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Category Archives: edicao_0003

lista de artigos da edição 3, ano 1 – setembro & outubro de 2006

O Halloween é uma festa de origem pagã celebrada, todo ano, no dia 31 de outubro, véspera do dia de Todos os Santos. E realizada em grande parte dos países ocidentais, porém é mais representativa nos Estados Unidos onde chegou pelas tradições dos imigrantes irlandeses, em meados do século XIX.

A história desta festa tem mais de 2500 anos e origina-se entre o povo celta, que acreditava que no último dia do verão (31 de outubro, no hemisfério norte), os espíritos saiam dos cemitérios para tomar posse dos corpos dos vivos. Para espantar estes espíritos, os celtas colocavam em suas casas, objetos assustadores como, por exemplo, caveiras, ossos decorados e abóboras enfeitadas. Por ser uma festa pagã foi condenada na Europa durante a Idade Média, período conturbado da história religiosa mundial e, como muitas outras tradições populares, passou a ser chamada de Dia das Bruxas. Assim, quem comemorasse a data era considerado “bruxo” também e, desta forma, era perseguido e condenado à morrer queimado na fogueira pela Inquisição. Como não conseguiu acabar com a tradição pagã, a igreja “inventou”, na mesma época vem a comemoração do Dia de Finados (2 de novembro), numa tentativa de diminuir as influências pagãs na Europa Medieval.

No Brasil a comemoração desta data é relativamente recente e chegou através da influência da cultura americana, principalmente pela televisão e pelos cursos de língua inglesa, pois estes comemoram esta data com seus alunos como uma forma de vivenciar a cultura norte-americana.

Muitos brasileiros defendem que a data nada tem a ver com nossa cultura e, portanto, não deveria ser comemorada, o que eu discordo.

É certo que o Brasil tem um folclore significativo e que este deveria ser mais valorizado, mas nosso folclore também é originado em tradições e costumes trazidos por outros povos, não?

O próprio mito do Saci sofreu influências das diversas culturas que formam o universo da chamada “Cultura Brasileira”. Surgido entre povos indígenas da região Sul do Brasil, ainda no período colonial (os estudiosos acreditam que a data provável é no fim do século XVIII), ao “migrar” para o norte do país, ambos, o mito e o personagem sofreram influências da cultura africana e o Saci transformou-se num jovem negro com apenas uma perna (de acordo com o mito, o jovem perdeu a outra perna numa luta de capoeira), que usa um um gorro vermelho e um cachimbo (itens da cultura africana).

Suas “travessuras” como “esconder objetos domésticos”, “fazer ruídos estranhos para assustar cavalos e bois no pasto”, etc, como contam as tradições, são bem semelhantes aos relatados como “ações” dos duendes e gnomos de origem celta. E, igualmente, não são “maldades”, mas sim “brincadeiras”. Conta a lenda que quem consegue capturar um Saci terá “autoridade” sobre ele e terá desejos atendidos. O que é semelhante com os gnomos e duendes, e também com os “gênios das lâmpadas” do oriente, não? Todos eles findam em uma mesma origem: a necessidade humana de arranjar soluções “mágicas” para problemas e conflitos pessoais (falta de dinheiro, amores não correspondidos, etc.) que não se sente apta a resolver e, desta forma, uma solução “mágica” se mostra como perfeita. A forma de representação desse mito pode variar, mas não acredito que a valorização de identidade cultural brasileira necessite do aniquilamento de novas tradições.

A criação, por lei, pelo governo de São Paulo (de abrangência municipal, na capital, e estadual), em 2005, o Dia do Saci (comemorado também em 31 de outubro) vejo como tão “imposta” quanto a declarada “imposição” cultural do Halloween… Se as pessoas resolveram comemorar o Haloween é porque esse mito repercute nelas, seja por desconhecimento do outro, seja por identificação pessoal. Não é com “lei” que se mantém tradições e cultura de um povo, mas com educação!

Cultura é uma coisa viva e, desta forma, incorpora novos elementos ao longo do tempo… Como um dia incorporamos o Saci, a Mula-sem-Cabeça, etc. e mesmo as “lendas urbanas”… Somos, em essência, multiculturais.

Assim, dia 31 de outubro, com Saci ou Halloween, mais importante do que implicar com uma tradição e forçar a manutenção de outra, o essencial é saber o que cada uma significa, sua origem e história, e os motivos da existência ou permanência da tradição numa cultura.

Patti Smith é a fusão do rock com a poesia. Seu trabalho é fortemente influenciado por Arthur Rimbaud. Com um carisma e simplicidade inegáveis, a cantora de 60 anos se apresentou no Tim Festival com a mesma energia e determinação do começo da carreira. Bastou por os pés no palco e cantar a primeira música para ganhar o público. O show é impressionante do início ao fim. É incrível ver que Patti Smith não bebe uma gota de água e alterna com facilidade a voz de trovão e o seu canto melodioso. É a técnica aliada à música e à ideologia.

Patti Smith

Patti Smith falou de igualdade, disse que não é preciso uma igreja para unir as pessoas. Dedicou músicas aos que sofrem na mão da polícia e de soldados que invadem seus países. Lembrou que a única arma que alguém precisa é uma guitarra. Comentou as eleições para presidente no Brasil e disparou o clássico “People don’t serve the government. The government serves the people”. Patti Smith é a versão original e orgânica de V for Vendetta, sem máscara, sem bombas, somente coma música.

A cantora está na estrada desde 1975. É uma artista à altura de Jim Morrison e David Bowie, nada menos que uma lenda viva. Tem mais de 10 álbuns no currículo, entre eles LAND, uma mistura de coletânea, raridades e inéditas. Ao lado de Lenny Kaye (guitarrista, uma atração a parte), a poetisa não economizou sucessos, cantando Gloria, People have the power, Free money, Say you want to be e Because the Night, entre outras. Um dos melhores shows da história do Tim Festival / antigo Free Jazz Festival).

O Mombojó mostrou no Tim Festival porque é considerado um grupo altamente criativo. Os sete integrantes misturam ritmos diversos, conseguindo uma harmonia que desafia a lógica. Uma música que começa como um rap vira um rock e ganha a flauta do chorinho. Se você  acha que está diante de um rock, de repente ouve um synthpop que logo se transforma num samba. Felipe S adapta bem a sua voz a todos os estilos. Tem potência vocal para o grunge e para o soul. Ao vivo, a sua performance e a interação do baixista Samuel são armas extras para entreter a platéia. Só pesou contra o palco armado para Patti Smith e Yeah Yeah Yeahs, o que deu uma potência exagerada às músicas, desviando um pouco da identidade musical do grupo.

Mombojó

O Mombojó já lançou dois discos, Nada de novo e Homem-espuma. Como são defensores da troca livre de arquivos pela rede, todas as faixas dos cds estão disponíveis para download no site do grupo.

Jay Vaquer está fazendo uma mini-turnê no Teatro Odisséia, no Rio de Janeiro. Apesar dos problemas técnicos inerentes ao lugar, o cantor conseguiu exibir o potencial pop-rock do seu trabalho, lotou a casa e deixou boas impressões.

Jay Vaquer é performático, canta de verdade (o que hoje em dia é um diferencial) e é acompanhado por músicos de primeira. O repertório inclui todas as músicas de trabalho até o momento – A miragem, Aponta de um iceberg, Pode agradecer, Cotidiano de um casal feliz e A falta que a falta faz – passeando pelos 3 cds do cantor.

Jay Vaquer

De bônus, há a projeção dos videoclipes, um cover de Condição (Lulu Santos), e o coro dos fãs desde a primeira até a última música.

Destaque também para a versão reformulada de Mais um dia.

Imagine se Mulher Maravilha trabalhasse no Cirque du Soleil e berrasse como o Marilyn Manson uma espécie de recital dos Teletubbies. Assim é o Yeah Yeah Yeahs, atração EMO do Tim Festival. Muito se fala da performance da vocalista Karen O e muito pouco sobre o seu talento como cantora. Isso não é por acaso. Cobrir a cabeça com panos e cuspir pro alto talvez seja mesmo uma apresentação visceral, já que parte de suas vísceras devem estar no palco até agora. Karen O está muito além da banda. É seu “talento” que move o sucesso do grupo, com dois CDs lançados, Fever to tell e Show your bones. Não é raro que durante a apresentação, apesar do barulho ensurdecedor, nenhum dos integrantes esteja tocando os instrumentos. A voz de Karen O também é inaudível, até que ela resolva berrar desesperadamente ou interagir com seu público de réplicas mirins falando “Fiesta Tonight”.

O rock EMO divide atualmente as rádios americanas com os rappers. Aqui no Brasil, tem fãs incontestáveis que usam os cortes de cabelo e roupas idênticos e se comportam de forma similar, sem muito interesse no que acontece no restante do mundo.

YYY

O Yeah Yeah Yeahs é considerado a grande promessa do futuro. Talvez seja como o Brasil, o país do futuro que nunca chega. Se o grupo já encontrou seu perfil de atitude, é hora de entender que a música deve ser mais importante que o penteado, e evitar correr o risco de virar uma Britney Spears de gel e piercing. Pensando bem, o piercing a Britney já tem. Só falta o gel.

YYY

Por fim, uma injustiça deve ser corrigida. Grupos como o Yeah Yeah Yeahs não têm nada de atitude punk. O punk rock ganha em ideologia, atitude e qualidade musical desse estilo EMO de ser, um subgênero do hardcore, ligeiramente alterado para ser palatável às rádios e às massas.

Robbie Williams fez parte da insuportável boy band Take That. Contrariando expectativas, firmou-se em carreira solo como o grande nome da música pop inglesa. Apesar de toda a atitude no palco, o cantor está mais para um criador de bons singles do que um músico de bons álbuns. Seu Greatest Hits tem diversos pontos altos, mas infelizmente sobra pouco para se garimpar nos cds que o originaram. Em Rudebox, o segundo após a coletânea, Robbie Williams aproxima seu pop da dance music, homenageia (ao seu modo) Madonna e Pet Shop Boys e grava covers do Human League e do Manu Chao.

Robbie Williams

Seguindo a regra dos álbuns anteriores, Rudebox não consegue se sustentar durante as 16 faixas. As músicas interessantes surgem quando o cantor se dilui diante das influências. Bons exemplos são Summertime, um mergulho na sonoridade do Erasure, Lovelight, que se apropria das batidas do Prince, e The Actor, um híbrido de Pet Shop Boys e Kraftwerk.

Para a sociedade contemporânea, WWW refere-se diretamente à Web. Essa teia que encurta o mundo e conecta pessoas muito diferentes, que de outro modo provavelmente não se conheceriam. Não estamos falando só de união, mas de interferência, o foco dessa co-produção entre França, Marrocos e Alemanha. O diretor Faouzi Bensaïdi impregnou o filme dessa idéia de união interferente, propondo desde o título uma comparação com o conceito utópico de “What a Wonderful World”.

 diretor Faouzi Bensaïdi
diretor Faouzi Bensaïdi

A história gira em torno de um assassino profissional que se apaixona por uma guarda de trânsito. Entre encontros e desencontros, tentam começar um romance. Do outro lado, um hacker quer deixar a qualquer custo o seu país. Pesquisando na internet um modo de realizar seu sonho, descobre que o assassino recebe suas “missões” através de um site codificado e passa a acompanhar os crimes. As aspirações desses três personagens movem o drama, criam a comicidade narrativa e visual.

WWW

Imageticamente, WWW é assim. Um quebra-cabeça visual, um somatório de miudezas que alimentam o lado conceitual igualando-o em importância à sua narrativa.

A brincadeira das composições que equilibra lirismo e drama pode ser entendida melhor pelas seguintes cenas: um homem caminha a passos lentos na rua que tem poucas construções. Seus passos têm sempre a mesma distância e o mesmo ritmo, o mesmo com as mãos. Mais atrás, surge um surfista de bermuda, sem camisa, com a prancha no ombro. Não vemos o seu rosto. Ele e a prancha formam um T. Aos poucos ele acelera e a ponta da prancha cobre também o rosto do primeiro homem, seus passos adquirem a mesma distância e ritmo, pura sincronia. São dois TTs unidos pela prancha. Quando chega ao seu destino, o primeiro homem vira, entra em uma loja. O segundo continua a caminhar e some. Em outro instante, uma guarda de trânsito, em cima de uma pequena plataforma, comanda um balé lírico de carros em um cruzamento. Eles passam, voltam, giram, se intercalam em movimentos e cores.

WWW

O capricho visual não é por acaso. Nos bons filmes, o cenário costuma ser uma extensão do personagem e fala tanto dele quanto o próprio, assim como o nosso quarto em casa. Em WWW, o ambiente deixa de ser passivo e exerce influência sobre o personagem, impondo uma troca. A rede social de WWW funciona assim. Os personagens exercem influência mútua, transmitem e captam em sincronia. Um microssegundo de contato com alguém é suficiente para causar a troca.

WWW – What a Wonderful World é uma dessas pérolas perdidas do cinema. Destaque para Faouzi Bensaïdi, que também é roteirista e ator (o assassino), responsável pela cena mais engraçada da película.

Brian de Palma possui no currículo os sucessos financeiros de Missão Impossível (US$180 milhões) e os Intocáveis (US$76 milhões), fiascos como Femme Fatale (US$6 milhões), e é o responsável pelos clássicos Scarface e Carrie – a estranha.

Dália Negra, a princípio, não deve cair em nenhuma das categorias. O filme sofre da síndrome das adaptações literárias, uma espécie de melhores momentos do livro que nem sempre servem para o andamento da trama. As coisas se complicam um pouco mais quando estamos falando de um noir. Há quem diga que o noir não chega a ser um gênero, e sim um conjunto de características que pode povoar qualquer película. Encontramos esses elementos diegéticos em filmes distintos como Se7en – os sete pecados capitais, Blade Runner, Sin City ou Coração Satânico. Seguindo esse raciocínio, Dália Negra (o filme, não o livro) é um romance que abusa da roupagem do noir. O cuidado estético fica evidente em cada figurino caríssimo, praticamente um desfile de Dolce e Gabbana nos ternos, jaquetas e calças de Josh Hartnett. Evidente demais.

Dália Negra
Brian de Palma é um diretor de mão cheia, disso não há dúvidas. Se taparmos os olhos nos closes exagerados (e engraçados, quase um tropeço do câmera), sairemos do cinema confirmando a teoria. Ele consegue arrancar dos atores a essência dos personagens, fazendo as atuações brilharem mais do que os nomes. Você pode imaginar Josh Hartnett em um papel sério que exige dramaticidade? Consegue ver Hilary Swank como uma mulher sedutora envolvida com prostituas? Méritos do diretor. Scarlett Johansson é a exceção da vez. A atriz faz o papel de sempre de mulher fatal vítima das circunstâncias, a persona explorada por Woody Allen em Match Point. Como sua personagem é praticamente uma dona de casa num universo de policiais estilosos e viúvas negras, talvez a culpa seja mais do roteiro do que da atriz.

Dália Negra tem um roteiro confuso demais. Perde tempo armando uma luta de boxe que pouco influencia nos acontecimentos, não consegue compor os laços de confiança entre os policiais Fire e Ice e enxerta personagens repentinamente, deixando óbvio o seus papéis dentro do filme. As horas de fumaça e sombras acabam eclipsando os breves minutos de conteúdo, tornando difícil encontrar o foco da história. Isso faz as tramas paralelas ganharem a mesma força que a principal, e o assassinato da Black Dahlia passa a ser mais um no meio da confusão.

O noir é assim, um equilíbrio delicado entre o suspense, o policial e o romantismo. E no fim das contas, aconteça o que acontecer, sempre terá os seus fãs. Se o visual é o que importa, Brian de Palma conseguiu um bom filme. Se é verdade que o lado psicológico é a verdadeira força desse gênero, dúvidas pairam no ar.

A fusão do cinema com a arte contemporânea se dá em duas vertentes, dependendo de quem faz. Se é um cineasta, vamos ter um criador em geral de uma geração mais velha, gente que fez nome no cinema tradicional, o das salas escuras, e que agora experimenta sua técnica em outro entorno, o dos museus e galerias. Aqui a estrutura da linguagem cinematográfica, que privilegia o tempo sobre o espaço, se mantém.

Rosângela RennóSe, ao contrário, quem faz é um artista que vem da visualidade exposta no claro e com um fruidor em movimento, o que resulta é uma inversão, e o espaço fica mais importante do que o tempo. São então as telas múltiplas com várias instâncias de uma mesma imagem em pontos de vista diferentes. Ou os filmes em câmera muito lenta, onde as imagens recuperam seu valor estético, onde o que vale é sua composição como quadro, e não o que acontece antes ou depois.

Rosângela Rennó faz o contrário, em um passo além dessa fusão. Na sua exposição de outubro de 2006 na Galeria Artur Fidalgo em Copacabana, ela parte da imagem estática. Uma foto. E acrescenta a ela pequenas animações em um ou outro detalhe, em câmera muito lenta. São dez minutos para perceber o imperceptível: um braço que se mexe, uma saia que se levanta. Em cinco vídeos expostos em tela pequena (dez polegadas) e em looping, vemos dois pulos em que a personagem está de cabeça para baixo, dois nadadores, e um salto em um barranco. Todas elas imagens estáticas, que congelam um movimento paralisado em pleno andamento. E serão estas as imagens em que ela emprestará artificialmente, por meio da animação, um movimento que não está lá. Acrescente-se a isso o fato de essas imagens serem de uma certa forma atemporais: as roupas são meio antigas mas não muito, os ambientes ao ar livre não têm registros de época. E a trilha sonora, passarinhos e ondas, é eterna. E são em preto e branco ou monocromia, as imagens, em mais um distanciamento do tratamento realista mas usando a inversão, que sempre acontece, de ser este tratamento – que deveria ser menos realista – na verdade mais realista do que o colorido, em uma impressão (de imprimir, in print) característica da nossa cultura, de que o “real” é em preto e branco, e a cor é publicidade ou ficção.

A migração do foco do tempo para o espaço que artistas da geração de Rennó fazem nos museus do mundo inteiro não é inocente. Ao abrir mão de uma narrativa, ao desprezar as relações causais, ao expôr o não-acontecimento, essas obras se tornam muito mais do que atemporais, elas se tornam apolíticas. Estão lá para serem apreciadas por vagas (nos dois sentidos) que por elas passam em um roçar superficial.

E Rennó faz o caminho contrário. O estático, o certo, a tranqüilizadora imutabilidade não estão mais lá. Há um inquietante tempo a se imiscuir nesse paraíso.

Muito se fala dos eixos musicais do Cidade Negra e do estilo perdido. O fato é que o grupo que se encontrou na base do reggae decidiu ir além, domou o pop, conheceu a eletrônica, buscou o peso das guitarras e expandiu seus horizontes. Nesse território de fronteiras amplas (para alguns conhecido como mpb), o Cidade Negra esculpe boas canções. Sem viver do passado ou renegar as raízes, o grupo resolveu comemorar 20 anos de carreira lançando o DVD e CD ao vivo, Direto. Faixas como “A sombra da maldade” e a “A Estrada” se encaixam no contexto do DVD, mas é impossível não perguntar se o registro em CD não se tornou repetitivo (é a quarta vez que as músicas entram em cds do grupo).

Cidade Negra

Direto está repleto de antigos sucessos e novidades, contando com um medley com os Paralamas do Sucesso e duetos com Lulu Santos, duas grandes referências do Cidade Negra. É uma boa oportunidade de conferir se o grupo realmente se perdeu ou se encontrou no meio de sua trajetória. Destaque para “Hoje” e “O paraíso tem um tempo bom”.

Sarah Brightman é uma máquina de coletâneas. Com um repertório extenso, vive recuperando antigos registros musicais. A cantora que ficou conhecia como a voz de Fantasma da ópera acaba de lançar Diva: The Singles Collection. O CD inclui fases diversas da sua carreira, unindo Phantom of the opera e Music of the Night (ambas do musical de Andrew Lloyd Webber) a músicas de todos os demais cds. Estão lá Deliver me, Time to say goodbye e Who Wants to Live Forever, entre outros. Como uma das características mais interessantes de Sarah Brightman é misturar clássicos com sonoridades modernas, você pode conferir a Question of Honor que mistura rock com a aria La Wally de Alfredo Catalani, e It’s a beautiful day que une Un Bel di de Puccini a beats eletrônicos do Oriente Médio.

Sarah Brightman

Se você já tem a coletânea Classics (teoricamente exclusiva para a Europa), dispense Diva. Como o repertório ficou enxuto demais e os preços dos CDS estão cada vez mais altos, talvez valha a pena juntar mais um pouco e comprar o extravagante (às vezes brega) DVD ao vivo de Harem. Uma coletânea muito mais fiel à carreira da cantora.

