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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 27, setembro & outubro de 2010

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26/8/2010

O historiador como colunista

Peter Burke escreve periodicamente para a Folha de São Paulo e resolveu, recentemente, juntar tudo, todos os ensaios, e publicá-los em forma de livro. Não sozinho, é claro. Ele não precisa disso. A responsável foi a Civilização Brasileira, um dos milhares de selos do Grupo Record.

Eu não assino a Folha, logo nunca havia lido seus textos de jornal. E existe uma enorme diferença entre aquilo que se escreve para uma coluna de jornal e o que se escreve na Academia, como é o caso dele. Como historiador e professor, seus textos costumam ser mais longos, específicos, aprofundados. Já no jornal, os caracteres são contados e o tema, ou pelo menos o título, precisa ser muito atraente para gerar interesse por parte do leitor de jornal, que é um público muito variado. Bom, o fato é que ninguém investe tempo na leitura de um texto que não parece atraente.

No caso de Peter Burke, ele soube se adaptar ao jornal com maestria. Escreve sobre todo tipo de assunto, de fofoca a Michel de Certeau. Os textos são curtos, são também leves e até superficiais. Mas não tão superficiais a ponto de transformá-los em textos bobos ou inconsistentes. Até porque essa característica seria improvável num texto escrito por Peter Burke. São bons. Funciona assim: O Peter levanta um tema, desenvolve-o um pouco e deixa-o no ar. Você decide se vai querer pesquisar mais sobre o assunto depois ou não. É muito simples e dá certo. Esse livro de ensaios de que falo, O historiador como colunista, é como um catálogo de pré-projetos para uma pós-graduação. Aliás, essa definição seria um ótimo chamariz para as vendas dispararem!

Um dos ensaios mais curiosos é o intitulado “A leitura tem uma história?”, da seção “A história social do cotidiano”. Nesse texto ele comenta a transição da forma como é feita a leitura. Explica que antigamente as leituras eram públicas, feitas em voz alta. Com o tempo, a leitura foi se tornando uma atividade individual, solitária. Durante essa transição, muitos liam silenciosamente, mas fazendo movimentos labiais. E, no final das contas, atualmente, as pessoas lêem de todo jeito. Alto, baixo, sozinhos ou em público. É interessante. Mas o que me fez pensar mesmo foi o encerramento do ensaio, em que o autor conclui sua proposição assim:

“na história cultural a mudança é mais aditiva do que substitutiva; em outras palavras, quando novas idéias, novos objetos ou novas práticas aparecem, coexistem com outros mais velhos, em vez de os expulsar.” (p 230)

Será mesmo? No caso da leitura, que é uma prática, funciona, mas penso nos vinis, nas fitas cassete e no CDs, e em como esses objetos estão todos sendo substituídos pelos mp3 e cia. Hoje em dia, os discos de vinil são peças de colecionadores, a tiragem é mínima. As fitas sumiram do mapa. Os CDs estão sendo gradualmente superados e logo serão esquecidos. É claro que tudo isso acontece em longo prazo, mas existe um prazo. Fica difícil acreditar numa coexistência justa. Não acho que o vinil e o mp3 estejam coexistindo no momento.

Isso tudo me leva a pensar nos e-books. Eu, como amante dos livros de papel que sou, gostaria de me convencer de que o e-book não vai expulsar o livro tradicional da face da terra.

Outro dia li uma matéria que dizia que o Japão não sabe mais o que é livro impresso. Os jovens leem romances no celular. Isso é um extremo. Bom, o Japão é um extremo. Mas em outros países, como Estados Unidos e Alemanha, muitas editoras já trabalham com venda de conteúdos digitais para equipamentos de leitura eletrônica. E a tendência é mesmo que esse mercado cresça. A nova geração de leitores vai poder fazer mais uma atividade na frente de uma tela. Vai poder clicar em links no meio de um romance e ir para um dicionário, quem sabe. As crianças vão ouvir sons, ver ilustrações se movimentando e etc. O “livro” vai ter sempre o mesmo peso, vai poder ser levado para todo o lugar. Tudo muito encantador e atraente.

Por outro lado, as tomadas serão muito requisitadas. Os direitos autorais terão que ser levados a sério. E as anotações feitas nos livros impressos não ficarão mais para a posteridade. Os pesquisadores do século XXII ficarão desapontados com a perda desse precioso material. Quanto a isso, Peter Burke tem toda a razão:

“os historiadores têm boa razão de se alegrar com o fato de que algumas pessoas leem com os dedos [...], sublinhando frases ou escrevendo comentários sarcásticos nas margens dos livros [...]. Depois da passagem de uma geração ou duas, esses rabiscos marginais, como os grafites nas paredes, deixam de ser irritantes e se transformam em preciosos indícios sobre atitudes do passado. Existe uma quantidade dessas anotações e elas agora são estudadas cada vez mais profundamente.” (p. 228)

Não me considero uma pessoa radical, mas agradeço muito por ter uma idade que vai me permitir comprar e conviver com os livros impressos até meus últimos dias. Que fique claro que não quero morrer cedo, só espero que essa mudança ocorra num prazo bem longo!

13/8/2010

Quantas madrugadas tem a noite

O título é ótimo. Sempre pensei escrever um livro com um título assim, ou algo como Quantos gritos tem o silêncio ou Quantas mortes tem a vida. Acho genial. Milhares de pessoas já devem ter tido essas idéias, mas acontece que apenas uma delas é famosa, escritor conhecido, pelo menos em Angola, o Ondjaki.

No Brasil, com exceção de pessoas do meio acadêmico especializado, acho improvável que alguém puxe conversa na fila do banco sobre Ondjaki. Na realidade, acho pouco provável que puxem qualquer conversa sobre literatura… Mas se isso acontecesse, naturalmente a personalidade seria brasileira, portuguesa ou de qualquer outra nacionalidade, desde que best-seller ou autor consagrado, canonizado, que certamente foi um best-seller em seu tempo.

Em comparação com outros escritores angolanos, Ondjaki é jovem. Começou a publicar há pouco tempo, em 2000 (Actu Sanguíneu), mas já ganhou prêmios e foi traduzido para algumas línguas, o que não significa popularidade, uma vez que ele escreve em português, tem livros publicados no Brasil e ainda assim está longe de ser conhecido pelo grande público daqui.

Também, não se pode esperar muito do público leitor brasileiro. Aqui, a máxima de Silvio Romero ainda funciona consideravelmente: “neste país aquilo que muito agrada, tenho a certeza de que não presta.” Lê-se pouco e mal. É claro que as coisas mudaram bastante desde o final do século XIX, mas a verdade é que o brasileiro continua não lendo. O cidadão alfabetizado, até com formação universitária, com poder aquisitivo, não lê ou lê muito pouco. Por isso é muito comum comemorar quando lêem alguma coisa, nem que seja uma porcaria: pelo menos está lendo…

Está certo que a literatura no Brasil começou a despontar no final do século XIX, quando o valor social do escritor foi reconhecido, o romantismo instaurou, ao seu modo, bastante criticado, a idéia de nacionalismo e etc. É tudo muito recente, sabemos, mas desde então, para justificar a falta de hábito da leitura, as mesmas desculpas são ouvidas: a taxa de analfabetismo é grande, o acesso aos livros é difícil, fisicamente e financeiramente. Acontece que essas justificativas, exceto o analfabetismo, não procedem nos dias de hoje. O livro está acessível. É vendido em cada esquina, em bancas de jornal, em sebos, em camelôs, em cidades pequenas e grandes, no interior, nas capitais. O preço varia de 50 centavos a 500 reais, ou seja, cabe em todos os bolsos. Além disso, há bibliotecas públicas nos grandes centros e, em algumas cidades pequenas, há bibliotecas particulares abertas à comunidade, montadas por cidadãos exemplares que pelo simples gosto de leitura resolveram incentivar o contato com o livro.

Conclusão: o que falta é vontade.

Mas o que Ondjaki tem a ver com isso? Muito. Em Angola, o problema é o mesmo. A diferença é que lá a literatura ampla e divulgada é muito mais recente. Na década de 1950 é que começou a tentar crescer, mas com a ditadura portuguesa dominando as ruas e as vidas das pessoas, tudo ficou mais difícil. A temática dos romances, contos e poemas, era muito recorrente. Tudo muito social, descrevendo as agruras plantadas pela colonização e todas aquelas dificuldades enfrentadas pela população. Eram muitos os pobres, oprimidos, e sem estrutura alguma. A literatura era uma ferramenta de luta, de oposição. Depois de 1975 é que as coisas começaram a melhorar, bem lentamente. Um grupo de escritores fundou a UEA e então um mercado editorial pode se formar. Vários autores publicaram suas obras, mas o assunto abordado, em sua grande parte, mantinha o mesmo caminho anterior a 1975. E não poderia ser diferente. Suas memórias, sentimentos e experiências estavam todas relacionadas ao que viveram durante séculos. Quando não é escravidão, é ditadura. A liberdade é tão jovem quanto Ondjaki. Portanto, as desculpas utilizadas para justificar a falta de leitura do público brasileiro não cabem mais aqui, e sim em Angola, que já tem posto em prática vários projetos culturais de incentivo a leitura, abertura do mercado editorial, financiamentos para novos escritores, e etc. Resta saber se por lá vai dar certo. Por aqui, não sei qual é a solução. No momento, estamos regredindo. Tentamos arduamente fazer crescer a taxa de analfabetismo e tenho certeza de que conseguiremos. No Rio de Janeiro, pelo menos, o empenho é grande. Estudantes chegam ao ensino médio da rede pública estadual sem saber ler. Dessa forma, poderemos culpar o analfabetismo pela falta de leitura com toda a tranqüilidade.

De volta ao Ondjaki, que acabou sendo coadjuvante em meio as minhas reclamações, seu texto continua muito bom. A escrita é leve, informal, os termos africanos empregados no texto imperam. Folheando o livro de relance, é quase outra língua. Mas é gostoso, diferente. Não é um livro imperdível, mas vale a leitura. Quantas madrugadas tem a noite é uma conversa jogada fora, papo de botequim, só que na África. Lá também tem conversa fiada. Algumas menções à política, à tradição, alguns questionamentos, todos regados a muita cerveja. Uma das passagens mais bonitas do texto, se não a mais bonita de todas, é essa:

“Como sabem, sonhar com o mar é sonhar com as lágrimas, e não as lágrimas leves dos momentos felizes, mas as lágrimas de qualquer tristeza que está para chegar…”. (p. 156)

Os angolanos têm uma relação muito dolorida com o mar, que era a via de chegada e de partida das embarcações que levavam os homens, os pais de família, os jovens, para o trabalho forçado. E também trazia as más notícias, quando os mesmos não retornavam.

Quantas madrugadas tem noite foi publicado em 2004 em Portugal, pelo Editorial Caminho. Aqui no Brasil, agora em 2010, foi publicado pela Leya, editora portuguesa instalada recentemente em São Paulo. Com escritórios em Moçambique, Angola, Portugal e Brasil, essa editora pretende fazer um amplo intercâmbio literário entre esses países e divulgar obras dos novos autores africanos.

20/7/2010

Abuela Grillo, Anima Mundi 2010

A edição 2010 do Anima Mundi estreou no Rio de Janeiro no dia 16 de julho. Hoje, passados quatro dias, resolvi assistir às novidades da animação nacional e internacional, aproveitando que em dia de semana tudo fica mais vazio e tranqüilo.

As duas primeiras sessões em cartaz no Unibanco Arteplex eram Panorama 7 e Panorama 1. Os panoramas são as sessões de curtas produzidos recentemente que não participam da competição proposta pelo Festival. Cada sessão Panorama apresenta uma média de oito curtas e tem duração de uma hora. Quem quiser pode até trocar o almoço por um panorama, já que a primeira sessão é ao meio dia.

Dos 17 curtas a que assisti – Abuela Grillo (Dinamarca), Seed Light (Coreia do sul), De outro mundo (Brasil), Rytual (Polônia), Conectados (Brasil), Nuvole, Mani (França), Munaralli (Finlândia), En el insomnio (Espanha), Theatre Patouffe (Holanda), Yulia (França), Sagan om denille dockpojken (Suécia), Suculenta (Brasil), A arte de se afogar (Canadá), How to make a baby (EUA), Glover (Reino Unido) e The flower (EUA) – apenas 7 iriam para a segunda etapa do meu concurso pessoal e o vencedor, sem enfrentar concorrência perigosa, seria Abuela Grillo. De longe!


A parte mais triste da minha passagem pelo Festival hoje foi o fato de justamente Abuela Grillo ter sido o primeiro curta do dia, o que criou em mim grandes expectativas em relação aos demais. À medida que os curtas iam passando eu percebia que nada superaria a Abuela, pelo menos no dia de hoje. Diria que foi uma enorme injustiça terem exibido Seed Light, uma produção sul-coreana sci-fi ultra high-tech, com direito a Photon6, um robô intergaláctico, que luta para salvar o planeta com clichês, logo após Abuela Grillo. Péssimo!! A Abuela teria chorado se visse essa animação.

Pelo que pude averiguar, esse curta maravilhoso baseia-se em um mito indígena boliviano, que narra a relação do povo com a Abuela, uma espécie de encantadora das águas. Quando canta, faz-se a água. Com sua ajuda, controla-se a seca, o crescimento das plantações, toca-se a vida rural.

