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Category Archives: edicao_0006

lista de artigos da edição 6, ano 2 – março & abril de 2007

É difícil. Estudei longos anos na Ilha do Fundão. Foi época de sufoco. Que professores eram aqueles desnorteados em seus mundos, distantes da massa de 70, 80 alunos que sujos do trote fingiam se conhecer? Desestimulado com as aulas (já bagunçadas no primeiro período por uma greve de cinco meses) eu me escondia na biblioteca, fugindo do formol do necrotério. Talvez porque as paredes de lá fossem de vidro e eu pudesse ver a natureza, me distanciar do concreto estrangulador do CCS, o centro das ciências da saúde. Pomposo de dizer. Foi assim que comecei a escrever, para valer.

Escrevi poesias, muito ruins. Escrevia inspirado por uns quadros estranhos espalhados pelo corredor. No CCS e em outros prédios é assim, você esbarra com arte em corredores com infiltração ao sair dos banheiros que não funcionam. Quando eu olhava para as paredes, buscava nos quadros e nas rachaduras formas de rostos humanos e de animais. Eu tinha uma espécie de certeza delirante de que algumas pessoas se perdiam nos labirintos da UFRJ para sempre, e com o tempo eram incorporadas à arquitetura da ilha. Somava-se a sensação o barulho de gatos que entravam na tubulação do ar condicionado central e não conseguiam sair. Ouvíamos o miado fantasmagórico sem poder fazer nada, sem saber o que fazer. O mesmo valia para as salas de aula do subsolo, sem janela, sem tubulação de ar, sem saída. O teto feito de placas de isopor às vezes se mexia, às vezes escorria sangue. Não era dele propriamente, era dos ratos que corriam nos espaços invisíveis e morriam. O prédio sangrava de outra forma, liberando água de encanamento estourado nas provas de alunos desafortunados. Sempre tinha alguém que tomava o banho de esgoto e ficava um pouco mais próximo da miséria que cerca o centro do saber. Não que não estivéssemos acostumados a pegar ônibus lotado, sentir o cheiro de podre da baía e, emoções antigas, ser apedrejado ao passar na linha vermelha. Na época pedras, hoje balas perdidas. Claro, tinham as drogas. Descobri, atrasado eu sei, que quem quer consegue. As drogas estão dentro e fora da faculdade, os drogados também. Quem se droga não é necessariamente o alienado apolítico. É um cruzamento que dá quatro combinações. O drogado que se interessa ou não. O não drogado que se interessa ou não. Em comum talvez o risinho idiota. As discussões rolam soltas. Todo mundo quer socar a mesa para defender o seu partido, e depois de se formar acabou o mundo, pois é preciso colocar dinheiro dentro de casa. Mas fica a imagem dos que gritavam de felicidade ou tristeza após a eleição. Parece mesmo que tudo vai mudar.

Tempos depois, formado, trabalhei com gente do morro, da favela, de áreas pobres. Se eu falar que eram só tristezas, estarei mentindo, mas elas existiam. Tinha funcionário que mudava de horário, pois se chegasse tarde na favela, morria, toque de recolher. Teve gente que perdeu marido. Assim, morreu. O grupo rival invadiu, pegou o motoboy e sua moto pra ir pra lá e pra cá. O dono da área expulsou o grupo rival. Acusou o motoboy de ser x9 e matou. A esposa nunca encontrou o corpo. Levaram para uma outra favela, disseram. Se quisesse enterrar o marido, o resgate do cadáver era uma arma que não lembro o nome. Ficou ela, o filho dele, a filha de um outro casamento. Cara rico, gente fina, que batia. E dessas histórias dá pra encher um livro. No filme, ajuda a formar o clímax. Na realidade, forma o cotidiano que vai nos carregando como o mar de favela descrito pela personagem, vértice de um triângulo amoroso. Os melhores são sempre entre grandes amigos.

As poesias ficaram para trás, vieram os livros e depois os roteiros. Tive aula com Jorge Duran. Eu iludido com o cinema escapista, ele repleto de realidade em seus roteiros, seja em Pixote, Lúcio Flávio, A Cor do seu Destino ou Achados e Perdidos. Esse último escrito com o Paulo Halm, que faz uma ponta de professor no filme, papel que conhece bem. Tem as atuações claro, a direção, o roteiro, a montagem. Mas o filme não é um conjunto desses elementos, é um sentimento. O meu foi esse que acabei de escrever. O filme não aponta a solução (que aliás ninguém aponta, senhores), ele aponta a dimensão. E nós, perdidos lá no meio, entre o certo e o errado, o preto e o branco, o carrão e a pobreza, a arquitetura e a miséria, o romance e o desejo, o idiota e o interessado.

