Do padecer da crítica
Este artigo, inicialmente, trataria de um assunto que considero muito mais nobre em sua essência, já que seria uma reflexão sobre o papel da crítica de arte na era da comunicação global. Infelizmente, ao pesquisar sobre o assunto percebi que o problema se dava muito antes de se ter algo para criticar e ia muito além do que a própria crítica em si. Ao que parece, sustentar uma opinião tornou-se um motivo para que qualquer pessoa seja merecedora de um linchamento moral – e às vezes até físico – só por ter um ponto de vista divergente de alguém.
É óbvio que não se trata de generalizar indiscriminadamente a situação, e que ainda é muito edificante poder debater uma idéia, inclusive com pessoas de opiniões contrárias às nossas. Porém, com a democratização dos meios de comunicação, isso ficou muito mais difícil, sendo necessário analisar bem onde e com quem abrir a boca. Opinar nunca foi tão fácil: twitter, blogs, redes sociais e até o quase finado e-mail são ferramentas que não requerem esforço e ainda agregam a vantagem do anonimato, que é um prato cheio para quem tem preguiça de assumir o que diz. Se por um lado a internet democratizou a opinião pública, por outro deu voz a um sem número de pessoas às quais a maior dádiva seria o silêncio.
A opinião é, a meu ver, uma das características que nos distinguem de símios que reviram, com um fêmur em mãos, uma carcaça de bisão. É importante ressaltar, porém, que ter opinião não significa, necessariamente, que ela esteja certa, ou, ainda, que devemos levá-la a sério. Sobre isso, o filósofo Olavo de Carvalho comentou certa vez em seu True Outspeak que “o direito de se ter opinião é proporcional ao interesse sincero que você tem sobre o assunto. Se você não tem interesse sobre o assunto ou sequer lê alguma coisa, por que devemos ter o interesse de ouvir a sua opinião?”. Para complementar o raciocínio, ele propõe a criação de um supositório de opinião, que a meu ver seria a solução ideal para determinadas pessoas que ainda insistem em transferir o motivo de um debate do assunto para o sujeito.
Quem quer ser levado a sério deve ser tratado seriamente, por isso é infundada a reação que alguns críticos têm de se sentirem ofendidos ao menor sinal de questionamento, como se isso fosse sinal da mais vil censura ou, no mínimo, exemplo de pura presunção – palavra que muitas vezes só é uma forma pomposa de julgar alguém que ousa saber mais do que outra pessoa. Nesse ínterim, o questionamento da idéia passa a ser tratado como questionamento do caráter. Para alguns, a crítica virou um mero exercício do jus esperniandi.
Vale ressaltar que crítico é qualquer pessoa que exerce o poder de crítica, palavra essa que, derivada do grego krinein, significa separar, julgar. A todo momento emitimos julgamentos acerca de alguma coisa, por mais trivial que ela seja: uma refeição ruim, uma embalagem não muito prática, um filme modorrento. Não é preciso ser um gourmet, um designer ou um cineasta para formar a nossa opinião, e é por isso que, neste aspecto, este artigo não diferencia profissionais ou amadores. A (in)capacidade de se fazer uma crítica séria e embasada é abrangente àqueles que têm algo relevante a ser dito, independente de projeção profissional.
A grande arma do falso crítico é, como denominou Schopenhauer, a dialética erística, que se concentra em desqualificar o adversário para vencer um debate sem precisar ter razão ou sequer discutir o assunto proposto. É o que vemos por aí quando se fala mais da pessoa do que da idéia, produzindo respostas baseadas unicamente em pressupostos sobre o caráter, a escolaridade, o nível cultural e, acredite, até a opção sexual da pessoa.
O fato é que a culpa não é unilateral. Por um lado estão muitos críticos ditos especializados, sentados em suas torres de marfim, ditando o que é in e o que é out, rebaixando artista e público a escravos de suas pretensões. Por outro, determinado nível de público que se utiliza apenas da própria “embocardia” mental para exercer seu direito de opinião, declarando guerra a quem ouse pensar diferente. Nesse badminton de vaidade, só quem perde é o público para o qual uma crítica é – oh! – apenas uma crítica. Dialogar, às vezes, deixa de ser um exercício filosófico para ser um exercício de autocontrole.
Como no dito popular, grandes mentes discutem idéias, mentes pequenas discutem pessoas. Nesse contexto, acho interessante salientar um trecho de uma crônica de autoria de César Boschetti, na qual ele diz que “a crítica, se arrebatada e irrefletida, é simples bravata. Se maledicente e sem propósito, é mera calúnia. Se arrogante, apenas humilha e destrói. Se hipócrita, só confunde. Se fria e racional, torna-se tediosa. A crítica deve ser oportuna sem ser oportunista. Deve provocar, mas não ofender. Deve questionar ao invés de julgar. Deve ser inteligente, sem ser sábia. A crítica deve ter paixão para ser humana e indignar-se para ser autêntica. A crítica deve ser criança sem ser infantil e madura sem ser caduca.”
Fica cada vez mais difícil se posicionar ideologicamente sabendo que existe tanta intemperança, que acaba ocorrendo o que eu chamo de “hipolexia de rebote”, ou seja, o trabalho de manter uma discussão em um nível aceitável, sem cair em armadilhas manjadas, é tão grande, que às vezes é muito melhor ficar quieto para evitar uma úlcera. Até porque nunca devemos discutir com um incapaz, porque ele tende a levar tudo ao próprio nível para vencer por experiência. A esses, melhor seria se a invenção do professor Olavo fosse verdade.
Segundas intenções – onde está a experiência estética?
Tente se imaginar na seguinte situação: em uma galeria, são apresentados, lado a lado, dois quadros que têm como características principais um traço inocente e formas simples, desapegadas à realidade. A figura humana é modelada apenas com um círculo e um punhado de retas, e as cores, as mais básicas possíveis. A composição não é muito bem arranjada, sem nenhuma noção de perspectiva, e o motivo, o mais simplório possível: uma família num dia de sol, com direito a arco-íris e tudo mais.
Para o leigo, a primeira (e talvez única) reação possível é a repudia, que o leva a acreditar que não existem mais bons artistas no mundo, pois seu filho de 10 anos é capaz de fazer algo muito melhor que aquilo. Já para aquele que é ligado às artes, pode se tratar de um quadro expressionista, onde a intenção é mostrar a tenra infância, da maneira mais realista possível, ou seja, tentando ressaltar o espírito da juventude através dos traços próprios daquela idade.
Não há informações sobre esses dois quadros. Não sabemos os títulos nem os autores; se foram feitos pela mesma pessoa ou se são peças distintas. Apenas estão lá, dispostos lado a lado em uma galeria. Diante desta situação, somos interrogados a respeito do valor artístico desses quadros: afinal, eles são Arte (1)?