Robert Altman disse que está há anos fazendo o mesmo filme e que fica feliz que as pessoas ainda se interessem. A última noite comprova a teoria. O estilo de Altman é inconfundível, coisa rara em Hollywood, mesmo no cinema independente. Ele continua flertando com gêneros diversos, faz dos personagens máquinas verborrágicas e desmembra a atenção do espectador em inúmeros assuntos paralelos ao desconstruir sem piedade a imagem do protagonista.

O filme mostra a última transmissão de um famoso programa de rádio dos Estados Unidos, dividindo-se entre o palco e os bastidores. O drama se constrói nessa despedida não anunciada ao público (que está lá fazendo figuração e não interfere na história) e questiona o apego ao passado frente às mudanças da vida.

A Prairie Home Companion (título original) traz elementos tradicionais dos trabalhos do diretor.

Praire

Como em Prêt-à-Porter, há a influência de um elemento externo no labirinto que é a rádio. Se nos bastidores da moda a função recaía sobre uma jornalista, aqui o papel fica por conta de Axeman (Tommy Lee Jones), o homem que quer comprar a rádio, e de um anjo (Virginia Madsen) que morreu por se distrair ouvindo uma piada do show. A indagação sobre os limites entre ficção e realidade, que marcou The Company, retorna sem que o artifício seja explicitado ao público, estando simplesmente a serviço do filme. Retorna também a claustrofobia de Gosford Park, presente nos ângulos fechados e cenários sufocantes.

Os cantores, apresentadores e funcionários enclausurados na rádio encontram na última noite do show o momento certo para a catarse de seus sentimentos e histórias.

O filme, em sua essência, é um musical. O diretor mostra o programa de rádio do início ao fim, com todos os números musicais, piadas e comerciais. Da chegada aos camarins até a saída para o bar da esquina, ouvimos Meryl Streep, Lily Tomlin, Lindsay Lohan, John Reilly e Wood Harrelson soltando a voz ao lado de Jearylin Steele e uma banda completa com violão, baixo, piano, bateria e efeitos sonoros variados. A comédia, que dá o tom geral, surge em situações inusitadas que modificam a rotina já conturbada e encontra sinergia na composição dos personagens. Dando um toque de charme, Altman aproveita o (falso) suspense para evocar o noir, criando um segurança canastrão vivido por Kevin Kline, um tanto perdido no filme, mas que serve de ponte entre bastidor, palco e o anjo sem nome.

A última noite conta ainda com Maya Rudolph, do programa Saturday Night Live, grávida, no papel de uma assistente mal-humorada, idéia no mínimo curiosa.

O filme arrecadou mundialmente até agora US$22 milhões. Pode não ser nenhum Gosford Park (87 milhões), mas leva boa vantagem em cima dos clássicos Short Cuts e Prêt-à-Porter.

A primeira linha da canção Por enquanto de Renato Russo, Chegaram as estações, nada mudou, é sintomática de sua figura de Contador de Histórias, no uso mítico, e comum a todos os povos, do ermitão que dá as costas aos prazeres e convívio da cultura onde ele se insere para falar dessa própria cultura e das mudanças que os tempos provocarão nela. Mais do que isso, o que encontramos nele e em suas canções é a atualização dessa personagem, na submissão da sua palavra de teor coletivo a temas mundanos ou pessoais, em um processo laicizante e secular, peculiar da espiritualidade das sociedades capitalistas modernas. O que é o texto principal, desse modo, e que poderia ser chamado de “uma verdade maior”, passa a ser subtexto.

Agora, um grupo de 20 fotógrafos dá um passo além nessa modernização das comunicações ocidentais de conteúdo mítico. Em uma tradução intersemiótica, o grupo apresenta imagens que dizem o que a letra da canção já não diz, mas diz. Então o texto que virou subtexto agora se afasta mais um pouco e vira imagem, na metaforização que parece ser o único meio suportável de se comunicar a seguinte verdade metafísica: a gente um dia chegou a acreditar que tudo era para sempre sem saber que o para sempre sempre acaba.

(E que a Cássia Eller era mortal.)

Mas nada vai mudar o que ficou, segue a canção, e essa linha, que se segue à citada anteriormente, contrapõe então a mortalidade humana à perenidade do Amor (ou à energia dos jovens ou à resistência política ou à arte), única coisa capaz de fazer com que as estações do ano mudem e não mudem ao mesmo tempo.

A exposição, de curadoria de Guy Veloso, está em Belém, no Instituto de Artes do Pará, durante o mês de outubro e depois viaja para outras cidades brasileiras. Nela, exemplos dessa recuperação que, por ser imagem, é ao mesmo tempo mais direta e mais afastada da História que o Contador se impôs cantar.

Fatinha Silva apresenta duas cabeças de plástico de encaixe, de bonecos cujos corpos estão ausentes, contrapondo assim mente e corpo.

fotografia de Fatinha Silva
fotografia de Fatinha Silva
Flávya Mutran mostra uma figura atemporal de mulher, ao lado de uma caixa entreaberta que nos remete ao mito grego da caixa de Pandora, antecessora da maçã do Paraíso cristão.

Michel Pinho traz um homem andando rente a um muro onde há figuras que agem como sua sombra aumentada. Essas figuras, não tipificadas, carregam uma flor que se contrapõe às roupas esfarrapadas do homem diminuto à sua frente. A flor está no final de um caule-fio que vem de uma origem não estabelecida na imagem. Do além-figura.

fotografia de Michel Pinho
fotografia de Michel Pinho

Moisés Araújo fotografou as redes suspensas dos viajantes dos barcos do porto de Belém. As redes, humanizadas pelo seu colorido vivo, suas curvas e por detalhes dos corpos de seus ocupantes – aqui um pé, ali uma perna , se contrapõem ao fundo da imagem, de linhas retas, em azul esmaecido, um horizonte “eterno”.

Liane Dahás apresenta a noção renascentista do tempo-espaço, com uma perspectiva que sai do olho do observador em direção ao horizonte longínquo. É um caminho, margeado de árvores nuas, em um outono/inverno universal embora só existente no hemisfério norte.

Francisco Del Tetto compôs a estrutura básica da arquitetura religiosa, com a massa da construção na parte de baixo da foto ocupada por signos da modernidade e a parte de cima, em triângulo, como um “teto” de igreja formado por volumes da conhecida coleção Tesouros da Juventude.

Além deles, Alberto Bitar, Alexandra Farah, Naylana Thielly, Sinval Garcia, Orlando Maneschy, Daniel Cruz, Kamila Frazão Lopes, Lu Magno, Irene Almeida, Miguel Chikaoka, Maria Christina, Ronald Ruffeil e Mariano Klautau Filho.

Na mitologia cristã, o Contador de Histórias foi São João Batista, que começava sua fala sempre com uma exortação para que os ouvintes tivessem a mente aberta, abandonassem antigas certezas para que uma nova verdade pudesse se impor. O que ele dizia, em suma, era que era preciso se libertar.

A primeira banda de Renato Russo se chamava Aborto Elétrico e tinha uma posição bem política, trazendo o contexto de Brasília da época (fim da ditadura). O Legião Urbana, posterior, já ingressava em uma polissemia mais poética do que política.

As fotos de hoje, 2006,  repetem de forma irônica os últimos versos da canção-tema da exposição: Mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está / Nem desistir, nem tentar, agora tanto faz. / Estamos indo de volta pra casa.

De fato, o pensamento analógico, por imagens, provavelmente surgiu antes do lógico, o das palavras.

Se você estiver perto da Estação da Leopoldina entre as 17 e 19 h., entre. Até essa hora você não paga. Depois, até domingo, começa a venda de ingressos para a programação da RioCena Contemporânea.

Leopoldina

Mesmo que você não fique para a festa, vale o local. É uma oportunidade para se sentir, em tamanho grande, o que se sente diante de qualquer obra de arte: uma espécie de manutenção do presente em outros tempos, futuros e passados. Ou vice-versa.

Não que a Estação Ferroviária Terminal Barão de Mauá, o nome certo do enorme edifício da Francisco Bicalho, seja uma obra de arte em si. Neoclássico, contemporâneo de outras construções da reforma urbana da cidade do início do século XX, era para apresentar seu aspecto funcional, na linha de ferro e vidro comum a gares européias do período. O que dá a ela essa dimensão de arte contemporânea é a inserção de mais vidro e mais ferro, e de luzes que se aproveitam de ambos. O resultado são trens velhos, degradados, que se mostram lindíssimos na diferença exata entre o que é recuperar o passado e atualizá-lo. Não tem nada recuperado, pelo contrário, mas tudo é atual.

Leopoldina

Há sempre a discussão sobre como pôr arte contemporânea em espaços históricos e o visitante poderá observar um bom resultado. Muito desse sucesso, é verdade, se deve ao tema trem, viagem. Pois não se açambarca de vez todo o espaço da estação, há o terreno que se estende, na parte posterior, até quase o horizonte (com direito a pôr-do-sol na hora sugerida à visita). Forma-se portanto um espaço imaginário, um vazio onde se dá o diálogo transparências contemporâneas versus os vidros neoclássicos. Uma outra circunstância favore as passagens suaves: não é um mundo em preto-e-branco, esse. Os ferros, que fazem curvas, enferrujam em tonalidades ricas. Luz e sombra convivem.

Leopoldina

A Estação da Leopoldina tem esse nome porque seus trens faziam a ligação com a cidade mineira de Leopoldina, de onde vinha o café – a riqueza da época – para o porto do Rio. Sua primeira linha, inaugurada por D. Pedro II em 1873, parava no meio do caminho em um lugar chamado Pântano. De lá para cá, as paradas de meio de caminho mudaram de nome mas continuam existindo. A contemporaneidade e o neoclassicismo se unem com suavidade.

O edifício não tem sua ala esquerda. Visto de frente, ele não se assenta na simetria que caracteriza as construções de sua época. Há um plano de reforma do Estado para o local. Falam em construir um anexo. Não na parte que não existe, mas atrás, na amplidão do olhar. Sempre haverá perdas.

Giovanni Pellino, mais conhecido como Neffa, se confunde com a história dos gêneros musicais na Itália. Depois de estourar na cena hip-hop com o grupo Sangue Misto, no cd SXM, e seguir carreira solo no rap até 2001, Neffa decidiu explorar outros ritmos e firmar uma nova identidade.

Misturou o soul com o reggae, deu uma batida funky à bossa nova, pegou carona na lounge music e assim trilhou um caminho realmente criativo. Seu álbum atual, Alla fine della notte, é mais uma prova dessa múltipla sonoridade e já rendeu duas músicas de trabalho – a dançante Il mondo nuovo e o pop orgânico de Cambierà, que ganhou o reforço de um simpático clip 3D. Um grande destaque de seu currículo é o cd I molteplici mondi, que traz a bossa nova Quando finisce così (imperdível) e o soul-retrô Vieni com me.

Neffa

Quando Finisce Così – NeffaTu che sei lontana ormai
io che dormo poco e percio’
stasera faccio tardi
e penso che ti scrivero’…

Solamente chi non ha luce
per vedere non puo’
Ma in fondo tu lo sai
tutto puo cambiare pero’…

Quando finisce cosi’
non finisce cosi’
Quando finisce cosi’
rimane tutto cosi’

Vorrei scriverti
forse addio per sempre
o forse torna presto qui

Una notte se ne va
Lenta quando ha perso la via

E bevo il mio rimpianto
e fumo la mia nostalgia
E potrei uscire un po’
tanto va a finire che poi
mi sento piu’ solo e parlo sempre di noi…

Quando finisce cosi’
non finisce cosi’
Quando finisce cosi’
rimane tutto cosi’

Vorrei scriverti
forse addio per sempre
o fose torna presto qui

E mi chiedo ancora se tu
resti fuori con la luna
o ti senti sola se finisce cosi…

Vorrei scriverti
forse addio per sempre
o forse torna presto qui…

Quando finisce cosi….

A Região de Campinas acaba de ser presenteada com mais um espaço cultura. Inaugurado no último dia 22 de setembro, o Teatro Municipal Sylvia de Alencar Matheus, em Vinhedo, cidade de 54 mil habitantes na região de Campinas/SP (18km), conhecida por ser a sede do parque temático Hopi-Hari.

A reforma do antigo prédio na área central da cidade foi custeada pela Unilever, que doou recursos financeiros para as obras, que começaram em outubro do ano passado. De acordo com informações da Secretaria Municipal de Cultura, o novo teatro tem capacidade para receber grandes produções, como óperas e musicais. São cem spots de luz, sistema de som de três mil watts de potência e caixa cênica que permite até dez cenário, além de dois grandes camarins com capacidade para abrigar até 15 atores cada.

A antiga construção mantém-se “viva”, agora representada pelo o moderno Teatro Municipal de Vinhedo, com 3 mil m2 de área construída e capacidade para 520 espectadores. O projeto prevê ainda a instalação de uma biblioteca junto ao prédio. São três mil metros quadrados de área construída e 520 poltronas. O lugar é lindo, bem feito e com qualidade superior a muitas capitais. É de iniciativas como esta que o Brasil precisa!

O teatro fica na rua Monteiro de Barros, 101, Centro, telefone (19) 3826-2821.

Faz tempo que o Google deixou de ser apenas uma ferramenta de busca. Além de pesquisa de imagens, pesquisa em blogs, programa de chat e e-mail, orkut, blog, agenda pessoal e Youtube, uma aposta importante da empresa é a pesquisa de livros.

É difícil colocar direitos autorais e internet em uma mesma frase sem usar a palavra polêmica. Foi assim com a música, com vídeos e está sendo com os livros. A idéia do Google é digitalizar livros e colocar seu conteúdo disponível em ferramentas de busca. As obras livres de direitos autorais estariam disponíveis na íntegra, e caso contrário, o usuário teria acesso a partes dos textos.

O Google Book Project conta com parceiros de peso, como a Biblioteca Pública de Nova Iorque, a Universidade Complutense de Madrid, o que significa ter livros em inglês, espanhol, alemão, francês, italiano e latim.

Para alguns pode ser novidade desprender o conteúdo do papel, talvez com ecos no e-book, que um dia foi cogitado como uma grande ameaça ao mercado editorial, mas não ganhou a força esperada.

O duelo entre tradicionalismo e tecnologia, entretanto, dispersa informações importantes. A polarização do debate destaca o preto e o branco e oculta o cinza, a área mais rica em argumentos e questões. Vale a pena, por exemplo, trazer o conceito de pocket book para a discussão. Feito em papel de menor qualidade, tamanho reduzido e com custos menores, o pocket desafia o conceito de livro-objeto e explora o papel como mero transporte de conteúdo. Um pocket pode custar 50% mais barato do que seu equivalente em formato tradicional. Qual livro você preferiria? Um com capa mais elaborada, melhor diagramação – com a visão se acomodando melhor durante a leitura – e que brilhasse no escuro ou o formato pocket? Isolando questões de custo e qualidade e pensando apenas no tamanho, qual o livro preferencial de uma população que tem como tempo livre o percurso de casa até o trabalho, dentro do ônibus e do metrô? É mais provável que o leitor compre o livro que não pesa na bolsa ou a vontade de ler não encontra barreiras no peso?

Acrescente o livro gratuito nessa equação. Pense também na venda pela Internet, a venda em bancas de jornal, postos de conveniência, formato e-book e audiolivro.

A tendência – como em qualquer área de negócios – é ganhar novos adeptos conforme o processo se consolide. A palavra polêmica aos poucos se transforma no sinônimo debate, pois onde há lucro, há negociação. A virtualização é um processo contínuo, uma conseqüência prática do hipermodernismo. O site Second Life está aí para confirmar a teoria.

Por fim, é importante separar o conceito da busca virtual em livros com a idéia do “livro para todos”. Por mais que a mecânica da Internet seja democrática, o acesso a ela ainda não é.

Milarepa é falado em tibetano, o diretor e roteirista é do Butão, seu produtor é australiano, a co-produtora é brasileira e a maior parte dos atores são monges da cidade onde o filme foi produzido. Não só é uma preciosidade cinematográfica, como também prova que a globalização tem facetas positivas.

Milarepa

Milarepa morreu há mais de 900 anos, mas ainda é um dos nomes mais cultuados do Tibet. Filho de um pai rico, ele viu sua fortuna ser roubada pelos tios e passou a viver com a mãe na miséria. Cansada de sofrer, ela o mandou estudar magia negra com os feiticeiros nas montanhas para que voltasse poderoso e matasse os tios e os vizinhos que lhes viraram as costas. Sem saber como buscar justiça, Milarepa (quando menino chamado Thöpaga) obedeceu à mãe e partiu em busca de mentores. No retorno, jogou toda a sua ira sobre a cidade e descobriu que vingança e justiça são coisas diferentes. Arrependido, foi acolhido por um monge e decidiu seguir os ensinamentos de Buda, o começo de uma nova jornada espiritual.

Não se deixe enganar pela estranheza. Mesmo sendo uma produção independente, o filme exibe capricho de uma ponta até a outra. O roteiro é enxuto, a fotografia é fantástica (as montanhas do Spiti servem de cenário) e o diretor estreante (o lama Neten Chokling) impregna as imagens de sentimentos com sua manipulação de linguagem. E como filme de magia negra que fica só na teoria não tem graça, os efeitos especiais são presença garantida na fase pós-aprendizado de Thöpaga.

Infelizmente, Milarepa não tem final. A viagem do jovem atrás do mestre budista deve ser lançada apenas em 2009.

Milarepa Milarepa

Os destaques de atuação ficam por conta do talentoso Orgyen Tobgyal, no papel de Trogyal, o feiticeiro, e de Kelsang Chukie Tethtong, como Kargyen, a mãe obcecada por vingança. Pelo visto, a cantora também leva jeito para o cinema.

Milarepa

Arthur Omar. Zooprismas. Centro Cultural Telemar. Rua Dois de Dezembro 63, Flamengo, de terça a domingo, das 11 às 20 h. Até 29 de outubro.

Madona do Rio
Madona do Rio

São palavras como glória, anjo, pureza, vertigem, desmaterialização. E mais citações filosóficas, a Marselhesa e sua invocação dos cidadãos às armas. E também uma música orquestrada, grandiloqüente, por trás de rostos humanos que se desfazem.

Podia ser um pensamento sobre a luz e sua velocidade, e sobre outras coisas velozes, mas fica um cheiro de religião, de monumentalidade, de estímulos sensoriais encantatórios, quase hipnóticos, e isso esmaga a possibilidade de pensamento.

É Arthur Omar nos quatro andares do Centro Cultural Telemar.

E é a questão da religião ser ou não uma resposta viável ao niilismo ocidental. Se a menina afegã – ainda sem idade para a burka – de uma de suas instalações pode ou não ser comparada à menina dos brincos de pérola, pintada por Vermeer – o mestre da escola que escolheu o cotidiano, a materialidade extremamente otimista da vida imanente dos burgueses de seu tempo, como tema.

O mesmo incômodo prevalece em Madona do Rio, em que uma face de mulher, no registro simbólico conservador de mulher-sofredora (olhos baixos, cabeça inclinada), recebe, sofre, raios de luz frenéticos sobre a pele.

No vídeo Ballet 2, congelamentos periódicos da imagem dos bailarinos (do Mannheim Opera Ballet) aponta para a idéia de que a ética/estética está ligada à premissa de uma perspectiva extra-temporal: os movimentos têm em si a possibilidade do eterno, do imutável.

Pele Mecânica
Pele Mecânica

Na instalação Pele Mecânica, um desdobramento em cores digitais da obra em preto e braco Antropologia da Face Gloriosa, as dimensões sobre-humanas das faces que se dissolvem supõem uma metafísica que aplaca a experiência de alteridade que poderia acontecer com a seqüência de tipos variados.

Em Anjo, um pária domina a cidade com o olhar. Aqui há um registro piedoso, que implica em uma transcendência na medida que a figura apresenta, mais uma vez, uma temporalidade distinta, a interromper o ritmo luminoso do fundo urbano da parte inferior da imagem.

Anjo
Anjo

Nas fotos de Dionísica, o retrato é da “monstruosidade da carne”, seja lá o que se possa entender disso.

E Mola Cósmica, o painel que ocupa a fachada do prédio, faz lembrar a frase de Kierkegaard, de que repetição é a única forma de eternidade disponível aos humanos.

Em que pese o nome de Zooprismas da exposição, estamos diante de uma apresentação mais de prismas de luz que espelham a própria luz do que de pertencimento e espelhamento de uma história e de uma escolha, de uma experiência do possível.

Agora em setembro, até 5 de novembro, no Espaço Cultural CPFL, em Campinas-SP, está acontecendo uma exposição com dez artistas contemporâneos brasileiros.

Vale a pena a visitação! Mostrando a “complexidade da arte contemporânea brasileira e a diversidade de meios com os quais os artistas trabalham”, a exposição apresenta pinturas, objetos, instalações, desenhos e também trabalhos produzidos nos “novos meios”, como vídeo, instalações, vídeo-instalações interativas, arte na Internet, fotografias e moda. Os trabalhos estão muito interessantes e, devido a diversidade, é até difícil escolher “um” do qual se goste mais.

