realce aos costumes e valores tradicionais; também satiriza alguns fenômenos da vida corrente, tal como a corrupção, o tráfico, etc. O Grupo produz a maior parte das peças por si apresentadas, parte delas baseadas em mitos e histórias tradicionais.
Elenco: Yolanda Fumo, Isabel Jorge e Eliot Alex
Música: Fran Perez e Paulo Macamo
VÃdeo: Evaristo Abreu e Moises
Som, luz e cenografia: Alfredo Semo
Figurinos: Adelia Tique & Sheila Alexandre
Fotografia: Chico Carneiro
Lindos Dias
A Cia Teatral Primeiros Sintomas (Portugal – Lisboa) trouxe para a segunda edição do FESTLIP, sob a direção de Bruno Bravo, “Lindos Dias” (Happy Days), um texto de Samuel Beckett reconhecido pela dificuldade de leitura teatral e foi isso mesmo que aconteceu: vimos a dificuldade da montagem desse texto. Aparentemente a Companhia caiu na própria armadilha. Uma pena.
A história de Winnie e Willie baseia-se praticamente no tédio e na falta de diálogo do casal, que acaba construindo quase um monólogo por parte da personagem feminina. Winnie encontra-se enterrada até a cintura e depois até o pescoço num monte, que talvez represente a realidade que a suga, que a imobiliza.
Enquanto ela está enterrada na sua vida entediante, no seu monótono casamento, Willie, o marido, na maior parte do tempo, encontra-se atrás do monte, provavelmente dentro de um buraco, fora do nosso campo de visão e mal pronuncia algumas palavras.
O cenário, de Stephane Alberto, é composto por um painel, representando o céu azul e o tal monte, em que Winnie se encontra enterrada, é coberto por grama verde e algumas flores. Nesse cenário, se passam os dias de tédio, que a personagem atravessa evocando memórias, se ocupando de atos corriqueiros e procurando utensÃlios diversos em sua bolsa.
Willie, pode até ser uma figura secundária, pode até ser um marido que não a escuta, mas ela precisa da presença dele porque não se agüenta sozinha. Ela sabe que ele está ali, e, por mais que ele não a ouça ou dialogue, isto lhe basta. Tudo parece estranho, sem mudanças e cada vez mais estranho, segundo ela, que fica falando sozinha, à s vezes, refletindo em voz alta, à s vezes, dissertando sobre coisas do dia a dia, como pentear o cabelo, e comemora quando o marido lhe dirige algumas mÃseras palavras. Fica esperando a hora de dormir, sem nada a fazer: “Mais um dia, nem melhor nem pior, sem dor quase nenhuma”, é a sua frase marcante.
Nessa montagem, os sÃmbolos não são bem explorados. Trata-se de um espetáculo lento, com um texto difÃcil. Praticamente uma leitura. Complicado dizer isso: a peça cura a insônia de qualquer um. A única coisa que se destaca é a interpretação da atriz, que se baseou praticamente na expressão facial e executou bem a tarefa do quase-monólogo. Foi uma das poucas vezes que senti vontade de ir embora durante o espetáculo. Mas, por respeito, fiquei por lá, assistindo alguns espectadores irem, arrependida de ter feito uma má escolha.
Ficha técnica
Texto: Samuel Beckett
Tradução texto: João Paulo Esteves da Silva
Direção: Bruno Bravo
O Grupo Primeiros Sintomas (Portugal – Lisboa) é uma associação cultural que funciona segundo princÃpios semelhantes a uma companhia de teatro pela recorrência da equipe que constitui a maior parte dos trabalhos e espetáculos realizados. A produção sustenta os motivos artÃsticos a impulsionarem um trabalho continuado com os mesmos atores, cenógrafo, figurinista e músico, no sentido não só da solidificação de uma linguagem, mas da partilha de experiências num crescimento coletivo, de maneira a que cada área seja ambiciosa no seu território.
Elenco: Raquel Dias e Gonçalo Amorim
Apoio à Dramaturgia: Miguel Castro Caldas
Cenário: Stephane Alberto
Figurinos: Ana Teresa Castelo
Assistente de direção: Ricardo Neves-Neves
Â
Mar me quer
A Cia TIJAC (Moçambique, Maputo / Ilha da Reunião), está se apresentando no FESTLIP 2ª Edição com um texto do Mia Couto. O espetáculo chama-se “Mar me quer” e conta com a direção Mickael Fontaine e as ótimas interpretações de Branquinho Adelino, Graça Silva, Leonardo Nhavoto e Zango Candido Salomão.
Zeca Perpétua tem uma peculiar relação com a vizinha, Dona Luarmina, que despetá-la uma flor invisÃvel, boa parte do tempo, fazendo um trocadilho com o tÃtulo da peça – “Bem me quer, mar me quer”. Dona Luarmina pede a Zeca que compartilhe as lembranças de seu passado, passado este que ele só quer esquecer. Luarmina quer saber as lembranças de Zeca, pois seu passado começa onde acaba e se dissolve em tristeza e o pede docemente para desfiar uma memória, fio que conduz brilhantemente essa adaptação impecável.
São estas histórias, contados por Zeca ou pelo narrador – um contador de histórias muito interessante que dá um tom onÃrico à peça e possui uma ótima integração com as personagens – que dão forma ao texto, pois são contadas de uma maneira encantadora. Aos poucos, alguns segredos das personagens são revelados: como, por exemplo, o significado para Zeca da dolorosa “piação” das gaivotas ou o motivo do não cumprimento da profecia de seu pai sobre sua morte.
O cenário possui um tecido branco que ao mesmo tempo permite que imagens sejam nele projetadas e também permite a visibilidade dos objetos ou pessoas encontradas antes dele. As imagens projetadas são diversas: uma janela, um corredor, um elevador, praia, ondas, um quintal, um banheiro, enfim, elementos que criam o ambiente do espetáculo, complementado pelo belÃssimo jogo de luzes, melhor, de sombras e luzes.
Trata-se de uma montagem impecável de um lindo texto. Impecável e imperdÃvel.
Texto: Mia Couto
Adaptação e Direção: Mickael Fontaine
Cia TIJAC: este grupo é um dos frutos de encontros de Oceano Ãndico de 2006. Mickael Fontaine, diretor de TIJAC da Ilha da Reunião, vai pela primeira vez a Moçambique para fazer uma peça teatral “Réquiem para as viúvas do amor” escrito por Alain Kamal, em francês e traduzido por Mia Couto. Esta produção aconteceu no Teatro Avenida e Mickael, que esteve pela primeira vez em um paÃs lusófono, se viu diante de um grande desafio: performar em uma lÃngua estrangeira que ele não sabia. Portanto, para o bem do jogo, ele teve que aprender o seu papel com a ajuda dos atores moçambicanos.
Elenco: Branquinho Adelino, Graça Silva, Leonardo Nhavoto e Zango Candido Salomão
Música: Matchume
Técnico: Hassan Aboudakar
Psycho
O espetáculo “Psycho“, em cartaz no FESTLIP 2009, é interpretado pelas atrizes Lucilene Mota e Milanka Vera Cruz, da Companhia de Teatro Solaris (Cabo Verde – Cidade de Mindelo).
“Psycho” é um texto de Valódia Monteiro, tem a direção de Herlandson Lima Duarte e, como está na sinopse, trata-se de uma peça que “vive de expressão corporal e da aquilo que o corpo juntamente com a voz pode transmitir”. Tive a oportunidade de assistir outra peça de Cabo Verde, ano passado, no mesmo FESTLIP, e notei que a expressão corporal também era bem marcante. Porém, isto pode ter sido apenas coincidência.
O cenário de “Psycho“, que simula o espaço de um quintal, é composto basicamente por uma escada, dois portais, um cubo vazado, uma bacia e uma corda, e o figuro é composto por malhas que permitem a expressão corporal proposta na sinopse.
Aparentemente uma personagem é o complemento da outra, pelo menos, suas falas são complementares. A interpretação é graciosa e as atrizes se entrelaçam, se misturam, dando a entender que podem ser também o desdobramento uma da outra. Interagem com a platéia e nessa interação parecem querer despertar certa maldade nos espectadores, mostrando que talvez as pessoas ali presentes tenham algum lado obscuro. No fundo, querem compartilhar conosco essa fobia que sentem em relação aos outros seres humanos. Uma delas diz que conhece as pessoas, sabe quem é quem e, justamente esse excesso de conhecimento, gera essa repugnância. Se soubessem menos, talvez conseguissem conviver em sociedade.
As personagens demonstram ojeriza por outros homens, representada principalmente pela aversão ao sexo. Outro momento marcante é quando dizem que o que as angustia são as pessoas sentadas, vendo outras sofrerem, não fazerem nada, e quando dizem que um louco é um ser julgado diferente por ver a mais, por ver além.
São personagens prenhas de sofrimento que dão voz a um texto aflito. De forma geral, é uma montagem interessante que ganhou muito com a interpretação das atrizes. O texto, que trata de fobias, é bom e tem uma sonoridade especial graças ao sotaque caboverdiano, o que o transforma numa bela melodia. Essa leitura aflita, bem de acordo com o tom do texto, é ótima e a expressão corporal é habilmente conseguida.
Texto e Concepção: Valódia Monteiro
Direção e Encenação: Herlandson Lima Duarte
Companhia de Teatro Solaris: fundada em agosto de 2004, por iniciativa de um grupo de jovens recém formados no IX Curso de Iniciação Teatral no Centro Cultural Português do Mindelo / ICA. È dirigida pelo jovem encenador Herlandson Lima Duarte.
Elenco: Lucilene Mota e Milanka Vera Cruz
Cenografia: Herlandson Lima Duarte e Nuno Costa
Figurino: Lucilene Costa e Milanka Vera Cruz
Iluminação: Edson Fortes
Sobreviver em Tarrafal
Este ano, o Grupo de Teatro Horizonte Nzinga Bandi (Angola- Luanda), participa do FESTLIP com a peça “Sobreviver em Tarrafal“. Um texto de Antônio Jacinto, com direção de David Enoque Caracol e Adelino Caracol.
A peça trata basicamente da história de quatro homens envolvidos com o processo polÃtico que incentivou a independência de Angola e a conseqüência disso nas suas vidas e das famÃlias.
O cenário é dividido: em primeiro plano, temos a prisão no Tarrafal de Santiago, em segundo, o que seria o espaço domiciliar de uma das famÃlias que tem seu integrante levado preso por ser julgado um terrorista.
A primeira cena, composta apenas por vozes, simula o momento da prisão e o desespero dessa famÃlia. Depois, as cenas, da prisão e da casa, são alternadas. A forma como escolheram dramatizar a violência e a angústia das personagens não foi um exemplo de boa interpretação. Faltou, talvez, um pouco de emoção, o que acabou por transformar o espetáculo em algo um pouco monótono.
O drama vivido na prisão é corriqueiro. Os presos não entram em desespero porque ainda tem a esperança de viver em busca dos ideais – “Ainda que seja o mito dos nossos ideais” – e, ao mesmo tempo, sabem que não há saÃda. Quem chega de fora traz as últimas notÃcias. Os prisioneiros ficam numa espécie de exÃlio, privados de tudo. São homens que tem seus sonhos comprometidos, num lugar onde tudo lhes é negado, onde apenas têm o direito de não terem direito.
Num dado momento uma das personagens pergunta “Será que as pessoas sabem por que estamos aqui?” e eu fiquei me perguntando “Será que eles disseram por que estão ali?”
Não é um espetáculo atraente, não nos convida a nos envolvermos com os problemas vividos pelas personagens. Trata-se de uma leitura lenta, distante do público. Devido a essa abordagem, acredito que quem não tenha algum tipo de contato com a cultura e a história de Angola tenha ficado um pouco perdido.
Texto: Antônio Jacinto
Direção: David Enoque Caracol e Adelino Caracol
Grupo de Teatro Horizonte Nzinga Bandi: Angola – Luanda. Fundado há 22 anos por Adelino dos Santos Caracol e Ezequiel Issenguele o grupo faz parte da Escola de Artes e Teatro Njinga Mbande de Luanda. O grupo ao longo da sua existência participou de inúmeros eventos nacionais e internacionais e foi vencedor de diversos prêmios de teatro.
Elenco: José Gaspar Galiano da Rocha, Madaleno Francisco da Fonseca, Julia Francisco Capemba, Jeremias dos Santos Caracol, Neusa Marlene dos Santos, Francisco Pinto Quissama e Edusa Francisco Simba Chindecasse.
Cenografia, iluminação e sonoplastia: Nário Sá Pinto
Figurino: Madaleno da Fonseca
Por que você não disse que me amava?
Estreou no Rio, neste dia 5 de junho, a peça “Por que você não disse que me amava?”, texto de Vera Karam, com atuações de Cristina Pereira e Rafael Ponzi e direção de Paulo Betti.
Uma mesa, duas cadeiras, um pôster com a imagem dos noivos no casamento, galhos e troncos secos, assim como o relacionamento do casal que terá sua história contada – ou será a falta de história? – é o cenário que ambienta a peça.
Vemos as frustrações de um casal isolado do mundo num apartamento – a única coisa que eles têm na vida e que parece ter custado toda a vida deles. Eles não têm amigos, não têm filhos, e nessa altura da vida parece que até mesmo nem uma vida eles têm. O diálogo entre o casal nos remete, muitas vezes, à s coisas corriqueiras do cotidiano – “A água está fervendo” (fala de Gabriela), “Tô indo” (fala de Fernando José) – e assistimos como um casamento seca assim como a água da chaleira.
São encenadas as lembranças do passado. A carência de amigos. A ausência dos filhos que não tiveram, que, ao menos, os manteriam ocupados e assim não notariam os fracassos um do outro. A recordação da filha que nasceu morta e depois a falta de vontade do marido em ter filhos, preocupado com os gastos que isto traria, já que tinham que pagar o apartamento. Agora pagaram o imóvel e já é tarde para viverem. Nem ao menos podem se separar, porque deste modo só teriam metade de um apartamento, ou seja, metade de suas vidas e também, assim, não teriam mais um ao outro – “Eles não têm um ao outro, mas eles só têm um ao outro.”, explicação do folheto sobre a peça. Conclusão: nada teriam, apesar de nada terem.
Em um dado momento começam a falar sobre um jantar que marcaram, por intermédio do porteiro do prédio, com um casal de desconhecidos do 4º andar. Gabriela há 6 anos, desde que largou o emprego na biblioteca, não conversa com mais ninguém, fala apenas com o marido, e nem tem certeza se são conversas mesmo. Ela não sabe mais sobre o que as pessoas falam hoje em dia. Isso a aflige. Aliás, muitas coisas a afligem e a fazem desistir do jantar.
O casal de vizinhos solitários é uma boa metáfora, pois não passa de um reflexo deles mesmos. Ao falarem do casal, falam sobre si, confessam que têm medo de verem a própria infelicidade na infelicidade do outro casal. Talvez seja essa uma das explicações da escolha pelo isolamento.
Trata-se de um texto leve, nem cômico, nem trágico e acredito que seja difÃcil chegar nesse tom. Enfim, o texto retrata bem a vida de um casal em que tudo tende ao tédio e esse mesmo texto, à s vezes, absorve tanto esse tédio que fica entediante. É como um romance depois do fim.
Elenco: Cristina Pereira e Rafael Ponzi
Texto: Vera Karam
Direção: Paulo Betti
Temporada: 06 Ã 28 de junho
De quinta à sábado: 20h
Domingo: 19h
CAIXA Cultural RJ – Teatro Nelson Rodrigues
Rock’n’roll
A peça “Rock’n'roll”, do premiado Tom Stoppard, começou uma nova temporada no Teatro Villa Lobos, no Rio de Janeiro, até 26 de julho. A montagem é dirigida por Felipe Vidal e Tato Consorti e no elenco estão Otávio Augusto, Thiago Fragoso, Gisele Fróes e Bianca Comparato, entre outros.
Nesse espetáculo temos o recurso do vÃdeo, apropriado e muito utilizado ultimamente, a combinação de sombras e a sobreposição de imagens. O cenário, de Sergio Marimba, é muito prático, mas não muito atraente. As cenas são intercaladas pelos vÃdeos e ganham muito com a iluminação de Tomás Ribas.
Ao som dos Rolling Stones, Beatles, Bob Dylan, Pink Floyd etc, a peça retrata o perÃodo que vai de 1968 a 1990 e aborda, entre outros assuntos, a queda do comunismo. É ambientada em Cambridge, na Inglaterra, e em Praga, durante a ocupação soviética na Tchecoslováquia, onde uma banda de rock, “The Plastic People of the Universe”, simboliza a resistência.
O texto gira em torno de um professor marxista de Cambridge, sua esposa, sua filha e depois sua neta, e seu aluno, de Praga. As personagens vivenciam os problemas polÃticos da época e percebemos como o discurso comunista estava presente no cotidiano desse professor e desse aluno, as angústias, as decepções polÃticas e a repressão. Os acontecimentos polÃticos, acompanhados pelas músicas, são recriados por meio dessas personagens, melhor, vemos como esses acontecimentos constroem-nas. Está presente também, por exemplo, a poesia de Safo e um pouco da história de Syd Barret, do Pink Floyd.
O espetáculo tem duração de 180 minutos, com um intervalo de 10 minutos. O que requer atenção e disposição por parte do espectador. Assisti, além da peça, a desistência de uns 20% do público, que não voltou após o intervalo. Talvez sejam os mesmos que não tinham muita paciência para as aulas de história. Aliás, platéia (ainda com acento, porque só pretendo me reformar ortograficamente num futuro distante) que, independente do tom do texto, apresentou uma necessidade de rir que muitas vezes não fazia sentido. Não creio que seja um espetáculo para todos os gostos e para ajudar na seleção existem as informações e as resenhas sobre as peças, possibilitando que o público tenha ciência antes de se aventurar num espetáculo denso.
Texto: Tom Stoppard
Tradução: Felipe Vidal
Direção: Felipe Vidal e Tato Consorti
Elenco: Otávio Augusto, Thiago Fragoso, Gisele Froes, Bianca Comparato, Adriano Saboya, Carol Condé, Christian Landi, Mariana Vaz, Lucas Gouvêa, Luciana Borghi
Cenário: Sergio Marimba
Figurinos: Nello Marrese
Iluminação: Tomás Ribas
Clownssicos
“Clownssicos”, em cartaz no Teatro Nelson Rodrigues até 3 de maio, é um espetáculo da Cia do Giro e tem a direção e roteiro de Daniela Carmona. São seis atores em cena, num cenário simples, mas funcional, composto basicamente por três cortinas e dois painéis. Várias peças de roupas, uma sobre as outras, compõem o figurino e, claro, narizes de palhaço.