Aprendi a chegar na minha sala por um único caminho. Burrice. Se no vestibular tivesse prova prática para encontrar a sala eu não teria passado. Só conhecia uma entrada e uma saída. Dava a volta por todo o subsolo, passava pelas salas de máquinas, pelos operários bêbados, uns ratos mais perdidos do que eu, até encontrar meu corredor. Demorei meses para seguir uns amigos e descobrir que bastava descer uma escada, do lado da porta por onde eu entrava. Foi uma descoberta pequena, mas que mudou minha disposição de encarar a faculdade. Besteira de nada. Mudança de caminho.

Coerência, em si, é só um conforto, pois a coisa pode ser coerentemente ruim e aí, o conforto será o de poder perceber rapidamente o ruim.

Em Laís Myrrha, em exposição na carioca Novembro, a coerência se dá a partir de uma visão exata do que é ler/fazer arte contemporânea.

Em um primeiro momento estamos diante da destruição, o que é correto.

Nas paredes, fotos de uma fundação cultural de Belo Horizonte. Dois ambientes, o que foi um auditório, com um palquinho ainda visível em meio a escombros. No outro, o que foi a biblioteca, com os palimpsestos dos volumes marcados nas paredes. Um espetáculo e um conhecimento que se foram. Um detalhe: as marcas na parede fotografada são similares, como se os volumes ausentes tivessem sido padronizados, na morte, em uma só e mesma vida já extinta, em uma dízima periódica que se repete ad infinitum. A exposição se chama “redução ao absurdo” e essa expressão se refere a uma continha de chegar que matemáticos fazem quando contas absolutamente perfeitas, se repetidas, passam a não fechar, a gerar um resíduo que precisa ser eliminado.

Depois há um áudio, a Marselhesa em um compasso muito lento, deformada. O que era marcha guerreira, para frente, no allons-enfants, vira para trás e fica uma marcha fúnebre, de lamento por algo que já se foi.

O Compensação dos erros é um vídeo que mostra um relógio digital e uma mão que tenta desenhar o que o relógio mostra, precisando apagar sem parar os segundos que mudam, um referente impossível.

Laís Myrrha

Laís Myrrha

Metade da galeria é tomada por Teoria das bordas, uma instalação de pó de brita que cobre o chão. O pó, um branco, outro preto, divide pela metade exata essa uma metade da galeria. Andar por cima disso apaga os limites tão precisos.

E aí entra a segunda parte da destruição, que é a criação. Então, nessa arte contemporânea a criação se dá através da experiência. A arte não mais diz algo mas faz algo.

O que foi dito/lido na modernidade, o foi de dois modos, um mais antigo do que o outro. O mais antigo levava em conta símbolos, signos, uma crença de que existiria uma verdade a ser descoberta a partir do sensorial, fosse ele nascido de um referente ou chegando em um. Alegorias, metáforas, conceitos. O menos antigo via o que lá se apresentava, concreto: aquilo era um triângulo, isso aqui uma tinta branca.

Há na contemporaneidade a noção de que se lê algo a cada instante, quem lê fazendo parte da leitura, o objeto não mais separado, detentor de verdades ou identidades claras, assim como o fruidor/leitor também não as detém nem é mais uno, imutável. Se voltar lá no dia seguinte, outra obra acontecerá. Um e outro não mais existindo separados, mas arte sendo o nome do encontro. A arte se fazendo.

Em uma parede branca da galeria há uma porta desenhada, tosca, humanamente.

novembro arte contemporânea
Rua Siqueira Campos, 143 slj. 118
Copacabana
Rio de Janeiro / RJ
(21) 2235-8347

Talvez você ainda não tenha ouvido falar dela. Apesar de ter surgido na onda de Britney Spears e Christina Aguilera, a cantora conseguiu mudar os rumos da carreira e impor um estilo próprio que não gerou imitações. De Can’t take me home em 2000 até I’m not dead em 2006 muitas coisas mudaram. A venda expressiva de Can’t take me home ajudou Pink a escapar do R&B imposto para a mistura soul pop rock funkeada que marca o seu trabalho. O estilo do primeiro cd, tido por muitos como uma jogada de marketing, pode ser explicado pela participação de Babyface, um dos maiores produtores de R&B dos Estados Unidos, que traz no currículo parceiras com Madonna, entre outros. Mesmo com bons resultados, Pink acertou ao mudar e fugir das fórmulas. Sua parceria com Linda Perry, ex-vocalista do 4 Non Blondes (lembra da música chiclete What’s going on?) deu um caráter mais global às suas músicas e rendeu boas vendas no mundo inteiro.

