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Category Archives: edicao_0004

lista de artigos da edição 4, ano 1 – novembro & dezembro de 2006

Alguns pensamentos sobre perímetros fechados e meio amorfos que se vêem cortados, de repente, por linhas retas que os atravessam e vão além. Na série anterior, a que ganhou o Prêmio Marcantonio Villaça, tais perímetros eram as massas pouco nítidas dos morros, um deles o da Mangueira. As linhas retas eram ora um peitoril de janela, ora as fachadas quadradas das casas e também as linhas Vermelha e a Amarela, ali, presentes. Depois isso mudou e as massas que se expandem, meio amorfas, e as linhas que as seguram, retas, viraram só isso mesmo: massas de cor e linhas retas. Isso mudou, mas Lucia Laguna, que faz suas obras a partir de expansões de cor e retenções geométricas, não mudou. Pelo menos desde que venceu em 2006 o Prêmio, após ser professora a vida inteira.

Lucia Laguna Lucia Laguna Lucia Laguna

Aos pensamentos:

- As linhas apostas/impostas sobre os campos amorfos de cor poderiam ser uma estratégia de controle pessoal sobre o crescimento rizomático e incontrolável de uma favela vizinha, vindo de alguém na classe média. As linhas retas se sobreporiam, então, às massas pouco definidas de cor como um band-aid de racionalidade sobre uma mancha roxa – ou o enquadramento de uma janela sobre a vista lá fora.

- As linhas apostas/impostas sobre os campos amorfos de cor poderiam ter ligação com uma situação não mais pessoal mas social, por exemplo, a da desintegração do poder do Estado. Essa desintegração fazendo com que deveres e obrigações não mais fossem vistos como algo inerente a uma interioridade (os campos de cor mais ou menos fechados) mas sim como algo coercivo, imposto por uma exterioridade – a das linhas que vêm, cortam e seguem para além do quadro. Laguna não mais se situaria, como na hipótese anterior, na classe média olhando uma favela, mas estaria no meio entre as duas coisas e, com sua arte, desenvolveria uma poética muito precisa de passagem (de mão dupla, como veremos a seguir), de migração de forças entre os dois elementos de uma divisão urbana radical.

- Vamos manter a suposição, por mais um instante, de que ela esteja nesse ponto preciso, nem lá nem cá. Isso explicaria detalhes realistas em suas obras. Como o detetive de uma história que não deixa de ser policial, ela buscaria detalhes/pistas para elucidar um crime, que é o do assassinato de um significado, de uma identidade perdida. Surgem então as lajes de contenção de encosta, caixas d’água, casas verdes, uma lâmpada.

- Mas pode ser que Laguna nunca tenha de fato saído – nem física nem simbolicamente – da imagem que se vê da casa que habita há 30 anos. Então, sua posição não seria a de uma classe média ou sequer do seu limite. Fascinada pelo que vê, as linhas que cortam seus quadros, em vez de uma racionalidade procurada, buscada, seriam, ao contrário, a denúncia de uma agressão que viola um espaço até então fechado e seguro, o seu. (Viola em duas e em três dimensões, pois por momentos as linhas afundam na textura do suporte, não rasgam mas quase, chegam na base de gesso que cobre a tela.)

- Mantendo essa hipótese, de que Laguna esteja não na racionalidade aposta/imposta das linhas, nem sequer dividida entre elas e as manchas que se expandem, mas sim, nas manchas de cor que se expandem. Se for assim, sua posição será a de defender sua expansão não ordenada das linhas que a tolhem. Aqui, a procura é a dos tamanhos cada vez maiores, dos dípticos já que um não chega. Nesse caso, o que ela aponta pode ser menos a restauração de uma totalidade perdida e imaginária, de uma unidade inicial, e mais o fruir das possibilidades de um tempo presente. Pois só no hoje as pistas de um passado podem existir. No passado o que hoje são pistas não eram pistas, não eram nada, não tinham sua carga de imanência, sua fisicalidade, não eram importantes para o detetive/artista. Só ao se tornarem pistas é possível fazer daquilo uma história, obter um significado.

Assim sendo, cada mudança é bem-vinda, e as linhas retas são cobertas e recobertas por novos campos de cor.

- O que define a interioridade e a exterioridade de qualquer coisa é um limite. No caso de Laguna, esse limite é derrubado inúmeras vezes, durante a fatura/fratura da obra, se tornando como uma fachada desmoronada de uma casa. O lado de dentro também está fora. Adeus divisão radical de que falávamos no começo. O que temos, então, serão os simples ganhos e perdas de um processo temporal. Anterior às linhas e que as considera. Ou, mudando do urbanismo para a psicologia, um id invencível que se mantém não importa quantas réguas e regras se lhe imponham. Agora, as ameaçadas são as linhas.

- Se é a racionalidade que está ameaçada, vamos falar das profundezas. Mas as cores de Laguna podem ser luminosas, há pontos de luz mesmo nos pretos e, agora, os novos quadros se tornam brancos. Ela é pouco afeita a mergulhos míticos. É o que torna o embate mais duro: na luz da consciência, somos nós a atravessar sob o sol as vias expressas que nos disseram ser retas e que sabemos tortuosas.

E um último pensamento. Laguna na verdade não mudou. Continua sendo a professora que pega massas em expansão, aplica sobre elas regras e racionalidades, só para estimulá-las a uma nova expansão. Crianças, cores, tanto faz.

Quando Die Another Day conseguiu a maior bilheteria da série James Bond, tornou-se comum ouvir a frase “é melhor pararem por aqui, não há mais nada para inventar”. De certo modo, os marketeiros que criaram esse pseudolapso de espontaneidade estavam corretos. Die Another Day foi um símbolo do cinema megalomaníaco, juntou Pierce Brosnan e Halle Berry, trouxe carros invisíveis, armas disparadas do espaço e aquele exagero que todo mundo se acostumou a ver em um filme de Bond. Pontos positivos? A trilha sonora de Madonna rompeu a tradição das canções 007 (o que deixou os fãs furiosos) e Pierce Brosnan, com o ar canastrão e debochado, estava perfeito no papel, que cada vez mais tornava-se uma autoparódia num beco sem saída. Com essas cartas lançadas e a bilheteria mundial beirando US$432 milhões de dólares (fora dvds), ficava a pergunta no ar: o que fazer para superar a marca e o carnaval bondiano?

Cassino RoyalPara a missão, foram convocados Martin Campbell, diretor de GoldenEye – bilheteria de US$352 milhões, e os roteiristas Neal Purvis e Robert Wade, dobradinha já consagrada em Die Another Day e The World is Not Enough – US$361 milhões. Pela equipe, é evidente que o estúdio não pretendia se arriscar na mudança, o que explica a adaptação do livro original de Ian Fleming. A idéia de beber da fonte e zerar a índole mítica da personalidade de James Bond possibilitou mudar os rumos sem trair o universo idolatrado pelos fãs, uma jogada bem feita e que deu certo. Você pode pensar: mas como não houve mudanças radicais? Casino Royale não tem carros fantásticos, relógios que desafiam a lógica nem cenários mirabolantes que explodem no final do filme. Mérito do livro por construir a história assim, mérito dos roteiristas por respeitarem o universo autocontido. Entretanto, um olhar mais incisivo encontrará cenas intermináveis de perseguição (a primeira delas coreografada com parkour) com diálogos breves de intervalo, uma história que demora para começar, bandidos de cabelo lambido e cicatriz no rosto e as famosas viradas de trama baseadas nas bondgirls. Pelo que se vê, a estrutura é muito próxima dos filmes anteriores, só que mais compactada por ser uma adaptação de livro. Cassino Royal (até agora com US$451,760 milhões para comemorar) segue a estrutura dramática do grand finale, mas explora blocos isolados, o que é uma característica da narrativa épica, deixando-o com esse aspecto picotado de melhores momentos.

Dito isso, fica mais fácil perceber a importância de Daniel Craig no papel. Depois de desperdiçar talento em produções menores, o ator se mostrou perfeito na nova encarnação de Bond. Não é só o perfil físico que está diferente. O perfil psicológico mais sóbrio e sombrio, ganhos enormes do roteiro, acabaram se incutindo no restante do filme. Sem renegar o passado cinematográfico do espião, foi possível dar uma guinada de rumo e recolocar James Bond nos trilhos.

Nada mais natural que 007 seguisse a tendência de Hollywood de resgatar o valor das histórias e de usar os efeitos especiais à favor do filme. Exemplos recentes são Os Infiltrados, O Plano Perfeito, O Matador, Diamante de Sangue, Match Point, Crash e The Prestige, entre outros. Curiosamente, todos ligados de certo modo ao estilo policial.

Para terminar, só faltava mesmo a Bond Girl. Eva Green, a deusa sedutora de Os Sonhadores, surge então como a bondgirl mais… ãhn… inteligente e amorosa de toda a saga de James Bond. James Bond que não é almofadinha e uma bondgirl com coração e QI? Bem-vindos os novos tempos.

Como curiosidade: Paul Haggis também participa do roteiro. Ele venceu o Oscar com Crash e Menina de Ouro, e é forte candidato esse ano com Flags of our Fathers.

Cassino Royal Cassino Royal Cassino Royal Cassino Royal Cassino Royal

Hoje em dia os trabalhos em modelagem tridimensional são muito conhecidos, graças a estúdios como Pixar e DreamWorks e, aplicativos como Maya e 3D Studio Max. Porém, poucas pessoas conhecem o lado não-comercial do 3D, que vem ganhando popularidade aos poucos, e surpreendendo, como foi o caso do Blender com o primeiro Open Movie do mundo, o Elephants Dream, criado com imagens Open Source (e também o primeiro HD-DVD lançado na Europa). Nessa série de resenhas, vou falar um pouco sobre ferramentas que auxiliam no trabalho dos Designers 3D, e nada melhor que começar por um dos pontos altos: criação de modelos humanóides.

Criado pela Dedalo-3D, o MakeHuman é usado para criar humanóides, de forma rápida e simples, com opções que permitem modificar os músculos de várias partes de corpo (e com isso criar uma série de expressões faciais), o usuário consegue mais de 3.000 morphs possíveis – por isso o termo humanóides, já que o programa permite também transformações não-humanas nos modelos. O modelo pode ser exportado para sua utilização em outros programas, como o Blender e o 3D Studio Max.

Todas as modificações são controladas com o uso do mouse, por uma série de botões divididos em grupos, como braços, mãos, dentes, unhas e etc. O sistema de pose, recém-implantado, funciona muito bem, controlando as posições de forma realista, e tão detalhada quanto as modificações dos músculos.

Por enquanto, a documentação do MakeHuman é mínima, e a interface necessita de melhoras – os comandos para salvar e abrir arquivos são feitos por um tipo de linha de comando dentro da janela do aplicativo, e não existe uma interface para controlar os parâmetros do renderizador.

Falando nisso, o MakeHuman não possui um renderizador próprio, mas utiliza o Aqsis, que é baseado no padrão RenderMan© da Pixar. Com ele, é possível ter um preview em baixa qualidade, um resultado final em alta, ou uma saída estilo cartoon (em fase de testes ainda).

Vale ressaltar: é um aplicativo em fase de desenvolvimento mas possui pouquíssimos bugs e proporciona um excelente resultado.

Para quem: Linux (source e pacotes .deb para o Ubuntu), Mac OSX e Windows XP.

interface preview renderizador com saída estilo cartoon resultado final com MeshSmooth no 3DS Max resultado final com o Aqsis

Você pode não perceber, mas o cinema é mais do que impulso. Há técnica, estrutura narrativa, posicionamento de câmera e uma série de elementos que ao se somarem tendem à invisibilidade diante do espectador comum. É o que chamamos de filme. Fantasmas – dirigido por Bruno Diel e Luiz de Pina – trabalha a linguagem no limiar, quase em ponto de rompimento, com o cuidado de não sufocar os significados com os simbolismos.

No curta, duas personagens dividem um galpão em um edifício abandonado. Nosso primeiro contato é com uma mulher de olheiras profundas, quase um zumbi. Tudo que a envolve carrega a inércia, um meio contínuo sem início ou fim. Ela é a estagnação. Destrói lembranças e rompe os vínculos com a existência da memória, trancafiada em um cubo de concreto, seu limbo particular. Nem preto nem branco, ele é somente cinza. Em seguida, somos apresentados a um homem cansado que sofre subindo a escada de sua rotina. Ele está machucado, sangra. O que parece ruim na verdade é um ponto positivo, pois com o sangue há vida, o que o diferencia da mulher e cria a opção de libertação. Nos duelos simbólicos que se seguem entre os dois cabem diversas leituras, a prisão da rotina, a prisão da família, a prisão da falta de ação diante da vida. Ele, parece, quer avançar. Ela, sentada, se limita a mexer sua panela com o mesmo movimento circular.

Um dos signos em Fantasmas é a borboleta, referencial máximo da transformação. Há também uma carta, com efeito devastador não pelo conteúdo, mas pela sua existência, um possível lembrete da força da informação. São pequenas pistas de objetivo dramático não por levar a uma grande revelação, que não existe, mas por conduzir o espectador ao clímax dos acontecimentos, o momento da decisão entre o seguir em frente e o permanecer no mesmo lugar.

Fantasmas, de Bruno Diel e Luiz de Pina

link: Fantasmas no youtube

Fantasmas, de Bruno Diel e Luiz de Pina

1. É comum encontrar em críticas o argumento fácil do “amadurecimento do escritor”. A palavra amadurecimento se tornou um curinga dos textos, ao mesmo tempo elogioso ao presente e crítico ao passado. Para você, houve um rompimento de estilo (seja narrativo, temático,…) com os livros anteriores? Como encara esse passado literário?

Acho difícil até mesmo falar em “passado literário”, no meu caso. Publiquei somente três livros, tenho vinte e sete anos, não escrevo há muito tempo e não acho que eu tenha uma obra que possa ser dividida em antes ou depois. Ao mesmo tempo, meus três livros são bem diferentes, e houve, ao meu ver, uma evolução, embora nem todo mundo pense assim. Pra alguns leitores, os contos do Dentes Guardados ainda são a melhor coisa que eu escrevi. Mas o Mãos de Cavalo é indiscutivelmente o meu livro mais trabalhado, foi escrito com mais rigor que os outros, com uma estrutura muito calculada, um trabalho de linguagem mais cuidadoso etc. Os dois anteriores foram escritos de forma mais solta, deixando o texto fluir. Como autor, acho que cada idéia exige uma abordagem diferente. Posso ter um estilo próprio, mas não penso em escrever sempre o mesmo livro ou usar sempre a mesma linguagem. Me interessa variar um pouco, e a natureza dessa variação acaba sendo ditada pela idéia que pretendo expressar. Ou seja, o meu próximo livro provavelmente será um tanto diferente do Mãos de Cavalo. Não gosto do termo “amadurecimento”, parece que é a aproximação de um ideal engessado. Prefiro “transformação”.

2. Já que estamos pelos 27, vale a pergunta… Existe afinal a crise dos 30 anos do Hermano? No livro (e creio que na realidade), me parece que a grande crise acontece mesmo é na infância, época de regras e desafios muito próprios, em que os títulos/apelidos importam mais do que o nome.

Nunca pensei na crise do Hermano como uma crise geracional. É a crise do personagem. Muita gente se identifica, algumas resenhas falaram em crise de 30 anos, mas não foi intenção minha. Nunca tinha ouvido falar em crise de 30 anos. Até onde sei, não existe. Mas existe a crise pela qual o personagem passa aos seus 30 anos, que na verdade é um ponto culminante de um conflito que o acompanha a vida inteira. Pela minha experiência de vida, as crises existenciais são constantes. Algumas mais potentes que outras, mas elas não podem ser encaixadas em etiquetas cronológicas tão genéricas. Todo mundo que tenta entender a própria vida enfrenta pequenas crises constantemente.

Mãos de Cavalo, de Daniel Galera

3. Você, que já teve textos adaptados para cinema (curtas e um futuro longa) e para o teatro, acha que as artes no Brasil interagem pouco? Já pôde espiar o filme do Brant?

Não me parece que as artes no Brasil interagem pouco. Interagem até demais. Faltam, no cinema nacional recente, grandes histórias originais, escritas diretamente para a tela. Sinto falta de verdadeiros criadores no nosso cinema. A tentação de adaptar um livro ou filmar uma história que se parece com tantas outras já filmadas é muito grande. Espiei o filme do Beto, sim, e fiquei feliz em ver que foi uma adaptação que não se amarrou ao texto original. O Beto é um criador, mesmo adaptando obras literárias, como ficou claro no Crime Delicado. O Cão sem Dono é baseado numa história minha, mas é uma obra nova, uma obra do Beto e do Renato Sciasca, que co-dirigiu o filme. Como autor, é estranho me posicionar. Gostei do que vi, mas tenho a minha própria versão da história, que é a do meu livro, e sou muito apegado a ela, naturalmente.

4. Os novos autores lêem os novos autores?

No geral, lêem. Não dá pra ler todo mundo, é gente demais, mas estão todos lendo uns aos outros, na medida do possível. Eu, pelo menos, faço questão de equilibrar autores novos com a turma consagrada e com os clássicos.

5. E os novos leitores, já despertaram interesse? Entrar nas livrarias e ver só uma estante empoeirada para a literatura nacional ainda é cena comum.

Olha, a minha impressão é de que a literatura nacional está muito bem publicada e distribuída. Faltam leitores, claro, pois o país como um todo não lê quase nada de literatura de ficção, mas dentro desse cenário desfavorável, livros é o que não falta. Há títulos demais e eles podem ser encontrados com facilidade. Os poucos leitores que existem se interessam, mas eles são muito poucos, então fica um clubinho, mesmo. O diagnóstico é o mesmo há muito tempo, todos conhecem de cor: educação deficiente, uma cultura que não valoriza muito o livro, e por aí vai. Há um limite do que se pode fazer. Quando as pessoas não estão interessadas, elas não estão interessadas e pronto. Não é imoral não se interessar por livros. É triste e desanimador, mas não se pode obrigar ninguém a ler.

Daniel Galera, fotografia de Raul Krebs

6. O Hermano de Mãos de Cavalo é um personagem muito particular. Ana Paula Maia, por exemplo, usa personagens altamente violentos e viscerais. O Nazarian segue o tempo psicológico de personagens conturbados e agora apareceu com um jacaré falante. Carlos Machado prefere contextos poéticos, quase fotográficos, muito íntimos na narrativa. Ao pegar um pai de família bem-sucedido e fugir dos tiroteios, suicídios e decadências, você levantou uma outra voz. Acha que esse é um nicho a ser explorado? Que daí podem nascer seus futuros trabalhos?

Eu acho que os escritores escrevem sobre aquilo que os fascina. Os tiroteios, suicídios e decadências fascinam a maior parte dos nossos autores, então eles escrevem sobre isso. Eu gosto de um bom tiroteio, gosto de cenas sangrentas e flagrantes de decadência, mas é num nível mais estético. Me interessa mais visualmente do que narrativamente. Mas não é esse tipo de coisa que me fascina no íntimo. O Mãos de Cavalo é resultado de incontáveis coisas que me fascinam, me estimulam a pensar, me assombram antes de dormir ou quando estou nadando, me fazem procurar respostas definitivas que nunca obtenho. Nesse livro, fui buscar matéria-prima em muitas lembranças de infância e adolescência, e também na idéia desse personagem que luta para escolher sua identidade, que fica indeciso entre ser o que é ou o que gostaria de ser, e que sofre diante dessa dicotomia que pode inclusive ser ilusória. Eu não tenho respostas, mas o fascínio com esses temas me fizeram escrever esse livro. Nunca pensei em explorar um nicho específico, embora eu tenha considerado, sim, o fato de que seria uma história diferente de certos clichês que se associa com a literatura brasileira mais recente. Mas isso não significa que quero questionar ou fazer frente à literatura dos outros. Somente sigo o que me fascina, sempre um pouco confuso, mas determinado.

7. O acerto de contas com o passado protagonizado por Hermano é impactante. Jorge Duran costuma dizer que em algum momento é necessário olhar o próprio trabalho e pensar “por que escrevi logo isso? de onde tirei a ânsia desse assassinato?”. Já dá para olhar Mãos de Cavalo e pensar no assunto ou deixa para daqui a 30 anos?

O que o Jorge Duran faz depois de publicar o livro, eu fiz durante muito tempo antes de escrevê-lo. Muitas idéias do livro eram antigas, e cansei de me perguntar de onde vinham, até que desisti. A cena que tu cita (creio que se refere ao momento em que Hermano adulto resgata o garoto que está apanhando dos outros na rua) é resultado de fantasias narrativas que me acompanham desde a infância, e muitas vezes me perguntei de onde vinham, mas não sei ao certo. A cena com certeza tem a ver com cenas de cinema que me impressionaram, entre outras coisas. Mas eu não gosto muito de buscar a origem psicológica ou o significado simbólico das idéias que tenho. Assim como é rude fuçar na vida das pessoas, prefiro não fuçar muito nas minhas idéias. Elaborá-las e colocá-las no papel é o melhor que posso fazer com elas.

Link externo: Rancho Carne

Nada como uma coletiva de estudantes para rever algumas teorias sobre como obtemos significado.

A Universidade Estácio de Sá apresenta seus alunos de arte premiados em 2006 na Casa França-Brasil e apresenta também, embora sem querer, um argumento a favor do pós-estruturalismo e uma contestação das idéias de Saussure, de que aquilo que é, o é sendo tudo que o resto não é.

Aqui se trata mais de uma conversa do que de uma exclusão.

Os premiados – Adelino de Oliveira, Alexandre Braga, Alexandre Murucci, Analu Nabuco, Camila Rocha, Claudio Melli, Felipe Braga, Leila Souza, Marcos Chaves, Rick Castro, Rodrigo Torres, Thamar, Tito Sena e Viviane Teixeira – no entanto, ficaram excluídos, em uma sala à parte, privados da conversa que se dá entre os outros e entre outras artes e outras linguagens.

Cláudio Pedro No salão principal, Cláudio Pedro instalou um Psicopompos. Suas peças de madeira em duas cores, torneadas, se inseriram nas pedras do chão dessa antiga cavalariça, construída, bem no espírito do que estamos falando, por um arquiteto que acabou virando vinho, o Grandjean de Montigny. As peças, em curvas e pontas, têm um ar meio mourisco que pode nos surpreender mas não aos portugueses que transitavam pelo porto ao lado, na época em que o edifício foi construído, 1810. Cláudio Pedro, então, na sua fala, comenta e presentifica outra arte e também outra época.

Osvaldo Carvalho Seu colega Osvaldo Carvalho vai mais além. Ele traz uma conversa entre duas linguagens. Freedom é formado por tocos de cigarro. Poderia ser uma manifestação boba de simbolismo não fossem, os tocos, da marca Free. A peça em linguagem visual só se complementa, portanto, com a ponte feita com a linguagem escrita. De frente (os tocos estão em escorço) a liberdade em questão é a de juntar rodelinhas marrons até que formem uma estrutura à beira de se desestruturar, pela adição ou subtração sempre possível de seus pequenos elementos. De lado, lê-se a marca impressa e a desestabilização do significado inicial então se estabelece. Uma liçãozinha do que a arte pode fazer.

Rejane Fermann Lição essa demonstrada com grande competência por outro dos participantes, Rejane Fermann. Sua peça se chama Toujours Le Déjeuner e é uma tradução contemporânea da obra de Manet. Le déjeuner sur l’herbe pôs lado a lado – e fez escândalo por isso – conceitos que costumavam ficar bem separados: natureza e civilização.

No quadro de Manet, são cavalheiros bem vestidos (civilizados, racionais) e damas nuas (a velha identificação da mulher com a natureza) durante um piquenique (a visitação ritualística que citadinos fazem periodicamente a cenários “naturais”) às margens do Sena – o rio, elemento da “natureza”, que visita Paris, a maior cidade da época.

Na obra de Fermann, o piquenique mostra a junção, o diálogo, dos dois conceitos que o constituem. Ao fundo, uma pintura de espaços coloridos, uns verdes. Na frente, duas lâminas de vidro com o contorno dos personagens esboçados em metal. Os três planos se apresentam em movimento quando a pessoa à sua frente também se movimenta.

E é esse o tema dessa conversa: movimento. Os participantes da mostra estão em movimento e supõem um visitante em movimento.

Você se aproxima das pontas mouriscas de Cláudio Pedro como quem vai para dentro e para o fundo. Mas elas ficam perto das grandes portas de vidro, iluminadas portanto, e perto de uma possibilidade de continuidade no caminhar.

Se você não andar em volta dos cigarros Free deixará de perceber a parte mais importante da obra.

E passear no piquenique de Manet faz você sentir como poderia estar vestido ou nu, igualmente.

Kabum! Novos produtores e a Secretaria do Trabalho e Assistência Social e Esporte convidam para o lançamento da Coletãnea Traços e Laços, Memória da Região Nordeste de Amaralina.

Local: Casa de Serviços Viva Nordeste
Rua Alto da Alegria, s/n, Beco da Cultura.
21 de dezembro, 17 horas

tel: 3345.5657 (no convite não veio o código de área)

A premissa de Filhos da Esperança é interessante. Em 2027 as mulheres não conseguem mais ter filhos. Seja por poluição ou questões genéticas, o fato é que nenhuma criança nasce faz tempo e esse clima apocalíptico lançou o mundo no caos total. Os religiosos acham que é a ira de Deus, os cientistas não acham nada, os políticos se aproveitam e os senhores da guerra ganham dinheiro. No meio da bagunça, o único lugar que ainda se mantém de pé é a Inglaterra, que para preservar um pouco da paz (uma falsa paz que lembra muito os dias de hoje) começa uma caça aos imigrantes, deixando Londres só para os ingleses.

A ficção científica apocalíptica não é nenhuma novidade, mas Filhos da Esperança (Children of Men no original) tem um certo frescor, já que não abusa de efeitos especiais e tenta se focar em temas relevantes. Não há supercarros nas ruas, relógios supersônicos ou armas de raios laser, apenas o caos, esse que conhecemos das esquinas, elevado a enésima potência.

Filhos da Esperança

O filme, na verdade, é um conjunto de denúncias movido por uma grande fuga. Logo de início, descobrimos que a criança mais nova do mundo (18 anos) morreu esfaqueada por não querer dar um autógrafo. Esse célebre rapaz lutava para fugir da fama e ter uma vida normal. Terminou assim. Um minuto depois, sem pausa para respirar, explosões e atos terroristas interferem na realidade diegética. Acompanharemos agora cenas de preconceito racial, exclusão social, utopia da ciência e mesmo filosofias sobre a importância da arte num mundo desgovernado.

