A Geração Trianon
A peça A Geração Trianon estreou no dia 22 de outubro de 2009, no Teatro Laura Alvim, em Ipanema (RJ). Com direção de Luiz Antonio Pilar e Cristina Bethencourt, a produção é uma remontagem do texto de Anamaria Nunes, premiado em 1988, ano de sua primeira montagem, dirigida por Eduardo Wotzik e representada pelo Grupo Tapa.
A remontagem atual conta com 14 atores – Licurgo, Marília Medina, Marta Paret, Marcio Vito, Rogério Barros, Rubens Camelo, Tracy Segal, Marcos Damigo, Rodolfo Mesquita, Rael Barja, Julia Deccache, Antonio Alves, Alex Reis, André Rocha e o pianista Christian Bizotto – que dão vida às histórias dos bastidores de uma companhia teatral da década de 20, no tradicional Teatro Trianon, no Rio de Janeiro.
Por ser patrocinada pela Eletrobrás, a peça foi apresentada na Casa de Cultura Laura Alvim, imóvel doado (por Laura Alvim) ao Governo do Estado em meados de 1980. Como grande parte dos bens públicos é precária, gostaria de ressaltar o desconforto do balcão do teatro, cujos assentos são tão altos que deixam a pessoa mais saudável do mundo com gangrena nas pernas. Além disso, um dos ilustres espectadores da estréia era um morcego. (Isso mesmo, o mamífero voador). Outro ponto desagradável foi o atraso de 40 minutos para a abertura das portas do teatro. Sendo assim, só pude me encontrar com o morcego às 21:40, e não às 21h, como combinado. Espero que ele não tenha se chateado.
Voltando à peça… Foi boa. Uma peça que aborda a produção de uma peça, e a peça em si (para quem curte nomenclaturas, metateatro), é sempre interessante, ainda mais quando se trata de um texto já premiado. Horrível não poderia ser. Contudo, não passa de uma peça boa. Como pontos altos, o jingle da sapataria Mota (e todas as partes que o dono da sapataria Mota aparece), que merece boas risadas; e o vôo do morcego que, já impaciente, resolveu dar uma voltinha quase no final do espetáculo… Momento de muita tensão!
Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim
Av. Vieira Souto, 176, Ipanema/RJ
Tel: 21 2332-2015
Horários: 5ª, 6ª e sábado às 21h; domingo às 20h
Temporada: até 20 de dezembro
No teu deserto
Acabo de descobrir que Miguel Sousa Tavares, o escritor e jornalista português, é filho de Sophia de Mello Breyner Andresen. Uma surpresa e tanto para mim, admiradora de sua obra poética, uma vez que ia justamente comentar que, após ter lido uma seqüência de romances de autores africanos de língua portuguesa, senti uma enorme diferença entre os textos destes e o de Sousa Tavares – No teu deserto – lançado em setembro de 2009, pela Companhia das Letras. Estava já habituada àquela escrita bem poética e reflexiva dos africanos, por isso senti um certo impacto com a leitura do Sousa Tavares.
Não quero comparar os africanos com o português, muito menos dar a entender que, por ser filho de poetisa, Miguel Sousa Tavares deva ser poeta. Aliás, seu nome é Miguel Andresen de Sousa Tavares. Se não tivesse preterido o sobrenome “Andresen”, talvez tivesse imaginado sua filiação muito antes!
Mas isso não importa, o que interessa é que, filho ou não de Sophia (a mesma que teve seus versos introduzindo alguns capítulos de Antes de Nascer o Mundo, do Mia Couto), seu último romance, que dá conta de uma travessia do deserto do Saara e das implicações dessa aventura na vida do protagonista, um jornalista português, e de seu relacionamento com a companheira de viagem, uma garota bem mais jovem que ele, não é uma viagem perdida.
O que há de curioso para se observar é a diferença de comportamentos entre os dois, tendo em vista os significativos quinze anos de idade que os separam, o modo como um enxerga e interpreta as ações do outro, os objetivos profissionais e pessoais do jornalista, a falta de objetivos da jovem garota e o aprendizado da mesma durante esses dias de aventura. Na realidade, é curioso até o momento em que nos damos conta de que já conhecemos essa história, e percebemos que a narrativa não pretende nem nos surpreender nem nos encantar com a simplicidade de uma história banal, como muitas vezes acontece, de uma história ser bonita por ser simples.