Pink – I’m Not Dead Com admiração declarada por Janis Joplin, Pink tem uma voz forte que não cai no exagero, trabalha bem graves e agudos e sabe que gritos raramente são a melhor solução para uma canção. Seu cd mais expressivo nos Estados Unidos foi M!ssundaztood, que trouxe os hits Get the Party Started, Family Portrait, Don’t let me get me e Just Like a Pill (produzido por outro grande nome – Dallas Austin). Essa última aumentou a força de Pink nas paradas européias, onde conquistou sua maior base de fãs.

Em 2003, Pink apostou em Try This, com produção e sons mais alternativos, que teve receptividade aquém da esperada. O maior sucesso foi Trouble, uma espécie de canção ame-a ou deixe-a com atitude rock e clipe cômico. Pink aproveitou para lançar o dvd Live in Europe (não por acaso, já que por lá as vendas foram melhores do que no mercado americano) e sumir da mídia.

Quando todos davam sua carreira por encerrada, ela voltou com seu melhor cd. Pink assumiu de vez sua atitude bem-humorada e debochada, a começar pelo título: I’m not dead. Seu primeiro single Stupid Girls foi muito bem recebido e rendeu um clip-sátira ao pop americano e a falta de noção de Paris Hilton com a letra:

What happened to the dreams of a girl president
She’s dancing in the video next to 50 Cent
They travel in packs of two or three
With their itsy bitsy doggies and their teeny-weeny tees
Where, oh where, have the smart people gone?

I’m not dead traz parceiras com diversos produtores, incluindo Max Martin (o homogeneizador do pop dos anos 90) e Josh Abraham (Velvet Revolver). Pink conseguiu emplacar na Europa e na Austrália os singles Stupid Girls, a excelente balada Who Knew e U + Ur Hand, que alavancou as vendas americanas. Para acompanhar o dvd Live From Wembley Arena, Pink lançou Leave me Alone, single de vendas digitais que está se saindo bem.

Pink também cantou Lady Marmalade para a trilha de Moulin Rouge e trabalhou com Beck em Feel Good Time, trilha de As Panteras Detonando.

Apresentaram-se na Fundação Eva Klabin, sob o selo da série “5as com música”, na última quinta-feira (19/4), Constanza Almeida Prado, violino, e Sarah Higino, piano. No repertório compositores brasileiros, com destaque para Almeida Prado e Guarnieri.

É incrível como mesmo em ano de efemérides favoráveis, como o centenário de nascimento de Guarnieri, este ano, ainda não haja espaço suficiente para a música nacional. Eduardo Monteiro, notável pianista, distinto docente e pesquisador da Universidade de São Paulo, em recente entrevista a esta publicação assinalava exatamente o que se viu na quinta-feira: músicos muitíssimo bem dispostos a dar espaço à música erudita brasileira, o que é louvável, e cada vez mais comum, mas sem dar o devido valor a esse gênero. Dizia-me Eduardo, em sua entrevista, que isso se deve a inúmeros fatores: falta de gravações suficientes e variadas, medo de alguma resistência do público, hábito ou cultura de montagem de repertório, entre outros outros. De fato, sempre que vou a um concerto com repertório brasileiro, admiro-me muito se a peça tiver mais de 15 minutos. São sempre sonatinas, cantos, prelúdios, estudos, peças de menor envergadura, muito pouco fôlego para parear uma sonata de Beethoven, um noturno de Chopin ou um Hydn ou Liszt. Claro que são pecinhas, muitas vezes, lindíssimas, de forte inspiração ou grande representatividade de um subgênero brasileiro, mas nunca é a toa que peças estrangeiras sempre ocupem lugar de destaque: são, via de regra, peças mais densas, mais profundas, de maior magnitude ou maturidade. Sempre um duelo de um coelho contra um leopardo. Mesmo em Villa-Lobos, onde se tem maior variedade de gêneros de composição, a aposta é quase sempre no standart, no comum, no grande “hit”. Se vão tocar Ernesto Nazareth, é quase sempre Odeon e quase nunca um “Estudos para Concerto” (NAZARETH, E. IMPROVISO. Estudo para concerto. 1ª Ed. p.v. 1922.). Isso só para dar um exemplo generoso.