Depois de ambientar e sufocar o espectador na densidade do filme, Cuarón começa a história para valer. Julian, a personagem ativista vivida por Juliane Moore procura Theo (Clive Owen) para pedir ajuda numa missão sigilosa: conduzir uma menina grávida para um ponto no meio do oceano, onde pesquisadores do Human Projet a levarão para uma espécie de novo Éden e cuidarão do bebê. A aventura é complicada, pois a menina (Claire-Hope Ashitey), a primeira a engravidar em 27 anos, é uma imigrante ilegal sem passaporte. O governo pode tentar matá-la e fingir que o filho é de outra mulher, os rebeldes podem transformar a criança em uma bandeira para novas revoltas, e por aí vai, muitas preocupações ideológicas, poucas com o indivíduo.

Filhos da Esperança

A história central é bastante interessante e os protagonistas são muito bem construídos. Todo filme que não apela para o exagero tem seu mérito. O problema, quase irrelevante, está nos personagens secundários. O roteiro não sabe bem o que fazer com eles, e cria funções e dramaticidades desnecessárias, em um vai e vem de atuações que tiram o foco da ação principal. Como o mundo já é o grande inimigo, não era necessário criar antagonistas tradicionais para a história, sacar da manga mudanças de caráter um tanto óbvias para movimentar a trama.

Filhos da Esperança

O fato de o diretor Alfonso Cuarón ser também um dos roteiristas explica em parte as falhas e os acertos da leitura, que foge da encenação excessiva, optando inclusive pelo uso de câmera de ombro nas cenas de ação mais longas. Cuarón, que é mexicano, ficou conhecido internacionalmente por filmes como Y tu mamá también, Grandes Expectativas e Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, além de participar do projeto Paris, eu te amo.

Centro Cultural Banco do Brasil e Subprefeitura da Sé apresentam a exposição

O Compadre de Ogum
com serigrafias de Carybé (Hector Júlio de Pari Bernabó) sobre a obra de Jorge Amado
De 18 de dezembro a 28 de janeiro de 2007
Entrada Franca

“A exposição traz 22 serigrafias, de 50cm x 35cm, que retratam pessoas comuns e mostram o ser humano com a sua carga de trabalho e afetividade. Carybé trabalha com a linha, o volume e o espaço. Seus traços simples formam figuras, freqüentemente compostas de formas geométricas capazes de identificá-las, de captar sua essência num lampejo.” (divulgação)

O Compadre de Ogum
Exposiçao de serigrafias de Carybé
de 18 de dezembro de 2006 a 28 de janeiro de 2007.
Passagem Literária Consolação
(passagem subterrânea da Rua Consolação próxima à Avenida Paulista)
de 2ª a 6ª feira, das 07h às 22h. Sábados, domingos e feriados, das 10h às 22h.
ENTRADA FRANCA

A Galeria Tempo apresentou nesta sexta na Casa do Saber o vídeo Héliophonia. Idealizado pelo artista visual Marcos Bonisson, ele aborda o universo de Hélio Oiticica, inserindo o espectador numa experiência audiocognitiva emocionante e renovadora, características também inerentes ao trabalho de Oiticica. Se o primeiro impulso do raciocínio excludente é classificar o vídeo e inseri-lo em categorias como videoarte, vídeo experimental e afins, fica claro desde o bate-papo com Marcos que as classificações são desnecessárias. O vídeo é na estrutura e na narrativa um reflexo do conteúdo proposto, uma materialização do pensamento de Hélio que dizia “A montagem é uma técnica velha. Quero usar tudo, nada de costura e cozinha”, desse modo livre de rótulos e limites.

Héliophonia de Marcos Bonisson Héliophonia de Marcos Bonisson Héliophonia de Marcos Bonisson
Apesar do estado indomado e da figura cativante do artista, o que chama atenção em Héliophonia é o som, ou como define Marcos Bonisson, a fala-performance de Hélio, montada a partir dos héliotapes. “O que eu faço é música”, fala ele, junto de seus momentos-frame. Na tela, o rosto de Buñuel retirado da capa da New York Times Magazine tem o olho cortado, numa alusão a Cão Andaluz, com filetes de cocaína formando um jorro de sangue imaginário. Nas falas, acompanhamos a explicação sobre a obra, a graça, o efeito do pó, seu surgimento e desaparecimento, um processo reverso de semiótica, que domina a audição e aproxima o espectador, decompondo e recompondo a centelha de vida diegética.

Hélio Oiticica viveu de 1937 a 1980, e conseguiu ser arte em plena ditadura. Mostrou desde sempre que sua essência era o continuum, o que se refletia em seus quase-filmes, passados em loop (e por isso sem intervalos). Hélio conseguiu manter em uma mão a vanguarda e na outra o clássico, quebrando o conceito temporal da sucessão e, como o dragão oriental que morde o próprio rabo, transformando-se no eterno, um verbo presente, que se perpetua até hoje.

Como disse Luiz Alberto Oliveira, físico e amigo de Marcos, o que se destaca em Hélio é a imanência, a potencialidade do ser. Suas obras são reflexivas, compostas pela mão do artista e pelo que arrancam do espectador, gerando um fluxo que se auto-alimenta e perpetua.

Luiz Alberto Oliveira, Eric Novello e Marcos Bonisson (da esquerda para a direita)

Talvez Hélio tenha alcançado o estado quantum de energia indivisível, mantendo a individualidade capsular – um universo em si – e tocando outros universos na expansão de seus relacionamentos, um sistema espacial de amigos, obras e ideologias na translação de bólides e parangolés.

“Por causa de si (causa sui) entendo aquilo cuja essência envolve a existência, ou seja, aquilo cuja natureza só pode ser concebida como existente. Por substância entendo o que é em si e concebido por si, quer dizer, aquilo cujo conceito não precisa do conceito de outra coisa para ser formado. Um corpo não pode ser limitado por um pensamento, nem um pensamento por um corpo”. – Spinoza, Ética.

Passado o influxo informativo do vídeo, o que vem aos olhos – e aos ouvidos – é a sinceridade do diretor. O sentimento de Marcos transpassa a câmera, objetivas e película, molda-se no olhar perdido em um ponto entre a arte, a amizade e a memória, e alia-se à obra no objetivo transcendente de fazer “da tela uma janela do espaço real”.

- Marcos Bonisson tem trabalhos em coleções diversas, como as de Gilberto Chateaubriand, Joaquin Paiva e da Fondation Cartier Pour L’art contemporain em Paris. Héliophonia foi realizado com apoio da Bolsa Rio Arte e do Projeto HO, e integra a 27ª Bienal de São Paulo (2006).

Sólo Dios sabe é uma co-produção entre Brasil e México, que segue a narrativa clássica dos road movies, recaindo também nos erros mais comuns do gênero. Filmes que têm a estrada como espinha dorsal precisam tomar cuidado com certos aspectos: 1. mudam as locações e os personagens secundários, mas o tema deve se manter firme até o fim. 2. o que faz o filme andar é o desenvolvimento dramático e não o ritmo das rodas.

Só Deus Sabe

Só Deus sabe começa nos Estados Unidos. Lá, somos apresentados a brasileira Dolores (Alice Braga), que tem um caso com seu chefe/professor. Depois que ele cancela um jantar por causa da esposa, Dolores resolve sair para dançar com os amigos em uma cidade mexicana. Pit stop 2, surge Dámian (Diego Luna) que fica interessado em Dolores, mas é ignorado. Quando está saindo da boate, vê o carro dela sendo assaltado e corre para avisá-la. Tarde demais. Dolores está sem passaporte e precisará viajar pelo México para conseguir novo visto e voltar aos Estados Unidos.

A princípio, está armado um road movie simpático, que tem como tema o relacionamento entre os dois protagonistas e como cenário as cidades de San Diego, Tijuana, Cidade do México, São Paulo e Salvador. Diego Luna é um ator talentoso com um currículo extenso (incluindo o cult road movie Y tu mamá también) e Alice Braga – sobrinha de Sônia Braga – conta com atuações importantes em Cidade de Deus e Cidade Baixa. Então, nada mais natural do que deslocar o peso das cenas para cima dos atores e construir a partir daí a história. Certo?

Errado.

Na película do diretor Carlos Bolado Muñoz, o assunto esgota no caminho. Assim que o filme chega no Brasil o roteiro perde o rumo e a religião passa a ser o tema principal. Teses sobre destino e acaso se mesclam a um candomblé exagerado que podia figurar no documentário Olhar estrangeiro de Lucia Murat ao lado de Anaconda e Lambada. Para complicar um pouco mais, surge uma doença terminal no estilo Deus ex machina, um trunfo suspeito desde as tragédias de Eurípedes.

No fim, é uma pena que dois bons atores não tenham sido aproveitados no que poderia ser um belo filme adolescente, tão raro nas montanhas de Hollywood. Na volta para casa, só o que resta é assoviar aquela música cantada por Elis Regina:

“Só Deus é quem sabe do amor
Eu não sei nada
Só sei que a vida nos prepara cada cilada
E é inútil se tentar fugir
Da longa estrada”

uma constituição de sentidos

Relâmpagos. O título do livro de Ferreira Gullar sugere o que se tornará, quando o leitor o abre, desde a primeira página: fulguração. Aliás, é o que o escritor determina ao afirmar, na abertura do livro, que “toda obra de arte atinge nosso olhar como uma inesperada fulguração, um relâmpago”. O exercício de leitura que se segue vai catalogar os sentidos a que essa proposição busca chegar, conferir.

Nascida da certeza do escritor, a fulguração da tela fala por si, numa linguagem que a arte verbal é incapaz de traduzir. O que dela traduzimos aponta para uma leitura que pode ser a da “manifestação estilística, a da sociologia ou da história para que se possa compreendê-la como tendência artística”. (GULLAR; 2003). A visada de Gullar é, entretanto, outra e se liga à compreensão da manifestação do poético. Do poético como matéria bruta que também explode nos sentidos do leitor, sem que seja necessário determinar sua natureza, quando, ainda sob a sua influência poderosa, se vê o que não se pode ver sob as manhãs e tardes do cotidiano. Sem que se rompa com o cotidiano – ele de fato está ali presente – o cotidiano foi estabilizado numa profusão de tempos irrecuperáveis. A leitura, sensível, densa e direta ao mesmo tempo, em que a percepção do quadro pelo poético traçará, em palavras simples e definitivas, como o quadro comentado:

Um momento de vida, mínimo episódio da história humana – pessoas que, numa sala, posam para um pintor que as retrata – ali na Espanha, num certo dia do século XVII. E parece uma visão irreal esta cena real (com sua luz doce) que Velázquez fixou na tela para sempre. Mas que, na vida, se desfez naturalmente em seguida, como qualquer outra, entre palavras e risos talvez. (Gullar: 2003; 31)

A passagem referida acima comenta o quadro de Velázquez – As meninas – mas, para além do que se afirma acerca dele, importa a compreensão absoluta de dois tempos distintos e complementares: o tempo intemporal do quadro, que fixa para sempre um instante que o tempo cotidiano deixa passar na inexorabilidade mesma do tempo. Nesse conflito, que não se coloca como conflito, mas como síntese dos movimentos postos em quietude pelo pintor, pelo poeta, surge a revelação instantânea do que houve e ainda há. Relâmpagos.

Relâmpagos. A mancha azul que se grava pelo olhar nas retinas da compreensão do absoluto, tornada retalho e composição, em algum lugar – onde? – do centro desfigurado das certezas do cotidiano explode no mundo individual e coletivo como um lampejo pulsante e interminável. O poema em que se lança Gullar tem a ênfase da demonstração do que não se pode compreender – a ênfase tornada objeto, mas objeto que, para além de si mesmo, constrói e desfaz os sentidos que não alcançamos, mas que nos pertencem, nos conformam na fixação material do que podemos ser, talvez o “puído aceno humano”, que o poeta percebe. Em outras palavras: a constituição do olhar, sob o azul descolorido da roupa da Madona, fulgura como um tapa no rosto, como um comentário excêntrico à composição de Leonardo – que, entretanto, não se nota no equilíbrio perfeito da composição. Fulguração do poético, a Mancha revisita no quadro a explosão da percepção de outra linguagem: a poética.

Iridescência. Mulher se penteando. Efusão de cores. A quase figuração. Descrição muda do que é, percebe-se, num lampejo do quase que se apresenta como é e não é. Não como em Velázquez, que em outro plano tornou estável a sala na qual a cena do mundo se estancou a partir do olhar, a mulher que se penteia torna estável “um fato banal da vida”. Diferenciação absoluta. Aqui importam as cores – a profusão delas – que explodem nos sentidos e compõem para além da figuração a distorção da banalidade, mas também torna estável não mais a sala ampla dos castelos, senão que a cena íntima em uma casa qualquer. Entretanto. Entretanto, o mesmo fulgor, o mesmo relâmpago com que se revela a beleza da vida.

Jeanne Hébuterre. Frio e fome. A mulher alongada de Modigliani. A beleza fulgurante da vida ensina nos nus a transmutação do “desejo sexual em ternura e poesia” (Gullar: 2003; 83). Harmonia e cor, outro o brilho da intimidade – as volutas dos pêlos no Nu sentado interagem – contracenam com a história. Degas onde a cor é profusão, desimagem; Picasso onde a cor esculpe a imagem “talhada a facão” (Gullar: 2003; 73). A sensualidade agressiva das Demoiselles. O quadro de Modigliani foi composto em 1917, ano em que Degas morre e após dez anos em que a ruptura cubista aparece com seu clarão destruidor. Três formas da forma, da poesia, da revelação da beleza. Lições gullarianas. Brancusi e a multiplicação da escultura na qual o suporte é já a obra. Gullar e a multiplicação da escritura na qual a explosão do fulgor são estilhaços tocados pelo todo. Simultaneidade.

O toque do dedo, a cor que salta nas retinas do poeta: aqui o canto amarelo, ali a mancha azul, o quadro de Bracher é escrito por este delírio perceptivo que ainda uma vez mais ressalta a especificidade do fazer/compreender a arte. E algo mais: a escolha da cor – o azul de Leonardo, o amarelo de Bracher – são parte da fabricação do livro. Escolhas. Intenção de significado. Partículas de uma tradução sensível das possibilidades de criação ou, em outras palavras: no livro que se dá a ler, a constituição de um universo auto-centrado, alusivo, em diversos momentos, da memória da aprendizagem, mas também da autonomia e liberdade de ver.

Duas vertentes, portanto, se entrelaçam e constituem o livro: a escolha dos quadros e a sua submissão ao construto da indagação do que norteia o pensamento sobre as artes plásticas. Se a escolha é ditada pelo prazer de olhar, pelo prazer de “tentar apreender [das obras] o frescor, a verdade material e poética”; a indagação dos significados amplia este prazer e transmite ao leitor a intenção de criar a forma do livro. As formas artísticas possuem concretude. São o que são e ocupam lugar no espaço. São matéria que desordena a matéria e dá à apreensão dos fenômenos a capacidade de fazer perceber, para além da matéria, a subversão do artista na fabricação da sua própria matéria. A respeito, escreve Gullar, ao pontuar o desenho de Raphael:

Raphael brinca com as linhas, brinca com a imitação dor real: imita-o brincando, exibindo seu virtuosismo que dispensa segui-lo passo a passo; desestabiliza nosso hábito de ver e nos dá a beleza outra, que só o desenho nos pode dar – o desenho de Raphael, mestre anônimo do Engenho de Dentro. (GULLAR: 2003; 116).

Perceber e organizar o modo de operação dos quadros e dos textos, que a eles se referem, exige do leitor que monte as possibilidades do legível que se inscreve em Relâmpagos.

O livro de Gullar não apenas pontua a percepção do que a arte pictórica revela à leitura, é também uma lição, em pequenos quadros, da composição que os comentários vão expondo. É também, através da “experiência fenomenológica”, um mergulho profícuo na sociologia, na história da arte. Apenas que o móvel que constrói essa história, essa sociologia, muda a percepção de seu discurso teórico e vai se afirmar – com rigor e exatidão – em um ponto onde a percepção do histórico, do sociológico, se torna entranhada na aguda concepção das artes verbal e pictórica em que as leis da representação e de sua técnica mergulham numa complexidade de sentidos que nem a autonomia da técnica, nem a autonomia do tempo representado correm paralelos.

A percepção que o leitor de Relâmpagos vai construindo ao longo da leitura tem a ver com essa predisposição do discurso artístico – sem deixar de ser “crítico, autocrítico e autofágico” – o discurso que se compõe sob os relâmpagos demonstra e se faz tão contemporâneo quanto a arte que se revela de sua escrita, de sua tela folha. Pintura da pintura – escrita da escrita – absorvida pela sua época, o texto de Gullar se revela como os móbiles de Alexandre Calder, que realizam

“se o tocamos… … como que uma reavaliação de seu equilíbrio, de seu sistema de distribuição da gravidade: a pá tocada indaga a outra, esta a haste seguinte, e a indagação, como um murmúrio, vai se propagando dos pequenos sistemas aos maiores até ocupar o sistema geral – o móbile todo.” (GULLAR: 2003; 18)

Tábua de quadros e esculturas:
As meninas – Velásquez
A Madonna do cravo – Leonardo da Vinci
Mulher se penteando – Degas
Nu reclinado – Modigliani
Lês Demoiselles D’Avignon – Picasso
Musa adormecida – Brancusi
Natureza-morta com copos de leite e violino – Bracher
Vaso de plantas com bananas – Raphael Domingues
Aranha Suspensa – Calder

A partir de meados de dezembro de 2006 e até fevereiro de 2007, as imagens exibidas no telão da cafeteria do Oi Futuro são as de Ricky Ferreira. Feitas durante os anos 60, mostram o movimento de contra-cultura em Nova York.

Definir se as fotos são boas ou não, e se representam ou não o que pretendem, depende portanto de uma definição anterior, a do movimento.

Ricky Ferreira
Gosto de considerá-lo um reflexo sobre o fim da ilusão de perfectibilidade que se mantinha desde o Iluminismo. Nas artes e literatura, a experiência meio autoritária do modernismo se combinava com uns sentimentos de perda, melancolia e anseios que tinham muito de romântico. Mas era como se o romantismo, típico do século anterior, retornasse comprimido todo ele em uns poucos anos, com o otimismo do começo e o pessimismo do final, lado a lado no mesmo banco de praça.

De uma coisa Ricky escapou: do simbolismo. Suas fotos mantêm uma objetividade de observador e não entram na espiral de metáforas e obscurantismos do seu assunto.

Ele mostra uma concepção sensória e estética sem ir para o místico ou metafísico; não tenta fazer com que a linguagem se sobreponha à experiência.

Romantismos, quaisquer que sejam, sempre supõem em seu início a possibilidade de um renascimento social ou individual através de um retorno a algo que se perdeu e que era muito bom ou muito puro (infância, natureza, folclore etc.). Sempre trazem, no seu fim, o sentimento de impossibilidade de melhora social ou individual, com desintegração física e repetição não-criativa.

Ricky Ferreira

Fazem um caminho, portanto, da “natureza” para as seringas em quartos fechados e sujos das cidades.

O cenário de Ricky é o ar-livre urbano, o que já é uma síntese. Não há espaços ou ângulos fechados, excetuando umas fotos de dentro de um trem de metrô em movimento – e o significado de movimento fica mais forte do que o de espaço fechado. Ninguém se droga (no máximo, uma maconhinha). Mas também, por outro lado, o “natural” mais comum é o dos cabelos sem cortar.

Ao abranger os dois aspectos dicotômicos da contra-cultura – seu otimismo e seu pessimismo – Ricky inclui, nas fotos, os outsiders de todas as épocas: vagabundos, mendigos, malucos-beleza, profetas de esquina. Carros abandonados. E contrapõe a eles o “stablishment”, que é o mesmo então, hoje e sempre: as figuras bem-vestidas de meia-idade e cara séria.

Romantismos costumam ser sucedidos por novos ímpetos realistas. Porque não abandona nem por um momento sua objetividade (entrando mesmo em um quase-documentário de passeatas anti-guerra, contra o Nixon e de apoio a homossexuais), Ricky inclui no seu retrato de uma época um início e um fim, e um depois do fim.

A Pomba

(Esta imagem não está na exibição. É de uma capa, feita por Ricky, para a revista A Pomba, que eu editava naquela época, junto com Eduardo Prado. Um saudosismo romântico de minha parte.)

Casa de Cultura Paulo Setúbal reabre com 3 exposições:

  • Paulo Setúbal – Profissão: Escritor (curadoria: Camila Duprat)
  • Tatuí(s) – Crônicas de uma Cidade (curadoria: Camila Duprat)
  • André Vallias – p0es1a digital (1991/2006) (apresentação: Adolfo Montejo Navas)

Casa de Cultura Paulo Setúbal convida

Dia 17 de dezembro de 2006, domingo, às 11h
Praça Manuel Guedes 98, Tatuí – SP

O livro de Paulo Neves, Viagem, espera, é composto por três movimentos que parecem díspares. O leitor ao se deparar com a extensão do que o livro propõe, é levado a pensar em uma coletânea, um ajuntado de escritos, que não estivesse alinhavado por uma intenção. Pensa: uma antologia.

O entrelace das variáveis, em Paulo Neves, entretanto, faz funcionar o livro como peça única, que vai se desdobrando à medida que a leitura e seu imaginário se deslocam do papel para a sensibilidade do leitor. Não só se entrelaça a temática, mas o modo de composição. Algumas construções tornam próxima da prosa a composição do poema; algumas construções tornam próxima da poesia a composição da prosa. Tornar próximas, para o leitor de Paulo Neves, não significa, como quiseram alguns escritores modernos, abolir as fronteiras entre prosa e poesia e fazer desta aquela e daquela esta, mas acentuar o caráter episódico de um fazer poético (e prosaico) que se entende como próprio do escrever. O que significa dizer que, seja em prosa ou em verso, o texto de Paulo Neves é essencialmente poesia.

Tomem-se três exemplos, retirados de cada uma das partes do livro:

O primeiro, retirado dos 40 poemas:

“Como dizer o sentimento exato
do que se passou entre nós?
Palavras breves, aproximação
pelas pontas, justamente,
porque tivemos tão pouco contato.
Reserva de insondável coração
que o tempo me fez descobrir,
poema, tarefa de eternidade:
viver a memória de meu pai
como um sentimento por definir.”
(Meu Pai, 2006. 35)

O segundo, do Caderno de prosa e poesia:

“Por ninharia sofremos e fazemos sofrer. Grandes crimes e pequenas ofensas só se distinguem pela posição que ocupam (mais perto ou mais distantes de nós) num encadeamento de ninharias. Mundo abominavelmente reativo, esse em que vivemos. O criminoso é mais abominável que o jornal que o acusa? Horror ao crime, sim. Mas horror também a essa justiça que alimenta o ódio surdo do qual irrompem os criminosos.”
(Cadernos de prosa e poesia, 2006, 64).

O terceiro, do Crônicas breves:

“As notas vão abrindo as escalas, desenvolvendo seu percurso de iniciantes, como quando a harmonia continha surpresas e os desníveis no seu leito sonoro faziam o ouvido estremecer até o coração. As notas vão brotando singelamente, magicamente dos dedos de meu filho João, alargando a alegria e a tristeza do mundo e perfazendo um infinito em pequena escala que é pura manifestação do tempo, do tempo como eterno aprendiz.”
(O prelúdio nº. 1 de Bach, 2006, 94).

Os três fragmentos tomados acima permitem que se tenha do autor uma pequena amostragem. A linguagem simples, quase direta, banderiana, inicialmente revela ao leitor apenas aquilo que, à superfície do papel, parece querer mostrar-se. A relação do eu com o pai, as artimanhas reativas dos homens, as notas musicais de um aprendiz e a passagem do tempo. Se o leitor quiser, pode simplesmente ater-se ao tema e abster-se até de comentá-lo, tão direta, tão límpida é a linguagem. Entretanto, há qualquer coisa que escapa a essa limpidez.

As arestas com que indaga e responde a si mesmo, (ao pai?), ao contrário da limpidez, funciona como dado do impreciso, do indefinível. Corrompe a escrita e a platitude do leitor se vai, restando nele a incapacidade de abster-se de comentar e esquadrinhar a escrita, por ser assim que a máquina do poema funciona, isto é, ao referenciar/reverenciar o silêncio, que cria a reserva entre os homens (sejam eles pais ou filhos ou estranhos) é da própria confecção do poema que se fala. E ao falar-se, o poema turva a limpidez de iluminações outras que matizam o cotidiano das relações. As relações antes estáveis, protegidas pela clareza da linguagem, se tornam instáveis e interrogam desde o seu âmago a estabilidade com que se percebe o mundo. A própria linguagem se torna opaca, outra coisa que não apenas o comércio cotidiano.

A indagação do sofrimento novamente tematiza – por outras vias – a própria linguagem. Da indagação central – o ato abominável do criminoso – tece-se, nas pontas do discurso, um desvio importante, que vai se desdobrando na indagação tranqüila do próprio ato. O ato deixa de ser ato e passa a ser visto como ato apenas na consolidação da linguagem que o determina, por isso o horror pelo modo com que o jornal prejulga prolongar-se ao próprio sentido de justiça, que se aproxima com certa tensão das características humanas e das ninharias através das quais enxergamos o mundo. A posição do sujeito e da notícia torna maior ou menor o crime. Sujeito que determina o objeto; objeto que determina o sujeito. Instável, a linguagem novamente nos indaga de si mesma.

No sentido clássico, talvez, o texto sobre a execução do prelúdio de Bach seja o que mais se aproxima de uma idéia tradicional da poesia entre nós. Nele vemos a emoção que provoca o leitor a emocionar-se a usufruir a calma desta emoção. Mas é justamente a subversão a este padrão do poético que constrói o texto. À idéia de que a poesia se aproxima da sensibilidade, e apenas nela se constrói, é contraposta uma outra possibilidade reflexiva. À pura sensibilidade se dá o contraste do aprendizado, como a afirmar que a beleza também se encontra no que é executado no processo de aprimoramento. A percepção de que este aprendizado se constrói no tempo e por isso se eterniza é, na concepção da sensibilidade educada, a própria beleza que recupera o passado do já feito e repercute no presente e no futuro. Se se fala da beleza, não menos se teoriza o seu estatuto. A escrita dá voltas e permite ao leitor penetrá-la sob a destreza de um múltiplo texto.

Multiplicidade que, aliás, está na ordem mesma da organização do livro de Paulo Neves. A turvação trava a limpidez e faz com que a linguagem ultrapasse os ditames da escrita e liberte na sensibilidade do leitor uma corda qualquer, que execute o prelúdio nº. 1 de Bach, sempre como quem vivencia a execução da beleza.

O que só se consegue através da precisão da linguagem que Viagem, espera constrói.