Assim, sem muitos rodeios nem grandes descobertas, guiados por uma linguagem simples e objetiva, atravessamos o deserto e entramos na África. Percebemos a existência de um possível romance entre o jornalista e a garota, refletimos rapidamente sobre o silêncio do deserto e a impossibilidade, na atualidade, com todos os avanços tecnológicos relacionados à comunicação, de lidarmos com o silêncio. A era das comunicações, da tecnologia e da popularidade teria nos tornado incapazes de suportar a solidão e o silêncio. O deserto seria, portanto, o último destino procurado pelos viajantes dos dias de hoje. Não posso deixar de ressaltar que essa parte do texto, que começa na página 116 e, tão rapidamente, termina na página 117, é realmente fascinante. É o que oferece sentido à travessia do romance. Discussões sobre o silêncio e a solidão sempre rendem muitas reflexões e, em No Teu Deserto, a naturalidade e a fluidez que caracterizam essas divagações as afastam de qualquer possibilidade de serem apenas tentativas desesperadas de filosofar.
Outro ponto positivo é o fato de o romance ser curto, o que o poupa de ser cansativo.
No teu deserto
Miguel Sousa Tavares
Companhia das Letras
1ª Edição – 2009
(128 pgs.)
Animais Literários, de Sofia Porto
O eixo Rio-São Paulo recebe a maior parte das mostras internacionais de artes plásticas, cinematográficas, entre outras, e também grande parte das exposições dos grandes artistas nacionais. Só para ilustrar, as obras de Vik Muniz ficaram no MASP, em São Paulo, por um bom tempo, e depois vieram para o MAM, no Rio de Janeiro, onde permaneceram por cerca de três meses. Outro exemplo foi a Virada Russa, exposição de 123 obras do movimento artístico da 1ª fase da Revolução Russa, que passou pelo CCBB do Rio, e que certamente passou ou passará pelas outras capitais em que há um Centro Cultural do Banco do Brasil (São Paulo e Brasília, apenas). (more…)
Sutura
Até outubro de 2009 fica em cartaz no Oi Futuro do Rio de Janeiro a peça Sutura, texto do escocês Anthony Neilson, dirigido por Felipe Vidal e interpretado por Cristina Flores e Lucas Gouvêa.
Em princípio, a peça aborda o transtornado relacionamento de um casal jovem, com dificuldades de comunicação, problemas com o passado e dúvidas em relação ao futuro. Num teatro diferente, em que são duas as platéias, e que ficam uma de frente para a outra, podendo o palco ser um mero obstáculo para a comunicação entre os espectadores, os primeiros momentos são de expectativa, uma vez que o tema e o ambiente são incompatíveis: uma história batida num espaço novo.
No decorrer da peça, contudo, o tema ganha novos contornos, a começar pelo jogo temporal, que requer muita atenção e certa familiaridade com esse tipo de recurso, já que o vaivém abrange não só presente e passado, mas também um possível futuro.
A partir daí, o texto torna-se surpreendente e o palco (que na verdade são dois, já que uma cortina semitransparente o divide em duas metades) transfigura-se em parte essencial da peça. Tudo vai bem, então, rumo ao ponto alto do texto, que em muito se assemelha aos Contos de terror, mistério e morte, de Edgar Allan Poe.
Em determinado ponto, para mim o auge, momento em que há uma tensa discussão entre o casal, que culmina numa cena grotesca (que não é possível descrever!), um misto de choque, terror e contentamento tomam conta do teatro. Eis a hora mais indicada para o encerramento do texto. Como ficar melhor que isso, ou como manter tal nível de euforia perturbada que domina a platéia? Impossível! Se fosse um dos contos de terror, mistério e morte teria terminado por aí, com uma platéia de espectadores muito surpresos.