O texto trata de uma Cia. de Clowns que aceita o desafio de encenar grandes clássicos ocidentais: Édipo e Jocasta, Romeu e Julieta, Hamlet e Ofélia, Medéia, Masha e Medvedenko, entre outros. Interpretam Tragédia Grega, Shakespeare, Melodrama e Realismo, à sua maneira “Clown”. O destaque fica para a atriz Larissa Sanguiné, que constrói, a partir de excessos, suas personagens. Dentro desse exagero, a atriz é impecável e rouba as cenas.
No roteiro de Daniela, além dos fragmentos desses clássicos, há espaço para a simulação de que nem mesmo os atores, ou as personagens, sabem o que está acontecendo, que não se entendem com o iluminador, que não se entendem entre si, que não sabem a hora de entrar em cena, que esquecem o texto etc. Uma coisa é certa: eles se bastam e parecem se divertir muito. São nas pequenas coisas que a graça vem à tona, e muito por conta dos atores. Atores corajosos que não têm vergonha de expor seus corpos rechonchudos.
Nessa falta de lógica, que parece ser a proposta, misturam tudo, e, justamente por não haver lógica, tudo é válido. DifÃcil julgar, eu não me atrevi, não me senti motivada, a olhar mais do que o superficial e, nessa superfÃcie, o espetáculo é… interessante.
Direção e Roteiro: Daniela Carmona
Assistência de Direção e Composição Musical: Adriano Basegio
Elenco: Adriano Basegio, Daniela Carmona, João Pedro Madureira, Larissa Sanguiné, Laura Leão, Leo Maciel
CAIXA Cultural Rio de Janeiro
Teatro Nelson Rodrigues
Av. Chile – Anexo – Centro
Tel: 2265-5483
De 30 de abril a 03 de maio de 2009.
Quinta a domingo, Ã s 19:30h.
Renato Russo, o musical
Está em cartaz no Teatro Miguel Falabella, no Norte Shopping, até 1º de março, o musical Renato Russo. Se eu não me engano, essa peça estreou aqui no Rio em 2006, entrou em turnê nacional e tem sido um grande sucesso desde então. Bom que tenha vindo para a Zona Norte do Rio. É uma ótima oportunidade para quem está procurando momentos de entretenimento com qualidade.
O musical-monólogo, que tem direção de Mauro Mendonça Filho – prêmio Shell de Melhor Direção -, é uma adaptação do livro Renato Russo, o trovador solitário, do jornalista Arthur Dapieve, feita por Daniela Pereira de Carvalho.
A interpretação fica por conta do ator Bruce Gomlevsky, que tem uma impressionante presença de palco, atua e canta muitÃssimo bem. Acompanhado da banda Arte Profana, Bruce executa ao vivo as belas canções de Renato Russo e nos faz relembrar, com um bom texto, os momentos marcantes da trajetória artÃstica e pessoal do cantor.
A figura marcante de Renato é habilmente recomposta pelo ator. Para mim, que não tive a sorte de assistir a um show da Legião Urbana, foi um ótimo momento. Só as músicas já valeriam a pena, mas somadas àquela bela atuação resultou num espetáculo absolutamente perfeito.
O cenário retrata o palco de um show e em segundo plano vemos uma espécie de estúdio onde fica a banda ou são projetas imagens diversas que ajudam a compor as cenas. Isso somado a um excelente jogo de luzes.
Tudo é muito articulado. Um show começa, mas um problema no som impede seu andamento, fazendo Renato tomar a iniciativa de entreter o público falando da sua vida. Seus gostos, suas preocupações, seus sonhos, são narrados e intercalados com as músicas. E nada melhor do que a letra de suas músicas para demonstrar suas inquietações.
Várias fases da sua vida são encenadas. A fase da adolescência em que conviveu com uma rara doença óssea, a epifisiólise, que o manteve preso à cadeira de rodas. O álbum dos Beatles que mudou sua vida – aliás, ele teve ótimos Ãdolos que o inspiraram e seu gosto literário é impressionante. A fase mais metaleira que viveu em BrasÃlia. A escolha do nome da primeira banda – Aborto Elétrico. As drogas. A rebeldia adolescente. Sua sexualidade. Seus problemas com a bebida. O fim do Aborto Elétrico, por ser um músico incompreendido. A opção de seguir carreira solo. A escolha de seu nome artÃstico. O momento em que sentiu falta de uma banda. E a partir daà já sabemos o resultado: o inÃcio da Legião Urbana.
A convivência com o sucesso, a solidão, a falta de um amor, sua posição polÃtica, o problema num show que o leva a perceber a vontade de sair do paÃs, a viagem a Nova York, o encontro de um grande amor, as drogas injetáveis, o Renato apaixonado que canta em italiano, a volta ao Brasil. O episódio em que assume a paternidade de Juliano, após a morte da mãe do bebê, que despertou também sua vontade de assumir publicamente a homossexualidade. Sua relação com os pais, a ida para o hospital, a descoberta da doença que o levou a morte e, por tratar-se de uma doença terminal, o tempo que teve para se despedir. Mas essa despedida não é dramática, é poética. Tudo muito bem realizado.
Enfim, muitas fases foram representadas. As letras das músicas se encaixaram perfeitamente no texto. Foram seu complemento e direção também. Renato Russo fez dos momentos de dor inspiração para belas músicas e de suas preocupações conteúdo para outras tantas. Uma pena que não esteja mais por aqui. Ele poderia não resolver nossos problemas, mas com certeza continuaria a fazer ótimas músicas sobre a nossa caótica situação.
Não posso deixar de comentar também a participação da platéia em vários momentos. É uma peça convidativa, todos ficam à vontade para participar, cantar, bater palmas. Muito bom mesmo.
Trata-se simplesmente de uma peça impecável que vale a pena ser assistida.
Texto: Daniela Pereira de Carvalho
Direção: Mauro Mendonça Filho
Encenação: Bruce Gomlevsky
Direção musical: Marcelo Afonso Neves
Participação: Banda Arte Profana
Teatro Miguel Falabella – Norte Shopping
Av. Dom Helder Câmara, 5332 – loja 3805
De quinta à sábado às 21h e domingos às 20h
Tel: 2595-8245 / 2597-4452
Hotel Lancaster
Está em cartaz, até 27 de novembro, na Sala Multiuso do Espaço Sesc, em Copacabana, Hotel Lancaster, que não é apenas uma peça sobre drogas, usuários e traficantes, mas um texto sobre o drama dos dependentes quÃmicos, capazes de tudo para sustentar seus vÃcios, de quem lucra com esse vÃcio e sobre as relações humanas, tão modificadas por esse drama.
O texto de Mário Bortolotto, tem direção de Marcos Loureiro e montagem do Grupo Kuringa da Cooperativa Paulista de Teatro. No elenco estão Bebel Ribeiro (Debbie), Henrique Stroeter (Odosvaldo), Jorge Cerruti (Samuel), Paulo VinÃcius (Rick), Sergio Mastropasqua (Lobo), Sergio Guizé (Cláudio), Tereza Piffer (Lola), em interpretações impecáveis.
O cenário, de Rodrigo Lopez e Marcos Loureiro, é o quarto de um traficante num hotel barato, e o caos nesse quarto já espelha o caos da vida das personagens que passarão por ele. Personagens que são muito diferentes, mas que têm em comum a consciência de que fizeram escolhas erradas na vida. Não estão onde querem, não fazem o que querem. Não são felizes. Não querem assistir aos dramas das pessoas ao seu redor e muito menos os seus próprios dramas, sendo a droga a única saÃda para isso. E a trilha sonora, do próprio Mário Bortolotto, é também bem envolvente.
A data escolhida é uma noite de Réveillon. O slogan do hotel: “Hotel Lancaster. Mais conforto e comodidade na sua viagem.” Um lugar onde não se precisa sair do lugar para viajar e nem ligar a TV ou ler jornais para saber, ou quem sabe vivenciar, histórias bizarras da pobreza humana. Os viciados se deprimem pelo uso das drogas, que os tornam dependentes, e se deprimem por estarem naquele ambiente, procurando a droga como uma fuga. É um cÃrculo vicioso. Quem não se droga com algo ilÃcito, utiliza o álcool. Não há como ficar sem nenhuma fuga naquelas condições. São muitas histórias, representadas ou contadas, mas é um texto longe de ter a intenção de ser educativo. Porém, consegue ser verossÃmil, principalmente pelas ótimas interpretações.
O deprimente aqui não é engraçado, mas o tom de um traficante moralista num ambiente daqueles, em que o seu produto é o que gera aquela situação, e a falta de regras, num lugar onde mais nada o surpreende, gera um pouco de comicidade. Contudo, na medida certa, sem tornar o assunto banal ou ridÃculo. É irônico ver um moralista fornecer o meio para essa vida deprimente dos demais e, ao mesmo tempo, o recurso para o fim dela. Não há nenhuma regra, fora o pagamento pela droga, mas a punição por essa vida aparece e, em alguns casos, salva, acabando com o sofrimento através da morte. Porém, o impressionante mesmo é como as histórias contadas para chocar o público e se mostrarem reais, somadas à s vidas deprimentes, resulta numa boa peça.
Os fins trágicos são as únicas saÃdas para essas personagens. Incomoda ver a miséria humana. Incomoda. O texto é antigo, mas ainda incomoda. Às vezes, a forma como o tema é abordado é um pouco assustadora e parece, por breves momentos, exagerada , mas tudo é justificado e interpretado com muita competência.
Texto: Mário Bortolotto
Direção: Marcos Loureiro
Elenco: Bebel Ribeiro, Henrique Stroeter, Jorge Cerruti, Paulo VinÃcius, Sergio Mastropasqua, Sergio Guizé e Tereza Piffer
Cenário: Rodrigo Lopez e Marcos Loureiro
Figurino: Rodrigo Lopez
Iluminação: Marcos Loureiro
Trilha Sonora: Mário Bortolotto
Outras palavras
Outras palavras (Otras palabras), primeiro livro de Diana Araújo Pereira, editado pela 7Letras, nos é apresentado numa bela edição bilÃngüe, diferente das que costumo encontrar, em que as traduções aparecem ao lado da versão original. Aqui, não. O formato do livro lembra um dicionário bilÃngüe português/espanhol e é convidativo desde o formato, de 18cm por 14cm. O livro não tem contra-capa, são duas capas, uma com o tÃtulo em português, outra em espanhol, em posição invertida, ambas com a imagem “O poeta / xamã”, de Bené Fonteles. Talvez fosse mais interessante que a parte em espanhol acompanhasse a inversão da capa. Porém, a organização se dá apenas em ordem inversa, o último poema em português é o primeiro em espanhol e essa disposição se mantém até o fim.
São poemas em prosa, fragmentos, anotações, pensamentos, que deixam o leitor bem envolvido. Os textos foram escritos originalmente em espanhol, entre 2005 e 2006, durante o perÃodo de pesquisa de doutorado da autora, em Sevilha, e traduzidos entre 2007 e 2008. Há uma gostosa sonoridade tÃpica da lÃngua espanhola, mas que não é totalmente perdida na tradução para o português. Os poemas têm o mesmo Ãmpeto nas duas lÃnguas. Tudo é recuperado, nada se difere abruptamente. O efeito é perfeitamente conquistado na tradução. Também, o fato de serem lÃnguas latinas facilita um pouco. A poetisa escolhe outra lÃngua para escrever, outras palavras diferentes das com que foi alfabetizada, mas as trabalha de forma natural, intensa e apaixonante.
Tudo gira em torno da “palavra”. Há outros rumos no texto, mas, sem dúvida, essa preocupação é que mais ganha espaço nesse livro. Trata de inúmeros eventos. São anotações gerais. Quem sabe uma companhia para os momentos fora da cidade natal? Mas o que importa mesmo é que a autora escreve pelo prazer de escrever e não apenas como uma forma de se expressar. O amor pelo ato da escrita está presente todo o tempo. Há vários elementos envolvidos, várias sensações expostas, mas a atenção à palavra é o mais chamativo.
O prefácio de Jussara Salazar me pareceu um pouco assustador. Floreado demais. Não acho que o prefácio tenha que ter a pretensão de ser mais do que o próprio livro. Talvez essa forma poética de escrita seja decorrência de Jussara também ser poeta. Contudo, achei um pouco incômodo, tanto na primeira leitura, antes da do livro, quanto nas leituras posteriores, já sabendo o conteúdo dos poemas. Todavia, concordo totalmente com Adolfo Montejo Navas, na orelha do livro: aqui “o sujeito lÃrico importa muito menos do que a linguagem que se agencia”. Essa afirmação dá conta exatamente da essência do livro. Não poderia defini-lo de forma melhor.
Nesses poemas, as palavras parecem impor sua vontade à autora. A voz lÃrica parece ser a voz dessas palavras. Palavras, nomes, que se unem e formam um corpo, e esse corpo ganha vida. Porém, essa vida, com o auxÃlio da autora, ganha um rumo. As palavras não se perdem. Não é uma falta de controle sobre o texto, é uma permissão concedida, vigiada, que impõe limites sem controlar, sem impor nada. Limite difÃcil, mas com um belo resultado. Há muito tempo não vejo uma relação com as palavras tão intensa.
O texto de Diana é feito de palavras eleitas – letras escolhidas, “estas putas sorridentes dos salões falados” – em que a escritora permite que sejam tudo o que podem ser, potencializa suas forças, seus significados. As impulsiona, as reagrupa de forma que possam trabalhar em equipe, porém, sem perderem suas particularidades no resultado maior. Diana transforma a matéria-palavra. E uma das formas de transformação que ela usa é a negação.
Para o eu-lÃrico, que tem sua voz expressada nesses poemas, existir é saber que pode usar outra palavra ainda. É o que matem viva a vontade de escrever. Saber que outras palavras precisam do seu trabalho, da sua atenção. O que interessa aqui é a escrita, o ato de escrever. As palavras detêm o poder e quando esse poder é posto nas mãos do eu-lÃrico, este se assusta, pois admira a palavra mais do que tem vontade de dominá-la: “É que perambular entre as sÃlabas causa tonteiras indeléveis. Normalmente sofro presa a uma letra, e tremo quando posso tê-la em minhas mãos. Porque não se esqueçam que as mãos sim são minhas, ainda que de nada me sirvam se eu não puder escrever, se me falharem os nomes.”
Às vezes, as palavras não saciam esse eu-lÃrico, não dão conta de tudo o que quer expressar. Sabe que escrever não o levará a nada. A saciedade é breve, mas o prazer da escrita, a tentativa, é o que importa. Outras vezes, o vazio pode o saciar e não precisa mais da palavra perfeita. Essa eterna busca incomoda menos, até porque essa procura é uma forma de encontrar-se: “Me vejo tentando colar pedacinhos de letras. Meu Deus, a que ponto se chega ao tentar encontrar-se a si mesma!” “E acaba que tudo é em vão. Porque a palavra sagrada, a que te situa, sempre desaparece como uma miragem sonora, como o sabor de paraÃso que se assoma nos lábios, mesmo que você nunca o tenha provado.”
Diana Araújo Pereira, doutora pela UFRJ/Universidad de Sevilla, é poeta, pesquisadora, tradutora, professora de espanhol e literaturas hispânicas.
Os Estonianos
A Cia. Casa de Jorge, formada por Ana Kutner, Julia Spadaccini e Jorge Caetano, estréia seu segundo espetáculo, Os Estonianos, no Teatro de Arena do Espaço SESC, em Copacabana, e fica em cartaz até nove de novembro. O texto é de Julia Spadaccini e a direção de Jorge Caetano. No elenco estão Ana Kutner (MarÃlia), Jorge Caetano (Pedro), Thais Tedesco (LÃvia), Pedro Henrique Monteiro (Fred) e Ana Baird (Suely).
O cenário é simples, mas funcional. Composto apenas por cinco móveis, tipo bancos. E, nessa simplicidade, junto a outros poucos objetos, consegue dar conta de todas as necessidades do texto. Através de uma linguagem que utiliza o humor como caracterÃstica principal, vemos em cena cinco personagens insatisfeitas. É essa insatisfação com a vida que as aproxima. Além de torná-las semelhantes, é ela também a responsável por gerar um espaço para que as personagens acabem esbarrando umas com as outras e ditem o tom da peça. Na busca por suprir suas carências, as histórias acabam se cruzando de uma forma ou de outra e vamos, aos poucos, participando das angústias que os afligem.
Eles sentem-se incompreendidos, buscam explicar-se, expor seus sentimentos – daÃ, surgem as situações cômicas, aliás – e ficam na linha divisória entre o problema em não conseguir comunicar o que se sentem e a falta de capacidade do interlocutor ouvir e entender.
Pedro, casado com MarÃlia, compartilha conosco suas insatisfações, seus problemas conjugais. Está em crise porque percebeu que não sente mais a alegria de antes, principalmente ao lado de sua esposa. Sente-se vÃtima da mesmice do cotidiano do casamento, que lhe roubou até as lembranças dos sentimentos bons do inÃcio da relação.
MarÃlia, psiquiatra, ouve o descontentamento do marido e o enquadra como uma coisa comum, que todos sentem. Assim como faz com os pacientes, dá o diagnóstico e aconselha o medicamento. Parece imparcial, é profissional até quando está envolvida sentimentalmente. Os remédios são para os pacientes sentirem-se outras pessoas. Sem entrar no mérito de questionar a profissão dela, o texto a constrói como alguém que pode até saber aliviar os sintomas dos pacientes, mas não consegue compreendê-los como pessoas e mostra-se nada contente durante as cenas.
Fred, amigo de Pedro, – que diz ter assumido ser homossexual por causa da certeza de sua analista – está em crise no trabalho, onde sofre com uma espécie de mania de perseguição É uma personagem bem engraçada. O tÃtulo, aliás, faz referência ao fato dessa personagem, depois de começar a se corresponder pela internet com um estoniano, achar a Estônia o lugar perfeito, onde todos são felizes e saudáveis. Os estonianos são felizes, ele não. E ele quer aquela felicidade estoniana para a sua vida. Porém, Fred conclui depois, ao ver a foto de um estoniano em Ubá, que talvez a Estônia não seja tão perfeita assim. Se fosse, nenhum estoniano sairá de lá e escolhe outro destino para representar a felicidade.