Certamente, tudo seria mais fácil se pudéssemos recorrer a dados semióticos dos trabalhos. O título poderia nos abrir uma infinidade de possibilidades e cogitações a respeito da intenção do artista ao produzir aquele quadro. Por outro lado, ao recorrer ao nome do autor, poderia se identificar o estilo ao qual ele pertence e tudo seria mais lógico. Mas será que realmente isso é necessário? Se uma peça de arte não é capaz de se sustentar sozinha, de que serve a busca por uma linguagem própria mais conectada com o espírito do artista? Se realmente existe uma distinção do que é Arte, quem ditou estas regras?
Na verdade, quem dita essas regras é o próprio espectador, que desde criança é educado em um sistema textual, onde o trabalho com formas e cores é substituído totalmente (ou quase) por ditados e tabuadas. Nosso espírito é habituado a tentar compreender o visual, o que dificulta a nossa fruição estético-visual. Uma obra plástica é – ou deveria ser – feita para ser desfrutada em seu real campo de atuação, ou seja, o visual. O conceito pode vir acompanhado, mas como um adendo, uma forma complementar de assimilação, mas a carga emocional deve estar concentrada no próprio objeto.
Ao contemplarmos um objeto estético, nosso inconsciente automaticamente busca alguma assimilação com o próprio ser, causando empatia ou o desprezo. Ou seja, aquele objeto que mais se associar com a personalidade do espectador receberá uma maior empatia por parte deste. Um indivíduo pode estar diante de vários quadros com o mesmo tema e com os mesmos elementos, porém, fatalmente ele gostará mais de um determinado. Isto porque a disposição dos elementos, cores e formas de representação remetem a toda sua criação intelectual e emocional, criando-se um vínculo afetivo. Portanto, se somos capazes de apreciar um quadro unicamente pela sua beleza (2), significa que o seu conceito não é um dado fundamental. Todos somos capazes de gostar de uma bela obra sem conceito.
Quando deslocamos o conceito para diante do estético, estamos impondo valores diferentes a um mesmo objeto, variando de acordo com o referencial adotado. Vejamos, por exemplo, as possibilidades de nosso exemplo citado no início deste artigo: se os dois quadros foram feitos por uma criança de cinco anos, eles poderiam não ser considerados Arte, pois não há conceito por trás da obra. Se fossem feitos por um artista, a situação mudaria de plano. Mas, se um deles fosse feito por uma criança e o outro por um artista, embora as soluções apresentadas sejam as mesmas, um seria Arte e o outro não?
Ora, se o valor artístico de uma obra não se mede por sua beleza, se a intenção se sobrepõe ao estético, de que vale a busca pelo aperfeiçoamento plástico? Será que um mesmo objeto muda para melhor ou pior dependendo do ponto de vista ao qual é observado? Com certeza não, assim como amar alguém não torna a pessoa amada mais bela. Pelo menos não na realidade.
Não seria possível aceitar a hipótese de que a única forma de arte que não possui autonomia seja a plástica, pois se aceitamos músicas sem letras, livros sem figuras ou até mesmo dança sem música, somos quase incapazes de apreciar um quadro sem auxílio teórico. Isso se deve à tênue linha que divide o plano artístico do real. É muito mais fácil aceitar a pluralidade da palavra ou a total abstração da música, pois elas em nada podem representar a imagem do real. Não é a toa que uma mesma pessoa pode não se importar com um personagem de desenho animado, mas dispara críticas contra a anatomia de um quadro menos real (3), ou ser capaz de apreciar a composição de cores em uma roupa, mas dizer que os quadros abstratos são “apenas garranchos”.
Não existe uma forma clara, ampla e distintiva de classificar o que é ou não Arte, pois seja qual for este método, fatalmente será injusto e excluirá algum tipo de trabalho que outros aceitarão como tal. O pensamento de que “Arte se predispõe a alguma intenção” já é falho em sua própria origem, pois todo ato artístico é movido por alguma intenção. O fator que leva uma criança a desenhar uma feliz pessoa em um dia ensolarado é a mesma que leva, e sempre levará, um artista a pintar um quadro: a necessidade artística. Por isto, este conceito acaba contradizendo sua própria finalidade.
Nunca houve na história da humanidade uma só civilização que não necessitasse de arte. Por isso tende-se a crer que a estética é um fator biológico, traço nato do ser humano, ao qual não podemos nos desassociar, talvez pelo fato de que ela seja uma das únicas alternativas de interferir no curso da natureza. Sendo assim, fazemos da forma como podemos e entendemos, para, quem sabe, perpetuar nossa existência na humanidade. (4)
Uma obra de Arte é independente e não possui vínculos com o seu autor. Qualquer dado que não pertença à própria obra cai na questão subjetiva, criando uma série de especulação que, na maioria das vezes, nada têm a ver com a proposta original. Adotar questões extrínsecas ao trabalho para poder qualificá-lo como Arte é dizer em alto e bom tom que a própria obra é o menos importante. Não podemos mensurar o quanto ela foi planejada, qual foi o motivo pelo qual foi feita, se atendeu a certas expectativas ou se simplesmente foi feita na impulsividade de um momento de inspiração. Isso porque uma obra de Arte é autônoma, não carrega consigo a descrição detalhada, nem seu autor a tiracolo, porque ela fala por si mesma. De certa forma, é como as relações interpessoais: não é nem o nome, nem os pais, nem o histórico que vão fazer você tirar suas conclusões a respeito de alguém, mas, como esta pessoa interage com você e se ela atende às suas expectativas. Por melhores referências que uma pessoa tenha, nada substitui a relação que você terá com ela, seja boa ou catastrófica. Assim é com a arte: se não houver um desfrute estético desinteressado, de nada adianta saber sobre ela.
Por estes motivos, a Arte não deve ser considerada propriedade do objeto, mas do indivíduo, por se ligar diretamente com o deleite estético (5). Ou você gosta ou não. Toda diferença está no desenvolvimento contemplativo do espectador. Isso não quer dizer que haja um tipo de Arte melhor que outra, apenas são divididas por um rio de cultura e personalidade inerente a cada pessoa. Por mais que os gostos se pareçam, o verdadeiro sentir estético (6) é diferente para cada um. Não é a vida nem o autor que a arte representa, pois ela só pode refletir o espectador. Ela é como um espelho, e vai refletir de uma forma diferente cada pessoa e cada momento daquele que o contemplar.
Nosso gosto, assim como nosso senso artístico, não melhora nem evolui. Eles apenas se transformam e se adeqüam a uma determinada formação intelectual. Quando somos crianças, temos gostos próprios à nossa idade, assim como ao longo de nossa vida. Quanto mais vivemos, mais aprendemos e mais mudamos de gostos. Assim é com comida, amigos, amores e, enfim, na arte. Um espectador vai ter diferentes pontos de vista sobre uma mesma obra em momentos diferentes da vida. Isso não faz com que ela seja mais ou menos bela, pois é imutável. Sua personalidade contempladora que irá ditar as regras dessa relação. O que antes era desprezível, pode ser considerado belo ou vice-versa. Isso nos vem provar de uma forma integral que a Arte não pode ser determinada pelo objeto, mas por quem a desfruta.