Mas… A peça continua e acaba voltando para a calmaria inicial, para a discussão do relacionamento amoroso e toda aquela história. De todo modo, quem gosta dos contos de Poe vai, seguramente, aproveitar a experiência, ainda que os enfraquecidos minutos finais causem certo desânimo.
Sutura
Texto: Anthony Neilson
Direção: Felipe Vidal
Elenco: Cristina Flores e Lucas Gouvea
Até outubro de 2009.
Teatro do OI Futuro
(Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo/RJ)
Antes de Nascer o Mundo, de Mia Couto
Seguindo a linha dos escritores africanos que procuram de alguma forma semear reflexões sobre as guerras coloniais e seus efeitos nas sociedades contemporêneas, Mia Couto, moçambicano cuja produção ficcional contempla sete romances até o momento, vem afinando sua escrita e sua criatividade ao publicar, com uma periodicidade incrível, novas produções, entre poesias, romances, crônicas e contos. (more…)
Diário de um louco
Quando um sapato social de óculos escuros é o chefe de seção do seu trabalho, quando um pincel de gravata borboleta é um criado, quando cinco garrafas plásticas enfiadas numa caixa de sapatos é um cachorro que, além de escrever cartas, é um político notável, quando um regador de plantas coberto por uma estopa é um judeu, e quando você consegue manter um diálogo com todas essas pessoas, você só pode estar louco. (more…)
O Língua Solta
Apresentado sob forma de item através de livros didáticos do ensino médio, Bento Teixeira passa despercebido quando o assunto é literatura. Apontado por alguns estudiosos como o poeta que tentou copiar Os Lusíadas, sua obra, geralmente reduzida à poesia Prosopopéia, costuma ser desvalorizada sendo, portanto, apenas citada superficialmente nos livros escolares. (more…)
O Brasil na África, a África no Brasil
Há algum tempo, desde o ano passado pelo menos, venho observando que, tanto nos jornais e revistas quanto na televisão, muitas notícias sobre a África vêm sendo veiculadas. São artigos e reportagens que procuram ressaltar os laços que unem o Brasil ao continente africano, especificamente aos países africanos de língua portuguesa, e especialmente a Angola e Moçambique. E isso é ótimo porque contribui para a dissolução daquela terrível e antiga idéia de que a África é feita de elefantes, leões e tribos primitivas. (more…)
De corpo presente
A Fagundes Produções Culturais apresentou nessa quarta-feira, 3 de junho de 2009, a peça De corpo presente, com texto e direção de Mara Carvallio e atuações de Cristina Prochaska, Blota Filho, Carlos Martin, Patricia Batitucci, Alexandra Martins, Murilo Salles e Mariana Bassoul (stand in) e da própria diretora. O espetáculo fica em cartaz até o dia 30 de agosto, no Teatro Solar de Botafogo, no Rio de Janeiro.
Na ocasião da estréia, Cristina Prochaska foi substituída por Mara Carvallio, que por sua vez teve seu papel entregue a Mariana Bassoul… que, diga-se de passagem, foi o ponto alto da peça. (more…)
O sonho de uma noite de verão
A Cia do Giro apresenta até o próximo domingo, 10 de maio, no Teatro Nelson Rodrigues da Caixa Cultural, no Rio de Janeiro, o espetáculo O sonho de uma noite de verão, montagem do clássico de Shakespeare, que conta as histórias que antecedem o casamento de Hipólita e Teseu, numa floresta de fadas e elfos.