Nem sempre a metalinguagem se reveste de obviedade como ocorre em novelas radiofônicas sobre o rádio, livros sobre a feitura de livros ou filmes com cinemas, caso de Lisbela e o prisioneiro. A sétima arte, sétima pela exigência dos sentidos plenos, abre possibilidades que complicam a equação matemática, trazendo junto com elas certas responsabilidades que pousam mais do que repousam nos ombros dos roteiristas e diretores. Um tema nunca deve ser levantado em vão. Se a Segunda Guerra Mundial não agrega nada ao romance do pecador apaixonado pela vizinha, traga-o para os dias de hoje, busque o sentido além da plasticidade. O Ilusionista, filme com Edward Norton, Paul Giamatti e Jessica Biel, recai sobre um erro grosseiro, esse que é desprezar o tema tratado e torná-lo um vislumbre visual.

A mágica é um dos temas mais traiçoeiros do cinema. Na era megalômana dos Harry Potters voadores e seus dragões desenfreados, mágica e magia tornaram-se antônimos narrativos. Na magia o absurdo está de braços dados com a fantasia e cuspir fogo é corriqueiro. Na mágica há o homem, aquele que engana com engenhocas, treino e raciocínio os olhares mais próximos e atentos, dispensando a ajuda dos Merlins de plantão. A mágica possui um concorrente/aliado de peso nos dias de hoje. Ele se chama cinema, esse jeito atraente de transformar o que não existe em realidade dentro da tela.

O Ilusionista

A fragilidade do roteiro de O Ilusionista se revela logo nas primeiras cenas. Com cinco minutos de filme, somos jogados em um flashback despropositado que conta a infância do personagem principal. Após encontrar um mago perdido na floresta, o pobre plebeu começa a treinar alguns truques. Um dia na cidade, ele esbarra com a jovem duquesa von Teschen, com quem começa um romance secreto. Ó garoto pobre que não sabe o seu lugar. Os jovens, claro, planejam fugir, mas são separados pelos riquíssimos pais da duquesa. O desolado aprendiz de mago resolve então viajar pelo mundo. No seu retorno triunfal, o plebeu se tornou Eisenheim, um famoso ilusionista que lota os teatros da Áustria. É tão talentoso que até o príncipe resolve ver seu show.

Eisenheim começa bem o espetáculo. Tira e joga as luvas para a platéia, que vê abismada dois corvos voarem pelo teatro. Depois, faz uma semente de laranja se transformar numa laranjeira, manipulando o tempo, uma bela referência ao cinema. Em um número especial, Eisenheim pede um voluntário da platéia que não tenha medo da morte. O príncipe então se levanta e indica sua futura esposa, Sophie. Quando ela chega no palco, surpresa, adivinhem quem ela é?

O Ilusionista

Há algo de errado em um filme em que o espectador descobre o final com 15 minutos de exibição. Pior ainda quando esse filme fala de mágica. A mágica (e não a magia) evoca o segredo, a arte de enganar, de fazer parecer o que não é. O clímax do filme deve ser a revelação do que estava diante dos olhos e não vimos, já que o cinema nos permite descobrir o truque, enquanto os mágicos jamais o revelam. A obviedade, portanto, elimina da narrativa tudo o que poderia surpreender e fechar diegeticamente a simbologia metalingüística. E se tudo isso funcionasse bem, alguém ainda agüenta o plebeu super-herói contra o príncipe malvado que bebe, caça, bate nas mulheres e tem raiva do pai?

Neil Burger não está perdido só no péssimo roteiro que repete as mesmas informações, tem diálogos primários e segue uma linearidade insuportável. Sua direção também é vazia e equivocada. A câmera parece nunca estar no lugar certo, perseguindo o ângulo mais do que o conteúdo. Para piorar, uma estranha obsessão por ângulos exagerados mostra todas as peças necessárias para se desvendar o mistério (com muitas aspas, por favor) do filme. Então, se de repente a câmera der um zoom na garrafinha em cima da mesa, você já sabe, não foi o câmera que tropeçou.

Para fechar com chave de ouro, idéias chupadas de Romeu e Julieta e, descaradamente, de Os Suspeitos, numa cena que faz as paródias do Saturdat Night Live parecerem obra de Shakespeare.

O ano acabou mas o que o marcou talvez não.

Se 2005 foi o ano das galerias particulares, que se expandiram e se organizaram para participação em mostras nacionais – como a paralela da Bienal – ou internacionais, 2006 foi o ano das instituições, e no mau sentido.

Mês a mês, as exposições da descúria e do descaso se sucedem.

No final de janeiro chove dentro do prédio do então Centro Cultural Telemar, obrigado a interromper sua programação. No fim do ano o centro muda de nome para Oi Futuro. Olá.

Em fevereiro ficamos sem o Matisse, Picasse, Monet e Dali do Museu da Chácara do Céu.

Até hoje.

Dez dias depois, o saque é no Museu da Cidade, na Gávea.

Vem abril e dessa vez o roubo se torna mais sutil. A diretoria do CCBB-RJ rouba do público o direito de ver, na exposição Erótica, a obra Desenhando com terços, de Márcia X. Censura. O curador Tadeu Charelli, esgotadas as argumentações, entrega carta de demissão.

Ladrões soltos, mecenas na cadeia. Em maio, Edemar Cid Ferreira vira preso comum em Tremembé expondo uma tradição brasileira de negócios escusos e colecionadores de arte, com o nome do MASP de São Paulo nos noticiários a revolver memórias de sua fundação e do apoio recebido por Assis Chateaubriand.

Junho. Fotos do Rio do início do século, de autoria de Augusto Malta, simplesmente somem do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Estavam ultra bem guardadas, atrás de sete portas trancadas a sete chaves. Pouca gente com acesso, e mesmo assim todos fingem desconhecer os esquemas.

Em agosto é a vez da Biblioteca Mário de Andrade, de São Paulo, que perde um pergaminho de 1.501, 42 obras de Debret e Rugendas. Pouco antes, também em São Paulo, levam 30 íitens históricos e artísticos, incluindo manuscritos de d. Pedro I, do Instituto Histórico e Geográfico.

Em outubro, os ladrões da Mário de Andrade são descobertos, mas a alegria dura pouco. Outros aparecem e saqueiam o acervo de arte sacra do Embú.

E no entanto.

Janeiro, mês de fazer promessas. A Prefeitura do Rio promete um Centro de Referência da Música Carioca, a Biblioteca Popular Carlos Drummond de Andrade, o Museu do Desenvolvimento Urbano, entre outros. Promete também o Centro de Arquitetura e Urbanismo no antigo Cassino da Urca. Esse parece que vai em frente. Será um centro de arquitetura e design…. com profissionais italianos!!!!

E la nave va.

Ou: fuma aqui, toma um chá, fuma aqui, toma um chá.

“Sempre haverá um reduto para os esnobes se expressarem”, diz Caetano Veloso, ao versar sobre sua repetida tese de que, aos olhos da cultura dos anos sessenta, roqueiro ser arrogante é paradoxo. Caetano argumenta que o Rock, assim como surgiu nos grandes centros culturais brasileiros na década de sessenta, era “lixo cultural”. Entenda-se, não que Caetano necessariamente assim considerasse o som das pedras rolantes, mas que sobre este, sem dúvida, não pairava a mais fina camada de legitimidade social geral na época.

Não era odiado, mas entre entendedores e amantes da música, popular ou erudita, e no senso comum geral, o estilo americano era digno do mais risível desprezo, atitude compulsória de quem postulasse uma intelectualidade, ou mera maturidade, superior a de um garoto de 14 ou 15 anos de idade. O objeto dessa curiosa análise é o fato de, nos dias de hoje, roqueiros – principalmente os roqueiros – outorgarem ao seu gênero, o rock, da maneira como foi cunhado e lapidado pelos grandes mestres do rock ‘n roll do século XX, o selo da pureza musical. Ou mais “grave” o fato de considerarem-se, uns aos outros, os donos-da-verdade, do bom gosto, quando se fala de música e, principalmente, de tudo que se relaciona ao Rock. Destróem com seus pseudo-ácidos comentários movimentos artísticos inteiros ou estilos seculares sem sequer pestanejar. Em razão de recentes lançamentos em sua discografia (Cê, 2006.A Foreign Sound, 2004.) contendo faixas com muitos elementos de rock, incluindo títulos consagrados do gênero roqueiro como “Come As You Are”, do Nirvana, Caetano argumenta que não se pode esperar maior reação, indignação mesmo, às ousadias e às liberdades tomadas do que as que vêm do “pessoal do rock”. Em síntese, o que Caetano assinala é o fato de um gênero outrora digno do mais legítimo descrédito constar hoje na topo da lista das “tribos” – conceito complicado – de maior teor crítico e/ou purista, distribuindo “isto vale” e “isto não vale” por toda parte na cena musical de hoje, de ontem e de sempre. A dizer pela frase que inicia este artigo, essa postura esnobe é antiga, e é apenas curioso, e paradoxal ao olhar de uma época, que esteja operando hoje, principalmente, no reduto do rock ‘n roll. Mas não apenas.

Em tempo vale dizer que esta análise atual, oportuna e original, tende a um reducionismo perigoso, afinal quem são os roqueiros ou o que é o rock hoje? Do mesmo modo podemos perguntar, quem é o público de música erudita hoje? Se os esnobes e arrogantes encontram um espaço agradável no rock, isso é porque não conhecem o mundo da música erudita. Se uma releitura muito ousada de um clássico do rock coloca o intérprete numa posição de ataques e de críticas do “pessoal do rock”, na música erudita um detalhe dos mais frágeis, dos mais imperceptíveis, coloca o artista numa arena. Não estou falando de atravessadas monumentais, de “bumbadas” na pausa, como se diz. Um vacilo de pedal, um dedo milimetricamente descolocado em uma corda, uma entrada invisivelmente insegura de um naipe para profissionais sérios e dedicados serem sumariamente atirados à fogueira. E os inquisitores, em geral, são os mesmos que no dia seguinte aplaudem as mais “belas” atrocidades da música, só por terem nome e sobrenome no palco do municipal. A comida dos leões e as brasas das fogueiras são, via de regra, belos, competentes e desconhecidos profissionais, tentando viver honestamente da boa arte que fazem. O principal instrumento deste tipo de público é o “dois pesos duas medidas”, conceito que leva, em geral, no embalo da obviedade. Um leve esbarrar de teclas numa interessante e competente (às vezes brilhante) execução de uma sonata e logo dizem para as poltronas à sua volta: “É… Liszt não é pra qualquer um!”. Uma barbaridade sendo executada e: “Ahh… que beleza, fulano é fulano!”.

Claro que abordagens sociológicas ou psicológicas dariam belos ensaios. Este também não é um texto contra a arrogância, é apenas um ponto de vista a ela no cenário do público de música. Afinal, de certo modo, afirmam alguns, podemos visualizar a história intelectual do ocidente como uma história da arrogância, com cada filosofia declarando possuir a verdade, colocando as outras, às vezes, quase em posição de ridículo. Essa postura esnobe não está ligada ao nível de “iniciação” que se tenha neste ou naquele gênero e é democrática como poucas coisas. Podemos olhar para aquele público de música clássica não contabilizado por não ser um espectador “qualificado”, tradicional. A pessoa que vai às salas de concerto, compra CDs, baixa mp3 (principalmente) sem saber direito o que é uma sonata, se Liszt foi contemporâneo de Chopin, quem é Horowitz ou Shlomo Mintz. Não especialistas, de muito bom gosto. Ora, neste quadro, estes apreciadores de arte são muito próximos, extremamente ligados, aos melômanos, aficcionados, especialistas em música que, ao contrário de muitos de seus pares, dispensam a arrogância gratuita e preferem deixá-la para momentos mais selecionados e para audiências mais apropriadas. Olhar o publico dividido por sua postura diante da música, da arte, não pelo grau de “iniciação” ou conhecimento na e da mesma. Será que poderíamos fazer o mesmo com os críticos de arte? “Sempre haverá um reduto para os esnobes se expressarem

Tinha tudo para ser aquela velha dialética chata do nós e eles, negros e brancos, colonizados e colonizadores. Afinal, é uma exposição de curadoria portuguesa para artistas das ex-colônias portuguesas africanas e para artistas brasileiros de ascendência africana. E pior, chama-se Réplica e Rebeldia. Quer dizer, duas opções: ou você copia e se anula ou você se rebela, sendo que rebeldia bem sucedida muda de nome e de idade, deixa de ser alguma coisa adolescente e sem resultado prático e passa a se chamar, por exemplo, revolução.

É só depois de um tempo que se atenta para o detalhe que entre as réplicas e as rebeldias há um “e” e não um “ou”.

E isso é tudo. Pois as obras conseguem ser uma coisa e outra, ali, na invenção de uma continuidade sempre tão problemática quando se é o Outro até de si mesmo. Como ser africano na contemporaneidade?

A resposta é dada, por exemplo, pela sobrevivência de materiais moles ou técnicas manuais lado a lado com manipulação digital e aço, em desenhos, fotos, colagens, objetos de corda, instalações de pano, vime e vídeo. Nisso, conseguem exorcisar um outro fantasma. É que o Outro do imaginário ocidental sempre foi o lugar seguro para a fantasia do sexo, ahn, selvagem. A mulher longínqua mantendo o moralismo doméstico. Ao incorporar técnicas identificadas como femininas, hesitantes ou frágeis – embasados, é certo, pela tradição que os conflitua – esses artistas apontam e destróem mais essa dualidade.

O Outro das artes visuais é, a depender da época, ou totalmente sedutor – como no modernismo do século XX – ou totalmente aterrorizante – como no incipiente século XXI, onde chega a ter sua existência negada no sonho/pesadelo da globalização.

O que esses artistas dizem é que o Outro existe e faz parte do Eu.

Viteix - Réplica e Rebeldia @ MAM Victor Sousa - Réplica e Rebeldia @ MAM Tomás Cumbana - Réplica e Rebeldia @ MAM Sidney Amaral - Réplica e Rebeldia @ MAM Rosana Paulino - Réplica e Rebeldia @ MAM Rondaldo Rego - Réplica e Rebeldia @ MAM Rondaldo Rego - Réplica e Rebeldia @ MAM Maurino Araújo - Réplica e Rebeldia @ MAM Hilário Gemuce - Réplica e Rebeldia @ MAM Fernando Alvin - Réplica e Rebeldia @ MAM Fábio Domingues - Réplica e Rebeldia @ MAM Celestino Mudaulane - Réplica e Rebeldia @ MAM António Ole - Réplica e Rebeldia @ MAM

É a margem africana no desenho surrealista de Viteix; as manchas (corpos negros quase invisíveis) das colagens de António Ole, ambos de Angola. Mulher no banheiro do moçambicano Victor Sousa é uma instalação onde aparecem a lingerie preta e o pano tribal lado a lado. Vidas em Maputo é um desenho de Celestino Mudaulane feito em pilô, um material industrial, mas representando cordas velhas. A mulher digital azul do carioca Fabio Domingues é azul só na aparência, você não tem dúvida de que é uma negra.

Nas fotos, Tomás Cumbana traz um negro rindo; Bauer Sá (da Bahia) chamou de Xangô eyes, em inglês, seu retrato de um negro com máscara de Xangô e Luís Basto fotografou um negro de mau-humor e óculos fashion. É de Hilário Gemuce a instalação Deixa andar onde manequins sem cabeça se misturam aos visitantes e a um vídeo de negros que caminham por uma rua africana.

A exposição traz as figuras já conhecidas do mineiro Maurino em sua mistura de curvas barrocas e feições africanas; e as peças em madeira hamenageando dividindades iorubas de Ronaldo Rego.

E o angolano Fernando Alvim, com sua pintura de grandes dimensões Cultural wireless, poderia dar o subtítulo da exposição. A ligação aqui não precisa de cabo, é pelo ar que se respira.

Gauguin, em uma época mais inocente, conseguiu descobrir em si a sexualidade/vitalidade que o machismo/colonialismo de sua época imputava aos taitianos. Com isso, tornou-se não mais um Eu europeu ou um Outro exótico, mas ambos, e gênio. Exatamente na mesma época, Sir Henry Stanley dizia, em seu cáqui impecável, a frase famosa: Dr. Livingston, I presume? – e dizia isso porque dar um grito de alegria e sair correndo o faria mais parecido com os selvagens do que ele poderia suportar.

Os artistas e o curador Antônio Pinto Ribeiro (com o mineiro Antônio Sérgio Moreira e o moçambicano Hilário Gemuce), que bom, estão mais para Gauguin do que para Stanley.

A ficção, o terror e a fantasia são gêneros que ainda engatinham no Brasil. Há pouca aposta das editoras e a qualidade do material publicado é baixa, seja qual for a relação de causa e conseqüência. Por isso, o lançamento de A mão que cria deve ser comemorado pelos fãs de ficção nacional.

A Mão que Cria

No livro, Octavio Aragão aposta na ficção alternativa, uma espécie de universo paralelo com a história similar à nossa, mas com pesos e influências diferentes dos acontecimentos. Na realidade proposta pelo escritor, Julio Verne é eleito presidente da França em 1886, logo após a morte de Napoleão III, e promove uma grande corrida tecnológica. Outro detalhe importante é a existência da Fundação Moreau, que busca o aperfeiçoamento de espécies animais e acaba influenciando as experiências genéticas vindouras. Seus seguidores levam os experimentos à frente e em 1916 surge o primeiro projeto bem-sucedido da Fundação, o híbrido homem-golfinho – não só um soldado melhorado, como um excelente trabalhador.

Enquanto isso, um asteróide cai na Sibéria e todas as equipes que vão pesquisá-lo desaparecem. Os segredos em torno desse evento influenciarão de forma decisiva os confrontos da Segunda Guerra Mundial. Qual será a estratégia de Hitler para combater os homens híbridos franceses? Como ele usará o asteróide?

“Valentim Pavlov era o responsável pelas armas e pela organização tática da expedição. O professor Webb, receoso de que sua equipe sofresse o mesmo fim da anterior, ordenou retirada imediata, apesar do arsenal que traziam: doze rifles de repetição winchester, vinte e quatro pistolas e revólveres de vários calibres e até uma nova versão portátil da metralhadora francesa marseilleuse, cuja concepção original era do próprio Julio Verne.”

Octavio Aragão é um escritor seguro. Ele aposta no que está criando e não perde tempo tentando se justificar. É importante haver a lógica que sustente o universo fictício, mas tendo isso estruturado, devemos embarcar na viagem sem olhar para trás, e Octavio sabe disso. A prova concreta é o tempo que voa enquanto acompanhamos o duelo entre Ariano e Lours no presente, e um flashes do passado. No início, as referências podem confundir um pouco o leitor menos acostumado, mas ao se compreender a brincadeira com nomes e fatos reais e a elaborada pesquisa necessária, as citações se tornam qualidades, pontos marcadores da linha do tempo.

“Ao término da Segunda Guerra Mundial, os anfíbios eram um problema em potencial. Mais longevos que os homens comuns, capazes de sobreviver submersos por muito tempo, o maior motivo que os havia atraído à Fundação Moreau era a possibilidade de fugirem da miséria (…) O contingente de híbridos e humanos desempregados na Europa tornou-se uma ameaça à estabilidade social”.

Toda ficção que se preze é um espelho do real. Só é permitido voar, ter a cabeça nas estrelas, quando os pés continuam no chão. Ciente disso, Octavio Aragão tece em A mão que cria críticas à nossa sociedade, alfineta preconceitos, aborda a cegueira religiosa, a falência do modelo capitalista e armamentista e os sentimentos que realmente movem o homem na sua ambição.

Octavio Aragão também é o criador de um dos universos mais ricos da ficção científica mundial, o Intempol.

O curta Curupira leva o espectador para uma fazenda, onde homens impiedosos estão caçando além da conta. Para defender a natureza, os diretores Fábio Mendonça e Guilherme Ramalho convocam a figura folclórica do Curupira, que ganha vida com a animação 3D de Guilherme Alvernaz. Distante da imagem do matreiro enganador, a criatura lembra um elemental da natureza, sem falas, é só uma força primordial e se aproxima mais do instinto do que da razão (teoricamente domínio do homem). O curta lida bem com a questão do imaginário, explorado na figura de uma criança. Apesar disso, o clima predominante é o do terror, um passo acima do conteúdo infantil.

Curupira

Na parte técnica, Curupira possui diversos méritos: o som mantém constante o clima angustiante, sem exageros e sem esvaziar a dramaticidade, e a iluminação e a fotografia são precisas, colaborando muito para o suspense e o lado soturno. Para o duelo final, a casa foi transformada num verdadeiro labirinto. Usando ângulos claustrofóbicos, os diretores preparam a chegada do Curupira (e a revelação de sua imagem), momento em que o papel de caça e caçador se inverte para a vingança da criatura dos cabelos de fogo.

Historietas assombradas (para crianças mal-criadas) é o curta premiado de Victor Hugo Borges, uma mistura de animação stop-motion e 3D. Nele, acompanhamos uma menina mimada que só dorme com as histórias de terror de sua avó.

Historietas assombradas (para crianças mal-criadas)

A primeira história bebe na fonte do Boitatá, e mostra o duelo de porquinhos com a criatura que rouba a água de um rio. A segunda, ligeiramente mais cruel, fala de um menino que de tão mau se torna um zumbi, pois seu coração resolve abandoná-lo e ir embora, e conta com a excelente frase “mãe é mãe, mesmo com o filho morto-vivo”. Para encerrar, assistimos a história do Jurupari, “um caboclo deformado que daria medo até nos duendes mais feios”, o duelo final entre a vovó e a neta insone.

Historietas assombradas (para crianças mal-criadas)

O roteiro é bem estruturado e enxuto, e a dublagem é excelente. O tom infantil implicante de Isabela Guasco ficou perfeito na netinha, e as entonações de Myrian Muniz criam uma vovó de arrepiar qualquer marmanjo. Uma lufada bem-vinda na animação brasileira.

“Eu sou o solitário e nunca minto
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto”
– Sophia Breyner em Catilina.

As cortinas vermelhas se abrem e a mini-orquestra anuncia Maria Bethânia. A cantora surge como um orixá entre os mortais, revestida de força juvenil. Iansã personificada, Bethânia é humilde perante a música e expressa uma alegria incontestável. Basta estar, mesmo calada, para contagiar o público ainda se ajeitando nas cadeiras do VivoRio.

Maria Bethânia

O palco é bem projetado, com pontes, caixas e um painel de nuvens carregadas que casa perfeitamente com a voz trovejante da cantora e o tema das águas. O repertório do show Dentro do mar tem rio é baseado nos dois cds que a intérprete lançou esse ano: Mar de Sophia e Pirata. O primeiro é inspirado na obra de Sophia Breyner, o segundo lembra um tratado de memórias sobre as águas. O show é dividido em duas partes. Entre uma troca de roupa e outra, o público se deleita com a orquestra, que não deixa a música parar. As poesias que Bethânia recita integradas às músicas são uma emoção especial. Não é todo dia que belas melodias tocam (e mesmo se roçam) na poesia de Álvaro de Campos e Fernando Pessoa. No bis, quando a Iemanjá prateada se despede com um pot-pourri de marchas de carnaval, a vontade é sentar e começar tudo de novo.

Maria Bethânia

“Navegar é preciso, viver não é preciso”
– Fernando Pessoa.

Guy Veloso de site novo, com youtube e vernissage dia 06 de dezembro de 2006 no Museu de Arte Sacra de Belém.

Guy Veloso

A exposição fica em Belém até o dia 14 de janeiro de 2007.

“Há quem tome o cinema como lugar de revelação, de acesso a uma verdade por outros meios inatingível. Há quem assuma tal poder revelador como uma simulação de acesso à verdade, engano que não resulta de acidente, mas de uma estratégia”. – Ismail Xavier – Cinema: Revelação e Engano.

De onde veio?
O neo-realismo ficou conhecido como o apogeu do cinema italiano. O movimento cinematográfico que marcou a história da arte nasceu na Itália que ainda ardia em chamas e estava enterrada nos próprios escombros.

O cinema italiano, antes conhecido por melodramas, divas glamorosas dos anos vinte e por produções de temática bíblica, foi transformado por este cinema clandestino, criado por cineastas e críticos no fim da era fascista.

Da visão de Roberto Rossellini em seu Roma, Cidade Aberta de 1945 surgiu o cinema tratante da situação social rural e urbana do pós-guerra. A linguagem adotada era simples, evitava-se rebuscamentos e havia a preocupação de se captar o cotidiano dos proletariados, camponeses e da pequena classe média, diante do país que precisaria se reconstruir física, financeira e politicamente. O material produzido para o filme se confunde com imagens clandestinas registradas durante a “ocupação” nazi-fascista.

No ano seguinte, Paisà, também de Rossellini, explorou o contato entre o povo italiano e o americano, em uma apologia a liberdade. Outro marco é o filme Ladrões de Bicicleta, 1948, de Vittorio de Sica, que reforça o caráter da utilização de atores não-profissionais e histórias ligadas à realidade.

Uma frase de Cesare Zavattini resume bem este espírito: “Quis que meus filmes fossem os mais elementares, os mais simples, a bem dizer os mais triviais possíveis. O ideal seria criar um espetáculo cinematográfico com noventa minutos da vida de um homem a quem nada aconteceu”.

É fundamental ressaltar que na pobreza em que a Itália vivia só seria possível realizar um filme com recursos mínimos. Assim, os estúdios foram trocados pelas ruas e ambientes naturais, e os equipamentos caros do cinema ficção foram abandonados. Uma decisão sábia motivada pela necessidade ou por ideais?

Se falar que o neo-realismo surgiu da luta contra o fascismo e o horror do nazismo parece mais fílmico do que real, vale lembrar que o cineasta Visconti fazia enfrentamento armado junto aos rebeldes, sendo preso e quase morto.

Ossessione, de 1942, foi implacavelmente perseguido pelas autoridades, sendo censurado e praticamente destruído, a ponto de no final da guerra não haver mais cópias do filme.

A expressão “neo-realismo” foi criada por Umberto Bárbaro em 1943, referindo-se as obras de Maciel Carné, consagrado naturalista, o que demonstra a existência de um movimento pré-neo-realista no cinema italiano, já interessado pelo social, em mostrar os contrastes entre a aristocracia e o povo e expor as mazelas e frutos da corrupção.

O filme 1860 (Alessandro Blasetti), por exemplo, já utilizava atores não profissionais. Para alguns, entretanto, o termo neo-realismo surgiu em 1942 para definir Obsessão, o filme de Luchino Visconti (1906-1976), considerado a obra inaugural do gênero.

A princípio o neo-realismo teve dificuldades de entrar no mercado e conquistar espaço. A repercussão junto ao grande público não foi a esperada para filmes que tratavam da realidade, mas grande parte da culpa recai sobre os exibidores, que preferiram mostrar os filmes americanos censurados durante a guerra, lucro certo.

Apenas com a divulgação dos ideais que cercavam o movimento, o neo-realismo ganhou força, atingindo desde zonas industriais até países em desenvolvimento, como o Brasil.