Diante desses fatos, não temos autonomia para ditar uma regra geral que diga o que é ou não Arte. Admiramos aquilo que nos espelha e não podemos exigir a mesma compreensão estética de duas pessoas com históricos de vida completamente diferentes, pois transparecemos aquilo que somos.
Não é intenção, porém, colocar em pé de igualdade o desenho de uma criança aos trabalhos de artistas profissionais. Entretanto, não há como dizer, de uma forma universal, que este tipo de obra não seja Arte, pois, dentro de seu campo de conhecimento, a criança também cumpre o seu papel. Se não for desta forma, então estaremos hierarquizando a Arte como “melhor” ou “pior”, já que um bom desenho infantil seria “pior” do que um péssimo desenho rico em conceitos. Ou seja, aquele que tem mais significado é o mais artístico.
Para se desfrutar a Arte, basta apenas sentir. É apenas deixar que o inconsciente trabalhe, para que se desfrute, em todas as instâncias, o que o real prazer estético pode oferecer. Ela é aquilo que toca, nada mais.
Katherine Watson: Há 25 anos alguém achou isto genial
Betty Warren: Quem?
Katherine Watson: Minha mãe, eu pintei para dar em seu aniversário. Próximo slide. Esta é minha mãe Isto é arte?
Susan Delacorte: É um retrato.
Katherine Watson: Se eu dissesse que foi Ansel Adams que tirou, faria diferença?
Betty Warren: Arte não é arte até que alguém o diga.
Katherine Watson: é arte!
Betty Warren: As pessoas certas.
Katherine Watson: E quem são?
(do filme O sorriso de Mona Lisa)
***
(1) Considero neste artigo a palavra Arte com inicial maiúscula para designar o tipo de classificação valorativa, e o termo arte com inicial minúscula como valor classificativo. Explico esta designação no artigo ”a eterna novela: arte e design em três atos“.
(2) O termo beleza é aqui usado como representação do juízo de gosto, diferente do “belo” greco-romano. È tudo aquilo que o indivíduo acha bonito.
(3) nas palavras de E. H. Gombrich: “O camundongo Mickey não se parece muito com um camundongo verdadeiro; no entanto, as pessoas não escrevem cartas indignadas aos jornais criticando o apêndice caudal do Mickey. (…) Mas se um artista moderno desenha alguma coisa à sua maneira, está sujeito a que o considerem um trapalhão, incapaz de fazer coisa melhor.” (Gombrich, E.H. A história da Arte, (trad. Álvaro Cabral), Guanabara Koogan S.A, 1993, p. 8 )
(4) A famosa frase “todo homem deve, ao menos, ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro” é um retrato fiel desta hipótese. Conhecida em todo mundo, ela sugere que todo ser humano se perpetue perante os séculos através da interferência na natureza. O termo “escrever um livro” é uma referência ao fazer artístico, próprio do ser humano e que a natureza não prevê.
(5) “Immanuel Kant, com efeito, propõe primeiramente uma teoria do juízo estético: com que direito posso julgar que uma coisa é bela? O critério é o prazer que ela desperta em mim: prazer desinteressado, ligado só à forma do objeto e não, como no assentimento, ao seu conteúdo. O belo é, portanto, aquilo que agrada. Mas Kant acrescenta: universalmente sem conceito. “Sem conceito” quer dizer que não há idéia do belo, isto é, um modelo que possa orientar meu juízo e servir de padrão. O belo só se encontra em objetos sensíveis e só a sensibilidade é o juiz”
“Procurar um princípio do gosto que dê através de conceitos determinados, um conceito universal do gosto, é um trabalho estéril, visto que aquilo que se procura é impossível e contraditório em si” (Kant, Immanuel - Critique du Jugement, § 17)
(6) “A experiência estética, pelo contrário, é essencialmente “final“, isto é, o seu fim reside em considerar a situação de pertença de modo mais amplo, mais rico e intenso, fora dos mecanismos de rotina e sem se recair numa nova habitudinariedade mecânica. O seu objetivo seria introduzir na terra um estado paradisíaco onde se possam viver os vários aspectos do mundo, exatamente, com a máxima intensidade, sem a preocupação de economizar energias. Poderia ser também a descoberta do Paraíso Terrestre, vivido na primeira infância, quando o impulso para o prazer dos sentidos não encontra repressões e censuras pela obrigação de prestar contas com as exigências práticas sociais”. (Barilli, Renato. Curso de Estética (trad. Isabel Teresa Santos), Lisboa, Estampa, 1989, p.33-34)
A eterna novela: arte e design em três atos
Ato I – O que é arte
Todas as palavras podem assumir várias significações, independente do real sentido que elas exprimem. Podemos usar a palavra filme, por exemplo, tanto para exprimir aquilo que vemos no cinema ou na televisão quanto para enaltecê-lo, como na frase “isso sim é um filme”. Ao usarmos a palavra em seu sentido original, tomamos seu sentido classificativo, ou seja, a palavra exprime exatamente o que ela propõe. Se, ao contrário, a usamos para exaltar uma qualidade, estamos usando o seu sentido valorativo. Se cada palavra pode assumir um sentido, dependendo do contexto em que é empregada, com a arte não seria diferente.
A palavra arte vem do latim ars, equivalente ao techné grego, ambos relacionados ao conjunto de regras para dizer ou fazer com acerto alguma coisa – ou seja, técnica, capacidade, habilidade. Se tomarmos este como seu sentido classificativo, entendemos que qualquer pessoa que siga um método está se utilizando de arte: um médico ao fazer uma incisão, um professor elaborando seu plano de aula, um servente limpando o chão. Todos estão usando arte em seus ofícios. Neste ponto fica impossível distinguir a produção artística como entendemos de qualquer outro tipo de técnica.
Quando se pergunta o que é arte, na verdade está se indagando sobre o sentido valorativo do termo. Mais especificamente, a pergunta trata do que nos referimos às obras de arte, ou, como dita por muitos, “Arte com A maiúsculo”, ou até mesmo “boa arte”. Daqui por diante, para simples efeito de distinção, passarei a adotar a palavra arte, com minúscula, para me referir ao sentido original da palavra, e Arte, com maiúscula, para abordar os aspectos valorativos do termo.
Mas então, afinal, o que é Arte? Muitas teorias se propuseram a responder essa questão buscando propriedades que as definissem em totalidade, buscando a essência comum entre todas as obras de Arte. São as chamadas teorias essencialistas, como a teoria da arte como expressão (só existe arte quando exprime a emoção do artista) e a da imitação (uma obra de Arte só acontece quando imita algo natural). Porém, as teorias essencialistas sempre falharam na tentativa de universalizar o conceito. Tratando-se das teorias citadas, a Arte não pode ser só uma imitação, pois abrange o abstracionismo, como também não depende da expressão do artista, pois vários foram os que não buscavam uma expressão pessoal
Dentre todas as teorias, a que mais pode fazer sentido é o conceito de “forma significante”, ou seja, classifica a arte como algo que gera um sentimento estético no espectador. Esse pensamento tira a autoridade do objeto e passa a figurar no espectador, assim como entendemos a idéia de beleza como “aquilo que apraz sem conceito”, defendida Immanuel Kant. Quando fruímos o verdadeiro deleite estético não precisamos de uma significação, apenas sentimos.