Suely – que tinha o a idéia de trabalhar vendendo produtos de beleza, para visitar a casa dos clientes, ser convidada para entrar, tomar um café – é funcionária de uma lanchonete e faz a entrega dos lanches. Numa entrega, conhece Pedro, que a convida para entrar em sua casa. Ele justifica o convite dizendo que acha ruim não convidar para entrar uma pessoa que entrega sua comida. O convite acaba despertando novamente o desejo antigo de visitar os clientes. Tanto, que depois disso, Suely não consegue mais fazer entregas, se não for convidada a entrar.
Já LÃvia, paciente de MarÃlia, é uma moça solitária, que conhece Pedro numa festa e depois o reencontra quando, no auge de uma crise de solidão, coloca um anúncio como prostituta, no jornal, como uma forma de encontrar pessoas tão solitárias como ela. Uma de suas preocupações é nunca conhecer o Afeganistão. LÃvia é uma das personagens mais interessantes e, ao longo da peça, vai tomando consciência dos seus problemas e assume um pouco do que gostarÃamos de ver em todas as outras: diz a MarÃlia que está feliz porque descobriu que está infeliz e quer viver isso plenamente. Não quer tomar remédios, não quer ser outra pessoa. Que sua vontade de falar com estranhos, inclusive, gerou uma nova amizade.
O texto tem momentos muito bons. Faz rir, inclusive. É uma peça que, apesar de focar nas angústias humanas, consegue ser leve, descontraÃda. Muitas vezes, os espectadores riem porque se identificam com algumas situações. Até as danças são tão bobas que se tornam engraçadas e apropriadas. Parece, em alguns momentos, um texto com trechos soltos, mas não, tudo é bem amarrado e tem sua funcionalidade no decorrer do espetáculo.
Às vezes, parece que as personagens não se expõem totalmente, que são um pouco superficiais, mas isso não tira os seus encantos e talvez seja porque elas representam pessoas em crise, que estão se descobrindo, e não que isso seja propriamente um problema no texto. Talvez nem elas mesmo tenham consciência plena dos seus sentimentos. Ou, assim como LÃvia – que ao comentar sobre sua solidão e a necessidade de falar com desconhecidos, revela a angústia que sente quando eles vão embora e ela fica com a impressão de que não disse tudo o que queria dizer – as personagens também não digam tudo. Melhor, acho que tinham mais a dizer, que têm um potencial maior. Porém, tudo me pareceu justificado e interpretado com bastante competência pelos atores.
Texto: Júlia Spadaccini
Direção: Jorge Caetano
Elenco: Ana Kutner, Jorge Caetano, Ana Baird, ThaÃs Tedesco, Pedro Henrique Monteiro
Cenário: Natália Lana
Figurino: ThaÃs Tedesco
Iluminação: Ana Kutner
O funcionário e a música
Zé Al – José Alberto Salgado – trabalha com música em práticas diversas e também em áreas acadêmicas. É professor e pesquisador da Escola de Música – UFRJ. Publicou poemas e letras em A Fumaça do Caipira, pela 7Letras, em 1997, e composições musicais no cd Zarpar. Agora, em 2008, também pela 7Letras, volta a publicar poesias com o livro O funcionário e a música – com capa dele mesmo.
No preâmbulo temos a informação que O funcionário e a música é continuação de A Fumaça do Caipira, que “personagens e noções que aqui são recorrentes aparecem lá inicialmente.” e outros passam a participar das histórias, “contracenando com os mais antigos, de perto ou à distância.” Mesmo sem ler o outro livro – que é o meu caso – o leitor percebe a presença desse caipira – pelo menos, a sua fumaça está visivelmente presente. Não é uma continuação com pré-requisito, o leitor se ambienta com facilidade. Os temas pertencem ao cotidiano comum, a voz lÃrica privilegia a descrição e torna as poesias claras e o tom, à s vezes, de prosa, lembraram-me crônicas.
As epÃgrafes tratam da rotina. Uma é do Antonio Candido – “Quem deseja cortar amarras com a rotina deve mesmo arriscar altos e baixos (…)” – e a outra, acredito que seja do próprio autor, já que não tem nenhuma referência – “Rotina santa que me guarda (…)”. E a “rotina” das epÃgrafes realmente aparece nas poesias. Aparece diluÃda nas descrições – “Pela janela verei minha mãe, / verei minha avó / e essa visão desentupirá meu nariz. / Meu avô voltará do trabalho, / pela enésima vez. / O relógio vai cantar / e a porta se abrirá feliz.” -, como questionamento – “como poderia ficar à vontade / para escapar a rotina, / para fugir ao dever?” -, ou como limitação – “Até que outra série de mazelas burocráticas / ou vÃcios sociais / venham de novo acorrentá-lo sob luzes fluorescentes,”. São poemas que me passaram a imagem de um eu-lÃrico observador das várias facetas da rotina, em que a poesia seria justamente essa respiração dos momentos livres e reflexão das mais diversas idéias do seu dia-a-dia.
As poesias de Zé Al possuem um vocabulário que nos remete à idéia da “volta”. “Volta”, elemento da rotina, que aparece de diversas maneiras, assim como ela. Às vezes, como uma espécie de releitura, como no poema “Mesmo poema em dois momentos” – “O emaranhado turvo, / as raÃzes retorcidas / não dirão mais só sofrer. / Virão com a fumaça de blues / outras idéias silenciosas / e um sentimento já normal: / virão com fumaças de som.” -, em que o segundo momento desse poema reflete, com muita habilidade, toda a idéia de rotina que vamos tendo contato ao longo do livro, pois retoma e estende o significado, relê e acrescenta, avalia e aplica na própria poesia, na forma da repetição: “O emaranhado turvo, / as raÃzes retorcidas / não dirão mais só sofrer. / E depois de cantarolar, / virão outras noções filosóficas, / alguma notÃcia comentável / e um sentimento já normal.”
O eu-lÃrico de O funcionário e a música foca seu olhar sobre coisas comuns. Objetos – como uma maçaneta – personagens literários conhecidos, personalidades famosas, lembranças, pessoas desconhecidas. Algumas vezes, possuem um tom crÃtico, como, por exemplo, “Dois momento no banco”, II: “Longa fila de idosos, / mais longa ainda a do monturo: / banqueiros quaquimiliardários / riem de todas as caras. / Investcenter de deseducação, / investimento na desintegração / de consciências, de sensibilidades.” Olhar demorado que a própria voz lÃrica reconhece: “Exagera o poeta, dirá o leitor, a leitora. / Ora, acontece é que, diante dos significados, / já vistos ou por descobrir, / até agora estou explorando / o que aconteceu ali.”
Em outros momentos, os poemas me pereceram crÃticas aos que não olham atentamente, mas a grande parte trata mesmo de assuntos diversos: um estado de espÃrito, familiares, sentimentos, reflexões próprias, acontecimentos, fatos, imagens. Outras vezes, tratam até mesmo da própria escolha entre as inúmeras opções que o mundo oferece e que perecem passÃveis de serem pensadas e quem sabe até de se fazer poesia para esse atento eu-lÃrico- “Na primeira hora dessa manhã, / diante de opções, / posso pensar no poema / iniciado na manhã anterior; / posso embalar no sonho / e continuar discutindo educação; / posso pensar na garota de ontem; / posso pensar no problema / de estar dividido entres mundos que apitam.”
Não senti emoção alguma com essas poesias, sinceramente, mas reconheço bons momentos de reflexão que irão permanecer e serão associados imediatamente ao Zé Al poeta. Um desses momentos merece ser integralmente transcrito, aliás – o belo “soneto ‘João Pessoa’, 2002″ -, sua beleza merece ser apreciada sem intermediários e vai revelar um pouco mais do que o leitor encontra em O funcionário e a música:
Eu sou Zé Trindade,
aguardando atendimento
na repartição do filme.
Eu sou Mazzaropi,
Esperando o momento
do carimbo grandioso.
Estou na fila desde 1940
e o funcionário foi ali,
saiu e volta já.
Eu sou o restolho de povo brasileiro,
se é que algum dia ele existiu.
Estou com um maço de papéis,
suando o paletó,
esperando ser chamado pela senha,
sentado em labirinto de poetas.
Rumor da Casa
A poetisa Telma Scherer, autora também de Desconjunto, Mestre em Literatura Comparada pela UFRGS, publicou esse ano, pela 7Letras, Rumor da Casa. A casa de Telma Scherer é o espaço da tessitura da sua escrita. A poetisa tece os poemas – “Nessa casa há porão e nem saÃda, / e as agulhas ainda dançam na minha mão.” – como a personagem do livro Vó Elza tece a vida. O lápis, ou algo do gênero, é a sua agulha e o fazer poético é intimamente ligado ao rumor: “Penetram-me / palavras / mais que todas / no pulso / sons / sobre muros / de silêncio / e olho / sons / sobre o mundo / e dentro: / dentro de mim / há o soco / do som”.
Nessas poesias são evocadas memórias e vê-se o confronto entre dois tempos. Percebi essa casa como representante de um espaço perdido de raÃzes, da extinção de seres queridos e de uma perda da própria chama interior. A idéia da casa, casa da avó, condensa a força expressiva, já que é, ao mesmo tempo, matriz, centro gerador da vida, lugar do carinho, do afeto e do acolhimento. Ouvir os rumores dessa casa é uma forma de retornar ao acolhimento amoroso das origens, manifestando a nostalgia de um tempo. A casa é a figura da avó, é famÃlia, é infância, é o lar, é referência, é o passado, é saudade. Casa composta por recordações, sentimentos, vazio – “Na casa vazia / passou a fome de brilho. / Passou o gosto da fruta / ficou o copo na pia. / Grudou no sulco do chão / o rabo de um rato morto. / Poeira nos travesseiros / restos de cera queimada. / A sombra da mulher morta / está sentada na sala. / Agulhas ainda repousam / num ponto roto da manhã.”
Casa da palavra com rumores em versos, em que o eu-lÃrico possui um ouvido atento, sensÃvel, e o leitor tem a possibilidade visitá-la por meio dos sons. São 45 poemas, sem preocupação com a métrica, onde escutamos uma forte voz feminina. Alguns poemas possuem também um erotismo marcante e outros a personificação da casa. Como nos versos de Ferreira Gullar citados como uma das epÃgrafes – “Debaixo do assoalho da casa / no talco preto da terra prisioneira, / quem fala?” – em Rumor da Casa também se tem a percepção das vozes escondidas pelos seus cômodos e a necessidade de questioná-las.
Em “Vó Elza cuidava da casa”, poema escolhido para a contra-capa, Vó Elza é a própria casa, ela mesmo se tece, e a voz lÃrica revela, na última estrofe: “Sempre achei / que os fios entre seus dedos / não passavam / de cordões umbilicais.” Essa personagem, que entrelaça os fios dos poemas, tece a vida, gera vida, gera memória, gera sons, sentimentos, que vemos retratados nas poesias – “Vó Elza é uma trama / de náusea / e silêncio”.
Esse livro me fez recordar, em algumas passagens, o poema “Aniversário”, de Ãlvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. A mesma sensação que me vêm quando leio “O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa, / Pondo grelado nas paredes… / O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), / O que eu sou hoje é terem vendido a casa, / É terem morrido todos, / É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…”; veio também, por coincidência, em alguns versos de Telma, como “O silêncio da casa vazia. / O silêncio das mobÃlias, dos retratos. / O silêncio do quarto da avó, fechado. / O silêncio de papéis em branco, / de sutiãs apertados sob a blusa. / Nenhum som, nenhum prurido. / O silêncio surdo, / o silêncio ensimesmado dos mortos, / o silêncio das suicidas. / O silêncio de filhos que partiram, / e que não voltem!”. O que me deixou feliz, porque poucas coisas me deixam tão feliz quanto poemas dos vários Pessoas.
O silêncio dessa casa incomoda, faz ruÃdos, rompe o significado de silêncio. Esse silêncio é o som do vazio em que se perdeu a sensação de totalidade dada pela vida em famÃlia. Silêncio porque a casa se fechou em ausência – “Pior é o silêncio”: “Não deixar escapar / o canto / onde o dia e seus resÃduos / limpos / sábios / amordaçam a sala. / Pior é o silêncio que espera / paciente / e sem falta / até que a luz deste banheiro / até que o canto da cozinha / e a mancha na parede / lhe pareçam / ensurdecedores.”
Casa da poesia, em que, ao mesmo tempo, ela é material que a compõe e o lugar onde se abriga. É a casca e o conteúdo da casa. É o elemento da essência. Poesia que abriga sensações, rumores, pensamentos. É casa, mas não só. Casa em que as janelas são como livros: “As janelas para azul e para o negro / abro e fecho uma a uma, como livros.”
São poemas em que o eu-lÃrico mostra-nos que conhece as reentrâncias dessa casa cheia de ruÃdos: “Conheço as reentrâncias desta casa. / Conheço as falhas no carpete, os vidros, os cantos de pó. / A mancha na mesa de madeira, / o sulco na parede da cozinha, / o furo para o quadro que não veio. / Conheço os brilhos desta casa. / Na manhã, o sol que invade a sala, o quarto escuro. / Conheço a dança das luzes no assoalho / – e mudam se deito ao contrário. / Conheço os cheiros desta casa. / O lixo da cozinha, sabonete, xampu. / Conheço o calor do banheiro, no verão. / O cheiro da televisão novinha. O mofo nos armários.”
Casa que abriga uma “menina apavorada” que “presta atenção aos ruÃdos” e, ao mesmo tempo, não é só menina, mas a velha que tricota para poder pensar “e à s vezes fura a agulha com a mão”. Onde observei uma forte imagem do fazer poético, em que se é capaz de romper com o óbvio e dizer muito mais. A voz-lÃrica se expande, toma conta da casa inteira, vai de menina à velha em instantes. Voz que em “Eu caio do medo ao caos”, vê os vultos escuros das mulheres assombradas – Sarah, Virginia, Ana C, Clarice, Sylvia – e sua fala parece o eco de outras vozes – “É você ou sou eu nessa dança de cordas”; “Clarice, é você atrás do galho / ou sou eu que sussurro?” -, mas não se confunde – “Ela arde de sol ao meu lado. / Maquiou-se de Clarice e nada vale. / Será sempre a mesma e pura Telma.”
objeto algum
objeto algum, de Rodrigo Guimarães, publicado pela 7letras, recebeu agora em 2008, junto com Érico Nogueira - O Livro de Scardanelli, o  Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, na categoria Poesia. O psicólogo Rodrigo Guimarães, mestre em Psicologia Social e doutor em Literatura Comparada, é poeta e ensaÃsta. Publicou na área de Psicologia Social os livros Ação e vida e Aids: olhares plurais. Em poesia, publicou Olhares, Vestindo águas (menção honrosa no concurso Redescoberta da Literatura Brasileira) e Celacanto (Prêmio Nacional Vereda Literária Uni-BH). Atualmente, é pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).
O seu livro objeto algum é algo além do que se vê. Tem que se estar disposto a lê-lo, com boa vontade mesmo, senão os poemas não fluem ou fluirão sem entendimento. Serão lidos, não apreendidos. Não passarão de um amontoado de palavras, o que nenhum poema quer ser, convenhamos. Porém, não começamos sua leitura de forma desavisada, pois, além das boas palavras de António Sérgio Bueno na orelha do livro, temos também a epÃgrafe como conselho: “a pressa não preme as sinapses necessárias para desentranhar o corte”. Conselho, pois nos faz refletir que, à s vezes, a pressa pode ser inútil. Bom isso, já que temos pela frente justamente poemas para serem lidos vagarosamente. Aliás, não são poemas para serem apenas lidos, são poemas para serem refletidos. A beleza do significado não nos é dada de graça, requer uma atenção especial do leitor.
Nesses poemas, as palavras ultrapassam seus limites, e os objetos, através dessas palavras, excedem seus contornos. È um trabalho de percepção, com um olhar concentrado, dedicado, que requer do leitor também esse olhar minucioso, “cabe que um olhar se acumule” para não ceder ao peso dos desvios. Muita coisa está fora do papel, circulando ao redor do livro, seja uma palavra que não está ali impressa – mas a colocamos involuntariamente ao lado de outras logo após terminar de ler um verso – seja uma imagem que nos ocorre e sai lá do fundo das nossas lembranças – o que, com certeza, irá variar para cada leitor. Isso fez com que eu ficasse com a nÃtida impressão de que, por mais que eu me esforçasse, não conseguia perceber todas as intenções expostas ali. Acho que têm coisas nesses poemas que eu não consegui ver, simplesmente. Não sei se é a janela ou são os meus óculos que estão embaçados – aqui, retomo o poema “incógnita”: “para que serve / uma janela / se falta um olhar / que a atravesse”, acho que me falta esse olhar. Nem sei se é uma impressão real, ou só uma sensação por ter em mãos poemas que talvez queiram passar justamente esse tipo de sensação: a de que existem coisas além do que podemos perceber – “pormenor”: “se diante do desacerto / decidiu-se pelo óbvio, / talvez não tenha visto / o que à primeira vista / não se vê”. Enfim, independente do motivo, me incomodou e me senti feliz por ter algo incomodando.
O livro é composto por duas partes. A primeira, denominada “Sem tÃtulo”, é composta por versos quase sempre curtos, pelo menos mais curtos do que os da segunda parte, e a segunda, “Objeto algum”, apresenta versos bem longos. É impossÃvel deixar de comentar a disposição do texto nessa segunda parte: impressos verticalmente na folha, fazendo que o livro tome o formato de um bloco – o que me pareceu uma estratégia para que os versos, dessa forma, tivessem seu espaço garantido, mantendo assim sua integridade fÃsica, se é que versos têm integridade fÃsica.
A construção dos poemas encontrados aqui ressalta a importância dos espaços em branco e preto da folha de papel. Há um belo trabalho poético com o signo lingüÃstico, em que é nÃtida a exploração do significante no texto por meio de recursos visuais. A carga semântica dos vocábulos e a disposição geométrica das palavras na página são bem marcantes. Por meio de uma linguagem direta, econômica, Rodrigo Guimarães procura mexer com o leitor, exigindo participação ativa, já que os poemas permitem múltipla leitura e, percebendo esse aspecto, o leitor sente-se tentando a esgotar as possibilidades.
Rodrigo utiliza o poema como objeto da linguagem criando uma tensão de palavras-artefatos. Tomemos como exemplo o poema “por um fio” que apresenta uma estrutura silábica: somente uma sÃlaba em cada verso, compondo um fio de letras que formam vocábulos monossÃlabos ou dissÃlabos. Outro interessante poema é o “da participação totêmica à admiração antropológica”, composto por apenas quatro palavras distribuÃdas em dois versos: “com ele, / como ele”.