O Brasil neo-realista.
O “menor” no cinema brasileiro.

Por aqui, cerca de dez anos depois, vimos filmes como Rio, 40 graus (1955), Rio – Zona Norte (1955) e Vidas Secas (1963) do brasileiro Nelson Pereira dos Santos, fortemente influenciados pelo neo-realismo.

É necessário parar um instante em Rio, 40 graus, pois os temas tratados no filme e seu surgimento estão ligados aos filmes analisados posteriormente.

Cena do filme
cena do filme Rio, 40 graus

Segundo Glauber Rocha, o filme “revelava o povo ao povo. Sua intenção, vinda de baixo para cima, era revolucionária. Suas idéias eram claras, sua linguagem simples, seu ritmo introduzia o complexo de grande metrópole, a câmera narra e expõe com ardor os dramas, as misérias e as contradições da grande cidade: o autor estava definido na mis-en-scene”.

Citando Roberto Pires: ‘O neo-realismo foi decisivo para a alma de Rio, 40 graus, um marco no cinema brasileiro, por ser o primeiro a retratar verdadeira e criticamente o tema da pobreza na nossa sociedade. Jean-Claude Bernardet comenta que Nelson lançou com Rio, 40 graus “o tema da criança favelada no cinema brasileiro: os engraxates favelados, ora tristes, ora alegres, eram o verdadeiro centro dessa sociedade múltipla retratada pelo filme, bem como sua vítima indefesa”. O esquema de produção não fugiu da regra neo-realista: fora dos grandes estúdios, o baixo orçamento não impediu que este filme fosse artístico e socialmente ambicioso’.

Parece natural que o movimento viesse a influenciar um país que possui cineastas com preocupações sociais. Traços do neo-realismo que mostra a miséria e a ilusão da esperança podem ser vistos em A Hora da Estrela, que conseguiu obter expressiva bilheteria e sucesso internacional.

cartaz de A Hora da Estrela, 1985

Teríamos visto no aflorar do modelo neo-realista italiano um modo de repudiar o cinema hollywoodiano e enterrar de vez as tentativas de imitá-lo?

Para formar um elo entre o neo-realismo italiano e o cinema contemporâneo brasileiro bastam dois exemplos – Pixote (1980) e Cidade de Deus (2000), e um breve resumo das principais características das produções italianas que poderiam ser aplicadas a eles.

  1. Locais autênticos
  2. Retratação da vida natural de seus moradores
  3. Atores não-profissionais
  4. Olhar especial para o cotidiano
  5. Subdesenvolvimento e desemprego
  6. Delinqüência nas cidades e problemas sociais no campo.
  7. Problemas comuns, como o abandono na velhice

Em outras palavras, o compromisso com a verdade e a realidade.

Sabemos que o movimento brasileiro não pode ser filiado a apenas uma tendência neo-realista. Isso se define muito bem ao analisarmos a originalidade das obras, a retomada do diálogo com a linguagem nacional e a discussão sobre a cultura popular.

A novidade não tão nova.
Um mergulho em “Pixote: a lei do mais fraco”.

“A infância abandonada está crescendo e continua a viver em profunda pobreza, transformando-se na sementeira da delinqüência, da prostituição e do crime”. – Alcindo Guanabara, jornalista, 1917.

O filme Pixote: a lei do mais fraco traz como protagonista uma criança da periferia de São Paulo, acostumada com a vida miserável do bairro. Na versão em vídeo, vemos um documentário em que esse fato, juntamente com o vocábulo criança, é ressaltado diversas vezes, talvez no intuito de distanciar o termo “criança” do termo “menor”, deixando claras as intenções do filme. O “menor” é fruto da mídia, de uma leitura da realidade. A “criança” é fruto da realidade e da sociedade que a moldou.

cartaz de Pixote: A Lei do Mais Fraco, 1981

Este documentário termina mostrando uma mãe e nove filhos na porta de um barraco. Uma destas crianças é Fernando Ramos da Silva, o ator que interpreta Pixote. Se este documentário não houvesse sido sabiamente produzido com um tom jornalístico, talvez não notássemos a diferença entre ele, a realidade, e o filme, ficção, que se segue.

Essa fronteira tênue entre ficção e realidade tornou-se ainda mais famosa (e curiosa) por Fernando ter seguido a suposta trajetória de seu personagem (imaginada com as últimas cenas do filme) e morrido, dez anos após as filmagens, em um tiroteio com a polícia.

Pixote foi baseado no livro de José Louzeiro A infância dos mortos. O livro em si foi baseado em um fato real, o caso Camanducaia, no qual cento e dois menores foram espancados e atirados de um desfiladeiro pela polícia de São Paulo.

Problemas envolvendo menores infratores não eram novidade em 1980, ao contrário, eram temas utilizados por políticos e jornalistas à exaustão. A sociedade se alarmava com o aumento da delinqüência entre crianças e adolescentes, reivindicando medidas severas de repressão. Hoje, com o assassinato de dois jovens por um menor de dezessete anos, vemos a sociedade pedindo que a maioridade penal passe para os dezesseis anos. Um tema atual vem nos mostrar que a realidade que conseguiu ganhar as telas de cinema ainda está presente.

As medidas repressivas vieram com mudanças na lei. Antes apenas menores acima de quatorze anos eram considerados responsáveis pelos seus atos criminosos. O código republicano passou esta idade para nove anos. Esta mudança aconteceu em 1890, quando surgiu o termo “menor”. Tais medidas vieram com a política de ressocialização e de recuperação de menores, representada hoje pela Funabem.

Se o problema não era novo por que a comoção e polêmica com o filme?

O filme chegou as telas em 1980, os anos da abertura. Passados vinte anos de censura, a sociedade redescobria a liberdade de imprensa (o AI-5 foi revogado em 31 de dezembro de 1978).

Pixote não sensibilizou por mostrar novidades, mas por dar visão e voz a um povo que havia passado os últimos vinte anos amordaçado. Pixote mostrou a violência contra menores, pobres, negros, homossexuais, toda espécie de excluído. A escolha do tema poderia ser relacionada à proposta neo-realista num forte diálogo. O menor abandonado foi visto de frente, chamando o espectador a testemunhar a vida a partir de sua ótica, como havia feito Nelson Pereira em Rio 40º, revelando uma complexidade da condição do infrator, antes relegada a representação de arquétipos.

Pixote é uma ficção-verdade, diz o historiador André Luiz Vieira dos Campos. Não seria o neo-realismo uma ficção verdade também?

Se não havia o fascismo para gerar protestos e resistência, havia o comportamento de delegados, policiais e juízes. Fernando Ramos não só não era ator como interpreta um papel de sua própria realidade (vide a futura tragédia). Os outros personagens do filme são mesclas de atores e não-atores, estes últimos relacionados aos menores. Os cenários são as ruas, favelas e a casa de detenção. O que é mostrado é a realidade do descaso, da violência do ser humano e da falta de perspectiva e de horizontes (não é este o sentimento que temos no final de Ladrões de Bicicleta?).

A estética é primorosa como nos diversos filmes neo-realistas e naqueles influenciados pelo gênero, mostrando que a simplicidade não impede uma obra de se tornar grandiosa.
– O filme termina com Pixote andando, equilibrando-se sobre os trilhos de uma estrada de ferro até sumir no horizonte. –

Tudo de novo e ao contrário.
Onde chegamos com Cidade de Deus?

“O neo-realismo foi a descoberta de que afinal nada é mais perigoso do que a estética”. – Roberto Rossellini.

“Toda leitura de imagem é produção de um ponto de vista: o do sujeito observador, não o da “objetividade” da imagem. Portanto, o processo de simulação não é o da imagem em si, mas o da sua relação com o sujeito”. – Ismail Xavier.

Cidade de Deus veio na nova safra do cinema nacional sacudir o público e dividir opiniões. O filme mostra a vida de bandidos da cidade de deus, fala de como as pessoas acabam se envolvendo com o tráfico, como este leva aos conflitos, como se relaciona com a polícia, o que causa na comunidade. Será?

cena de Cidade de Deus, 2002
cena do filme Cidade de Deus

Os roteiristas do filme criam um personagem que é menino de comunidade. Ele é um dos poucos inocentes que quer levar uma vida honesta. Na narrativa, ele é fotógrafo, para levar o espectador a acreditar que está vendo a história do ponto de vista da comunidade e não por olhos externos que fabricam leituras filtradas e remodeladas. É irônico que este personagem almeje fazer parte da mídia e “escapar” do futuro que persegue os jovens ao seu redor.

Enquanto Pixote misturava membros das favelas e comunidades com atores consagrados, Cidade de Deus pega atores desconhecidos para lançar ao estrelato. Por que renunciar ao termo não-atores? Porque antes das filmagens começarem foi feito um extenso laboratório com os jovens escolhidos para a produção.

O filme também foge da narrativa simples e usa o ritmo de videoclipe, com idas e vindas temporais para contar a história. O equipamento e a produção por trás do filme estão muito distantes dos filmes nascidos do cinema marginal.

Cidade de Deus conseguiu ser um híbrido exótico de propostas antagônicas: Mostrou que a violência urbana, mesmo não sendo uma novidade, tem enorme potencial cinematográfico. Tentou retratar uma suposta realidade não-revelada, criando uma obra digna das páginas de jornal e noticiários da tevê que vemos todos os dias em nossas casas. Buscou usar pessoas envolvidas com a realidade a ser apresentada (o neo-realismo considerava esta uma forma de criar reações autênticas por parte dos atores) e moldou os atores com oficinas artísticas até que se enquadrassem no perfil requisitado. Expôs as entranhas da violência sendo ao mesmo tempo um filme limpo, dégradé de tons de pele. A realidade maquiada.

Um dos momentos mais instigantes é a seqüência em que Zé Pequeno manda um jovem atirar em duas crianças (ou menores?). Aqui há uma semelhança narrativa com o neo-realismo, relacionado ao respeito pela verdadeira duração dos eventos (o plano seqüência).

Acompanhamos o grupo chegando, encontrando as crianças, as brincadeiras, os deboches, a demora da escolha, as ameaças, os tiros, a dor, o choro. Como relacionar esta seqüência com o restante do filme e sua velocidade (supostamente) de tirar o fôlego?

Sobreviveu? Considerações Finais

O neo-realismo não veio como uma imposição de modelo, mas como uma opção. Foi sábia a decisão de fugir da mera cópia e adaptar a linguagem, enriquecendo nossas produções. Toda vez que o cinema brasileiro decide pelo copy & paste do modelo americano, o que se vê são produções de pouca qualidade, independentemente do público pagante.

As idéias neo-realistas foram transformadas por ideais e cotidianos, resultando em filmes marcantes adequados à proposta brasileira de cinema. Isso mostra que o neo-realismo é capaz de se adaptar sem perder a essência.

Como o nosso cinema tem explorado a miséria do barro e da fumaça, fica a dúvida se Vidas Secas ainda dará frutos no século XXI, como deram seus primos urbanos. Por enquanto, a cidade está ganhando o duelo.

Bibliografia:

  • Xavier, Ismail. O Olhar – Cinema: Revelação e Engano
  • Cinemais No 34 – Neo-Realismo na América Latina.
  • Revisão Crítica do Cinema Brasileiro.
  • Bernardet, Jean-Claude. O que é Cinema. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980.
  • Pires, Roberto: A influencia do Neo-realismo no cinema brasileiro.
  • Moreira, Ivan. Neo-realismo – O apogeu do Cinema Italiano.
  • Ferreira, Jorge e Soares, Mariza de Carvalho. A História vai ao cinema.

Na literatura e no cinema, geralmente, crianças param onde não devem por causa da curiosidade. No caso de Coraline não é diferente. Com essa solução narrativa, o escritor Neil Gaiman foi bem tradicional. A diferença está no fato de que Coraline não é um mero detonador da ação, ela é a personagem principal que move a história e é plenamente capaz de resolvê-la.

Coraline e a família se mudam para uma nova casa em um edifício. Logo a jovem descobre que antigamente tudo era uma casa só, e que para poder ser separada em apartamentos, uma das portas foi obstruída com tijolos e cimento. Essa porta misteriosa fica na sala em que a família de Coraline guarda pertences herdados, por isso não deve ser freqüentada. Ponto para Gaiman. Com essa brincadeira ele cria a aura do proibido e da violação, e por conseqüência uma fronteira, antes mesmo de revelar o que há do outro lado. A fronteira é uma idéia a se preservar.

A curiosidade, o faro para a aventura e a indução por seres assombrosos levam Coraline a abrir a porta quando os pais não estão em casa e descobrir que a parede de tijolos deu lugar a um corredor de sombras.

Depois de atravessá-la, Coraline encontra um lugar igual ao que mora, encontra sua casa. Lá há o mesmo quintal, a os mesmos vizinhos, há mesma mobília e sua mãe e seu pai, a princípio. Um pai e uma mãe iguais aos seus, exceto por terem olhos de botões negros. Gaiman os batiza de outra mãe e outro pai.

Coraline de Gaiman

Nesse mundo, Coraline pode ter o que quiser, comer o que quiser, dormir quando quiser. É ela quem manda, não há regras, e esse “sonho de toda criança” a leva a suspeitar de que há algo errado no ar.

A menina não é ingênua. Sabe que esse mundo estranho não pode ser real, pois um lugar onde se pode tudo não tem graça.

E aqui começam as explicações.

Repare nos olhos de botões dos outros pais. A primeira imagem que vem em mente é a de roupas, talvez bolsas, mas ambos carcaças vazias. A roupa sem vestir alguém não tem vida, a bolsa não tem função quando está vazia. Essa idéia de vazio, de falta de essência é exatamente a que Gaiman quer passar. A outra mãe é um ser vazio que precisa de Coraline para estar viva. E por que Coraline e não qualquer outro personagem, mesmo o pai e a mãe verdadeiros de Coraline? Porque senão não haveria livro, na prática e na metáfora em que vamos chegar.

Fugindo do livro, vale perceber que todo escritor quer criar um personagem com alguma essência, quer torná-lo real com conteúdo e sentimentos. Ele não pode ser apenas um ser de letras, deve estar vivo. É essa busca, esse processo de criação que está explícito no livro. Um personagem que precisa se formar e se tornar real.

Bem, e qual é a única pessoa capaz de mover uma história, encarar o desafio e chegar ao final do livro? O seu criador, o escritor. E não é esse o papel de Coraline? Mostrar a história para o leitor, criar o motivo, enfrentá-la e resolvê-la? Pois então, achamos Gaiman e a razão de a outra mãe precisar de Coraline, afinal para viver um personagem precisa do seu criador.

A outra mãe, mesmo vazia, não é um personagem qualquer. Ela almeja o poder do escritor. A outra mãe vive em um mundo equivalente ao criado por Gaiman. O raciocínio-chave no livro é que a outra mãe é incapaz de criar, mas pode copiar, por isso o mundo parecido. Mas o escritor tem uma carta na manga. Ele sabe que a evolução da narrativa em um livro depende de conflitos, e Coraline também, por isso renega a perfeição. Se o conflito avança a história, um mundo sem conflitos fica estagnado, exatamente como o mundo fantasmagórico é descrito, parado no tempo e espaço.

Quando Coraline começa a retornar ao mundo da outra-mãe e explorá-lo, seus pais somem. Visitando os jardins, ela descobre que o falso mundo é finito, que há um ponto onde acaba e há o nada, simplesmente. Esse elemento é perfeitamente compreensível, já que uma personagem vive em um espaço criado e nunca além daquilo. A outra mãe não sabe o que há além, Gaiman nunca a apresentou para mais do que está explicitado no livro de Coraline, e é só isso que ela pode usar. Veja que ela não está restrita ao apartamento de Coraline, ela conhece todo o edifício, os vizinhos e o quintal, o que fortalece a questão.

O escritor/Coraline a princípio não entende o nada. Para um escritor não há o vazio, já que ele pode preencher qualquer espaço. Estar diante de uma limitação o põe em cheque, preso a algo inconcebível. O escritor não pode viver sem a criatividade. E aqui, para ajudar Coraline a tomar a direção correta, surge o gato preto da história.

O gato pode enxergar os dois mundos, está lá e cá sem precisar passar pela porta e o corredor de sombras de Coraline (cada escritor tem o seu). Ele é usado por Constantine como portal para o inferno, em Fumaça e Espelhos defende uma casa do demônio e aqui repete suas artes e manhas.

Assumindo a consciência crítica, ele ajuda Coraline, mas debocha de seus raciocínios, ri quando ela percebe que ele sabe falar. Quando o escritor se pergunta: e agora? eu criei um pequeno universo limitado. Como posso solucionar a equação e levar o leitor ao fim da história? O lado criador e o lado crítico conversam para decidir como proceder. O lado crítico recoloca o criador nos trilhos, fora do nada, de volta ao mundo fictício para enfrentar sua história e sua personagem.

Não é de se estranhar também que Coraline consiga fugir do mundo da outra mãe com a ajuda do gato. Apenas a união das duas faces do escritor pode vencer a própria história.

No seu passeio pelo mundo da outra mãe, Coraline começa a ver que ele não é tão parecido com o mundo real. Conforme vai perdendo o duelo, a outra mãe passa a se parecer menos com a mãe de verdade, assemelha-se a um boneco de pano de olhos vidrados. O outro pai e os vizinhos se tornam amorfos e voltam para o casulo, porque dependiam de um mecanismo de criação falho, o da outra mãe.

Por desobediência (por não querer comer besouros), a outra mãe coloca Coraline de castigo dentro de um espelho. O mundo da outra mãe, como dito, é uma imagem do mundo real, mas com limites. Daí entendemos porque o espaço dentro do espelho também é. Seguindo a mesma regra, a sua imagem / seu interior é uma prisão. A outra mãe não entende o interior de um espelho, já que não carrega em si dimensão psicológica.

Dentro do espelho Coraline encontra três personagens. Os três eram crianças que depois de serem trancadas e esquecidas, desapareceram.

Além de lembrar que só o escritor pode chegar ao fim da história, essa cena mostra uma consciência interessante da outra mãe, o seu instinto de auto-preservação. A outra mãe sabe que uma personagem esquecida deixa de existir com o tempo. Quando não há o leitor para lhe dar a vida, ela desaparece. Por isso a urgência com Coraline.

Coraline duela então com a outra mãe e sai pelo universo espelhado, procurando a alma das três crianças. Essas almas – idéia que a outra mãe não compreende, já que é casca – são agora pequenos objetos, a essência virando o físico, mas desprovido de significado.

Coraline então encontra os pais, mas isso não tem importância na história. O que move Gaiman e Coraline é uma força maior, só entendida no plano metafórico. Quando a menina volta, porém, ainda resta o confronto final. Ao bater a porta do mundo falso com força, Coraline corta a mão da outra mãe e essa vem atrás dela.

Simbolismos e coincidências. Gaiman descreve a outra mãe como uma aranha, que tece a teia esperando que a vítima se embole cada vez mais. A mão que anda sozinha tem a forma de uma aranha, suas pernas e velocidade. Ótima imagem. Seria só isso?

Dentro do confronto escritor x personagem, criador e criatura, a mão ganha um significado maior. Afinal a mão é o instrumento de trabalho do escritor para tecer as tramas da história. Ao lançar a sua mão contra Coraline/Gaiman, a outra mãe está dando a cartada final, está chegando o mais próximo possível do escritor, do que ela entende por escrever.

A mão vem atrás da chave negra, a chave que abriu a porta que antes trancava tijolos e revelou um mundo de sombras, rompeu o limite entre o real e a ficção. A chave é a criatividade, o clique que permite o escritor entrar no seu mundo de imaginação.

O duelo agora é pessoal. A mão da personagem contra a mão do escritor. Coraline porém tem algumas outras armas. É ela quem tem o dom da imaginação. Ela consegue mais do que copiar, ela consegue criar, usar o ambiente ao seu favor. E tem o gato, o seu “eu” crítico junto de si. Assim, nossa heroína Coraline monta uma pequena armadilha sobre um poço velho, usando a chave negra/criatividade como isca. A mão aranha não pensa duas vezes e salta, caindo no poço.

Se é um poço sem fundo que leva Alice para o país das maravilhas, aqui o poço é a condenação. Coraline perdeu sua chave, mas ela não é mais necessária, sua história está pronta com um ponto final, o duelo personagem x criador foi vencido.

A instituição do Sistema Brasileiro de Museus através do decreto nº 5264, assinado em 2004, no Dia da Cultura, foi um marco decisivo na afirmação e consolidação da Política Nacional de Museus como política pública de cultura e um passo fundamental para a sua integração ao Sistema Nacional de Cultura.

A criação do Sistema Brasileiro de Museus, por intermédio do poder executivo, atendeu a demanda de profissionais que, atuando no campo museal, apontavam, há mais de duas décadas,  para a necessidade de se constituir uma rede pública com o objetivo de articular profissionais e instituições museológicas.

O projeto de criação do Sistema Brasileiro de Museus foi ampla e democraticamente debatido, a sua implantação caracterizou-se pela participação de diferentes setores da sociedade brasileira e o seu funcionamento aponta para a importância de alianças férteis e bem construídas entre o poder público e a sociedade civil.

O Sistema Brasileiro de Museus tem servido de estímulo e inspiração para  sistemas estaduais e municipais de museus e tem contribuído para a construção de uma política cultural inclusiva, democrática, participativa e plural. É dentro desse mesmo espírito e com grande alegria que lançamos o sítio eletrônico do Sistema Brasileiro de Museus. Oxalá! ele se afirme e se consolide como uma ferramenta importante para a troca e disseminação de informações, para a integração de profissionais e instituições, para o compartilhamento de experiências e para a valorização e o fortalecimento do campo museal.

Só quem mora em nações, hoje, são os pobres e os que herdam, sem intermediações institucionalizadas, culturas históricas. Os inseridos na economia globalizada, exerçam eles qualquer profissão incluindo aí os produtores de arte contemporânea, já desertaram há tempos e hoje não moram em lugar algum. Voam.

Oswaldo Guayasamín nasceu em 1919, morreu em 1999, é um modernista e sua arte se quer senão nacional (do Equador) pelo menos latino-americana.

Oswaldo Guayasamín

A exposição na Caixa Cultural Rio, em cartaz até janeiro de 2007, mostra pela primeira vez no Brasil o que ele pretendeu mostrar para seus conterrâneos e não-conterrâneos – e aqui ele não fazia distinção. O que ele pretendeu mostrar portanto para um receptor globalizado foram a herança católica do culto ao sofrimento, as máscaras estilizadas da herança indígena e as grandes dimensões da arte pública e política dos muralistas de todos os tempos e lugares. Um certo suspense romântico em retratos como o de Paco de Lucia; extravagâncias como na composição das Homenage a los mártires; dramas nas linhas, e no uso da cor, como os olhos – únicos pontos em azul, do seu Eichman; detalhes que acentuam uma rebeldia também romântica, como os dentes e genitálias feitas em negativo, um complemento e uma agressão ao resto das pinturas da série La Espera.

Oswaldo Guayasamín Oswaldo Guayasamín Oswaldo Guayasamín Oswaldo Guayasamín

Signos semióticos para a síntese da nação. Uma das possibilidades de síntese. Porque o paradoxo das sínteses é que você só consegue fazê-las se ressaltar detalhes que, por sua vez, só poderão ser ressaltados a partir de uma idéia prévia do que é esse todo que você pretende sintetizar. Ou seja, para você chegar a uma síntese, você já terá de ter chegado nela antes. O paradoxo vale para essa síntese que faço aqui e também para a que Guayasamín fez em relação a seu país ou continente.

Pode ser que não tenha sido sempre assim. Pode ser que tenha havido uma época em que não só a produção mas a recepção da arte se desse de outro jeito. Hoje, qualquer visita ao centro histórico de uma velha cidade européia e você fica com a sensação de que está na Disneylândia, que aquilo foi montado especialmente para que você soubesse como era, quando era.

Artes nacionais passam perto disso. Você duvida, data, se afasta. No entanto perduram. Discutem-se razões para fazer exposições apenas com artistas brasileiros. Feiras, exposições e bienais “homenageiam” países, como se isso fizesse algum sentido. Você fica então buscando/inventando pontos sempre frágeis de identidade.

Um pensamento ocorre, na vivência da diferença entre a exposição de Guayasamín e outras, de arte contemporânea. Em que medida a rejeição da transcendência e o uso do lúdico não surgiram como uma resposta ao fracasso da arte anterior em dar conta da tarefa a que se propõs: refletir a respeito de movimentos sociais em contraponto a um Estado investido de um poder ainda de certo modo divino; exaltar o valor da racionalidade, das verdades eternas, e de uma matemática presente mesmo quando, ou principalmente, era energicamente negada em expressionismos vários?

Os anos 1930 viram o auge da idéia de que a discussão ética (ética e não moral, discussão e não certezas), sempre presente na estética, era irmã gêmea da atividade política. Depois veio Bakhtin e a carnavalização. E depois veio hoje. E Guayasamín fica, como diz a apresentação do curador, com um valor histórico, um como era, quando era, se é que era.

Há dois filmes dentro de Um dia de verão (Un jour d’eté). O primeiro conta a história de Sebastien, por volta dos 18 anos, e seu relacionamento com o melhor amigo Mickael. Mickael é extremamente sexual e sensual, o que atrai Sebastien (Baptiste Bertin) de modos diferentes. Para o espectador os limites desse sentimento são claros, para Sebastien é algo ainda confuso, a ser explorado entre a admiração e o desejo. Essa confusão da descoberta da sexualidade fica mais evidente quando Mickael (Théo Frilet) marca com uma menina no meio da floresta e avisa o amigo por telefone. Quando Sebastien chega lá, flagra os dois transando, o que o deixa cheio de ciúmes e o faz se afastar de Mickael. Aqui acaba o primeiro filme. A solução do diretor Franck Guerin para levar a trama à frente sem encarar as respostas de Sebastien foi eliminar Mickael da jogada.

Um dia de Verão

Em um treino de futebol, Mickael, que é goleiro, morre quando a trave do gol cai em sua cabeça (calma, a sinopse do filme também conta essa parte). O segundo filme explora a busca de Sebastien para preencher esse espaço. A caminhada sexual envolve flertes com outro amigo de colégio, com a irmã de Mickael e até com a mãe do amigo. Em paralelo, acontece uma trama detetivesca desnecessária. A polícia investiga o dono do campo de futebol para descobrir se foi mesmo um acidente ou se a trave não seguia as normas de segurança.

A equivocada ruptura do roteiro pode ser encarada de diversas maneiras. Psicologias à parte, esse é o primeiro longa-metragem do diretor, acostumado a histórias menores, o que pode explicar a fragmentação.

Se com a estrutura ainda é necessário aprimorar a fórmula, com a dinâmica narrativa Guerin mostra um grande potencial. Sua direção é muito sensível e extrai o que há de mais belo de seus atores, desejos e locações. Baptiste e Théo, inclusive, merecem elogios pelas atuações legítimas que beiram o neo-realismo, possivelmente dois grandes atores da nova geração.