É importante, nesse ponto, que mudemos a abordagem da questão. Definir o que é Arte é uma tarefa tão complexa e subjetiva quanto definir o que é algo bonito ou gostoso, pois tudo faz parte de um sem número de fatores que influenciam nosso juízo estético. Se eu não gosto de peixe, isso não quer dizer que o peixe seja uma comida ruim. Se isto parece obvio, por que tanta gente generaliza o conceito de Arte usando unicamente valores pessoais? O que parece mais justo é que a questão seja revista para algo como “o que eu aprecio ou entendo como arte”, pois assim colocamos o foco na subjetividade de cada um, assumindo que Arte é um conceito individual e intransferível. Afinal, como diz o dito popular: o gosto pessoal não se discute, se lamenta.
Ato II – A arte e o design
De acordo com Charles Eames, “o design é um plano para dispor elementos de maneira a melhor atender a determinada intenção”. Essa definição pode ser vista de uma forma divertidíssima em um esquete do grupo inglês Monty Python, onde Michelangelo, supostamente contratado para pintar a última ceia, refuta com seu cliente – no caso o Papa – a importância da liberdade artística numa obra de arte, mesmo que se utilizem elementos sem a menor coerência, como gelatinas, cangurus e malabaristas para contar uma história bíblica. Vemos aqui que o trabalho de design não é uma criação subjetiva, ele está sempre focado a resolver as necessidades do cliente.
Passando do falso Michelangelo para o verdadeiro, o seu trabalho para o teto da capela Sistina, embora considerada uma das maiores obras de arte do mundo, também é um exemplo de design. Cercado por várias limitações criativas, refeito várias vezes, com orçamento apertado e em condições precárias de trabalho, nem de longe encontramos em Michelangelo a figura mítica do artista que trabalha pela pura licença artística, como se pensa por aí. Isso mostra que, o ato de se fazer design é bem anterior à própria invenção da profissão de designer.
Artistas não são apenas loucos que expõem coisas sem-pé-nem-cabeça em galerias. Artistas têm tanta técnica a aprender quanto os designers. Se você não acredita, procure entender como se faz um talho-doce ou a marca d’água de uma cédula, e por que esse tipo de arte ainda é usada por todas as casas da moeda do mundo inteiro como o método mais eficiente de segurança de papel moeda. Os processos de reprodução mecânicos como conhecemos hoje eram feitos artesanalmente por mestres em oficinas de gravura. Por isso, dizer que artistas não têm compromisso com a utilidade ou com a técnica, apenas com a expressão é uma generalização tão absurda quanto dizer que designers são pessoas que fazem coisas bonitinhas.
Grande parte do que conhecemos como obras de Arte, em sua origem foram trabalhos feitos por encomenda, exatamente como qualquer projeto feito hoje. Não é difícil encontrar na história da arte versões reprovadas de grandes obras, como as duas versões de “a virgem das rochas“, de Leonardo da Vinci. A arte sempre esteve ligada a funções comerciais: as pinturas rupestres estavam ligadas a crenças religiosas, as cerâmicas gregas eram utilitários domésticos, Tolouse-Lautrec teve grande expressão com seus cartazes publicitários, a arte nouveau trouxe aplicações artísticas para objetos do dia-a-dia, como saleiros e espelhos, até chegarmos à Bauhaus e ao que hoje conhecemos como design.
Design e Arte não são objetos diferentes, a problemática e a extensão deles é que os separam. A função vai definir a forma seja em um ou em outro, porém as aplicações são diferentes. Um cartaz de Mucha é uma peça tão comunicativa como uma capa da Moema Cavalcanti. Uma ilustração de Marcos Garuti poderia ser facilmente exposta em uma galeria. Algumas pinturas são feitas com uma paleta específica para melhor atender a decoração de uma casa e nem por isso são chamadas de ilustração. Sem falar dos trabalhos de David Carson, que desrespeitam a maioria dos cânones do design e mesmo assim atendem com perfeição o público que os consome. Arte e design são respostas, as perguntas é que são diferentes.
Ato III – Finale – Design é arte?
A palavra “arte plástica” vem do princípio de plasmar, ou seja, transformar em algo concreto uma idéia. Antigamente, as artes, de um modo geral, eram classificadas em dois grupos: as plásticas, que constituem todo tipo de manifestação de cunho estético-visual, como a escultura, pintura, gravura, arquitetura e o desenho, e as rítmicas, que possuíam a influência do tempo, som e movimento, como a dança, o teatro e a literatura.
Com o tempo, esses grupos foram se desdobrando graças o surgimento de novas tecnologias, algumas híbridas como o cinema e a televisão. Porém algumas ainda são facilmente enquadráveis na idéia de arte plástica, como a fotografia e, claro, o design. Sim, porque design é uma arte, pois requer técnica, e é plástica porque é visual. Isso nos prova o primeiro fato: design é uma arte, no sentido classificativo do termo. Uma arte plástica por natureza, assim como a arquitetura.
Partindo para o campo subjetivo, nos resta saber: afinal, design é Arte, assim, com A maiúsculo? A resposta é simples: quem sabe é você. O conceito valorativo de arte parte da sua referência intelectual e nada pode ser dito para mudar isso. Não importa se ela é aplicada, comercial, pura, expressiva ou o que seja. O único crítico dessas obras é o seu juízo de gosto.
Alguns podem pensar que este tipo de visão acaba caindo na máxima “se tudo é arte, nada é arte”. Não é bem por aí. Há de se pensar que tudo que é feito pelo ser humano, dependendo do contexto em que está inserido, pode ser visto como Arte, mas isso não quer dizer que seja realmente. Ser é bem diferente de entender como. É lógico que no meio de tanto embuste nas artes, fica difícil saber o que é realmente bom ou ruim, porém generalizar não resolve essa discussão.
Como disse Ernst Gombrich, “não existe Arte com A maiúsculo. Existem somente artistas. (…) Aquilo que chamamos ‘obras de arte’ não é fruto de uma atividade misteriosa, mas são objetos feitos por seres humanos para seres humanos”. De certa forma somos todos artistas e sempre há um pouco de arte e de Arte no que fazemos. Por isso, tentar colocar arte e design como problemas distintos é apenas tapar o sol com a peneira.
Os abutres de Carter
A fotografia sempre foi um dos mais importantes meios para se documentar nossa existência enquanto sociedade. Desde seu advento, acompanhamos nossa própria história através da objetivas de uma câmera, e nem podemos contabilizar todas as fotos que tiveram grande importância no mundo. Se por um lado a fotografia permitiu eternizar um fato em questão de frações de segundo, por outro lado se fez necessário questionar até onde é possível se fazer história ou alcançar um determinado objetivo sem ultrapassar as barreiras da ética.