Nesse curta, a vovó passa dia e noite cantarolando no campo. Por onde anda, a chuva cai, as plantações são saudáveis, a colheita abundante. É sempre bem vinda e festejada por onde passa. Até que um dia um fazendeiro irrita-se com a chuva logo ao amanhecer e expulsa a boa senhora do campo. Na cidade grande, homens mal intencionados descobrem seu dom e a escravizam. Fazem da água uma fonte de dinheiro, um grande comércio e acabam por monopolizá-la, tudo às custas da sofrida cantoria de Abuela Grillo. No campo, o solo, as plantações e as bocas secam. Agora todos pagam caro por aquilo que, antes, Abuela Grillo oferecia alegremente.

É mesmo um tema bastante atual. Reflexões sobre ecologia, monopólio e capitalismo são inevitavelmente evocadas. De forma bastante poética, o curta nos faz pensar em questões sérias, como as relações de consumo e o futuro do planeta, mas sempre embalados pela melodia suave e reconfortante entoada pela encantadora das águas.

A forma como a animação é desenvolvida parece apurar a beleza da narrativa original: um cenário tipicamente boliviano, composto por cores fortes e contrastantes; a cantoria singela e harmoniosa, que varia de intensidade e de tom, a depender do momento da narrativa; personagens de traços arredondados ou quadrados, de acordo com sua índole; e, ainda, as expressões faciais e corporais sutis, porém complexas dos personagens. São tantas informações audiovisuais, que nem damos falta da fala.

A produção, desenvolvida a partir de uma parceria entre Dinamarca e Bolívia, tem como animadores os artistas Alejandro Salazar, Joaquín Cuevas, Susana Villegas, Cecilia Delgado, Mauricio Sejas, Román Nina, Miguel Mealla e Salvador Pomar. A voz de Abuela Grillo é emprestada por Luzmila Carpio, cantora de música indígena boliviana e embaixadora da Bolívia na França, e os músicos que embalam sua voz são Josué Córdova, Saúl Callejas, Luis Gutiérrez e Pablo Pico.

Agora, imagine, depois de uma experiência emocionante e tocante como essa, sentindo ainda aquele misto de angústia e alegria provocado pelo curta… Então, chegamos ao ano de 2059 e somos invadidos pelo Demônio Negro, um cyborg gigante que quer roubar a Semente da luz!

É muito doloroso, mas vale a pena.

14/7/2010

A janela de esquina do meu primo

Quem não domina a língua alemã, só pode ler o conto de Hoffmann (1776-1822), “A janela de esquina do meu primo”, nesse ano de 2010, mais precisamente a partir de maio, data de lançamento do livro pela COSAC NAIFY em português, no Brasil.

Lançado postumamente em 1822, ano da morte do autor, o conto revela o olhar de um personagem autobiográfico sobre as várias facetas que dão vida a uma praça movimentada no centro de Berlim. Com muita perspicácia, esse Hoffmann disfarçado de doente inválido, escritor impossibilitado de escrever, observa com cuidado as nuances da sociedade berlinense, traçando um panorama elaborado a partir dos tipos sociais que acompanha de sua janela durante as manhãs de feira.

Da narrativa, constituída basicamente de um longo diálogo entre dois personagens, primos, emergem reflexões sobre as mudanças sociais observadas na cidade desde o período que antecede o domínio napoleônico até o encerramento desse ciclo. Discutem-se também o crescimento e urbanização da cidade, o convívio das grandes massas e a mistura de classes sociais em um ambiente apinhado de gente e confuso, passível de testemunhar grandes conflitos a qualquer momento.

Pouco a pouco, são decifradas as vidas por trás dos pontinhos insignificantes que compõe a pintura vista da janela do primo doente. De início, como uma pintura, a vista é estática. Mas, aos poucos, analisada individualmente, ganha vida. Cada passante leva uma história decifrada ou imaginada pela mente criativa desse observador que, estático, transforma a pintura em movimento.

No embalo das pinturas, a edição da COSACNAIFY traz em suas páginas ilustrações de Daniel Bueno, que são como colagens representativas de algumas passagens do texto. Além disso, a capa dura e as notas de pé de pagina oferecem, respectivamente, um ar mais sofisticado ao livro e mais informações ao leitor. Tudo isso justifica os R$45 reais pagos pelo livro, o que, em princípio, é salgado para um livro de um conto. Em princípio.

Livro desta resenha:
A janela de esquina do meu primo”, de E.T.A Hoffmann
Tradução: Maria Aparecida Barbosa
Projeto gráfico: Maria Carolina Sampaio e Paulo André Chagas
Ilustração: Daniel Bueno
Posfácio: Marcus Mazzari
Ed. COSACNAIFY

24/5/2010

Barroco Tropical, de José Eduardo Agualusa

O último romance de José Eduardo Agualusa, chamado Barroco Tropical, publicado recentemente, é uma pérola. De início, é intrigante. Em seguida, perturbador. E, finalmente, emocionante.

A narrativa é bastante surpreendente, criativa, diferente. Tudo parte do romance de uma cantora angolana de grande sucesso internacional, chamada Kianda, com o amante, o escritor Bartolomeu Falcato. Em torno dessa história bastante tocante e instável emocionalmente, principalmente por parte da cantora, que mantém vícios um tanto quanto comuns no meio artístico, ganham espaço outras questões políticas, que revelam, por exemplo, tradições muito contestáveis em relação a tratamentos de saúde em Angola, falcatruas políticas, assassinatos, propinas, enfim, todo o campo semântico ligado à palavra “política”. Por outro lado, vem à tona também uma história muito curiosa a respeito de anjos. Anjos negros. Em princípio, essa parece ser uma faceta fantástica da narrativa. Mas apenas parece, porque ao mesmo tempo em que são relatadas aparições de anjos negros num capítulo, num clima bem misterioso, revolvido por simbolismos, em outra parte da narrativa discute-se sobre confecção de asas, sobre militantes políticos que em certa altura da guerra colonial se vestiam de anjos, ou seja, situações mais realistas, que fazem crescer no leitor curioso a vontade de devorar o livro para saber o que está por trás dos benditos anjos negros.

Outro ponto do texto que chama nossa atenção é a quantidade de referências que ele carrega. São dezenas de referências de todos os níveis: histórico, cultural, social, político; e para todos os públicos, gostos, classes, nacionalidades, etc. Até a Marília Gabriela dá o ar de sua graça! O que me faz lembrar de ressaltar que Agualusa é figurinha fácil no Brasil. Volta e meia vem participar de eventos literários por aqui. Talvez por isso, por conhecer bem o país, principalmente o Rio de Janeiro (ao que me parece), seus personagens transitam pela região, passeiam no Leblon, visitam o Real Gabinete Português de Leitura, curtem Caetano e Gil e adoram a Bahia.

É bom ressaltar também que o texto permite uma leitura menos profunda, por parte de leitores que não tenham grande conhecimento sobre a guerra colonial, sem prejuízo algum. Nesse sentido, o autor é bastante cuidadoso ao esclarecer alguns pontos históricos que considera mais importantes para a compreensão do texto, sem o peso de um livro de história ou de uma tese de doutorado. Assim, o leitor pode entrar no misterioso universo dos anjos negros e desfrutá-lo satisfatoriamente. Contudo, acredito que seja bem mais tranqüilo e menos trabalhoso embarcar no romance trazendo na mochila algum conhecimento prévio sobre a história de Angola, porque a base de tudo, no final das contas, é Angola e seus intermináveis problemas resultantes da colonização, que, em Barroco Tropical, são retratados de forma bastante negativa (ou realista), uma vez que o romance se passa em 2020 e não há nem sombra de progresso.

Resumindo, quanto ao enredo, é instigante, emocionante, hipnotizante. Quanto à escrita, esta é leve, corrida, com traços de ironia, o que a torna boa mesmo de ler. Não posso deixar de mencionar que o escritor ainda não está usando a nova ortografia da língua portuguesa. Parece que só nós, brasileiros, estamos ligando para essas mudanças…

Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa, 2009, Companhia das Letras

24/10/2009

A Geração Trianon

A peça A Geração Trianon estreou no dia 22 de outubro de 2009, no Teatro Laura Alvim, em Ipanema (RJ). Com direção de Luiz Antonio Pilar e Cristina Bethencourt, a produção é uma remontagem do texto de Anamaria Nunes, premiado em 1988, ano de sua primeira montagem, dirigida por Eduardo Wotzik e representada pelo Grupo Tapa.

A remontagem atual conta com 14 atores – Licurgo, Marília Medina, Marta Paret, Marcio Vito, Rogério Barros, Rubens Camelo, Tracy Segal, Marcos Damigo, Rodolfo Mesquita, Rael Barja, Julia Deccache, Antonio Alves, Alex Reis, André Rocha e o pianista Christian Bizotto – que dão vida às histórias dos bastidores de uma companhia teatral da década de 20, no tradicional Teatro Trianon, no Rio de Janeiro.

Por ser patrocinada pela Eletrobrás, a peça foi apresentada na Casa de Cultura Laura Alvim, imóvel doado (por Laura Alvim) ao Governo do Estado em meados de 1980. Como grande parte dos bens públicos é precária, gostaria de ressaltar o desconforto do balcão do teatro, cujos assentos são tão altos que deixam a pessoa mais saudável do mundo com gangrena nas pernas. Além disso, um dos ilustres espectadores da estréia era um morcego. (Isso mesmo, o mamífero voador). Outro ponto desagradável foi o atraso de 40 minutos para a abertura das portas do teatro. Sendo assim, só pude me encontrar com o morcego às 21:40, e não às 21h, como combinado. Espero que ele não tenha se chateado.

Voltando à peça… Foi boa. Uma peça que aborda a produção de uma peça, e a peça em si (para quem curte nomenclaturas, metateatro), é sempre interessante, ainda mais quando se trata de um texto já premiado. Horrível não poderia ser. Contudo, não passa de uma peça boa. Como pontos altos, o jingle da sapataria Mota (e todas as partes que o dono da sapataria Mota aparece), que merece boas risadas; e o vôo do morcego que, já impaciente, resolveu dar uma voltinha quase no final do espetáculo… Momento de muita tensão!

Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim
Av. Vieira Souto, 176, Ipanema/RJ
Tel: 21 2332-2015
Horários: 5ª, 6ª e sábado às 21h; domingo às 20h
Temporada: até 20 de dezembro

24/9/2009

No teu deserto

Acabo de descobrir que Miguel Sousa Tavares, o escritor e jornalista português, é filho de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma surpresa e tanto para mim, admiradora de sua obra poética, uma vez que ia justamente comentar que, após ter lido uma seqüência de romances de autores africanos de língua portuguesa, senti uma enorme diferença entre os textos destes e o de Sousa Tavares – No teu deserto – lançado em setembro de 2009, pela Companhia das Letras. Estava já habituada àquela escrita bem poética e reflexiva dos africanos, por isso senti um certo impacto com a leitura do Sousa Tavares.

Não quero comparar os africanos com o português, muito menos dar a entender que, por ser filho de poetisa, Miguel Sousa Tavares deva ser poeta. Aliás, seu nome é Miguel Andresen de Sousa Tavares. Se não tivesse preterido o sobrenome “Andresen”, talvez tivesse imaginado sua filiação muito antes!

Mas isso não importa, o que interessa é que, filho ou não de Sophia (a mesma que teve seus versos introduzindo alguns capítulos de Antes de Nascer o Mundo, do Mia Couto), seu último romance, que dá conta de uma travessia do deserto do Saara e das implicações dessa aventura na vida do protagonista, um jornalista português, e de seu relacionamento com a companheira de viagem, uma garota bem mais jovem que ele, não é uma viagem perdida.

O que há de curioso para se observar é a diferença de comportamentos entre os dois, tendo em vista os significativos quinze anos de idade que os separam, o modo como um enxerga e interpreta as ações do outro, os objetivos profissionais e pessoais do jornalista, a falta de objetivos da jovem garota e o aprendizado da mesma durante esses dias de aventura. Na realidade, é curioso até o momento em que nos damos conta de que já conhecemos essa história, e percebemos que a narrativa não pretende nem nos surpreender nem nos encantar com a simplicidade de uma história banal, como muitas vezes acontece, de uma história ser bonita por ser simples.

Assim, sem muitos rodeios nem grandes descobertas, guiados por uma linguagem simples e objetiva, atravessamos o deserto e entramos na África. Percebemos a existência de um possível romance entre o jornalista e a garota, refletimos rapidamente sobre o silêncio do deserto e a impossibilidade, na atualidade, com todos os avanços tecnológicos relacionados à comunicação, de lidarmos com o silêncio. A era das comunicações, da tecnologia e da popularidade teria nos tornado incapazes de suportar a solidão e o silêncio. O deserto seria, portanto, o último destino procurado pelos viajantes dos dias de hoje. Não posso deixar de ressaltar que essa parte do texto, que começa na página 116 e, tão rapidamente, termina na página 117, é realmente fascinante. É o que oferece sentido à travessia do romance. Discussões sobre o silêncio e a solidão sempre rendem muitas reflexões e, em No Teu Deserto, a naturalidade e a fluidez que caracterizam essas divagações as afastam de qualquer possibilidade de serem apenas tentativas desesperadas de filosofar.

Outro ponto positivo é o fato de o romance ser curto, o que o poupa de ser cansativo.

No teu deserto
Miguel Sousa Tavares
Companhia das Letras
1ª Edição – 2009
(128 pgs.)

14/9/2009

Animais Literários, de Sofia Porto

O eixo Rio-São Paulo recebe a maior parte das mostras internacionais de artes plásticas, cinematográficas, entre outras, e também grande parte das exposições dos grandes artistas nacionais. Só para ilustrar, as obras de Vik Muniz ficaram no MASP, em São Paulo, por um bom tempo, e depois vieram para o MAM, no Rio de Janeiro, onde permaneceram por cerca de três meses. Outro exemplo foi a Virada Russa, exposição de 123 obras do movimento artístico da 1ª fase da Revolução Russa, que passou pelo CCBB do Rio, e que certamente passou ou passará pelas outras capitais em que há um Centro Cultural do Banco do Brasil (São Paulo e Brasília, apenas).