As instalações Acessos possíveis, montadas no Parque Lage em 25 e 26 de novembro de 2006, foram feitas pelos alunos de Iole de Freitas, professora da instituição, e resultaram em uma bem humorada revisitação do casarão do Jardim Botânico.

Alguns destaques:

Salto triplo, de Sonia Távora O Salto triplo de Sonia Távora brinca com a noção de cofre, lugar de guardar dinheiro, e prisão: o dinheiro também pode prender você. Em um jogo de espelhos, você se vê dentro do cofre, no subsolo.

Receita de memória, de Lídia Peychaux Lídia Peychaux põe retratos da infância na parede, como em qualquer casa burguesa. Mas ao repetir o formato do suporte das fotos em quadrados vazios, traz a formatação para a própria memória, como ela é montada e remontada por nós. O título, apropriadamente, é Receita de memória.

Desconstruindo Pollock, de Marilda Rezende Desconstruindo Pollock, de Marilda Rezende Marilda Rezende e o seu Uma das melhores e mais engraçadas é a Desconstruindo Pollock, onde Marilda Rezende substitui os famosos – e masculinos, decididos, gestuais – respingos de tinta por um emaranhado de femininos fios de lã. Obedecendo à mesma construção que dá ao expressionista americano a noção de profundidade em seus quadros, Rezende também faz o seu emaranhado em vários planos … e todos eles acabam entrando pelo ralo!

Plugando o sub, de Célia Cotrim Célia Cotrim consegue uma rara mudança de ambientação em sua Plugando o sub. Em uma das salas velhas, marcadas pela umidade, ela pôs quatro caixas de backlight com imagens de um fundo de piscina. No verão carioca, entrar na sala de teto alto, fresca, silenciosa e com as imagens de água, faz com que você de fato entre na instalação.

Cleone Augusto Cleone Augusto E no alto da escada de acesso, Cleone Augusto montou uma estreita passagem com chão de pó de carvão e paredes cavernosas. A entrada do casarão, em piso de mármore, dá para o pátio interno, aberto, luminoso e amplo. A falsa entrada é seu antônimo e Augusto quer que lembremos ser ele sempre possível.

(*) Comentário de Lidia Peychaux enviado por email em 29/11/06: Estou muito grata pelo teus comentários e a apresentação da obra no site. Não tenho tido a oportunidade de conversar com você, gostei muito do site, aproveito esta para acrescentar alguns dados sobre a obra: se trata de 5 projetos, um deles é a memórias das fotografias familiares cujo processo foi a queima de 7 fotos sendo a metáfora: apagar com fogo as memórias de ancestrais, o processo artístico consiste em fotografar as cinzas respeitando o formato das fotos que já no existem mais, como o resto das cinzas fiz uma tinta e com caneta também herança de familia, escribi em forma de declaração júridica descrevendo o conteúdo visual das mesmas, registrado posteriormente em cartório legitimando no circuito do sistema um fato artístico. Todo o trabalho completo: o vento da memoria, memoria das fotografias familiares, receita da memória, vídeo: memória e tempo, e memórias de Bayauca, um projeto de arte etnográfica denunciando 602 povoados em riesgo de desaparicão na Argentina, estão disponiveis num CD com breve texto explicativo.

Marilda Rezende: “Elvira Vigna, agradeço a atenção dada ao meu trabalho ‘Desconstruindo Pollock’ na EAV do Parque Lage. Abraços

Faça um esforço e esqueça filmes dispensáveis como Bandidas ou Sabor da Paixão. Agora pense em Penélope Cruz como uma atriz de filmes importantes. A lista passa por Belle epóque (vencedor do Oscar de filme estrangeiro e de 9 Goyas), a estranha comédia Sem notícias de Deus, com anjos e demônios politizados, e o aplaudido Abre los ojos, que gerou o remake sem gosto Vanilla Sky, também com participação da atriz. Com Almodovar ela participou de Carne trêmula e Tudo sobre minha mãe, retomando a parceria com uma belíssima atuação em Volver.

O filme segue à risca a fórmula consagrada pelo diretor: equilíbrio entre direção, roteiro e atuação, sem que um ofusque o outro. O primeiro passo é escolher um lugar comum, com o qual o espectador possa se identificar. Pode ser um teatro, um restaurante, um pátio de igreja ou um cemitério. Depois, discretamente, começa o distanciamento da realidade. A arma principal é a comédia. Na comédia, tudo é possível, as pessoas rolam por escadas ou despencam de uma janela sem se quebrar. Ela tem o poder de isolar a lógica que move um filme do ambiente exterior (o nosso cotidiano), tornando mais fácil assimilar as situações propostas. É assim que Almodovar lança mão do limite do absurdo e fica livre para abusar de outro artifício estrutural, o melodrama. Usualmente, o melodrama corre o risco de levar o filme para o ridículo ou de deixá-lo tão pesado que drene o espectador. Aliado a comédia, ele permite a manipulação do exagero, a extrapolação das emoções e uma visão mais real dos personagens, conectando o espectador direto aos seus sentimentos e motivações. Assim, é possível se aproximar do riso sem eliminar o drama, recurso usado pelo diretor com maestria todos esses anos.

Volver de Almodovar

No melodrama o trágico é realmente trágico. Não basta o vizinho morrer de ataque cardíaco, ele tem que morrer depois de brigar com a irmã mais nova que não via há dez anos e que tinha vindo à cidade contar que sua mãe milionária morreu sem incluir o nome dos filhos no testamento.

Almodovar costuma reservar o papel desencadeador da tragédia para o personagem masculino. No filme, esse elemento é Paco, o marido vagabundo e tarado de Raimunda (Penélope Cruz). Com sua cartada trágica tradicional, Almodovar tira o chão de Raimunda e sua filha, deixa-as tão desamparadas que o espectador não resiste e se torna solidário, cúmplice, testemunha torcedora do desenrolar da história.

Volver começa com diversas mulheres limpando seus futuros túmulos no meio de uma ventania, uma tradição da cidade. Como nos bons filmes nada é por acaso, a cena emblemática anuncia o tema da película: a morte. Teremos então um assassinato, uma morte por velhice, uma doença terminal, uma “ressurreição” e a morte psicológica causada pelo acúmulo de sentimentos e mágoas. Dos três parceiros da morte – o heroísmo, a amizade e a família – Almodovar escolhe o último, e monta uma família só de mulheres, que lidam com as transformações causadas por essas mortes pontuais. O toque sobrenatural-cômico fica por conta de Sole (Lola Dueñas), irmã de Raimunda, que começa a ver o espírito da mãe quando visitam a tia que está para morrer. Para fechar o tripé, Almodovar utiliza o “segredo”, elemento de todos os filmes de família e o aproxima do DNA, algo a ser passado de pai para filho. Aqui, todas as personagens têm os seus segredos, e é a revelação de cada um deles fará o filme avançar até o abraço final.

Volver de Almodovar

Acho que ninguém mais pensa a sério em conceitos como verdade, pureza, início. Daí a curiosidade com uma exposição chamada Fake, do Grupo DOC, na Galeria 90. Se existe um fake, é porque existe alguma coisa que não seja.

Fake Fake Fake

Já o papelzinho de apresentação mostra que não é por aí. De Nietzsche a Baudrillard, passando pelo Aurélio com suas definições de pastiche, plágio, mimese, paródia etc., o texto deixa claro que o fake apresentado reivindica adequadamente o título de verdadeiro, o verdadeiro hoje só podendo ser o fake assumido.

Resta um aspecto que tem mais a ver com o vocabulário literário do que com o das artes visuais e que é o da metáfora.

A metáfora traz uma questão de complementaridade, seja como paralelismo ou oposição, entre os campos diegético e extradiegético.

(Agravada aqui pela virtualidade de um e outro: a exposição é de fotos, vídeos.)

O caso é que o Fake do Grupo DOC tem o fake e seu abismo de espelhos, e tem também um desejo de referência, ainda que metafórica, já que referência “toute courte” é uma impossibilidade filosófica. Há um universo, se não verdadeiro, puro ou inicial, pelo menos posto em paralelo – e incessantemente reabsorvido. E isso dá uma impressão de unidade composta por diferenças – que é a própria definição do que seja uma metáfora.

Assim é nas notas de dinheiro com ídolos pop, na cabeça romana feita de espuma, ou no irônico vídeo sobre história da arte.

Mas metáforas e outras construções de linguagem se completam na cabeça de quem as vê/lê. E, para isso, é preciso supor uma cultura uniformizada, comum, que compartilhe valores e símbolos, o que é mais uma dificuldade em época de pulverização de tribos, de agudo ressurgimento de grupos.

Existe um outro tipo de conceituação de construções artísticas, sem referentes ou metáforas. É o orgânico. Nasceu no período romântico do Século XIX mas o exemplo mais citado é o de James Joyce. O artista partiria de um núcleo – fragmento de memória ou experiência – que incha e cresce segundo critérios estéticos, como o som das palavras ou a textura da tinta. O defeito dessa teoria é a idéia de que há um conteúdo inicial sem forma (o fragmento de memória) que conquistará sua forma à medida que se afaste desse conteúdo inicial. Uma tautologia das boas, ausente, que bom, dessa exposição.
Então, recapitulando: o fake é fake assumido, em um mundo sem referências, onde também não há organicidades fechadas em suas peles; esse fake usa a metáfora como um simulacro de exterioridade, sendo que metáforas, infelizmente, também são uma construção e, pior, sujeitas a um compartilhamento cultural cada vez mais raro. O humor – porque tudo isso é feito com humor – se dá no nanossegundo em que você percebe isso.

E aí, que remédio, só rindo.

O que prova a eficácia do grupo.

A Galeria Mariana Moura, do Recife, faz uma comemoração de peso nos seus dois anos de existência: Arquivo Aberto traz o ótimo Nazareno e mais Jeanine Toledo, José Patrício, Carlos Mélo, Alice Vinagre, Gil Vicente, Marcelo Silveira, Alexandre Nóbrega e Laura Vinci. Também convidado Tunga e mais Artur Lescher e Emmanuel Nassar. Até 06/01/07.

O último livro de Vargas LlosaTravessuras da menina má – traz algumas novidades. Neste livro, o escritor peruano adota uma postura narrativa mais direta, sem a presença da simultaneidade de outros romances seus. O resultado, embora bastante curioso, é mais esquemático, até porque, ao constituir a narrativa, opta por grandes blocos, marcados pela periodização histórica, dividindo os capítulos pelas décadas que corresponderão a cada bloco. Assim, no final dos anos cinqüenta e início dos sessenta, encontraremos a menina má às voltas com Cuba e Paris; na metade dos anos 60 e início dos anos setenta, estará em Londres – pátria dos movimentos libertários dos hippies. Nos anos cinqüenta, nos anos oitenta em cada capítulo, um grande tema, que tenha mobilizado a sociedade mundial. Poderíamos até perceber que a própria época – os anos dois mil – está marcada no romance pelo que o romance procura ser – uma inserção na mídia globalizada.

Vargas Llosa - Travessuras políticas da má menina má

Mesmo se inserindo nesta mídia, as travessuras falam do Peru. O narrador – peruano – vive fora de seu país, mas com ele mantém alguns laços. Um tio, com quem se corresponde, um amigo egresso do movimento político e revolucionário – que desaparece na guerrilha. Nada mais.

Llosa busca disfarçar as intenções do romance, criando, na relação da menina má com o desenraizamento do narrador, uma eficaz trama na qual os afetos insatisfeitos movem a intenção das personagens. O livro parece justificar-se e somos tomados pela impressão de que é um romance definitivo, nascido para ser um clássico. Entretanto, há algo que desagrada e termina por contaminar toda a narrativa. A submissão dos encontros e desencontros das personagens a uma realidade prévia – esquemática – como se percebeu acerca da estrutura do romance – é como um subtexto que não se integra verdadeiramente à história, que se narra: são, efetivamente, pretextos tão óbvios, tão evidentes que o trabalho sobre o real carece de uma maior solidez, que contorne os lugares comuns, os clichês da análise política. Ao analisar o papel da guerrilha no Peru, o desenraizado narrador apenas percebe o óbvio. Ao relatar encontro com um ex-combatente da guerrilha, conclui: “No 3 de outubro de 1968, os militares, encabeçados pelo general Juan Velasco Alvarado, deram o golpe que acabou com o regime democrático presidido por Belaunde Terry, este foi para o exílio e teve início uma nova ditadura militar no Peru, que duraria 12 anos.”

À passagem que se citou podem-se somar outras – como as que comentam rapidamente as obras de Paul Auster, de Doris Lessing e de Michel Tournier; como as que comentam a ascensão de Allan García ao poder. Em todas elas o que se percebe são as intenções do autor e não a costura destas opiniões como sendo parte da psicologia do narrador. Ele as profere como um ator que ensaiou bem sua fala; por trás notam-se as idiossincrasias de Llosa. Ademais tudo é tão óbvio e esquemático que o leitor percebe sempre antes que o fato seja narrado o encontro e o abandono, o abandono e o encontro das personagens. Numa sucessão infindável e monótona – afinal, se mudam os cenários, a história é sempre a mesma.

Vargas Llosa escreve um romance ressentido. Talvez por isso tenha se jogado tanto nas entrelinhas da composição, talvez por isso a obviedade política se transforme no avesso de um realismo socialista, cuja intenção foi a de abandonar a preocupação com o que a obra tem mais importante e fulgurante – a linguagem em que os conceitos são expressos – para criar – sob o disfarce do literário – uma obra de propaganda.

Quando a superfície de uma pintura não é contínua, aí tem coisa. Em geral, a fissura, incisão ou camada superposta é uma maneira de registrar o tempo – o tempo gasto na feitura da pintura e que pode ser entendido como o registro do tempo que passa, simplesmente. É um recurso para suprir uma falta, pois pinturas não são próprias para o registro do tempo, e sim do espaço. Literatura, sim, aponta o tempo – com seu conteúdo cheio de “antes” e “depois” e suas letrinhas, lidas uma depois da outra.

Isso em geral, pois há literaturas mais espaciais do que temporais e pinturas com registros rítmicos e de tempo.

Vânia Barbosa abre a exposição A cor da palavra na Galeria Almacén, agora em novembro/2006. Ela usa literatura na sua pintura. E a primeira idéia é de que ela faz isso para dar o tempo que falta à pintura. Outros já o fizeram.

Não é o caso. Sua construção é bem original. Ela pega o parado na literatura e o temporal na pintura. Ela inverte. Ao fazer isso, brinca com a noção rígida de compartimentação artística.

Seria um caso de doppelbegabung, a palavra alemã para obras feitas por autores que usam uma dupla linguagem. Mas a literatura é de Elisa Lucinda e não dela. Então, a duplicidade seria autoral mas também não é, porque a literatura tem aqui, justamente, um papel de reforço do visual ao vir do jeito que vem, parada.

Assim:

A poesia é a menos temporal das literaturas, pois aponta para sua própria estrutura – que é constante. Além disso, nesse caso de Vânia Barbosa, as frases poéticas surgem em graus variados de elevação/incisão na superfície das pinturas. Então, a temporalidade está na maneira como a literatura aparece nas pinturas e não no fato de ser literatura. Além disso, a superfície das pinturas têm rasgos, fendas, sobreposições. Ou seja, as pinturas têm, na sua feitura, o tempo. A literatura, não. O resultado é a aceitação – bem atual – do indeterminável no lugar da busca redutora por algo fechado e acabado. E isso se dá tanto na obra quanto no posicionamento de autoria, ele também aberto. A autoria não é de Elisa Lucinda e Vânia Barbosa. É de Vânia Barbosa. Mas é uma autoria aberta, múltipla, complexa, com seus processos de interação à mostra, pois ela “diz” o seu processo de criação, onde entrou o impacto dos versos da amiga – uma poeta que escreve cenas, momentos, como quem pinta.

Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa Vânia Barbosa

O curta Françoise, do diretor Rafael Conde, traz Deborah Falabella no papel de uma menina em busca de companhia. Antes de nos apresentar à personagem, Rafael exibe pessoas sozinhas, livros de auto-ajuda, o cotidiano da rodoviária do ponto de vista noturno, a inércia no sentido do que se move e do estagnado, o que dá um ar bucólico ao ambiente e nos prepara para sua abordagem da solidão. Ao vermos Françoise distante, ela parece uma criança que brinca. Assim que a câmera se aproxima, ela está perdida, angustiada, distante no sentido psicológico. Entre ela e o espectador há uma grade, uma barreira que deve ser vencida aos poucos.

Françoise

Françoise então se aproxima do viajante que espera o ônibus e começa um longa conversa. A tendência é se afeiçoar à personagem, achar curiosa sua relação com o irmão de quem não para de falar, suspeitar da atitude tão normal e tão esquisita de quem faz de qualquer estranho o par perfeito para um bate-papo. No ritmo do viajante, o espectador dá corda, quer mais. Ouve Françoise contar como se identifica o sexo das frutas – a banana e o banano e reclamar do relacionamento com o tio, que aparece de repente e muda o rumo da história.

A maioria das pessoas que vê o curta acaba taxando Françoise de louca e acreditando no que o tio revela. É um veredicto injusto. Mesmo que Françoise traga um pouco da loucura de todos nós, prefiro acreditar que é o tio interventor quem merece a camisa-de-força.

Françoise

Eu nunca fui muito fã de performances1 na arte, nem de happenings2 e instalações3, muito embora conheça e goste bastante de algumas coisas em arte conceitual4 (O trabalho do norte-americano Sol LeWitt5, por exemplo, é bastante interessante!). Reconheço também que nunca estudei muito fundo a respeito, conhecendo só o-básico-do-básico, mas acho que é sempre porque nunca me atraiu mesmo.

A maioria absoluta das coisas que eu já vi (E olha que não foram poucas, nessa minha vida “andante” e nesses meus anos de estrada, 20 deles já formada…) é vazia, sem sentido (Idiota mesmo…) e só visa chocar mesmo. Só que eu não vejo muito sentido nisso. Nem mesmo na existência de proposta de *provocação de reflexão*, que é o que a maioria declara. Mas, por essa proposta, de reflexão, respeito o trabalho de alguns artistas, embora ache outros, como o do austríaco Rudolf Schwarzkogler6 (Que morreu em 1969 após ter amputado seu próprio pênis em um ato performático…) de uma incontestável, completa e absoluta insanidade (E o “cara” é VENERADO na arte contemporânea!).

Ontem, em uma aula na Unicamp, por causa da apresentação de um trabalho de uma colega, pude conhecer mais sobre o trabalho dos “Acionistas de Viena7″, ou “Ativistas de Viena” como também são chamados (Dá uma “geral” no Google com o termo “Wiener Aktionismus8″ que você acha bastante coisa e se você, como eu, não lê em alemão, pesquise por “Viennese Actionism9″.), que são a “inspiração” dela.

A proposta do trabalho da colega é, na minha insignificante opinião, absurdamente vazia. Quase um plágio mesmo… Ela apresentou um vídeo de uma performance anterior dela, onde meio que reproduzia a proposta dos Ativistas de Viena, sem, no entanto, propor algo além de dizer que *gosta* (???) daquilo. Uma seqüência de “meu trabalho”, “minha obra”, “minha proposta”, “minha cidade”, “minha família”, “meus pais”, enfim, um amontoado de auto-referências, meio egocêntrico, meio esquizofrênico, onde a única coisa que ficou bem clara é o profundo desprezo dela pela universidade em geral, pela academia e pela pesquisa acadêmica, declarado verbalmente, várias vezes, durante a mostra do vídeo.

O que não entendi, especificamente (E ela não soube explicar nem mesmo quando questionada…) é por quê, se tem tanto desprezo pela academia, ela quer cursar um mestrado (Entrou na seleção deste ano, em poéticas visuais.) e pretende seguir a carreira acadêmica (Que foi o que ela disse que quer: ser professora universitária)! Deve ser alguma “motivação masoquista”, vai entender… Muitas das performances de BodyArt10 são mesmo nessa linha que eu, embora respeite como manifestação artística, não admiro nem gosto.

Como eu evito ter qualquer tipo de preconceitos com arte, mesmo que, a princípio a “coisa” me cause desconforto e estranhamento, resolvi pesquisar mais na Internet para conhecer mais a proposta original dos vienenses e, quem sabe, entender o trabalho da moça.

Os principais artistas, segundo a Wikipédia11, são Günter Brus12, Otto Mühl13, Hermann Nitsch14 e Rudolf Schwarzkogler (Sim, o “lunático” que arrancou o próprio pênis. Ele mesmo.). Ou seja, eu não estava tão “longe” assim “dos caras”, já que o tal adepto da auto-castração eu já conhecia…

As performances do grupo, iniciadas nos anos 60 causavam (E ainda causam!) asco, revolta, repulsa. Eles misturam sexo, manifesto político e muita coisa “estranha” (Mas muita mesmo!) com escatologia. Fezes, urina, vômito, junto com pornografia, sexo e sacrifícios de animais… No fim, conseguem o que, eu creio que, seja a proposta: ninguém fica indiferente. Ou você gosta, ou detesta.

No site UbuArt15 tem os vídeos das performances. Mas já aviso, quem tem estômago “fraco” ou é impressionável, não assista.

Como eu já disse, os “anos de estrada” já me fizeram ser meio ‘refratária’ à qualquer tipo de maluquice, ou seja, não é muita coisa que me abala ou tira do sério, não, e o trabalho do referido grupo tem seu valor estético, mesmo que seja a estética do grotesco, e deve ter sido de algum significado na época, deve ter feito parte de uma necessidade, de um momento, sei lá, mas, depois de ler muito sobre suas referências, continuei com a mesma opinião sobre a proposta da colega: nada.

Por quê uma linha de pós-graduação da Unicamp aprova um trabalho de pesquisa auto-referente e vazio de significados e sentidos, desenvolvido por uma pessoa que se mostra frontalmente avessa à academia e que, declaradamente, se recusa a desenvolver as atividades propostas pelos professores da disciplina, declarando que sua arte (sic) “é superior a tudo isso” e que “a obra vale mais do que qualquer coisa que se escreva ou pesquise sobre ela”? Tem algum professor-doutor de arte ai que pode me responder? “Derrepente” sou eu quem não entende nada de arte mesmo, né? Vai saber! hehe

O norueguês Thomas Dybdahl aos poucos encontrou o seu caminho. Depois de uma rápida passagem pelo grupo Quadraphonic como guitarrista, lançou o cd That great october sound, arrancando elogios dos críticos e conseguindo boas vendas. O single From grace (excelente) dava sinais do futuro experimentalismo do cantor, misturando ao folk melancólico outras sonoridades. Stray dogs, o trabalho seguinte, repetiu a fórmula sem novidades, mas valeu um contrato nos Estados Unidos. Seu primeiro álbum por lá se chamou One day you’ll dance for me, New York City, um título irônico já que as músicas eram lentas ao extremo.

Thomas Dybdahl

Em 2004 Dybdahl uniu força com os músicos do BigBang e do Jaga Jazzist e formou o projeto National Bank, um grupo bem estruturado e talentoso, com músicas hipnóticas que uniam bases eletrônicas, rock e pop. A experiência enriqueceu o trabalho do cantor, e as mudanças podem ser sentidas em Science, seu melhor até agora. Science flerta com múltiplas referências, acrescenta bateria e piano ao velho folk e dá ritmo ao que antes eram apenas boas idéias. Imaginar uma mistura de Nick Drake e Nick Cave é uma boa referência.

A cantora norueguesa Lene Marlin alcançou um estrondoso sucesso logo no primeiro cd, produzido inteiro por ela aos 18 anos de idade. Playing my game atravessou fronteiras movido pelo single Unforgivable Sinner e ficou conhecido também na Alemanha, Itália, França e Suécia, conquistando mais tarde o ávido mercado japonês.

Lene Marlin

Lene chama atenção por compor canções com qualidade bem acima da média que o público jovem está acostumado, vide as boybands que dominaram os anos 90. Lost in a moment, o terceiro cd, é uma evolução natural do seu estilo pop. Sua voz continua lindíssima, as canções estão mais sensuais e as letras brincam de forma inteligente com compassos e palavras. O cd já teve duas músicas de trabalho: What if e How would it be. Outros bons momentos são Never to know e All I can say. Atualmente, Lene Marlin está divulgando o single Avalon, gravado com o grupo de rock-pop suiço Lovebugs.

Lene Marlin

I want to run but I can’t hide
The feelings grow inside
Love will always find its way
I want to turn but it’s too late
Love will always conquer hate
Just one kiss and I’m okayI want you to be my Avalon
The sweet unknown
Come on over and take on me
I want you to see my Avalon
The love has grown
From here to eternity

Assista o clipe Avalon no Youtube

Third is charm. A terceira parceria improvável de Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, quem diria, é um filmão com fôlego para duas horas e meia de adrenalina. Não, a questão não está nas perseguições de carro e nos tiroteios desgastados, mas no processo medular que libera doses constantes de roteiro inteligente, direção precisa e atuações memoráveis (bem, quase todas). Você deve estar pensando: todo filme de gangster é igual. Tem a quadrilha e um policial infiltrado que começa a se afeiçoar ao chefão e fica cheio de dilemas morais na hora de puxar o gatilho, certo? Errado, a começar pelo “dilema moral” que aqui não tem espaço. Em Os Infiltrados, a polícia pega o seu candidato menos provável a bom policial (DiCaprio) e o convence a se infiltrar na quadrilha do mais violento gangster da área (Jack Nicholson). O problema é que o velho gangster também infiltrou um dos seus na polícia (Matt Damon) e vai usá-lo para descobrir quem é o rato deles. Se perdeu? Vamos lá. DiCaprio infiltrado na gangue tenta descobrir quem é o rato infiltrado na polícia. Matt Damon infiltrado na polícia tenta descobrir quem é o rato infiltrado na gangue. O joguete de gato e rato vira um jogo de rato e rato elevado ao quadrado. E para melhorar, os limites entre os policiais e a quadrilha são tênues, sem aquele papo chato de mocinho e bandido.

Os Infiltrados

O filme está indo muito bem nas bilheterias, em um mês já arrecadou 170 milhões, e é forte candidato ao Oscar nas categorias filme, direção, roteiro, ator (DiCaprio) e ator coadjuvante (Nicholson), sem contar a parte técnica. O mérito de Scorsese está em não subestimar o espectador, conduzi-lo por uma boa história e arrancar a alma dos atores, transformando-os de verdade nos personagens que idealizou. O preciosismo de O Aviador e Gangues de Nova Iorque sai de cena, entra o estilo de Taxi Driver e a psique de Cassino.