Todos os dias as bancas de jornal nos oferecem um amontoado de publicações, muitas vezes de gosto duvidoso, onde podemos ver de tudo – de celebridades em momentos íntimos até cabeças esmagadas contra o asfalto, tudo sem a menor preocupação com bom senso. Isso gera uma importante discussão sobre os limites da ética e da moralidade nos trabalhos jornalísticos, ou mais precisamente para nosso interesse, os fotojornalísticos.
Em nossa vida já nos deparamos com um sem número de fotografias impactantes, sejam elas importantes ou não. Porém, a questão aqui tratada é se elas realmente precisam explorar esse caráter explícito para gerar uma discussão a respeito do assunto pretendido. Até onde é necessário mostrar a agonia de um ser humano para sensibilizar a sociedade? Essa realmente é a melhor forma de agir ou estamos simplesmente consumindo um subproduto de nossa própria mediocridade?
Se você leitor espera uma conclusão minha a respeito do assunto, pode adotar o próximo ponto como o final. Este artigo não pretende ser conclusivo, e sim busca fomentar o pensamento crítico a respeito dos limites da fotografia e de até onde a ética pode ou deve ser levada em conta dentro deste processo.
Afinal, quem são os verdadeiros abutres?
Kevin Carter era um fotógrafo sul-africano que retratou os horrores da guerra no Sudão. Tinha intenção de fazer uma fotorreportagem com as tropas rebeldes, mas percebeu que a maior guerra era pela sobrevivência. Em 1993, Carter se depara com o que seria mais uma cena típica de seu ofício: uma menina se arrastando para conseguir chegar ao campo de alimentação que ficava ali perto. Em uma pausa nessa estafante jornada, um abutre pousa perto dela esperando que a natureza providenciasse a sua própria refeição. Carter tirou algumas fotos daquela cena e esperou cerca de 20 minutos para que a ave fosse embora, o que não aconteceu até que ele próprio espantasse-a dali.
A fotografia da menina sendo espreitada pelo abutre foi vendida ao The New York Times, alcançando grande êxito, até que em 1994 foi vencedora do prêmio Pulitzer. Um pouco mais de 3 meses depois, Carter se suicida. Sua filha Megan disse mais tarde a respeito: “Eu vejo a criança em sofrimento como o meu pai. E o resto do mundo é o abutre.”
Nesse mesmo contexto, outro ganhador do famigerado Pulitzer em 2006 foi o trabalho fotojornalístico intitulado “a jornada de uma mãe“, de Renée C. Byer, que acompanhou a luta de uma mãe, Cindy, contra a doença de seu filho Derek, de 10 anos, portador de um neuroblastoma. Durante meses, Renée acompanhou e documentou a evolução do câncer que culminou na morte de Derek e o impacto da doença na família e nos amigos.
Muitas questões foram levantadas desde a publicação da matéria, até mesmo sobre se isso tudo não era puro exibicionismo de Cindy. Fato ou não, Byer comenta a respeito de seu trabalho:
“Como repórter me esforço para buscar histórias que ajudem a sensibilizar sobre os menos favorecidos. Era importante contar esta, porque se investem milhões de dólares na investigação do câncer, porém nada fazem para ajudar as famílias a enfrentarem o sofrimento emocional e financeiro, que tem um filho em estado terminal”.
Penso eu qual foi a real ajuda que Byer deu a família de Derek e a tantas outras mães que passaram pelo mesmo sofrimento. As opiniões são diversas, mas o que realmente me chamou atenção no assunto foi um vídeo onde Byer aparece comemorando com seus amigos de redação a vitória do Pulitzer. Enquanto a vitória é comemorada, o que sabe-se sobre Cindy é que perdeu um negócio próprio, enviou a filha de 6 anos para morar com o pai enquanto deixou os outros filhos desamparados emocionalmente. É obvio que não sabemos todos os pormenores da relação de Cindy e Byer, mas afinal, quem realmente ganhou nisso tudo?
A mesma pergunta me faço para um evento ocorrido em 1985 onde Omayra Sanchez, uma menina de 13 anos, ficou presa por escombros causados por uma erupção vulcânica que arrasou o povoado de Armero, na Colômbia. Durante as 60 horas em que ficou presa, Omayra teve atenção da imprensa mundial até a sua inevitável morte por falta de recursos técnicos para o resgate. A foto tirada por Frank Fournier serviu como pretexto para a discussão sobre o papel da mídia, que era capaz de transmitir em tempo real o sofrimento da pobre menina mas era incapaz de resolvê-lo.
Essas são só algumas de milhões de tragédias que são eternizadas através da fotografia. Desde um jornal de bairro sensacionalista até os ganhadores de prêmios importantes, estamos sempre diante de uma linha muito tênue entre o necessário e o nefasto. Reconhecer os limites entre os dois não é uma tarefa das mais simples. Conta-se uma história em que na hora da morte de John Kennedy, uma senhora perguntou a um fotógrafo:
- para que tanto sensacionalismo?
E o fotógrafo responde:
- isso não é sensacionalismo, é história!
Seja como for, sempre existirá a dor e quem se alimenta dela. A questão é saber identificar quem são os reais “abutres de Carter” ao nosso redor. Pode ser que não saibamos ao certo a resposta, mas uma coisa que posso afirmar sem a menor sombra de dúvida é que a única que não pode ser condenada nessa história toda é a própria ave.
Quero ser Gringo Cardia
Ou: As desventuras de ser um designer no Brasil.
Começo este texto de forma catártica: ser designer é um saco!
Recentemente, uma amiga me pediu o favor de avaliar a marca de sua empresa, encomendada ao filho de uma amiga pela bagatela de oitenta reais. Boa coisa não podia vir – e realmente não veio. Ratificando minha quase incontestável certeza, me deparo com uma composição absurdamente redundante, com todos os clichês possíveis e imagináveis, cores espasmódicas (já tentou ver um verde R:95 G:255 em seu monitor?), tipologia óbvia… enfim, um carnaval de aberrações.
Com aquele embaraço e um sorriso amarelo-ovo, tentei fazer de uma forma gentil que ela entendesse que aquilo era uma das piores coisas que já tinha visto na vida. Entendido meu ponto de vista, após um sorriso trivial, a punhalada foi inevitável:
– Mas sabe… eu gostei. Eu mesma que pedi pra ser assim.
Foram necessários alguns segundos para que ela desconstruísse qualquer argumento que me viesse à cabeça, afinal, se ela está satisfeita com o resultado, não há Bauhaus que dê jeito nisso.
Anos de aprendizado só não são suficientes para combater o juízo de gosto. Se o cliente quer assim, e está pagando por isso, qual o direito que temos de interferir nisso? Isso me fez refletir sobre como é sofrida a vida de um designer comum num país onde pouco se fala e nada se entende de arte.
A escola
Tudo começa com nossa infância, quando passamos as primeiras séries da escola brincando me massinha, desenhando, pintando com o dedo e sujando nossas roupas limpinhas com o que encontramos de mais imundo. Todos esses fatores tornam esta fase a mais criativa de toda nossa vida.