A visibilidade cultural lançada sobre Rio e São Paulo é uma herança histórica que se manteve graças às políticas culturais desses estados que nunca se dispuseram a abrir mão da notoriedade que outrora conquistaram, e graças, também, à sorte, no caso da capital fluminense. No que diz respeito a São Paulo, o estado continua sendo o centro financeiro do Brasil. Por outro lado, o Rio, outrora capital do país, pouquíssimo conserva, em termos político-econômicos, dessa época. Se não fosse pela arquitetura do centro da cidade, mantida a duras penas, e pelo fato de a família real ter se instalado por aqui durante um tempo, hoje o Rio de Janeiro não passaria de um balneário para turistas que curtem sol, praia e turismo sexual.

Muitos estados nordestinos, como o Rio Grande do Norte, por exemplo, que não teve oportunidade de ser capital e nem foi objeto de interesses políticos para tornar-se centro financeiro, vão aos poucos tentando desvencilhar-se do paradigma que os caracterizam: exploração sexual infantil, turismo sexual, ou qualquer outra forma de lazer ilegal relacionada ao sexo.

Há alguns anos, vêm se observando o crescente interesse pelo desenvolvimento no âmbito da gestão cultural em Natal. O número de casas de cultura da cidade é notável e os artistas que surgem na capital começam a ganhar destaque nos principais meios de comunicação da cidade, o que certamente aumenta a motivação dos artistas e, também, a satisfação dos moradores da cidade, que recebem mais alternativas de lazer cultural.

Um exemplo é a Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte) que, sob a gestão da prefeitura de Natal, foi restaurada e hoje funciona como um centro de cultura que abriga lojas de artesanato, espaço para exposições e palco para apresentações artísticas.

No momento, a Funcarte apresenta, até 25 de outubro de 2009, a exposição Animais Literários, da artista plástica Sofia Porto, uma carioca-potiguar, que uniu sua paixão pelos animais ao amor pela literatura em obras que exaltam a natureza e o lirismo que ela evoca nos seres humanos. Com uma idéia simples, mas criativa, Sofia inova ao transpor sua imaginação para o papel, partindo de fotografias de insetos, animais e outros vestígios de natureza que ainda encontra numa capital em crescimento.

Assim como a cidade em que vive, Sofia Porto é uma promessa, e o que se espera é que a cidade de Natal acompanhe o ritmo de crescimento da artista. E que não seja imprescindível deixar Natal rumo ao Rio ou a São Paulo para ganhar o mundo.

Animais Literários, por Sofia Porto
Fundação Capitania das Artes
Av. Câmara Cascudo, 434.
Tel: (84) 3232-4956 / 3232-4946
Natal – RN

Sutura

Até outubro de 2009 fica em cartaz no Oi Futuro do Rio de Janeiro a peça Sutura, texto do escocês Anthony Neilson, dirigido por Felipe Vidal e interpretado por Cristina Flores e Lucas Gouvêa.

Em princípio, a peça aborda o transtornado relacionamento de um casal jovem, com dificuldades de comunicação, problemas com o passado e dúvidas em relação ao futuro. Num teatro diferente, em que são duas as platéias, e que ficam uma de frente para a outra, podendo o palco ser um mero obstáculo para a comunicação entre os espectadores, os primeiros momentos são de expectativa, uma vez que o tema e o ambiente são incompatíveis: uma história batida num espaço novo.

No decorrer da peça, contudo, o tema ganha novos contornos, a começar pelo jogo temporal, que requer muita atenção e certa familiaridade com esse tipo de recurso, já que o vaivém abrange não só presente e passado, mas também um possível futuro.

A partir daí, o texto torna-se surpreendente e o palco (que na verdade são dois, já que uma cortina semitransparente o divide em duas metades) transfigura-se em parte essencial da peça. Tudo vai bem, então, rumo ao ponto alto do texto, que em muito se assemelha aos Contos de terror, mistério e morte, de Edgar Allan Poe.

Em determinado ponto, para mim o auge, momento em que há uma tensa discussão entre o casal, que culmina numa cena grotesca (que não é possível descrever!), um misto de choque, terror e contentamento tomam conta do teatro. Eis a hora mais indicada para o encerramento do texto. Como ficar melhor que isso, ou como manter tal nível de euforia perturbada que domina a platéia? Impossível! Se fosse um dos contos de terror, mistério e morte teria terminado por aí, com uma platéia de espectadores muito surpresos.

Mas… A peça continua e acaba voltando para a calmaria inicial, para a discussão do relacionamento amoroso e toda aquela história. De todo modo, quem gosta dos contos de Poe vai, seguramente, aproveitar a experiência, ainda que os enfraquecidos minutos finais causem certo desânimo.

Sutura
Texto: Anthony Neilson
Direção: Felipe Vidal
Elenco: Cristina Flores e Lucas Gouvea
Até outubro de 2009.
Teatro do OI Futuro
(Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo/RJ)

25/8/2009

Antes de Nascer o Mundo, de Mia Couto

Seguindo a linha dos escritores africanos que procuram de alguma forma semear reflexões sobre as guerras coloniais e seus efeitos nas sociedades contemporêneas, Mia Couto, moçambicano cuja produção ficcional contempla sete romances até o momento, vem afinando sua escrita e sua criatividade ao publicar, com uma periodicidade incrível, novas produções, entre poesias, romances, crônicas e contos.

Antes de Nascer o Mundo, de Mia CoutoSeu último romance, Antes de Nascer o Mundo (2009), publicado pela Companhia das Letras, mantém algumas das características que acompanham sua escrita há algum tempo como, por exemplo, a sugestividade dos nomes dos personagens, que nunca são apenas nomes, mas sim parte da personalidade, da história passada e do futuro dos mesmos (p.e. Dulcineusa, de Um Rio chamado tempo, uma casa chamada terra, Bartolomeu Sozinho, de Venenos de Deus, Remédios do Diabo, e Dordalma, de Antes de Nascer o Mundo).

Por outro lado, outros elementos, que oferecem novos ares a escrita de Mia Couto, podem ser ressaltados nesse novo romance. A densidade poética conquistada pelo autor, bem como o aprofundamento do tema abordado, conferem ao texto mais que um simples encontro da atualidade com o passado histórico. Num tom suave, como quem recita uma poesia, o autor abrange assuntos tais como a violência contra as mulheres, as quais dedica um capítulo inteiro (“Os papéis da mulher”), e o impacto sofrido com a chegada da globalização num país desestruturado como Moçambique. Num tom crítico, mas poético e carregado de ironia (“Quem sabe os estrangeiros privados são os novos deuses?”), suas palavras oferecem às questões mais sérias e violentas a suavidade e a harmonia necessárias para denunciar uma série de situações intensas sem, no entanto, ter como resultado algo como um texto jornalístico, documental, objetivo e seco. É interessante destacar que cada capítulo é iniciado com um poema-epígrafe, na grande maioria das vezes de autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen e Hilda Hilst, que funcionam como uma introdução ao que está por vir, como uma espécie de mote, a que se seguem as estrofes.

Em Antes de Nascer o Mundo, passado e presente – tempos indissociáveis – se refletem nas feridas ainda abertas deixadas pelo passado colonial e nos inúmeros problemas sociais enfrentados pelo país. O futuro é um tempo ausente, uma vez que as elucubrações voltam-se para a dissolução de uma série de conflitos internos que caracterizam o passado dos personagens, todos fechados em si mesmos, isolados do mundo e da vida, e assim definidos: “Neste mundo existem os vivos e os mortos. E existimos nós, os que não temos viagem.” (p.54)

13/8/2009

Diário de um louco

Quando um sapato social de óculos escuros é o chefe de seção do seu trabalho, quando um pincel de gravata borboleta é um criado, quando cinco garrafas plásticas enfiadas numa caixa de sapatos é um cachorro que, além de escrever cartas, é um político notável, quando um regador de plantas coberto por uma estopa é um judeu, e quando você consegue manter um diálogo com todas essas pessoas, você só pode estar louco.

Claudio Tovar encena Diário de um louco, conto de Nikolai Gogol, em curta temporada no Teatro do Leblon, no Rio de Janeiro.

A narrativa que se inicia no dia 3 de outubro, se perde no dia 86 de martubro e termina num dia sem data e sem ano conta a história do funcionário público que foi nomeado rei da Espanha secretamente, uma vez que apenas ele mesmo sabia que havia sido nomeado. A crescente loucura do funcionário público, que inicialmente se revela sob forma de tara pela filha do diretor, é seguida pela obsessão por uma cachorrinha que troca cartas com sua amada, e termina (não termina!) com a secreta nomeação régia.

Ao longo do espetáculo, a metamorfose do personagem, de levemente louco à insanamente fora de si, é sutil, mas agressiva. Alternando temperamentos, o funcionário público – ora delicado, ora hostil – transtornado com a sociedade a sua volta, principalmente no que diz respeito à política, poder e discriminação social, é dominado por um estado de loucura que, aos poucos, o afasta da sociedade.

Trajes sujos e esfarrapados, cenário em tons de bege e de dourado, móveis maltratados, muitas tralhas e personagens coadjuvantes artesanais montados pouco a pouco pelo próprio louco ao longo da narrativa compõem o ambiente que acomoda os pensamentos, os movimentos e as falas confusas e dramáticas do enlouquecido funcionário público.

Com uma incrível naturalidade, o que me faz pensar que todos somos um pouco loucos, Claudio Tovar traz à cena seriedade e drama, conseguindo extrair da trágica vida do personagem, uma essência cômica, mas embalada pela tristeza e pela fragilidade do louco que, incompreendido, sofre, ainda que não tenha consciência do sofrimento pelo qual passa e nem dos motivos pelos quais é rechaçado pelas pessoas a seu redor.

Exemplo da instabilidade de temperamento, da inconsciência e da loucura generalizada que se instaura no homem, é o fechamento da narrativa. Já no hospício, debruçado sobre seu próprio corpo, o louco chora pela mãe, pela condição de órfão, pelo solitário homem que foi e que é. Ao que se segue um abrupto salto, um nariz de palhaço e a alegre exclamação: “O rei da Argélia tem uma verruga no nariz!”.

Com direção de Alexandre Bordallo, o Diário de um louco fica em cartaz até 06 de setembro de 2009, em reapresentação, às quartas e quintas, às 21h. Imperdível!

Teatro do Leblon
Sala Tônia Carrero
Rua Conde Bernadotte, 26. Leblon / RJ
Tel: (21) 25297700

24/7/2009

O Língua Solta

Apresentado sob forma de item através de livros didáticos do ensino médio, Bento Teixeira passa despercebido quando o assunto é literatura. Apontado por alguns estudiosos como o poeta que tentou copiar Os Lusíadas, sua obra, geralmente reduzida à poesia Prosopopéia, costuma ser desvalorizada sendo, portanto, apenas citada superficialmente nos livros escolares.

Sem querer culpar os formuladores desses livros pelo meu desconhecimento sobre a vida e a obra do poeta, mas me questionando até que ponto as pessoas que escrevem esses manuais escolares pesquisaram e investigaram o processo criador e a história de Bento Teixeira, penso que, simplesmente pelo fato de ter sido o primeiro poeta do Brasil, ele já merece algum crédito. Afinal, é querer demais que em 1601, data da publicação da mencionada poesia, um poeta brasileiro, além de ser o primeiro, ainda revolucione a escrita do país que, diga-se de passagem, ainda era colônia! Se Mário de Andrade tivesse vivido no século XVII, ele certamente não pensaria em nada parecido com o que foi o Modernismo.

Tudo é um processo e, mesmo sem ainda conhecer a obra de Bento Teixeira, acredito que sua importância possa ser direcionada para o fato de ter sido o marco inicial de um longo e árduo processo que, finalmente, culminaria no que é a literatura brasileira hoje. Nada nasce pronto.

Apesar de ainda não conhecer todo o trabalho poético de Bento Teixeira, graças ao texto de Miriam Halfim, produto de vasta pesquisa, pude conhecer a vida do poeta, que foi também professor (mestre-escola), dada a sua erudição, fruto da educação recebida dos jesuítas, em Pernambuco. A história de sua vida, as desavenças das quais foi fundador e também vítima, sua tagarelice e suas críticas à Inquisição, seus crimes cometidos, sua relação com a igreja, enfim, sua biografia é apresentada ao público com muita destreza por Isaac Bernat que, além de Bento Teixeira, é também sua esposa Filipa, entre outros.

Dirigida por Xando Graça, a peça O Língua Solta, em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) até 10 de setembro de 2009, é mesmo imperdível. Divertida, informativa e muito bem produzida, é possível perceber a dedicação oferecida à realização do trabalho. A iluminação e o cenário revelam a sobriedade dos ambientes e situações que integram a narrativa, como uma igreja, uma taberna, um espaço de escrita e reflexão, um assassinato, uma discussão, um julgamento. A trilha sonora remete à época dos acontecimentos, século XVI, e a atuação de Isaac Bernat reflete o talento e o empenho do ator.