Com a curadoria da crítica de artes visuais Daniela Bousso (que é historiadora, crítica de artes visuais e curadora independente, além de Diretora do Paço das Artes em São Paulo e curadora do Prêmio Sergio Motta) e traz, entre outros, trabalhos de multimídia Rejane Cantoni e Daniela Kutschat (Percepção e Interatividade), Giselle Beigulmann (Internet e Celulares), Fernanda Chieco (Desenho), Marina Saleme (Pintura), Caetano Dias (Fotografia). Tudo isso ainda é acompanhado de apresentações de performances, Djs, e Vjs durante a programação. Segundo as informações oficiais da mostra, “...entre outros assuntos, a mostra pretende enfocar como o corpo pode ser índice de subjetividade na arte contemporânea”.
Período da exposição: de 15 de setembro a 5 de novembro
Horário da visitação: 10h às 21h
Agendamentos de visitas monitoradas: (19) 3256-8204

C.R.A.Z.Y. foi um dos sucessos do festival de cinema do Rio de Janeiro, o que garantiu sua entrada imediata no circuito. O filme conta a história de Zach e seus irmãos – Christian, Raymond, Anthonie e Yvan – que juntos formam a palavra crazy com as iniciais. Zach nasceu numa noite de Natal, caiu de cabeça na maternidade e é conhecido na família por curar doenças alheias. A história surgiu pois seu irmão mais novo, que nunca parava de chorar, sempre se aquietava em seu colo. Seria uma cura milagrosa das cólicas nas mãos daquele que nasceu no mesmo dia que Jesus. Mais adiante, descobrimos que Zach gosta de vestir as roupas e jóias da mãe e colocar o bebê para dormir, o que explicaria a quietude e o laço afetivo entre os dois. A convergência da temática glbt e o espírito religioso criam o conflito que move o filme: Zach é uma pessoa especial.

CRAZY

Numa família de cinco irmãos, a atenção do pai é disputada. Um é o bagunceiro, cheio de mulheres, que o pai adora. O outro é desportista porco, fortão, campeão do colégio, possui um lugar garantido no coração do progenitor. O seguinte é um verdadeiro nerd, se destaca em todas as provas, não tem como ser rejeitado. O caçula é um gordinho que pouco aparece, mas o caçula é sempre querido. Sobra para Zach ser o problemático, aquele que está na moda, usa os penteados diferentes, se entrega de corpo e alma ao som de David Bowie, gosta de sair de noite e possivelmente é gay. Para a mãe resta o papel clichê complementar, a Temperança que equilibra os egos e brigas, mantém a família unida, ama todos os filhos na mesma proporção e tem uma ligação diferente com Zachary.

O diretor Jean-Marc Vallée caprichou no visual e teve o cuidado de não cair no preciosismo, característica importante em um filme que gira em torno dos anos 60-80. Um bom pedaço do orçamento foi consumido na aquisição dos direitos autorais da trilha sonora, que passa por Bowie, Rolling Stones e Patsy Cline (cantando Crazy!). As músicas funcionam não só como fator de ambientação, mas também como marcadores de passagem de tempo, ao lado dos penteados de Zachary Beaulieu.

Ao colocar a maior parte dos personagens para escanteio e concentrar-se em Zach, Vallée optou por uma narrativa linear, simples de acompanhar do início ao fim, mas às vezes óbvia demais. Além da direção de arte, o filme se apóia nas atuações de Pierre-Luc Brillant (Raymond, o irmão rebelde e drogado) e Marc-André Grondin (Zach). Ambos são excelentes atores, dinâmicos na evolução dos personagens. Grondin muda por inteiro com seus cortes de cabelo, dando a nítida sensação de que a vida está em movimento e que realmente acompanhamos duas décadas em duas horas.

CRAZY

O problema da narrativa, que persiste até o último instante com uma viagem de autodescoberta para Jerusalém, é a mistura de sexualidade e religião, a repúdia ao ser especial cristão e ao ser especial gay. Como alguém que é gay pode ter sido escolhido para nascer no mesmo dia que Jesus e curar pessoas? Por que deveria considerar esses dois fatores especiais se eles o afastam da pessoa que mais ama, o pai?

Cabe ao espectador decidir se a atuação de Pierre-Luc e Marc-André pode compensar os exageros da entediante ladainha.

Há uma discussão idiota que rola há muito tempo, se o melhor instrumento de representação seria a imagem ou a palavra. Platão, por exemplo, odiava os poetas e achava que as imagens eram tudo de bom, pois não mentiam ao mostrar a natureza. O que não era verdade nem na época dele. Depois foi Leonardo da Vinci que, concordando com ele, disse verborragicamente em seus Tratados, que a palavra não estava com nada. No Iluminismo o alemão Gotthold Ephraim Lessing chegou perto do que a lingüística nos ensina na contemporaneidade. Ele disse que a palavra era perfeita, por ser imperfeita. Que por ser um signo distante do seu referente, ela permitia a aposição do pensamento do receptor na produção do significado. Não disse assim, com esses termos – ainda não na moda, mas disse. E poderia ter dito a mesma coisa de qualquer linguagem. O significado está sempre nem em uma ponta nem na outra mas no caminho, na relação, sempre feita e refeita, dinâmica, dos nós dessa rede.

E tem a história em quadrinhos. E, antes, tem as igrejas medievais, enormes suportes para a história em quadrinhos mais em voga da época, a Paixão de Cristo, que, em falta de painéis publicitários ainda inexistentes, deveria divulgar à população analfabeta a Palavra de Deus.

Malvados

O que nos faz perder um minuto tentando uma reflexão sobre similaridades entre populações sujeitas a massacrantes campanhas de formação de pensamento através do uso publicitário da imagem acoplada a algo inatingível, uma mulher boazuda ou signos incompreensíveis.

Mas voltando. E voltando com André Dahmer. Os quadrinhos Os Malvados, que ele publica no Jornal do Brasil e que expõe, em outubro de 2006, na Galeria La Cucaracha, em Ipanema, à primeira vista dá mais importância ao texto do que à imagem. Alinha-se, assim, na vertente intelectual dos quadrinhos da década de 80 quando o traço sujo de Crumb mostrava que beleza não era fundamental. Aqui, suas flores mal esboçadas apóiam frases de uma certa obviedade. E eis o ponto. Ao juntar desenhos falhos com frases que ecoam o já conhecido, Dahmer nos apresenta o espaço em branco. O que ele representa, concretamente, é o espaço livre a ser ocupado pelo receptor. Faz um convite explícito ao que antes estava implícito.

Malvados

E lá vem Derrida. Ele disse que a leitura era tornar o invisível visível, sendo que o invisível para ele era algo que ao mesmo tempo limitava e ampliava a visibilidade. No velho sentido de Lessing.

Dahmer é um filho de sua época, em que classificações – seja lá do que for – se fundem perante uma colossal mudança de paradigma: não mais a linha reta da lógica masculina e moderna, a da sucessão temporal do que vem antes, no meio e depois, do que é causa e conseqüência em uma construção lógica, para entrar, aos poucos mas avassaladoramente, em um pensamento abrangente, mais feminino, analógico mais do que lógico (daí a prevalência da imagem), inclusivo, pouco claro e muito participativo. Ninguém faz mais nada sozinho e todo mundo faz um pouco de tudo. Mal, segundo os critérios do século passado. Mas melhor, se você pensa em finalidades. A eficácia e a excelência estreita era boa para os fins competitivos e corporativos do século XX. O século XXI é uma outra história em quadrinhos.

A seqüência temporal, aliás, não é essencial nos quadrinhos de Dahmer. Vamos voltar então às características de tempo e espaço em relação às duas linguagens, a da palavra e a da imagem e como essas características são encontradas em Dahmer. A linguagem escrita em princípio privilegia o tempo, já que sua representação segue mais o padrão da lógica linear. A imagem privilegia o espaço, e se apresenta “ao mesmo tempo”. Mas Dahmer, já vimos, 1) quebra a imposição seqüencial nos quadrinhos; 2) faz um uso redundante da lógica, que fica assim, circular; 3) sua imagem imperfeita vem com brancos. E, finalmente, o número 4): há uma diferença entre a oralidade e a palavra escrita, a primeira também vindo “ao mesmo tempo”, já que o que é ouvido, ao contrário do que é lido, se registra como um todo onde detalhes e temporalidades se perdem para criar o vestígio do vivido – igual no olho e na orelha. Dahmer, ao repetir estruturas de quase-aforismos e usar a redundância como arma, está no campo da linguagem oral.

Adeus diferenças qualitativas entre imagem e texto. É esse o seu quadrinho, uma unidade. Falha.

O que um lemingue, a ilha de Lost, uma webcam voadora e Charlotte Rampling têm em comum? Essa mistura improvável é a fórmula de Lemming – Instinto Animal (Brasil e seus subtítulos), do diretor Domink Moll.

A premissa é simples. Um jovem casal muda de cidade porque o marido foi contratado por uma grande empresa. Fazendo sucesso com o projeto de uma webcam voadora, Alain (Laurent Lucas) logo fica amigo de seu chefe, Richard, e o convida para um jantar. Em casa, sua esposa Benedict (Charlotte Gainsbourg) prepara a salada, descobre que a pia entupiu e segue com os pratos quentes. Depois de um longo atraso, Richard Pollock (André Dussollier) e sua esposa Alice chegam na casa de Alain e Benedicte. O encontro não é dos mais agradáveis. Alice faz diversas acusações sobre Richard, fala de suas amantes, um verdadeiro desastre. Mais tarde, sem sono por causa da confusão, Alain resolve desentupir a pia e encontra um lemingue quase morto entalado no cano.

Lemming

É um começo promissor e bastante enigmático. A estranheza das coisas impede que o espectador se situe, reforçando o clima de suspense. É difícil saber de onde virá o susto, a descoberta, a virada que desnorteará. Os quatro personagens se mostram fontes de problemas potenciais e não desperdiçam gestos e olhares. Dominik Moll trabalha o tempo inteiro com a estrutura de suspense popularizada por Lost – subtrair a informação para avançar a história. Quanto mais para frente no filme, menos sabemos, menos faz sentido. O conceito do ponto de trama é modificado e o elemento narrativo se transforma em elemento visual. As informações, o que supostamente faz um filme andar, dão lugar a pequenos objetos. Os detalhes parecem importantes, ganham uma falsa relevância que serve apenas para alimentar a sede por novidades. O lemingue morto, um alicate quebrado, uma taça de vinho, a webcam voadora, um triturador de salada, um braço engessado, a chave de um portão, um lago azul. O ilusionismo pictórico tenta atrair o olhar do espectador, não deixá-lo desviar da tela ou desistir do filme durante o longo nada que acontece. Um desafio considerável.

A sensação de angústia torna-se ainda maior quando Alice tenta assediar Alain, e no dia seguinte vai encontrar Benedicte sozinha em casa para contar. A dúvida beira cada movimento sinuoso dos personagens. Estaríamos diante de um instinto selvagem francês? Quem vai atacar primeiro no quadrado amoroso?

Lemming

Charlotte Rampling construiu em Alice um verdadeiro vampiro social, lobotomizado e cruel, que transpira algo de desagradável e peçonhento. Seu jeito de andar está diferente, o corpo está mais curvado, o olhar é quase inexistente, como o de alguém que vive de sedativos. É por ela que o filme ganha importância e interesse, e as cenas em que aparece são as mais interessantes.

Infelizmente, a fórmula de Lost funciona melhor no mundo hollywoodiano, com correrias constantes, monstros de fumaça e heróis e heroínas que brilham de limpos depois de meses perdidos na mata. Misturar essa técnica de roteiro com a linguagem tradicional dos filmes franceses é correr o risco de entediar os espectadores.

Se você, entretanto, é daqueles que não resistem à lentidão de um filme francês, Lemming vai revirar seu estômago até o final, com o bônus de explicar o mito da migração dos lemingues e seu suicídio coletivo.

En la cama é uma co-produção do Chile e da Alemanha falada em espanhol, na qual o espectador acompanha um casal que acabou de se conhecer. A abertura do filme mostra uma transa vertiginosa, feita de borrões e closes desconexos, que faz questão de avisar que seremos voyeurs trancafiados em um motel pelas próximas horas. Entretanto, o foco principal da narrativa não é o sexo, e sim a sucessão de conversas de alcova, às vezes tensas, às vezes hilárias.

En la cama

O diretor Matias Bize criou uma mistura de drama e comédia que resume  em 85 minutos o início ápice e fim de um relacionamento. Com essa ousadia na escolha do cenário, ganhou diversos prêmios no festival Viña del Mar, diversos prêmios Wiken e Sienna e foi o melhor roteiro do festival de Havana, entre outros de uma lista considerável.

Prender o espectador em um único cenário exigiu precisão na direção do filme e dos atores, agilidade de linguagem e jogos cênicos. Na cama utiliza truques de montagem (perfeitos) para acelerar o ritmo, mas na maior parte do tempo é o talento do diretor e dos atores que torna o filme um programa prazeroso.

Daniela (Blanca Lewin) e Bruno (Gonzalo Valenzuela) terminam sua primeira transa. Não sabem nada um do outro, nem mesmo seus nomes. Feitas as devidas apresentações, começam a filosofar sobre temas diversos. Aos poucos, vão se conhecendo, falam de sonhos, opinam sobre cinema, teorias fantásticas, fazem massagem, exploram seus corpos, fazem ioga, transam (logicamente) e nisso constroem um passado. Diante desse peso que é conhecer alguém de verdade, experimentam mudanças diretas no presente, nesse presente em cima da cama. De repente, tudo parece ter sentido, um futuro pode ser vislumbrado. Ficariam juntos? Nunca mais se falariam? Como seria a vida do outro lado das paredes do motel? As utopias pós-orgasmo esbarram nas fronteiras do mundo externo, criando as viradas de trama. O mundo perfeito tem limites. Surge então a crise conjugal, desentendimentos, a possibilidade de fazer as pazes e a despedida.

Como todo relacionamento real, o filme tem seu tempo ocioso, as famosas “barrigas” de trama, mas a qualidade dos diálogos, o carisma e beleza dos protagonistas e as pequenas surpresas espalhadas pelo roteiro valem cada prêmio recebido. Quem não se identificar com pelo menos uma das situações retratadas que mude de quarto de motel.

ARCO é uma feira internacional de arte contemporânea que acontece anualmente, sempre em fevereiro, em Madri. Em 2007, eles vão homenagear a Coréia, em 2008 o Brasil. Qual será a diferença? Qual a especificidade de uma arte contemporânea feita aqui ou acolá?

A diretora do evento, Lourdes Fernández, e a diretora do Museu Reina Sofía, Ana Martinez de Aguillar, estiveram no Rio de Janeiro no início de outubro de 2006. Falaram coisas como vitalidade, conversão de tendências, permeabilidade, não-cópia.

De fato.

ARCO

No programa da visita das duas diretoras ao Rio de Janeiro está o Centro de Arte Hélio Oiticica, com a segunda edição do Arquivo Geral. É uma espécie de mostra paralela à Bienal de São Paulo, com curadoria muito livre de Paulo Venâncio Filho.

Lá, ele separou espaço para dois sites specifics. O de Arjan é o mais impactante, ocupando todo o ambiente da escada. Em sangüínea e carvão, orgânico, sujo, anotado, irônico e frágil, os grafites do artista se contrapõem e se somam (nas cores semelhantes) ao jacarandá polido e clássico dos degraus e corrimão.

ARCO

Aliás, a intimidade com a madeira poderia ser uma das especificidades que buscam as diretoras espanholas. O artista do hemisfério norte luta com a preservação da madeira de lá, sujeita a carunchos, cupins e degradação por humidade e variação de temperatura. Ele costuma usar o material com reverência, quase cerimônia. Os que por aqui trabalham encontram uma madeira que, por ser tropical, é mais resistente (quando de crescimento lento) e porque eles também são tropicais, a tornam íntima, usada, com um registro de afeto. Estão nesse caso a instalação de José Bechara, os totens de Afonso Tostes, os carretéis de Eduardo Frota e até mesmo os lápis de Malu Fatorelli. E, claro, Frans Krajcberg.

Outra: a tranqüilidade com que se misturam áreas. O axioma recente é, para nós, velho conhecido. Iole de Freitas mantém uma bi-dimensão que vem da pintura. Ângelo Venosa vai mais longe nesse caminho e pendura suas rendas de metal na parede, usando os vazados para uma profundidade também dada na lateral: as peças se esvaem. E tem Nelson Leirner a apontar, teimoso, o que existe desde D. Pedro II: a convivência do popular com o erudito. Eliane Duarte faz a mesma coisa e inclui a biografia no refazer de costuras anônimas.

Mais uma. Aqui, o mais rígido modernista, que sonhou durante o século XX com critérios objetivos, científicos, matemáticos, inclui o movimento, a festa, o prazer: Abraham Palatnik.

Lá não estavam, mas há o som ritmado a dar tratamento contemporâneo ao objeto industrial usado como material adquirido. Bandas como a Chelpa Ferro e músicos como Tato Taborda subvertem, ao tocá-los, a utilidade inerente desses objetos, industrializados ou encontrados, de segunda-mão, colhidos.No Arquivo Geral, o vídeo de Laura Erber fala de naturezas mortas. Um chão que recebe folhas, frutas, poças de água – e um isqueiro. A mão que aparece só recolhe o isqueiro. Um humor.

Vivos, todos.

Antonio Dias, Miguel Rio Branco, Luiz Áquila já estão confirmados na feira. O curador Paulo Sérgio Duarte diz que o critério de escolha dos artistas será o olho do curador, acostumado a 40 anos de praia. Diz que não há critérios objetivos nem pode haver. Mais uma contemporaneidade: a subjetividade de quem não trabalha com absolutos.

Cartola, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, concorre ao Première Brasil do Festival do Rio, em apresentação hoje, dia 02 de outubro, às 18:30, Cine Odeon. Seu lançamento comercial está previsto para janeiro. Um documentário que use 65% de suas imagens a partir de arquivos antigos tem um código já esperado: haverá segmentos em preto e branco para o passado, em cores para o presente. Mas o uso das cores de Cartola é outro.

Cartola

Narrado em primeira pessoa pelo próprio Cartola que assiste assim ao seu funeral e revê sua vida em um flash-back cronológico, à la Brás Cubas, o filme de cara apresenta um tratamento não-convencional do que é “realidade” e do que é representação ficcional dessa realidade. A cor aparece aos quatro minutos do filme, em uma fantasia de um clóvis de carnaval em meio ao preto e branco do cenário. Segue, logo depois, na imagem de um trem que passa. Nas duas instâncias vem associada ao movimento, dentro de cenas paradas e em preto e branco. Continua a aparecer, depois, em pequenas porções, como nas bandeirinhas que balançam sobre uma rua de subúrbio, dando um toque ficcional ou fantasioso – e vivo – à representação de um Rio antigo. Então, temos a cor para a ficção, e o preto e branco para a representação de um real que, justamente por ser em preto e branco, é um real político, não naturalista.

Aos poucos o balanço entre cor e preto e branco muda. O substrato ideológico não. A cor se torna mais e mais presente, com inserções ocasionais do preto e branco, mas o valor de cada tratamento fica consistente até o final, ressaltado pela montagem de Mair Tavares. Exemplos: a junção do bonde em cor do cenário de Elizete Cardoso com o bonde em preto e branco das ruas da cidade. Ou na impagável seqüência dos militares de 64 andando para trás, como o país. E se no início do filme havia detalhes coloridos no cenário em preto e branco, depois será o preto e branco que detalha, em uma sombra, a Lapa atual. Nas últimas cenas, os óculos, iguais aos usados por Cartola, são um toque delirante da presença dele, já morto, no barbante de um camelô do centro da cidade.

Cartola

É um ponto de vista embasado, esse, que conta a história da cidade e um pouco a do país, a partir da história de sua música. Afinal, o Brasil foi um dos poucos países do mundo que conseguiram manter uma tradição musical própria, resistindo ao rolo compressor cultural norte-americano. Aqui, o rock e o jazz entraram para somar, não para substituir. É um legado e tanto.

Em tempo: as descrições de Elton Medeiros, vivas, “coloridas”, dos fatos vividos por ele e Cartola, mantêm o que foi dito acima: a cor nesse filme é elemento de uso conceitual.

Hildebrando de Castro

Na pintura de Hildebrando de Castro, a derrocada da geometria.
Galeria Laura Marsiaj, em outubro de 2006.

Sexo, como tudo que as pessoas conhecem menos do que deveriam, é um assunto polêmico. Deite comigo faz jus à polêmica que vem causando ao tratar o sexo despudorado de forma quase bucólica. O filme é uma adaptação do romance erótico de Tamata Faith Berger e foi chamado de O último tango em Paris com papéis trocados. Nele, acompanhamos a vida de Leila (Lauren Lee Smith), uma jovem que tem seu foco de prazer não só no ato sexual, mas no poder que surge dele. É ela quem dita o ritmo, avisa quando o parceiro deve começar e terminar. Seja dominando pelo voyeurismo, sacando camisinhas da bolsa ou realmente na cama, o simbolismo de seu poder está sempre presente.