Até que entramos para a alfabetização, e daí por diante não temos mais tempo para explorar a sensibilidade. Somos, do dia para a noite, jogados em um mundo textual e dogmático, onde m vem antes de p e b e “mim” não conjuga verbo. Matemática, ciências, línguas e outras coisas psicodélicas vão entrando no currículo escolar, que mal sobra tempo para se lembrar da arte, a não ser por aquele cala-a-boca semanal chamado educação artística. Por fim, terminamos o colégio versados em todos os campos das ciências e das letras, porém, completos ignorantes visuais.
É hora, então, de saber o que se quer da vida e prestar vestibular. Enquanto alguns pretendem seguir como advogados, médicos, engenheiros ou zootecnistas, outros não conseguem se desgrudar de seus lápis de cor, compassos e pincéis. A esses sobra apenas buscar uma profissão que concilie vocação artística e estabilidade financeira, requisitos estes que os levam a escolher o disputadíssimo e “mudernoso” curso de design gráfico, outrora conhecido com o sisudo nome de desenho industrial.
E aí começam os problemas…
A faculdade
E lá está você, lindo e formoso como membro da elite dos estudantes de design. As portas da percepção foram purificadas e agora tudo parece infinito. Palavras sensacionais como briefing, branding, budget e target começam a pipocar na sua cabeça e um novo horizonte é vislumbrado. Você fica até às 3 da manhã fazendo um resumo sobre Umberto Eco, aprende todas as técnicas, macetes e truques possíveis dos mais modernos softwares, passa anos aprendendo sobre história e filosofia da arte, produção gráfica, ilustração, identidade visual, teoria da cor, semiótica, gestão, multimídia e mais uma infinidade de métodos que o torna capaz de oferecer o melhor para seus futuros clientes.
Ao longo do curso, todos os seus projetos foram aprovados com louvor pelos seus professores e agora é hora de por isso em prática. Neste momento você oficialmente deixa de ser um simples micreiro e se torna um designer, com todas as pompas necessárias ao título. É hora de mostrar às pessoas o seu potencial de transformar imagem em dinheiro. Você está pronto para seu cliente; mas será que seu cliente está pronto para você?
A prova real
Aviso aos navegantes: faculdade não é vida real. Na faculdade a gente adquire o péssimo hábito de fazer design para outros designers. O mercado brasileiro é uma realidade muito diferente de tudo que a gente vê nas faculdades ou nas Graphis da vida, e provavelmente a maioria dos seus clientes não vão fazer a menor idéia de que a cor do monitor não é a mesma que vai sair no papel. Também, provavelmente, não vão aceitar aquele seu projeto lindo de desconstrução tipográfica. Infelizmente vivemos sob uma ditadura econômica e cultural, onde quase sempre um projeto gráfico é analisado baseado no gosto pessoal. E isso não é tão difícil de entender e de aceitar.
Vivemos em um país onde 13% da população é analfabeta e que a economia informal é uma realidade. Onde mal se tem o indispensável, muitas coisas ficam para segundo plano, como a cultura visual e a qualidade. Para que um dono de padaria vai pagar dois mil reais em um projeto de identidade visual se o filho da amiga pode fazer por bem menos? Pouco importa a qualidade, o importante é ter. Até aí, é fácil de entender e de aceitar. O difícil mesmo é saber responder se todo designer tem condições de recusar “100 mangos”.
O designer brasileiro vai sempre estar diante de um dilema: até onde a ideologia é maior que a necessidade? Todos querem oferecer o que há de melhor, mais moderno e diferente, mas nem sempre é isso que o cliente pode ou quer pagar, e é nessas horas que os mais bacanas gritam que “é por isso que o mercado está desvalorizado”. Meu amigo, desvalorizado está o ser humano. Se você é capaz de ganhar dinheiro e manter a sua ideologia intacta, considere-se mais que um sortudo – um abençoado. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, já dizia o velho ditado.
É por isso que eu digo: ser designer é um saco! Estuda-se anos e anos, para, quem sabe, ser tratado como a mesma figura que ganhou oitentinha da minha amiga. Não quero, com esse texto, generalizar que todo designer é um ser frustrado e tolhido, afinal, existem casos e casos. É apenas um desabafo, um lamento de quem acha que vive em um lugar onde não só o design, mas a cultura visual, é para poucos. Andemos então até onde nossos sapatos agüentarem. Nem todo mundo pode ser um Gringo Cardia na vida.
Considerações sobre a utilidade da arte
“A arte diz o indizível;
exprime o inexprimível;
traduz o intraduzível.”
(Leonardo Da Vinci)
Ao nos agarrarmos a um lápis, um pincel, um formão ou a um buril, sentimos que algo inexplicável acontece. O impulso criador nos chama para a comunhão da tríade “criador-ferramenta-criatura”, fazendo com que esses materiais se tornem prolongamentos de nossas mãos, a fim de uma única função: criar coisas belas (1).
Sabemos que é este impulso que nos faz ficar debruçados sobre um trabalho durante horas, dias, semanas ou até mesmo anos, fazendo com que atinjamos o limite de nossas forças e de nossos sentidos. Este sentimento, infelizmente, não comunga com uma explicação lógica, de bate-pronto, que nos faça entender o porquê de comprometermos nossa própria sobrevivência em troca de algo que não é, propriamente, uma necessidade vital. Sendo assim, nos questionamos a respeito da real utilidade da arte e sobre sua importância, meditando sobre o quanto ela é realmente valiosa e indispensável para a humanidade.
Por não possuir uma relação fisiológica com o ser humano, a arte passa a figurar – erroneamente – no circuito dos fatores culturais. Embora de fácil aceitação, não podemos dar crédito a esta afirmativa, pois ela transcende qualquer tipo de formação cultural, a ponto de nunca ter havido, desde o início das organizações sociais, uma única sequer em que não se explorasse as possibilidades do fazer artístico, independente de sua finalidade. É certo que as primeiras formas de arte tinham um vínculo muito mais estreito com a religião (2) do que com o deleite estético, como hoje conhecemos. Na verdade, arte e religião praticamente nasceram juntas e possuem – até hoje – um elo quase indissolúvel.
Se explorarmos este tema, chegamos a associações inevitáveis. A arte, em seu início, era utilizada como forma de domínio da natureza. Ao desenhar toscamente um bisão com um punhado de terra colorida, nossos ancestrais supunham estar adquirindo um controle sobre a sua caça. Durante o decorrer dos séculos, esta idéia não foi totalmente perdida, sendo, de certa forma, berço de todo o fazer artístico.
Podemos dizer que a busca pela arte está associada à busca pelo êxtase e pela intenção de se manipular a natureza, a fim de manter-nos eternos através dos tempos. Encontramos, sem muitas dificuldades, indícios desta idéia na Poética, de Aristóteles. Os conceitos de mímesis e katharsis (3) reiteram, respectivamente, a intenção de aprisionar a natureza, e a partir dela obter a purgação das emoções provocadas. (4) Não é de se espantar a relação que existe entre os étimos gregos AISTHESIS, que significa “sensibilidade” e EKSTASIS, que significa êxtase.