Prometendo manter 90% do texto original, a Cia do Giro se supera. (more…)
Sempre Vale a Pena
Cada vez que vou ao teatro me dou conta do infinito número de atores e atrizes que procura mostrar seu talento pelos palcos da cidade. São milhares de peças simultaneamente em cartaz no Rio de Janeiro, compostas por artistas que, na maior parte das vezes, ainda não conheço. Quero dizer que poucas vezes conheço o trabalho anterior desses artistas. O que não é mau… Para tudo há uma primeira vez, e o bom da primeira vez é que as comparações perdem espaço para a neutralidade, para a imparcialidade. (more…)
Cidades Furtivas
O Centro LABAN-Rio e a Casa da Glória apresentaram nos dias 03 e 04 de abril de 2009 o Ateliê Coreográfico no espetáculo Cidades Furtivas, uma idealização de Regina Miranda, que conta com a direção da mesma e com a colaboração de Adriana Bonfatti, Ana Bevilaqua, Camila Fersi, Elisabete Reis, Lourival Prudêncio e Marina Salomon para a realização do projeto. (more…)
O filho da mãe
Uma peça que trata do relacionamento entre uma mãe divorciada e seu filho, que aborda a influência da figura materna no processo de transição da adolescência para a fase adulta, pode enveredar por vários caminhos, isto é certo. Mas se o gênero eleito para a representação for a comédia, o cuidado deve ser redobrado. (more…)
Maria Stuart
Texto de Friedrich Schiller, tradução de Manuel Bandeira e direção de Antonio Gilberto, a peça Maria Stuart fica em cartaz no teatro do CCBB do Rio de Janeiro até 17 de maio de 2009. Com Clarice Niskier como Rainha Elizabeth I e Julia Lemmertz como Maria Stuart, a montagem inspirada no drama de Schiller, explora o embate dramático entre as duas rainhas, denuncia a corrupção moral e ressalta os valores de uma época. Finalizada em 1800, a peça, que tem como substrato a rivalidade entre a igreja católica e o protestantismo, traz à tona a forte ligação entre Estado e Igreja, as relações de poder aí inseridas e os conflitos provocados pela sede de poder.
Durante os 15 minutos de intervalo (o espetáculo tem 3 horas de duração), inevitavelmente, pude ouvir muitas opiniões ao meu redor. Houve quem questionasse o figurino. Houve quem dissesse “xii, tá tudo errado”. Houve ainda quem pensasse que o texto perdia muito com a linguagem rebuscada. (more…)
Óidipous, filho de Laios – A história de Édipo Rei pelo avesso
Muitas vezes, um texto insosso vira um espetáculo quando encenado. Outras vezes, o contrário acontece.
Quem não conhece a história do Rei Édipo, por exemplo? Não digo que seja popular, mas uma vez ou outra na vida alguém já fez referência ao complexo de Édipo, seja na faculdade, seja na mesa do bar. Afinal, trata-se de uma história intrigante, que inspira reflexões sobre a natureza e as relações humanas. Dentre as sensações despertadas por esse texto figuram a ojeriza, decorrente da possibilidade de relacionamento sexual entre pai e filho; a identificação por parte de alguns, nunca se sabe; mas, principalmente, a sensação de que não se pode controlar tudo nessa vida. Basta o menor dos imprevistos para que o controle que o homem pensa ter sobre si vá por água abaixo. (more…)
O Santo e a Porca
Que a cultura brasileira é bastante diversificada, todos sabemos. São costumes da região sul que diferem dos da região nordeste. Tradições nortistas pouco conhecidas no sudeste. E por aí vai… Mas o que há de comum a todas essas regiões culturais do Brasil é a língua. Todos falamos português e conseguimos nos entender muito bem!
Aí entra, então, a aplicação dessa língua. São vários os tipos de linguagem e inúmeros os meios de comunicação. Assim, o norte se aproxima do sul, o sudeste do nordeste e do centro-oeste. Mesmo sem nunca ter estado no sertão nordestino, conheço o clima, as dificuldades, as pessoas, os costumes. Graças aos jornais, à literatura, ao teatro, ao cinema, já estive lá sem nunca ter saído de casa.
Meu Caro Amigo
Não é preciso estar morto para ser homenageado.