Teatro do Centro Cultural Justiça Federal

Av. Rio Banco, 241 / Cinelândia – RJ tel: 21 3212 2550

Horários: 4ªs e 5ªs, às 19h

De 22 de julho até 30 de setembro de 2009

15/7/2009

O Brasil na África, a África no Brasil

Há algum tempo, desde o ano passado pelo menos, venho observando que, tanto nos jornais e revistas quanto na televisão, muitas notícias sobre a África vêm sendo veiculadas. São artigos e reportagens que procuram ressaltar os laços que unem o Brasil ao continente africano, especificamente aos países africanos de língua portuguesa, e especialmente a Angola e Moçambique. E isso é ótimo porque contribui para a dissolução daquela terrível e antiga idéia de que a África é feita de elefantes, leões e tribos primitivas.

Do ponto de vista cultural, o intercâmbio entre o Brasil e a África torna possível, e cada vez mais freqüente, o encontro entre nós, brasileiros, e africanos como Mia Couto e Ondjaki, dois escritores conceituados que certamente têm muito a compartilhar. Eventos como a FLIP, que nesse ano (2009) pôde contar também com a presença de Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas brasileiros em assuntos africanos, têm demonstrado preocupação em estreitar as relações entre o Brasil e o continente africano. Outro exemplo é o FESTLIP, festival de teatro de países de língua portuguesa que, em sua segunda edição (2009), trouxe ao Rio de Janeiro 80 profissionais de teatro de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Portugal para onze dias de espetáculo. Do outro lado do oceano, a Casa de Cultura Brasil-Angola, em Luanda, desenvolveu esse ano o projeto “Sopa de Letrinhas”, que teve como objetivo apresentar a literatura infantil brasileira ao público angolano.

Não é tão difícil perceber um certo empenho de ambas as partes em restabelecer o contato enfraquecido passado o período da escravidão. Agora num contexto positivo, em que nenhum país planeja devastar o outro para se estabelecer, o momento é de cooperação. Que Angola e Moçambique são países em fase de desenvolvimento econômico e de reestruturação social, sabemos (o Brasil não é muito diferente). Como resultado de décadas de devastação por conta da colonização portuguesa, esses países enfrentam hoje um complexo processo que visa à reconstrução da nação. Desde o início do século XIX, quando ainda se encontravam sob o domínio português, observa-se, contudo, um crescente desejo de desvelamento daquele substrato africano perdido devido à imposição da cultura do colonizador. Nesse sentido, a literatura, tanto em Angola como em Moçambique, ocupou papel central como impulsionador dos movimentos pró-independência e como responsável pelo resgate das tradições culturais desses países.

Muitos autores que hoje têm suas obras circulando pelas livrarias brasileiras, como Mia Couto, Pepetela e Luandino Vieira, por exemplo, fazem parte de uma geração cheia de ideais, que lutou, através das palavras, pela independência de seus países. No entanto, depois de conquistada, a independência evidenciou muitos contrastes, criou novos problemas e revelou que o processo de reconstrução do país seria mais difícil do que se imaginava. Em sua ficção, esses autores procurar compartilhar essas dificuldades e as utopias que nortearam seus países durante muitos anos.

Menos conhecida por aqui, mas tão essencial quanto, é a obra de Boaventura Cardoso. Conterrâneo de Pepetela e nascido na mesma década deste, em 1944, o escritor participou dos movimentos pela libertação de Angola, além de ter sido membro-fundador da União dos Escritores Angolanos (UEA), responsável pela publicação de textos de escritores angolanos após a independência, em 1975. Desde então, teve seis livros publicados: Dizanga dia Muenhu (1977), O Fogo da Fala (1978), A Morte do Velho Kipacaça (1987), O Signo do Fogo (1992), Maio, Mês de Maria (1997), Mãe, Materno Mar (2001).

Autor de contos e romances de peso, Boaventura Cardoso, que também ocupou o cargo Ministro da Cultura de Angola de 2002 a 2008, inscreve-se no hall dos mais representativos escritores daquele país. Tem muitas passagens pelo Rio de Janeiro, onde costuma contribuir como palestrante em encontros sobre as literaturas africanas de língua portuguesa promovidos por universidades e casas de cultura.

Seu último romance, Mãe, Materno Mar, revela-se um mergulho profundo na temática angolana, em todos os níveis. Através de seus personagens, da linguagem adotada e da forma como desenvolve suas narrativas conhecemos histórias de lutas, de silenciamento e de violência que marcaram o passado recente de Angola; conhecemos situações e personagens que representam as tradições, as religiosidades e as práticas políticas da atual sociedade angolana. O imaginário do país e todas as implicações que uma longa e turbulenta colonização pode suscitar são trabalhados de forma sensacional nesse romance que, mais que entretenimento, é uma aula sobre a sociedade e a cultura angolanas.

4/6/2009

De corpo presente

A Fagundes Produções Culturais apresentou nessa quarta-feira, 3 de junho de 2009, a peça De corpo presente, com texto e direção de Mara Carvallio e atuações de Cristina Prochaska, Blota Filho, Carlos Martin, Patricia Batitucci, Alexandra Martins, Murilo Salles e Mariana Bassoul (stand in) e da própria diretora. O espetáculo fica em cartaz até o dia 30 de agosto, no Teatro Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro.

Na ocasião da estréia, Cristina Prochaska foi substituída por Mara Carvallio, que por sua vez teve seu papel entregue a Mariana Bassoul… que, diga-se de passagem, foi o ponto alto da peça.

Propondo uma discussão sobre relacionamentos familiares em vida, e também após a morte, a peça, permeada pela crença espírita, cumpre seu papel. Uma série de conflitos, como uma paternidade precoce, uma filha que se revela lésbica, um casamento infeliz, a existência de uma amante e uma filha problemática são revelados no decorrer da trama, sem prometer grandes novidades.

A profusão de conflitos oferecidos ao espectador poderia gerar outras 600 peças. Cada uma delas, então, se concentraria em um ou dois desses conflitos. Se assim fosse, poderíamos encontrar o foco do texto, que no caso de De corpo presente ficou bem perdido. Quero dizer que todos os episódios apresentados recebem muita atenção, de modo que todos se tornam igualmente importantes e acabam permanecendo no mesmo nível, o que faz com que seja uma tarefa difícil encontrar o porquê do texto, a motivação principal da peça.

Para evitar reflexões exaustivas a esse respeito, elejo a personagem argentina judia como o grande tema da peça. Em vez de tentar achar e ser tocada pela dramaticidade do texto, se coubesse a mim classificar o espetáculo, este seria comédia. E das boas! A argentina é bem humorada, engraçada mesmo, cínica, irônica… Só essa personagem já renderia uma peça. Atuação impecável de Mariana Bassoul. As risadas estão garantidíssimas! Difícil imaginar outra atriz desempenhando esse papel. Escrevo isso sem querer desmerecer as outras atuações, que foram ótimas. O que faltou mesmo foi só o estabelecimento de prioridades, talvez uma dica do propósito da peça, um foco.

Não posso deixar de mencionar o cenário de Antônio Marmo e Igor Santos, bem bolado e sombrio (refiro-me às “portas” de entrada e saída dos atores, meio plásticas, diria orgânicas até), e a iluminação de Maneco Quinderé, que em harmonia com o esfumaçado do ar, compõe o clima da peça, que se desenrola em sua maior parte num funeral.

De Corpo Presente
Teatro Solar de Botafogo
Rua General Polidoro, 180 – Tel: (21) 25435411

De 03/06 a 28/07 – Terças e Quartas 21h
De 07/08 a 30/08 – Sextas e Sábados 21:30 e Domingos 20:30h.

8/5/2009

O sonho de uma noite de verão

A Cia do Giro apresenta até o próximo domingo, 10 de maio, no Teatro Nelson Rodrigues da Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, o espetáculo O sonho de uma noite de verão, montagem do clássico de Shakespeare, que conta as histórias que antecedem o casamento de Hipólita e Teseu, numa floresta de fadas e elfos.

Prometendo manter 90% do texto original, a Cia do Giro se supera.

O sonho de uma noite de verão - fotografia de Alex Ramirez gentilmente cedida pela divulgação do espetáculo para publicação no Aguarrás - www.aguarras.com.brCom um cenário composto por panos fluidos, redes de folhas secas e vegetações acastanhadas penduradas do alto de uma pedra, que funciona como o leito de Titânia, rainha das fadas, a atmosfera onírica é evocada de forma sublime. Com simplicidade e leveza, a expressividade do cenário traz à tona o tom feérico relativo ao mundo mágico dos seres mitológicos que habitam a floresta.

A leveza se dá também no movimento corporal das fadas, que se penduram em panos e balanços suspensos, e com movimentos ágeis, mas lentos, fazem acrobacias que oferecem a sensação de liberdade, numa atmosfera lírica e encantadora, que embala as paixões de casais que se formam na onírica noite de verão.

O figurino colabora com tudo isso à medida que se compõe por tons pastéis, cores acastanhadas, com leves toques de brilho nos trajes de Titânia, rainha das fadas, e de Hérmia, prometida de Demétrio, mas apaixonada por Lisandro, com quem foge para a floresta. Os rudes artesãos, com seus trapos, também em tons de marrom, ensaiam, na floresta, a peça que apresentarão no casamento de Teseu e Hipólita. Desse modo, o figurino faz com que todos os personagens dialoguem com a floresta, camuflando-se nela como se dela fizessem parte.

A composição musical completa o espetáculo, alternando o cantarolar das fadas, com canções instrumentais reais que introduzem o grande herói grego, Teseu, além de silvos e grunhidos comuns aos bosques e florestas.

Com atuações magníficas de Adriano Basegio, Álvaro Rosacosta, Arlete Cunha, Daniela Carmona, Fernanda Nascimento, Franscisco de los Santos, João Pedro Madureira, Larissa Sanguiné, Laura Leão, Leo Maciel, Luiza Ollé, Rafael Kerber, Tássia Pfeifer, Tatiana Vinhais, Ticiana Bernardon, a Cia do Giro não deixa a desejar ao trazer aos palcos um clássico de Shakespeare. Mais do que isso, apresenta com perfeição todas as nuances do texto e consegue captar e transmitir sensações muito difíceis de serem transpostas da escrita para os palcos.



Caixa Cultural Rio de Janeiro

Teatro Nelson Rodrigues – Av. Chile, 230.

De 7 a 10 de maio (quinta a domingo), às 19:30.

Direção e Roteiro: Adriano Basegio e Daniela Carmona

Texto: William Shakespeare

Composição Musical: Adriano Basegio e Álvaro Rosacosta

1/5/2009

Sempre Vale a Pena

Cada vez que vou ao teatro me dou conta do infinito número de atores e atrizes que procura mostrar seu talento pelos palcos da cidade. São milhares de peças simultaneamente em cartaz no Rio de Janeiro, compostas por artistas que, na maior parte das vezes, ainda não conheço. Quero dizer que poucas vezes conheço o trabalho anterior desses artistas. O que não é mau… Para tudo há uma primeira vez, e o bom da primeira vez é que as comparações perdem espaço para a neutralidade, para a imparcialidade.

Sempre Vale a PenaEm cartaz até o dia 21 de maio de 2009, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, a peça Sempre Vale a Pena, dirigida por Márcio Vieira, produzida e escrita por Maria Fernanda Gurgel, conta com as atuações de Flávio Carriço, Carla Pompilio, Ângela Britto e Windemberg Melo, atores que ilustram muito bem o quadro que esbocei, do grande número de artistas de teatro que, por não contarem com um veículo de comunicação tão poderoso como a TV, têm menos facilidade em tornar seus nomes conhecidos. Mas com talento tudo se consegue, e hoje tive a agradável surpresa de conhecer quatro talentosos atores com um grande potencial, que souberam muito bem como trabalhar o texto a seu favor.

A peça é composta por cinco quadros independentes, ligados apenas pela temática, que diz respeito às relações humanas, sejam elas amorosas, sejam elas familiares, etc. Um desses quadros, que certamente merece destaque, relata os distúrbios da vida a dois, a difícil convivência de um casal perturbado por… roncos! Pode parecer bobo, mas a comicidade do esquete está justamente na simplicidade do tema. É como a série de filmes Pantera cor-de-rosa ou até mesmo Chaves, que consegue arrancar risadas das coisas mais ingênuas. Os atores se saem muito bem e colaboram com o texto, que pede atuações mais caricatas e divertidas, beirando o infantil, mas muito, muito longe do ridículo! Tão longe que nem sei o porquê de eu ter citado essa palavra.

Sempre Vale a PenaEvidenciando o que tem de melhor no texto de Maria Fernando Gurgel e neles mesmos, é fácil perceber que a veia cômica desses atores está pulsante, em pleno vapor. O destaque do segundo quadro fica também por conta do equilíbrio no tempo de duração. Nem curta e superficial, nem longa e cansativa. Simplesmente na conta. Tomando-o como modelo, os outros esquetes poderiam ser mais enxutos, o que não comprometeria o desenvolvimento das histórias e diminuiria a sensação de “não acaba nunca!!”, que por vezes invade nossos pensamentos.

O encarte da peça aponta quatro atores no elenco, mas, durante o espetáculo, surge um personagem, que interpreta um porteiro em um dos esquetes. Por algum motivo, o nome deste rapaz não aparece no folheto, provavelmente por erro de digitação, porque se ele é alguma espécie de auxiliar de palco ou um contra-regra que fez uma ponta, já está contratado para os próximos espetáculos!


Sempre vale a pena!