Não é coincidência, Constanza Almeida Prado é filha do compositor José Antonio de Almeida Prado. Sua “Sonatina”, em cinco partes (allegro, andante, colorido, cantiga e finale) tem um frescor muito agradável, mesmo para ouvidos pouco habituados. Foi executada com bastante competência, sobretudo por Sarah, e aliás isso vale para todo o concerto, discreta e envolvente, deu conta de ritmos quebrados e de leituras atentas com o violino na sua cola. O Guarnieri, que abrira o espetáculo, pôde ficar ainda algum tempo nas sensações dos espectadores, a melodia sem sobressaltos ou reviravoltas envolve-nos em sua estreiteza. A apresentação se seguiu com Chiquinha Gonzaga, uma pecinha, como daquelas que descrevi no parágrafo acima, que sempre agradam. “Polka”, bem como outros tangos, e polkas, sempre com aquela harmonia conhecida, despertando sempre a mesma e deliciosa graça. Foi muito graciosa a interpretação e elegante como deve ser. De todo modo foi uma bela oportunidade para o público ouvir um ritmo diferente nas cordas de um violino astuto para o estilo. De Mário Ficarelli, compositor contemporâneo, apresentaram “Constantia” que, como o nome sugere aos mais atentos, foi dedicada à instrumentista em cena, como ela mesma anunciou. A grande obra da noite, por motivos que dariam uma monografia, foi a quinta sonata para violino e piano de Beethoven, a “Sonata opus 24 em fá maior” conhecida como sonata “Primavera”. O allegro começou muito bem, aquela melodia nos encanta, como um feitiço, como uma mágica. Jamais desperdiçaria um momento tão sublime com comentários técnicos com atenção nisto ou naquilo que não está perfeito. Afinal, o que é a perfeição, nos pergunta a vida, nos instiga a filosofia, nos ensina a história e nos mostra a arte. A não ser, evidentemente, por algo gritante. E foi. No meio da apresentação Constanza cala seu violino e cessa, junto com Sarah, completamente a execução da sonata. Diz ao público que ocorreu um “probleminha”. O público comportou-se como se o auditório fosse uma “House of Lords”, não houve o menor “frisson”. Nem por silêncio profundo nem por chiados malcriados. No entanto, devo protestar à artista que o motivo que ela alegou, a justificativa, para a súbita interrupção não é verdadeiro, nem de longe. Não se alega leviandade ou desonestidade aqui, nem de longe, a conclusão é de ordem puramente lógica (ver nota). Entende-se a inexperiência ou nervosismo da profissional em cena. Sem aqui (jamais!) exigir purismos tolos. Que Constanza (já uma bela instrumentista e ainda de um potencial tremendo, diga-se de passagem) tenha tido dificuldade para afinar seu instrumento antes da sonata que, com algumas notas longas, exigia uma afinação mais rigorosa do que na “Polka” talvez, tudo bem. Já assisti alguns grandes violinistas “apanharem” do violino para colocá-los no tom de concerto. Mas ter alegado que “as cordas estão sentindo um pouco o ar-condicionado” foi uma das explicações mais distantes da realidade que se poderia dar. O recomeço foi vacilante, estéril, pequeno, tanto por parte das musicistas com por parte dos espectadores, principalmente. A inspiração, de ambos os lados, recuperou-se muito a tempo, ainda no primeiro movimento. Menção honrosa ao competente Scherzo e aplausos muito merecidos ao fim do Rondo e do allegro final. Como bis fizeram um tocante Piazzolla, lindíssimo, surpreendente. Qual é a atração fatal que há entre Piazzolla e duos de violino e piano? O tango parece mesmo dar um sentido, um propósito especial, a pares, sejam de dançarinos ou de instrumentos, realiza-se melhor assim. E realizou-se muito bem, não é sempre que ouvimos tango depois de Beethoven sem quase notar o salto e sentir o tranco. Isso poderia ser uma enorme crítica, mas é um imenso elogio!