Sem métrica, sem rimas, com pontuação peculiar – é comum os poemas não apresentarem vÃrgulas, pontos, nada -, em que o poeta, na segunda parte, onde os poemas lembram aforismos em linguagem poética, usa espaços longos entre as palavras como pausa, onde não há nem mesmo letras maiúsculas para indicar o inÃcio de frases, o vemos trabalhar a “arquitetura de visibilidade”: “por isso o recuo necessário para perceber os movimentos que transformam banalidades em exigência”, invisibilidade que “se deixa ver mesmo afastando do visÃvel    e ao entrar lentamente dentro de seus passos” – poema “deslocamentos”.
Os poemas de objeto algum versam, principalmente, sobre o olhar demorado que o eu-lÃrico dedica aos objetos – poema “voyeur”: “o olhar é um utensÃlio / até mais não ver / o inespecÃfico, / os acúmulos que / se refinam em arestas.” Às vezes, parece que a percepção além do óbvio não é resultado somente do olhar atento, mas decorrência da vontade do próprio objeto de se denunciar, que faz questão de se desnudar para esse eu-lÃrico. Objetos que podem sugerir que são aparentemente indiferentes, mas quando expostos a essa contemplação vão além e mostram-se integrantes do mundo e ainda indicam consciência dos seus papéis.
Em “frágil”, nos três últimos versos, o eu-lÃrico comenta essa sua forma de olhar: “presumo   porém   ter descoberto outra forma de olhar   um movimento involuntário / executado sem me dar conta    e a dúvida    sempre a dúvida / de tê-la aniquilado antes de conhecê-la”. E isso me ajudou, se ele ficou em dúvida, me senti mais à vontade para ficar também sobre várias coisas que encontrei nesse livro.
De sombras e vilas
De sombras e vilas, publicado pela 7letras, é o primeiro livro de Cláudio Neves. O texto da contra-capa é do conceituado Marco Lucchesi e o prefácio, em que há uma clara explicação sobre a métrica dos poemas, é do Paulo Henriques Britto. Cláudio Neves nos proporciona sua escrita pela primeira vez em um livro, mas já é um autor premiado e tem alguns poemas publicados em revistas, jornais e antologias. Além de poeta, é ficcionista, ensaÃsta e crÃtico literário. Trabalhou como ilustrador e redator em agências de propaganda e, atualmente, atua no magistério.
Seu livro versa, em grande parte, sobre a ‘ausência’ e o autor faz dela belas poesias. Às vezes, trata-se de uma ausência clara, outras apenas insinuada, ou só uma suspeita. Ausência que utiliza a imagem da sombra como uma das suas marcas. Sombras indistintas, abstratas, algo que não vemos definidamente, mas que representam uma presença. Sombras que podem aparecer mais precisas do que um espelho, como em “Intervalo”, ou representadas pela imagem de um gato. São poemas onde “As RuÃnas” são o ato criador de onde florescem essas sombras, “na evidência da coisa/ cuja ausência a confirma”. Ausência, muitas vezes, associada à tristeza, tristeza que transpassa o texto e realmente comove.
Em determinada altura do livro começamos a ver uma diferenciação. Não é exatamente uma divisão, mas percebemos uma distinção entre os poemas com facilidade. Alguns dão vozes a personagens literários e mÃticos, como Orfeu, Eros, Lázaro, Pierre Menárd, Sancho Pança – essas personagens já conhecidas de outras literaturas também me pareceram uma espécie de sombra quando as imaginei como aparições, fantasmas de outros textos, algo desse tipo. Outros poemas têm uma voz lÃrica que trata, principalmente, das diversas formas de ausência, voz que notamos possuidora de um interessante olhar poético sobre as coisas ao seu redor. No geral, são poemas cheios de musicalidade, em que o poeta utiliza muito bem o recurso das rimas.
A ‘ausência’ aqui aparece como morte, principalmente em forma de suicÃdio – que vi como uma dupla falta, já que, além da falta/ausência em si, representaria a falta da vontade de viver -, aparece como uma sombra em si e como outras imagens que a ilustram brilhantemente: um piano fechado, uma viúva, alguns objetos que despertam lembranças nas personagens, um balanço vazio – que, aliás, se tornou uma belÃssima representação da ausência explorada nesse livro, nada me deu uma ilusão tão forte da ausência como esse balanço vazio. Já a ‘vila’ aparece como a imagem de um livro e suas histórias – poema “Vila”. Algumas personagens, habitantes dessa vila, se tornam recorrentes e nos envolvem. Além delas, algumas palavras de tornam repetitivas, como se fossem uma espécie de tema, fazendo com que retomemos uma idéia lida anteriormente, isso trouxe certa familiaridade aos poemas, uma imediata associação muito peculiar.
Como em todo livro de poesias, alguns poemas se destacam mais do que outros e ofuscam seus companheiros. Porém, o livro é bem harmônico. Possui agradáveis surpresas, como o tocante poema “João de Campos” e um interessante poema, “Patrulha da Cidade”, que veio a mim com direito à musiquinha da chamada do programa de rádio e tudo.
O eu-lÃrico, nos últimos versos do poema “Falta”, que é emocionante, nos revela exatamente o que vemos muitas vezes retratado em De sombras e vilas: “Há uma falta em que vivo/ e outra que sou/ sem ser minha.”
Trata-se de um livro encantador, acho que isso resume bem.
Cordélia Brasil
A peça ‘Cordélia Brasil’ (re)estreou ontem no Espaço SESC Arena, em Copacabana, onde ficará em cartaz até 12 de outubro. Trata-se de um texto de Antônio Bivar, escrito no final dos anos 1960. Essa montagem tem a direção de Gilberto Gawronski e o elenco é composto por Maria Padilha, Cadu Fávero e George Sauma.
O cenário colorido, de Luiz Henrique Sá, simula uma Kitnet. O espaço é usado de forma bastante inteligente – por exemplo, o espaço que circunda o quarto também é a rua, permitindo cenas concomitantes. Esse cenário é o palco da história que gira em torno de três personagens: Cordélia Brasil, seu marido Leônidas e o jovem Rico. Para sustentar o sonhador Leônidas, Cordélia, além de trabalhar como auxiliar de escritório durante oito horas por dia, ainda precisa se prostituir à noite. Num desses programas, ela leva Rico para casa, um rapaz de 16 anos que, no desenrolar da história, acaba morando com eles.
Leônidas, esse homem sonhador de 28 anos sustentado pela mulher, é responsável pela fantasia do texto, que se expande com grande agilidade, a ponto de acabar por sobrepor-se ao real. Cordélia mostra-se apaixonada por ele e atura com brandura dois anos de relacionamento dessa forma até tomar uma decisão: tenta mudar a situação, o fazer trabalhar, mas, pelo que ouvimos, hilariamente, seu marido é incompatÃvel com o trabalho – ele diz que é um crime um homem com sua sensibilidade ficar preso ao trabalho. Leônidas quer ser autor de histórias em quadrinhos, mas enquanto seu sonho não se realiza, e não o vemos fazer nada para que isso aconteça, passa o dia todo em casa, não trabalha em mais nada e ignora os empregos que a esposa lhe arruma. É um homem teórico, com um vocabulário rebuscado, que no fundo só queria uma companhia para seus devaneios e que, de certa forma, ama e protege a esposa – como quando não conta que o camafeu dela não sumiu, mas foi levado por sua mãe que alegou que a filha não era mais merecedora dele. Ele tem conhecimento desse outro emprego da esposa e não parece se importar, a não ser por ela não poder ficar em casa lhe fazendo companhia. Ela até lhe conta os encontros com os clientes como algo natural de um dia de trabalho e ele age com normalidade.
Já Rico é um adolescente com hormônios descontrolados que entra na história, em princÃpio, se opondo ao marido assexuado. Contudo, os dois tem mais em comum do que imaginam – e do que ela imagina também. O menino parou de estudar, diz que ‘está dando um tempo’, e daà já se tira algumas conclusões. Ele vai até o apartamento do casal novamente em busca de outro programa e acaba sendo convidado por Leônidas para ficar morando lá por quando tempo quiser em troca dos Cr$ 100 que ele trouxe para pagar Cordélia. Porém, mais do que o dinheiro, Leônidas mostra que quer uma companhia para os seus dias enfadonhos. Rico, em vez de despertar ciúmes, acaba ficando amigo e aderindo ao mesmo estilo de vida de Leônidas – também, quem não adoraria essa vida ociosa? Ficam os dois vagabundos em casa, enquanto Cordélia sai para trabalhar. Rico, dessa forma, aparenta ser apenas um desdobramento do marido e parece entrar na história mais para saciar as necessidades de Leônidas do que as de Cordélia. Ele gosta de ouvir o que o outro tem para contar, o que a moça já não pode mais fazer, pois passa tempo demais na rua trabalhando, assumindo, por isso, um papel importante na vida do casal.
Durante um programa com um turco, Cordélia descobre, fazendo uma introspecção, que ela não é nem uma ‘biscate’, nem uma auxiliar de escritório, nem uma dona-de-casa. Passa por uma espécie de crise existencial. Mostra que tem inveja da juventude de Rico, talvez isso os ligue, e que ainda tem sonhos: sonha em ter uma filha e ensinar tudo o que ‘essa vida maldita lhe ensinou’. Ela, por fim, toma uma decisão: manda o marido embora, manda os dois embora, e diz que dará sentido a sua vida: vai virar uma ‘putona’. Vai pintar o apartamento de vermelho e o transformar num bordel. Desiste de esperar que o marido mude, ficou esses dois anos esperando que ele, pelo menos, escrevesse um romance de sua vida, a visse como inspiração e cansa. Na verdade, acredito que não é a postura acomodada do marido que a faz desistir do casamento, mas o fato dele não a incluir nos seus sonhos. De certa forma, ela coloca as esperanças em Rico, na paixão que ela o julga sentir e no fim se frustra também. Achou que o menino se transformaria num gigolô, não que ficaria ali com aquela carinha de anjo com uma postura similar a do seu marido.
Em meio a essas frustrações, contadas de forma cômica, Leônidas aparece com uma granada dizendo que a guardou esse tempo todo para um dia explodir aquele apartamento, mas decide que agora embarcará no sonho do menino – que em outro momento pergunta se é fácil arrumar emprego na marinha mercante -, dizendo que agora vai usar a granada para explodir o navio. Já que ele não conseguiu ser quadrinista, se transformará em uma personagem de histórias em quadrinho e transformará Rico também. Saem de cena e escutamos o barulho da explosão. Cordélia e nós concluÃmos que a granada explodiu e os dois morreram. Então, ela decide cometer suicÃdio tomando remédios. Enquanto espera a morte faz reflexões sobre a vida, deita-se na casa, pensa em escrever uma carta explicando tudo e percebe que não tem a quem explicar e nem o que explicar. Entretanto, fica feliz ao lembrar-se que deixou a marca da sua passagem na Terra: umas fotos em que pousou nua para um fotógrafo americano. Arrepende-se de ser tão impulsiva e lembra-se de uma frase que é também o tÃtulo original desse texto: “o começo é sempre difÃcil, Cordélia Brasil, vamos tentar outra vez“, enunciação que ela nem lembra mais quem lhe disse, mas acha que foi a professora de economia doméstica.
Percebemos, em meio a um texto que, à s vezes, parece não ter pretensão nenhuma além de entreter, que as vidas das personagens não têm sentido. Pelo menos, não separadas, pois assim que a relação entre os três acaba, acaba também a vida em si. Fim trágico, mas talvez o único que caberia nessa história. É uma peça leve, uma comédia suave. Texto agradável, criativo, munido de vários momentos cômicos muito bem executados pelos atores. Muitas vezes, o conteúdo dos diálogos é que torna tudo tão engraçado, pois não acreditamos que as pessoas são capazes de dizer certas coisas num relacionamento com tanta naturalidade. Interessante também é a forma como são expostas as situações, situações que hoje, quarenta anos depois, já não chocam ninguém – ou quase ninguém, nunca se sabe -, mas que não perderam sua essência. Enfim, são bons momentos de descontração.
Texto: Antônio Bivar
Direção: Gilberto Gawronski
Elenco: Maria Padilha, Cadu Fávero e George Sauma
Espaço Sesc
Informações: (21) 2548-1088 ramais 228, 255 e 229
Rua Domingos Ferreira, 160
Copacabana, Rio de Janeiro/RJ
Ele Precisa Começar
Assisti a estréia de ‘Ele Precisa Começar’, com o ator Felipe Rocha, que está começando como autor e dividindo a direção com Alex Cassal. Já vi alguns espetáculos na sala Multiuso do Espaço SESC, mas nunca a tinha visto tão bem aproveitada. Dividiram a platéia em quatro blocos de cadeiras, sendo que a segunda fileira foi posta em um tablado possibilitando uma visibilidade perfeita de qualquer lugar escolhido. O cenário foi composto de forma que algumas cadeiras da platéia ficassem dispostas entre os objetos cenográficos. O ambiente é basicamente formado por mesinhas, abajures, luminárias que pediam do teto, uma secretária com um laptop, peças de roupas pelo chão e várias xÃcaras de café espalhadas. O som – a trilha sonora é do próprio Felipe – e as luzes – a iluminação é de Tomas Ribas – são controlados pelo ator enquanto encena. Tudo bem articulando já insinuando o tom da peça.
Ele precisa começar, ele será o narrador da história que está criando naquele momento. Ao mesmo tempo personagem e escritor, em que as noções de autor, escritor e narrador se confundem, nos descreve a cena e o lugar de um dia de outubro de 2007. Conta-nos uma história, história de um homem sozinho em um quarto de hotel que começa a escrever e nos relata todas as idéias que vem a sua cabeça, todas as coisas que poderiam acontecer.
O texto conta com os espectadores não só nas ocasiões em que participam ativamente, mas em todos os momentos, pois necessita da nossa imaginação e requer muita atenção. Participamos do processo que simula a criação. Tudo com uma bela interpretação de Felipe Rocha. As idéias surgem e nem a personagem sabe onde vão chegar, mas existe um acordo entre nós sobre as coisas que não vão acontecer. Esse é o único limite. Há muitos silêncios no texto, mas de alguma forma eles são preenchidos. Às vezes, nos sentimos até capazes de ler os pensamentos da personagem.
Ele nos conta a história, mas não executa todas as ações e quando o faz é apenas como uma forma de ilustração, recurso utilizado por um bom contador. É uma peça baseada na palavra e na expressão corpórea e ele conta com os espectadores para criar as imagens. Por exemplo, a personagem Fátima não está presente, contudo a vemos, não só quando um dos espectadores empresta seu corpo a ela, mas até quando não há nada fÃsico que a represente. Ele nos relata até quais seriam nossas possÃveis reações. Não tem como não embarcar na dele. Somos seduzidos por essa personagem sem nome, interpretada por um ator competente que nos faz acreditar que estamos mesmo participando do processo de criação. Fala o texto como se realmente estivesse escolhendo as palavras no momento que as reproduz e nos mostra até como é difÃcil escrever uma história. Substitui palavras, retoma e insere novos elementos etc.
Percebemos até os momentos em que ele parece não pensar mais na peça, com o som de grilos ao fundo, em que ele brinca com os objetos da mesa e ali está também criando. Transforma o relógio de pulso numa gaivota. Como um menino brincando com seus carrinhos, deixando a imaginação comandar. Não há limites no seu mundo. Simula inclusive uma crise de criatividade em que o texto empaca e uma discussão com o corretor ortográfico que não se restringe em corrigir, mas quer também escolher as palavras que ele pode ou não usar em seu texto.
No fim, ele acha que já está bom e a peça termina. Vemos o quanto é aterrador a idéia de um ponto final quando ainda se tem muito a dizer. Porém, esse não é o ultimo momento do espetáculo, na verdade, demoramos um pouco para perceber quando ela chega ao fim exatamente. Ele combina, aos sussurros, com o tal espectador-voluntário o que esse terá que fazer e brilhantemente este se transforma no personagem-escritor, senta-se ao computador, o desliga e sai da sala, talvez como um sÃmbolo de que cada um de nós constrói a história também.
É nesse clima que a peça se desenrola. São agradáveis 70 minutos e até o espectador que se ofereceu para participar foi brilhante. São momentos engraçados inclusive, uma proposta interessante e muita competência.
Texto e atuação: Felipe Rocha
Direção: Alex Cassal e Felipe Rocha
Orientação corporal: Dani Lima
Cenário: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Trilha sonora: Felipe Rocha
Assistência de direção: Stella Rabello
Temporada: de 05/09 a 14/09 no Espaço SESC e de 19/09 a 26/10 no Teatro do Jockey.
A Soma de Nós
A Soma de Nós, em cartaz até cinco de outubro no Teatro Vannucci, é uma adaptação, feita por Flávio Marinho, do texto “The sum of us“, do autor australiano David Stevens.
Num cenário que imita uma casa antiga precisando de reformas é representada a história que gira em torno da personagem Henrique. Viúvo desde que o filho era pequeno, Henrique é um pai amoroso e compreensivo, que tem prazer em dividir o lar com seu filho, Jeff, um jovem assumidamente gay. O dia-a-dia de pai e filho é retratado com a máxima normalidade, é uma rotina comum. O pai logo no inÃcio nos explica que o filho é gay, os dois aceitaram isso de forma natural e continuaram vivendo juntos, que seria puro preconceito se agisse de outra forma, pois Jeff é um ótimo rapaz, trabalhador e seu melhor amigo. O diálogo entre os dois é inacreditavelmente aberto. Falam de tudo. Como amigos da mesma idade. Não há cobranças, não há barreiras. São confidentes um do outro.
Henrique foi educado numa casa em que viu sua mãe, depois de sofrer um longo perÃodo pela morte do marido, encontrar na companheira Mary o afeto, o consolo, para continuar a vida. Henrique reconhece isso, nos conta que admirava aquele amor e seria incapaz de negar aquilo ao filho. Ele assistiu sua mãe enfrentar todos os problemas que aquela relação poderia ocasionar e só houve a separação quando ele e o irmão, percebendo que as duas já estavam muito idosas para cuidar uma da outra, resolveram separá-las, alegando que era para o bem delas. Sua mãe não questionou e morreu um tempo depois, sem nunca ter tocado no assunto. Essa mãe, sem saber, preparou o filho para ser pai de um homossexual, que tem em casa um lar onde pode ser sincero e receber todo apoio de uma pessoa que não viu na sua sexualidade um problema, não criando mais uma dificuldade além do que as que esse rapaz já iria enfrentar.
A peça não trata apenas de preconceito, ou de uma famÃlia atÃpica, trata de amor. Amor de várias formas, representados, predominantemente, por estes dois relacionamentos: um entre pai e filho, e o outro entre duas mulheres – a mãe de Henrique e sua companheira Mary. Vi ali representado um sentimento que supera tudo e transforma a vida não numa conjuntura mais fácil de ser vivida, mas em algo com mais sentido.