Texto e produção: Maria Fernanda Gurgel

Direção: Márcio Vieira

Cenografia: Derô Martins

Figurino: Jerry Fernando

Iluminação: Jorge Raibot

Teatro Ipanema

Rua Prudente de Morais, 824 CEP 22420-040

Telefone (021) 2523-9794

7/4/2009

Cidades Furtivas

O Centro LABAN-Rio e a Casa da Glória apresentaram nos dias 03 e 04 de abril de 2009 o Ateliê Coreográfico no espetáculo Cidades Furtivas, uma idealização de Regina Miranda, que conta com a direção da mesma e com a colaboração de Adriana Bonfatti, Ana Bevilaqua, Camila Fersi, Elisabete Reis, Lourival Prudêncio e Marina Salomon para a realização do projeto.

Através da construção de um diálogo entre a obra Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, e O Jardim das Delícias, de Bosch, a proposta de Regina Miranda é muito bem sucedida à medida que consegue criar um ambiente que integra o movimento, o caos, a desordem e a fragmentação próprios das grandes cidades, aos sentimentos humanos mais complexos e profundos, como a loucura, a volúpia e o desconcerto instaurados pelo ritmo acelerado da vida moderna.

O grande diferencial fica por conta da forma como essa associação de idéias é oferecida ao público. Espalhados estrategicamente pelo espaço da Casa da Glória, bailarinos/atores compõem cenas, por vezes solitários, por vezes em conjunto, que vão sendo observadas pelo público conforme sua caminhada. Ou seja, pelos cantos do jardim, pela área da piscina, num quintal mais reservado ou numa escadaria, os artistas são posicionados e cada um, solitariamente, ou cada grupo, independentemente do outro, representa seu papel. Bem como acontece na nossa vida. O individualismo crescente num mundo em que as pessoas cada vez mais se isolam é explorado de forma perturbadora. E não é só isso. O público, enquanto caminha, pode observar os gestos, as falas, os movimentos corporais e assim vai percebendo as angústias e os desejos de cada personagem, que afinal de contas, se complementam e se dissociam num piscar de olhos, fazendo dessas “miradas nômades”, como define Regina Miranda, uma estratégia de observação que propõe reflexões sobre situações corriqueiras e efêmeras, mas de grande intensidade. São como fragmentos complementares que aos poucos se unem no imaginário do público, formando infinitas possibilidades de interpretação, suscitando uma série de indagações sobre a vida, a sociedade e o mundo. Além disso, há ainda a possibilidade de poder eleger o ângulo sob o qual se vai observar uma cena, já que da janela do piso superior, do jardim ou das escadarias, é possível ver o que acontece na piscina, por exemplo. Essa possibilidade de não só observar o comportamento e os sofrimentos dos bailarinos/atores, mas também de escolher o ponto de vista, aponta claramente para a vigilância contínua a que estamos submetidos atualmente, para a falsa sensação de liberdade da qual desfrutamos.

Numa espécie de voyeurismo, acompanhamos a loucura desses personagens que exalam sensações arrepiantes, como é o caso de uma mulher, totalmente fora de si, que discute loucamente consigo mesmo sobre acontecimentos de sua vida. Entre falas e movimentos corporais perturbadores, essa personagem representa o que percebo como o último estágio da loucura e do descentramento que a sociedade moderna pode provocar numa pessoa. Apesar da distância física que separa os bailarinos, seus movimentos e falas se encontram no espaço, causando uma caótica polifonia que destaca a desordem que nos rodeia diariamente.

Uma experiência muito inspiradora e reflexiva, ainda mais quando embalada por composições musicais que se integram harmonicamente ao que é oferecido, numa sintonia sem igual, que faz da trilha sonora não só um complemento, mas uma peça essencial do trabalho.

Como o folder do espetáculo omite a informação, perguntei sobre a origem das músicas que ouvia, de modo que vale a pena informar que a trilha sonora é constituída por composições de outros projetos de Regina Miranda, que foram compiladas e incorporadas perfeitamente ao espetáculo.

5/4/2009

O filho da mãe

Uma peça que trata do relacionamento entre uma mãe divorciada e seu filho, que aborda a influência da figura materna no processo de transição da adolescência para a fase adulta, pode enveredar por vários caminhos, isto é certo. Mas se o gênero eleito para a representação for a comédia, o cuidado deve ser redobrado.

Em cartaz até o dia 31 de maio de 2009, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, estará a peça O filho da mãe, com direção do estreante João Camargo, texto e interpretação de Regina Antonini e Pedro Nercessian.

O que pode ser rapidamente notado é que a peça, que promete “radiografar a universalidade da relação entre mãe e filho, desde seus aspectos cômicos aos mais poéticos”, se desvia num piscar de olhos desse objetivo e dá início a outro projeto que poderia ser identificado como um quadro do Zorra Total.

O lugar-comum é o grande astro da peça. Onipresente, se encaixa em todas as falas, em todos os momentos. Do relacionamento entre mãe e filho são destacados todos os episódios mais clichês que poderiam existir, como a preocupação da mãe com a sexualidade do garoto, a insatisfação com o recente casamento do ex-marido com uma mulher mais jovem, o zelo excessivo com o filho adolescente e a preocupação com a solidão e com a velhice que inevitavelmente cruzará o caminho da mãe divorciada.

O pior, no entanto, não é nem é o lugar-comum, mas o tratamento que este recebe. Humor fino, comédia inteligente, sacadas geniais com referências que enriquecem o texto: infelizmente, não é isso o que acontece! O oposto disso tudo é o que recebemos. Em quase duas horas de peça, uma comédia super ordinária tomou conta de um tema que poderia render um espetáculo. Piadas baratas e batidas, como aquela desgastada comparação entre uma saia curta e um cinto, além de piadas prontas, das mais óbvias, como uma avó, referida como “Vó Gina”, tentaram impor à peça o tal tom cômico, que para mim nunca chegou.

Em alguns momentos, interrompendo bruscamente essa seqüência de piadas rasteiras, vem a tentativa de nos empurrar goela abaixo uma seriedade e um tom sentimental embalados por música suave, luz baixa e a intragável metamorfose da mãe, de Lady Kate a Ernst Fischer, iniciando uma frase com algo do tipo “a função da arte…”. Pausa para o café!!! Preciso de alguns segundos para processar a cena… Mas não tenho tempo, porque o clima supostamente sentimental e sério da cena é interrompido pelo resgate da voz esganiçada da personagem da mãe e seu empenho contínuo em transformar absolutamente tudo em piada barata. A superficialidade e a inconsistência, que são o ponto de partida e de chegada do texto, são perseguidas arduamente e alcançadas sempre com sucesso.

O saldo é que a peça não consegue se enquadrar nem no cômico, nem no poético. Muito menos nos dois. Mas consegue um lugar muito privilegiado no limbo, ao lado de outras “comédias” do tipo que, convenhamos, existem e se proliferam às pencas! E que têm seu público, disso ninguém duvida.

Meus aplausos, ao final da peça, são integralmente direcionados a Paulo Severo, responsável pela direção musical, que agraciou meus ouvidos com uma trilha muito boa, principalmente por conta daquela espécie de surf music tocada nos intervalos entre uma cena e outra.

15/3/2009

Maria Stuart

Texto de Friedrich Schiller, tradução de Manuel Bandeira e direção de Antonio Gilberto, a peça Maria Stuart fica em cartaz no teatro do CCBB do Rio de Janeiro até 17 de maio de 2009. Com Clarice Niskier como Rainha Elizabeth I e Julia Lemmertz como Maria Stuart, a montagem inspirada no drama de Schiller, explora o embate dramático entre as duas rainhas, denuncia a corrupção moral e ressalta os valores de uma época. Finalizada em 1800, a peça, que tem como substrato a rivalidade entre a igreja católica e o protestantismo, traz à tona a forte ligação entre Estado e Igreja, as relações de poder aí inseridas e os conflitos provocados pela sede de poder.

Durante os 15 minutos de intervalo (o espetáculo tem 3 horas de duração), inevitavelmente, pude ouvir muitas opiniões ao meu redor. Houve quem questionasse o figurino. Houve quem dissesse “xii, tá tudo errado”. Houve ainda quem pensasse que o texto perdia muito com a linguagem rebuscada.

Partindo dessas opiniões, com as quais discordo, gostaria de dizer que, em primeiro lugar, é fundamental estar ciente de que o texto de Schiller é a criação de um drama baseado na relação conflituosa entre duas rainhas regentes. A tradução para o português por Manuel Bandeira, apesar de se tratar de uma tradução, já modifica o texto original: alguma marca, mínima que seja, do tradutor fica impressa no texto, principalmente em relação à escolha das palavras, uma ação muito pessoal, que certamente insere a tradução no estatuto da semelhança e não do idêntico.

Quaisquer montagens feitas a partir da tradução de Manuel Bandeira são, portanto, a interpretação da tradução da criação de Schiller, que, aliás, não deve fidelidade nenhuma à história verdadeira de Elizabeth I e Maria Stuart.

Pergunto-me, portanto, o que poderia estar errado. Existe certo ou errado na arte?

Em segundo lugar, a proposta da montagem deve ser observada. A produção propunha uma releitura diferente, inovadora, pós-moderna ou uma montagem nos moldes clássicos, considerando-se, portanto, os trajes, a linguagem e os valores da época? A Maria Stuart que pude assistir optou pelo clássico. Contudo, há de se convir que uma interpretação abra brechas para algumas modificações, que não necessariamente afastarão a peça de sua proposta inicial.

Refiro-me, aqui, ao figurino. Elizabeth I, de calças e sobretudo vermelhos de veludo, vestindo botas de couro. Como um homem, tanto no vestuário quanto nas ações e movimentos, a rainha da Inglaterra, austera e insensível, busca afirmar sua força evidenciando sua face masculina a fim de se impor num ambiente preenchido por homens. Bem colocado. O veludo utilizado ressalta a distinção social da corte de Elizabeth I, a que se destinava o consumo luxuoso.

Do outro lado, Maria Stuart, rainha da escócia. Mais jovem e movida por emoções, a rainha católica exala os encantos da mocidade através de seus discursos carregados de ideais ligados à liberdade e ao amor, e de seus gestos, mais exaltados e expansivos. Seus trajes, também masculinizados, mas simples e em tonalidades de cinza, simbolizam a condição de prisioneira a que está sujeita e a tristeza que invade seu espírito.

O figurino do restante dos personagens, bem como o das rainhas, dispensou pedrarias, ouros e outros materiais preciosos. São trajes simples, cujo tipo de tecido e sua cor foram os únicos responsáveis pela sistematização da hierarquia monárquica e do poder atribuído a cada personagem. Simples como o figurino, é o cenário. Uma cortina preta ao fundo faz contraste com os objetos de cena: uma caixa de madeira, que é um baú real; uma cadeira de traços retos, que é um trono; e uma bancada, que é ora uma mesa, ora uma montanha, ora um patamar. Os adornos ficam por conta da nossa imaginação. Pode ser bom, pode ser ruim. Depende do ponto de vista. Na minha opinião, funcionou, uma vez que a simplicidade que imperou no cenário e no figurino procurou destacar as atuações, as falas, o texto.

Quanto à linguagem rebuscada, bem, trata-se de um texto clássico, traduzido por alguém comprometido em manter a linguagem clássica, levado à cena por alguém que propõe a montagem clássica da peça. Não vejo de que forma a substituição de palavras, de tempos verbais e de pronomes de tratamento por uma linguagem mais “fácil” poderia contribuir em alguma coisa, senão para transformar o texto em algo parecido com Os Lusíadas em prosa para crianças. Que, aliás, existe.

Das atuações, é preciso destacar Mario Borges como Barão de Burleigh, que tem uma das melhores vozes que já ouvi para o teatro; as rainhas, Julia e Clarice, pela gestualidade expansiva da primeira e pela dureza inglesa da outra, características opostas que sinalizam a morte física de uma e a morte emocional da outra; e a dupla Ednei Giovenazzi e Amelia Bittencourt, o mordomo e a ama de Maria Stuart, que oferecem consolo e serenidade à rainha católica frente à inevitável morte.

Maria Stuart
Direção de Antonio Gilberto
CCBB – Rua Primeiro de Março, 66.
Em cartaz de quarta a domingo, até 17 de maio.

14/3/2009

Óidipous, filho de Laios – A história de Édipo Rei pelo avesso

Muitas vezes, um texto insosso vira um espetáculo quando encenado. Outras vezes, o contrário acontece.

Quem não conhece a história do Rei Édipo, por exemplo? Não digo que seja popular, mas uma vez ou outra na vida alguém já fez referência ao complexo de Édipo, seja na faculdade, seja na mesa do bar. Afinal, trata-se de uma história intrigante, que inspira reflexões sobre a natureza e as relações humanas. Dentre as sensações despertadas por esse texto figuram a ojeriza, decorrente da possibilidade de relacionamento sexual entre pai e filho; a identificação por parte de alguns, nunca se sabe; mas, principalmente, a sensação de que não se pode controlar tudo nessa vida. Basta o menor dos imprevistos para que o controle que o homem pensa ter sobre si vá por água abaixo.

Quais as chances de um texto como esse, Édipo Rei, de Sófocles, se transformar em algo aquém do esperado quando encenado? Recriado como Óidipous, filho de Laios, em cartaz no SESC Copacabana (RJ) até 05 de abril de 2009, o que pude sentir foi um grande vazio de sensações.