Partindo deste princípio, Felipe Barenco, responsável pelo texto do musical Meu Caro Amigo e, diga-se de passagem, estreante na profissão (e muito talentoso), presenteia o público do Rio de Janeiro com um clima nostálgico e emocionante que pode ser sentido até por objetos inanimados. (more…)
Cabaret Melinda
As terças-feiras do mês de janeiro poderão ser mais divertidas para aqueles que comparecerem ao Canequinho Café, em Botafogo, espaço tipo cool anexo ao Canecão, que abriga em seu palco o musical Cabaret Melinda. Após elogiada temporada em 2008, o espetáculo dirigido e adaptado pela Azilíaca Cia. de Arte reestreou ontem, 13 de janeiro de 2009, e garantiu uma noite diferente e animada para o público carioca. (more…)
Do jeito delas
De um livro intitulado Do jeito delas – vozes femininas de língua inglesa espera-se uma escrita sensível, delicada, recheada de emoção. E assim são as poesias selecionadas por Márcia Cavendish, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish, com tradução de Jorge Wanderley. São poesias de poetas mais que consagradas, como Elizabeth Bishop, Emily Dickinson e Sylvia Plath, entre outras. Com exceção de Dickinson, trata-se de uma seleção de poetas de língua inglesa do século XX representantes da moderna poesia do país. (more…)
19 recantos e outros poemas
Tenho notado que as edições da 7Letras vêm se mostrando muito especiais, em vários sentidos. Primeiro pela seleção de poetas, depois, e quando é o caso, pela excelência dos organizadores que selecionam e organizam algumas edições, finalmente pelo trabalho de edição e produção gráfica que, como sabemos, é importantíssima não só para os designers que as criam, mas também para os leitores que são beneficiados de inúmeras maneiras, ainda que muitos não se dêem conta disso ou não reconheçam o valor dos designers gráficos para a produção de um livro de qualidade. (more…)
Contando Machado de Assis
O título já diz: “contando”. Sou muito suspeita para falar de contação de histórias porque guardo péssimas lembranças dessa modalidade narrativa. Contação de história para crianças, por exemplo, normalmente é feita de forma bem afetada, até mesmo pra chamar a atenção dos pequenos ouvintes, que se desconcentram por qualquer motivo. Toda a afetação me tira do sério… E aposto como o contador fica tão preocupado em fazer caras e caretas e modalizar a voz que nem presta atenção no que está falando. Por outro lado, descartando-se essa maneira efusiva de se contar a história, podemos cair na monotonia. Um perigo também. (more…)
As centenárias
Humor de qualidade! Essa é uma das formas como posso definir a peça “As centenárias”, representada pelas simpaticíssimas e maravilhosas Andréa Beltrão e Marieta Severo, com direção de Aderbal Freire-Filho. O texto, de Newton Moreno, escrito especialmente para a dupla, além de muito bem bolado é mesmo uma celebração da amizade que as duas mantêm desde finais dos anos 80.
Marieta e Andréa são Socorro e Zaninha, duas carpideiras que levam a vida a prantear os mortos e a contar histórias no interior do nordeste. Amigas de longa data, as mulheres, entre histórias e cantorias (as “incelenças”, cantos fúnebres das carpideiras), acabam por enganar a Morte, representada por Sávio Moll, adiando o inevitável.
A peça conta com uma narrativa não-linear, que volta ao passado e retorna ao presente constantemente. Mas tudo acontece de forma muito clara, de modo que é possível compreender o jogo temporal bastando o mínimo de atenção. Diferentemente do cinema, que conta com mil recursos para marcar o tempo, o teatro depende de pequenos detalhes, como, por exemplo, a suave tremedeira de Andréa Beltrão, que em determinados momentos marca a velhice da personagem em contraponto com a não-tremedeira, que aponta para uma idade menos avançada, quando a personagem acaba de dar à luz um menino.
O cenário é como um picadeiro de circo, tendo como peça central um caixão. As atrizes, além de interpretarem as carpideiras, utilizam-se de marionetes, ou seja, por vezes Marieta interpreta paralelamente Lampião e Socorro, através de um fantoche com a cara da personagem. Diz o diretor: “O duelo com a morte é um clássico da cultura popular, muitas vezes cantado na literatura de cordel. Daí até as feiras é um passo. E das feiras ao circo. Fazendo esse percurso naturalmente entramos na tradição popular da paródia, da bufonaria, do palhaço. Enfim, do riso que não se intimida mesmo com a morte”.
Assistir Marieta Severo e Andréa Beltrão no teatro foi umas das melhores experiências que já tive. Acostumadas a vê-las apenas em novelas ou no cinema, nunca tive acesso ao verdadeiro potencial das duas. E como se dão bem no palco… Incrível! Além de atuações fantásticas, cantam bem! Afinadíssimas! E o sotaque de nordestina da Andréa Beltrão é de fazer até defunto rir. É o tipo de atuação que não precisa de piada para ser engraçada. As duas, caladas, paradas, no meio do picadeiro já são uma comédia.