Jeff se apaixona por Greg, um jovem rapaz que, ao conhecer Henrique, revela que seu pai é bem diferente dele e é o motivo para ele não ter assumido sua sexualidade em casa. E Henrique, ao assistir essa tentativa de relacionamento do filho que não dá certo, mostra-se mais uma vez um grande amigo e incentiva Jeff a não desistir, a viver, a não se fechar para os prováveis sofrimentos e frustrações que a vida pode colocar em seu caminho. Henrique educa um filho corajoso, capaz de servir de exemplo para muitos outros.
O pai, que até então não tinha mostrado vontade de ter outro relacionamento depois da viuvez, resolve arriscar procurando uma agência de encontros e conhece Joyce, mulher solitária a quem o marido trocou por uma mais jovem. Joyce, quando descobre que Jeff é gay, mostra-se radicalmente preconceituosa e vai embora, perdendo a possibilidade de conviver com duas pessoas que sabem o que é o amor, abrindo mão de se relacionar com esses homens que tinham muita coisa a lhe ensinar.
Jeff também mostra ser o companheiro ideal do pai. É ele quem cuida de Henrique depois que este sofre um sério derrame e já não é nem mais capaz de falar, mas nem por isso deixa de participar da vida do filho. Graças ao fato de Jeff o levar para passear, eles reencontram Greg e aparentemente o desfecho é que os dois rapazes finalmente ficarão juntos.
O texto aborda temas profundos, mas não é pesado. Não parece ter a intenção de causar no espectador o desconforto de fortes emoções. Porém, mesmo sem essa aparente intenção, o texto nos faz refletir e comove de uma maneira suave. O espetáculo tem duração de 70 minutos e a soma dos atores deu um ótimo resultado. Infelizmente, o confortável teatro estava vazio, éramos apenas 25 espectadores. Isso quer dizer que muitas pessoas perderam a oportunidade de conferir essa encantadora peça nesta apresentação.
Texto: David Stevens
Tradução e adaptação: Flávio Marinho
Direção: Eduardo Figueiredo e CÃntia Alves
Elenco: Luiz Carlos de Moraes, MaurÃcio Machado, Pedro Bosnich e Mara Manzan (participação especial)
Teatro Vannucci: Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro / RJ
TPM – Terapia Para Mulheres
Está em cartaz até 2 de novembro, no Teatro Cândido Mendes, a nova comédia da Palco Cia de Teatro, “TPM – Terapia Para Mulheres”, que faz parte da trilogia de Paula Giannini, junto com as peças “Casal TPMâ€, em cartaz em São Paulo, e “Tratamento para Machosâ€, ainda inédito.
O espaço do Teatro Cândido Mendes é muito bem aproveitado. É como uma semi-arena. A entrada dá lugar ao fundo do cenário, que, neste caso, trata-se apenas de uma espécie de lona que serve como base para a projeção de algumas imagens. Isso, somado apenas a uma cadeira rosa e um poste de strip-tease, compõe o cenário que simula o ambiente de uma rave, complementado pela música e pela iluminação tÃpica.
O roteiro não traz nenhuma constatação ou piada inovadora. São discursos comuns encontrados em textos que abordam situações experimentadas por mulheres que sofrem de ciúme, problemas de auto-estima, relacionamento etc. A maioria das piadas já é conhecida, ou pela circulação na internet, ou por serem antigas, aumentando a probabilidade dos espectadores já terem as escutado em algum lugar, como em comentários de amigos, ou mesmo em programas televisivos.
As personagens são caricatas. A primeira se chama Neusa e entra em cena bêbada, munida de várias piadinhas populares. Já Fiona, mais afetada que a primeira, é o estereótipo de uma louca surtada. Chama atenção por sua roupa ridÃcula e sua falação em que nos relata seus surtos esquizofrênicos que assustaram sua famÃlia e seus ataques histéricos.
A terceira é Marlene, uma mulher que deseja loucamente entrar nos EUA e nos dá dicas de lÃngua inglesa, com sotaque nordestino. Sua proposta é desmistificar as palavras em inglês em apenas uma única aula, com um método que ela própria desenvolveu quando estudava para entrar no paÃs de Jorge (George Washington?) e nos conta o trauma de ter sido barrada na imigração.
A outra, um ator vestido de mulher, é uma mulher idosa que aluga vagas no quarto de empregada, nesses tempos difÃceis, e se apaixona por um dos inquilinos. Ela já foi também amante de 9 presidentes, 8 vices e não sei mais quantos diplomatas. Depois, mais um ator vestido de mulher, é a vez de uma personagem que só pensa em sexo, uma ninfomanÃaca com medo de se relacionar com homens. Faz conclusões engraçadas sobre os vários tipos de homens e nos conta que descobriu que seu ex-namorado é o ‘taradão do dedão do pé da Baixada Fluminense’.
A seguinte é uma mulher que tem ‘TOC’, viciada em filas e que toda vez que lava as mãos no banheiro, antes de enxaguá-las, acaba lavando a pia, a torneira e o banheiro todo. Ela possui traumas por causa da mãe, fobia de números Ãmpares e medos de ursinhos de pelúcia. A seguir, entra em cena uma personagem em crise conjugal, existencial etc e nos relata um cômico episódio de um ‘banho-de-lua’. Em seguida, é a vez de uma loira com 130kg que caba de completar 40 anos e é amante da comida. Gorda, mas que aos 40 anos se livrou de um peso de 90kg, se separando do marido, nos relata o diário de uma dieta e confessa que odeia o seu médico do tratamento de emagrecimento.
A última é uma mulher ciumenta que vai a tal rave atrás do marido. Diz-se uma mulher apaixonada, uma mulher que ama demais. Imagina coisas, tem ciúmes da repórter Ana Paula Padrão, que ela diz ter certeza que dança para o seu marido quando ela sai da sala. Revela que examina todas as coisas do marido, vai à cartomante, instalou câmeras em casa, contratou um detetive para seguir o marido e ela mesma seguiu o detetive para verificar se ele seguia realmente seu marido.
São, portanto, nove personagens que entram em cena individualmente e nos relatam episódios de suas vidas que nos remetem a seus problemas psicológicos. Contam traumas, suas atitudes, sentimentos, nos permitindo entrar um pouquinho nos seus mundinhos. É uma simulação de bate-papo, um desabafo de mulheres problemáticas. Às vezes, a forma extremista como se apresentam é que as fazem engraçadas, e, às vezes, é o que tira a graça também.
Sabe aquele papo com estranhos em que nos surpreendemos nos perguntamos o que estamos fazendo ali, questionando se realmente somos obrigados a escutar aquilo? Sabe aquelas pessoas que vêem num estranho um ouvinte em potencial e querem resumir sua vidinha, principalmente seus problemas, em 5 minutos? A peça tem essa essência.
Trata-se de uma terapia mesmo, mas não para nós, para elas, que criam um espaço para falar um pouco de suas neuroses. Confesso que não achei muito engraçado. Percebi que se é difÃcil fazer comédia, mais difÃcil ainda é acertar na hora de colocá-la no palco. A simulação do ridÃculo por si só nem sempre faz rir, mas talvez seja só a minha TPM.
Texto: Paula Giannini.
Direção: Amauri Ernani.
Elenco: Paula Giannini, Amauri Ernani, Mayra Villela, Shirley Bonani e Éris D`Souza.
Teatro Cândido Mendes: rua Joana Angélica, 63 – Ipanema.
Lampadário
Em Lampadário, a poeta carioca Denise Emmer, faz uma sinfonia abordando temas diversos. São poemas reluzentes. Ela, sem dúvida, usa a lÃngua portuguesa a seu favor. Transforma luz em verbo, e faz dele poesia. As sensações que trazem, permanecem no leitor. Se a luz tem som, os sons são parecidos com estes poemas.
A poetisa explora a palavra e a transforma, utilizando uma linguagem carregada de sÃmbolos. Ela não faz poesia abordando temas comuns – como morte, solidão, amor, perda, esperança -, faz poesia quando transpõe um sentimento para o papel.
Um dos poemas, “Dicionário da LÃngua Bela” – VI, descreve muito bem seu trabalho neste livro:
Dê-me a palavra que invento um bosque
Pleno de repousos e grandes baobás
Sopre-me o verbo que verso o mote
Viagem sem norte vento de além mar
Provavelmente por sua experiência na música, a sonoridade de seus poemas é marcante. E como o trovão antes do raio, o som vem antes da luz neste livro também.
Denise Emmer, filha dos escritores Dias Gomes e Janete Clair, possui uma extensa produção artÃstica. Além de poetisa, é ficcionista, graduada em FÃsica e Música – violoncelo – e também cantora, compositora e instrumentista. Já ganhou diversos prêmios por sua obra literária. Lampadário é o seu décimo quarto livro.
Publicado pela 7 letras este ano, Lampadário é composto por 42 poemas, tem uma bela capa de Mariana Avillez e prefácio do poeta e editor Alexei Bueno, que também colabora com vários mecanismos de imprensa.
Ensina-me a viver
Essa adaptação do texto de Colin Higgins não tinha como dar errado. Texto bom, equipe boa: peça boa. Glória Menezes dispensa comentários. E não concordo que seja um texto sobre uma história de amor improvável. Qualquer um se apaixonaria por Maude. Improvável é ver algo provável ser tão bem explorado. O bom é ver uma montagem com qualidade, que, além do esperado, ainda arruma tempo para surpreender.
No Teatro do Leblon, Sala MarÃlia Pêra, que não é das mais confortáveis, estará em cartaz, a um preço nada popular, até 26 de outubro, a peça ‘Ensina-me a viver’. Adaptada e dirigida por João Falcão, que não é só fama, ele nos mostra um trabalho impecável, o texto foi lindamente apresentado. O jovem Arlindo Lopes é um ator brilhante. O menino comprou os direitos da peça, buscou produtora e equipe e ainda representa Harold de forma excepcional. O que dizer mais?
Ilana Kaplan, Fernanda de Freitas e Augusto Madeira também não deixam por menos. Junto ao elenco de apoio, composto por Verônica Valentin, Guilherme Siman, Walisson de Souza e Jamil Pedro, os atores exageram na sintonia. E é exatamente nisso que o espetáculo é grandioso: sintonia.
O encontro entre um rapaz de 20 anos problemático com uma senhora de quase 80 anos que sabe ser feliz, ganha vida com um muito capricho. O cenário é simples, mas eficiente. A cor preta é o principal elemento que mostra como algo pode ser multifacetado. Um fundo preto e recortes de um pano preto, que são montados como cortinas, permitem uma mobilidade que constrói um jogo de cenas interessantÃssimo. Trata-se de uma espécie de tela, não sei, que permite a visualização de nuances pospostos e, ao mesmo tempo, serve de base para a projeção de imagens. Isso somado a objetos de ferro, como cadeiras e esculturas, e uma iluminação inteligentÃssima. São 110 minutos de espetáculo com um apelo visual cinematográfico que encanta.
A pergunta principal não nos deixa dúvidas do que faz alguém se sentir bem ao lado de outra pessoa: você conhece alguma coisa melhor do que rir junto com alguém? Pois é, isso é a essência da história de amor do casal e é o grande atrativo do texto também. Tiradas cômicas, tanto nos diálogos como nas armações de filme de terror das simulações dos suicÃdios de Harold para impressionar a mãe, fazem da apresentação algo agradável. È muito gostoso rir junto com eles.
Ao mesmo tempo, as cenas românticas são muito bem pensadas e encantadoras. O que era para ser drama ganha paixão, principalmente pelas interpretações. Quando Maude sai de cena dizendo a Harold que vale a pena, ela lhe garante, parece também ser um toque de uma atriz experiente para um jovem ator.
Comemorando 50 anos de carreira artÃstica, Glória Menezes é suave e alegre. Arlindo Lopes, com uma carreira bem mais curta, é um ator completo que, ali no palco, mostra-nos, numa atuação impecável, que ele já sabe o que a colega está dizendo.
Adaptação e direção: João Falcão
Tradução: Millôr Fernandes
Elenco: Glória Menezes, Arlindo Lopes, Ilana Kaplan, Augusto Madeira, Fernanda de Freitas, Verônica Valentin, Guilherme Siman, Walisson Souza e Jamil Pedro
Cenografia: Sério Marimba
Iluminação: Renato Machado
Aquarelas do Ary
Está em cartaz no teatro Maison de France o musical Aquarelas do Ary, sobre a vida e obra de Ary Barroso. O texto de Marcos França, com direção de Joana Lebreiro, é estrelado pelo próprio Marcos, pela graciosa Claudia Ventura e por Alexandre Dantas.
O cenário, em preto e branco, é composto por imensas partituras musicais, feitas por Jacy de Mattos Madeira. Elas e um telão, no centro, formam a base para as projeções que ilustram episódios da história de Ary e nos ajudam a compor as memórias. De forma harmoniosa, com a contribuição de um belo trabalho de iluminação, todos os elementos importantes da vida do compositor estão ali retratados: a música, com o piano e as partituras, e a boêmia, com a cerveja, que os atores bebem durante as encenações.
Desde do inÃcio tudo é muito convidativo, as cortinas nunca se fecham e as luzes não se apagam completamente. Cada um dos atores sobe ao palco individualmente, passam uma música, e, após isso, em vez da comum campainha, eles tocam o gongo, que é usado para encenar o programa de auditório.
O espetáculo começa propriamente quando Claudia, que possui uma voz belÃssima, faz uma apresentação poética, animada e muito descontraÃda, sobre o inÃcio da vida de Ary. Os atores nos contam de forma bem agradável desde as travessuras da infância do compositor até sua morte. Passam por todas as etapas da vida dele e há momentos contados de forma bem cômica.
Os atores não cantam as músicas simplesmente, as interpretam no máximo rigor da palavra. Seus gestos e expressões acompanham suas vozes com admirável apuro. As letras das músicas de Ary Barroso são responsáveis por boa parte do texto. São elas, organizadas de forma astuciosa, que nos contam vários episódios de sua vida. É impressionante como esse gênio conseguia fazer música dos eventos mais banais do dia-a-dia.
Tudo é praticamente perfeito. A única desatenção com espectador é em relação à visualização por parte do público que assiste ao espetáculo do segundo andar, onde eu estava. Algumas cenas se passam fora do palco e, simplesmente, não podem ser vistas pelos que ocupam a partir da segunda fileira de cadeiras e os da primeira precisam debruçar-se para vê-las. Restou-nos, então, ouvi-las.
Foram 100 minutos emocionantes e o elenco foi aplaudido de pé por uns cinco minutos. Isso alude bem o belÃssimo espetáculo que assistimos. E, dependendo do lugar em que o espectador se sentar, poderá facilmente defini-lo como ‘perfeito’.
Texto: Marcos França
Direção: Joana Lebreiro
Elenco: Claudia Ventura, Alexandre Dantas, Marcos França
Direção musical e arranjos: Fábio Nin
Sopros: Daniel Máximo
Percussão: Geórgia Câmara
Violão: Fábio Nin (subst. Raphael Berendt)
Piano: Ana Lucia Santoro
Sonhos de uma noite de São João
O espetáculo, a céu aberto, Sonhos de uma noite de São João, inspirado na peça Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare, foi uma boa surpresa. Adaptado e dirigido por Anderson Cunha, e com supervisão de Paulo Betti, a peça simplesmente pegou a essência da história de Shakespeare e a transportou para a nossa cultura das Festas Juninas – nisso incluo todas as festinhas caipiras, julhinas, agostinas etc. Sabe aquela historinha interpretada numa boa quadrilha junina? Só que, desta vez, foi uma história baseada na de William que foi encenada. Simples, mas inacreditavelmente bem feito.
O espetáculo tem em torno de 1hora e 15 minutos e conta com 24 atores da Oficina da Casa da Gávea. Num palco montado na Praça Santos Dumont, em frente à Casa da Gávea, rodeado por cinco barracas de comidas tÃpicas, criando um espaço bem apropriado, vemos um cenário simples, inspirado na decoração das festas juninas, mas com muito capricho, música ao vivo, um ótimo jogo de luzes e muita alegria.
A peça aproveita o nosso folclore para contar a história encantada dos casais, que aqui se chamam Rosinha e Bentinho, Gaspar e Margarida, a rainha das fadas, o rei dos duendes e o duende, chamado Curupira, responsável pelos feitiços, pela confusão de trocar os pares e de transformar a futura paixão encantada da rainha num ser com orelhas de burro. Aqui, também está incluÃda a parte do ensaio de uma peça que está no original, que, aliás, são as cenas mais engraçadas.
Desfeito os feitiços, todos os envolvidos acordam com a sensação de que tudo não passou de um sonho de uma noite… de São João. E, assim como em Shakespeare, a peça termina com o casamento dos casais. Entretanto, com as caracterÃsticas e a alegria das festas juninas e com direito a encenação da peça que estava sendo ensaiada, que foi um show à parte.
O espetáculo ainda é seguido de show de forró, depois de um intervalo, e as barraquinhas continuam vendendo seus quitutes. Tudo muito agradável. Porém, o atraso de 40 minutos para o inÃcio do espetáculo acabou fazendo com que os últimos 15 minutos da apresentação fossem debaixo de chuva. Já preocupação de não incomodar os moradores das redondezas com o barulho fez com que o som fosse baixo, e se o espectador não se mantivesse bem junto a aglomeração não ouviria com clareza. Tive a impressão também, que o público não está preparado para esse tipo de evento. As conversas paralelas, os celulares com sons estridentes, não combinaram com o clima proposto. Mas, o texto ficou muito bom, a adaptação de um texto clássico para a linguagem popular deu em um ótimo resultado e a proposta de ser um evento ao ar livre fez diferença.
Adaptação e direção: Anderson Cunha
Elenco: Oficina da Casa da Gávea
Supervisão: Paulo Betti
Cine-Teatro Limite
Assisti, no Teatro Glória, à comédia Cine-Teatro Limite, de Pedro BrÃcio. A história é ambientada no ano de 1944, portanto, durante a Segunda Guerra Mundial, na cidade do Rio de Janeiro. A peça começa, com as cortinas ainda cerradas, com a fala de uma espécie de narrador ou apresentador. Ele se apresenta e diz que é o protagonista de sua própria história. E, a partir, de um questionamento – “O que acontece com nossas memórias quando a gente morre?†– inicia-se o desenrolar da trama.