Deite Comigo

A situação muda quando Leila conhece David (Eric Balfour). Ele amplia seus valores sexuais, acrescentando na fórmula sentimentos ambíguos, mas de modo nenhum – e esse é o ponto forte do filme – esvaziando o valor do ato físico, carnal. Entre os dois acontecem os flertes e cenas de sexo que movem a história até o fim. É interessante perceber que ao colocá-lo em cena, o roteiro perpassa a armadura de Leila e começa a acompanhar histórias paralelas de seus pais e de sua prima. Todos conseguem ser incrivelmente humanos e reais, apesar de participações ínfimas sempre ao lado da protagonista, e em nenhum momento deixam de alimentar a essência da história e a força de Leila. São novos olhares, voltados para novos personagens, mas que dizem respeito unicamente à personagem central.As cenas de nu frontal masculino e feminino são tão constantes quanto seriam na intimidade de um casal. A dedicação integral dos atores e a câmera inquieta do diretor Clement Virgo dão a Deite Comigo (Lie with me, no original, com seus diversos sentidos) um charme particular, quase neo-realista, recriando aquela mágica que leva a ficção para a cadeira ao lado e a liberta da tela do cinema. Mas quem vai atrás de sexo pop, esqueça. Aqui, os diálogos são raros, as falas cedem espaço para pensamentos ocasionais e a linguagem cinematográfica transforma-se na linguagem do corpo de Lauren e Eric. É essa a verdadeira comunicação. Flertes, danças e sexo como palavras sem legenda.

Parece que o Youtube veio para ajudar as gigantes do entretenimento. Depois de muito batalhar pelo fim da mp3, as empresas descobriram que podiam vender música nesse formato. O CD se transformou em um pacote, o papel de presente, e os clientes têm a liberdade de escolher as músicas individualmente. Lutar contra a tecnologia é impossível, até (ou principalmente) o garotinho de 6 anos que passa 4 horas por dia em frente ao computador e aprendeu a ler mais rápido por causa de legendas nos DVDs sabe disso. O que foi visto como ameaça era na verdade uma dica. Os consumidores estavam gritando para quem quisesse ouvir quais eram as suas necessidades, “esse produto tem demanda”, diziam.

Beck

O mercado de música começa a se recuperar com as vendas online. Espera-se que um dia os encartes possam ser personalizados, as músicas tenham sua amostra grátis online, e depois disso o consumidor monte o cd com o que gostou mais, de preferência remixando ao seu estilo (Beck deu esse passo, criando o cd infinito). O próprio artista poderia dar as dicas de suas faixas prediletas. Formadores de opinião e pessoas desconhecidas fariam o mesmo. As gravadoras seguiriam seu modo de palpitar, conhecido como “música de trabalho” ou “single”.

Como era fácil prever, o mesmo aconteceu com a imagem. Houve uma época em que ninguém acreditava que as pessoas comuns poderiam manter um computador em casa. Alguns também duvidaram que a mp3 e os vídeos pudessem escapar dos hard disks. E lá veio a geração “player”, com ipods que passam videoclipes, seriados transmitidos por celulares. A geladeira dos filmes de ficção que mostra a previsão do tempo e o telejornal está cada vez mais próxima. Se o melhor meio de conservação de alimentos já inventado foi o avião, o meio de transporte mais rápido é a internet.

Com uma quantidade incrível de vídeos surgindo, e com medo de processos de direitos autorais, o Youtube resolveu se legalizar. Firmou uma parceria com a Warner, que disponibilizará os videoclipes de seus artistas pelo site e liberará suas músicas como trilha sonora para os vídeos caseiros. Isso quer dizer que se o seu curta mostrando os passarinhos na janela tiver como fundo uma música da Madonna, você não corre mais tanto risco de ser processado.

A era digital, isso vale para o som e para a imagem, trouxe duas grandes dúvidas intensificadas pela TV digital:

  1. Podendo criar seu próprio conteúdo, por que os consumidores optariam pelos modelos já prontos de seriados e afins?
  2. O que levará as pessoas a comprar um conteúdo que pode ser facilmente pirateado?

O raciocínio pode ser complicado, mas as respostas estão se mostrando cada vez mais simples.

Time é mais uma obra instigante do cineasta coreano Kim-Ki-Duk. Dessa vez, a brincadeira com linguagem começa no título. Time é o loop criado com o início e o fim do filme, é a paranóia com idade e a obsessão por plásticas, é a idéia de que as pessoas enjoam uma das outras com o passar do tempo, a dificuldade de seguir adiante.

Time de Kim-Ki-Duk

Kim-Ki-Duk sempre trabalha com o conceito de ausência. O que não está tem por vezes mais importância do que o que podemos ver ou ouvir. Em Primavera, verão, outono, inverno… primavera já havia o conceito do cíclico, como o nome indica. O filme se passava em uma cabana no meio de um lago dentro de uma grande floresta, e a ausência de civilização criava a ausência das palavras. Casa vazia trouxe o silêncio para o meio da cidade, e ao fugir do cenário da natureza, a ausência do som se potencializou. São raras as falas, e não há adequação dos personagens ao meio. O grande objetivo do personagem principal é ser invisível, a expressão máxima da ausência para um ator. O arco, seu trabalho seguinte, extrapolou o silêncio, mas o devolveu para o cenário bucólico. Ficou então a pergunta, o que Kim-Ki-Duk faria em seu próximo filme? Time é um filme verborrágico na maior parte do tempo. As pessoas não só gostam de se comunicar, como têm na fala uma arma contra o mundo. É pela fala que identificamos o ciúme exagerado da protagonista e suas paranóias. Pelos seus escândalos (cômicos) somos informados do seu estado psicológico fragilizado. É dela que virá a primeira grande ausência do filme, a da imagem. Certa de que o namorado enjoou de seu rosto, ela resolve fazer uma plástica. A transformação externa assume-se como símbolo do vazio interior. Após a cirurgia – e sim, o diretor nos brinda com uma cena aterrorizante de cirurgias plásticas reais, os cortes são inacreditáveis e desagradáveis, mas só aparecem uma vez, o suficiente para gerar impacto e reflexão – a personagem decide desaparecer por seis meses, até poder tirar a atadura. Esvazia o apartamento e some sem avisar ao namorado. Na maior parte do filme acompanhamos o namorado e sua solidão, a descoberta da plástica e a neurose crescente por saber que qualquer mulher ao redor pode ser o seu amor perdido. A ausência flerta com o real e vira uma crítica à perda de identidade no hipermodernismo. Passado entre o centro da cidade e um bosque com esculturas eróticas deformadas, Time não é um filme para qualquer um (Kim-Ki-Duk nunca foi), é um filme para quem gosta de cinema e sente a necessidade urgente de entendê-lo. Nele, nada é mastigado e tudo parece fruto do acaso, mas não existe nada mais trabalhoso e estudado do que o processo de parecer simples na tela do cinema.

Yamandú Canosa

“enchente” – clique para ampliar

Yamandú Canosa saiu, em setembro de 2006, de Barcelona e estacionou suas paisagens na Galeria Laura Marsiaj, em Ipanema, e é interessante pensar sua exposição como exatamente isso, um percurso, uma caminhada. Mais e melhor que uma metáfora de uma rua com suas imagens díspares e seus códigos visuais variados, a exposição é uma metonímia, um outro caminhar, que não existia antes e que não representa nada além de si mesmo e que é uma continuidade da rua, agora com um apontamento dos processos de cognição: essa imagem vem de uma palavra, essa outra de um azul, a cor do nada espacial.

O edifício Yacoubian é um filme egípcio de quase três horas de duração que lembra um compacto novelesco, uma espécie de melhores e piores momentos das novelas de Manoel Carlos e Sílvio de Abreu. Junte corrupção no governo, aborto, fanatismo religioso, preconceito social, treinamento terrorista, solidão homossexual, exploração no emprego, poucas oportunidades para as classes baixas, tráfico de drogas, tráfico de influência, violência da polícia, tortura, decadência das classes altas e prostituição e você terá metade da história deste longa metragem. Essa mistura de gêneros que quebra a cadência dramática é a fórmula mágica de Bollywood, o cinema popular da Índia.

Yacoubian

Aparentemente, o diretor Marwan Hamed bebeu direto da fonte e mudou o sotaque. Para quem não conhece nada do Egito, é a chance de ter um panorama completo, apesar de tendencioso para o lado errado. Para quem está interessado em cinema, temos atuações e aparatos técnicos decentes, fotografia respeitável, direção mais do mesmo e roteiro e edição insuportáveis.

A Ruptura, ou La coupure no título original, é a estréia de Jean Châteauvert como roteirista, diretor e produtor de um longa metragem. Feito no Canadá em 2006, o filme conta a história de dois irmãos adultos, incestuosos desde pequenos. O filme tem vários méritos. Jean tira o incesto das sombras e o transforma na relação principal do casal, deixando os cônjuges verdadeiros em segundo plano.

La coupure A fotografia e a direção são esmeradas, há uma textura excepcional nas imagens, os atores têm sensualidade de sobra (o que é importante em filmes de sedução) e as atuações são precisas entre a sanidade e a loucura, o drama e o humor. Outro detalhe interessante são os ângulos fechados usados pelo diretor para criar o clima claustrofóbico, mostrar a prisão psicológica dos irmãos, a total dependência entre eles. Valérie Cantin (Christine) e Marc Marans (Christophe) mostram uma química diferente como os irmãos incestuosos, e Michael Kelly dá um ar de incredulidade cômico ao seu personagem Mario. Infelizmente, o roteiro tem falhas. Além de ser todo baseado em diálogos, deixando pouco para a imagem, o filme esquece que o incesto precisa da tensão familiar para funcionar. Aqui, todo mundo sabe de tudo. A mãe de Christine e Christophe acha o caso normal, Mario, que é casado com Christine, finge que não vê, os filhos de Christine sabem do caso da mãe com o irmão, e sua filha de 12 anos de idade tenta ficar com Christophe para si. Para completar, uma antiga viagem de lua-de-mel dos irmãos é assunto corriqueiro na mesa do café da manhã, sem grandes choques para os demais. É importante deixar claro que o problema não está na visão do diretor sobre o assunto, mas na perda de função dos personagens ao redor do casal principal. Se dois personagens agem do mesmo modo e pensam da mesma maneira, um deles é desnecessário, e La coupure mostra uma família inteira com um único comportamento padrão.

Não importa como começou, o Festival de cinema do Rio de Janeiro é hoje um dos cinco mais importantes do mundo. Para quem não sabe, toda última semana de setembro e a primeira de outubro, os cinemas de arte (ou cults, ou de filmes cabeça, como preferir) e alguns cinemas populares do Rio de Janeiro se reúnem para exibir mais de 300 filmes dos quatro cantos do planeta. É mais ou menos assim, em cada sessão um filme diferente. Você sai do filme canadense, compra o ingresso do filme chinês, debate o coreano e se pergunta como não conhecia ainda o cinema da Bósnia. O importante é variar. Existem diversos pontos altos:

  1. Uma mostra voltada para os grandes filmes que ainda não estrearam. Volver e Babel são dois exemplos desse ano. Tem quem prefira ver todos de uma vez no festival, mas como eles tem exibição garantida, talvez seja melhor procurar alguns mais “raros”.
  2. Mostra brasileira. Existe um grande problema de distribuição de filmes no Brasil. Não é difícil apenas captar dinheiro para a realização dos longas. As salas de cinema ainda são um funil injusto e antidemocrático (lembre-se que a maioria dos grandes exibidores aqui no Brasil são estrangeiros). Aproveite então para conhecer os grandes filmes do cinema nacional. Todo ano ocorre uma premiação entre os nossos longas.
  3. Curtas. É tão raro ver curtas no Brasil. De um mondo geral, os curtas produzidos aqui e além das fronteiras são muito bons. Infelizmente, os cinemas preferem passar comerciais chatíssimos em vez de estimular o gosto pela cultura dos espectadores. O festival cria vários pacotes com curtinhas. Você escolhe a sessão e vê montão deles. Não perca a oportunidade.
  4. País convidado. Todo ano, um país recebe um foco especial. É a chance de ter acesso a filmes que nunca veríamos no circuito comercial. A Índia esteve presente ano passado com seus filmes enormes (mais de 3h30 geralmente) de Bollywood. Você sabia que lá os cinemas vivem lotados, com filas dando voltas no quarteirão? Esse ano, a estrela é o Canadá. São produções bem interessantes, vale uma espiada.
  5. A chamada Mostra Expectativa reúne filmes diversos, de diretores estreantes e de nomes consagrados. Ao meu ver, é o ponto forte do festival. Procure filmes com legenda eletrônica ou legenda em inglês. Pode ter certeza de que eles nunca mais passarão por aqui. Pense em um país. Garanto que há um filme dele para ver. Destaque para a Finlândia e o México, com forte presença. Escolha o filme sem medo, conhecendo um mínimo, esteja aberto ao novo.
  6. Mostra diretor. Como acontece com o país, geralmente um diretor recebe uma atenção diferenciada. Esse ano é a vez de Luchino Visconti. Quem nunca ouviu falar de Rocco e seus irmãos (com o lendário Alain Delon) e Morte em Veneza? Quem só viu na televisão, não pode deixar passar a chance.

Esse é o espírito do festival. Até onde for possível, democrático. Esqueça as dicas e as críticas. Listas de outras pessoas não valem. Faça a sua lista de filmes, monte o seu horário e adentre esse universo. Nem só de Estados Unidos vive o cinema mundial.

A relação comercial, unilateral e restrita que o modelo predominante de cinema estabelece com o público sempre gerou, ao longo do tempo, insatisfações que engendraram caminhos alternativos. Desta forma, os cineclubes se apresentam como o resultado dessas insatisfações e da disposição para mediar uma relação mais democrática entre o público e a obra cinematográfica, caracterizando-se pela livre expressão, circulação e acesso, assim como um espaço de intercâmbio cultural, participação e educação da sensibilidade.

Tais características, por um lado, tornaram essa modalidade alternativa de projeção marginalizada e ignorada pela maioria das esferas institucionais, enfrentando muitos obstáculos frente a regimes autoritários ou monopólios industriais. E, por outro, fizeram desses espaços, abertos à experimentação estética, fomentadores de novas criações audiovisuais que, não raro, transformaram-se em importantes centros de produção e cinematecas. E de onde também formaram-se grandes cineastas e outros artistas.

Os cineclubes se desenvolveram em diferentes situações histórico-sociais, culturais e nacionais, adquirindo uma coloração própria em cada contexto sem, todavia, deixarem de apresentar certos aspectos que os identificam em toda a parte. Esses podem ser considerados alternativos na medida em que representam uma matriz fundamental da produção e circulação audiovisual não mediada pelo mercado ou pelo lucro. Desse modo, assumiram formas organizacionais que os distinguem de outros centros culturais ou atividades ligadas ao cinema que o senso comum e a apropriação indevida reconhecem como cineclubes. Apresentam, como marcas próprias, uma organização com base na mobilização de seus associados, normalmente dispostos de forma horizontal, em função de objetivos não financeiros, voltando-se para fins culturais, éticos, estéticos e, dependendo do contexto, político-partidários ou religiosos. Em suma, são pelo menos três preceitos que regem os cineclubes:

  1. a finalidade não-lucrativa;
  2. a estrutura organizacional democrática;
  3. o compromisso com a cultura.

O trabalho das salas de cineclubes, ao promover discussões e reflexões socioculturais, políticas e estéticas que incidem no debate público, propicia aos seus participantes, tanto exibidores quanto espectadores, uma visão mais ampla do cinema que permite melhor contextualizá-lo dentro da cultura. E é dessa maneira também que os cineclubes, desde sua origem, se destacam como agentes propositores de novos paradigmas para a atividade cinematográfica, bem como de políticas públicas que visam alcançar esses novos paradigmas.

O cinema, em sua forma preponderantemente comercial, é uma arte pouco acessível à população em geral. Estatísticas do IBGE (2003) apontam que atualmente existem entre 1.800 e 1.900 salas de cinema no Brasil, localizadas em apenas 7,5% dos municípios brasileiros. De acordo com o Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE), dos 645 municípios do Estado de São Paulo, 100 possuem salas de cinema (num total de 570 salas). Destas, 94% estão concentradas na Região Metropolitana de São Paulo, sendo 40% só na capital. E a maioria delas nos bairros centrais e dentro de shopping centers, com os preços de uma sessão variando entre 7,00 e 14,00 reais. Números de 2002 mostram que o grande circuito exibidor de cinema teve apenas 8% de suas telas ocupadas por produções nacionais. Isso resulta na exclusão, mesmo daqueles que têm condições de freqüentar as salas de cinema, do acesso à produção cultural brasileira, contribuindo ainda com a formação de uma sociedade balizada por imaginários, referências, valores e desejos exógenos.

Por outro lado, já são mais de 200 cineclubes brasileiros, sendo 32 só na cidade de São Paulo, identificados na ocasião da 26ª Jornada Nacional de Cineclubes, realizada em julho de 2006, em Santa Maria pelo Conselho Nacional dos Cineclubes (CNC). A propagação dos cineclubes, bem como das projeções itinerantes e também das produções audiovisuais independentes é um fenômeno que se deve principalmente pela apropriação das novas tecnologias digitais. Os novos equipamentos de produção e exibição audiovisual são mais leves, mais simples e mais acessíveis, o que permite que cada vez mais pessoas tornem-se usuárias.

Nos dias de hoje, grandes possibilidades para a democratização dos meios de comunicação se abrem pela viabilidade que as tecnologias contemporâneas da informação oferecem a apropriações e destinações coletivas e comunitárias. Ao dispor desses recursos comunicativos, grupos e associações de diferentes localidades podem melhor interagirem uns com os outros e intervirem em suas comunidades. As atividades cinematográficas alternativas, por sua vez, são capazes de contribuir para mobilização e sensibilização de consciências e criar um caldo de cultura para mudanças comportamentais e culturais.

A fluidez da informática e da eletrônica permite a combinação de diferentes técnicas e linguagens, e disso decorre a convergência de diferentes movimentos que atuam no campo das mídias alternativas. Assim, a prática cineclubista, com suas características e bandeiras originais, encontra-se hoje num contexto maior, associada à luta pela direito à comunicação e à flexibilização da propriedade intelectual e dos direitos autorais, juntamente com as rádios e TVs comunitárias.

Os cineclubes hoje representam um dos nós de uma ampla rede de informação que se constrói de baixo para cima, contrapondo-se às imposições do pensamento único pela grande mídia. Busca mudanças sociais por meio da libertação da produção cultural das amarras das forças de mercado, estabelecendo canais de expressões da diversidade e trazendo à tona a criatividade escondida nas pessoas.

O projeto Cybermohalla fala da cultura popular de duas favelas de Nova Delhi – a Lok Nayak Jai Prakash e a Ambedkar Nagar – e é administrado pela ONG Ankur e um centro de estudos sociais, o Sarai. Os jovens das comunidades são estimulados a fazer diários como meio de refletir sobre a realidade deles e de seu entorno. Usam papel, vídeo, fotos ou tudo junto. Esses diários são tratados como um banco de dados sobre um presente que se renova sem parar e, embora já tenha estado mais ativo, em setembro de 2006 seu material continuava no ar.

Cybermohalla
O maior desses diários, o Before coming here, had you thought of a place like this? é uma instalação onde, por cima de fotos “grafitadas” no computador, aparecem vídeos, fotos dos participantes, filminhos de animação e cartuns sobre acontecimentos locais: um desatre de trem, um rato que tudo come ou uma noiva, por exemplo.

Nada que não tenha aqui, mas Nova Delhi continua paupérrima e violenta, nós também. E fica um certo desânimo com essas iniciativas.

Para quem quiser desanimar de vez, entre em: http://www.sarai.net/cybermohalla/cybermohalla.htm
Mas, duradouro ou não, tem uma coisa nesse projeto que não encontrei em nenhum dos muitos que tentam dar uma outra visão da arte e das pessoas no Vidigal, na Maré e em muitas outras.

É um projeto baseado em computador. O “livro”, “revista mural” e “instalação” – todos feitos com a estrutura de um diário de adolescente – existem da forma como existem porque usam a internet.

E aí vem o pensamento de que a metáfora da arqueologia para a descoberta de significados, velha como é (data do século XIX), pode precisar voltar à vida para exprimir a polissemia de um site onde você clica e clica outra vez, cada vez mais “fundo”, em busca de ruínas, coisas quebradas e casebres sem teto, que existem na superfície o tempo todo, só que ninguém vê.