Pode parecer incoerente afirmar que a arte ainda possui um vínculo religioso, mesmo diante das transformações culturais que a humanidade sofreu, inclusive no pós-guerra. Porém, em nenhuma dessas transformações a arte perde seu caráter espiritual, onde o artista, através da interferência na natureza, busca sua própria forma de êxtase, levando à imortalidade.
O filósofo Herbert Read, em relação à produção artística atual, afirma: “mesmo quando grandes artistas criaram obras-primas, aparentemente afastados de qualquer fé religiosa, quanto mais de perto lhes examinamos a vida, mais nos parece descobrir a presença daquilo que se poderá denominar sensibilidade religiosa.” (5) É através da arte que o homem dá vazão a seu caráter de sobrevivência e tenta estar presente na natureza durante a eternidade. Os homens passam, mas a sua arte fica.
A arte é inútil sim, como já disse Oscar Wilde,(6) porém, devemos entender esta sentença como a ausência de sua função prática. A razão dela existir não pertence somente à esfera racional, que irremediavelmente se associa a algum motivo doutrinário, didático ou social. Existe uma razão, porém, não há uma finalidade prática. Por isso, ela está muito mais ligada a necessidades espirituais que a razões fisiológicas (7).
É por isso que sempre devemos respeitar qualquer tipo obra de arte, pois, com certeza, ela é o símbolo da transmutação do ser humano, que o eleva à imortalidade da natureza. Neste ponto, a arte não imita a vida; ela a transcende.
(1) Considero a designação adotada por Ganzarolli, onde “nas coisas belas, nada se acrescenta, nada se suprime” (Oliveira, João Vicente Ganzarolli de. Do essencial invisível/arte e beleza entre os cegos, REVAN:FAPERJ, 2002, p. 26)
(2) Aqui, religião representa, de acordo com o novo dicionário Aurélio, ed. 1973, “reverência às coisas sagradas”, não necessariamente às organizações religiosas tradicionais.
(3) Imitação e purificação, respectivamente.
(4) “É pois a tragédia imitação de um caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamento distribuídas pelas diversas partes do drama, imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação destas emoções”
(Aristóteles, Poética, tradução, prefácio, introdução comentário e apêndices de Eudoro de Souza, Porto Alegre, Editora Globo, 1966, p. 74-75)
(5) Silveira, Antônio José da. Deus, homem, mundo e arte – a experiência religiosa na arte sacra. Revista Magis/Cadernos de Fé e cultura – Centro Loyola de Fé e cultura/PUC-RIO. (6) Prefácio do Livro “O Retrato de Dorian Gray”
(7) A arte está mais ligada a uma necessidade metafísica, como a religião, do que com a fisiologia humana, como a fome. Não comer resulta na extinção do ser humano, porém, a abdicação do fazer artístico não gera nenhum transtorno físico. Isso leva a crer –equivocadamente- que a arte é perfeitamente dispensável ao ser humano.
A gravura e a arte de imprimir o encanto
Se o Centro Cultural Banco do Brasil cometeu algum pecado mortal no último ano, com certeza a exposição Impressões originais: a gravura desde o século XV e a atenção que a instituição vem dando a esta técnica são motivos de sobra redimí-lo. Ter contato direto com trabalhos dos grandes mestres desde o século XV é algo inesquecível para qualquer admirador do gênero, mas é especialmente emocionante para um gravurista, que conhece e entende na prática o quão valioso é cada pequeno ponto visto com as preciosas lupinhas fornecidas aos visitantes.
Percorrer 500 anos de produção em uma exposição é mais que um presente para nós gravuristas, é uma dádiva. Quem não tem a opção de viajar pelo mundo para ficar cara a cara com um autêntico Goya, Picasso ou Rembrandt, com certeza vai se sentir em êxatse. E por falar em Rembrandt, não é a primeira vez que somos agraciados com suas gravuras. O próprio CCBB – abençoado seja – há alguns anos nos trouxe uma série de gravuras originais, que deixou até os mais distraídos espectadores um tanto quanto embasbacados. Mesmo a gravura sendo desconhecida, misteriosa ou até, em alguns casos, considerada ultrapassada, é difícil não ver alguém impressionado com a qualidade do material exposto nesta exposição.
Embora trágico, não deixa de ter um pouco de graça a total desinformação e o misticismo que a gravura (e até a própria exposição) carrega em seu próprio nome. Desde que entrei para a faculdade, já estive diante de diversas teorias sobre o que poderia ser a bendita: desde “colagem” (trazido por aqueles obscuros trabalhos de ciências do primário, onde a “tia” pedia para recortar e colar três gravuras de jornais ou revista de um tema proposto) até a hilária história de uma pessoa que entrou para o curso pensando que era para gravar discos de vinil. Menos divertido que a desinformação sobre “o que é”, é o “para que serve”. Este sim é um campo mais que fértil para associações nefastas, como: “não é mais fácil tirar uma xerox?”, “sabia que existe scanner?” ou então o meu favorito: “não é mais fácil fazer a nanquim?”.
Não é necessário ir muito longe para perceber o quão misteriosa a técnica pode parecer. Na própria exposição — à qual eu fui acompanhado de mais três amigos que, assim como eu, são formados em gravura pela EBA/UFRJ — eu conseguia perceber olhares curiosos e incrédulos para nós, que tínhamos alguma informação sobre o assunto. Sim, porque gravura, além de tudo, parece ser coisa de velho. Frases como “mostrar o buril”, “segurar firme no borriquete” ou “dar uma mordida profunda” proferidas por três jovens de vinte e poucos anos têm um cunho sexual muito maior do que esperávamos.
Me ocorre que na época em que eu fiz pré-vestibular havia a tradicional chacota com o curso de menor procura. Durante um bom tempo, a cadeira de oboé foi a grande vítima dos gracejos dos vestibulandos: “se eu não conseguir passar para medicina, tentarei oboé” ou então “eu passarei, nem que seja para oboé” eram piadas corriqueiras entre nós. No ano passado, conheci duas meninas, sete anos mais novas e ainda vestibulandas, que se assustaram ao saber da minha formação de gravurista. Não entendendo muito bem o porquê de tanto espanto, fui esclarecido que o posto que outrora era do oboé tinha sido tomado pelo curso de gravura. Surpresa para elas foi saber que existia alguém realmente formado em tal curso. Eu imagino o estranhamento dessas meninas, hoje grandes amigas, quando me ponho a pensar como seria se alguém me dissesse que era formado em oboé quando eu estava no pré-vestibular. Pois uma das melhores surpresas que tive foi encontrar justamente com uma dessas amigas bem no meio dessa exposição, cujo tema era algo que há algum tempo parecia obscuro demais.