Num cenário simples que retrata um sobrado na Lapa, privilegiando as cores, vermelho e verde, que permanecerá em destaque durante todo o espetáculo, vemos a cena corriqueira de uma famÃlia, composta por um casal, dois filhos e uma empregada – empregada, aliás, representada por um ator vestido de mulher, responsável por quase todos os pontos realmente cômicos da peça.
Nessa famÃlia, temos um pai italiano, que possui uma banca de jornal na Cinelândia, a mãe, dona-de-casa, ex-cantora e alcoólatra, o filho mais velho, Valentino, aviador, que depois irá para a guerra e Sábato, filho que não encontrou ainda seu papel no mundo, e é em torno desta personagem e de seu drama pessoal que a história acontece.
Sábato nos é apresentado com um caderninho na mão e sua mãe reclamando que ele não arrumou um coelho para o jantar de aniversário do pai, como foi pedido. Desse pequeno acontecimento, são expostas as caracterÃsticas desse jovem de 25 anos, que ainda mora com os pais e não possui uma profissão. Nem nos bicos que o pai lhe arruma, ele consegue ficar por um tempo – a última que aprontou, foi libertar os coelhos do açougue onde trabalhava no Passeio Público, alegando que era comunista.
Porém, Sábato tem um discurso pronto, diz que é comediógrafo e está escrevendo um filme da “comédia risÃvel de suas vidas patéticasâ€. E em seu quarto, vemos o tal narrador, conversando com ele. Aos poucos vamos descobrindo que se trata de uma espécie de amigo imaginário. É o seu Ãdolo, o ator Totorito, para quem ele está escrevendo o filme, em que interpretará um carteiro, e parece ser a sua fonte de inspiração.
A peça também apresenta um tom polÃtico, principalmente quando outra personagem entra em cena, Aurora, ou Sara, namorada comunista de Valentino, por quem Sábato também se apaixona. Segundo a sinopse, “o getulismo, os cômicos populares, a crise econômica, o cinema hollywoodiano, as notÃcias de jornal e o existencialismo se misturamâ€. E é isso mesmo. Esses elementos são incorporados ao discurso de maneira bem inteligente.
Finalmente, Sábato toma coragem e vai mostrar ao seu Ãdolo o filme que escreveu para ser estrelado por ele, com quem já tem uma bela amizade em sua imaginação. Como Totorito só lhe dá 5 minutos para expor o que está no roteiro, Sábato conta com os atores que interpretam os seus familiares para compor um musical bem movimentado e engraçado do filme. É o momento de mais animação da peça.
Depois de 10 minutos de intervalo, inicia-se o segundo ato da história, e como o narrador mesmo aponta, a história mudou. A cena que encontramos é a de uma famÃlia esperando notÃcias do filho aviador que foi para a guerra e há quatro meses não escreve cartas. Agora as personagens vivem o drama da espera. Sábato, como um artista em crise, nem consegue ver mais seu amigo imaginário. Resume que passou um ano de sua vida escrevendo essa história para divertir as pessoas, mas que o que está acontecendo é tão mais urgente, que não pode perder mais tempo com aquilo. Vivendo uma espécie de crise de criatividade. Em outro momento, questiona se a ficção é capaz de salvar as pessoas e logo depois chega uma carta de Valentino. Não há muito mistério aqui. Nota-se logo que ele próprio escreveu a carta para trazer tranqüilidade à famÃlia. Nessas cartas, Sábato, através da voz do irmão, expõe o que gostaria de dizer no lugar de Valentino. Aliviando a dor da famÃlia, reescreve sua história.
Nos momentos finais, temos Totorito de lado, com um café e o roteiro, e as cenas continuam sendo representadas, como se estivéssemos vendo encenado o que ele está lendo. Totorito telefona e diz que irão produzir o filme, mas Sábato não está mais interessado. Diz que vai para São Paulo fugir da ficção que criou nas cartas, que não tem mais coragem de conviver com os pais. Assume que é carteiro do filme – figura imaginária que o transportava dos momentos difÃceis para os momentos criativos, sempre projetando o drama na ficção, papel anteriormente destinado ao Ãdolo. E Totorito conclui que se essa história fosse um filme, terminaria ali. E é o que acontece.
Todas as cenas envolvem ações rotineiras com a comédia e o drama de maneira clara, humorada e descritiva. Prende a atenção do espectador a seqüência onde a figura do apresentador serve de associação da fantasia e da realidade. O espetáculo conseguiu retratar de forma especial uma famÃlia envolvida nesse perÃodo histórico tão conturbado, fugindo da melancolia própria do contexto, abordando os conflitos com feição espirituosa sem deixar de descrever fatos reais da história.
Trata-se de um making of do filme que Sábato gostaria de escrever. Texto bom. Os atores o executam muito bem. Porém, um pouco cansativo. São 120 minutos, sem os recursos que o cinema oferece. O espetáculo ganha movimento no segundo ato, que sem dúvida, passou mais rápido que os primeiros 60 minutos, mas mesmo assim percebe-se o quanto é difÃcil encenar um espetáculo tão longo.
Direção: Pedro BrÃcio e Sérgio Módena.
Elenco: Erica Migon, Isaac Bernat, Rodrigo Pandolfo, Celso André, Alex Pinheiro, Gustavo Wabner, Keli Freitas e Ãlvaro Diniz.
Uma geral no Festlip
O Rio de Janeiro foi palco, entre os dias 4 e 15 de junho, da 1ª edição do FESTLIP – Festival de Teatro da LÃngua Portuguesa. Evento produzido pela Talu Produções, que reuniu grupos de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Portugal e Brasil.
Dez companhias de teatro, duas de cada paÃs participante, se apresentaram no circuito SESC-Rio. E, paralelamente, à programação teatral, o Festival também realizou oficinas de teatro, palestras, uma exposição no Espaço SESC, além de uma programação musical no Circo Voador, e uma mostra gastronômica.
De forma muito organizada, o FESTLIP deu conta do que se propôs: promoveu o intercâmbio cultural entre esses paÃses. No encerramento do Festival, com direito a vários agradecimentos e aplausos, ficou a promessa de se repetir o feito com mais grupos e mais pessoas envolvidas.
O público, através de uma votação no final de cada apresentação, escolheu o grupo ‘revelação’ dessa edição. Porém, ficou bem claro que o prêmio, na verdade, homenagearia um representante ‘da revelação do FESTLIP’. O escolhido pelo público foi o grupo brasileiro Tropa do Balaco Baco, de Pernambuco, que participou do Festival com a peça ‘A paixão e a sina de Mateus e Catirina’. Prêmio a que o diretor Romualdo Freitas disse que o grupo não queria agradecer, mas dividir. E que a Tropa do Balaco Baco, nesse dia, representava a todos que participaram. Que cada um dos participantes voltaria para sua casa sabendo, como diria Caetano, que a nossa pátria é a lÃngua portuguesa.
Vale lembrar: A próxima edição do FESTLIP está prevista para o mês de julho de 2009, no Rio de Janeiro, com desdobramento na cidade de Luanda, em Angola. Na 2ª Edição será aberto um edital a partir de janeiro de 2009, dentro do site do FESTLIP, para a curadoria dos grupos candidatos. Os paÃses elegÃveis serão Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e PrÃncipe.
As Filhas De Nora
O grupo moçambicano Mutumbela Gogo trouxe ao Festlip o espetáculo As Filhas da Nora, uma adaptação do texto “Casa de Bonecasâ€, do norueguês Henrik Ibsen, feita pelo sueco Henning Mankell – “que faz uma leitura a partir da experiência moçambicana. No texto original, a protagonista Nora abandona o marido e suas três filhas ao descobrir que sempre fora tratada como uma boneca, e não como uma mulher. É um escândalo para a sociedade. A versão de Mutumbela Gogo trata das filhas que foram deixadas pela mãe. O que terá acontecido com elas? A partir desta questão, são debatidas as contradições e relações de afeto entre os indivÃduos.â€
Visitando o túmulo da mãe que as abandona, morta há dez anos, duas irmãs discutem enquanto esperam a outra irmã atrasada. O cenário é simples: apenas uma réplica de uma sepultura quase no centro da arena do Espaço SESC Arena, mas, isso não diminui em nada o belÃssimo espetáculo que assistimos.
As três irmãs discutem vários temas, mas o principal são os motivos que levaram a mãe a abandonar a casa quando as três ainda eram pequenas e a falta que essa mãe fez – “ela faria 62 anos e eu ainda sinto sua faltaâ€. Num texto que transborda mágoas, aflições, dor, solidão, abandono, mas também alegrias, as personagens vão contando sua história, apresentando seus problemas atuais e relembrando os momentos felizes, outras vezes não, de suas infâncias.
Um dos motivos que elas alegam para o abandono é o fato de serem meninas, tudo o que a mãe queria era ter um menino: “Quando eu ficar velha quem vai cuidar de mim?†– diz uma delas reproduzindo a fala da mãe. Aliás, são essas reproduções da fala de terceiros, ou uma das outras, que dá uma marca especial a essa peça. Com essa técnica, em que, às vezes, as personagens são elas mesmas, às vezes, apenas transeuntes que comentam a beleza de uma das irmãs, repassando cenas do dia-a-dia ou de um passado mais remoto, as atrizes mostram que não é necessário mudar o figurino, ou mesmo o tom de voz para a platéia perceber que não estão interpretando mais suas personagens originais e sim outras pessoas. Isso tudo com uma naturalidade que dá leveza à peça e a torna muito agradável de assistir.
As personagens riem, se divertem, dançam, recompondo suas memórias, e divertem também o público. Iolanda, Graça e Isabel tiveram uma infância feliz por ter uma à s outras. O abandono da mãe realmente as traumatizou, mas, agora, adultas, duas já com filhos, parecem ter uma nova percepção do fato. Como quando uma delas culpa a mãe e a outra responde que cada uma é responsável por si e que não sabem o que aconteceu para julgar. Nora queria ser livre, mas o marido não deixava. Queria estudar, trabalhar. Sempre acreditando que poderia manter o contato com as meninas, mesmo distante. Mas, o marido tornou isso impossÃvel e elas nunca mais souberam da mãe.
Quando o texto não é engraçado, é poético. Por exemplo, uma delas conta como se lembra da mãe: lembra da mãe parada e depois indo embora numa rua cheia de poeira. Já a mais nova, que constrói a lembrança da mãe apenas com o que contam para ela, pois era muito pequena, lembra-se do cheiro de Nora – cheiro de manga.
Graça, a irmã mais velha, é uma camponesa, casada, com duas filhas, de 13 e 15 anos, que reconhece a importância do seu papel na sociedade. Sem ela, pessoas, como a irmã Isabel, não teriam o que comer. Iolanda, irmã do meio, está grávida do segundo filho, e agora vive só, pois colocou o marido para fora quando descobriu que ele tinha uma outra famÃlia, e deu à filha com a outra mulher o mesmo nome que deu à filha dela. Isabel, irmã mais nova, é solteira, preza sua liberdade. Consegue dinheiro acompanhando homens, mas deixa bem claro que não é uma prostituta – o que as irmãs duvidam. Mas Isabel prefere viver isso a fazer o que os homens mandam e apanhar de um marido como as irmãs. Elas perguntam-se: “Qual a diferença entre nós? Vivemos vidas diferentes, mas no fundo, somos iguais.†E percebem que a mãe sim era diferente, mas não aprenderam nada com ela. Nora é a heroÃna e culpada por estarem ali sem vida própria. Reconhecem que a mãe tentou viver sem homem e Isabel propõe que voltem a viver juntas, elas e as filhas das irmãs, voltando a ser uma famÃlia. Uma delas diz: “Isso quer dizer guerra contra os homens?†E Isabel rebate que não: “Quer dizer que eles têm que nos entenderâ€.
O texto trata dos papéis de homens e mulheres e concluem que “as mulheres não lutam: discutem, berram, mas não lutam.†As irmãs chegam a conclusão que não têm que perguntar mais nada a mãe, mas procurar a resposta nelas mesmas. E que precisam voltar a ser irmãs. Quando forem grandes, querem ser apenas elas mesmas, nada mais. É um texto denso, que passa por vários assuntos que despertam os mais diferentes sentimentos, mas é também um texto cheio de esperança, que reconhece a necessidade da famÃlia associada, porém, à liberdade individual.
PaÃs: Moçambique
Peça: As filhas de Nora
Grupo: Mutumbela Gogo
Diretor: Manuela Soeiro
Elenco: Graça Silva, Lucrécia Paco, Yolanda Fumo
Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada
O grupo Etu-Lene apresentou-se no Festlip com o espetáculo “Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada”, no Espaço Sesc Sala Multiuso – apenas com um pano branco ao fundo compondo o cenário. Trata-se da história de um ancião que persuadiu seu filho, Caetano, a não se casar com Celina, e sim com Madó, uma menina que lhe parece a nora ideal, porque o trata muito bem. Katy-Ngotè investiu tudo na formação do único filho e, como uma espécie de gratidão por esse ato, se vê no direito de interferir na vida afetiva de Caetano – “Me orgulha ter um filho que toma as decisões conforme a minha vontade”.
Caetano mantém um relacionamento com as duas moças concomitantemente e seu pai acompanha os romances de perto, faz interferências, comentários – como quando Celina vira as costas e ele a insulta de várias formas. É gentil em sua presença, mas na ausência é bem crÃtico. Dando, com isso, um tom cômico à peça.
Através de intrigas, o pai faz o filho ressaltar apenas os pontos negativos de Celina – por exemplo, o mau hábito da menina tagarelar o tempo inteiro, contado casos que acontecem em seu trabalho como enfermeira num asilo e numa maternidade, casos que ela conta também para a platéia, comicamente. Caetano, então, cede à s exigências do pai e termina seu romance com CecÃlia. E, após saber que Madó está grávida, resolve casar-se com ela, para a alegria de seu pai.
Todavia, em meio a isso, temos a presença de Martins, o outro namorado de Madó. Ela diz que ele é o homem da sua vida e não resiste à s investidas dele, mas diz também que nem só de amor se sobrevive e que será melhor ficar com Caetano, futuro engenheiro. Madó é bem dissimulada, consegue agradar pai, filho e amante – que sabe do envolvimento dela com Caetano – com muita facilidade. Porém, como ela mesma fala, esse tipo de recepção que oferece ao futuro sogro lhe custará caro, pois ela não é uma boa pessoa.
Antes de apontar Caetano como pai de seu filho, Madó diz a Martins que fará um aborto, porque não ficará com um homem sem perspectiva de vida. Mas, ele a alerta que se ela tentar interromper a gravidez, irá morrer, pois todos os fetos de sua famÃlia “não saem por extração”, dando um exemplo das superstições que ainda fazem parte do imaginário desse grupo. Martins a aconselha, então, a entregar a gravidez a Caetano, já que não a assumirá. Madó até diz que não será capaz de fazer isso, pois Caetano é uma boa pessoa, mas quando o médico confirma que um aborto seria de alto risco, ela pede desculpas a platéia por mentir ao Caetano e é isso que faz depois.
Katy-Ngotè, que se acha muito esperto, critica Celina, em sua ausência, lógico. Diz que, caso ela engravide, não haverá casamento, porque ela que vem procurar seu filho em sua casa. Manda o filho terminar com ela, pois não o educou para essa mulher se aproveitar dele – cômico, não? No entanto, como Madó é mais astuta, faz tudo para agradar o sogro – dá-lhe vinhos, faz comidas – e comporta-se muito educadamente em sua presença, cheias de princÃpios – não deixa, por exemplo, Caetano a beijar na rua por ser falta de respeito e ainda queixa-se ao pai dele – conquista a simpatia de Katy-Ngotè, e essa, ele permitirá que se aproveite do filho – sem saber, claro. Após o casamento, Caetano e Madó vão morar na casa de Katy-Ngotè. Mas, ela nos deixa bem claro que essa situação não durará muito tempo. Que ou o velho vai para o hospital, ou para o cemitério, pois ela irá fazer uma boa comida e colocar veneno – uma pessoa gentil, convenhamos.
O pai descobre, entretanto, que Madó está grávida de outro homem. Escuta uma conversa dela com Martins ao telefone – que ela só não o mandou matar porque não quer que o filho cresça sem conhecer o verdadeiro pai. E aà o dramalhão da história começa. O velho inicia uma discussão, seu filho chega, não admite que o pai insulte sua mulher. Madó coloca um tempero na situação: põe um contra o outro, diz que já viu o velho, várias vezes, espiando-os no quarto. O filho conclui que foi para espiar a intimidade do casal que os queria morando ali e vão à s ‘vias de fato’. Rolam no chão em uma briga e o filho expulsa o pai de casa.
O pai anda pela cidade, desconsolado, questionando-se: “O que valeu investir toda a minha vida naquele cão? A mulher não presta. Fiz meu filho ficar com ela e o resultado este.” Nesse momento, Celina o encontra e, imediatamente, se mostra solicita em ajudá-lo – parece a trama de uma novela mexicana, da Globo ou qualquer coisa do gênero. Celina comovida com a atitude de Caetano de o expulsar, convida-o para ficar em sua casa. Diz que é o momento de retribuir tudo de bom que o senhor fez por ela – ela o procurou quando Caetano pôs fim a relação e o velho a consolou, foi muito gentil, disse que o filho era louco de terminar com menina tão boa.
Porém, Celina, nesse momento, vai à s pressas ajudar num parto, que, por acaso, é o do filho de Madó. Esta, por sua vez, nesse momento de dor, acaba confessando que Martins é o pai do neném, gritando por ele, e Celina faz Caetano ouvir essa confissão. Caetano se desespera – Celina, comicamente se dirige a platéia: “Não lhes disse que aqui na maternidade acontece de tudo!”. Ele lhe conta o porquê se afastou dela, se arrepende de ter expulsado o pai de casa e Celina aproveita para levá-lo até o velho para se reconciliarem.
Contudo, o que surge ao fundo do cenário, é a sombra de um enforcado. Katy-Ngotè percebe que não merece tal tratamento, que não é digno da compaixão de Celina e dá cabo da própria vida. Momento de desespero das personagens. Nisso, a voz do velho revela ao filho o destino de Madó: que quando o filho esperado não é realmente da famÃlia deles, a criança não nasce. Fica presa no útero e mata, assim, também a mãe. Mais uma crendice apresentada pelo texto, que também apresenta várias ‘expressões angolanas’, que, possivelmente, perderiam o sentido se fossem adaptadas para o público brasileiro. A peça inclui música e essas expressões locais, que, muitas vezes, não acompanhamos. Entretanto, não considerei esse fato um ponto negativo, mas uma forma de apresentar e valorizar a própria cultura. Não é porque está em português que temos a necessidade de compreender todo o texto. Pegamos a essência e achei suficiente para entendermos a história.