Se você ouvir por aí elogios à atuação cheia de improvisos de Jack Nicholson com seu gangster psicopata e desregulado, acredite, é verdade. O elo fraco fica por conta de Matt Damon, que de policial corrupto Colin Sullivan, de irmão Grimm ou de Bourne desmemoriado tem a mesma cara de sempre.

Os Infiltrados

Os personagens secundários são um atrativo extra, o que mostra que o capricho e o envolvimento da equipe com o projeto foi total. Alec Baldwin faz um policial tradicional, chefão, daqueles bem burros, que é enganado por todo mundo e se acha o rei do departamento. Martin Sheen e Mark Wahlberg (cada vez melhor) são os chefes do departamento, os únicos que sabem que DiCaprio é o infiltrado, e estão em contato direto com Matt Damon. Vera Farmiga é a psicóloga que trata de ex-policiais (DiCaprio de novo) e acaba se apaixonando pelo maior destaque da força policial (o rato de Damon).

Os Arte-Educadores do Brasil estão em festa. A Edição 2006/2007 do edital de chamada de patrocínio do Programa Petrobras Cultural traz novidades: 9 milhões para Educação para as Artes.

A Edição 2005/2006, lançada em novembro do ano passado, teve verba de R$ 62 milhões. Na nova edição, a verba foi ampliada para R$ 80 milhões e também foi criada uma nova linha, a de “Formação”, que integra a Arte e a Cultura à Educação, ampliando as possibilidades de recepção crítica das Artes e de outras manifestações culturais como nos declarou Ana Mae Barbosa, mais famosa arte-educadora brasileira e nova consultora do programa, especialmente convidada para coordenar os trabalhos das novas seleções públicas de Formação.

A nova linha de Formação se junta às duas linhas de atuação existentes sob o tema global, que são “Preservação e Memória” e “Produção e Difusão”, abrindo assim três novas seleções públicas nesta edição do Programa:

  1. Educação para as artes” – voltada para apoio a projetos de ação educacional e cultural;
  2. Educação para as artes: materiais e documentação” – voltada para a criação e difusão de materiais de suporte à ação de educadores e agentes culturais comunitários; e
  3. Produção de apresentações culturais inclusivas” – voltada para o patrocínio a produtos culturais (espetáculos, concertos, mostras, cds, filmes, etc) oriundos da ação de projetos sociais.

A Edição 2006/2007 será lançada no dia 6 de dezembro com as novas áreas de seleção pública e a maior verba desde o lançamento do PPC, em 2003, a serem distribuídos da seguinte forma (em R$ milhões):

  • PRESERVAÇÃO E MEMÓRIA: 11.000
  • Memória das Artes: 5.000
  • Patrimônio Imaterial: 2.000
  • Apoio a Museus, Arquivos e Bibliotecas: 4.000
  • PRODUÇÃO E DIFUSÃO: 40.000
  • - CINEMA: 30.300
  • Produção de filmes de longa-metragem: 21.000
  • Produção de filmes de curta-metragem em 35 mm para salas de cinema: 1.600
  • Produção de filmes de curta-metragem para mídias digitais: 1.200
  • Difusão de filmes de longa-metragem: 4.000
  • Festivais de Cinema: 2.500
    - MÚSICA: 6.000
  • Gravação e circulação de música popular brasileira: 4.500
  • Gravação e circulação de música erudita: 1.500
    - ARTES CÊNICAS: 2.900
  • Manutenção de grupos e companhias de teatro e dança: 2.900
  • - LITERATURA: 800
  • Criação literária: ficção e poesia: 800
    FORMAÇÃO: 9.000
  • Educação para as artes: ações: 3.000
  • Educação para as artes: materiais e documentação: 3.000
  • Produção de apresentações culturais inclusivas: 3.000
  • TOTAL SEL. PÚBLICAS: 60.000
  • TOTAL PPC: 80.000

As datas de encerramento das inscrições para cada área de seleção pública são escalonadas nos regulamentos, à partir de 6 de dezembro, no site: http://www2.petrobras.com.br/portugues/ads/ads_Cultura.html

Houve uma época em que Moby era sinônimo de underground. Os fãs não beiravam os milhões, mas tinham admiração legítima pelo artista que gravava no estúdio de fundo de quintal, lançava encartes defendendo a natureza e aparecia o mínimo possível. Quem não gostava muito da história era o Moby, que queria ser ouvido por mais do que um grupo de amigos e uns doidos que compravam cd importado nos outros continentes.

Moby Go

No cd Play, Moby realizou o seu sonho. Disponibilizou todas as músicas para comerciais e era impossível mudar de canal sem esbarrar em um “porcelain” aqui, “why does my heart feel so bad” ali. É claro que o artista foi criticado, mas conquistou o público que queria. Depois, foi só fazer a manutenção, repetir a fórmula em 18 e fazer um trabalho entediante em Hotel. Com 15 anos de carreira, estava mesmo na hora de uma coletânea (ou para os mais sarcásticos: época de Natal, época de coletânea caça-níquel). O problema de GO: The Very Best of Moby é a seleção de faixas. Praticamente um double pack de Play e 18, ignorando cds inteiros do músico, um terço da carreira. Ausências como a de “That’s when I reach for my revolver”, “into the blue”, “hymn” e o remix de “voodoo child” apagam parte importante dessa existência, e fazem Moby parecer um criador de jingles de comercial.

Violência e pobreza são temas recorrentes no cinema brasileiro, sendo Lucio Flávio um exemplo marcante do ano de 1978. Lançado três anos após a morte do bandido, o filme teve grande sucesso de público – nem tanto de crítica – e acabou suplantando a imagem de seu protagonista, tornado-se a verdade sobre os fatos. Adentrando essa verdade ficcional, vemos que o filme retrata uma época em que ainda existia glamour por trás da imagem do bandido. Lucio Flávio não se perde nas origens do personagem, não fala de infâncias sofridas, mostra um ladrão que assaltava bancos e não os pobres assalariados. Para ele era um dinheiro sem dono, para o cinema um ataque simbólico ao sistema.

Outro aspecto importante é a utilização da metáfora, uma peça fundamental. Vemos a retratação do esquadrão da morte, policiais ligados ao crime e ao extermínio, torturas criminosas que na verdade simbolizam a ditadura presente. Além dos policiais, nos são apresentados torturadores profissionais sem identidade definida dentro do espaço fílmico, mas que ganham forma ao serem contextualizadas na situação política da época.

Esse mesmo exemplo serve para outra análise. Nosso cinema havia perdido público, as chanchadas dominavam o mercado e o Cinema Novo não conseguia equilibrar apelo, objetividade e arte. Além do quadro técnico que valorizava o filme, Lucio Flávio revelou a violência como tema de apelo popular, resgatando o público perdido.

Pixote, Cidade de Deus e Carandiru parecem reforçar a idéia de que a violência atrai as pessoas para as salas de exibição. Essa tendência lucrativa do cinema nacional se deve, infelizmente, ao processo de identificação. O espectador se interessa por filmes que refletem a sua realidade e que apresentam ao menos um vislumbre de final feliz dentro do quadro pragmático da pouca esperança (mesmo que num final lúdico como o de Abril Despedaçado).

Ônibus 174, o documentário, poderia muito bem ser um filme hollywoodiano. O recente seqüestro de outro ônibus no Rio de Janeiro (dessa vez por amor) seria adotado como continuação. A ficção se apropria do que o cidadão comum não consegue digerir como real, mesmo convivendo com os fatos nas folhas de jornal e nos sinais do cruzamento deserto. Impotente, o espectador tenta aprisionar o que julga absurdo no seu cotidiano dentro da ficção, onde pode ser controlado, analisado e digerido com maior facilidade.

A comparação de Lucio Flavio e Pixote com o filme Cidade de Deus mostra uma transformação de caráter documental e também o uso da “violência” como recurso narrativo. Os limites nunca foram tão tênues. A violência deixou de ser metafórica. O cotidiano no fim das contas é imprevisível e não segue a lógica do roteiro. Cidade de Deus enxerga o choque da sociedade comercialmente, pega um processo histórico e o compacta no “tudo ao mesmo tempo agora”. É a história de descaso com a população marginal passando pela máquina de reciclagem e virando uma bolsa de madame pronta para o uso.

Carandiru margeia essa modificação estética e narrativa, e incorpora poesia visual e histórias de amor à noção do massacre dentro de uma penitenciária de segurança máxima. Respire onde não há ar, crie a sensação de alívio onde ela é impossível, a felicidade está logo ali do outro lado da tela. Por comparação, Quase dois irmãos faz uma escolha incomum no nosso cinema, ao descartar a esperança ficcional em favor da informação.

Se o estilo de Héctor Babenco (Lucio Flávio, Carandiru, Pixote) formará uma linha contínua de produção, ou se o estilo mtv hipermodernista de Cidade de Deus ganhará terreno (e poltronas), só o próximo lançamento dirá.

Primeiro tem a questão da ontologia. A 27ª Bienal de São Paulo traz, ao lado de cada obra, um texto explicativo, uma bula. Fica difícil saber como seria a recepção das obras sem isso. O texto diz o que o autor quis fazer e diz mais, diz que ele viveu em tal ou tal outro lugar exótico, que trabalha com essa ou aquela comunidade carente etc.

E um agravante: o politicamente correto, insuportável.

Mas eu vi inteirinha, e mais a paralela do Prodam e a da Oca. Só escapou o MAM com os concretistas porque eu os acho monótonos.

geral da Bienal 27

O bom e o ruim, começando com o bom.

Shaun Gladwell, da Austrália, armou dois vídeos que passam um ao lado do outro. Em um, um aleijado faz evoluções no seu skate. No outro, uma stripper faz evoluções na sua barra. Chama-se Double voyage e a comparação é evidente e cruel. Há mais uma crueldade: os filmes começam antes do começo. Ou seja, você vê a stripper chegar, cara cansada, se apoiar na barra, esperar, e só aí a música começa e ela faz um primeiro movimento com os quadris. Terrível.

stripper
Stripper de Double voyage
Fernando Ortega, México, fez um vídeo de quatro minutos de um ciclista em uma estrada. Ele pedala seu veículo com um anexo acoplado, onde leva mulher, ventilador e outras tralhas. O ventilador gira suas pás por causa do vento. A música é de Caetano Veloso. Chama-se Para Xó e é lindíssimo ao mostrar a simultaneidade de dois tempos, o antigo, do ciclista, e o atual, o da rodovia, com os carros modernos que o ultrapassam. Não que ele se importe. Continua lá, pedalando, parece feliz.

Marilá Dardot, uma artista da Galeria Vermelho, filmou em câmera fixa uma cidade à noite, ao longe. Só  umas poucas luzes tremem, pequenos movimentos em um todo parado. Chama-se Constelação, tem 46 minutos e dá uma idéia muito boa sobre o frenesi urbano, quando visto a uma certa distância.

Em uma outra obra, ela põe frases em murais. Uma delas poderia dar um bom resumo da Bienal: “Tout s’est passé ensuite avec tant de précipitation, de certitude et de naturel, que je ne me souviens plus de rien.

A mineira Mabe Bethônico é a responsável por um dos poucos momentos de humor da exposição. Ela reuniu as perguntas mais freqüentes da Bienal anterior. Se Dardot põe o mito urbano em perspectiva, Bethônico faz o mesmo em relação à arte. O público não está nem aí para a arte.

Algumas das perguntas:

  • “É por aqui que entra?”
  • “O que está tendo aqui?”
  • “Aqui é a Bienal do Livro?”
  • “Precisa de convite para entrar?”
  • “Quanto custa para entrar?”
  • “Vocês aceitam doações d obras de arte?”
  • “Pode entrar com cachorro?”
  • “Onde é o bebedouro?”
  • “Essa exposição tem quadro de Picasso?”
  • “Onde é o restaurante?”
  • “Como faz para expor aqui?”

E uma das obras mais fortes – e mais simples – é a de Ahlam Shibli, de Haifa. Ele fotografa a vida de gays, travestis, em sociedades fundamentalistas.

O ruim fica com Martinho Patrício, da Paraíba, que quis fazer uma homenagem à Lygia Clark e pôs uns módulos para o público montar. Só que uma funcionária do museu explica que a permissão de mexer nas pecinhas se resume a dois montinhos laterais, bem pobrinhos.

A americana Barbara Visser, em seu Transformation House, mostra … uma sombra chinesa! Sem ironia. Ou seja, a tecnologia deu tanta volta que acabou inventando sua avó.

Mas a medalha de ouro em politicamente correto vai para Minerva Cuevas, de Cuba, que em sua Terra Primitiva se deu ao desfrute de escrever, caso alguém tivesse dúvida: “o homem branco tem medo de escutar.

Parabéns, Flipper.

Há uns dez anos, Zé Ramalho e Zeca Baleiro fizeram uma música chamada Bienal, que eu não sei se chegou a ser gravada.

Segue a letra, para gáudio do leitor:

Bienal
Desmaterializando a obra de arte no fim do milênio
Faço um quadro com moléculas de hidrogênio
Fios de pentelho de um velho armênio
Cuspe de mosca, pão dormido, asa de barata torta
-
Meu conceito parece à primeira vista
Um barrococó figurativo neoexpressionista
Com pitadas de art-nouveau pós-surrealista
Calcado na revalorização da natureza morta
-
Minha mãe certa vez disse-me um dia
Vendo minha obra exposta na galeria
Meu filho isso é mais estranho que o cu da gia
E muito mais feio que um hipopótamo insone
-
Pra entender um trabalho tão moderno
É preciso ler o Segundo Caderno
Calcular o Produto Bruto Interno
Multiplicar pelo valor das contas de água, luz e telefone
Rodopiando na fúria do ciclone
Reinvento o Céu e o inferno
-
Minha mãe não entendeu o subtexto
Da arte materializada no presente contexto
Reclicando o lixo lá do cesto
Chego a um resultado estético bacana
-
Com a graça de Deus e Basquiat
Nova Iorque me espere que eu vou já
Picharei com dendê de vatapá
Uma psicodélica baiana
-
Misturarei anáguas de viúva
Com tampinhas de Pepsi e Fanta Uva
Um penico com água da última chuva
Ampolas de injeção de penicilina
-
Desmaterializando a matéria
Com a arte pulsando na artéria
Boto fogo no gelo da Sibéria
Faço até cair neve em Teresina
Com o clarão do raio da silibrina
Desintegro o poder da bactéria

Diz um velho e conhecido dito popular que os melhores perfumes vêm nos menores frascos. Pode-se contrapor que o mesmo ocorre com os piores venenos. Na noite da última quinta-feira esse dito me esteve em evidência. Dando seqüência à série “Quintas com Música“, a Fundação Eva Klabin – um distinto museu, ainda que alguns teóricos possam discordar desta ou daquela definição de “museu” –, notável espaço cultural, tanto por suas iniciativas e propostas quanto por seu espaço em si, trouxe à sua sala de música o pianista Eduardo Monteiro. Àqueles que se deixam intimidar pelo “reservas pelo telefone” ao folhear a programação musical do mês, devem, com urgência, rever suas atitudes. O que a Fundação Eva Klabin oferece ao seu público musical, a medir pelo que pôde ser visto neste evento, é algo digno de nota. Uma recepção simpática, quase intimista, num espaço mais que agradável. Tudo ocorre com a tranqüilidade de um museu, a exclusividade de uma mansão e com a simpatia de quem sabe receber pessoas.

Eva Klabin

Infelizmente Eduardo Monteiro ainda não dispensa apresentações ao grande público, mas a valer por sua carreira e seu currículo, essa demanda já deveria ter-se encerrado há tempos. É daqueles profissionais com quem não podemos fugir da seguinte construção: sua trajetória fala por si. Só para pincelar parte de seu espectro musical, vale dizer que estudou no Rio de Janeiro, na França, na Itália e nos Estados Unidos. Primeiro lugar do Concurso Internacional de Colônia (Alemanha) e Prêmio Carlos Gomes “Pianista do Ano” duas vezes, em 2004 e 2005. Não se pode negar atenção a um artista desse quilate.

O programa, graficamente muito charmoso por sinal, exibia uma larga distribuição de obras. Villa-Lobos, Leopoldo Miguez, Lorenzo Fernandez e Beethoven. A sala de música, quase em “formato de capela”, no sentido arquitetônico, é um espaço dos mais aconchegantes, contemplativo até. Eduardo Monteiro fez uma ousada e simpática apresentação oral de suas obras, apropriadíssimo para o espaço, sem ser piegas e sem proclamar “verdades supremas” sobre como interpretar esta ou aquela obra, conversando com o público, exibindo os pontos de vista de um estudioso que vai além das teclas, que suja-se com a poeira de documentos antigos e equilibra-se em escadas de biblioteca. Com forte verve historiográfica em sua “aula”, remontou ao público a imagem do que pode ser um pianista para além de sua técnica. Deixou claro que para ele não vale a máxima de Bernard Shaw de que “ensina aquele que não sabe fazer mais nada” (“He who can teaches. He who can not does.“). Evidenciou-se esta recusa, sobretudo, quando as primeiras notas puderam ser ouvidas.

Eduardo Monteiro

Em Impressões Seresteiras, seu Villa-Lobos soou rítmico, enérgico. Digo isto pois é uma peça, ou melhor, um autor, em que a questão rítmica está longe de ser simples. Esta é uma obra singular, que caracteriza um dos maiores compositores de nosso tempo. Monteiro deu esta tônica. Igualmente pode-se dizer de Homage à Chopin, do mesmo autor, magnífica, sobretudo depois de sua breve explanação sobre a obra, rara oportunidade teve o público daquele noite. A seguir o programa brindou-nos com o inspiradíssimo Noturno op. 10 de Leopoldo Miguez. Pode-se dizer o mesmo do intérprete, inspiradíssimo. Depois ouvimos os deliciosos Três estudos em forma de sonatina, que para mim é uma sonatina que nada deve a uma peça de Clementi, bem como, e Eduardo Monteiro tem razão ao dizer, o noturno de Miguez é digno de um Chopin. Pena estas obras ficarem tão afastadas das salas de concerto. Mais pesaroso é a obra de Fernandez estar afastada das salas de aula. Talvez o Miguez e o Fernandes tenham sido o ponto alto da noite, sobretudo pela originalidade de apresentá-los daquela forma. Mas este é um pensamento de quem ainda não havia ouvido a Sonata em lá maior, op. 57, a «Apassionata». É uma obra sombria, desesperada. Mostra um Beethoven atormentado, porém lírico. É uma obra de um subjetivismo imenso, um desafio para qualquer pianista e para todo espectador. Inicia-se com um grito de desespero e derrama-se, depois, em variações quase esperançosas, reflexivas, intuitivas. Seu moto perpétuo final, sobretudo no prestíssimo desfecho, é um tremendo desafio para qualquer virtuose. Os gritos de “bravo!” no final não foram gratuitos, nem frutos de cordialidade. Foram merecidos e falam, como a apresentação, por si só.

Num lugar pequeno, onde a entrada é quase exclusiva e a proximidade com o artista e o público é enorme, qualquer adição ruim, seja de um artista medíocre e/ou de um público desagradável, pode transformar-se em uma cilada infernal, incontornável, para alguém cujo único desejo é ouvir boa música e estar num lugar gostoso. Mas também nos pequenos frascos vêm os grandes perfumes. E para quem esteve na Fundação Eva Klabin na última quinta-feira, a noite foi de sândalos, e do mais ativo olor.

Ronaldo Grossman expõe “Soneto Nulo”, na Anita Schwartz Galeria, depois de 12 anos em Lisboa. São enormes painéis formados por pequenos trapézios pintados em preto e branco.

O nosso olho tem doutorado em perspectiva, algo extremamente útil na interpretação de profundidade e outras informações tridimensionais mas que também pode gerar um erro de interpretação – a ilusão -, justamente por ser exatamente isso: uma interpretação.

Ronaldo Grossman - Soneto Nulo

O artista brinca com a sensação de profundidade e ritmo, levando Hajime Ouchi para passear em Copacabana. O interessante é que como Grossman é artista plástico e não matemático, a rigidez se atenua na simples existência do objeto, da madeira/tela pintada, da tinta, da inserção do erro dentro da rigidez da construção matemática.

Em um dos painéis, ele altera a frequência espacial (unidirecional) para alcançar o ritmo e o volume que sempre falta à matemática. E consegue.

Existe uma diferença muito grande entre a mágica de enganar nossos olhos e a apresentação deste engano na forma física e concreta de uma parede de galeria. Grossman certamente inclui o espaço entorno no seu trabalho, o que é sempre muito bom.
Anita Schwartz Galeria: Av. das Américas, 7777 / térreo – lojas 133/134, Barra da Tijuca/RJ.

Nos dias 7 e 8 de novembro de 2006, na Galeria Vermelho em São Paulo, Yann Marussich apresentou sua performance Traversée que pode durar até seis horas, dependendo de como a assistência se comporta.

Marussich fica imóvel, deitado sobre uma solução de pigmento e óleo no início de uma esteira que usa todo o comprimento da sala. Está preso pelo pescoço a uma roldana que, acionada, o puxará até o final da esteira, deixando uma imagem feita pela passagem do corpo no líquido colorido.

Yann Marussich
joelho “sangrando” em azul
Várias coisas. Primeiro, ele recupera um pouco das performances dos anos 70, quando a transgressão maior era a violência feita contra o corpo, em uma fronteira que beirava o ilícito. Quem puxa a roldana é o público que, assim, é obrigado a atuar claramente um sadismo que em geral prefere deixar velado. A pessoa aciona a roldana, a corda estica, parece apertar o pescoço e o corpo inerme e nu se move mais uns centímetros em direção ao final. A referência à Carole Schneenmann e outros da cena novaiorquina daquela época se dá também em um filme mostrado antes de a performance começar, onde líquidos corporais são substituídos por fluxos azuis que saem de ferimentos, nariz e boca. Tanto na performance quanto no filme há a referência e também um comentário: o “sangue” no filme é falso, é uma tinta azul; o enforcamento da performance também é só aparente, pois a corda passa por um nó na nuca. Assim, Marussich lembra a importância em se recuperar as sensações vividas mas, ao mesmo tempo, diz que isso não é mais possível.

Yann Marussich
o artista
Outra coisa – que é um pouco a mesma coisa: ele é um dançarino e, no entanto, fica imóvel. O movimento corporal é latente. De olhos fechados e nu, são suas veias que pulsam, o peito que incha e desincha com a respiração. É mais uma vez uma recuperação do movimento mais básico, os outros não sendo mais possíveis, significantes.

Yann Marussich
a imagem “pintada”
E, terceiro, é ele que “pinta” a imagem que fica na esteira depois de ser arrastado através da esteira. É o seu corpo, ele inteiro, fisicamente, o “pincel”. Como sempre acontece quando é o corpo em sua totalidade a participar de um ato, há uma volta a um sentido ético, de responsabilidade orgânica pela ação cometida. E, aqui também, há essa volta e o comentário de que ela não parece possível, já que a ação se dá em um trajeto já marcado, determinado. A única escolha é a da assistência, que aqui não merece o nome, já que é ela quem puxa a corda, em vez de ficar assistindo a alguma coisa.

O resultado é, para todos, a vivência de algo que foi feito.

É rara. Nossos atos não costumam ser tão nítidos.

Tirar arte de contexto é coisa que os museus fazem desde que foram inventados, na Revolução Francesa. Não atentamos para a violência quando se trata de algum totem indígena. Quando a religião é a nossa, a coisa fica mais clara.

Por isso, o CCBB montou um ambiente quase de igreja para a exposição do Aleijadinho. Escuridão, sons de sino e distanciamento entre obra e público, com estátuas e oratórios protegidos por vidros. Há também a evocação da riqueza, a matéria sugerindo o espírito, estratégia de todas as religiões quando ficam maduras e distantes de suas origens. Aqui, um setor dedicado ao ouro.

 Espírito Santo em madeira policromada
Espírito Santo em madeira policromada
Mas, ainda assim, é claro que as condições de recepção são bem outras do que as originalmente pretendidas. O resultado é estimulante. Pois ao diminuir o religioso, a arte sobressai. Não se trata da técnica, sempre tão louvada no artista. Mas no que ele trouxe de seu para um mundo tão ideologicamente pré-determinado.

Há uma tensão que é sempre a mesma, quando se trata de convivência de culturas e que é a da necessidade de escolha entre a riqueza simbólica da cultura dominada e a riqueza material da cultura dominante. Na biografia pessoal do artista, como se sabe, tratava-se de manter viva a herança materna, escrava negra do pai português. E com um agravante: a manutenção desse “outro” deveria ser feito em diálogo com uma instituição que pregava submissão e obediência, a Igreja.

 retrato de Aleijadinho feito por Euclásio Pena Ventura em óleo sobre pergaminho

retrato de Aleijadinho feito por Euclásio Pena Ventura em óleo sobre pergaminho
Na penumbra do CCBB fica mais fácil ver a subversão do poder. Nas expressões humanas dos santos, à la Velásquez, outro inadaptado. No Espírito Santo com todas as penas e garras de uma ave comum. Nos olhos de vidro das estátuas, um ponto de encontro de africanos, portugueses e, talvez, asiáticos de Macau.

Bem analisadas as coisas, não haverá pureza em parte alguma, ainda bem. O que comove em Aleijadinho é sua luta bem sucedida em manter o espaço já multidimensional do barroco aberto à inclusão de vestígios, rastros, necessariamente únicos, autorais, locais e temporais. A ecos de fiéis assim como aos de inconfidentes.

Na exposição, uma preciosidade: o filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade com roteiro de Lúcio Costa traz para nós a arquitetura do artista. Ao contrário das obras laudatórias, seus exteriores eram sóbrios. O interior é que merecia o detalhamento. Mas, nas estruturas e fachadas, um movimento de formas, uma energia que não havia antes.

Centro Cultural Banco do Brasil. Aleijadinho e seu tempo.
Rua Primeiro de Março 66, de terça a domingo das 10 às 21 h.

Leon Eliachar e seu “O homem ao quadrado” têm um sabor especial. Foi o primeiro livro que li com vontade mesmo antes de conhecer os extra-classes do colégio. Eliachar era um comediante que sabia transformar o livro em instrumento do riso, usando até o sumário, o espaço pra dedicatória, sua biografia e uma lista de obras publicadas como piada inteligente.

“Nasci no Cairo, fui criado no Rio; sou, portanto, ‘cairoca’. Meu nome é esse mesmo, Leon Eliachar, tenho 44 anos, mas me orgulho de já ter tido 43, 42, 41, 40, 39, idades que muitas mulheres de 50 jamais atingiram”.

Na profissão desde os 19 anos, Leon Eliachar foi um dos maiores jornalistas humoristas do país, sendo consagrado por seus trabalhos bem elaborados tanto em rádios quanto em jornais e revistas.

O Homem ao Quadrado
O Homem ao Quadrado – 1ª edição pela Editora Paulo de Azevedo, 1960.
Licença editorial para o Círculo do Livro. – 4ª ed em 1976.