A releitura de Édipo Rei proposta por Antonio Quinet, responsável também pela direção da peça, tropeçou em algumas montanhas. Que a história estava lá, ninguém pode negar. Entre um clichê proferido sem emoção – “você é a causa de seus próprios males” – e um provérbio digno do Rei Leão – “uma vez desvelada, a verdade não pode ser negada”-, percebemos um jogo corporal bonito até, como uma dança dramática, numa atmosfera enigmática, mas que, sinceramente, nada contribuiu para o andamento da peça. Faltou, principalmente, harmonia. Não só entre os atores, mas também entre as cenas. Os cortes eram abruptos demais. Como se tocasse uma sineta que anunciasse a hora do recreio, os corpos se contorciam, dançavam, rastejavam. De repente, nova sineta! Surge um telão ao fundo do palco, super iluminado… Adeus, mistério! Agora vemos uma mãe amamentando um bebê. Entendo a idéia que se quis passar: a amamentação é uma intimidade entre mãe e filho, que gera uma ligação forte entre os dois. Tem a ver, mas além de não acrescentar nem informações e nem um diferencial à peça, cortou totalmente o clima criado anteriormente. Em muitos casos, uma idéia é ótima como idéia apenas.

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Talvez se quisesse criar uma releitura modernizada, como uma instalação transposta ao teatro, e o Édipo tenha sido apenas um pretexto para isso. Entendo que a atualidade de uma peça não está na época a que ela se refere, e sim na forma como é contada, mas acredito que a forma utilizada não contribuiu muito para esse fim, se é que houve essa intenção. O que me faz pensar se a peça tinha, de modo geral, alguma intenção. Entreter, inovar, emocionar…?

Os atores despiram-se de todas as emoções em casa. Chegaram ao palco inexpressivos, sem conseguir transmitir as angústias, o sofrimento, a dor que diziam sentir. O texto, muitas vezes floreado, tornava difícil a atribuição de sentido ao que estava sendo dito. Isso pode ter colaborado para a falta de emoção. Talvez nem os próprios atores tenham compreendido o que diziam, apenas decoraram a fala.

Enfim, uns batuques daqui, umas falas de lá, uma Jocasta ao chão tentando se lamuriar.

Fazer rimas não é difícil. O desafio é transformá-las em poesia.

Óidipous, filho de Laios – A história de Édipo Rei pelo avesso.
Transcriação do texto e direção de Antonio Quinet.
Realização da Cia. Inconsciente em Cena .
Espaço Sesc – R. Domingos Ferreira, 160 – Mezanino.
De 13 de março a 05 de abril de 2009.

13/3/2009

O Santo e a Porca

Que a cultura brasileira é bastante diversificada, todos sabemos. São costumes da região sul que diferem dos da região nordeste. Tradições nortistas pouco conhecidas no sudeste. E por aí vai… Mas o que há de comum a todas essas regiões culturais do Brasil é a língua. Todos falamos português e conseguimos nos entender muito bem!

Aí entra, então, a aplicação dessa língua. São vários os tipos de linguagem e inúmeros os meios de comunicação. Assim, o norte se aproxima do sul, o sudeste do nordeste e do centro-oeste. Mesmo sem nunca ter estado no sertão nordestino, conheço o clima, as dificuldades, as pessoas, os costumes. Graças aos jornais, à literatura, ao teatro, ao cinema, já estive lá sem nunca ter saído de casa.

O Santo e a PorcaOntem mesmo estive no sertão. Conheci pessoas muito espirituosas, um senhor avarento e um rapaz tortinho que me fez rir demais! Contaram-me uma história que eu já conhecia, mas só no papel. Pois a tiraram do papel e encenaram tudo, deram vida ao que eu já tinha lido e o fizeram de forma primorosa!

Quem quiser ver ou rever essa história não precisa ir até o nordeste. Bastar virar a esquina e entrar no Teatro Villa-Lobos, em Copacabana (RJ). Lá estarão Élcio Romar, Gláucia Rodrigues, Armando Babaioff, Marcio Ricciardi, Nilvan Santos, Duaia Assumpção e Janaína Prado, todos prontos para recebê-los com O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna, dirigido por João Fonseca.

Ahhhh… Mas o texto já estava pronto! E um texto do Suassuna não tem como ficar ruim. Ahhhh, tem sim! Tem gente que consegue estragar até pizza!

Mas não foi o caso. A peça foi um espetáculo! Não sou de dar risadas gratuitamente. Acho que as pessoas (eu!!!) têm o péssimo hábito de associar o gênero comédia a peças que discutem relações conjugais e outros assuntos cotidianos usando gírias e expressões moderninhas, fazendo apelos sexuais excessivos, essas coisas. Deve ser por causa do grande número de peças que usa esses recursos, achando que assim ficarão engraçadas. Fiquei traumatizada. Mas a peça As centenárias veio amenizar meus problemas. Peça que, vale lembrar, também aborda essas tradições nordestinas. E agora, com O Santo e a Porca, sinto estar curada.

O jeito de falar dos personagens, o clima nordestino no cenário, na música, no figurino, tudo isso partindo de um texto bem escrito por um dos maiores dramaturgos brasileiros, tudo bem pensado, dirigido e encenado. Isso faz a gente pensar que a cultura popular nordestina, quando bem trabalhada, dá muito pano pra manga. E não é qualquer pano, não… É tafetá, linho, seda!

O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna.
Direção de João Fonseca.
Realização Limite 151 Cia. Artística.
Reestréia no Teatro Villa-Lobos – Av. Princesa Isabel, 440.

14/2/2009

Meu Caro Amigo

Não é preciso estar morto para ser homenageado.

Partindo deste princípio, Felipe Barenco, responsável pelo texto do musical Meu Caro Amigo e, diga-se de passagem, estreante na profissão (e muito talentoso), presenteia o público do Rio de Janeiro com um clima nostálgico e emocionante que pode ser sentido até por objetos inanimados.

Amantes ou não de Chico, isso é totalmente irrelevante, o público sente-se acarinhado pela voz aveludada de Kelzy Ecard, que interpreta Norma Aparecida, uma professora de história fanática por Chico Buarque.

Falando assim, parece uma pecinha super clichê! Quantas mulheres não são loucas pelo Chico? Pelo menos foi o que pensei quando li o texto de apresentação da peça, na revista programa. Não me pareceu ser nenhuma novidade.

Talvez o jornalista não tenha sido tão efusivo quanto eu gostaria, talvez tenha poupado demais nas palavras, talvez não tenha assistido à peça, ou talvez a sinopse seja essa mesmo e eu é que estou fantasiando, querendo achar que a peça é muito mais que isso.

Meu Caro Amigo - fotografia de Juliana P. Fontes © AguarrásBom, tem a Norma e tem o Chico. Ela é fã dele. Enquanto Norma conta sua história, Chico canta a história dela. Talvez seja a “cumplicidade”, numa via de mão única, já que o compositor nem sabe quem é Norma, talvez seja o modo como cada música do compositor se encaixa perfeitamente, tanto na vida pessoal da personagem, como no momento político em que se encontra o país. Ou talvez seja apenas o fato de o texto ter sido muito bem escrito, bem amarrado e bem encenado, e as músicas bem selecionadas e bem interpretadas.

Meu deu até vontade de reler livros sobre a história do Brasil. Admito lembrar mais da Era Vargas. E a Era Chico começa depois disso. Que história boa! A do Brasil, a do Chico e a da Norma também.

Esse é o segredo! São três boas histórias, juntas. A da Norma, que viveu na ditadura, tinha um pai repressor com quem ficou sem falar, participou de movimentos estudantis e era apaixonada pelo Chico. A do Brasil, que sofreu grandes transformações ao longo das últimas décadas, se livrou da ditadura, adotou eleições diretas. E a do Chico, que entre uma música e outra, foi preso, exilado, que participou, ainda que inconscientemente, da vida dos milhares de Normas do Brasil e, conscientemente, da história política do país.

Uma atuação emocionante de Kelzy Ecard, que tem uma voz e tanto; um pianista – João Bittencourt – de primeira; músicas muito bem selecionadas (o que deve ser tarefa difícil, já que a maioria das composições de Chico são boas), enfim, um deleite!

O que me faz pensar naquela velha desculpa de que não se vai ao teatro porque o ingresso é caro. Conversa pra boi dormir. Pelo valor camarada de 15 reais (estudante paga meia), é possível assistir a essa peça tão boa! Cara-de-pau é o vizinho, que tem um Honda Civic na garagem, que diz que não vai ao teatro porque a entrada é um absurdo… A verdade é que o espaço cultural anda bem democrático mesmo. São centenas de peças em cartaz, muitos eventos gratuitos pela cidade, exposições… É só escolher bem. Meu Caro Amigo é garantia de bom programa.

Texto: Felipe Barenco
Direção: Joana Lebreiro
Atuação: Kelzy Ecard
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Piano: João Bittencourt
Centro Cultural Correios
Rua Visconde de Itaboraí, 20.
De 5ª a domingo, até 5 de abril.

14/1/2009

Cabaret Melinda

As terças-feiras do mês de janeiro poderão ser mais divertidas para aqueles que comparecerem ao Canequinho Café, em Botafogo, espaço tipo cool anexo ao Canecão, que abriga em seu palco o musical Cabaret Melinda. Após elogiada temporada em 2008, o espetáculo dirigido e adaptado pela Azilíaca Cia. de Arte reestreou ontem, 13 de janeiro de 2009, e garantiu uma noite diferente e animada para o público carioca.

A atmosfera cabaretzística, maravilhosamente captada nas atuações de Adriana Nogueira, Alice Borges Anna Claudiah Vidall, Charles Fernandes, Claudia Mauro, Édi Botelho, Edio Nunes, Marcos Acher, Marília Viegas, Najla Raja e Sandra Pêra; nos figurinos de Cláudio Tovar; na iluminação de Aurélio de Simoni e na trilha musical de Cláudio Lins, deixa claro que o teatro brasileiro está muito bem servido de profissionais comprometidos com as artes.

Através de uma mistura de performances circenses, muita dança, músicas espirituosas e textos divertidos, o espetáculo propõe uma viagem ao interior do corpo de Melinda, cantora de cabaret, que é consumida por seus vícios, caprichos e desejos sexuais. Quem conta sua saga são seus órgãos e suas sensações – cordas vocais, fígado, imaginação e etc.

Sempre me questionei sobre o preparo de nossos artistas, se comparados aos norte-americanos, por exemplo, que cantam, dançam, atuam, se contorcem, enfim, são totalmente preparados para fazer qualquer coisa e muito bem. Assistindo ao musical Cabaret Melinda, meus questionamentos vão tirar uma folga. É claro que não havia nenhuma Celine Dion cantando, muito menos o Cirque du Soleil se apresentando, até porque não era isso que o espetáculo pedia, mas existia uma harmonia fantástica entre os atores. Um jogo de vozes tornava as músicas, cujas letras são divertidíssimas, mais divertidas ainda; os corpos se movimentavam em sintonia, enfim, tudo se encaixou muito bem, resultando num musical muito bem produzido cujo principal objetivo é mesmo divertir.

CABARET MELINDA
Canequinho Café (Av. Venceslau Brás, 215 -Botafogo)
13, 20 e 17 de janeiro, às 22 horas.
Texto original: Claudia Mauro
Adaptação e direção: Azilíaca Cia. de Arte

27/10/2008

Do jeito delas

De um livro intitulado Do jeito delas – vozes femininas de língua inglesa espera-se uma escrita sensível, delicada, recheada de emoção. E assim são as poesias selecionadas por Márcia Cavendish, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, com tradução de Jorge Wanderley. São poesias de poetas mais que consagradas, como Elizabeth Bishop, Emily Dickinson e Sylvia Plath, entre outras. Com exceção de Dickinson, trata-se de uma seleção de poetas de língua inglesa do século XX representantes da moderna poesia do país.

Na escrita dessas mulheres, o amor é descrito através dos sentidos, mas nada tão subjetivo quanto se possa imaginar. A seleção de palavras aliada a um certo objetivismo diante de temas tão subjetivos resulta em poesias enxutas, mas cheia de significados, reflexões profundas e emoções. Como se cada palavra representasse um milhão, imagens se formam e sensações diversas vão sendo evocadas. Divagações sobre vida e morte, percepções delicadas, mas profundas da natureza e seus fenômenos – frutas, animais, paisagens, sol, chuva -, enfim, tudo que envolve os mistérios e as experiências da vida e da morte recheiam 65 páginas desse livro anestesiante, publicado pela 7 Letras.

Através da escrita poética em que logo se nota a natureza feminina do discurso, as doze poetas reunidas nesse livro vão trilhando seus caminhos no amor, solidão e incertezas. Com qualidades e características diferentes, essas vozes encontram-se no desejo de expressar dúvidas e medos relativos à condição feminina, sempre com muita intensidade.

O que é marcante na escrita dessas mulheres é a linha que norteia as poesias selecionadas, regidas pela exploração dos sentidos táteis e visuais: é o olhar que evoca prazer, o toque que provoca asco, as imagens naturais refrescantes, os sabores delirantes das frutas. As sensações e a natureza se misturam, oferecendo sentido à vida e à morte, apontando muitas vezes para a efemeridade da vida e a importância do viver pleno através das sensações: “aquele que atinge a mortalidade / e em sua prisão se eleva / sobre si mesmo como o mar em despenhadeiro, lutando para ser / livre e incapaz de sê-lo, / e encontra em sua rendição / sua continuidade. (“Que são os anos?” – Marianne Moore)

Em resumo, contaria assim o livro: “Duas meninas descobrem / o segredo da vida / numa linha súbita / de poesia” (“O Segredo” – Denise Levertov).

Do jeito delas – vozes femininas de língua inglesa
Editora 7 Letras, 2008
113 páginas

21/9/2008

19 recantos e outros poemas

Tenho notado que as edições da 7Letras vêm se mostrando muito especiais, em vários sentidos. Primeiro pela seleção de poetas, depois, e quando é o caso, pela excelência dos organizadores que selecionam e organizam algumas edições, finalmente pelo trabalho de edição e produção gráfica que, como sabemos, é importantíssima não só para os designers que as criam, mas também para os leitores que são beneficiados de inúmeras maneiras, ainda que muitos não se dêem conta disso ou não reconheçam o valor dos designers gráficos para a produção de um livro de qualidade.