Se de tudo esta mostra é um sonho para todos os gravuristas ou admiradores da técnica, vale ressaltar existe uma deficiência (ou seria inexistência?) de um foco informativo para o público leigo. Creio que uma exposição desta amplitude e com esta temática demanda de uma didática muito bem elaborada para que o público não saia dali achando que são apenas desenhos ou, no máximo, desenhos reproduzidos. Não é difícil confundir uma xilogravura a buril com uma gravura em metal ou uma serigrafia com uma litografia. Desmitificar, mostrar, ensinar e popularizar a gravura deve ser função não só dos espaços culturais, mas dos próprios artistas. Não se limitar à sua torre de marfim e se empenhar um pouco mais em fazer o espectador entender seu trabalho, sua linguagem, o porquê e como de cada técnica é obrigação de todo aquele que tem amor pelo que faz.
Confesso que, voltando um pouco, teve um sabor especial encontrar esta amiga justamente nesta exposição. O tom jocoso de algum tempo atrás tornou-se, no mínimo, curiosidade. A gravura tem por si esse poder de encantar, de prender quem a conhece. Não é uma obra aberta, que deve ser vista a distância. Temos que nos debruçar sobre ela, para que através do micro consigamos entender o macro e, para este fascínio se tornar real, basta o simples ato de conhecer. São essas pequenas coisas que a gravura precisa para, enfim, assumir um papel mais digno na arte contemporânea.
Impressões originais: a gravura desde o século XV
Em cartaz até 29 de abril de 2007
Terça a domingo, 10 às 21h
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março 66
Centro – Rio de Janeiro
A história impressa pela Lithos

Zincografia
46 x 29 cm
1939
Coleção João Candido Portinari
impresa por Genaro louchard Rodrigues
Nesses tempos de banalização das artes gráficas, onde qualquer pessoa, seja seu grau de instrução, é capaz de operar essa maquininha divertida e abençoada chamada computador, pouco tempo sobra para entendermos e apreciarmos a história que nos trouxe até o presente momento. Se hoje em dia é fácil desenvolver um projeto em um aplicativo gráfico e torná-lo tátil através de milhões de opções, das impressoras pessoais até sofisticados equipamentos hexachrome, há pelo menos 30 anos as coisas eram bem diferentes. Se por um lado a tecnologia nos proporcionou a democratização dos processos gráficos, na outra face da moeda vemos o uso indiscriminado desses recursos, causando, infelizmente, uma queda significativa da qualidade dos trabalhos impressos.
No meio dessa infindável gama de opções e da sempre mais empenhada correria para se descobrir novas tecnologias que auxiliem o artista gráfico, resiste bravamente uma solitária voz que nos chama a voltarmos os olhos para a beleza de nosso (nem tão) passado cultural, nos colocando quase que literalmente em um túnel do tempo. A Lithos Edições de Arte, criada formalmente em 1973, mas que conta com 80 anos de tradição passada de pai para filho, é uma das poucas pontes que nos fazem desfrutar de uma época em que realmente era preciso ser bom para ser reconhecido, e é justamente o compromisso com a qualidade que permite que, em pelo século XXI, possamos admirar artesãos operando equipamentos do século XIX.
A Lithos é uma empresa especializada em impressões serigráficas e litográficas que ainda está em plena atividade produzindo materiais artísticos diversos, desde tiragens de originais até livros de arte, todos feitos artesanalmente e assinados a mão pelo próprio artista. Na oficina, mestres, impressores, coloristas e prensistas não só são os responsáveis em transformar o imaginário do artista em matrizes de pedra, zinco ou nylon, mas também por manter viva a tradição da gravura artesanal, incentivando jovens e experientes gravadores a produzir e divulgar seus trabalhos.
É com este clima de volta às origens que o SESC Flamengo exibe uma pequena parte dessas relíquias na exposição “Litografia e Serigrafia – História impressa pela Lithos”, um panorama da produção de trabalhos para grandes nomes das artes plásticas e da arquitetura, como Di Cavalcanti, Portinari, Volpi, Scliar, Gerchman, Djanira, Kracjberg, Glauco Rodrigues, Niemeyer, Lucio Costa, Athos Bulcão, Burle Marx, da Costa, Carybé, Lan, Siron Franco, Carlos Leão, Cildo Meirelles, Anna Letycia, Palatnik, Aldemir Martins, Darel, Brennand, dentre outros. A exposição, dividida em 8 módulos que abrangem quase todo o repertório de serviços oferecido pela Lithos, além de didática é referência obrigatória para profissionais e estudantes de artes gráficas, principalmente para que os mais aprisionados pelas novas tecnologias tenham a oportunidade de contemplar a beleza e a excelência dos processos gráficos artesanais que, graças ao bom Deus, ainda estão vivos.
Litografia e Serigrafia – História Impressa pela Lithos
Espaço Cultural Arte Sesc, Rua Marquês de Abrantes 99, Flamengo, 3138-1343. Ter. a sáb., 12h/20h. Dom., 11h/17h. Grátis. Até 30 de julho de 2006.

Homenagem a J.Carlos. Centenário do Caricaturista.
Ziraldo
Serigrafia
50 x 70 cm
1984

Tunga
Impressão pelo processo litográfico
70 x 60 cm
2006

Em Busca da Memória Rio de Janeiro / 1874
Carlos Scliar
Praça do Mercado
Serigrafia
35 x 50 cm
1997

Rubens Gerchman
Pelé
Serigrafia
50 x 50 cm
1998

Di Cavalcanti
Realismo Mágico
Serigrafia
50 x 70 cm
1976

Athos Bulcão
Natividade
Serigrafia
50 x 70 cm
1998

Milton Dacosta
Figura com Chapéu
Serigrafia
94 x 54 cm
1982

Cildo Meirelles
Futebol
Serigrafia
50 x 50 cm
1989

Borjalo
Serigrafia
50 x 70 cm
1984
Links externos:
- Lithos
- Litografia
- Serigrafia
- Rafael Frota, autor deste artigo, é também designer e gravurista.
- Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral no MAM
- Di Cavalcanti, Emiliano – site oficial
- Projeto Portinari
- Carlos Scliar @ Wikipedia
- Ziraldo – site oficial
Leia também:
Porquê não concordar com a regulamentação da profissão de designer
Em 2003, pelo menos dois projetos de lei a favor da regulamentação da profissão de designer caíram no conhecimento dos profissionais da área: um do Sr. Carlos Nader e outro do Sr. Eduardo Paes. O projeto do Sr. Nader, na verdade, foi um grande equívoco em todos os sentidos, pois tratava, segundo seu próprio texto, de “regulamentar o exercício profissional de Web designs (sic), e dar providências”. Já o projeto do Sr. Paes é mais consistente, não se perde em erros classificatórios e pode ser considerado de uma grande boa intenção.
Com todas estas propostas, porém, há uma dúvida a respeito de tanta mobilização: a quem realmente interessa a regulamentação da profissão de designer? Ao cliente, diria uma boa parte; ao designer, diria outra parte mais corajosa. Entretanto, uma coisa é certa: boa parte dos profissionais de design alega que somente aos profissionais não formados, aos intrusos e aos chefes interessa a não regulamentação.















