Sua definição de humor “Humorismo é a arte de fazer cócegas no raciocínio dos outros”, levou-o a ganhar o prêmio da IX Exposição Internacional de Humorismo. É com ela que o autor abre o livro “O homem ao quadrado”. Logo após, nos dá uma lista de suas 24 obras literárias, escritas desde 1922. O mais distraído (existe leitor distraído) pode não perceber que 1922 é o ano de nascimento de Eliachar e que os títulos são todos piadas e ditos inéditos. Apenas o último é verdadeiro.

1922 – Por que nasci (inédito)
1924 – Como fazer amigos sem sujar as fraldas (inédito)
1925 – Como fazer fraldas sem sujar amigos (inédito)
1930/1945 – Meus quinze anos de silêncio (censurado).

As invencionices literárias não param nem no sumário. Eliachar o coloca de trás para diante, porque quem ri por último ri melhor. Na sua biografia, citada em parte acima, sugere que “a mulher ideal é a que gosta da gente como a gente gostaria que ela gostasse – isso se a gente gostasse dela. Para a mulher, o homem ideal é o que quer casar. Mas deixa de ser ideal logo depois do casamento, quando o ideal seria que não deixasse”. Eliachar encontra o humor no malabarismo das palavras, manuseia o verbo como uma pena na sola do pé.

Ele sabe que o humor não é apenas o sentido aplicado às palavras, e que a própria brincadeira com a fonética pode gerar gargalhadas. Tudo é passível de se transformar em instrumento do riso.

Fisgado pela isca introdutória o leitor chega aos contos, o ponto onde muitos livros de humor costumam começar. São histórias curtas, a maioria de uma página, que prendem a atenção em falsos dramas com piadas escondidas onde menos se espera. Em “a operação” um paciente relata uma operação cardíaca sofrida – transformada em um evento hilário – até que ouve o comentário dos médicos de que irá se salvar. Logo depois descobrimos que está contando a história para São Pedro.  Em “a dúvida” um homem que não acredita que sua mulher vai todo dia ao dentista começa a segui-la e descobre que ela realmente vai ao consultório.

“Foi aí que ele passou a dormir calmamente e a viver tranqüilo. E foi aí que ela passou a ter mais liberdade de trai-lo com o dentista”.

Deparamos-nos então com testes de lógica, onde a única lógica é a graça. Leon Eliachar brinca também com o sentido das palavras, criando um dicionário muito particular.

Biombo – o que separa a curiosidade de um lado e um assunto do outro.
Canhoto – sujeito que só escreve direito com a mão esquerda.

Abusando do visual, o humorista se apropria da arte moderna, faz desenhos, embaralha letras, cria diferentes datilografias fazendo piadas de datilógrafas e, enfim, assume o humor negro, colocando piadas em páginas negras com letras brancas. Em um capítulo só de assinaturas ele subverte o próprio nome e o formato das letras. “Leon Eliachato” e “Leon Eliac” (com desconto) são algumas das criações.

Eliachar mostra ao leitor um consultório sentimental via cartas, dá dicas de educação politicamente incorretas para os filhos, usa os rascunhos do livro para criar um novo capítulo de piadas com as próprias piadas usadas anteriormente. Não há artifício ou espaço não manipulado. Tudo é assunto para o humor inteligente.

Como ele mesmo dizia “humorista bom é o que traz sempre um sorriso nos lábios dos outros”. Infelizmente há pouco material biográfico sobre Leon Eliachar. Transformando-se em sua obra, o que encontramos são relatos do próprio e de amigos próximos, todos mudando os fatos para gerar a piada. O humorista morreu em 1987, assassinado no Rio de Janeiro, supostamente vítima de um homem rico, marido de sua amante.

Quero iniciar dizendo que o sentido da arte está nos olhos de quem a vê. Digo assim, secamente, pois é um pensamento que me assusta como escritor, mas que mantém desperta a mente diante de obras causticantes como “contos frios” de Virgilio Piñera.

Para que entenda onde pretendo chegar é importante que tenhamos o mesmo ponto de partida, que no caso foi a leitura sem conhecimento prévio da obra. Assim, antes de qualquer comentário, dou a vez a Piñera e aos retalhos de “A queda”, texto que abre “cuentos fríos”.

Dois alpinistas, após uma manobra mal-sucedida, percebem que irão despencar.

“Não dissemos palavra, mas sabíamos que o despencamento seria inevitável. Passado um tempo indefinível começamos a rodar. Como minha única preocupação era não perder os olhos, pus todo o meu empenho em preservá-los dos terríveis efeitos da queda. Quanto a meu companheiro, sua única angústia era que a bela barba, de um admirável cinza de vitral gótico, não chegasse à planície sequer ligeiramente empoeirada. Então pus todo o meu empenho em cobrir com minhas mãos aquela parte de seu rosto coberta pela barba e ele, por sua vez, aplicou as suas sobre meus olhos”.

Neste conto, escrito em 1944, Piñeda deixa claro o que espera pelo leitor (e do leitor). A frase seguinte talvez pudesse ser “ou me ame ou me largue na prateleira, pois é disso que vamos tratar e somente disso”. Sem desmembramentos de tramas, descrições geográficas ou necessidade de contextualizar historicamente os escritos, temos acesso a questões simples de moral e de comportamento humano. Sua agonia pessoal nunca está escondida entre linhas, pelo contrário, aparece vermelha como uma fratura exposta. E se o termo agora parece fora de contexto, logo um significado surgirá.

Juntar poesia e Virgilio Piñeda é contrariar críticos fervorosos, mas me arrisco a adentrar esse universo mórbido com os olhos da poética. Construído em cima do absurdo, o universo de beleza e estrutura peculiar se dá através das idéias e pensamentos das personagens, na maioria das vezes anônimas, que narram as histórias. Longe de ser um escritor de ação, é o tempo psicológico que move cada um de seus textos. Ou haveria ação em “natação”, no qual um homem explica o porquê de nadar em uma piscina vazia?

Mas não se engane imaginando uma leitura lenta, um livro arrastado. “Contos frios” instiga, desperta a curiosidade, provoca um vertiginoso virar de páginas e um ligeiro embrulho no estômago. Usando situações assombrosas descritas com naturalidade, aparente frieza, Piñeda faz com que o único movimento possível seja para baixo e impede o leitor de abandonar o texto antes da luz da compreensão, e aqui repito: diferente para cada par de olhos a espreitar este álbum de fotografias literário. Em um processo de auto-análise contínuo, pelo qual tentava expurgar medos e tentações, o autor desmembra literalmente o ser humano que é, e dá respostas aos próprios questionamentos, gerando novos em quem compartilha deles.

“A velocidade crescia como é obrigatório nestes casos de corpos que caem no vazio. Com algum esforço, é preciso reconhecer, íamos salvando: meu companheiro, sua bela barba, e eu, meus olhos. Em cinco trechos perdemos: meu companheiro, a orelha esquerda, o cotovelo direito, uma perna (não recordo qual), os testículos e o nariz; eu, a parte superior do tórax, a coluna vertebral, a sobrancelha esquerda, a orelha esquerda e a jugular”.

Quando seu corpo torna-se pouco, o instinto antropofágico leva o leitor até “A carne”, para acompanhar cidadãos que cortam bifes do próprio corpo para comer. Podem ser lascas da nádega esquerda, lábios, bochechas, peitos ou até o macio do dedão do pé, o que importa é saciar a fome. Ou a um hotel, para a exibição do álbum de fotografias de uma senhora por meses e meses ininterruptos, o que obriga os hóspedes a comerem e defecarem sem sair do lugar. Se em alguns textos Piñeda põe de lado a escatologia, a insensatez não o abandona jamais. O importante é entender que as peças não estão lá por acaso, há sim uma simulação do acaso, com um toque de destino digno de Buñuel e seu “Anjo Exterminador”. Homens em metamorfose virando bonecos e palhaços tristes que transformam seu público em palhaços risonhos são reflexos da visão ácida de um escritor sem paciência para o mundo, cercado de poucos amigos.

“Aproximadamente a uns dez pés de planície, a vara de um lavrador enganchou-se graciosamente nas mãos de meu companheiro, mas eu, vendo meus olhos órfãos de todo amparo, devo confessar que, para eterna, memorável vergonha minha, retirei as mãos de sua bela barba cinza, a fim de proteger meus olhos de todo impacto”.

Piñeda viveu de 1912 a 1979. Sua obra, solo fértil para o humor negro, encontra-se viva em sebos e estantes variadas, com páginas amareladas e cheiro de mofo, do jeito que suas personagens gostariam de ler.

 Virgílio Piñera “Contos Frios” ed. Iluminuras 1989, original de 1956.
Virgílio Piñera   “Contos Frios”   ed. Iluminuras   1989, original de 1956.

Christopher Nolan chamou atenção com o thriller Amnésia. Foi um filme barato, 9 milhões (de dólares) de orçamento, que arrecadou quatro vezes mais e gerou assunto por meses entre os cinéfilos. Guy Pearce sofria de amnésia e para não ser enganado pelos outros deixava bilhetes e tirava fotos para si mesmo. O passo seguinte deu a Nolan um orçamento de 46 milhões, e uma bilheteria de 113 milhões. Insônia subverteu o bom-mocismo de Robbin Williams, dividiu opiniões e atingiu suas metas. Como o seu antecessor, o filme analisava a mente humana, suas arapucas e desvios psicológicos. O projeto seguinte não podia ser mais acertado. Batman Begins custou a fortuna de 150 milhões, ganhou elogios de fãs, críticos e vovós cinéfilas e fez 300 milhões de bilheteria, fora a receita de DVDs. Depois de tantos batmans carnavalescos, lá estava um bom ator (Christian Bale) vivendo um cavaleiro das trevas legítimo.

O Grande Truque

Assumindo novamente roteiro e direção, Nolan convocou Michael Cane e Christian Bale para contracenar com outro figurão das adaptações de quadrinhos, Hugh Jackman. Para dar um toque feminino, escolheu Scarlett Johansson, atual musa de Woody Allen (ela e Hugh Jackman estão em Scoop, próximo filme do diretor). A equipe de peso estava armada, só faltava a boa história. Com um currículo desses, não há dúvida de que Nolan se sairia bem, dando de presente ao público um dos filmes mais inteligentes do ano.

O grande truque (The Prestige) conta a história de Alfred e Robert, dois mágicos rivais que competem por público na Londres vitoriana. A rivalidade começa quando ainda eram assistentes de palco e um erro de Alfred mata a esposa de Robert. O jogo de gato e rato faz com que um sempre tente desvendar/estragar o truque do outro e então roubar o seu público pagante, uma boa metáfora para o atual mundo corporativo.

Depois das reviravoltas, Alfred cria um número arrebatador (O homem transportado) usando uma novidade da época – a eletricidade – e Robert fica obcecado, investindo cada segundo para descobrir o segredo. As sutilezas de roteiro revelam aos poucos que o conflito é gerado por sentimentos distintos. Alfred vive o próprio ato e é visceral na tentativa de se superar. Robert quer apenas ser melhor que o concorrente, vencer a disputa pessoal que começou com o acidente. Esse embate ideológico constrói o terreno sólido para a revelação do final do filme, que provavelmente irá gerar variados debates filosóficos.

O Grande Truque

Como em todo trabalho do diretor, quem manda em The Prestige é a obscura mente humana. O que os personagens trazem dentro de si vale mais do que as aparências, o que se adéqua perfeitamente ao tema da mágica. Apesar do filme não se basear nos twists (é um drama acima de tudo), falar dele é correr o risco de estragar as surpresas, e ninguém quer ver David Copperfield sabendo o segredo no truque da serra. Por isso, só mais um comentário. Na cena que abre o filme, Cutter (Michael Cane) mostra um truque para uma menina. Ele coloca um passarinho na gaiola, coloca a gaiola debaixo do pano, esmaga a gaiola, retira o pano, a gaiola some, o passarinho retorna em suas mãos, encantando a menina. A verdade esta lá, mas ninguém assiste mágica para ver o truque, e sim para ser enganado. O roteiro de O grande truque é assim, mágica.  Tudo óbvio para o inconsciente, mas ignorado pelos olhos atentos do espectador.

Destaque para a versão bêbada de Hugh Jackman (será que um dia ele se livra dos estereótipos?), para o preciso Christian Bale (à altura de Ralph Fiennes?) e para a participação especial de David Bowie como o cientista maluco Telsa.

Rogério Batalha é poeta. Desconhecido, vem editando seus livros quase que marginalmente. Madureira, Cascadura e Penha (mas não só) são os territórios por onde circula. Pertence, com mais propriedade diria que pertenceria, como quer certa inteligência nacional, a uma das metades da cidade partida. Tem lançados e postos em circulação dois livros: Melaço e Anfíbios. No primeiro, Batalha escreve um belo poema, marcado pelo impacto da chacina de Vigário Geral e pelo que tal chacina provocou, com o surgimento do movimento Afroreggae.

“Sagacidade é saber farejar delícias”. Emblemático e diferenciador, o verso, com que abre o poema, serve de mote para a constituição das diversas diferenças que anoto em sua escrita. Ao contrário do que propõe a partitiva inteligência, acerca da divisão da cidade, o que se verifica na poesia de Batalha se constrói a partir do amálgama das diversidades, de modo surpreendente.

Se a visão da cidade partida cinde a percepção do olhar sobre as manifestações culturais do espaço urbano; se, no além túnel, a arte recebe a chancela do popular; se a inteligência brasileira tem a necessidade de “gostar” de tal arte, muita coisa se perde e em várias sentidos. Deste logo, o rótulo arte popular, arte do subúrbio, arte das favelas esconde uma dignificação exatamente daquilo que não é popular e empurra o julgamento do popular para uma aceitação acrítica. É inaceitável que tal aceitação acrítica se transforme em moeda de troca, ou, com maior crueldade ainda, em uma estética própria, localista, como se um redivivo regionalismo (re) fundasse a arte como expressão sociológica, como arte de combate – ou coisa que o valha –, distanciada das questões estéticas. São diversos os livros e também as músicas que simplesmente se exaltam por esta expressão localista. Não tem sentido, por exemplo, exaltar toda e qualquer arte naïf por ser arte naïf. Há uma grande arte naïf e há também uma horrorosa arte naïf. Há os belos quadros de Nelson Sargento e há aqueles dos retratistas de rua. Não basta, portanto, pertencer ao conceito popular/naïf para que a manifestação artística se torne aceitável.

Batalha tem a vantagem de saber disto. Sua poesia, embora fortemente enraizada, busca outra percepção, outro diálogo. Não se aceita como representante estanque do localismo, nem do ferrolho – imposto pelos que “gostam” da arte popular – de uma poesia frágil, porém bacana. Senão, leia-se em Melaço:

Os cambaus, esse mundaréu é meu!
Perebento e muquirana é a mãe!
Eu não sou do seu naipe!
Eu tenho gogó mermão!
Anchova é o caralho!
Eu sou é enchova de dentes afiados!

Sutilezas. Cambaus – peça triangular que se põe no pescoço das cabras para evitar que pulem as cercas. Anchova/enchova – a cerca lingüística ultrapassada pela significação mínima ao nível da expressão. A relativa abertura da medial /ã/ reescrita pela nasalização entre dentes, realiza, com uma concisão de miniaturista, o que o poema anuncia no plano semântico – a quebra das fronteiras. E a ela acrescenta não só a auto-noemação, enchova, como também a rejeição à nomeação que, de fora, tentam lhe impor, anchova.

A partir desta dupla significação, o poeta mostra os dentes afiados, se acrescenta em força e qualidade e requer para si a vasta possibilidade da sagacidade:

Podre podre
Presidiário
Podre podre
Crucificado
Podre podre
Amortalhado
Podre podre
Desumanizado
Podre podre
Torturado
Podre podre
Entulhado
Podre podre
Desovado
E mesmo assim, Afroreggae.

Atentem para o “e mesmo assim”.

Não é uma sistemização formalista mas a troca de um diacronismo por um sincronismo. Em vez de um antes, há um ao mesmo tempo, em vez de um passado, seria um presente (só que não é, como veremos depois.)

Pode ser apenas porque se trata de um instrumental ainda novo para a arte. E isso tornaria esse diacronismo mais aparente do que com outros materiais. Mas é também uma questão de como somos hoje, e a arte – essa ou outra – espelha isso.

A exposição de novembro de 2006 do Centro Cultural Telemar – que agora se chama Oi Futuro – traz oito famosos artistas em um mesmo tipo de instrumental artístico, o tecnológico. São reflexos ou projeções. Não a coisa em si, mas o reflexo ou sua projeção. Sendo que já seria bem difícil definir ‘a coisa em si’. Então, há um eco de Baudrillard ecoando naquelas escadas.

Ou de Bakhtin, ao analisar as vozes múltiplas dos romances de Dostoievsky. Falava ele de “uma pluralidade de consciências de igual valor”.

E de fato, os oito artistas – Antonio Dias, Daisy Xavier, Laura Erber, Miguel Rio Branco, Paulo Vivacqua, Roberto Cabot, Thiago Rocha Pitta e Tunga – por estarem juntos, exibem uma interdependência, tanto mútua, uns com (ou contra) os outros, quanto em relação à voz de uma curadoria, a da Lígia Canongia. Ao mesmo tempo, se submetem a uma ruptura. Não que não pesquisassem, uns mais, outros menos, antes, as novas tecnologias. Mas pelo fato de estarem juntos – e com o compromisso de mostrarem reflexos e projeções – é como se abdicassem, por pouco que seja, de uma linha pessoal para estabelecerem a forma desse espetáculo conjunto. É um espaço compartilhado em vez de um tempo individualizado. Outra vez. É, como já foi dito, uma marca do nosso tempo (sem ironia).

Reflexos e projeções postos nas mãos de oito consciências de igual valor. Há um grau de intercambiabilidade, se é que tal palavrão existe. São um pouco intercambiáveis. Um pouco, não muito. São escolhas individuais em como formalizar uma ética que, essa, é mais ou menos igual para todos. Ou, pelo menos, que todos adotaram provisoriamente para fazer essa exposição e que é a ética dos atos que coexistem lado a lado, simultâneos, ininterruptos. Não um só processo, uma só discussão sobre o que é bom (bonito?), o que é ruim. Mas muitos, tipo uma sopa borbulhante. Uma ética/estética não mais claramente perceptível, mas fluida, mutável. E que acontece no espaço, não na história. E em um espaço que uniformizou seus vestígios, sem identidade geográfica. Isso não quer dizer que as obras não tenham individualidade, mas que elas foram criadas a partir de parâmetros e condições que independem do que existia até então.

Sem questionamentos.

A não ser em dois casos: Miguel Rio Branco, Paulo Vivacqua.

Epilectronic, de Miguel Rio Branco
Epilectronic, de Miguel Rio Branco
O primeiro fez a instalação Epilectronic (junção de pileque epiléptico eletrônico) com o lixo tecnológico – placas, monitores – envolvendo suas projeções computadorizadas. O segundo fez Deserto, uma areia onde se enterram amplificadores e partes de aparelhos sonoros, na frente de uma tela onde não há projeções, muda.

Ambos usam a tecnologia criticamente, incluem um tempo no maravilhamento atemporal. É uma novidade.

Deserto, de Paulo Vivacqua
Deserto, de Paulo Vivacqua
Pois há um problema com reflexos (mais de um). O “igual valor” de que falávamos fica comprometido se houver reflexos primários e secundários, um reflexo de outro reflexo, em uma diluição não perceptível se as luzes forem, como são sempre, sedutoras ao olhar. E, caso o reflexo do reflexo esteja lado a lado com o reflexo, digamos, mais consciente, autoral, esse reflexo “imitador” não terá igual valor de consciência do que o outro, seu modelo.

Aqui, o problema fica teórico. Não há imitações, claro, e para saber disso bastava ler os nomes dos oito, sem ver. Mas há reflexos secundários e auto-reflexos. Roberto Cabot usa suas linhas sinuosas, já apresentadas no MAM em fevereiro desse ano. Tunga refaz sua fantástica Laminadas Almas. Ambos acrescentam particularidades, aperfeiçoam conceitos em algo já feito anteriormente. Antonio Dias usa o já clássico tríptico de telas lado a lado com uma mesma imagem em pontos de vista diferentes. A mesma coisa faz Daisy Xavier com mãos que acariciam a borda de um buraco, vistas de frente e de costas. Laura Erber usa uma idéia já vista no Emoção Art.ficial do Itaú de São Paulo em agosto, onde Camille Utterback e Romy Achituv apresentaram o Text Rain, feito em 1999.

Thiago Rocha Pitta, seguindo seu tom lírico, apresenta um trocadilho visual. Sua cascata, que desce a montanha, é similar à fumaça que a montagem de sua projeção coloca subindo do mesmo ponto da tela.

Todos em looping.

Várias dessas obras representam situações de pré-evento, evento esse que nunca chega: o homenzinho nunca consegue pegar todas as palavras que caem à sua volta, as mãos nunca acham o que procuram. É por isso que não se trata de um eterno presente. É um eterno futuro. Parado. As coisas, perdão, os reflexos, não ‘são’. Indicam algo que está por vir, eternamente. E nessa não-existência, fogem de um fim não desejado. É importante essa promessa de um algo mais, de um novo reflexo, maior.

A exceção fica em Vivacqua e Rio Branco, que se põem a favor da causalidade, da temporalidade.

E como o estar lado a lado obriga à uma relação dialógica – não de confirmação mútua mas de mútua suplementação – a exposição afinal resulta, toda ela, em um interessante questionamento do que seja a liberdade artística. É certo que a ausência de eventos causadores dos reflexos e projeções significa uma liberdade, já que não há determinismo de espécie alguma. Mas se tudo coexiste e se influencia mutuamente sem aspirações a uma conclusão, será preciso usar um novo leque de significados, estar aqui também, no uso da palavra arte, em um zero sintagmático.

Pensamento positivo: não é a primeira vez que a arte mostra essa mudança do entendimento da sua matéria-prima, o tempo e o espaço. Na Renascença também houve o registro artístico de algo escandaloso: o tempo clássico, helenístico, não era mais capaz de incluir o futuro que as mudanças tecnológicas da época traziam. Lá era o contrário. Saía-se da eternidade dos fundos não determinísticos, abstratos, e entrava-se nas paisagem finitas, de horizontes mensuráveis. Agora volta-se a um infinito.

E com isso vem o lado ruim desse particular estar-no-(não)mundo: ninguém morre de vez, mas também ninguém vive muito.

(*) Comentário de Laura Erber, recebido por email de 22/11/06: Elvira, tenho lido as notícias sobre arte e novidades quentes no seu site. Mas olha, não posso concordar com essa identificação total entre meu trabalho (exposto na Telemar) e o trabalho da chuva de palavras da Camille Utterback e do Romy Achituv. Se eles têm em comum a chuva de palavras por outro lado são movidos por questões muito distintas. O meu gira em torno da questão da nominação, da auto-nomeação. A chuva inicial é uma solução visual para a entrada em cena das palavras, o que está em jogo é a relação entre um corpo sem identidade e a ação de apropriar-se de um nome que o singularizaria.

Evandro Carneiro

Evandro Carneiro raramente expõe suas esculturas. Esta é uma boa oportunidade, não perca!

“A exposição é uma releitura de cabeças já existentes na minha trajetória. Selecionei esculturas realizadas em diversos momentos da minha obra. Modifiquei, fiz cortes, agreguei e repaginei, reduzi algumas e ampliei outras. [...] Diferentemente do corpo humano inteiro, que se justifica por si só e que tem uma complexidade de soluções formais e inúmeros vetores plásticos facilitadores da criação, a cabeça, fechada em si mesma, precisa de um caráter, um temperamento e uma história convincente que a justifique na imaginação do artista. Mesmo que esta história seja efêmera e acabe no exato momento em que a obra é concluída. Para então começar sua grande viagem na cabeça dos que a vêem”. – Evandro Carneiro

Evandro Carneiro

Marcia Barrozo do Amaral Galeria de Arte
Shopping Cassino Atlântico, Rio de Janeiro/RJ
Abertura: 09 de novembro de 2006, às 18h
Exposição: 10 de novembro a 02 de dezembro de 2007
Entrada Franca

Poses de Ricardo Daunt, como todo bom livro, tem histórias internas e externas. Por dentro são 15 textos que se dividem em contos e novelas, do lado de fora são 30 anos desde o primeiro livro e 15 anos longe das livrarias. Esse longo período de gestação influenciou tanto a feitura do livro, quanto influencia a leitura. Saber que lá está um percurso de quinze anos de vida torna mais intrigante a conexão livro-leitor. “Existe a pose do homem solitário na poltrona, a pose do artesão exigente, a pose do objeto de museu”, diz Daunt. Em cima desse primeiro registro capturado – a situação síntese – o escritor compõe com precisão os recortes de vida dos personagens e explora locações, tempos e situações que nos levam a desbravar sentimentos próprios e alheios.

“E você ficou sobre os joelhos, e depois se sentou sobre os calcanhares, as cordas de suas coxas retesadas, uma das mãos tocando de leve minha perna, a outra, alheia, um pouco abaixo das axilas” – 5 monólogos tradicionais.

Ricardo Daunt - Poses Poses não é uma obra estática nem no conteúdo nem na forma. O primeiro retrato jamais se repete no segundo, o que ecoa é a complexidade dos personagens, às vezes próximos de nós, às vezes deslocados para outra realidade, unidos ao nosso olhar por uma ponte crítica metafórica. Logo no conto que abre o livro, nos deparamos com o universo da estranheza, acompanhando um ourives que transpõe o perfeccionismo e vive o próprio ato, num paralelo ao filme The Prestige. A sua busca pelo corte perfeito encontra ecos no passado amoroso, e o rubi, no lugar do coração, pulsa e se mistura às emoções. Essa interface entre criador e criatura é sintomática em Poses, um sinal de que a crítica é também autocrítica.

No conto Ix, o humor se une ao quebra-cabeça. É uma ficção científica de brincadeiras entre significante e significado, que gera a nave Laborex, os monitores Gossipex, a estação Descartes e uma importante decisão. No gabinete de Ralph, um dos pontos altos, um herdeiro revive a história da família Osborn por meio de fotos e legendas de um álbum. É um conto sensível que recria uma época industrial de relações de poder elaboradas e sensíveis às leis sociais, com o rigor forçado da estrutura familiar valendo como moeda de respeito.

Outro destaque é La rosa blanca. Visual e poético, o conto leva o leitor para a Cuba pré-Fidel Castro e mostra sua influência sobre uma família. O limiar entre ficção e realidade é quase lírico. Enquanto o charme do país funciona de pano de fundo, Daunt tece cuidadosamente a personagem Lenita na sua descoberta do mundo.