Celina e Caetano, agora sozinhos, dão a entender que ficarão juntos. Talvez para compartilhar a dor dessa tragédia. A peça termina com uma canção africana, provavelmente, apropriada para tal situação.
Não percebi nada demais no texto. Alguns pontos engraçados, sim. Mas tudo superficial. Até o drama. Porém, há um ponto bom: fizeram os 60 minutos parecerem uma eternidade. Quando eu estiver precisando de um tempinho extra, já sei a quem recorrer. Sem ironias, agora: estou me perguntando até hoje o que faz uma peça dar certo ou errado?
PaÃs: Angola
Peça: Atiraram o velho Katy – Ngotè para sua última morada
Grupo: Etu-Lene
Diretor: Beto Cassua
Elenco: Neusa de Abreu Caleca, Ivete LÃgia Ribeiro, Adão José, Avelino Sebastião, António Caetano de Oliveira
Mulheres com H maiúsculo
Na Sala Multiuso do Espaço SESC, o grupo de teatro moçambicano Gungu, apresentou o espetáculo Mulheres com H maiúsculo, que se propõe a abordar a discussão dos papéis do homem e da mulher na sociedade.
Realmente trata-se um espaço multiuso. No inÃcio, senti falta do palco, ou, pelo menos um tablado removÃvel. Para ter a certeza que se tratava apenas de uma primeira impressão, não quis me sentar na primeira fileira de cadeiras. Quis ter a real noção de que a ausência de um palco não seria um problema para uma humilde espectadora de 1,63 cm de altura. Não foi. Umas chegadinhas para os lados deram conta desse problema de visualização e a sala se revelou um ótimo espaço.
Partindo de um núcleo familiar composto por quatro casais – a mãe e seu falecido marido, que será “substituÃdo” pelo cunhado, irmão mais novo do finado; a filha mais velha dessa senhora e seu marido, “um executivo próspero e bem posicionado, mas que não consegue a mesma performance em casa”; a filha do meio, recém formada, e seu marido, “um empresário analfabeto, para quem a posse de dinheiro é sinônimo de poder e grandeza”; e, a filha mais nova, Rosa, noiva de um “deputado ‘bem sucedido’” que não permite que ela trabalhe após o casamento – a peça se desenrola em um tom cômico. Porém, mesmo com essa pincelada de humor, o texto não deixa de abordar problemas da sociedade moçambicana.
Com um cenário simples, composto da representação de uma sala de estar e uma de jantar, formando dois ambientes, os atores surpreendem pela desenvoltura com que ocupam o espaço do salão entre os móveis e o público, criando um terceiro ambiente de circulação que aparentemente poderia ser apenas um espaço vazio.
A apresentação inicia-se com o jantar de comemoração da formatura de uma das filhas. Dançam alegremente, tiram fotos e inicia-se a fala das personagens. O cunhado oferece uma vaga em sua empresa para a moça recém-formada e, o outro futuro cunhado, gago, anuncia seu casamento, ato que não foi combinado previamente com a noiva e gerou uma briga entre o casal, momentos depois. A partir daÃ, a história desenrola-se. Tentarei ser fiel ao espetáculo, mas comentarei apenas as partes que julguei mais interessante, pois foram longos 120 minutos de espetáculo.
Uma das brigas é motivada pela reclamação de uma das casadas de que seu marido não mantém mais relações sexuais com ela. E a exclamação “Ui!” vinda da platéia, quando ela atende ao telefone e diz que o cunhado não pode atender porque está fazendo o que ele não é capaz e revela que eles não possuem mais uma vida sexual ativa, arranca várias gargalhadas de todos. A personagem masculina justifica que não falta nada em casa, que ela não tem do que se queixar. Que ele passa muito tempo no trabalho porque os problemas do povo são mais importantes que a transar com a mulher. Aqui, abre-se um parêntese no discurso conjugal, pois ele cita alguns dos problemas de Moçambique. Diz que há o problema do gás doméstico, os projetos de ajuda humanitária, e com isso não tem tempo para pensar em sexo. Que na verdade ele é um “japonês escuro”, frase hilária que mantém a platéia rindo por algum tempo, tanto quanto o discurso do noivo gago. É um japonês porque trabalha muito primeiro, que os pretos e os brancos só fazem filhos e são pobres – essa afirmação poderia nos fazer pensar em nossos problemas sociais graves e desviarmos, consequentemente, o foco do momento de lazer, mas os atores conseguem articular muito bem esse tipo de “alfinetada” com o tom humorÃstico da peça, pois o ator continua dizendo e apontando para nós que na ali platéia não há nenhum japonês, que estes estão ocupados, trabalhando, diferente de nós.
Já na discussão do deputado gago, noivo de Rosa, a filha mais nova, que já tem 35 anos e é a única que ainda não casou, surge a discussão dos homens machistas que não permitem que suas esposas trabalhem. Ele justifica sua posição – isso tudo no seu discurso tartamudo, lembrem-se – dizendo que seus pais são casados há 50 anos e sua mãe nunca trabalhou. Uma das mulheres afirma que os tempos mudaram e ele a repreende dizendo que trabalhar “é igual a chifres”. Então, assistimos um dos poucos momentos realmente dramáticos da peça: Rosa fala que não haverá mais casamento e a platéia se cala. Entra em cena outro aspecto ressaltado por Rosa, que as mulheres casam-se por casar, que ela não fará isso e joga na cara das irmãs que os casamentos delas foram dessa forma. Conclui que a irmã mais velha não é feliz e que ela não seguirá o mesmo exemplo.
No segundo ato, a platéia faz parte do trabalho do Presidente do conselho de Administração. Estamos numa reunião, tratando do problema do gás em Moçambique. A personagem expõe que os moçambicanos são os donos do gás, o problema é que eles exportam para a Ãfrica do Sul e consomem apenas os restos. Há também o problema dos buracos nas estradas, problemas de energia, que também vai primeiro para a Ãfrica do Sul e ele diz que está errado, que primeiro o consumo deveria ser deles, os donos. Esses problemas enumerados na reunião serão anotados e discutidos depois, isto é, resolvidos depois. Repete a frase várias vezes, algumas com humor: “Apontem isso na agenda, depois vamos discutir”.
No terceiro ato, a cena volta para a casa da mãe que recebe o cunhado, irmão mais novo do marido falecido, que vem para assumir o papel do homem da casa, baseando-se na tradição “ku txinga”, em que o irmão mais novo desposa a cunhada viúva.
Rosa, que é a personagem que dá movimento ao texto, é ela quem percebe que o marido da irmã a deixou de procurar porque ela não se arruma mais e veste-se como a mãe, com roupas inapropriadas para sua idade – nesse momento, interagem com platéia. Escolhem uma espectadora para usar com exemplo da roupa que uma jovem deve usar. A fazem levantar, acende-se a luz da platéia. É Rosa também quem percebe que enquanto o outro cunhado não for à escola, vai envergonhar a irmã. É ela que encontra uma maneira de se livrar do ‘novo pai’, inventando que estão cheias de dÃvidas e que ele como o homem da casa terá que resolver esses problemas. E é ela que prova ao noivo, que se vê enrolado numa dÃvida prestes a perder a casa, a importância do dinheiro fruto de seu trabalho. Noivo, que, depois de muita relutância, aceita o dinheiro e admite a importância do trabalho das mulheres na renda familiar.
Pelas articulações, notamos que o que se critica nessa peça é o papel social da mulher, que ainda é vista hoje como a pessoa que deve ficar em casa e não se meter no trabalho e decisões do marido. Tudo isso, com uma nuance bem engraçada – imaginem a conversa de um gago com um analfabeto, que apresenta um discurso bem truncado e muitas vezes difÃcil de entender? Pois é, é engraçado.
Em vários momentos, a platéia se sente incluÃda na dramatização, como quando Sassá, o rico analfabeto, está comentado o absurdo do cunhado ter preferido investir o dinheiro num carro e arriscar perder a casa, em que inclui um elemento da rotina carioca: diz que o cunhado irá dormir no carro e acordará com o barulho do som das vans gritando “Penha! São Conrado!”.
A peça não trata apenas de um “retrato da sociedade moçambicana na atualidade”, mas de um retrato da situação de muitos paÃses que além de enfrentar problemas sociais, polÃticos e econômicos atuais, precisa ainda reacomodarem as tradições de seu povo. O texto humorÃstico é agradável, mas um pouco cansativo. Ninguém consegue rir durante duas horas. Acho que um resumo teria um resultado melhor.
PaÃs: Moçambique
Peça: Mulheres com H maiúsculo
Grupo: Gungu
Diretor: Gilberto Mendes
Elenco: Gilberto Mendes, Samuel Malumbe, ElÃsio Cuinica Condo, Joanett Rombe, Emelda Macamo, Cecilia Cherinza, Vasco Condo
Luto Clandestino
A peça Luto Clandestino, de Jacinto Lucas Pires, representada no calçadão de Copacabana pelo grupo português O Bando, é uma experiência teatral inesquecÃvel.
Adquirimos os ingressos na bilheteria do SESC da Domingos Ferreira e nos juntamos ao grupo da Festlip, reunido na calçada, junto aos prédios, entre a Santa Clara e a Figueiredo Magalhães. Trocamos nossos documentos de identidade por MP3 Playeres e começamos a entender como iremos participar do espetáculo.
Chega a ser engraçada a curiosidade dos transeuntes, mas como em Copacabana acontece de tudo, não vi nenhum parar e perguntar o que estava acontecendo ali. Talvez porque esse bairro seja sempre palco das mais diversas situações e esses pedestres tenham a certeza que logo à frente encontraram uma cena tão excêntrica quanto essa e que se pararem em cada uma delas para se interarem nunca chegarão aos seus destinos.
A atriz inicia a interpretação na calçada em frente a que estamos, tendo, portanto, uma das pistas nos separando dela. Isso cria um clima difÃcil de descrever. A proposta do voyeurismo nos é dada com tanta sutileza, que quando percebemos a música clássica, que ouvimos em nossos fones, para passar o tempo e testar os aparelhos, fica apenas ao fundo da voz da atriz que parece pensar alto do outro lado da rua. O outro ator, um homem mais novo do que ela, a encontra e começam o diálogo. Aos poucos vamos percebendo que as personagens têm em comum uma dor: a morte de Martha – namorada, ou esposa, desse homem, chamado Antonio, e filha dessa senhora. E, clandestinamente, vemos e ouvimos o luto dos dois.
O barulho da rua, o movimento dos carros, os ônibus cheios, o trânsito tumultuado, um grande grupo olhando na mesma direção, cães passeando, o tempo que os atores demoram para conseguirem atravessar a Avenida Atlântica, tudo é motivo para repensarmos as coisas corriqueiras do nosso cotidiano que, muitas vezes, passam desapercebidas.
A essa altura os atores já estão na mesma calçada que nós e vamos acompanhando, também nos movendo, seus movimentos. Posicionamo-nos para melhor olharmos os atores, nos aproximamos, nos distanciamos, até notarmos que não há a mÃnima necessidade de ficarmos juntos e vamos, aos poucos, confortavelmente, abrindo mais espaço entre nós e entre nós e os atores. Espaço que, em vez de nos separar, incrivelmente, nos aproxima ainda mais.
As personagens conversam sobre como Marta era para cada um. Assunto iniciado pela mãe: “Ela era muito irritante, à s vezes. Eu sou a mãe dela…” Ao que Antonio imediatamente responde: “A senhora não a conheceu como eu conheci.” A senhora, então, conta um episódio em que ficou vendo quanto tempo a filha agüentava tão parada. E que Marta tomou aquilo com irritação: “Que aquilo não se fazia. Espiar a filha na própria casa.” – Ainda bem que Marta está morta, se ela não gostou da mãe a observando dentro de casa, imaginem o que iria achar de 50 pessoas fofocando sua vida?
Com os relatos, percebemos que esse relacionamento entre mãe e filha era um pouco conturbado, cheio de silêncios, de mágoas. Mas, mesmo tratando-se de um drama, a peça é tão agradável, tão bem executada, que nós, espectadores, nos sentindo imensamente felizes ao ver aquele ótimo trabalho, que nos entreolhamos e sorrimos a cada minuto.
Notamos, então, mais um elemento em cena: um carro estacionado, um Corcel. Os atores entram no carro e continuam a encenar. Antonio revela o motivo da morte de Marta: eles tiveram um acidente de automóvel. Nesse momento, a música que ouvimos nos fones, parece vir do som do carro, criando um clima perfeito, a sensação é que estamos dentro do carro com eles. Antonio continua: diz que depois que viu o carro pronto, carro que Martha lhe falava ser para a vida inteira, percebeu que ela o queria para mostrá-lo à mãe.
Por meio de um texto, muitas vezes, simbólico, apesar de simples, vamos entrando em contato com a dor dessa mãe. Dor tão grande que se ela pudesse dava a própria vida para Marta. E, brilhantemente, ela consegue uma maneira de fazer isso. Pede a Antonio: “Imagina que sou a Marta. Isso, antes do desastre.” Ela o tortura com esse pedido e ele sai do carro, transtornado, batendo a porta, dizendo: “Por que tu faz isso?!” Ela também sai do veÃculo, vai até ele, pede desculpas, volta para o carro, mas continua a torturá-lo: “Já viste as minhas pernas? Ainda sou bastante… ?” Temos a impressão que ela quer tomar o lugar da filha. No entanto, não por uma paixão pelo genro, mas por querer acabar com aquele vazio deixado por Marta.
Descobrimos também que ele se sente culpado pelo acidente: “Vim aqui para que me perdoe. Um carro entrou na nossa frente. Não tive culpa.” Ao que a senhora responde, meio ironicamente, que todos dizem isso. Mas, ela quer que ele continue a falar: “Toda gente tem uma história. Tu tens a tua…” e pede que ele conte como foi o último dia de Martha, o dia do acidente – Será com a finalidade de começar de onde ela parou? E Antonio continua: “Era noite já. TÃnhamos dado um passeio de carro e voltamos para aqui…”, e reconstitui a noite do acidente através da narração. Ela pergunta o que a filha dizia. Ele responde exaltado: “Ela cai, desmaia e morre!”
Parece que ele ao contar aquilo, tenta se livrar da culpa que o consome: “Hoje é difÃcil dizer as palavras todas…” Ao que a mãe argumenta: “Mas tu disseste bem. Palavras normais.” E o diálogo aflito continua. Ele diz que aquilo parece não fazer sentido e ela diz que estava escrito, tinha que ser. Nesse momento bem dramático do texto, um flanelinha grita: “Vem! Vem! Joga agora! Joga!”, mas nem isso tira a atenção dos espectadores e a senhora continua: “Imagina que dissestes essas palavras e eu sou a Marta. Tu és tu e eu a Marta”. Numa tentativa impressionante de preencher o vazio deixado pela filha. Antonio pede desculpas e diz que não pode fazer aquilo. Ela replica: “Tudo bem. Vou pôr isso no olho.” – acende um palito de fósforos e ameaça se cegar. Ele volta, apaga o fósforo e pergunta: “Tudo bem? Tudo bem, Marta?”. Ela pede que ele lhe dê as mãos, ele perdão e se beijam. Tudo isso com um tom flagrante de desespero, com a única intenção de conseguirem, juntos, uma maneira de acabar com aquele sofrimento.
A senhora sai do carro e nos diz: “Essa é a minha história, todos tem uma história. Luto contra ela, mas ela volta sempre e outra vez…”. Mas, como nos explica Jacinto Lucas Pires, na sinopse: “no essencial, trata-se de uma história simples, uma história comum: como a morte, um cigarro apagado e um automóvel num lugar escuro.”
Aplaudimos, ela tira Antonio do carro, ele parece ainda atordoado. Depois dos aplausos ela o coloca no carro novamente e vai embora. Eles não deixam de representar as personagens em nenhum momento: o ator que representa o homem sai do carro ainda como Antonio e vai embora. Cada um segue um caminho e não os vemos mais.
Essa peça trata-se, sobretudo, de um drama urbano. Além, lógico, do drama da mãe e do viúvo. O texto nos atinge porque vamos embora com a lição que todos com quem cruzamos nas ruas carregam uma história e que, infelizmente, não poderemos sintonizar nossos aparelhinhos para as ouvirmos, não teremos acesso a essas histórias sem nos expormos a um contato direto com essas pessoas.
Fui embora pensando: será que todo esse povo que anda com fone nos ouvidos está ouvindo a conversa de terceiros e eu não comprei meu ingresso? Mas nem fico tão chateada, porque sempre que posso, munida da minha antena ‘Tecsat’, procuro ouvir a conversa dos outros nos ônibus, presto atenção quando percebo alguém ao telefone, ou me aproveito de outra situação qualquer. Porém, o texto, simples, mas muito bem elaborado, que aborda vários temas psicológicos e urbanos, não nos dá somente o prazer do voyeurismo, é muito mais do que isso. Dá-nos a certeza que não se sofre sozinho nesse mundo. A certeza de que todo mundo que anda por aà tem uma história.
Peça: Luto Clandestino
PaÃs: Portugal
Grupo: O Bando
Diretor: João Brites
Texto: Jacinto Lucas Pires
Elenco: Filipe Carvalho, Paula Só
Desenho Luz e Operação de Som e Luz: João Cachulo
Desenho de Som: Sérgio Milhano
O doido e a morte
Infelizmente não conheço esse texto de Raul Brandão, mas, pelo menos, posso afirmar que a peça cumpre o que propõe na sinopse: “o texto trata de dois personagens: um polÃtico poderoso e um homem que adentra seu gabinete com uma bomba de grande impacto embaixo do braço. Uma representação da revolta de um indivÃduo perante a crueldade, a incongruência e a degradação do mundo moderno.”
Diante de um cenário simples, mas que ganha vida com o jogo de luzes, uma platéia bem agitada, composta por vários adolescentes, acredito que em excursão escolar, assistiu a segunda apresentação, no Festlip, do espetáculo O doido e a morte, no confortável, e desta vez barulhento, Teatro SESC Ginástico.
Quatro atores do caboverdiano Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo deram vida ao texto de Raul Brandão. Quatro máscaras bem expressivas fizeram parte do figurino dos atores, que atuaram com bastante destreza no palco.
Vimos encenado um dia comum de trabalho, que depois se tornará incomum, de um Governador Civil: ele chega ao gabinete, toma um café, lê o jornal, bebe uma tacinha de licor, fuma um cigarro, isso tudo assessorado pelos serviços de um prestativo funcionário, o Nunes. Depois dessas árduas atividades, o polÃtico resume seu cansaço: “Muito trabalha-se nessa terra. E por falar em trabalho…” Com essa frase, nosso polÃtico lembra-se que ainda tem uma atividade muita importante em sua agenda: ele liga o som e pega seu taco de golfe. Desenrola um tapete e treina suas jogadas.