Assim como muitas vezes é pertinente falarmos de química em artes plásticas é fundamental conhecermos a física da música e dos instrumentos musicais, é interessante saber como eles funcionam pois vão sempre obedecer primeiro às leis da natureza e depois aos comandos do músico. Sabemos que a nota musical, em sua freqüência única, se deve, nos instrumentos de corda e no piano, à densidade da corda, ao comprimento da corda e à tensão a que está submetida. Ao variar a temperatura de um sólido (e de alguns fluidos) verificamos também variação no seu volume: a dilatação. A ascenção da coluna de mercúrio num termômetro exemplifica o fenômeno da dilatação térmica. Então, se a temperatura da corda do violino variar, devido a mudanças na temperatura ambiente, por exemplo, seu volume se modifica, mudando sua densidade e a tensão a que está submetida. O efeito imediato é a alteração na freqüência produzida pela corda e, portanto, na nota musical gerada, revelando-se a desafinação. Não importa se está muito frio ou muito quente, à temperatura ambiente constante uma corda jamais sofrerá qualquer alteração, oriunda do ambiente, que gere a desafinação. A temperatura na sala de concerto, no recital do qual este artigo trata, estava baixa e totalmente constante.

A Hora e a Vez de Augusto Matraga ganha nova versão teatral, sob adaptação e direção de André Paes Leme. Em 1986, a novela de Guimarães Rosa havia sido montada pelo Grupo Macunaíma, numa encenação de Antunes Filho. Na atual montagem, musicada e com grande apuro plástico, André Paes Leme consegue resultado homogêneo: elenco, cenário, figurino, música, direção de movimento e iluminação dialogam harmoniosamente.

Paes Leme mantém o tom épico original, aproveitando a tradição brasileira de contadores e cantadores para narrar (e cantar) a história de Augusto Matraga, famigerado matador, que depois de escapar milagrosamente da morte, muda de personalidade, tornando-se homem piedoso. Nem por isso, seus problemas terminam. Muito pelo contrário. Antes temido e respeitado por todos, Matraga agora parece fragilizado. Mas talvez seja força o que parece fraqueza. O protagonista de Guimarães não é ingênuo, é ambíguo. Sua trajetória evoca o martírio cristão, onde uma maior humilhação diviniza ainda mais o Cristo. Paes Leme explicita essa conexão na cerimônia de lava-pés, quando Vladimir Brichta, na pele de Matraga, lava com humildade os pés de um espectador. O esforço de Matraga para vencer sua natureza é o de todos nós; e Guimarães Rosa nunca perde de vista a nossa responsabilidade pelo que fazemos de nós mesmos e com os outros. Na solidão, é que Matraga pôde avaliar sua vida, amargar suas penas e enfrentar as tentações – inclusive a do ressurgimento do mal em sua alma. Como a flor brotou do pântano, agora o espinho ressurge da beleza plácida das flores mortas – e a fatalidade vai se insinuando, pois todo homem tem sua vez e sua hora. Matraga precisa, como um salvador, exterminar o “matador” dentro e fora de si. E só quando perdoa a si mesmo e ao outro, o herói (ou anti-herói) pode suspirar e morrer.

O tom narrativo da encenação às vezes obriga atores a expressarem fisicamente o que o texto já explicitou, mas em alguns momentos ação e palavra dialogam de forma mais conflitante – o que sempre traz um resultado mais interessante à cena. São bons os momentos em que os atores em coro interpretam a voz da pequena filha de Matraga, representada por uma rosa, ou quando alguns atores surram um peso de carne antes de moê-la e assá-la, como se fosse o próprio corpo de Matraga, ou quando o protagonista e Joãozinho Bem-Bem se enfrentam como dois bois. A narrativa é, algumas vezes, prejudicada pela dicção imprecisa de alguns atores, mas vai aos poucos conquistando a platéia, que envolvida pela beleza visual, pela expressão corporal do elenco e pela música, se deixa conduzir pela prosa muito peculiar de Guimarães. Gloria Calvente tinha, como preparadora vocal, um grande desafio a vencer: tornar o complexo texto de Guimarães Rosa teatral e ágil na boca dos atores, sem que se perdessem as sílabas e a beleza do original. Nem sempre o elenco se sai bem de tal tarefa, mas em sua maior parte, o resultado é positivo.