“Nas raras vezes em que o Ralph de carne e osso cruzou meu caminho, tive a nítida impressão de que seu olhar me acusava de me haver apropriado de algo que lhe pertencia com exclusividade. Mudamente eu também o acusava, porque ele interpôs em nossa virtual relação uma distância que jamais seria vencida”. – O Gabinete de Ralph.

Ricardo Daunt tem um currículo extenso. Com Poses, encerrou a tetralogia Ciclo Urbano, que conta ainda com Homem de prateleira (1979), Grito empalhado (1979) e Endereços Úteis (1984). É autor de Manuário de Vidal e Anacrusa, entre outros. Um breve resumo de sua biografia já daria uma novela curta, repleta de reviravoltas, encontros e desencontros com a vocação de escritor, contato com diferentes culturas e viagens pelo mundo, talvez um reflexo da proposta estrutural de Poses. Vislumbrando o sumário de passado e os projetos do futuro, uma coisa é certa, Ricardo Daunt está em atividade contínua, explorando as variantes mais atrevidas de seu número, assim como Fausto no conto Mágico.

“A sua rebeldia contra os críticos é mais um problema metafísico seu, do que uma crise de consciência deles (…) Ora, se a arte é resultado de um agregado de decisões técnicas conseqüentes, cabíveis, complexas, tomadas por quem assina, ela é necessariamente um objeto cognoscível”. – Blake versus Claude.

Ricardo Daunt, livro Poses, ed. Via Lettera.

Você lembra de Lambada – o filme? A floresta amazônica estava sendo destruída por uma multinacional americana. O homem mau debocha dos índios, enquanto derruba árvores. Do meio da tribo surge uma voz feminina “Stop!”, e o homem mau fala “você sabe inglês? estou impressionado”. A jovem é uma princesa indígena, branquela, maquiada, longos cabelos negros, com vestidinho de malha. Disposta a salvar seu povo e a Amazônia das garras do homem mau, ela se inscreve em um concurso de lambada e vai parar nos Estados Unidos. Antes de partir, aparece na floresta dançando a suposta lambada enquanto os índios cantam “capoeira, capoeira”.

Olhar Estrangeiro

Partindo do livro O olhar dos gringos de Tunico Amâncio, a diretora Lúcia Murat resolveu analisar o olhar estrangeiro sobre o Brasil e decifrar essa visão clichê cinematográfica. Entrevistando atores, roteiristas e diretores, Lúcia Murat pergunta como surgiram filmes tão ruins quanto Lambada e o que levou os profissionais a apelarem a idéias tão ruins.

O documentário é divertido na maior parte do tempo. Além de Lambada, passamos por Anaconda (serpentes gigantes na Amazônia), Orquídea Selvagem (Brasil do sexo ininterrupto) e Feitiço do Rio, entre outros. Não há como evitar as risadas ao ver cenas de The Producers, em que os bandidos fogem para o Rio e dançam rumba no hotel. Próxima parada Wonderland também soa hilário, com um brasileiro que canta bossa nova em espanhol e leva a namorada ao centro de São Paulo para oferecer flores a Iemanjá (praia!). Em outros momentos, um passeio por Copacabana mostra todas as mulheres de topless e crianças brincando com macacos e araras na areia. Em outro, uma simulação de casamento brasileiro põe uma mãe de santo de “padre”, enquanto os noivos rasgam suas roupas e correm pelados ao redor de uma fogueira.

As respostas capitalistas não chegam a surpreender, quem manda é o dinheiro, a indústria do cinema sabe disso. Se o maior público fala espanhol, o filme será falado em espanhol.

A atriz Hope Davis e os atores Jon Voight e Michael Caine dão um brilho especial, ela pela visão da sensualidade-topless-caipirinha que tem do Rio de Janeiro (fica abismada ao saber que topless é proibido por aqui), eles pelos comentários inteligentes e bem-humorados. Michael Caine brinca e diz que se os brasileiros fossem todos feios a sensualidade não seria um clichê, depois assume uma postura séria e comenta a desigualdade social.

Chama atenção o discurso desorientando de Tony Plata (Amazônia em Chamas) sobre sua participação no filme que fala de “Chicou Mendes no Brasiou”. O ator defende como pode os clichês, diz que é preferível um ator latino que fale inglês do que um brasileiro que não consiga se comunicar com a equipe.

A sensação ao final do filme é dúbia. É claro que os filmes analisados são patéticos nos erros, mas teriam mesmo que acertar? Como bem diz um dos diretores, filmes sobre um Brasil legítimo não deveriam partir do Brasil? Atire a primeira pedra quem não imagina a Austrália cheia de cangurus, a Inglaterra com neblina, a Espanha com touradas, o México dos bigodes e chapelões e o Brasil… do futebol e carnaval.

Muito se discute a pouca popularidade da música clássica, sobretudo entre jovens. Diante do que parece ser uma bela sacudidela cultural em nossa sociedade de consumo, onde o cinema teve papel central e marcante, sem dúvida, com belas produções nacionais há quase uma década e festivais cada vez mais consolidados, assistimos ao efervescer de livrarias (ainda que muitas vezes se contemple mais o espaço mezanino das lojas e o livro apenas como objeto cênico), cafés literários, uma inesperada renovação de espaços como a Lapa (RJ), uma cena musical – de verve tradicional e popular – como há muito não se via pela cidade em que na década de 80 o chorinho, o bandolim e o samba de raiz foram largados ao mar em nome sabe-se lá do quê.

No compasso dessa dinâmica, estão também as agendas de música clássica. Cada vez mais lotadas, com uma boa variedade de apresentações, senão para todos os gostos pelo menos para todos os bolsos. Muitas revelações, sobretudo no reduto dos instrumentos de corda cujos níveis de competitividade parecem ter superado, por ora, os padrões das acirradíssimas disputas de último nível ao piano de outrora. E não que sua majestade em preto e branco – o piano – tenha perdido a cor, ou sequer a coroa. Nelson Freire, que cada vez mais dispensa apresentações nos mais variados meios, é um incontestável sucesso internacional de público. O piano voltou à cena, e às salas de cinema, em grande estilo, no brilhante e surpreendente documentário de João Moreira Salles, “Nelson Freire”. É daqueles artistas que, sem dúvida, inspiram gerações.

No entanto, mesmo com todo esse vento a favor, assistimos a uma triste realidade: as pessoas não se aproximam da música clássica. Alguns, com razão, argumentam que as pessoas têm medo de música erudita. Que se deixam intimidar pelo eruditismo do meio, pela pompa das salas de concerto. Outros preferem aludir à chamada crise da pós-modernidade, onde o regime da alta velocidade em que ocorrem as transformações culturais impede a vigência de uma identidade contemporânea menos fluídica, mais sólida. Sob essa ótica, não seria encorajador, a partir do que se propaga na atualidade, por exemplo, perder 45 minutos para ouvir uma sonata de Beethoven ou uma sinfonia de Brahms. Outros diriam que nunca fomos tão modernos ou ainda que nunca fomos modernos. A zarpar desse emaranhado conceitual e superficial, proponho quase uma provocação: os jovens adoram música clássica, mas não sabem. Claro, os jovens é uma generalização caduca e muitas vezes desagradável, mas analisem com algum cuidado a estrutura melódica, rítmica e harmônica das mais variadas bandas de heavy-metal, ignorando, por alguns instantes, sua estética ácida e seu visual pesado. Muitos chegam, em letrinhas miúdas, a estampar no rol dos special thanks dos encartes dos álbuns nomes como Mozart, Bach, e Beethoven. Bebem nessas fontes, mesmo. Também não é raro para o rato de sala de concerto, habituado ao isolamento que tal prática às vezes o reserva, surpreender-se com um comentário entusiasmando de alguém que jamais havia ouvido Beethoven ou Chopin e que o acompanhara naquele dia. Quantas vezes me deparo com pessoas que, a despeito da boa educação que receberam em escolas e universidades prestigiadas, mal sabem o nome dos instrumentos mais óbvios.

Contam-se nos dedos as escolas ou universidades que oferecem mais que um grupinho de flautas doces ou um coral bem intencionado. Na Internet, o que se vê é um festival de raridades e de faixas fantásticas e imperdíveis diluídas num oceano de arquivos fragmentados e de origem e rótulos duvidosos, invisíveis aos menos habituados às buscas.

A inserção da música erudita no embalo desse cenário cultural atual, favorável, não se faz apenas pela boa localização de algumas salas de concerto de grandes cidades, nem com a tentativa de apresentar esta arte como a mãe suprema das outras músicas, nem com atitudes da moda como uma sinfonia no “piscinão de Ramos” ou uma presença no Municipal para ver o Nelson Freire e sair na coluna social. Assim como a música é mais que uma melodia, sua inserção na dinâmica cultural vai além de salas lotadas aos gritos de “bravo!”. Nesse sentido, interagir, de algum modo, com a obra de arte torna-se condição fundamental para que, enfim, como em outras atividades, o espectador torne-se ator, intérprete do que vê e ouve. A arte se fazer no espectador. Se Nelson Freire, e outros artistas, inspiram gerações, que sejam inspirados também gerações de espectadores. Está claro o papel desafiador da Educação que se constrói aqui. Não quero popularizar Mozart, Beethoven ou Chopin mais do que suas obras já o fazem. Mas mostrar que eles são música de hoje e não de ontem, já é um bom começo.

Alain Hanel

Alain Hanel.

Dá para notar que a gente gosta do trabalho dele?

O universo literário está cheio de interpretações. Os escritores mastigam o mundo ao seu redor e cospem os resultados no livro. Elvira Vigna é uma escritora peculiar nesse sentido, pois consegue pincelar o fato por trás da interpretação, dando às suas histórias um caráter de realidade raramente visto em outras obras. Mais do que estatura e corte de cabelo, as personagens têm vida, passado, presente e futuro para povoar o livro, sendo tão (ou mais) orgânicos quanto eu e você.

Seu estilo, para quem curte rótulos, é o policial sem polícia. O mistério não nasce da pista largada no chão, da saliva na guimba do cigarro ou do mágico teste de DNA. A densidade narrativa surge do interior dos personagens, do eu incontido que anseia marcar seu território mas decide manter para si (e para o leitor) os próprios mistérios. O policial aqui é o da motivação do crime. O instinto primordial substitui o circo detetivesco já desgastado nos livros e seriados.

“Segue com sua bunda em direção ao caminho das pedras. Chamo por ela. Pára no meio de um cinza quase opaco. Corro até ela. Dou mais um abraço. Ela ri, também me abraça. Depois, o que lembro é de voltar e pensar que tenho que fazer algum plano. É bom fazer planos. Nunca funcionam, mais distrai”.  – Deixei ele lá e vim, Elvira Vigna.

Quando escreveu O assassinato de Bebê Martê, Elvira criou um dos grandes personagens da literatura brasileira. Riquíssimo, Bebê Martê evocava uma aura de sedução e perversidade inerente a todo ser humano que se encara diante do espelho. Em Às seis em ponto, Elvira armou em torno de As meninas de Velásquez a mítica que desnudava pouco a pouco a delicada relação e os segredos de uma família. Coisas que os homens não entendem deu de presente para o leitor um recorte de Santa Teresa, onde Nita, personagem principal, influenciava em sutilezas as vidas que se tocavam com a sua. A um passo, uma obra vanguardista, surpreendeu pela história de vingança que tangencia A Tempestade de Shakespeare e pela estrutura que cuidadosamente trabalha os espaços narrativos, num estilo de dar inveja a Abbas Kiarostami.

Chega então às livrarias Deixei ele lá e vim, seu quinto trabalho policial. Agora a narradora é Shirley Marlone, alguém sem um lugar pré-determinado no mundo. Com o pé fora do quartinho no Vidigal e a idéia fixa de ir para São Paulo – o lugar onde as coisas acontecem, Shirley tenta fugir não mais do passado, mas do presente. Alguém que margeia classificações sociais e sexuais (ela é um travesti), que se confunde da base ao topo da pirâmide, Shirley é do tipo que anda sem querer chegar ou partir. O seu lugar é a viagem, é o caminho, esse meio do percurso que nos atrai. A fuga de si mesmo, na verdade, é a revolta por não entender como tudo parece tão arrumadinho, como as pessoas podem adequar-se às situações (não importa quais), como o loiro do cabelo combina tão bem com o brilho do sol, como os sorrisos podem ser milimetricamente encaixados nos rostos daqueles que se dizem felizes. A fuga de si mesmo é metalingüística da narrativa cíclica de Elvira Vigna, pois põe a personagem numa busca da própria identidade.

Quando decide ir embora e sai do Vidigal, Shirley passa em um hotel na praia para se despedir da amiga Meire. Da favela para a Zona Sul, acompanhamos Shirley em um dia de indecisão, e nos envolvemos com seu jeito agradável de ver o mundo. É inevitável se identificar com a atmosfera do livro, o deslocamento de Shirley pelas páginas. Quem nunca se sentiu fora do lugar ou achou a vida alheia perfeita demais? Quem nunca se sentiu melancólico e depois extraiu humor da melancolia?

Quem lê toda a obra percebe um detalhe curioso. O Assassinato de Bebê Martê e Às Seis em Ponto são livros claustrofóbicos, daqueles em que o carro, o apartamento transbordam sentimentos, lembranças, aquele lodo familiar depositado anos e anos pelo tempo, feito de folhas mortas, fotos queimadas na tentativa de apagar o que não se pode.  Coisas que os homens não entendem coloca a personagem dividida entre dois pontos. É Nova Iorque, é Santa Teresa e uma vida nesse meio. Me lembro das caminhadas pela rua e de um pedaço em que a personagem assiste TV sem som, lá pro final, e a sensação de claustrofobia estava de volta, um momento rápido, minutos antes da conclusão.

Em Deixei Ele Lá e Vim não há mais claustrofobia, não há dois pontos para se perder entre, os cenários são abertos, há uma praia, um deque num hotel, e uma personagem buscando seu espaço, alguém que adoraria estar perdida entre dois pontos, de ter dois pontos, um de bom tamanho, que se sentiria feliz na claustrofobia. Sem ter onde pisar, só com a areia – que nunca é firme – servindo de apoio, um chão e quatro paredes que desabam sobre si podem parecer reconfortantes. É uma ilusão claro, mas uma ilusão desejada quando se luta tentando encontrar um lugar no mundo.

A força de Elvira Vigna está no drible do óbvio. As personagens do livro estão ao nosso lado na rua, no bar, no escritório. A parede imaginária que separa o leitor do território policial é rompida. Ele se identifica com os cenários, encaixa nas situações fragmentos de memória, sons e cheiros do cotidiano. Discretamente, enquanto narra, surge o ciúme, a traição, o bolo de dinheiro. E o melhor é que no meio disso vem o tiro, o assassinato.

“Meire está ali, de pé na minha frente. Sua cara é a única coisa que muda num mundo em que nada muda há muito tempo. Então acompanho cada músculo, é o que há para olhar. Ela tenta, com a bochecha que incha e desincha, a velha brincadeira sobre o aventalzinho. Porque é ridículo, o aventalzinho de babadinho. Mas tanto eu como ela já sabemos disso, e então ela pára. Depois olha para os meus peitos chatos. Ridículos, os peitinhos”. Deixei ele lá e vim – Elvira Vigna.

Novas tecnologias causam grandes transformações. O sucesso no desempenho de uma empresa depende de sua flexibilidade. São frases óbvias, tão clichês quanto a palavra clichê, e trazem conceitos pra lá de antigos. O fato é que a seleção natural não se dá mais na natureza, a pressão ambiental agora é a corporativa e os predadores se tornaram concorrentes que mastigam com fusões e aquisições. Apenas uma coisa permanece igual: a capacidade de adaptação faz a diferença. Fiz então a pergunta: as empresas  mastodônticas terão agilidade para seguir em frente e se adaptar aos novos cenários?

O cinema, mundialmente, passa por uma crise de público. Cada vez menos pessoas assistem filmes nas salas de exibição. Pode ser pela qualidade duvidosa da atual produção (teoricamente duvidosa para atrair mais público) ou por uma mudança global de parâmetros. Para uma indústria de grande porte como a americana, que não é bancada pelo governo, os números serviram de alerta vermelho. A solução surgiu de repente (ou seja, não foi prevista por nenhum grande gênio da indústria), com o fim das fitas de vídeo e o início da era DVD. Um filme que não se paga no cinema consegue um grande volume de vendas ao ir para as lojas no formato DVD. O mesmo fenômeno salvou alguns seriados hoje importantes, como o 24 horas. Com uma audiência abaixo do nível aceitável, teve uma venda tão expressiva em DVDs que sobreviveu e se firmou como um sucesso. Os fatores que afastam o público do cinema são diversos, passam pelo preço, a falta de novidade, o conforto do Home Theater e até o preço da pipoca. Enquanto alguns tentam espremer o último caldo da laranja, outros buscam soluções não predatórias. James Cameron, por exemplo, está desenvolvendo filmes em 3D e espera que os cinemas se adaptem até 2008 (não vamos mais precisar de óculos de papel celofane!). A tecnologia é nova, mas a idéia é antiga. Filmes famosos como Guerra nas Estrelas, Jurassic Park ou Titanic precisaram “inventar” tecnologias para serem feitos. Nada mais natural que venha do cinema o próximo grande salto no entretenimento audiovisual, certo?

No que diz respeito à produção, provavelmente, já que a realidade virtual anda a passos lentos. No que diz respeito à distribuição, é a Internet que dá uma lição atrás da outra. Com a legitimação do Youtube-Google, a cadeia tradicional de produção e distribuição se ramificou. Ninguém precisa mais vender seu produto para um canal de televisão ou negociar eternamente a distribuição em salas de cinema. A Internet, por menos democrática que seja, é uma ferramenta global, interativa, e o público vem valorizando os produtos gerados com esse espírito de “eu poderia ter feito isso”. Ao colocar seu vídeo no Youtube, espere um acesso recorde. Novamente, vale lembrar que o fenômeno já havia ocorrido com a música, a pioneira no desmantelamento de uma estrutura arcaica e ultrapassada. Com a imagem, temos dois limitadores: a qualidade da imagem é baixa e não existe um formato-padrão. Superados esses tópicos, o fenômeno de popularização do vídeo digital será ainda mais intenso.

A movimentação das placas tectônicas acabou desequilibrando diversas indústrias de uma vez só. Muitos usuários resolveram disponibilizar o que não era deles, levando cenas de animes, pedaços de seriados, conteúdos diversos da TV para os sites de visualização. A batalha pelos direitos autorais começa aí. É sua vertente mais óbvia. Você não pode exibir o que é meu sem me pagar. Você não pode tocar a minha música no cinema sem que eu ganhe com isso. O Google está negociando de todos os lados para chegar a novos acordos com gravadoras e produtoras. Tudo o que a princípio é “ilegal”, está saindo da rede. Parte das produtoras já vê a exibição no google como um comercial gratuito. Troca-se o direito autoral pelo marketing (pensou no jabá das rádios brasileiras?). Mas podemos aprofundar um pouco mais o assunto. E se eu fizer um vídeo, recursos e produção meus, distribuição pelo Youtube, 900.000 hits em 3 meses, e numa das cenas colocar uma música famosa? Quando você disponibiliza um trabalho seu na rede, está trocando os direitos autorais pelo acesso ao público, é essa a regra do jogo, que se complica quando a opção é imposta a outros artistas, no caso, o cantor da música famosa que você usou nos créditos finais. O responsável é o criador do vídeo caseiro sem proposta comercial ou o site que o exibe, esse sim com uma visão estratégica de mercado? No âmbito dos processos, o responsável é o que tem dinheiro para pagar a multa, no caso o Google.

Enquanto os artistas buscam alternativas para continuar sobrevivendo de direitos autorais, o setor de propaganda e marketing enfrenta outros dilemas. Temos uma infinidade de produtos disponíveis. Mesmo na TV, a quantidade de programas é enorme. Até hoje, emissoras e empresas viveram dos comerciais, esses minutos perdidos entre um programa e outro e que valem uma fortuna. Mas se o espectador tem inúmera opções, porque ficaria vendo comerciais? Transportemos esse quadro estático e hipotético para a Internet. Não há comerciais. O usuário clica diretamente no link de interesse e assiste o vídeo, ouve a música. Para onde vai esse gerador de receita chamado marketing? A solução, por enquanto, é o “esse programa é apresentado por” na televisão e “este é um comercial de… seu vídeo começará logo após” no mundo virtual. A solução é simples (demais), pois substitui todo o apelo inventivo da propaganda por uma mera citação do nome ou marca do produto, fazendo uma associação ao seriado/filme/vídeo. A próxima etapa, que já ganha força, é a inserção. Não quero mais o seu tempo entre os programas, quero o tempo dentro do programa. Quero o seu personagem aventureiro que recupera relíquias das mãos dos terroristas dirigindo o Toyota 4×4, ajustando sua fuga pelo relógio Watch, e se salvando de um tiro porque tinha uma latinha de valda no bolso. A sutileza dividindo espaço com o estardalhaço.

A mecânica será sempre a mesma. Cada roldana divide a força entre o ponto de apoio e a potência, tornando o trabalho mais simples para os dois lados. Agora, basta adaptar as descobertas de Arquimedes à estrutura sinuosa do mundo virtual e lembrar daquela frase famosa “dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo”.

Leda Catunda
Leda Catunda
Paisagem com flores – 2006
Acrílica sobre tecido
52 x 40cm
Tiragem: 6 exemplares

Acontece na Arte 21 Galeria, no Shopping Cassino Atlântico, Rio de Janeiro / RJ, a exposição N Múltiplos. A exposição fica de 10 de novembro de 2006 a 27 de janeiro de 2007. Curadoria de Ligia Canongia.

Roberto Cabot
Roberto Cabot
Jogativo – 2006
Silicone
Aprox. 90 x 110 cm
Tiragem: 20 + 3 p.a.

Participam da exposição Eduardo Sued, Daniel Feingold, Paulo Jares, Paulo Vivacqua, Niura Bellavinha, Thiago Rocha Pitta, Leda Catunda, Nuno Ramos, Mário Cravo Neto, Ronaldo Grossman, José Damasceno, Antonio Dias, Ernesto Neto, Luiz Zerbini, Roberto Cabot, José Pedro Croft, Carlos Vergara, Georg Dokoupil, Jac Leirner, Laura Vinci, Waltercio Caldas, Mariana Manhães e Maria Carmem Perlingeiro. Alguns dos trabalhos apresentados são inéditos e foram feitos especialmente para a exposição.

Comece-se com uma observação simples.

Pedro Juan Gutiérrez, ao escrever seu último livro, O ninho da serpente, memórias do filho do sorveteiro (2005), reafirma, na contemporaneidade, o privilégio do erótico e sua ligação com o pensamento político. A prevalência do erótico, numa obra como a de Gutiérrez, é fundamental para que se possa compreender o significado que assumiu o discurso do fato político no nosso tempo. Num misto de desencanto e afirmação da precariedade do mundo, Gutiérrez, por habitar um espaço social e político demarcado pelo totalitarismo e pelo isolacionismo econômico, pôde verificar duplamente a face do desencanto. Em sua recusa, expressa em todas as suas obras, por abandonar Cuba; em sua recusa por aceitar essa Cuba invadida pela prostituição e pela corrupção, determina a dupla condenação. Ao mesmo tempo elege o estrangeiro como um não lugar e o lugar como estrangeiro, o sujeito nem aqui nem ali é mais sujeito da história, senão que boneco de um teatro de líderes sem cara, como Octávio Paz (Paz, 1987, p. 62) lê o desencanto da história:

Enquanto leio no México, que horas
Se faz em Moscou? É tarde, sempre é tarde,
Sempre na história é noite e horas mortas .

Solyenitzin escreve, o papel arde,
Sua escrita avança; cruel, a aurora
nos planaltos cheios de ossos.

Fui covarde
Não enxerguei de frente o mal e hoje o século
Corrobora o filósofo:O mal? Um par de
Olhos sem cara, um repleto vazio.
O mal: um alguém nada, um algo nada.

Stalin teve cara? A suspeita
Comeu-lhe cara e alma e arbítrio.

Povoou de medo sua noite desalmada,
Sua insônia deixou a Rússia despovoada.

Sujeito da história, o medo emblemático dos líderes compõe tanto em sua parca visibilidade quanto em sua total invisibilidade um lugar descentrado, cujo discurso se apropria do corpo e, dele fazendo uso, elege-o – seja nos discurso de reconstrução do corpo combalido pela idade, seja no corpo promíscuo da baixa prostituição, do onanismo – como o único espaço possível de um combate previamente perdido. O erotismo de Pedro Juan Gutiérrez é o erotismo do nojo, do gosto pelo nojo, ou ainda, da consciência do sujeito como ser viscoso e repelente. O submundo se redesenha pela impossibilidade e pelo desejo desglamourizado.

Não sei quantas horas depois resolveu parar. Levantou da cama e acendeu a luz. Antes não tivesse acendido.

__ Ai, menino, você me ralou a boceta. Gosta tanto assim?

__ Gosto.

Por fim a vi nua. A barriga flácida, as pernas e as coxas cobertas de varizes, os peitos grandes e caídos, a pele suja e encardida, os dentes amarelos e podres. Olhou para mim com as mãos na cintura e riu:

__ Gosta mesmo de mim? Olhe bem.

E deu um giro, alegre, como uma modelo, como uma ninfa púbere com todas as medidas do cânone grego. Olhei bem para ela e me deu raiva de mim mesmo. Ou asco. Não sei.
(Gutiérrez, 2005 p. 15 -16)

Desglamourização que é também política:

A rotina era dura. Por sorte, um grupinho dos mais espertos descobriu uma bezerra não longe dali. Preta, linda, com uns olhos sonhadores. Era de um caipira que a deixava a noite toda amarrada num bosquezinho junto com a vaca. Ficamos viciados. Quase toda noite íamos, a turma inteira, trepar com a bezerra. A vaca não, porque estava sempre com o cu cagado e, além disso, a vagina era enorme. Mas enorme. A bezerrinha, ao contrário, era um docinho. Pequenininha, apertada, quente e vermelha. Belíssima. Às vezes, éramos até dez. Um atrás do outro. Calculamos que ela recolhia por noite um litro, um litro e meio de sêmen em sua vaginazinha. A juventude de aço tinha de se distrair um pouquinho. Para não ficarmos loucos.

O político liberal havia trazido com ele de Havana uma pequena biblioteca e a colocou à nossa disposição: desde as obras escolhidas de Marx, Engels e Lênin até alguns volumes de Mao e Kim Il Sung. O melhorzinho eram os romances do realismo socialista: Um homem de verdade, A  fortaleza de Brest, Os homens de Panfilov, A estrada de Volokoamsk, os livros de Sholojov sobre o rio Don. Enfim, não havia mais nada. E nem toda noite dava para ir para cima da bezerra, porque senão a gente acabava matando a coitada. Então li aquilo tudo. Sem comentários.