Mas seu cansativo dia não termina por aÃ, ele ainda tem muito que fazer em seu escritório. Chama o empregado e avisa-o que não está para ninguém, que não quer ser interrompido. E, provavelmente, com a autorização do Estado, porque deve ser para isso que ele foi eleito pelo povo, o governador pega seu caderno e dá continuidade a escrita de sua peça. Porém, logo é interrompido pela notÃcia da chegada de um homem, com direito a apresentação por carta do Ministério. O próprio ministro recomenda o “homem mais rico do paÃs”.
Nesse momento, o texto recebe um tom mais cômico. Os movimentos dos dois atores são executados de acordo com o ritmo da música. O homem rico, que adentra a sala portando uma caixa, procura algo dentro do caixote que coloca sobre a mesa, acompanhado pela curiosidade do polÃtico. Diz que traz a morte consigo. E o governador, cinicamente, responde: “Pelo que vejo o negócio é grave”. Ficamos sabendo, então, que dentro da caixa está o mais poderoso dos explosivos e que aquele senhor foi o escolhido para morrer com ele. Ao que o escolhido responde mais uma vez cinicamente, arrancando risadas da platéia: “Ah! Muito obrigado!”
A essa altura já identificamos quem é o doido a que o tÃtulo se refere – não, não é o polÃtico! A personagem do doido assume, então, que é Deus, e que há tempos, mais ou menos, um mês, estava passeando em seu quintal quando sentiu vontade de destruir tudo aquilo. Que é amigo da humanidade e com apenas um gesto terminará com todos os sofrimentos, tragédias, paixões… Que ao ler uma peça do senhor governador percebeu que só aquele homem seria digno de morrer com ele. Vai elevá-lo, com esta atitude, a categoria dos deuses. Que o polÃtico ao ser pulverizado pela bomba fará parte do Cosmos e termina seu discurso com a pergunta; “O que mais quer o senhor?” – Nada, né?
O polÃtico percebendo que a coisa está bem ruim para o seu lado pede autorização para chamar a mulher e lhe dizer suas últimas vontades. A mulher, figura bem caricata, fica a par da situação e, como uma boa e compreensiva esposa, mostra logo um jeito de sair bem rápido dali. O marido cobra que um dia ela lhe disse que se ele morresse, ela morreria também. A esposa responde que até morreria, mas não daquele jeito, morrer queimada não estava na lista e continua: ‘Adeus! Morrer queimada, não. Morre em paz. Descanse em paz e eu vou nessa.” Bela maneira de se despedir de um marido prestes a morrer, não?
O doido faz um discurso sobre a loucura, diz-nos que quando tinha 100% de suas faculdades não era feliz. Que um doido diz tudo o que lhe apetece e ninguém estranha. Aqui é imitado o recurso da câmera lenta, eles falam bem devagar. O polÃtico diz que não entendeu nada e o doido anda para trás, como se estivessem voltando a fita, e repete tudo bem devagar e, claro, não adianta nada. Não achei a cena engraçada, talvez esteja ficando velha e perdendo a minha sensibilidade adolescente de rir de tudo, pois os jovens que me rodeavam acharam a cena hilária e, a partir daÃ, a impressão que tive foi que começaram a achar engraçado o fato de achar engraçado e não consegui ouvir mais nada. Acho que teria aproveitado melhor o espetáculo se esse tal grupo tivesse tido uma sÃncope. Não só eu. Acredito que os outros indivÃduos que pediram silêncio inúmeras vezes compartilham da mesma opinião.
O desfecho é interessante. A bomba não explode. Entram dois funcionários do manicômio – que recebem dinheiro do louco para que este possa continuar suas peripécias. O doido, que não é tão doido assim porque, na verdade, não ia explodir o paÃs como prometera, tira, comicamente, papéis picados da caixa. Parece que o que queria era apenas perturbar a vida de um polÃtico – quem sabe em nome do povo? Pede a seus acompanhantes que tragam a caixa, pois agora irão visitar o Ministro da Cultura. E o governador ao notar que não foi explodido, refere-se ao doido, carinhosamente: “Grande filho da puta!”
No final da apresentação, após os aplausos, um dos atores explica a origem e os trabalhos do grupo e abre espaço para uma possÃvel discussão sobre a peça, mas tudo é tão rápido, que quando me dou conta ele ri e diz: “então, vamos para casa.” E eu fui. Fui com a sensação de que nem ele nem eu estávamos muito satisfeitos com o comportamento do público.
Peça: O doido e a morte
PaÃs: Cabo Verde
Grupo: Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo
Diretor: João Branco
Elenco: João Branco, Luis Miguel Morais, Paulo Santos, Silvia Lima
Côncavo e Convexo
Representada por um casal do grupo teatral angolano Henrique Artes, a peça Côncavo e Convexo emociona. São 50 minutos que comovem. ImpossÃvel não partilhar do drama das personagens e da cidade de Luanda.
De forma surpreendente o texto aborda a situação polÃtica, econômica e social da capital de Angola. Como nos revela a sinopse, trata-se de “uma obra recheada de drama, pois, a reflexão e a nota dominante do espetáculo é a utilização de signos através de velas, latas vazias de cervejas, baldes coloridos, mobÃlias velhas e cansadas. Os signos estão à espera do público que se propõe a ser a vÃtima desse espetáculo.” Boa sinopse, pois sabemos exatamente o que nos espera: seremos vÃtima de um drama. Quem passou os olhos nela, não entrou desavisado.
Apresentada, no teatro SESC Ginástico, um espaço hiper confortável e moderno, a peça já nos causa um estranhamento com seu cenário simples, porém impactante. Tendo ao fundo a foto de Luanda no alto do cenário e, no inÃcio, a Marcha Fúnebre, que já anuncia qual é o destino do relacionamento desse casal, vemos reproduzida uma casa sem luz, repleta de velas, uma casa em ruÃnas, palco de um relacionamento também em ruÃnas. Misto de silêncios e gritos. Ditos e não-ditos. As falas das personagens se cruzam e estancam umas as outras.
Trata-se de uma peça extremamente visual, inundada de sÃmbolos que representam o relacionamento desgastado do casal. A falta no cenário, seus espaços vazios, os poucos elementos que o compõe, geram um belÃssimo resultado, casado impecavelmente com o texto. As velas vão queimando, marcando a passagem do tempo, além de dar uma iluminação bem apropriada, misturando penumbra e brilho. A melodia para cada uma das personagens é diferente, o tom é distinto, e alterna-se, acompanhando as falas entrecruzadas.
Aparentemente temos um casal com problemas, e, inocentemente, poderÃamos imaginar que irÃamos assistir ao relato desses problemas conjugais. Porém, brilhantemente, o que ouvimos da boca das personagens são os problemas de Luanda. Melhor, a personagem feminina que se apresenta toda enfaixada, cheia de ferimentos, não é uma esposa, e sim a alegoria da própria Luanda e o texto a usa como imagem para explorar questões importantes da capital de Angola.
Essa personagem, como esposa, é convidada pelo marido para um diálogo e justifica, em seu discurso aflito, os ferimentos nas pernas, por exemplo, como o resultado da tentativa de impedir um assalto na casa da filha, e outros ferimentos por um atropelamento. Sua fala é cheia de silêncios e ao ser questionada pelo marido se sente dor, se precisa de ajuda, responde angustiadamente: “não é nada, estou habituada.” E nos perguntamos imediatamente: como pode alguém se habituar à quela dor? Luanda nos responde por meio de sua boca: “já não sou cidade, sou área habitada”.
Mais ou menos, aos quinze minutos de espetáculo, começam a referir-se diretamente aos problemas da cidade, mesmo que incluÃdos num discurso maior: hospital sem leitos, a chuva que traz doenças. E a semelhança com várias cidades do Brasil não é mera coincidência.
Quando começa um barulho de sirenes, o som de um helicóptero voando baixo, tiros, a personagem feminina apavora-se. O som é oriundo da memória traumática do assassinato do filho, que ela implora inutilmente para que não aconteça.
Num texto lento que agoniza junto com as personagens, muitos problemas expostos pela mulher, que podem ser superficialmente tomados como dificuldades matrimoniais, são justificados no discurso do homem por aspectos sociais, econômicos ou polÃticos. Até estatÃsticas são citadas. Essa articulação é muito bem estruturada, e os problemas da vida deles são apresentados como um reflexo dos problemas do paÃs.
Consegui anotar, senão fielmente, pelo menos, na essência, algumas das falas das personagens. “Das filhas da minha mãe Angola, eu fui a única que não vivi guerra.” – exemplo do texto denso e impressionante de que estamos falando.
O homem pede que ela se acalme que tudo se resolverá e diz: “agarra minha mão e confie. Eu sei que é difÃcil confiar, mas agarra”. E ela responde, no auge da sua desesperança de cidade: “não tem energia elétrica no meu corpo. Não agarro mais nada”. Aproximando claramente o corpo da cidade ao corpo da mulher e mostrando, com essa declaração, toda sua falta de perspectiva.
Para ela, não há expectativa de melhora: “Eu sinto que meus filhos serão escravizados novamente em vão. Filhos do meu ventre estarão condenados a trabalhar.” “Estou com fome e meus filhos têm fome.” Frases desse tipo, ou como “filhos descontrolados matam por tudo e por nada”, nos remetem ao horror da guerra colonial, aos sofrimentos da descolonização, à s amarguras sofridas por Angola. O texto aborda problemas sociais sérios, através da imagem de uma Luanda machucada, ferida na guerra.
Contudo, a figura masculina, que representa a esperança, apregoa que são os problemas que trazem sabedoria e mudança. Prega esperança, apesar de tanto desespero presente. Porém, enquanto ele assegura essa possibilidade positiva, Luanda está de costas para ele, desacreditada, e diz: “o sonho e a esperança são dois calmantes que a natureza ofereceu ao ser humano”. Recurso que, aparentemente, não está mais disposta a utilizar. Ela sai de cena e ele chora, jogado ao chão.
O homem solta um grito de dor acompanhado de uma trilha sonora perfeita, agonizante como o texto da peça. Não é dito nada aqui, porque nada precisa ser dito. Ele pega uma garrafa de algo alcoólico e bebe. Abre a camisa, tira-a – fica de camiseta, infelizmente, pois é belÃssimo. Já aparentemente bêbado, descalça os sapatos. Pega um saco preto de lixo num dos baldes, vai apagando as velas e as recolhendo, até o cenário ficar praticamente no escuro. Escuro como a vida deles. Pouco a pouco ele vai desmontando o precário cenário, deixando no novo vazio uma angústia ainda maior.
Este homem olha a sua volta, calça Havaianas, coloca uma guia no pescoço, religiosidade que não poderia ser esquecida, põe um chapéu e pega uma rede de pesca, trazendo à tona uma das figuras mais importantes da tradição angolana: o pescador.
Nesse momento, a mulher aparece renovada, agora como uma tÃpica luandense, e o encontro entre os dois acontece, enquanto o painel com a foto da cidade vai descendo. Então, Luanda faz uma declaração de amor ao pescador. Mais uma vez é feita a aproximação da mulher à cidade ao afirmar-se que toda a mulher é problemática. Mas não com o sentido cômico que a platéia identificou. Com um sentido dramático, relacionado aos problemas que foram apresentados anteriormente.
O espetáculo termina com a cena de um beijo apaixonado, ao som de uma música que fala sobre o pescador, selando o amor entre a cidade e seu povo. E a esperança cai sobre eles em forma de confetes.
Nesses 50 minutos, vi retratado vários dos problemas que costumo encontrar nos textos que falam de Angola. São minutos perfeitos, exatos, intensos. Trata-se de uma peça poeticamente polÃtica e dramática. Um comovente espetáculo. Uma ótima leitura que me virou do avesso. Há muito tempo um texto não me atingia em cheio como esse.
PaÃs: Angola
Grupo: Henrique Artes
Direção: Henrique Artes
Elenco: Flávio Ferrão, Hélio Taveira, Naed Branco, Ailton Silveiro, AnÃsia Correia.
Dom Quixote das Ilhas & Duas Sem Três
No Espaço SESC Arena, assisti duas performances consecutivas do dramaturgo e músico caboverdiano Mário Lúcio Sousa, executadas por integrantes da Companhia de Teatro e Dança Contemporânea Raiz di Polon, também de Cabo Verde.
A peça Dom Quixote das Ilhas se propõe a uma leitura do original de Miguel de Cervantes sob uma perspectiva regional. O Dom Quixote em questão surge, com muito barulho, da sucata de uma espécie de carrinho de algum brinquedo de parque de diversão. Ao bater na lataria ele parece estar rompendo a casca de um ovo e nascer diante a platéia, ou despertar de um sono que só vai embora após a lavagem do rosto.
Unindo balé, uma dança bem expressiva, uma sonoplastia chamativa, um belo jogo de luzes e música, o bailarino move-se pela arena, rasga textos que se encontram espalhados pelo chão e cobre as costas com um livro, agasalhando-se com a palavra, elemento que ganha destaque no espetáculo.
Ao cheiro de fósforos que invadem o ambiente após uma dança entre os palitos e o ator, surge uma espécie de divindade africana executando uma dança bem tÃpica. Porém, mesmo depois de despir a saia da tal divindade e com isso livrar-se também dela, o bailarino continua mostra-nos um ótimo preparo fÃsico com sua interpretação, que não fica devendo em nada para uma boa aula de ginástica localizada. Bastante suado, o Dom Quixote joga-se ao chão, como um morto após uma sÃncope. Também, pudera, depois de tanto esforço. Garanto que os espectadores ficaram cansados só de olhar.
Mesmo após esse longo exercÃcio, a atuação continua. O ator brinca de pião, batuca um violino, faz uma vara cantar ao ser sacudida, profere gritos e, ao som do violino, agora como música de fundo, começa a patinar usando as folhas dos textos que continuam espalhadas, despedaça-as e gira em torno delas.
Sob uma luz vermelha, Dom Quixote entra em seu carrinho e parece navegar, depois brincar, ou dormir como num berço. Espalha espuma de barbear na barriga e depois o transfere para uma das mãos como se, agora, ela fosse um espelho. As luzes se apagam, vinte minutos depois do inÃcio do espetáculo.
Não sei se o espectador que não teve a curiosidade de ler a sinopse fez facilmente uma ligação entre essa peça e a obra de Cervantes, mas uma coisa é facilmente constatada através dos textos espalhados e da música que ouvimos: a importância da palavra. E isso sem pronunciar uma única frase.
Já o espetáculo Duas sem três, apresentado logo após, trata da mulher e sua simbologia na sociedade, tradição e nos rituais africanos. O dueto é representado por atrizes, e também bailarinas, do grupo, que nos mostram um delicado e, ao mesmo tempo, expressivo meio de interpretação.
Enquanto uma aspira – aqui sem nenhuma referência ao filme Tropa de Elite, por favor – o ar, a outra, de costas para a primeira, em sentidos opostos, e a alguns passos de distância, o sopra, com um leve assobio. Com isso, as duas parecem formar um só corpo, ao som de uma canção bem sonolenta. Frases soltas nos remetem a idéia de musa e nos fazem atentar para o drama das personagens: o imaginário feminino africano.
A expressão corporal das bailarinas, num cenário seco, sem excessos, cheio de gravetos, nos lembra o movimento de uma gangorra, enquanto ressoa um sussurro reproduzindo por elas, “espalhando novidades”, que nos envolve como numa ventania. E, como num eco, seguem dizendo, como se proclamassem um poema: “homens dispostos a matar, mas as informações começam a escassear-se, pouco a pouco…” Nessa altura, começam a aspirar e soprar no mesmo sentido e os versos continuam: “o tempo sem notÃcias corre mais lento, chega mais depressa”…
As atrizes, à s vezes, dão a impressão de ser o reflexo uma da outra, mas não conseguimos definir quem origina a imagem. Dançam com suas estolas, fazem dos seus respectivos vestidos apenas saias e cobrem os seios com os tais xales, ao mesmo tempo, que dançam sensualmente. Depois, como numa brincadeira, repetem exaustivamente “Boca da água tua, com a água da boca tua”.
Agora, como numa espécie de dança doméstica, uma canta, fazendo o aspirador de microfone, enquanto a outra esfrega uma vassoura numa bacia de alumÃnio. Uma faz da sua cesta e seu esfregão um instrumento e temos a impressão de que a música que ouvimos sai dele. Brincam e dançam juntas como duas meninas, mas depois deixam de ser crianças. Enrolam-se num filó, fazendo uma alusão instantânea ao casamento. Sentam-se no chão e desabafam “não casaram comigo, eu sabia fazer tudo, dançava tudo”… E notamos que não estão mais apenas envolvidas no simbólico vestido de noiva, mas também nas promessas, nos elogios devido à beleza delas, na desilusão.
O que aparentava em muitos momentos uma disputa entre as duas musas, torna-se uma aflição compartilhada num continuo eco sem conclusão: “não casaram comigo porque… não casaram comigo porque… eu não…” e tudo se torna silêncio e escuro.
As peças destacam-se, sobretudo, pela combinação de teatro, expressão corporal e música. Uma demonstração artÃstica fácil de ver, mas não muito fácil de entender. Trata-se de peças que necessitam um pouco de boa vontade por parte dos espectadores. Quem for ao teatro esperando peças leves de fácil entendimento sairá frustrado. Mesmo com um pouco de experiência na cultura africana, fui embora com a sensação de que deixei muita coisa por lá, perdida no movimento dos bailarinos.
Faço minhas as palavras de uma das espectadoras na saÃda do espetáculo, ao dirigir-se a pessoa que a acompanhava: “interessante”.
Peça: Dom Quixote das Ilhas
Grupo: Raiz di Polon
Diretor: Manu Preto
Direção Musical : Mário Lucio Sousa
Coreógrafo: Manu Preto
Elenco: Manu Preto
Peça: Duas sem três
Grupo: Raiz di Polon
Diretor: Mano Preto
Direto Musical : Mário Lúcio Sousa
Coreógrafa: Rosy Timas
Elenco: José Emanuel do Rosário Gonçalves Brandão, Elisabete Maria Fernandes, LuÃs Manuel Semedo da Rosa, José Rui Mendes Cardoso, Rosy Timas Tavares
Espaço Sesc – Teatro Arena Rua Domingos Ferreira, 160 Copacabana



