Para ficar só no exemplo do século XIX, casebres na superfície era o que não faltava. Foi a época em que as cidades européias inventavam a favela, graças ao início da industrialização e à migração, muitas vezes forçada, dos camponeses pobres que perdiam o direito à terra. E enquanto isso, Théophile de Gautier e Victor Hugo, entre outros, falavam em suas obras de escavações, potes quebrados e de um discurso não escutado, o dos papiros. Mas havia um bom motivo para ir catar no fundo de um buraco o que ninguém queria ver em cima do solo. A arqueologia, no noticiário com descobertas que enchiam a imaginação popular, trazia dois atrativos que na verdade eram um só: primeiro, havia o fascínio com a tecnologia usada nas escavações e, segundo, essa tecnologia era usada para recuperar uma ligação com um passado perdido. Ou seja, um futuro que ressaltava um passado – nada mais apaziguador.

Hoje, dentro de nosso imaginário urbano, a favela também tem um valor de passado, de arcaico. Todos nós já moramos em uma casa de barro, todos nós já andamos descalços e tivemos de caçar diariamente algo para comer.

Fragmentos como esses, fotos, frases ou muros pichados (dizia-se inscritos) – escavados em um site ou em um sítio – são vestígios de uma totalidade que nos escapa e escapa em dois sentido, não a conhecemos e não a temos no presente. Um Cybermohalla, tanto quanto um Egito para o século XIX, é onde podemos pôr um desejo de não-fragmentação – que é o que vivemos no nosso presente urbano. Assim, se equivalem Egito, projetos em favelas, religiões orientais ou tipos de massagens alternativas. Mas se para quem os vende tanto faz, para quem os compra, há uma diferença. Projetos em favela, pelo menos, tentam alcançar um Outro.

Agora, é preciso não esquecer que nos sites, esses sítios arqueológicos contemporâneos, a tela, sem fundo e “limpa”, páira em um não-tempo e um não-espaço onde o presente, ou seja, a página de entrada com os dados objetivos, precisa ser “destruída” para que os hyperlinks ocorram. A coerência, a reconstrução desses fragmentos achados, então se dá, claro, na nossa cabeça, não que esteja lá, disponível. Nem pode. E essa qualidade de distância, ou “aura”, no sentido usado por Walter Benjamin, não tem nada de politicamente correto. Afinal, você vê os fragmentos como vindos de um longe tão longe que você sequer se dá ao trabalho de calcular, embora favelas e asfalto sejam parte de uma mesma situação urbana, a sua.

Com essa topologia temporal e espacial, o site mostra fragmentos de favelas indianas para nós, brasileiros, aparentemente como um exemplo raro de um Outro perfeito: o outro-tempo e o outro-lugar. É preciso escapar dessa armadilha de ver esse Outro como Outro para conseguir chegar até ele. Porque, por mais que se cave, é o Mesmo.

Diferente do que o nome pode sugerir, dEUS não é um grupo de música gospel. O quinteto belga de rock alternativo está no cenário musical desde 1994 e faz um dos melhores sons da atualidade. Com uma criatividade acima do comum, Tom Baarman, Klaas Janzoons, Stéphane Misseghers, Mauro Pawlowsky e Alan Gevaert arrancam dos vocais, violino, bateria, guitarra e baixo uma sonoridade própria que faz as bandas EMO americanas soarem como o lixo industrial que realmente são.

dEUS
Às vezes com um som mais orgânico, às vezes mais distorcido, Pocket revolution, seu quinto álbum, é uma caixa de surpresas com diversos bons momentos. Os destaques ficam por conta de Cold sun of circumstance, a hipnótica Stop-Start Nature e a lenta 7 days, 7 weeks. Se achar a primeira faixa cansativa, não desanime, siga em frente. dEUS tem uma coletânea de 2001 chamada No more loud music.

7 days, 7 weeks
Here comes the sun smiling
How long have you been blue?
There’d ever be a time for us to recapture
All the time we lose (I want to give that to you)

dEUS
dEUS – Roses @ Youtube
dEUS – Via @ Youtube

Será inaugurada nesta sexta-feira, dia 22, a 8ª edição da Bienal Naïfs do Brasil. Única bienal do gênero, realizada sempre no Sesc de Piracicaba, já é referência para a arte ingênua e primitiva no Brasil.

A curadora deste ano é da arte-educadora Ana Mae Barbosa, que propôs o sub-título “Entre Culturas” para esta edição, com a idéia de reforçar a proposta de “ampliar as relações entre arte naïf, arte popular, cultura visual do povo e as representações eruditas que incorporam o popular”. Segundo informações do próprio Sesc Piracicaba foram registradas inscrições de 392 artistas, de 20 estados brasileiros.

Na “Mostra Oficial”, o público poderá ver 115 obras selecionadas pelo júri e na Mostra Especial “Entre Culturas: Matrizes Populares”, 75 obras, escolhidas pela curadora e curadores adjuntos. Visitas de grupos podem ser agendadas com mediadores para atendimento do público. Durante a bienal, aos fins de semana, um artista diferente por semana mostrará sua arte e técnica no “Ateliê Aberto”, um espaço se poderá aprender mais sobre a arte naïf, conversar com os artistas e praticar um pouco com o material disponível.


A exposição ficará aberta até o dia 31 de janeiro, de terça a sexta, das 13h às 22h; sábado, domingo e feriado, das 9h às 18h. Com informações do Sesc Piracicaba: Ria Ipiranga 155, Piracicaba, SP. Fone: (19) 3434-4022.

Site: http://www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/naifs_2006/popup.html

Bienal Naïfs de anos anteriores:

Há o subtítulo de “new museum” no portal onde se chega teclando http://www.rhizome.org/events/timeshares/. Mas não é de artes plásticas que se trata e sim de literatura, essa nova, visual e oral, filha da internet.

O portal Times Shares, administrado pela ONG Rizhome, abre para vários projetos, em uma programação atualizada periodicamente. Em meados de setembro de 2006 havia um poema em andamento, formado de forma automática com as frases e palavras que entram em tempo real na linha onde se tecla as buscas do Google.

Um exemplo:

smokey montain realstate
good morning america
beetles
famous children photography
flat tongue bitch
super boobs
indian scholarships

Ficar lá olhando o poema se formar é uma experiência ao mesmo tempo de pertencimento e de solidão. Foi iniciado em 2005 por Jon Thomson e Alison Craighead, da Inglaterra, e o endereço, para quem quiser ir direto, é: http://www.automatedbeacon.net/

Rizhome

Bem parecido com o do projeto seguinte, no endereço direto de http://artport.whitney.org/commissions/thedumpster/. De Golan Levin, Kamal Nigam e Jonathan Feinberg esse projeto tem o nome de Dumpster (depósito de lixo) e junta mensagens de gente que dispensou o(a) namorado(a). As mensagens, ao se somarem, formam pequenas novelas de amor fracassado e mais uma vez, a sensação é de solidão e pertencimento.

Exemplo:

  • Been up to this weekind, did santa came??? ha, you wish!!! Me and Anne broke up.
  • I broke yp with John. I am kinda happy about that cuz he kinda annoyed me a lot but then he was sweet. Anyway, enough about me, how uo have been?

E há o de Takuji Kogo, do Japão, de 2006. Um texto muito bom, com a animação de uma bonequinha, em looping, como suporte. Diz o trecho do texto:

I’m not happy seeing your look of unhappiness whenever you go to the mall.
I saw fantastic things, you should take a look in those luxury things you can’t afford.
I fell upon a web page. I saw fantastic things you should see. I can see your ecstactic face when you pick up your present that you can’t afford.

Tradução (minha):

Não fico feliz vendo sua cara triste sempre que você vai ao shopping.
Vi coisas fantásticas, você devia ir dar uma olhada nessas coisas luxuosas que são caras demais para você.
Caí em uma página da web. Vi coisas fantásticas que você devia ver. Já posso ver sua cara de êxtase quando você escolher um presente que não poderá comprar.

Rizhome E por aí vaí, a bonequinha se requebra e diz outras frases de igual teor de crueldade, com um sorriso e olhos meigos.

O projeto de Kogo não é interativo. Quer dizer, você pode mixar outras musiquinhas, mas a boneca se requebrará sempre do mesmo jeito dizendo sempre as mesmas frases. Não é interativo e é o melhor exemplo de uma arte que só pode ser feita pela internet, que tem características próprias desse instrumento tão poderoso e tão pouco compreendido. A interatividade – muitas vezes falsa, no sentido de apenas oferecer um leque muuuiiito grande de opções randômicas mas sempre dentro de parâmetros pré-estabelecidos pelo programador, este sim o verdadeiro artista – é apenas a face mais visível da coisa.

Há esse incrível processo, ininterrupto, de criação-dissolução-nova criação de identidades culturais, que tem sua eficácia ligada às condições de produção e às de recepção, típicas da internet.

Você produz em língua estrangeira. Digo isso não só me referindo aos não-anglofônicos, mas porque se trata da última tecnologia de comunicação a ser inventada e, como tal, mantém em si a estranheza e a necessidade de aprendizado. Você aprende (ainda), é uma “segunda língua”. Ao mesmo tempo, as condições de intimidade – os computadores hoje são pequenos e estão em um cômodo da sua casa onde você tem privacidade – e a mimetização que a tecnologia faz dos processos mentais humanos tornam esse estranho uma extensão do seu próprio corpo. É você, uma parte de você, que é nova.

As condições de recepção são similares, em termos de mediação – é uma máquina – e de proximidade – ela fala com você e só com você. Diferentemente da televisão (a penúltima invenção), ninguém compartilha o seu momento no computador.

Ele fala só com você, e com outros milhões iguais a você. No mundo inteiro. Repetindo a cada instância a mesma imbricação de estranheza e intimidade. Você se reformula, se redescobre. Não tem como não o fazer.

Agora, de volta ao projeto japonês.

O que o torna especial é o fato de ser tudo isso que foi descrito acima e, além disso, japonês.

Merece um estudo aprofundado a posição única que o Japão apresenta no seu constructo cultural histórico e em como esse constructo se distingüe hoje, quando todas as culturas se vêem face ao mesmo processo de aquisição de elementos exógenos e reforço-invenção do que é considerado nativo.

O Japão formou sua linguagem escrita e, portanto, o esteio de sua cultura, com os signos e as tradições literárias de um outro povo, o chinês. Todas as outras línguas/culturas chegaram lá bem mais tarde, no período Meiji, meados do século XIX.

Uma vez chegadas, se tornaram o alvo de interesse da elite intelectual, que importou não só termos em inglês modificados, como – o que é de regra – sistemas de elaboração de pensamento por causa da necessidade de adaptar, nas traduções, a estrutura gramatical e sintática da língua estrangeira, e tecnologias – esse outro tipo de tradução de pensamento. Foi uma transferência semiótica. Ninguém vive isso impunemente. Muito menos quem já tinha, na sua história, uma formação híbrida, um discurso não-unificado, instável. No início do período Meiji, a escrita japonesa continha signos duplos, colocados juntos formando uma só “palavra”, um de origem japonesa muito antiga e o outro de origem chinesa. No início do século XX começam a surgir formas coloquiais que reproduzem o som de um japonês falando palavras inglesas. No início do século XXI, o inglês de um projeto japonês de arte na internet é perfeito. Mas a bonequinha que o fala é indiscutivelmente japonesa, com o “pathos” dos mangás, o trejeito de passividade meio perversa e erotizada de quem sabe como ninguém acolher as investidas alheias e sobreviver mesmo assim.

O que vale também para o texto do projeto de Kogo: um libelo contra o consumo. Um libelo contra o consumo, falado em inglês, por uma personagem digital, desenhada nas formas consagradas do consumo: curvas suaves, cores alegres, “femininas”, música agradável, movimentos idens.

É o que a internet faz: parece que come identidades culturais mas também as fortalece. E, o outro lado, incômodo: parece que ataca o consumismo mas também o fortalece.

Cacá Diegues aprimorou sua relação com Alice, a do país das maravilhas. Dessa vez, os personagens espalhados pelo caminho são mais do que placas de sinalização. Em Deus é Brasileiro, seu filme anterior, Cacá Diegues mostrava Deus em uma viagem de férias contemplativa, criando uma comédia leve sem grandes pretensões. Em O maior amor do mundo, Antônio (José Wilker) interage com quem encontra, aprende e ensina, e assim se transforma, respeitando o princípio básico do road movie. Cada ponto de parada deve modificar o personagem, levá-lo para outro lugar não só fisicamente, mas psicologicamente também.

O Maior Amor do Mundo

No filme, Wilker vive um astrofísico que volta ao Brasil para receber uma homenagem. Nesse retorno, passa no asilo onde está Maestro, seu pai adotivo, e conta que morrerá em breve, por causa de um tumor. Maestro (Sérgio Britto) é uma pessoa amargurada, foi casado com uma cantora lírica desafinada (Deborah Evelyn) e sempre fez questão de lembrar que o filho nasceu no dia em que o Brasil perdeu a copa para o Uruguai. A relação entre os dois nunca foi boa e nem a notícia da morte precoce diminui a tensão. Como presente de despedida ou golpe de misericórdia, Maestro dá a entender que conheceu a mãe verdadeira de Antônio. O astrofísico, transtornado, sai em busca do próprio passado.

Antônio é atraído por uma menina de pele alva, seu coelho branco, e acaba na favela da Baixada Fluminense onde morou sua mãe. Tendo uma foto em preto e branco como referência, ele esbarra em personagens que vão dando pistas, e aos poucos monta a sua história.

Alice seguiu o coelho e despencou no país das maravilhas, Orpheu resolveu ir até o inferno atrás de Eurídice. Antônio irá em busca do maior amor do mundo.

O Maior Amor do Mundo Cada universo tem suas Rainhas de Copas, Lagartas de narguilé e Gatos de Cheshire. No filme de Carlos Diegues, a paixão vem na pele de Luciana (Taís Araújo), uma das beldades da favela. O dono do narguilé é Mosca (Sérgio Malheiros), um garoto gente boa que nunca estudou na vida e que trabalha como aviãozinho do tráfico. É ele quem leva Antônio até Mãe Santinha (Léa Garcia), uma mãe de santo trambiqueira, no passado conhecida como Zezé, e por um acaso do destino, a melhor amiga da mãe de Antônio. Com ajuda desse Gato de Cheshire cartomante e seu sorriso enigmático, Antônio participa do dia a dia da favela, das mortes, dos acidentes, do envolvimento da polícia com o tráfico. Entende as necessidades e suas belezas. Ainda na superfície, acha que o seu dinheiro pode mudar a vida de todo mundo, mas a cada degrau que desce, a situação se complica um pouco mais.

Na ausência de sua mãe, Antônio tenta se integrar ao que ela viveu, descobrir os detalhes, resgatar o passado de alguém que sumiu no tempo, para congelar o seu próprio tempo, com medo do futuro. De certo modo, ele consegue.

O maior amor do mundo é um filme delicado, com atuações precisas e cada detalhe muito bem pensado. Além de uma história bonita, estão lá as denúncias e alfinetadas sociais que fazem parte do estilo de Diegues. Um dos pontos altos do cinema brasileiro nessa temporada.

assista ao trailer no youtube

Com o tema “Como Viver Junto” a Bienal de Arte de São Paulo, 27ª edição, acontecerá entre 07 de outubro a 17 de dezembro e, neste ano, inova com a entrada gratuita.

Apresentará trabalhos de 118 artistas convidados. Destes, sete  foram convidados para realizar um projeto gráfico no livro e dez são artistas internacionais em residência no Brasil. Haverá,  ainda, a “Quinzena de Filmes” com nove film makers apresentando seus trabalhos entre 04 a 18 de outubro no Cine Bombril e também no Museu Lasar Segall. A lista completa dos artistas que participam desta bienal pode se vista no site da Fundação Bienal.

Um ponto que interessa muito aos arte-educadores é o curso de capacitação de professores. Com inscrições abertas e gratuitas para professores da rede municipal e estadual de São Paulo e coordenado pelo Projeto Educativo da 27ª Bienal de São Paulo, o curso tem duração de 8 h/a e, como conteúdo, usa o material educativo da Bienal, elaborado pelo projeto Bienal-Escola,  com a coordenação de Denise Grinspum. Oferece atividades práticas e teóricas, com trabalhos individuais e em grupo visando proporcionar aos professores oportunidades de uso do material educativo.

Os cursos são gratuitos e acontecem as quintas, sextas e sábados, na Fundação Bienal, entre 12 de agosto e 28 de outubro. Têm como público alvo os professores de arte do Ensino Básico e Educação de Jovens e Adultos que, ao participar do curso, garante também uma vaga no agendamento de visita monitorada com seus alunos. Professores da rede privada também podem fazer o curso, mas somente nas quintas e sextas; professores da rede pública têm exclusividade aos sábados.

Interessados devem enviar, por e-mail, os seguintes dados: nome, telefone, celular, e-mail, site, RG, endereço, cargo ou função, unidade escolar, contato da escola e registro funcional (RF), para os seguintes endereços:

  • professores da rede municipal: capacitaprofsme@bienalsaopaulo.org.br
  • professores da rede estadual: capacitaprofsee@bienalsaopaulo.org.br
  • professores da rede particular: capacitaprofpart@bienalsaopaulo.org.br

Depois de inscritos, os professores serão contatados pela equipe do Projeto Educativo, que informa a data do curso.

Informações: anny@bienalsaopaulo.org.br – Tel: 5576-7671
27ª Bienal de São Paulo
Tema: “Como Viver Junto”
Curadoria-geral: Lisette Lagnado
Co-curadores: Adriano Pedrosa, Cristina Freire, José Roca, Rosa Martínez e o curador convidado, Jochen Volz.
Visitação: de 07 de outubro a 17 de dezembro de 2006
Parque do Ibirapuera – Portão 03
Entrada Franca

Artigo inicialmente escrito como linha geral para palestra que dei na UNIP (SP) em 06/10/03 durante a ECO, revisado com atualizações mínimas em 9 de julho de 2006 para ser publicado na nova versão deste site, o vignamaru.com.br

Por que CSS, tableless e traquitanas similares?

3,45 milhões de conexões de banda larga no Brasil. (IDC, jan/06)

627 milhões de pessoas (10% da população mundial) já compraram pela web. (ACNielsen, nov/05)

19 horas por dia é a média brasileira de navegação residencial. (Ibope//NetRatings, mai/06)

19,9 milhões moram em residências com pelo menos um computador com acesso à web. (Ibope//NetRatings, dez/05)

12,2 milhões de pessoas utilizam a internet em casa no Brasil (Ibope//NetRatings, dez/05)

4,7 milhões de brasileiros já fizeram pelo menos uma compra pela internet (e-bit – fev/06)

72,9% dos usuários do Orkut são brasileiros (Orkut – jan/06)

17,2 milhões de brasileiros navegam diariamente (Ibope//NetRatings – nov/05)

6,5 bilhões de pessoas acessam a internet em todo o mundo (Internet World Stats – dez/05)

Hoje temos mais de 20 milhões de internautas brasileiros. Aproximadamente 1/6 destas pessoas possuem acesso à banda larga. Nem todos possuem o mesmo conhecimento das ferramentas disponíveis no mercado. Nem todos falam inglês. Nem todos possuem a mesma compreensão de símbolos e signos. Nem todos usam os programas da Microsoft®. Nem todos possuem placas de vídeo potentes. Nem todos estão com tempo. Todos precisam ter acesso à informação.

Ah, o seu público é “AAA” e tem banda larga e então você acha que não precisa criar um design voltado para acessibilidade? Certo… O seu público é o primeiro a querer usar internet em um palm ou no celular. E o seu visitante, rico ou pobre, vai querer ter acesso à informação no seu site com a mesma facilidade em um 286, em um G5 ou em um celular.

Não importa para quem você julga que o seu site se destina. O que importa é que esta pessoa consiga te achar. E, para isto, os mecanismos de busca precisam te encontrar.

O seu site pode ser encontrado e lido com facilidade usando tabelas, imagens, animações e até mesmo Flash. Para isso, basta se preocupar com SEO (Search Engine Optimization) e colocar uma informação textual no seu site. Esta informação textual pode perfeitamente coexistir com qualquer outro tipo de informação que você queira. A maneira mais fácil de fazer isso é usar XHTML mas existem muitas outras. A tendência é que isso fique cada vez mais fácil de fazer. O que muda é a forma de pensar a web.

A questão da acessibilidade é muito mais filosófica do que técnica. Com meia dúzia de sites de referência ou uns poucos bons livros (recomendo especialmente o do Eric Meyer) você domina a parte técnica. Você precisa querer desenvolver sites de fácil acesso e indexação.

Um erro comum é achar que hotsites (sites de duração limitada, normalmente feitos para uma determinada promoção) seguem uma ideologia à parte quando, justamente ao contrário, são estes sites que mais precisam de uma indexação rápida e fácil. O visitante normalmente não decora o endereço do seu site em pouco tempo e a grande maioria utiliza mecanismos de busca para encontrá-lo. Não se iluda, não ache que porque você gastou pequenas fortunas com outdoors e anúncios na tv o seu inesquecível endereço vai ficar na cabeça do seu público até chegar em frente a um computador. A necessidade e/ou o desejo do seu visitante, por outro lado, andam com ele desde o seu lindo outdoor até o micro da casa dele.

