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ISSN 1980-7767

ano 5
edição atual: número 24, março & abril de 2010

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10/1/2010

Do padecer da crítica

Este artigo, inicialmente, trataria de um assunto que considero muito mais nobre em sua essência, já que seria uma reflexão sobre o papel da crítica de arte na era da comunicação global.  Infelizmente, ao pesquisar sobre o assunto percebi que o problema se dava muito antes de se ter algo para criticar e ia muito além do que a própria crítica em si. Ao que parece, sustentar uma opinião tornou-se um motivo para que qualquer pessoa seja merecedora de um linchamento moral – e às vezes até físico – só por ter um ponto de vista divergente de alguém.

É óbvio que não se trata de generalizar indiscriminadamente a situação, e que ainda é muito edificante poder debater uma idéia, inclusive com pessoas de opiniões contrárias às nossas. Porém, com a democratização dos meios de comunicação, isso ficou muito mais difícil, sendo necessário analisar bem onde e com quem abrir a boca.  Opinar nunca foi tão fácil: twitter, blogs, redes sociais e até o quase finado e-mail são ferramentas que não requerem esforço e ainda agregam a vantagem do anonimato, que é um prato cheio para quem tem preguiça de assumir o que diz.   Se por um lado a internet democratizou a opinião pública, por outro deu voz a um sem número de pessoas às quais a maior dádiva seria o silêncio.

A opinião é, a meu ver, uma das características que nos distinguem de símios que reviram, com um fêmur em mãos, uma carcaça de bisão. É importante ressaltar, porém, que ter opinião não significa, necessariamente, que ela esteja certa, ou, ainda, que devemos levá-la a sério. Sobre isso, o filósofo Olavo de Carvalho comentou certa vez em seu True Outspeak que “o direito de se ter opinião é proporcional ao interesse sincero que você tem sobre o assunto. Se você não tem interesse sobre o assunto ou sequer lê alguma coisa, por que devemos ter o interesse de ouvir a sua opinião?”. Para complementar o raciocínio, ele propõe a criação de um supositório de opinião, que a meu ver seria a solução ideal para determinadas pessoas que ainda insistem em transferir o motivo de um debate do assunto para o sujeito.

Quem quer ser levado a sério deve ser tratado seriamente, por isso é infundada a reação que alguns críticos têm de se sentirem ofendidos ao menor sinal de questionamento, como se isso fosse sinal da mais vil censura ou, no mínimo, exemplo de pura presunção – palavra que muitas vezes só é uma forma pomposa de julgar alguém que ousa saber mais do que outra pessoa. Nesse ínterim, o questionamento da idéia passa a ser tratado como questionamento do caráter. Para alguns, a crítica virou um mero exercício do jus esperniandi.

Vale ressaltar que crítico é qualquer pessoa que exerce o poder de crítica, palavra essa que, derivada do grego krinein, significa separar, julgar. A todo momento emitimos julgamentos acerca de alguma coisa, por mais trivial que ela seja: uma refeição ruim, uma embalagem não muito prática, um filme modorrento. Não é preciso ser um gourmet, um designer ou um cineasta para formar a nossa opinião, e é por isso que, neste aspecto, este artigo não diferencia profissionais ou amadores. A (in)capacidade de se fazer uma crítica séria e embasada  é abrangente àqueles que têm algo relevante a ser dito, independente de projeção profissional.

A grande arma do falso crítico é, como denominou Schopenhauer, a dialética erística, que se concentra em desqualificar o adversário para vencer um debate sem precisar ter razão ou sequer discutir o assunto proposto.  É o que vemos por aí quando se fala mais da pessoa do que da idéia, produzindo respostas baseadas unicamente em pressupostos sobre o caráter, a escolaridade, o nível cultural e, acredite, até a opção sexual da pessoa.

O fato é que a culpa não é unilateral. Por um lado estão muitos críticos ditos especializados, sentados em suas torres de marfim, ditando o que é in e o que é out, rebaixando artista e público a escravos de suas pretensões. Por outro, determinado nível de público que se utiliza apenas da própria “embocardia” mental para exercer seu direito de opinião, declarando guerra a quem ouse pensar diferente. Nesse badminton de vaidade, só quem perde é o público para o qual uma crítica é – oh! – apenas uma crítica. Dialogar, às vezes, deixa de ser um exercício filosófico para ser um exercício de autocontrole.

Como no dito popular, grandes mentes discutem idéias, mentes pequenas discutem pessoas.  Nesse contexto, acho interessante salientar um trecho de uma crônica de autoria de César Boschetti, na qual ele diz que “a crítica, se arrebatada e irrefletida, é simples bravata. Se maledicente e sem propósito, é mera calúnia. Se arrogante, apenas humilha e destrói. Se hipócrita, só confunde. Se fria e racional, torna-se tediosa. A crítica deve ser oportuna sem ser oportunista. Deve provocar, mas não ofender. Deve questionar ao invés de julgar. Deve ser inteligente, sem ser sábia. A crítica deve ter paixão para ser humana e indignar-se para ser autêntica. A crítica deve ser criança sem ser infantil e madura sem ser caduca.”

Fica cada vez mais difícil se posicionar ideologicamente sabendo que existe tanta intemperança, que acaba ocorrendo o que eu chamo de “hipolexia de rebote”, ou seja, o trabalho de manter uma discussão em um nível aceitável, sem cair em armadilhas manjadas, é tão grande, que às vezes é muito melhor ficar quieto para evitar uma úlcera. Até porque nunca devemos discutir com um incapaz, porque ele tende a levar tudo ao próprio nível para vencer por experiência. A esses, melhor seria se a invenção do professor Olavo fosse verdade.