A direção musical e as canções originais de Alexandre Elias ilustram a cena, sendo muito bem executadas por um elenco afinado e musicalmente talentoso. Os atores cantam e tocam violão, flauta, acordeão e percussão. A direção de movimento de Duda Maia se coaduna perfeitamente com a música de Elias e a encenação de Paes Leme. Os atores respondem bem à tripla direção, atuando com agilidade e carisma. Vladimir Brichta tem boa voz, falando e cantando, e empresta dignidade ao seu Augusto Matraga; embora, nos momentos mais densos, não desça aos profundos abismos de sua personagem. Tenta compensar essa falta com mais expressão corporal do que verticalidade de mergulho. Sai-se melhor nos momentos heróicos, em que se exige dele maior agilidade física, do que nas partes mais introspectivas. Georgiana Góes imprime delicadeza e verdade a suas personagens, particularmente Dionóra. Canta bem, sem demonstração excessiva de uma boa performance. Cláudio Gabriel e Marcelo Flores têm força e carisma; suas personagens caminhando por terrenos mais histriônicos e fisicalizados, com destaque para Joãozinho Bem-Bem (Gabriel) e Quim (Flores). Guilherme Miranda explora a singeleza de Ovídio e a comicidade do jumento e do jagunço. Cyda Morenyx interpreta com serenidade e segurança, em especial a negra Quitéria; enquanto Francisco Salgado é menos satisfatório na sua composição do negro e tem a dicção mais comprometida do elenco. Adriano Saboya e Leandro Castilho completam com dignidade o conjunto. Todo o elenco trabalha numa fronteira perigosa entre o cômico, o trágico e o farsesco, mas raramente resvala para o caricato. Parece haver em todos os atores afinidade com a proposta da direção e esforço coletivo para um resultado harmonioso.

A cenografia de Carlos Alberto Nunes e o figurino de Ney Madeira exploram as texturas e os tons afins ao ambiente sertanejo: o marrom, o ocre, o tijolo; às vezes dando lugar ao vermelho-sangue (nos jagunços) ou ao areia (particularmente nos figurinos dos personagens negros, que cuidam do enfermo Matraga e lhe conduzem à fase mais piedosa). Somente Matraga usa branco e preto, signos óbvios e infalíveis de sua ambigüidade. Carlos Alberto Nunes utiliza também material rústico como lona, carroças, cepos, velas, vasos de barro, crânios de boi para ambientar o sertão roseano. A direção faz bom aproveitamento do material cenográfico e do figurino; optando pela síntese e pelo faz-de-conta teatral, onde uma carroça pode ser mesa, cama etc. Muitas vezes o jogo cênico lembra as brincadeiras infantis, com atores representando bois e jegues, ou derramando água dos potes de barro para simbolizar a chuva, ou quando ossadas são usadas como revólveres. Cenário e figurino são cuidadosos e dialogam entre si, embelezando a paisagem retratada. A iluminação de Renato Machado valoriza a cenografia e o figurino, dialogando com os atores, ora acentuando a ação ora contrapondo-se a ela. A luz se alterna entre o épico e o dramático, como a própria linguagem do espetáculo. Por vezes, dá uma aparência de homens de barro aos atores, o que está de acordo com a exigência dramática do texto de Rosa; posto que estamos sempre mudando, vamos sendo modelados e nunca permanecemos os mesmos. O visagismo de Mona Magalhães completa o quarteto plástico da cena, com maquiagens que lembram xilogravuras.

A análise crítica de A Hora e a Vez de Augusto Matraga poderia terminar aqui, não fosse um curioso senão do fenômeno teatral. Embora as partes tenham qualidade e esmero, e a direção tenha conduzido com segurança o elenco e a ficha técnica, o espetáculo não arrebata nem emociona como deveria. E aí, temos que tentar descobrir o por quê. E, surpreendentemente, a maior virtude do espetáculo parece ser seu maior obstáculo. A Hora e a Vez de Augusto Matraga é bem acabado demais; tudo está muito “bem resolvido”, coreografado, alinhavado, representado, embrulhado e com um laço de fita arrematando o pacote. Forma e conteúdo passam a entrar em conflito. Falta feiúra ao universo roseano, falta o inacabado; a música o embeleza demais, e nos distancia dele. A beleza plástica do espetáculo é quase irretocável, e talvez não devesse ser. O sertão de A Hora e a Vez de Augusto Matraga ficou asséptico demais. E o sertão, em Guimarães Rosa, é sempre uma metáfora do nosso interior, e é, portanto, caótico, pouco organizado, pouco planejado.