Vamos supor, por exemplo, que eu resolva fazer um hotsite para anunciar que a minha pasta de dente para gatos agora tem dois novos sabores: fígado e salmão. O meu cliente não vai lembrar o endereço do site imediatamente. Ele vai primeiro procurar por “pasta dente gato”. Seria bom que logo na primeira página do mecanismo de busca ele já encontrasse o que procura. Para que isso aconteça, o meu site precisa ser fácil de ser lido pelos searchbots.

Tudo na internet funciona sob o mesmo protocolo e vai ser visto da mesma forma: com um browser. Este browser pode ser uma infinidade de programas e pode até mesmo ser invisível para o usuário, mas terá, necessariamente, alguém mostrando para o seu visitante o que está em outro lugar, ou seja, o que está no seu site. O seu visitante não tem o menor interesse em saber se o site que ele está vendo foi feito em tableless, com css, se está cheio de nested tables, se foi feito no programa x ou à unha. O que ele quer é achar o que ele procura. E o que ele procura é totalmente irrelevante para o processo de acesso à informação.

Tornar o seu site acessível não tem relação com a informação visual dele. Você pode perfeitamente ter um site com look’n’feel (jargão para “gostosinho” no meio publicitário) e ainda assim ser fácil de achar, de ler, de entender, em qualquer plataforma.

Quanto mais fácil de achar for o seu site, mais popular ele vai ser. E quanto mais popular ele for, mais acessos ele vai ter.

Existem, então, várias formas de otimizar este acesso à informação. A primeira delas é o que chamamos de “código semântico”. Este é um nome legal para dizer que é um código fácil de ler. Se você, humano normal, consegue ler o código, com certeza todo mundo vai conseguir ler (e por todo mundo eu quero dizer todas as máquinas).

A maneira mais fácil de tornar o seu código simples de ler é tirar dele todas aquelas tags de fonte, de alinhamento, etc. Você deve estar se perguntando como vai conseguir fazer com que o seu texto apareça como você quer. Ora, muito fácil: separe a informação da formatação com css. Usar uma folha de estilo (css) tem, sob o meu ponto de vista, duas vantagens básicas: 1 – o seu código fica pronto pra viagem e; 2 – é mais fácil e rápido de atualizar depois.

Você pode usar css e ainda usar tabelas como elemento de diagramação. Só acho uma grande besteira. Talvez a melhor coisa do css é que você pode alterar um site inteiro atualizando um único arquivo texto. E esta alteração pode ser também de posição e (in)visibilidade dos elementos se estes estiverem fora de uma tabela, em uma div. A div é colocada na página com coordenadas, tanto do topo, tanto da esquerda. E estas coordenadas podem ser definidas dentro do seu css. Desta forma, você passa a ter controle total (e muito rápido) sobre todos os elementos de diagramação/formatação do seu site com um único arquivo texto simples que pode ser lido e alterado em qualquer lugar com qualquer programa. Isto se traduz em simplicidade, em rapidez, em dinamismo, em liberdade e, consequentemente, em dinheiro.

Você pode, ainda, se dar ao luxo de fazer vários lay-outs diferentes e permitir que o seu visitante escolha qual gosta mais, com um simples style-switcher você consegue que o seu site tenha aparências completamente diferentes, funcionando como skins.

É simples: quanto menos tempo você gastar para atualizar o seu site, menos dinheiro ele custará para você. Quanto mais visibilidade ele tiver, mais retorno você vai ter.

Com tudo isso, era meio que esperado que surgisse alguém decidido a regulamentar e documentar esta abordagem. Já existe, é o W3C – World Wide Web Consortium – que documenta, regula, valida e escreve os css. Por escreve os css eu quero dizer exatamente isso, são eles que criam a linguagem do css, são eles que vão lá e escrevem e criam as coisas que o css faz. Como eu gosto sempre de beber na fonte, assino a lista dos desenvolvedores deles para acompanhar de perto o que está vindo por aí. O site deles é a referência mais importante para quem está querendo aprender.

Desenvolvam sites semânticos e economizem o seu tempo (sem retrabalho e com atualização rápida) e o tempo do seu visitante (sites com esta abordagem ficam entre 25 e 50% menores).

Desenvolvam sites semânticos e falem para usuários de qualquer sistema operacional, em qualquer plataforma, em qualquer mídia.

Desenvolvam sites semânticos e se tornem democráticos e disponíveis.

Desenvolvam sites semânticos e parem de perder dinheiro.

Sites também têm ergonomia. Vocês precisam adaptar os sites ao usuário e nunca o usuário ao site.

O conteúdo é o mais importante. A web é a democratização da informação. Não é a democratização do flashzinho-bonitinho-que-pisca.

Um site, assim como qualquer mídia, não sobrevive sem conteúdo. A internet é causa e consequência da libertação da informação. Certifique-se de que o seu usuário tem acesso a ela.

¡Loco! ¡Loco! ¡Loco!
Cuando anochezca en tu porteña soledad,
por la ribera de tu sábana vendré
con un poema y un trombón
a desvelarte el corazón
.

Em homenagem ao último template para Mambo que fiz, decidi falar um pouco de ritmo. Não, eu não estou mudando de profissão. É muito comum uma arte usar termos de outra emprestado. Existe tonalidade em música, movimento na estética e ritmo em design.

Em música, ritmo é um padrão de notas. A repetição deste padrão cria uma espécie de fio condutor da música. Em design não é muito diferente.

A criação de uma linha, um conjunto cromático, uma sequência de objetos ou mesmo apenas uma simples repetição podem gerar ritmo e movimento em design. O movimento é quando uma composição guia os olhos do espectador em uma determinada direção ou através de uma lógica específica. O ritmo é quando há uma repetição intencional.

marca Vigna-Marú

A minha logo, por exemplo, tem uma repetição intencional. O ritmo não precisa necessariamente usar uma forma ou objeto, pode ser também uma cor ou um tom.

Ritmo cria a sensação e a compreensão de organização e unidade, mesmo que os elementos variem em forma, em posição e/ou em cor. O ser humano normalmente entende os objetos como pulsação e os intervalos como pausas. Os intervalos podem ser espaços entre objetos ou mesmo quebras de página de um livro.

Ritmo e blues

Talvez a noção mais importante sobre ritmo é a de que se trata de algo organizado. O ritmo só existe dentro de uma determinada métrica e respira repetição. Sem o método, sem a lógica, sem a matemática, sem organização, o ritmo não pode ser executado.

Hoje em dia está muito na moda os florais. Entendemos que os padrões florais, por serem muito orgânicos e próximos à natureza são relaxantes e tranquilizantes justamente por esta sensação do conhecido. A moda das flores há de passar mas esta regrinha de que o conhecido é relaxante vai ser válida sempre. A curva é conhecida e a reta é inventada. Lembre-se disso sempre: na dúvida, use um arco.

“A menor distância entre dois pontos é a reta mas a mais saborosa é a curva.”
Mario Quintana

Às vezes acho que Linux pode, de fato, assustar um pouco. Então tá, vamos falar primeiro de opensource/freeware para a plataforma comercial. Parece-me um pouco non-sense mas quem sou eu para criticar?

Existem muitos softwares bons, fáceis de instalar e de entender, simples de usar e muitas vezes melhor desenvolvidos e com menos bugs do que os seus pares comerciais.

Artes gráficas e multimídia:

Web:

Processamento de texto, planilha, etc:

Comunicação pessoal:

Ícones:

E todos estes, com instaladores (sem essa de ficar compilando software), manual e fóruns de discussão para te ajudar. Existem muitas, muitas outras opções. Recomendei nessa listinha aqui de cima apenas aqueles que eu já testei e gostei.

Você já tem preocupações demais para ficar gastando tempo e dinheiro em atualizações caras de softwares caros só por causa da preguiça de alguns em aprender algo novo. Mude você também. De graça, sem dificuldade, sem stress, sem se preocupar com nada.

E, se você estiver pronto para realmente fazer uma mudança de filosofia empresarial, mantendo a sua empresa 100% legalizada e ao mesmo tempo com softwares ponta-de-linha, mude para Linux. Sem medo, ou, como diz o meu colega designer Bruno Gaspar, “mamãe, mamãe, tem um pinguim no meu armário“!

Perceber é assimilar o que chega a nós através de nossos sentidos. Aqui só vou tratar dos estímulos visuais.

Correndo o risco de ser óbvia, para se ver algo é necessário luz. O olho humano interpreta a luz refletida dos objetos para enviar as informações de distância, cor, volume, etc, ao cérebro. Então, não seria leviano da minha parte afirmar que em termos físicos nós funcionamos como máquinas fotográficas. O que nos diferencia dos aparelhos é, justamente, a interpretação destas informações e a emoção gerada a partir dela.

A percepção visual é dependente e ao mesmo tempo influencia o meio e a cultura onde o indivíduo está inserido. Por exemplo, a cor branca tão freqüentemente associada à pureza e leveza no ocidente é tristíssima e negativa no Japão, onde é a cor oficial de luto. Meu filho me explica que o Power Ranger® branco (personagem japonês) é “mau”. Muito se aprende com as crianças.

Portanto, é impossível a criação de um símbolo que não esteja inserido na cultura onde existirá.

Com tudo isso, não é de se estranhar que psicólogos tentem estudar e consequentemente explicar a percepção (não apenas a visual). Para os designers a teoria mais importante é a Gestalt.

Até agora só falei de percepção. Para o designer, a percepção é fundamental para que a comunicação visual exista mas não é, entretanto, a meta final do projeto. É importante pensar na reação do indivíduo àquela percepção. E, especialmente, como classifica, sente e memoriza esta informação. Disso trata a semiótica.

A semiótica é uma técnica de pesquisa que consegue dizer, de um modo bastante exato, como funcionam a comunicação e a significação. A semiologia é parte da lingüística. Não é preciso ser especialista em etimologia para deduzir que semiologia e semiótica estão intimamente ligadas.

Uma mensagem, uma estrutura de signos, não apenas comunica mas também significa algo, representando algo para o indivíduo que conhece aquela estrutura de signos. Por exemplo, apesar de achar belíssimo, o alfabeto árabe nada significa para mim.

 

triângulo semiótico

 

Para Charles S. Pierce, a relação de significação envolve três sujeitos: um signo, o seu objeto e o seu interpretante; jamais uma ação entre duplas. Essas três entidades formam a relação triádica de signo que pode ser representada graficamente com base no que conhecemos por “triângulo semiótico de Ogden e Richards“.

Os signos, por sua vez, podem ser analisados sob três aspectos (conhecidos como tricotomias): em relação a si mesmos, em relação ao objeto e em relação ao indivíduo que o percebe.

A área da comunicação por mensagens visuais define o universo do design gráfico. Os elementos visuais constituem a substância básica do que vemos. São a matéria-prima de toda informação visual. A professora Donis A. Dondis é, na minha opinião, a mais clara referência sobre os elementos visuais (ponto, linha, estrutura, volume, superfície, textura, luz e cor) e suas composições. Como são noções que pertencem ao nosso ideário coletivo, não vou perder tempo com elas agora.

O que torna a comunicação visual diferente das demais é que conteúdo e forma não podem ser separados. A composição destes elementos, é então a combinação ordenada dos elementos da comunicação visual (ponto, linha, cor, etc).

Então, bravo leitor, para ser capaz de analisar o trabalho de um designer, você não precisa estudar Gestalt ou semiótica. Basta prestar atenção em unidade, harmonia, simplicidade, proporção, equilíbrio, movimento, destaque, contraste, legibilidade e acessibilidade (não apenas em web, uma logomarca precisa ser compreendida por um daltônico, por exemplo).

Mais especificamente, quando for analisar uma marca, preste atenção – além do que citei acima – em:

- originalidade temática, diferenciação.

- valor simbólico, emocional.

- impregnação formal, recordação.

- qualidade estética

- durabilidade

- expansibilidade (pode ser usada em todas as mídias, por exemplo)

- redutibilidade (se é legível em preto e branco, etc)

- escalonabilidade (diferentes tamanhos e formatos)

- globalização – uma marca hoje não pode mais ser pensada apenas para um país, para uma cultura.

Como você pode ver por este superficial e rápido artigo, um bom design é algo complexo, rico e que depende de um bom profissional. Não ache que o instrumento (um bom computador, por exemplo) é suficiente para produzir algo que preste. Não é o martelo que faz o marceneiro. Todo designer é um artista de circo, fazendo algo muito complexo parecer simples e fácil.

“Um ser humano deveria ser capaz de trocar uma fralda, planejar uma invasão, fatiar um porco, construir um barco, projetar um prédio, escrever um soneto, gerenciar contas, levantar um muro, consertar um osso, confortar os moribundos, receber ordens, dar ordens, cooperar, agir sozinho, resolver equações, analisar um novo problema, preparar adubo, programar um computador, cozinhar uma refeição saborosa, lutar com eficiência, morrer com estilo. Especialização é para insetos.” – Robert A. Heinlein

O papel que você escolher para a sua publicação deve reunir uma série de características que garantam a relação custo/qualidade desejada. É importantíssimo lembrar que o processo de impressão é tão fundamental quanto o suporte. Chamamos de suporte tudo aquilo que recebe a impressão (poderia ser também plástico, tecido, metal, etc).

Papéis brancos diferentes têm “brancuras” distintas. Branco quente é aquele que reflete um leve tom amarelado e branco frio o tom azulado. Naturalmente, o quente vai favorecer as cores quentes e assim por diante. A impressão final depende tanto das propriedades da tinta como as do papel. Por isso é que o produtor gráfico sempre pede a prova de impressão no mesmo papel que será usado no produto final.

Papel é o tipo de coisa que você pode perguntar pra gráfica. Eles terão prazer em lhe explicar (talvez até mais do que você precise saber). O fabricante do papel, claro, vai dizer que o papel dele lava mais branco.

Alguns conceitos básicos

Você certamente já ouviu falar em gramatura. Gramatura é a medida da massa por unidade de área do papel. Usamos gramas por metro quadrado. O papel da sua impressora doméstica é de 75 ou 90 g/m². Quanto maior a gramatura mais “grossinho” o papel é. A gramatura é importante não apenas pelo lado físico do papel mas também pelo comercial: vende-se papel por peso e impressão por área.

O brilho é o que torna o papel reluzente ou lustroso. Quanto maior o brilho do papel, mais efeito de espelho ele vai ter.

Opacidade é o quanto o papel bloqueia a luz. Quanto menor a opacidade, pior o contraste da impressão. Em áreas com grandes quantidades de tinta (os famosos “chapados”) a opacidade do papel tem uma grande influência na qualidade do produto final.

A direção das fibras determina como o papel irá se comportar depois de encadernado. O papel pode ser encadernado com as fibras paralelas à lombada para prevenir capas abertas, “beiços” e outras curvaturas indesejáveis.

A absorção do papel (a velocidade com que a tinta penetra no papel) é o que diz como o papel vai “chupar” a tinta. Esta característica é uma das determinantes do rendimento da tinta e do tempo de assentamento e secagem do papel.

Quando falamos de livros, surge a preocupação de como o papel vai aguentar todo o processo posterior à impressão. Depois de colado e/ou costurado, o livro é refilado (apara de rebarbas), embalado e encaixotado.

Embalagens, por sua vez, precisam ser flexíveis e ao mesmo tempo resistentes e aguentar empilhamento. Por conta do barateamento dos processos de impressão em outros suportes, usa-se cada vez mais materiais plásticos para embalagens.

Enfim, o papel precisa ser escolhido caso a caso. Não adianta você decidir que ama o Chamois® e ponto final. Analise um produto de cada vez e pergunte por aí, na maior cara de pau.

Na hora de conversar sobre cor, o seu maior aliado é o produtor gráfico. Para falar de papel o produtor é um bom intérprete mas a opinião da gráfica deve ser ouvida. Até porque as gráficas não vendem papel – elas encomendam o que você escolher – não havendo, portanto, conflito de interesses.

Eu sei que me repito às vezes. Voltarei outras vezes ainda ao mesmo assunto. É assim quando a gente acredita de verdade em algo.

Firefox Eu sigo a linha do user centered design. Visto a camisa da campanha do Mozilla, “take back the web” e concordo que o controle do seu navegador é seu e não do designer.

Acredito que os sites precisam ser lidos por qualquer um em qualquer lugar. Gasto um tempão testando uma ilustração para me certificar que daltônicos consigam ver o que desenhei.

Acredito que separar a informação da formatação (css) é bom não apenas por questões econômicas mas também para facilitar a vida de simuladores de voz para cegos. Tenho essas preocupações. E, ao mesmo tempo, a estética é importante, a leveza e a sutileza fazem bem e a mensagem precisa ser transmitida com clareza e eficiência.

Não acho que desenvolver sites para aqueles felizardos com banda larga e que não ousam entrar no seu site com um palmtop ou um celular seja a melhor coisa pra a sua empresa. Pelo contrário, acho que a melhor coisa para a sua empresa é que ela seja encontrada e visitada por todos, mesmo que não seja o seu público-alvo. Outro dia indiquei para um amigo o site de um revendedor de motor de lancha, necessidade que eu jamais tive, não sou público de motor de nenhum tipo.

Assim é a internet.

É o mundo de pontas.

Mundo de Pontas (“World of Ends”)
O Que É A Internet E Como Não Confundí-la Com Outra Coisa
Por Doc Searls e David WeinbergerHá erros e há erros.

Aprendemos com alguns erros. Por exemplo: pensar que vender brinquedos para animais de estimação pela Web é um grande jeito de ficar rico. Não vamos repetir este.

Outros erros repetimos muitas vez. Por exemplo, pensar que:

- …a Web, como é a TV, é um jeito de manter os olhos parados para anunciantes desfilarem comerciais;

- … a Internet é algo que as telecoms e as empresas de mídia deveriam filtrar, controlar e de algum modo, “melhorar”.

- … não é bom que usuários de diferentes sistemas de mensagens instantâneas se comuniquem pela Internet.

- … a Internet sofre de uma falta de regulamentações que protejam indústrias que se sentem ameaçadas por ela.

Quando se trata da Internet, muitos de nós sofrem da Síndrome do Erro Repetitivo. Isso vale especialmente para editoras de revistas e jornais, rádio e TV, TV a cabo, a indústria de discos, a indústria de cinema, e a indústria telefônica, para mencionar apenas seis.

Graças à enorme influência dessas indústrias em Washington, a Síndrome de Erros Repetitivos também afeta legisladores, reguladores e mesmo os tribunais. No ano passado a transmissão radiofônica pela Internet, uma indústria nova e promissora que ameaçava oferecer aos ouvintes escolhas muito superiores às oferecidas pelas cada vez mais uniformizadas (e paleolíticas) emissoras AM e FM, foi assassinada no berço. Armas, munições e ocasionais gritos de encorajamento foram supridos pelas gravadoras e pelo DMCA (Digital Millenium Copyright Act), que incorpora todos os receios dos dinossauros-alfa de Hollywood quando fizeram lobby para a sua aprovação pelo congresso americano em 1998.

“A Internet interpreta a censura como um defeito e roteia para contorná-la”, foi uma frase famosa de John Gilmore. E é verdade. A longo prazo, rádio via Internet vai fazer sucesso. Sistemas de mensagens instantâneas irão se intercomunicar. Empresas estúpidas vão ficar espertas ou morrer. Leis estúpidas vão ser revogadas ou substituídas. Mas por outro lado, outra frase famosa, esta de John Maynard Keynes, diz “a longo prazo, vamos estar todos mortos”.

Queremos evitar essa espera.

Basta prestar atenção para o que a Internet realmente é. Não é difícil. A Internet não é mecânica quântica. Olhando de perto, nem é ciéncia de 6a. série. Podemos acabar com a tragédia da Síndrome do Erro Repetitivo nos nossos tempos – e economizar alguns trilhões de dólares em decisões imbecis – se lembrarmos de um simples fato: a Internet é um mundo de pontas. Você está numa ponta, e todos os outros, e todo o resto, estão nas outras pontas.

Claro, isso é uma declaração simplista sobre todo mundo possuir valor na Internet, etc. Mas também é o fato básico e palpável decorrente da arquitetura técnica da Internet. E o valor da Internet se baseia na sua arquitetura técnica.

Felizmente, a verdadeira natureza da Internet não é difícil de entender. Na verdade, apenas uma dezena de afirmativas fazem a diferença entre a Síndrome do Erro Repetitivo e a Iluminação:

- A Internet não é complicada.

- A Internet não é uma coisa, é um acordo.

- A Internet é burra.

- Adicionar valor à Internet reduz o seu valor.

- Todo o valor da Internet cresce na sua periferia.

- O dinheiro se muda para os subúrbios.

- Não é o fim do mundo, é um mundo de pontas.

- As três virtudes da Internet:

- Ninguém é dono.

- Todos podem usá-la.

- Qualquer um pode melhorá-la.