20/7/2009

Segundas intenções – onde está a experiência estética?

Tente se imaginar na seguinte situação: em uma galeria, são apresentados, lado a lado, dois quadros que têm como características principais um traço inocente e formas simples, desapegadas à realidade. A figura humana é modelada apenas com um círculo e um punhado de retas, e as cores, as mais básicas possíveis. A composição não é muito bem arranjada, sem nenhuma noção de perspectiva, e o motivo, o mais simplório possível: uma família num dia de sol, com direito a arco-íris e tudo mais. (more…)

27/3/2009

A eterna novela: arte e design em três atos

Ato I – O que é arte

Todas as palavras podem assumir várias significações, independente do real sentido que elas exprimem. Podemos usar a palavra filme, por exemplo, tanto para exprimir aquilo que vemos no cinema ou na televisão quanto para enaltecê-lo, como na frase “isso sim é um filme”. Ao usarmos a palavra em seu sentido original, tomamos seu sentido classificativo, ou seja, a palavra exprime exatamente o que ela propõe. Se, ao contrário, a usamos para exaltar uma qualidade, estamos usando o seu sentido valorativo. Se cada palavra pode assumir um sentido, dependendo do contexto em que é empregada, com a arte não seria diferente. (more…)

7/2/2009

Os abutres de Carter

A fotografia sempre foi um dos mais importantes meios para se documentar nossa existência enquanto sociedade. Desde seu advento, acompanhamos nossa própria história através da objetivas de uma câmera, e nem podemos contabilizar todas as fotos que tiveram grande importância no mundo. Se por um lado a fotografia permitiu eternizar um fato em questão de frações de segundo, por outro lado se fez necessário questionar até onde é possível se fazer história ou alcançar um determinado objetivo sem ultrapassar as barreiras da ética. (more…)

15/7/2007

Quero ser Gringo Cardia

Ou: As desventuras de ser um designer no Brasil.

Começo este texto de forma catártica: ser designer é um saco!

Recentemente, uma amiga me pediu o favor de avaliar a marca de sua empresa, encomendada ao filho de uma amiga pela bagatela de oitenta reais. Boa coisa não podia vir – e realmente não veio. Ratificando minha quase incontestável certeza, me deparo com uma composição absurdamente redundante, com todos os clichês possíveis e imagináveis, cores espasmódicas (já tentou ver um verde R:95 G:255 em seu monitor?), tipologia óbvia… enfim, um carnaval de aberrações.
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22/3/2007

Considerações sobre a utilidade da arte

“A arte diz o indizível;
exprime o inexprimível;
traduz o intraduzível.”
(Leonardo Da Vinci)

Ao nos agarrarmos a um lápis, um pincel, um formão ou a um buril, sentimos que algo inexplicável acontece. O impulso criador nos chama para a comunhão da tríade “criador-ferramenta-criatura”, fazendo com que esses materiais se tornem prolongamentos de nossas mãos, a fim de uma única função: criar coisas belas (1).
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20/3/2007

A gravura e a arte de imprimir o encanto

Se o Centro Cultural Banco do Brasil cometeu algum pecado mortal no último ano, com certeza a exposição Impressões originais: a gravura desde o século XV e a atenção que a instituição vem dando a esta técnica são motivos de sobra redimí-lo. Ter contato direto  com trabalhos dos grandes mestres desde o século XV é algo inesquecível para qualquer admirador do gênero, mas  é especialmente emocionante para um gravurista, que conhece e entende na prática o  quão valioso é cada pequeno ponto visto com as preciosas lupinhas fornecidas aos visitantes.
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9/7/2006

A história impressa pela Lithos

Portinari
Portinari
Zincografia
46 x 29 cm
1939
Coleção João Candido Portinari
impresa por Genaro louchard Rodrigues

Nesses tempos de banalização das artes gráficas, onde qualquer pessoa, seja seu grau de instrução, é capaz de operar essa maquininha divertida e abençoada chamada computador, pouco tempo sobra para entendermos e apreciarmos a história que nos trouxe até o presente momento. Se hoje em dia é fácil desenvolver um projeto em um aplicativo gráfico e torná-lo tátil através de milhões de opções, das impressoras pessoais até sofisticados equipamentos hexachrome, há pelo menos 30 anos as coisas eram bem diferentes. Se por um lado a tecnologia nos proporcionou a democratização dos processos gráficos, na outra face da moeda vemos o uso indiscriminado desses recursos, causando, infelizmente, uma queda significativa da qualidade dos trabalhos impressos. (more…)

31/5/2006

Porquê não concordar com a regulamentação da profissão de designer

Em 2003, pelo menos dois projetos de lei a favor da regulamentação da profissão de designer caíram no conhecimento dos profissionais da área: um do Sr. Carlos Nader e outro do Sr. Eduardo Paes. O projeto do Sr. Nader, na verdade, foi um grande equívoco em todos os sentidos, pois tratava, segundo seu próprio texto, de “regulamentar o exercício profissional de Web designs (sic), e dar providências”. Já o projeto do Sr. Paes é mais consistente, não se perde em erros classificatórios e pode ser considerado de uma grande boa intenção.

Com todas estas propostas, porém, há uma dúvida a respeito de tanta mobilização: a quem realmente interessa a regulamentação da profissão de designer? Ao cliente, diria uma boa parte; ao designer, diria outra parte mais corajosa. Entretanto, uma coisa é certa: boa parte dos profissionais de design alega que somente aos profissionais não formados, aos intrusos e aos chefes interessa a não regulamentação.

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