O livro a que me refiro no momento é 19 recantos e outros poemas, de Luiza Neto Jorge, cuja organização é de Jorge Fernandes da Silveira e Maurício Matos. O primeiro, admiradíssimo e muito querido no mundo acadêmico, é pesquisador, professor e já escreveu alguns livros de ensaios e seleções de poesias, dentre eles Cesário Verde: todos os poemas, de 1995, publicado pela 7Letras. O segundo, também com formação em Literatura Portuguesa, tem várias publicações, dentre elas Mensagem, de Fernando Pessoa, que contou com organização em parceria com Cleonice Berardinelli, que dispensa apresentações.

Os Dezanove Recantos é publicado inicialmente em Lisboa, em 1969. A obra é a “mediação extraordinária numa poesia de acontecimentos, de situações tensas entre o sujeito e as suas circunstâncias”, como afirma Jorge Fernandes da Silveira no capítulo nomeado “Implicâncias: Luiza, duas ou três coisas à minha maneira” e acho que eu não seria capaz de pensar numa definição melhor que essa. E os versos confirmam essa definição:

Eu e ele somos a espaços

improváveis veículos (eu e vós)

mestres voadores

reptantes redemoinho meu ressaca viva oculto vinho

oculto amor

(“recanto 18″ – exerto)

Os outros poemas, além dos 19 recantos, seguem uma ordem cronológica de acordo com a publicação, conforme exposto nas páginas intituladas “Origem dos poemas”. Nessa sessão conhecemos todos os títulos dos livros dos quais foram extraídos os poemas que compõe essa seleção, desde A Noite Vertebrada, de 1960, do qual se lê “Subitamente vamos pela rua”, até “Acordar na Rua do Mundo”, parte de A Lume, livro póstumo de 1989.

A edição oferece também uma biobibliografia da poeta, feita por Gastão Cruz, poeta português do grupo de Poesia 61, sobre o qual Jorge Fernandes da Silveira, um dos organizadores do livro, já desenvolveu uma pesquisa, que na verdade foi sua tese de doutorado, mas que posteriormente assumiu formato de livro. Trata-se, aliás, de uma excelente fonte de pesquisa sobre Poesia 61. E Poesia 61, vale lembrar, foi uma obra marcante para a literatura portuguesa contemporânea, composta por cinco livros, mas que formam uma unidade: Morfismos, de Fiama Hasse Pais Brandão, A morte percutiva, de Gastão Cruz, Quarta dimensão, de Luiza Neto Jorge, Tatuagem, de Maria Teresa Horta e Canto adolescente, de Casimiro de Brito.

A biobibliografia, no entanto, sendo lida após a leitura dos poemas, não é muito surpreendente na medida em que Luiza Neto Jorge deixa muitas pistas sobre si em sua escrita. São vestígios de particularidades de sua vida, de momentos históricos que vivenciou, alusões à sua doença respiratória, que, aliás, acaba por levá-la a falecer em fevereiro de 1989, entre outras coisas que nos fazem sentir bem íntimos da escritora. Os poemas “Anos quarenta, os meus” e “Minibiografia” são bastante representativos do que quero dizer.

Para aqueles que não conhecem Luiza Neto Jorge e sua obra, essa seleção é a melhor forma de fazer o primeiro contato com a escritora, por conta da seleção minuciosa dos poemas, bem como dos capítulos complementares que refletem sobre cada um deles.

7/9/2008

Contando Machado de Assis

O título já diz: “contando”. Sou muito suspeita para falar de contação de histórias porque guardo péssimas lembranças dessa modalidade narrativa. Contação de história para crianças, por exemplo, normalmente é feita de forma bem afetada, até mesmo pra chamar a atenção dos pequenos ouvintes, que se desconcentram por qualquer motivo. Toda a afetação me tira do sério… E aposto como o contador fica tão preocupado em fazer caras e caretas e modalizar a voz que nem presta atenção no que está falando. Por outro lado, descartando-se essa maneira efusiva de se contar a história, podemos cair na monotonia. Um perigo também.

Estou refletindo sobre isso para mostrar como é difícil encontrar o equilíbrio para contar histórias. Entre a irritação e o sono deve existir um lugar agradável que depende muito da qualidade da história contada e do talento de quem a conta.

Com isso quero chegar na peça Contando Machado de Assis, em cartaz até o dia 28 de setembro na Caixa Cultural (Rua Almirante Barroso, 25 – Centro/RJ). Quem dirige é Antonio Gilberto e quem interpreta é José Mauro Brant. O roteiro é da dupla.

A peça traz ao palco o badalado conto “Missa do Galo” e também “Mariana”. O autor José Mauro Brant interpreta o narrador dos contos. É como uma leitura em voz alta feita por um leitor que profundamente conhece os trejeitos e o comportamento dos personagens. É como um leitor que já leu exaustivamente a obra machadiana e agora conta para nós.

O autor é ótimo, muito seguro do que está fazendo, tem uma firmeza na voz, bem típica de quem tem talento para teatro. Os contos de Machado idem. Indiscutivelmente, são de qualidade. As sutilezas, as ironias, a trama que diz um monte de coisas como quem não quer dizer nada. Perfeito! Mas aí entra a tal da contação de histórias. Nem sei o que dizer, porque o trabalho do artista é tão difícil. Ali no palco, dando a cara a tapas. É uma exposição danada!

Por mais que o ator e os contos fossem excelentes, a contação acaba pesando e puxando as pestanas para baixo. Algumas pessoas cochilaram, algumas se viravam de um lado pro outro e cruzavam e descruzavam as pernas, talvez para espantar o sono… Uma senhora ficou 10 minutos fazendo barulho de papel de bala. Bala velha e grudenta ou uma forma de manter a colega ao lado de olhos abertos? Nunca saberemos…

Enfim, o que quero dizer é que se o ator fosse ruim e os contos mal selecionados, o espetáculo teria sido 100% soneca da tarde. Mas eu juro que não dormi!

Estréia: 05 de setembro (6ª f), às 19h30
Local: Caixa Cultural / Teatro de Arena – Av. Almirante Barroso, 25 – Centro

Horários: 4ª a domingo, às 19h30
Duração: 1h
Ingressos: R$15,00 e R$7,50
Classificação Etária: 10 anos
Temporada: até 28 de setembro na Caixa Cultural
Nova temporada no Centro Cultural da Justiça Federal: de 17/10 a 30/11

29/7/2008

As centenárias

Humor de qualidade! Essa é uma das formas como posso definir a peça “As centenárias”, representada pelas simpaticíssimas e maravilhosas Andréa Beltrão e Marieta Severo, com direção de Aderbal Freire-Filho. O texto, de Newton Moreno, escrito especialmente para a dupla, além de muito bem bolado é mesmo uma celebração da amizade que as duas mantêm desde finais dos anos 80.

Marieta e Andréa são Socorro e Zaninha, duas carpideiras que levam a vida a prantear os mortos e a contar histórias no interior do nordeste. Amigas de longa data, as mulheres, entre histórias e cantorias (as “incelenças”, cantos fúnebres das carpideiras), acabam por enganar a Morte, representada por Sávio Moll, adiando o inevitável.

A peça conta com uma narrativa não-linear, que volta ao passado e retorna ao presente constantemente. Mas tudo acontece de forma muito clara, de modo que é possível compreender o jogo temporal bastando o mínimo de atenção. Diferentemente do cinema, que conta com mil recursos para marcar o tempo, o teatro depende de pequenos detalhes, como, por exemplo, a suave tremedeira de Andréa Beltrão, que em determinados momentos marca a velhice da personagem em contraponto com a não-tremedeira, que aponta para uma idade menos avançada, quando a personagem acaba de dar à luz um menino.

O cenário é como um picadeiro de circo, tendo como peça central um caixão. As atrizes, além de interpretarem as carpideiras, utilizam-se de marionetes, ou seja, por vezes Marieta interpreta paralelamente Lampião e Socorro, através de um fantoche com a cara da personagem. Diz o diretor: “O duelo com a morte é um clássico da cultura popular, muitas vezes cantado na literatura de cordel. Daí até as feiras é um passo. E das feiras ao circo. Fazendo esse percurso naturalmente entramos na tradição popular da paródia, da bufonaria, do palhaço. Enfim, do riso que não se intimida mesmo com a morte”.

Assistir Marieta Severo e Andréa Beltrão no teatro foi umas das melhores experiências que já tive. Acostumadas a vê-las apenas em novelas ou no cinema, nunca tive acesso ao verdadeiro potencial das duas. E como se dão bem no palco… Incrível! Além de atuações fantásticas, cantam bem! Afinadíssimas! E o sotaque de nordestina da Andréa Beltrão é de fazer até defunto rir. É o tipo de atuação que não precisa de piada para ser engraçada. As duas, caladas, paradas, no meio do picadeiro já são uma comédia.

Tudo contribui para o sucesso do espetáculo. As atuações, o cenário, o figurino e até mesmo a disposição das cadeiras do teatro. É como uma semi-arena, o que faz com que todos os lugares sejam bons! Isso é um ponto essencial para quem assiste. A menos que se sente um armário ou um poste na cadeira da frente, tudo é muito confortável. A sensação é de que se está em casa, assistindo a duas amigas brincando de teatro, tamanha é a naturalidade da dupla.

A peça está em cartaz no Teatro Poeira, espaço das sócias Marieta Severo e Andréa Beltrão, inaugurado há três anos num casarão tombado, na Rua São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. No site do teatro (www.teatropoeira.com.br) é possível acompanhar toda a história da casa de espetáculos, desde a idéia de ter um espaço reservado para as artes, passando pelas obras que o casarão sofreu, até as peças que já passaram por lá.

“As centenárias”
Com Marieta Severo, Andréa Beltrão e Sávio Moll
Direção: Aderbal Freire-Filho
Horários: sextas e sábados às 21 horas e domingos às 20 horas
Duração: 1h30
Local: Teatro Poeira
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Tel: 21 2537-8053

30/6/2008

Mensagem de Fernando Pessoa

Tenho em mãos a obra Mensagem, de Fernando Pessoa, publicada pela 7Letras agora em 2008. Não se trata de uma edição qualquer, mas sim daquela organizada por Cleonice Berardinelli e Maurício Matos designada: a “edição preparada segundo o exemplar de 1934 corrigido pelo punho do poeta”. Eis a justificativa: “optamos por respeitar a vontade de Pessoa, claramente expressa em diversos textos reunidos no seu Espólio sob a designação Lingüística e publicados no fim do século passado”.

Edição de Mensagem organizada por Cleonice Berardinelli e Maurício MatosO grande diferencial dessa edição, além do rigor de Cleonice, a maior especialista em Fernando Pessoa que eu conheço, são os capítulos “Apresentação”, “À guisa de aparato genérico – Mensagem, poemas in fieri” e “Caderno de Imagens”.

No primeiro, além de comentar o porquê das mudanças sofridas pelo titulo do livro – antes de Mensagem se chamaria Portugal -, Cleonice explica as três partes que compõe a obra – “Brasão”, “Mar Portuguez” e “O Encoberto” – e, em seguida, oferece uma leitura de cada subdivisão que compõe as partes. Uma aula e tanto!

No capítulo seguinte – e quem já assistiu às aulas da professora (ou a apresentações em encontros ou simpósios) sabe bem do que falo – Cleonice mergulha em divagações sobre Pessoa e sua obra, comentando textos já escritos por ela e por ilustres amigos, entre eles Jacinto Prado Coelho, e conta das conversas e das cartas, e de como foi presenteada com uma cópia do primeiro exemplar de Mensagem pertencente a Pessoa, e como tudo se passou nas décadas de 60, 70, 80, 90, entre estudos, pesquisas e amizades. Conhecemos um pouco mais de Pessoa e um pouco mais de Cleonice, que tem sempre histórias maravilhosas e enriquecedoras para compartilhar.

No “Caderno de Imagens”, temos a oportunidade de ver impressões de poemas com correções do punho de Fernando Pessoa, manuscritos que fazem parte de seu espólio, além de fotos, entre elas a última foto do poeta. Para aqueles que dizem só ler livros com figuras, é uma ótima pedida!

Puxa-saquismos à parte, diria que essa é uma das edições mais completas e bem preparadas que já vi (e que agora tenho!) feita com muita dedicação e cuidado. Desde as folhas de tom amarelado, que tornam a leitura mais agradável aos olhos, até a reunião do material que compõe a edição, é fácil perceber que tudo foi realizado com muito gosto e extrema satisfação. Além de todo esse trabalho de pesquisa, nos deleitamos, obviamente, com os poemas da obra. Há quem goste, há quem desgoste. Eu sou da primeira turma!

20/6/2008

O que eu gostaria de dizer

Fui ao ensaio aberto do espetáculo “O que eu gostaria de dizer”, dirigido por Márcio Abreu e com Luis Melo, Bianca Ramoneda e Márcio Vito no elenco. Por se tratar de um ensaio, poderia haver interrupções por qualquer motivo, principalmente para a adaptação dos movimentos dos atores num espaço diferente, como é o caso do Sesc Arena, em Copacabana.

Contudo, não houve interrupções, de modo que a peça fluiu normalmente, com o cenário, acredito eu, pronto, assim como o figurino, sonoplastia e iluminação. Tudo, aparentemente, correu como num dia normal de apresentação. Bom para os atores, melhor pra mim e para os demais expectadores, que não eram muitos, mas considerando-se a ocasião, era de bom tamanho.