- Se a Internet é tão simples, por que tantos se enganam sobre ela?

- Poderíamos parar de fazer certos erros imediatamente.

1. A Internet não é complicada.

A idéia por trás da Internet, desde o início, foi aproveitar a força espantosa da simplicidade – tão simples quanto a gravidade no mundo real. Mas em vez de ajuntar pedrinhas pequenas em volta de uma pedra enorme, a Internet foi projetada para ajuntar redes pequenas, convertendo-as numa rede única enorme.

O jeito de fazer isso é facilitar ao máximo o envio e recepção de dados de uma rede para outra. Assim, a Internet foi projetada para ser o modo mais simples concebível para mover bits de qualquer A para qualquer B.

2. A Internet não é uma coisa, é um acordo.

Quando olhamos para um poste, vemos redes como fios. E vemos estes fios como parte de sistemas: o sistema telefônico, o sistema de energia elétrica, o sistema de TV a cabo.

Mas a Internet é diferente. Não é fiação. Não é um sistema. E não é uma fonte de programação.

A Internet é um modo que permite a todas coisas que se chamam redes coexistir e trabalhar em conjunto. É uma Inter-net (inter-rede), literalmente.

O que faz a “Net” ser “Inter” é o fato que ela é apenas um protocolo – o protocolo Internet (IP – “Internet Protocol”), para ser mais preciso. Um protocolo é um acordo sobre como fazer coisas funcionarem em conjunto.

Este protocolo não especifica o que as pessoas podem fazer com a rede, o que podem construir na sua periferia, o que podem dizer, ou quem pode dizer. O protocolo simplesmente diz: se você quer trocar bits com outros, é assim que se faz. Se você quer conectar um computador – ou um celular ou uma geladeira – à internet, você tem que aceitar o acordo que é a Internet.

3. A Internet é burra.

O sistema telefônico, que não é a Internet (pelo menos por enquanto) é muito esperto. Ele sabe quem está chamando quem, onde eles estão, se é chamada de voz ou de dados, a distância coberta pela chamada, quanto a chamada vai custar, etc. E fornece serviços que interessam apenas à rede telefônica: chamada em espera, BINA, 0800 e muitas outras coisas que companhias telefônicas gostam de vender.

A Internet, por outro lado, é burra. De propósito. Seus projetistas quiseram que a maior e mais genérica rede de todas fosse estúpida como uma caixa cheia de pedras.

A Internet não sabe muitas coisas que uma rede esperta como a rede telefônica sabe: identidades, permissões, prioridades, etc. A Internet sabe apenas uma coisa: esse pacote de bits tem que ser transportado de uma ponta da rede para outra.

Há motivos técnicos para a burrice ser considerada um bom projeto. A burrice é robusta. Se um roteador quebra, pacotes são conduzidos por outras rotas, o que quer dizer que a rede fica de pé. Graças à sua burrice, a Internet aceita dispositivos novos e gente nova, e por isso cresce rapidamente e em todas as direções. Também é fácil aos projetistas inserirem acesso à Internet em aparelhos novos – filmadoras, telefones, irrigadores de jardim – que vivem na periferia da Internet.

Isso porque o motivo mais importante da burrice ser uma coisa boa se relaciona menos com tecnologia e muito com valor…

4. Adicionar valor à Internet reduz o seu valor.

Parece estranho, mas é verdade. Se você otimiza uma rede para um tipo de aplicação, você está desotimizando-a para outras. Por exemplo, se você deixa a rede dar prioridade a dados de voz ou vídeo porque precisam chegar mais rapidamente, você está dizendo a outras aplicações que elas terão que esperar. E logo que você fizer isso, você terá mudado a Internet de uma coisa simples para todos para uma coisa complicada para apenas uma certa coisa. E aí não será mais a Internet.

5. Todo o valor da Internet cresce na sua periferia.

Se a Internet fosse uma rede esperta, seus projetistas teriam antecipado a necessidade de um bom mecanismo de busca e teriam integrado isso na própria rede. Mas como os projetistas eram inteligentes fizeram a Internet burra demais para isso. Assim, a busca é um serviço que pode ser implantado em qualquer uma das milhões de pontas da Internet. Como qualquer um pode oferecer os serviços que quiser a partir da sua ponta, sites de busca competem entre si, o que significa escolha para os usuários e inovações constantes.

Sites de busca são apenas um exemplo. Porque tudo que a Internet faz é jogar bits de uma ponta para outra, inventores podem fazer qualquer coisa que puderem imaginar, contando com a Internet para mover os dados para eles. Você não precisa pedir permissão ao dono da Internet ou ao administrador de sistema ou ao Vice-Presidente de Priorização de Serviços. Se você tem uma idéia, basta executá-la. E toda vez que você faz isso, o valor da Internet sobe.

A Internet criou um mercado livre para inovações. Esta é a chave para o valor da Internet. Do mesmo modo…

6. O dinheiro se muda para os subúrbios.

Se todo o valor da Internet está na sua periferia, a conexão Internet em si deve virar uma função primária, uma commodity. E deve-se permitir que isso aconteça.

Prover commodities é um bom negócio, mas qualquer tentativa de adicionar valor à própria Internet deve ser combatida. Para ser específico: aqueles que fornecem conectividade Internet inevitavelmente vão querer prover conteúdo e serviços também, porque a conectividade apenas terá preço muito reduzido. Mantendo essas funções separadas, vamos permitir que o mercado estabeleça preços que maximizem o acesso e que maximizem inovações em serviços e conteúdo.

7. Não é o fim do mundo, é um mundo de pontas. (“The end of the world? Nah, the world of ends.”)

Quando Craig Burton descreve a arquitetura burra da Internet como uma esfera oca composta inteiramente de pontas, ele está usando uma imagem que mostra o que é mais extraordinário sobre a arquitetura da Internet: retire o valor do centro e você viabilizará um crescimento louco de valor nas pontas interconectadas. Porque, claro, se todas as pontas estão conectadas, cada uma com cada uma e cada uma a todas, as pontas deixam de ser pontos finais.

E o que nós, pontas, fazemos? Qualquer coisa que pode ser feita por qualquer um que quer mover bits.

Notou nosso orgulho em dizer “qualquer coisa” e “qualquer um”? Isso decorre diretamente da arquitetura simples e burra da Internet.

Porque a Internet é um acordo, não pertence a nenhuma pessoa ou grupo. Não às empresas estabelecidas que operam a espinha dorsal (“backbone”). Não aos provedores que nos fornecem conexões. Não às empresas de “hosting” que nos alugam servidores. Não às associações de indústrias que acreditam que sua sobrevivência é ameaçada pelo que nós outros fazemos na Internet. Não a qualquer governo, não interessa quão sinceramente acredita que está tentando manter seus cidadãos seguros e complacentes.

Conectar à Internet é concordar em crescer o valor na periferia. E aí algo realmente interessante acontece. Todos estamos igualmente conectados. A distância não importa. Os obstáculos desaparecem e pela primeira vez a necessidade humana de conectar pode ser realizada sem barreiras artificiais.

A Internet nos dá os meios de nos tornarmos um mundo de pontas pela primeira vez.

8. As três virtudes da Internet

Esses são os fatos sobre a Internet. Como avisamos, é tudo muito simples.

Mas o que significa para nosso comportamento – e, mais importante, o comportamento das megacorporações e governos que até então agiam como se a Internet fosse deles?

Aqui estão três regras básicas de comportamento que estão diretamente ligadas à natureza básica da Internet:

a. Ninguém é dono.

b. Todos podem usá-la.

c. Qualquer um pode melhorá-la.

Vamos olhar cada uma de perto…

8a. Ninguém é dono.

Ninguém pode ser dono da Internet, mesmo as empresas por cujos “fios” ela passa, porque é um acordo, não uma coisa. A Internet não só está no domínio público, ela é um domínio público.

E isso é uma boa coisa:

- A Internet é um recurso confiável. Podemos montar empresas sem nos preocupar que a Internet SA vai nos forçar a atualizar, dobrar o preço depois de assinarmos, ou ser comprada por um dos nossos competidores.

- Não precisamos nos preocupar que partes dela só funcionarão com certo provedor e outras partes só com outro provedor, como acontece com celulares, por exemplo.

- Não temos que nos preocupar que suas funções básicas só funcionarão com a “plataforma” da Microsoft, Apple ou AOL – porque aquelas ficam embaixo destas, fora de controle proprietário.

- A manutenção da Internet está distribuída entre todos usuários, não concentrada nas mãos de um provedor que pode quebrar, e nós todos juntos somos um recurso mais robusto do que qualquer grupo centralizado poderia ser.

8b. Todos podem usá-la.

A Internet foi projetada para incluir todos os habitantes do planeta.

Certo, hoje apenas uma fração da população – pouco mais de 600 milhões de pessoas – está conectada à Internet. Então – “podem” na frase “todos podem usá-la” – se sujeita às variações miseráveis da sorte. Mas, se você tem a sorte de ser rico o suficiente para ter uma conexão e um dispositivo que se conecta, a Internet em si não impõe obstáculos à sua participação. Você não precisa de um administrador de sistemas que se digne deixá-lo participar. A Internet, deliberadamente, deixa permissões do lado de fora do sistema.

É por isso que a Internet, para muitos de nós, tem o jeito de um recurso natural. Nós nos aproveitamos dela como se fosse uma parte da natureza humana que estava esperando aparecer – tanto quanto falar e escrever agora fazem parte do que significa ser humano.

8c. Qualquer um pode melhorá-la.

Qualquer um pode fazer a Internet um lugar melhor de viver, trabalhar, e criar filhos. Para piorá-la, precisa-se de alguém extremamente estúpido com uma vontade de ferro.

Há duas maneiras de melhorá-la. Primeiro, você pode montar um serviço na periferia da Internet que esteja disponível para quem queira usá-lo. Faça de graça, faça as pessoas pagarem por ele, coloque uma marmita para receber moedinhas, qualquer coisa.

Segundo, você pode fazer algo ainda mais importante: habilite um conjunto novo de serviços de periferia inventando um novo acordo. Foi assim que se criou o e-mail. E newsgroups. E mesmo a Web. Os criadores destes serviços não fizeram uma simples aplicação final, e certamente não mexeram no protocolo da Internet em si. Em vez disso, inventaram protocolos novos que usam a Internet do modo que ela existe, do mesmo modo que o acordo de como encodificar imagens em papel permitiu às máquinas de fax usar linhas telefônicas sem a necessidade de mudar o sistema telefônico em si.

Lembre-se, porém, que se você inventar um novo acordo, para que ele gere valor tão rapidamente quanto a própria Internet, ele deve ser aberto, sem donos, e para todo o mundo. É exatamente por isso que os sistemas de mensagens instantâneas não conseguiram atingir seu potencial: os sistemas atuais – AIM e ICQ da AOL e MSN Messenger da Microsoft – são territórios particulares que podem rodar em cima da Internet, mas não são parte da Internet. Quando AOL e Microsoft decidirem rodar seus sistemas de mensagens em cima de um protocolo burro que não tem dono e que qualquer um pode usar, terão aumentado grandemente o valor da Internet. Enquanto isso, eles apenas estão sendo burros, e não no bom sentido.

9. Se a Internet é tão simples, por que tantos se enganam sobre ela?

Seria porque as três virtudes da Internet são a antítese do modo como governos e empresas vêem o mundo?

Ninguém é seu dono: empresas se definem pela sua propriedade, e governos se definem pelo que controlam.

Todos podem usá-la: nas empresas, vender algo significa transferir direitos exclusivos de uso do vendedor para o comprador; nos governos, fazer leis significa impor restrições às pessoas.

Qualquer um pode melhorá-la: empresas e governos valorizam funções exclusivas; apenas certas pessoas podem fazer certas coisas, fazer as alterações corretas.

Empresas e governos pela sua própria natureza são propensas a entender erradamente a natureza da Internet.

Há outra razão porque a Internet não se explicou muito bem: as grandes empresas preferem ficar nos dizendo que a Internet é apenas uma televisão lenta.

A Internet tem sido demais como Walt Whitman, que no poema “Cantiga de mim mesmo” (“Song of myself”) disse: “Não me preocupo em ser entendido. Eu vejo que as leis elementares nunca se desculpam.”

De outro lado, as leis elementares da Internet nunca pensaram que haveria pessoas tentando basear suas carreiras em não entendê-las.

10. Poderíamos parar de fazer certos erros imediatamente.

As empresas cujo valor veio de distribuir conteúdos em formatos que o mercado não quer mais – estão escutando, gravadoras? – podem parar de pensar que bits são átomos ultra-leves. Vocês nunca vão nos impedir de copiar os bits que quisermos. Em vez disso, por que não nos dar razões para preferir comprar música de vocês? Poderíamos até ajudá-los a vender, se nos pedissem.

Os funcionários públicos que confundem o valor da Internet com o valor dos seus conteúdos poderiam entender que, mexendo no centro da Internet, estão na verdade reduzindo seu valor. Na verdade, talvez poderiam entender que ter um sistema que transporta todos os bits igualmente, sem censura de governos e indústrias, é a força mais poderosa já vista a favor da democracia e dos mercados abertos.

Os provedores existentes de serviços de rede – dica: começa com “tele” e termina com “comunicações” – poderiam aceitar que a rede burra vai engolir as suas redes espertas. Eles poderiam engolir essa pílula agora em vez de gastar centenas de bilhões de dólares para retardar o processo e lutar contra o inevitável.

As agências governamentais responsáveis pela alocação de espectro poderiam notar que o valor do espectro aberto é o mesmo valor real da Internet.

Os que querem censurar idéias poderiam entender que a Internet nunca conseguiria distinguir um bit bom de um bit mau, em qualquer circunstância. Qualquer censura teria que ser feita nas pontas da Internet – e nunca vai funcionar bem.

Talvez empresas que pensam que podem nos forçar a escutar suas mensagens – seus banners e telas intrometidas que se superpõem às páginas que estamos tentando ler – entendam que nossa habilidade de pular de site em site faz parte da infraestrutura da Web. Elas poderiam simplesmente abrir páginas dizendo “Olá! Não entendemos a Internet. E aliás, te odiamos.”

Chega disso. Chega de bater nossas cabeças contra os fatos da vida na Internet.

Não temos nada a perder, apenas nossa burrice.

O básico

Letras tem classificações, nomes, áreas e mais um monte de detalhes que a maioria das pessoas passa a vida sem (precisar) tomar conhecimento.

Antes de mais nada, é importante dividir o mundo em dois. Sim, eu sei, dividir para conquistar não é uma idéia nova. O mundo das serifas e o mundo das sem-serifa. Serifa é a “voltinha” na ponta da letra:

Tipo

O próximo passo é saber no que essa divisão é útil para você. A primeira coisa que você precisa saber é que o olho humano usa as serifas para melhor “ligar” uma letra à outra. Então, é natural que recomende-se serifa para leituras extensas. Por outro lado, o uso das sem-serifa está tão massificado que às vezes a gente vê serifa apenas no destaque (títulos, subtítulos, etc).

Você pode misturar fontes, não é pecado mortal mas é trabalho delicado. Na dúvida jamais use mais do que duas fontes diferentes no seu documento. E se possível centralize as variações (itálico, negrito) em torno de um mesmo tema. Por exemplo, a ABNT indica que termos em outros idiomas fiquem em itálico, mas isso é só uma recomendação. Nada te impede de padronizar na sua publicação que o texto todo é sem serifa e que apenas determinados termos usam serifa. O importante mesmo é manter do começo ao fim o que você decidiu.

Esse será o nosso mantra: escolha o que quer fazer e seja fiel à sua opção, do começo ao fim do seu trabalho. Repita comigo…

Anatomia do tipo

anatomia da tipologia

Coloquei só as principais, tem bem mais partes anatômicas, ok? Ápice, braço, concavidade contrária, conexão da serifa, espora, link, looping, perna, stress inclinado ou vertical…

Quando alguém te perguntar qual o corpo da fonte, está se referindo ao tamanho dela. Um tamanho comum para leitura corrida, por exemplo, é o 11 ou 12. Este nome vem da época ainda do tipo móvel:

tipo móvel

Elementos principais

a. Olho
b. Face(anterior) ou Barriga
c. Corpo

Detalhes

1. Rebarba ou talude
2. Risca ou ranhura
3. Canal ou goteira
4. Pé.

Tipografia é cheia de detalhes mas a regra básica e mais importante é: você precisa conseguir ler o que está escrito. Pode parecer óbvio mas acredite, este é o grande x da questão. Legibilidade é a meta de ouro do uso de fontes.

Fonte da boa

A gente considera uma fonte “boa” quando ela é completa, quando ela fornece letras acentuadas em vários idiomas, maiúsculas e minúsculas bem diferenciadas, negrito, itálico e as suas combinações (negrito e itálico, por exemplo). Este é um teste importante: digite no seu processador de texto mesmo (ou dê copy-paste daqui) a sequência:

A a Á á À à Â â Ã ã Ä ä E e É é È è Ê ê Ë ë I i Í í Ì ì Î î Ï ï O o Ó ó Ò ò Ô ô Õ õ Ö ö U u Ú ú Ù ù Û û Ü ü C c Ç ç N n Ñ ñ

Se alguma coisa der erro (normalmente aparece um quadradinho no lugar da letra), escolha outra fonte. Essa vai te dar problema na hora em que você conseguir um cliente com nome estranho cheio de consoantes. Já elimina logo agora do seu computador para não cair em tentação depois.

Uma das poucas certezas que eu posso te dar é que a escolha de um tipo nunca é gratuita ou inocente. Não se deixe encantar pela vasta opção de fontes disponíveis, a maioria delas só pode ser usada em momentos muito especiais, em ilustrações ou em destaques específicos. Se você precisar, use uma segunda fonte. Jamais uma terceira. Promete?


Links externos:

Escritório do livro
Unos tipos duros – Teoría y práctica de la tipografía
Manuel Typographique
Typographie & Civilisation
tipografia.com.br

Fontes gratuitas:
dafont.com
netfontes.com.br

Preto calçado é certamente um dos grandes mistérios do designês. Calçar o preto é, em uma explicação bem simplista, adicionar a ele um pouco de azul (ciano). Normalmente o que causa maior estranheza não é do que se trata e sim o motivo disso. Vamos lá.

O processo gráfico joga tinta sobre papel por separação. Ou seja, joga as 4 cores básicas de impressão, uma em cada “rolinho” de tinta. São elas: ciano, magenta, amarelo e preto.

As cores absolutas – preto e branco – são difíceis de conseguir justamente porque precisam ser absolutas. Considerando o branco como papel, temos um maior problema mesmo é no preto. Se muda um tiquinho de nada o preto passa a um cinza-escuro ou falhado, especialmente em áreas extensas, o tal do “chapado”. É, eu sei que os nomes são hilários, é cor chapada, preto calçado… Tem cor vazada, sangrada e puxada também, explico em outra ocasião.

A essa altura você deve estar olhando para coisas pretas impressas à sua volta e achando que eu sou louca, que aquilo ali é preto. Experimenta pegar várias coisas pretas e colocar uma em cima da outra. Liga uma luz em cima. Comece a reparar que os pretos são diferentes. Nosso olho nos engana, especialmente com letras e outras coisas impressas que não tenham informação (área de tinta) suficiente para o olho humano perceber que aquele preto ali está muito do mais ou menos.

Esse negócio de calçar o preto, entregar vazado, com sangria, puxar a cor na máquina, invasão de uma cor sobre outra, enfim, todo esse negócio de produção gráfica é meio obscuro mesmo. Não é de propósito, acredite. Por isso, se o seu trabalho for importante, contrate um produtor gráfico para acompanhar tudo, não mande simplesmente para gráfica. O processo gráfico é caríssimo e a gráfica sempre vai querer baixar o custo e aumentar o lucro, lembre-se disso. O produtor gráfico entra quase que como um tradutor, que leva a sua informação e a sua necessidade a um outro mundo. O produtor precisa falar bem os dois idiomas, o do cliente e o da gráfica. A maioria dos produtores gráficos fazem questão de fazer a pré-impressão, o preparo do que é enviado à gráfica, justamente por conta de todos os problemas que existem no processo. É praticamente impossível garantir a qualidade de algo que outra pessoa fez.

Lembrando que o processo todo é industrial, a solução dos problemas precisa ser também voltada para linha de produção. Não dá para a gente ir lá, ítem a ítem e “repintar” onde o preto ficou falhadinho, por exemplo. Isso precisa ser feito na origem, ou seja, no arquivo que mandamos para impressão.

Milonga

O arquivo em um dado momento do processo é “separado”. Ou seja, é gerada uma imagem de cada cor, que por sua vez vai ser impressa em uma chapa, para ser colocada na máquina. Funciona mais ou menos como um carimbo para cada cor. Fiz uma ilustração de como isso se parece usando uma foto da minha gata Milonga. É só para efeitos ilustrativos mesmo, na chapa é diferente, ok?