É necessário “ouvir” uma peça, abrir-se para o que aquele texto “diz”. E ao espetáculo de André Paes Leme, apesar de toda a excelência das partes que o compõem, talvez tenha faltado ler o sentido da obra de Guimarães Rosa. Estava lá, nas entrelinhas de A Hora e a Vez de Augusto Matraga; estava lá, no desenvolvimento da trama. Matraga abandona a “maldade”, torna-se piedoso e são, mas de sua “bondade” não brota somente o bem. De dentro dessa sanidade, surge com redobrada força a nostalgia do mal, ou melhor, a ambição do mal. O espetáculo de André Paes Leme revestiu a feiúra do sertão com uma lente embelezadora, mas do bojo dessa beleza, brota a necessidade da secura, da fealdade e da pobreza.

Considero de suma importância o equívoco que se estabeleceu, a meu ver, com esse espetáculo. Grande parte do teatro e do cinema que se faz hoje em dia sofre do mesmo mal. O império do Belo, do Bem e da Riqueza pode obscurecer o significado de muitas obras artísticas. O teatro precisa de certa “pobreza”, certa “rebeldia”, certa “marginalidade”. A beleza também tem sua hora e sua vez. Mas a obra de Guimarães Rosa não expõe uma beleza de superfície, e sim um belo que surge inesperadamente – em meio à secura e aridez do sertão. É o próprio Guimarães Rosa quem diz: “querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar”; ou “não se imagina o perigo que ainda seria, algum dia, em alguma parte, aparecer uma coisa deveras adequada e perfeita”.

Da divulgação do evento: “Nesta terça-feira, dia 24 de abril, às 19h30, a cantora e compositora Lica Cecato e o poeta Michel Melamed se apresentam, de graça, no Centro Cultural Banco do Brasil, dentro do projeto “Errática – poema ao vivo”. Lica Cecato apresentará um espetáculo multimídia, onde recitará e cantará poemas de vários autores, entre eles os brasileiros Haroldo e Augusto de Campos, e o japonês Nii Kuni. Além disso, haverá animação gráfica feita por André Valias. A cantora e compositora estará acompanhada de Dodó, que fará bases eletrônicas para os poemas. Um dos grandes momentos da apresentação, será quando Lica tocará Theremin, o primeiro instrumento eletrônico criado no mundo, e que poucas pessoas sabem tocar! Lica Cecato escreve e fala japonês fluentemente e tem um público muito fiel no Japão, onde já se apresentou diversas vezes. O projeto Errática traz, a cada terça-feira, dois convidados para o palco do Teatro I do CCBB, onde fazem leituras de poesias e performances que dão vida às palavras. Além das encenações, há exibição de vídeos, animações e trilha sonora. O projeto tem curadoria de André Vallias e Eucanaã Ferraz.

Lica Cecato

Comemorando cinco anos e já se tornando tradição no interior do Brasil, é um evento esperado por quem conhece e gosta da música de viola, no último dia 16 de abril foram abertas as inscrições para o a quinta edição do Festival Viola de Todos os Cantos. Até 18 de maio podem ser feitas as inscrições e, em 1º de junho, serão anunciadas as 60 músicas classificadas.

Esta edição do festival acontecerá em seis etapas, sendo cinco eliminatórias e uma final. As etapas serão realizadas nos dias 14 de julho em Poços de Caldas, 21 de julho em Araraquara, dia 28 de julho em Varginha, 4 de agosto em Ribeirão Preto, 11 de agosto em Limeira. A final acontece 18 de agosto, em São Carlos. Cada uma das etapas mobiliza toda a região e toda a área artística musical nas categorias raiz e regional brasileira.

Os especialistas em cultura caipira dizem que já não se faz mais necessário o resgate da mesma, mas sim seu cultivo, como valor nacional verdadeiro de manifestação e identidade coisas que o festival se propõe a realizar. O som da viola faz parte da vida cotidiana dos interiores do Brasil e, assim, o Viola de todos os Cantos trás, a cada edição, uma parte dessas culturas e dessas vidas do povo brasileiro para as cidades. O festival é dividido nas categorias Música Sertaneja de Raiz e Música Regional Brasileira, tomando como conceito de Regional Brasileira a música típica de cada região do Brasil, como toadas, canções, emboladas, baiões, xotes, xaxados, guarânias, frevos, rancheiras, chulas, fandangos, etc.