Vamos ao cenário: três ambientes delimitados por armações de metal, sendo um deles a sala de estar do personagem 1, representado pelo ator Luis Melo; e os outros dois espaços, cômodos do apartamento de um casal de vizinhos, representado por Bianca Ramoneda e Márcio Vito.

A peça: Como pontapé inicial, vemos o personagem de Luis Melo, que vale ressaltar está super diferente fisicamente: parece ter engordado alguns quilos para fazer o papel, além de ter deixado a barba crescer. Irreconhecível! Voltando ao pontapé inicial… A peça tem início com a seguinte frase: “No silêncio podem estar todos os ruídos e isso não é bom”, dita pelo personagem de Luis Melo. A partir daí, o espetáculo se desenvolve mostrando o drama do casal de vizinhos, que gira em torno de seus problemas conjugais, discussões sobre o relacionamento e sobre a falta de comunicação.

Intercalando-se a esse quadro, o vizinho, personagem de Luis Melo, levanta questionamentos filosóficos acerca do silêncio, da solidão, dos desejos e relacionamentos humanos. Frequentemente retoma a frase inicial do espetáculo: “No silêncio podem estar todos os ruídos e isso não é bom”. Com uma belíssima atuação, além da aparência física, que muito contribuiu para a caracterização do personagem, o ator representa um homem de mais idade, muito solitário e reflexivo, de aspecto bagunçado, como quem está largado no mundo, e triste, talvez sem perspectivas.

O que eu gostaria de dizer é que, de acordo com a sinopse, a proposta do espetáculo seria “investigar o tema da fragilidade a partir de textos criados pelo próprio grupo e também de poemas de Gonçalo M. Tavares, extraídos do livro O homem ou é tonto ou é mulher.” Bom, a questão da fragilidade humana, no que diz respeito aos dramas pessoais, afetividade, solidão e etc. foi levantada, e estava tanto incorporada ao discurso filosófico do velho solitário, como na discussão dos vizinhos. O que me fez falta foi a poesia de Gonçalo M. Tavares. Ok, ele não estava completamente ausente. Em dado momento, no meio da briga do casal, surge uma poesia:

“Tenho flores a sair da porta dos armários e nunca tive um armário na minha vida.
Isto, claro, é muito estranho.
O normal seria eu ter um armário e não ter flores a sair dele.
Mas a verdade é que é tudo ao contrário.
Tenho flores a sair da porta de um armário que nunca tive.”

Mas não basta brotar uma poesia no meio de mil palavras. Ela tem que ser explorada e se integrar ao contexto de uma forma mais profunda, de modo que seu sentido seja incorporado aos discursos. O que quero dizer é que a emoção da poesia não contagiou os diálogos. Quando se recita uma poesia como quem dita uma lista de supermercado no meio de uma discussão, ela se perde, fica solta, não atinge quem a ouve. Além disso, na seqüência da poesia, acontecia um diálogo espirituoso, o que abafava ainda mais Gonçalo M. Tavares.

O modo como a discussão sobre o relacionamento conjugal foi conduzido acabou ficando entre Batalha de arroz num ringue para dois e a poesia de Gonçalo M. Tavares. Ou seja, ficou num entrelugar, num espaço indefinido, o que me fez sentir como se estivesse parada no meio de uma ponte, sem saber para onde andar. Aliás, uma das falas da personagem de Bianca Ramoneda menciona uma ponte que foi construída, mas que não chegou a lugar nenhum. No caso, ela relaciona a ponte com o casamento mal sucedido. Bem, eu não seria tão radical a ponto de dizer que a peça não levou a lugar nenhum. O que posso dizer é que o lugar em que a peça poderia chegar estava lá, apenas faltaram algumas tábuas.

Faltou também uma integração entre o casal de vizinhos e o velho solitário. Em que medida o discurso do casal tem ligação com as reflexões do velho? Enquanto um casamento se rompe, um velho lamenta a solidão. Até aí, tudo bem. Há uma ligação, mas ela não vai além disso, não se aprofunda. Acho até que poderíamos desmembrar a peça em duas: uma do velho e outra do casal. A primeira mais reflexiva, a segunda mais comédia.

De um modo geral, a idéia é muito boa, a sinopse chama nossa atenção. A composição do personagem de Luis Melo foi perfeita, e sua atuação, primorosa! Uma voz potente que preenchia os espaços do teatro e oferecia verdade e dramaticidade às indagações filosóficas levantadas no decorrer do espetáculo.

O que eu gostaria de dizer
19/6 a 3/8
5a a sábado, 21h
domingos, 19h30
[12 anos]
Espaço Sesc
Informações: (21) 2548-1088 ramais 228, 255 e 229
Rua Domingos Ferreira, 160
Copacabana, Rio de Janeiro/RJ

16/6/2008

Capitu Memória Editada

Escrita e dirigida por Edson Bueno, a peça Capitu Memória Editada esteve em cartaz nos dias 6 e 14 de junho de 2008 no Espaço Sesc Arena, em Copacabana. Representada por um grupo de cinco artistas paranaenses, entre eles o próprio diretor do espetáculo, e a convite do evento cultural FESTLIP – Festival do Teatro da Língua Portuguesa, a peça, como o título já sugere, aborda a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Num ano de comemoração dos 100 anos da morte de Machado, muitos eventos culturais vêm sido promovidos pela cidade. Este espetáculo, coincidência ou não, veio visitar o Rio de Janeiro em uma data bastante representativa para a literatura nacional.

Em uma sala repleta por um público bastante diversificado – jovens adultos e jovens senhoras – encontramos no palco, ou melhor, no centro da arena, uma mobília antiga, quadros com a figura do Pão de Açúcar, velhas fotos de família e cinco atores já em encenação, cada um exercendo uma atividade.

Como o título sugere, a peça tem ligação com o romance, de modo que o público já tem uma mínima noção do que vai assistir. A surpresa do espetáculo fica por conta das estratégias de encenação, que oferecem nova roupagem ao romance. De acordo com a sinopse, o grupo de Curitiba propõe refletir o universo machadiano, sem, no entanto “levar o romance ao palco, e sim a sensação de mistério que o livro traz”. De fato, não assistimos à representação do romance, mas uma releitura deste, através de outros pontos de vista e de uma linguagem diferente.

Como leitora de Machado, pude compreender a abordagem da peça. Fico apenas na dúvida quanto ao entendimento da trama por parte daqueles que não tiveram acesso à obra Dom Casmurro. Contudo, suponho que quem estava ali presente tenha lido o romance.

Voltemos à referida “surpresa do espetáculo”, aquilo que a distancia do que seria a representação ipsis litteris do romance: A peça conta com cinco atores, cada qual representando um ou dois personagens. Um dos atores representa Bentinho quando jovem e também um jovem ator que ensaia uma peça em que representará Bentinho. Outro representa Bentinho mais velho, além de um homem contentíssimo por estar restaurando uma raridade: uma edição de 1913 da obra Dom Casmurro. Uma das duas atrizes representa Capitu. A outra dá conta de dois papéis: é mãe de Bentinho, além de modista de uma loja de roupas de época. O quinto e último ator representa Escobar, amigo de Bentinho, e também um sujeito amigo do ator que ensaia para representar Bentinho. Pode parecer confuso, mas quem se lembra, ainda que vagamente, do romance, consegue se localizar no meio desse caleidoscópio.

Vale ressaltar que representar dois papéis ao mesmo tempo e ter a capacidade de fazer com que o público entenda essa transição não é para qualquer um. Isso requer experiência por parte daquele que atua, que tem que fazê-lo muito bem, e habilidade por parte do dramaturgo, que precisa delimitar de modo suave onde começa um personagem e onde outro começa.

Outro ponto interessante de Capitu Memória Editada é a encenação de um diálogo com o público, ao qual os personagens chamam “leitor amigo”, “caro leitor”, “pasmo leitor”, “leitora amiga”.  Ainda que encenação, esse “contato” promove uma aproximação entre o palco e os expectadores, de modo que o público sente-se não só testemunha dos acontecimentos, mas cúmplice dos personagens.

Em vez de contada sob o ponto de vista de Bentinho, na primeira pessoa, como no romance machadiano, em Capitu Memória Editada todos têm voz: cada personagem expõe seu ponto de vista.  O toque de bom humor fica por conta das intervenções que um faz na memória do outro enquanto a narrativa é desenvolvida. Enquanto Bentinho novo narra um episódio que diz ter acontecido com Capitu, Bentinho velho intervém: “Isso não aconteceu!!” e Betinho replica: “Aconteceu sim!!”. Como esse, muitos outros diálogos, que por vezes acabam por reunir milagrosamente todos os nove personagens em cena, tiram muitas risadas do público.

Em outros momentos, os personagens tornam-se expectadores. Enquanto se desenrola uma cena com Capitu e Escobar, os outros três atores sentam-se em cadeiras no fundo do cenário, com pouca luz, como em segundo plano, e riem-se com o público daquilo que estão assistindo.

Muito bom ser surpreendida por uma proposta diferente para um romance tão lido e já tão estudado e esmiuçado. Em princípio estava com uma expectativa bastante negativa, pensando no quão maçante a peça poderia ser. Contudo, a releitura do romance proposta pelo grupo paranaense dá certo à medida que trás ao palco algo novo. Quantas vezes “inspirado” não acaba revelando-se “transcrição”! Nesse caso, o termo foi bem empregado. Infelizmente, o FESTLIP foi encerrado dia 15 de junho, e com o evento foram encerradas também as apresentações de Capitu Memória Editada.

14/6/2008

A hora do arco-íris

Tive o prazer de assistir à peça “A hora do arco-íris”, do Grupo português Teatro da Garagem, no Sesc Arena. Embora sinônimas, acredito que a palavra “espetáculo”, em vez de peça teatral, seja mais adequada ao que pude presenciar essa noite.

O Teatro Garagem que define seu trabalho como de “pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para o teatro e de novas formas cênicas que a acompanham”, tem como diretor artístico Carlos J. Pessoa e, nesse espetáculo, conta com texto do próprio, direção de produção e interpretação por Maria João Vicente, e um elenco composto por uma atriz, Ana Palma, que iniciou seu trabalho no grupo em 2001.

O espetáculo em questão tem início antes mesmo de começar. Com as luzes semi-acesas, o público ainda se acomodando em seus lugares, pode-se verificar a silhueta de uma mulher sentada sobre um banquinho de pau, dentro de uma casinha de madeira, à beira de um deck.

Já se pode sentir uma atmosfera de solidão e angústia ao vermos aquela casinhola. Um espaço que transparece sufocamento e que faz-nos sentir, ainda que com a atuação apenas corporal, ainda muda, mas vigorosa de Ana Palma, enclausurados como a personagem. Uma casa em que cabe apenas uma pessoa, uma mulher de cabeça baixa, uma maleta de viagem. Uma casa que acomoda uma pessoa, mas não todos os seus pensamentos.

E então conhecemos Maria.

Aventurando-se na estrada e em suas memórias, Maria resgata o tempo passado, promovendo uma releitura dos seus anos, das suas escolhas, da sua vida. É sozinha em seu trailer (ou auto-caravana, como se diz em Portugal), no silêncio da estrada, que a mulher encontra vozes de outros tempos. Suas reflexões, nascidas da solidão, apontam para a ausência de todas as coisas, inclusive de si mesma. Maria é uma voz que sente o vazio da ausência.

Quem espera uma peça direta e objetiva, com uma temática leve e de fácil compreensão, deve sair decepcionado. A peça aborda um tema bastante subjetivo e denso, que é o da ausência. A encenação de Ana Palma, tão cheia de dramaticidade e intensidade, deve tocar, acredito eu, mesmo os mais insensíveis. Quem já não mergulhou em questionamentos e fez ressurgir vozes esquecidas do passado? Quem já não se sentiu sufocado estando sozinho e sozinho no meio da multidão?

Os sentidos são muito bem explorados durante todo o espetáculo. As luzes, operadas e desenhadas por Miguel Cruz, acompanham a angústia de Maria, por vezes focando apenas seu rosto, ressaltando a ausência de tudo a sua volta, inclusive de seu corpo.

Com composição, interpretação e operação de Daniel Cervantes, o som, que reproduz o canto dos pássaros, o tilintar da chuva, o latido dos cães, além de melodias em alguns momentos, funciona – e de fato funciona – como um estímulo aos sentidos, além de reforçar as emoções exploradas no palco.

Com um misto de alegria e desespero, Maria celebra o som dos pássaros, dos insetos, da natureza: é a hora das rolas, a hora das cigarras, a hora dos grilos. Com uma ingenuidade infantil, cada hora é festejada.

Mas e sua hora?

“O último sentido da vida é sentir”, diz uma das vozes do passado de Maria. E ela sente os sentidos com a intensidade de quem acaba de nascer. A chuva cai e ela pode sentir o cheiro da paisagem. É a hora da chuva.

É sentindo a água escorrer em seu rosto que Maria percebe um rasgo do sol na chuva que cai. Ao longe, forma-se o arco íris. Tudo tem sua hora; e essa é a hora de Maria.

A viagem reflexiva da personagem é dramatizada com tanta vida que, após a encenação, não tive vontade de dissociar imediatamente a atriz Ana Palma de sua personagem. Foi com muitos aplausos oferecidos por um público que teve que ficar de pé para demonstrar a imensa satisfação pelo trabalho mostrado ali, que fui embora, muito reflexiva, meio silenciosa, com um sorriso de encantamento no rosto.