Então, vamos calçar esse preto? O “calçar” é no sentido de sapato mesmo, de colocar algo embaixo, como um suporte. Antigamente se repetia o preto. Fazendo então ciano, magenta, amarelo, preto e preto. E aí resolvia a questão da cor absoluta mas em compensação borrava tudo. Era preto demais. Esse duplo preto é mais ou menos o que faz o “overprint” que alguns softwares gráficos fazem. Mas, peraí, se o problema era só dar um suporte ao preto, realmente precisa ser preto sobre preto? Ahá! Não! Não, precisa. Pode ser qualquer cor em tese. É só mesmo para dar um “apoio” ao preto, para quando a tinta preta entrar ela não ser completamente absorvida pelo papel e falhar.

Tradicionalmente usamos o ciano para calçar o preto. Uns 30 ou 40% de ciano no preto resulta em um preto lindo, com reflexos acetinados. Para um tom mais quente podemos usar o magenta. Podemos usar uma combinação de cores mas fica o aviso que só o amarelo fica uma porcaria esverdeada.

Eu sei que tudo pode parecer exagero de uma designer obsessiva com detalhes mas eu juro para vocês que isso é importante. O pré-print, ou seja, a preparação do material enviado à gráfica é tão importante quanto o processo de impressão propriamente dito.

De nada adianta esse cuidado todo se na hora de escolher a gráfica você escolhe exclusivamente pelo preço. Novamente aí entra o produtor gráfico. Normalmente o produtor sugere algumas gráficas para o seu trabalho. Você não precisa pagar fortunas para rodar em uma gráfica top de linha se o seu trabalho é só texto, por exemplo. Nem tente, por outro lado, rodar um book fotográfico na gráfica que fez o seu talão de notas fiscais. O produtor gráfico sugere a gráfica de acordo com as suas necessidades de prazo, qualidade e preço e o que é verdade para um trabalho não é necessariamente para outro. Agora, mesmo contratando um profissional, mantenha-se informado, você só tem a lucrar com conhecimento.


Links externos

Links externos em pdf:

Hoje em dia existem vários “misturadores de cores” na web. Se você não é designer, ou seja, se você não gastou preciosos anos da sua vida estudando cor (sim, é verdade, nós estudamos cor por anos e anos), vale a pena usar um recurso destes na hora de escolher as cores de uma apresentação.

É claro que você não vai contratar um designer toda vez que precisar entregar um documento. Nessas horas é melhor ir no seguro do que tentar ser criativo.

Se você for projetar algo (datashow, transparência, não importa), lembre-se sempre que existem diferenças entre a luz refletida (impressos) e a luz projetada (televisão, etc.). As diferenças são tantas que até os sistemas de cor são diferentes. O impresso usa o CMYK e a luz usa RGB.

Pode ser importante testar a sua apresentação antes. E use logo um teste de fogo: projete em uma sala que entra luz, na parede e não em uma tela lisinha e peça pro seu colega míope sentar a uns 5 metros de distância. Se ele conseguir entender o que você quer, vá em frente. Lembre-se de verificar também a tipogafia e a diagramação, nem sempre as cores são culpadas.

Evite a combinação clássica de azul com preto. Todo mundo, por algum motivo obscuro, adora degradês de azul com preto em cima. Pânico, pânico! Se você quer porque quer usar azul com preto ao menos vá sem o degradê para que tenha um mínimo de contraste na hora da leitura.

cores
Uma boa saída é a “roda” de cores. Quando você precisar de um contraste seguro, use cores opostas. Quando você quiser variações elegantes, use cores consecutivas. Tente não usar todas as cores do mundo na sua apresentação: cinco cores é bem razoável, 2 de contraste alto e as outras 3 bem próximas.

Anote (anote mesmo, use um post-it) que cor você escolheu para quê. Por exemplo, população no primeiro gráfico foi representada com a cor verde-claro. Mantenha isso até o final da sua apresentação. O seu espectador se perde se você ficar mudando a cada slide/transparência/página. Tente, dentro do possível, usar uma certa lógica para a coisa. Vamos dizer que você precise representar população, renda per capita, faixa etária e imposto sobre o produto X. Use cores similares para conceitos similares. Use a cor X para população e a cor do lado de X para faixa etária. Use a cor Y para renda per capita e a cor do lado de Y para o imposto. Esses pequenos cuidados ajudam muito na hora da apresentação. Lá pelo gráfico 30 você vai me agradecer pro ter anotado tudo.

É sempre bom lembrar que cores muito claras, como amarelo, bege e rosa, “somem” quando projetadas. O amarelo, por exemplo, é um péssimo destaque em um datashow e ótimo no papel. Na dúvida, teste.

Um bom exercício também é prestar atenção em uma cena que te marcou, em um filme. Dê um pause no seu DVD e observe com atenção as cores e a composição. Aos poucos você vai começar a perceber para que mesmo serve um diretor de arte e fotografia.


Links externos Download de várias “rodas” de cores:

http://www.tigercolor.com/color-lab/color-wheel/color-wheels.htm

Misturadores de cores:

http://www.colorschemer.com/
http://www.exefind.com/Wacker-Art-RGB-Color-Mixer-P18287.html
http://www.colortools.net/color_mixer.html
http://www.siteprocentral.com/html_color_code.html
http://colorblender.com/
http://www.alvit.de/web-dev/color-tools-mixers-palettes.html

http://stylephreak.frogrun.com/cm.php

http://wellstyled.com/tools/colorscheme2/index-en.html

Sistemas de cores:

RGB – http://en.wikipedia.org/wiki/Rgb
CMYK – http://en.wikipedia.org/wiki/CMYK_color_model

Seu designer está te enlouquecendo com softwares caros? Talvez seja o momento de você apresentar-lhe alternativas mais baratas.

Certifique-se que você realmente precisa daquele software de marca antes de gastar pequenas fortunas ou então de instalar um telhado de vidro na sua empresa recorrendo à pirataria.

O Gimp é um dos gratuitos mais conhecidos. Merece a boa fama que tem mas o suporte dele a CMYK é um problema sério. Talvez nas próximas versões isso melhore. O Gimp conta ainda com o Gimpshop, que deixa ele mais parecido com o seu concorrente comercial.

Se CMYK for importante para você, uma boa opção pode ser o Pixel, que não é gratuito mas é barato (U$ 32,00), lê .psd, tem layers e tudo mais que importa nessa vida.

Outro queridinho dos ilustradores é o Painter, que é tão maravilhoso quanto caro. Vale experimentar o gratuito Artweaver que, dependendo da sua necessidade, vai te atender tão bem quanto.

No campo do 3D, o Blender é imbatível. E gratuito.

Existem até mesmo bons programas para coisas simples como .zip. Aqui eu só uso o 7-zip. Recomendo.

Eu, por exemplo, prefiro o OpenOffice ao da microsoft. Gosto mais do dicionário brasileiro, acho mais estável, não fecha na minha cara quando o sistema operacional cansa e não acha que deve decidir por mim o que fazer.

Assim como o seu designer, eu demorei muito para migrar para o software livre (ou barato). Sempre inventava um defeito, um problema, aquele recurso X que faltava. Depois de um tempo acabei percebendo que o tal recurso eu não usava nunca e nem me lembrava direito onde mesmo é que estava. Fui obrigada a fazer um mea culpa e assumir que o que me afastava destas soluções era a preguiça de me adaptar a uma nova interface.

Não deixe a sua empresa engessada. Levanta, sacode a poeira, e adote uma solução legalizada, boa, estável e barata. Elas existem. É sério.

Mana Bernardes está presa em um destino. Se depender dela, nós também. Na sua instalação de setembro/06 do Paço Imperial, o texto manuscrito feito em papel quadriculado, de arquitetura, constrói um caminho de palavras que seguimos.

Exemplo das palavras: “uma memória de onde o amor gera flores minha bisavó com elas enfeitava as suas tortas de nozes”. Ou: “esta cidade que destrói o infinito verde para construir edificações fadadas a tombar.”

Mana Bernardes

A idéia de que haja um infinito, idealizado, em algum ponto do passado, reforça o fechamento do caminho que faz a volta na sala para terminar perto de onde começou. O presente urbano, moderno e cosmopolita não serve, o bom era um “antes”.

Ela é designer de jóias, faz produtos para vender. O destino portanto seria o do consumo, repetido e repetido, pois entre os materiais que usa estão os restos de um consumo já ocorrido, como garrafas e plásticos de envólucros. Sem notar, ela apresenta na instalação o dilema do mundo em que vive e que está morto: junto com o caminho de palavras manuscritas no rígido suporte quadriculado há vídeos mostrando seus objetos, em looping, enquanto uma voz monótona lê o que está escrito e numera as frases.

Creepy stuff, man.

Pratos feitos

os blocos do pf
O frio atinge de maneira tão aguda que me curvo. As costas já doem, não sei se por causa do frio ou da minha posição nada ergonômica. O inverno além de chegar atrasado me deixou mais caseiro ainda. Nada me faria sair de casa. Nada.

Recebo um convite. Quem mandou inventar que não ia sair de casa? Quem? Pelo menos é por uma boa causa, nessa cidade que parece nunca ter nada, quando temos uma coisa assim é sinal que temos que ir. Temos, entenda-se eu e minha pouca vontade de aparecer em público, o que está se tornando um proble

ma.

Uma ajuda à minha vontade foi minha curiosidade e uma jovem de cabelos encaracolados, com um sorriso que… Moro em Criciúma, cidade do extremo sul catarinense, cidade suja, de ar pesado e clima quente, uma bacia de sentidos extremos.

A exposição acontecia na Fundação Cultural de Criciúma, na Galeria de Arte Contemporânea Willy Zumblick. A galeria tem como meta difundir a contemporaneidade em nossa cidade. Mas arte é um mundinho difícil de se entender, vai saber, vez ou outra sempre temos uma cara nova.

Pratos feitos
Rosângela Becker

A exposição versava sobre o trabalho conjunto de várias artistas e ali estavam algumas delas. A simpática, a elegante, a pseudo-inteligente, a que me atraia – estranho, isso sempre acontece – não se esqueça da curadora! Isso é importante.

A exposição coletiva tinha um único trabalho, um bloco de notas. Usei muito na época do comércio, olha só, não era um bloco de notas, tipo Moleskine, era um bloco de notas fiscais, daqueles em três vias. Cada novo jogo representava um artista e como tal uma nova visão daquele conceito.

O nome do bloco nomeava a exposição: PF. Prato Feito, aquele prato, feito por antecedência, com o básico da mesa brasileira, feijão, arroz, bife, ovos, batatas e como tal representa uma visão poética, ou faminta, do conceito de arte. A arte aqui é uma mistura de conceitos efêmeros e eternos. Na visão dos artistas participantes, uma coletiva que busca a originalidade e transmissão rápida de pensamentos e idéias, tantas e tão singulares que não sei por qual começar… seria injusto de minha parte olhar apenas para alguns.

Bem, quem estou querendo enganar? Eu nunca fui muito justo mesmo!

A apresentação foi direta e simples, versava sobre o método de produção:

uma idéia que poderia reunir os trabalhos do grupo de estudo, original e viável para a venda ou para distribuição, com um custo aceitável e fácil montagem. Embora a produção e acabamento tenham sido meticulosamente cuidados, a sensação de que o bloco saiu mesmo de uma Junta Estadual era legal.
Lembro-me, que ao colocar as mãos no meu exemplar, a primeira idéia, o primeiro desejo foi de queimá-lo, de transformá-lo, de poder de alguma forma fazer parte daquela construção, ainda que destruindo tudo que ela representava.

Os trabalhos ficavam expostos em uma mesa de madeira, nas paredes, ao redor, estavam presos na parede, folha por folha.

Fui fisgado particularmente pelos ambientes e pela descrição dos passos e da socialização do ambiente criado por Rosângela Becker.

A criatividade e intuição de Giorgia Mesquita, com sua ode à poesia, e o belo hábito de ser cativante, em sua fala e atitude, em partida de seu desenho, nos sublima, olhando e abraçando o vazio, tomando para cada um de nós o descompasso da vida. Como uma tarde de verão, perto de uma lagoa, o vento golpeando a face rubra.

Pratos feitos
“Abra os braços e deixe o vento passar”. Giorgia Mesquita.
Vanessa Schultz e sua construção, que é uma folha, que se dobra e dobra, e vira um caderninho.

Mas confesso, que o divertido foi perceber, como as pessoas se comportavam ao perceber o que era realmente a efetividade, o suor e a performance que descrevia Priscila Zaccaron.

Pratos feitos
Vanessa Schultz

Conversas acaloradas, eu observava, de longe, percebi o desenho, ri fui pegar um pouco de quentão e voltei rindo, esbarrei na menina de cabelos encaracolados, ficamos por ali conversando, papo legal. Nesse ínterim consegui conversar com a Giorgia Mesquita.

_ Você acha que o trabalho de vocês pode ser considerado algo agressivo ou calmo? Ela pensou um pouco:

_ Você que deve descrever, que deve dar ao trabalho o sentimento que ele merece. Ao passar para mim, no caso o espectador, ela respondeu sem responder e me colocou em situação de creditar ou não seu trabalho, fiquei sem graça de falar sobre minha vontade.

_ Hum. Pensei um pouco. _ Qual o sentido então de você criar, em conjunto, algo que dá um trabalho tremendo, que produz amor ou ódio, e deixar a cargo do cara que vê a obra, que a toca, ou compra, dar um sentido pra ela?

Devo ter assustado ela nesse momento, ela me olhou, com curiosidade, pensou um pouco.

_ A maneira como trabalhamos, ou produzimos nosso trabalho, tem uma certa ligação com o que desejamos, isso é claro. Nesse trabalho procuramos acima de tudo a unidade, a conformidade, não um decreto. A pessoa que recebe ou adquire um exemplar do Prato Feito, tem total liberdade para fazer o que quiser, inclusive queimar – coincidência, ou ela sacou minha vontade? – Mas porquê você tem essa fascinação pela agressividade? Que agressividade é essa? Me olhou, eu disse:

_ Agressividade? Sou um cara tão calmo!

Fomos interrompidos por sorrisos, aparentemente o pessoal conseguiu desvendar o mistério da “Dedicação à efetividade da performance. Priorização do suor.” Da Priscila Zaccaron.

Pratos feitos
Priscila Zaccaron

Ficava mais frio, o quentão ajudava, mas minha vontade não, a menina de cabelos encaracolados foi embora (sem final feliz). Peguei meu mais novo bloco de notas, fui até meu carro e zarpei para casa, tinha muitas coisas para deixar para trás.

Inclusive meu desejo de agressividade.


Artistas participantes: Adriana Barreto; Alex Cabral; Amanda Cifuente; Ana Paula Lima; Brígida Baltar; Bruna Mansani; Cássio Ferraz; Claudia Zimmer; Damé; Daniela Mattos; Débora  Santiago; Edmilson Vasconcelos; Fabiola Scaranto; Gabrielle Althausen; Giorgia Mesquita; Jorge Menna Barreto; Julia Amaral; Laércio Redondo; Liomar Arouca; Melissa Barbery; Minerva Cuevas; Nara Milioli; Orlando Maneschy; Patricia Scandolara; Paula Tonon; Priscila Zaccaron; Raquel Stolf; Regina Melim; Renata Patrão; Ricardo Basbaum; Rosângela Becker; Sandra Reis; Silvia Guadagnini; Tâmara Willerding; Traplev; Vanessa Schultz; Yiftah Peled.

Em Waking Life, de Richard Linklater, um dos personagens diz que não devemos prestar atenção às palavras, atentando sempre aos gestos. A afirmação tem um caráter cômico, já que o filme é filosófico e verborrágico do início ao fim, o que não diminui o seu valor.

O clipe de Ilana Vered domando seu piano em Raphsody in blue tem seus paralelos e adiciona novos sabores ao assunto. Se Nietzsche estava certo ao dizer que as letras das músicas são uma tentativa de Apolo controlar Dionísio, a exibição de Ilana mostra que Dionísio mantém sua fonte de vigor.

Ilana Vered

Não há uma só palavra durante a execução da rapsódia de Gershwin, e isso faz com que a complexidade inerente ao jogo social seja tratada com força cinematográfica. O peso está na imagem, no gelo que balança dentro do drinque, está na música que o piano de Ilana dispara. Experimentar da calmaria à tempestade em um piscar de olhos parece ser o objetivo da mistura de jazz, piano e orquestra pensada por Gershwin.
E realmente há uma orquestra inteira gravitando ao redor de Ilana. Na babel de instrumentos todos se entendem bem. Um flerte vem num olhar, um grito é um sopro forte no trompete, uma conversa casual surge no toque suave nas teclas. E Ilana? No centro do cenário, é ela quem manda. Tudo acontece por sua causa. Ilana parece dançar enquanto abraça e desmembra as teclas do piano, fazendo disso som. É importante ter em mente que a desenvoltura da pianista é o que dá vida ao instrumento.

E pensar que há poucos milhares de anos arrastávamos gravetos para criar o fogo. O clipe com Ilana é tudo o que Fantasia da Disney gostaria de ser. Concentrando-se nos gestos como sugere Waking Life, e na melodia como sugere Nietzsche, a melhor sugestão é esquecer as palavras e deixar-se hipnotizar.

Entre a filosofia e o fato

Uma das mágicas do cinema nasce da estrutura. O truque é simples. Uma cena tem significado quando analisada dentro de um contexto. Só é possível entendê-la da forma correta olhando o que veio antes e pensando no que virá depois. Um somatório de idéias.

Em “Entre a fé e a febre”, trabalho feito pela TV Câmara com fotos de Guy Veloso, não existe ambição de ser um filme, mas de transgredir o universo fotográfico e tocar o narrativo. Um processo experimental assumido.

Na primeira parte, infelizmente, o tempo de absorção é muito pouco. Quando o áudio assume a narrativa, ele rouba a atenção da imagem, e transforma a fé em relances. Os intervalos escuros esvaziam um significado que ainda não teve tempo de se compor e não é possível observar o objeto como se deveria.

É só na terceira parte, na febre, que o processo ganha vida. O olhar mais vivo das pessoas, o sentimento simbolizado nas chamas, o jogo de imagens conduzidas por si mais do que pelo som numa edição precisa criam a centelha diegética que faz a composição se tornar mais do que a soma dos fotogramas e extrapolar para um outro patamar de entendimento.

Pausa para reflexão, um intervalo negro, um rosto de Cristo.

É hora de rever a foto síntese de 1 min de duração.

San Pedro: interferência

No final dos 1960 e início dos 1970 apareceram na Europa e Estados Unidos umas performances femininas (e às vezes masculina, como com Joseph Beuys em seu Coyote) com o corpo humano sendo mostrado em situação de perigo e violência. A idéia era a recuperação, através da dor e do choque, da fisicalidade em um momento em que o indivíduo sentia a perda de valor advinda da Guerra Fria e do que na época era considerado como ameaça iminente, a bomba atômica.

Em San Pedro: interferência, o grupo Alpendre Casa de Arte e Pesquisa recupera o clima dessas performances. O vídeo de 14 minutos fez parte do Dança em foco, um festival de dança filmada em vídeo que ocupou o Centro Cultural Telemar (RJ) no início de setembro de 2006. Nele, uma bailarina dança no espaço destruído de um edifício abandonado, o San Pedro (de Fortaleza), com cacos de vidro e pedras no chão.

A novidade é o vídeo.

San Pedro: interferência

Em um primeiro pensamento, o vídeo afastaria o impacto de alguém que dança sobre vidros com os pés descalços. No segundo pensamento, vem um outro impacto, o de que vivemos, e vemos, hoje, com um olhar-câmera que envolve o mundo em uma granulação estabilizante, que diminui a profundidade do nosso foco e que é o que nos põe no mesmo plano real-irreal do que estamos vendo. O olhar-câmera vai do plano-geral a uma atenção mais próxima, planos médios, em um ritmo não engajado. A montagem segue o mesmo compasso de quem vê aqui, ali, o todo, com um incômodo, sim, mas pouco emotivo. Nós.

O jogo de atenção dirigida versus sensação geral estabelece uma identidade entre o espectador e a mídia que apresenta, recorta e junta os fragmentos de imagem. Mas é mais do que isso, é o próprio fluxo da imagem, aplastrada em sua pouca resolução, que estabelece a identidade com esse nosso olhar que não olha, contemporâneo.

A bailarina dança sozinha na frente de uma janela que dá para o nada. A impressão é de um certo contentamento com esse nada, eternidade bem-vinda para a qual todo o espaço do edifício se dirige: é o único ponto claro. Essa sucção em direção à janela se dá no mesmo momento em que a obra se apresenta como um último signo de memória, da existência física. E também como última possibilidade de linhas sinuosas a se contrapôr aos quadrados rígidos da janela para a qual a bailarina dá as costas e na qual dilui seus contornos.

O vídeo nasceu de uns poemas escritos – e publicados artesanalmente – por Eduardo Jorge, um dos diretores da peça, junto com Alexandre Veras. A coreografia é de Andrea Bardawil.