Tudo contribui para o sucesso do espetáculo. As atuações, o cenário, o figurino e até mesmo a disposição das cadeiras do teatro. É como uma semi-arena, o que faz com que todos os lugares sejam bons! Isso é um ponto essencial para quem assiste. A menos que se sente um armário ou um poste na cadeira da frente, tudo é muito confortável. A sensação é de que se está em casa, assistindo a duas amigas brincando de teatro, tamanha é a naturalidade da dupla.
A peça está em cartaz no Teatro Poeira, espaço das sócias Marieta Severo e Andréa Beltrão, inaugurado há três anos num casarão tombado, na Rua São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. No site do teatro (www.teatropoeira.com.br) é possível acompanhar toda a história da casa de espetáculos, desde a idéia de ter um espaço reservado para as artes, passando pelas obras que o casarão sofreu, até as peças que já passaram por lá.
“As centenárias”
Com Marieta Severo, Andréa Beltrão e Sávio Moll
Direção: Aderbal Freire-Filho
Horários: sextas e sábados às 21 horas e domingos às 20 horas
Duração: 1h30
Local: Teatro Poeira
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Tel: 21 2537-8053
Mensagem de Fernando Pessoa
Tenho em mãos a obra Mensagem, de Fernando Pessoa, publicada pela 7Letras agora em 2008. Não se trata de uma edição qualquer, mas sim daquela organizada por Cleonice Berardinelli e Maurício Matos designada: a “edição preparada segundo o exemplar de 1934 corrigido pelo punho do poeta”. Eis a justificativa: “optamos por respeitar a vontade de Pessoa, claramente expressa em diversos textos reunidos no seu Espólio sob a designação Lingüística e publicados no fim do século passado”. (more…)
O que eu gostaria de dizer
Fui ao ensaio aberto do espetáculo “O que eu gostaria de dizer”, dirigido por Márcio Abreu e com Luis Melo, Bianca Ramoneda e Márcio Vito no elenco. Por se tratar de um ensaio, poderia haver interrupções por qualquer motivo, principalmente para a adaptação dos movimentos dos atores num espaço diferente, como é o caso do Sesc Arena, em Copacabana.
Contudo, não houve interrupções, de modo que a peça fluiu normalmente, com o cenário, acredito eu, pronto, assim como o figurino, sonoplastia e iluminação. Tudo, aparentemente, correu como num dia normal de apresentação. Bom para os atores, melhor pra mim e para os demais expectadores, que não eram muitos, mas considerando-se a ocasião, era de bom tamanho.
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Capitu Memória Editada
Escrita e dirigida por Edson Bueno, a peça Capitu Memória Editada esteve em cartaz nos dias 6 e 14 de junho de 2008 no Espaço Sesc Arena, em Copacabana. Representada por um grupo de cinco artistas paranaenses, entre eles o próprio diretor do espetáculo, e a convite do evento cultural FESTLIP – Festival do Teatro da Língua Portuguesa, a peça, como o título já sugere, aborda a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis.
Num ano de comemoração dos 100 anos da morte de Machado, muitos eventos culturais vêm sido promovidos pela cidade. Este espetáculo, coincidência ou não, veio visitar o Rio de Janeiro em uma data bastante representativa para a literatura nacional.
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A hora do arco-íris
Tive o prazer de assistir à peça “A hora do arco-íris”, do Grupo português Teatro da Garagem, no Sesc Arena. Embora sinônimas, acredito que a palavra “espetáculo”, em vez de peça teatral, seja mais adequada ao que pude presenciar essa noite.
O Teatro Garagem que define seu trabalho como de “pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para o teatro e de novas formas cênicas que a acompanham”, tem como diretor artístico Carlos J. Pessoa e, nesse espetáculo, conta com texto do próprio, direção de produção e interpretação por Maria João Vicente, e um elenco composto por uma atriz, Ana Palma, que iniciou seu trabalho no grupo em 2001.
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