Os festivais de música, no Brasil, surgiram através da extinta TV Excelsior paulista e prosseguiram com a produção da TV Record em seu período de grande audiência. Nas décadas seguintes, com especial destaque para os anos 60, a Música Popular Brasileira revelou grandes compositores e intérpretes através de festivais de música. Mesmo tendo enfrentado uma queda (em número e qualidade) nos anos 80 os festivais permanecem vivos na cultura brasileira. O Festival da Canção de Boa Esperança/MG, por exemplo, é um dos maiores festivais de música do Brasil, há 35 anos e o Festival de Música de Londrina, na sua 27ª edição em 2007, apresenta uma tradição de valorização da educação musical. Durante o festival acontecem mais de 80 concertos e 70 cursos, em diversas categorias. O site Festivais do Brasil, especializado no tema, ressalta a importância dos festivais de música para a cultura nacional como espaços de “da boa música popular brasileira e a divulgação de novos talentos” além de mobilizarem o interior do país em torno de manifestações culturais.

Segundo a EPTV, emissora regional, afiliada da Rede Globo e, com apoio das Prefeituras Municipais de Ribeirão Preto, São Carlos, Limeira, Varginha, Poços de Caldas e Araraquara, patrocinadora do evento, o festival leva a música regional brasileira, também chamada “caipira de raiz” a 299 municípios paulistas e mineiros, através da cobertura do evento.

As etapas do 5º Festival Viola de Todos os Cantos são as seguintes. De 16 de abril a 18 de maio – período de inscrição; 01 de junho – anúncio das 60 músicas classificadas e de 14 de julho (abertura) a 18 de agosto (final), acontecem as seis etapas.

O problema de arte conceitual é quando o conceito não passa. E aí fica sendo o exercício lúdico e solitário do artista para quem aquilo que está exposto faz o maior sentido, mas só para ele.

Ocorre coisa parecida com a obra Basta! que Márcia Clayton expõe na Galeria da Cândido Mendes, em Ipanema, a partir do dia 24/04.

É uma série de tampax colados um ao lado do outro formando como que uma esteira, dessas que, dizem, se você andar por cima massageará os seus pés produzindo relaxamento. Mas não é nada disso, informa a artista. São 400, e o número é importante porque uma mulher tem cerca de 400 períodos menstruais em sua vida – conforme aliás está dito em uma obra ao lado. Mas eu – e acho que ninguém – contará quantos tampax há em Basta! – título que nos remete às faixas que a burguesia do Leblon costumava pôr na janela em manifestos “contra a violência”. E então vem a revelação. Os tampax na verdade estão colados lado a lado para imitar balas de fuzil em um cinturão. E é por isso que a obra está colocada na parede em uma altura um pouco mais baixa do que as outras. Para que fique mais perto da altura da cintura de uma pessoa.

E o Basta! é um basta à submissão biológica da mulher. Ok.

O próximo é o ABCD, seios artificiais onde os mamilos, inexistentes, são substituídos por retratinhos dos dois filhos da artista – que nem eu nem você conhecemos. São 29 pares de seios, idade da artista quando nasceu sua filha mais nova.

Quadrinhos com provérbios com a tradução em braile foram feitos com a ajuda da pessoa para quem a artista costuma dar sessões de leitura no Instituto Benjamin Constant. E isso deve ser importante.

Sempre Livre, de Márcia Clayton

E um grande manto, o Sempre livre, repete em invólucros de absorventes (365) números dos dias e meses, marcando pela cor o ciclo menstrual. Há faixas, por exemplo, onde não há invólucros vermelhos e elas representam o climatério – o que simplesmente não é apreensível.

Mas há um mas.

Márcia Clayton faz séries, repetições, coleciona objetos. Seu manto Sempre livre tem um eco de Arthur Bispo do Rosário. Ela acumula objetos industrializados de uso sexual feminino, coisas que são postas dentro do corpo, sem nunca se integrarem, ou na porta dessa interioridade, que é, aliás, o nome da exposição.

Acumulação tem sempre um aspecto de falta de sentido. Acumula-se o que não se compreende. E os acúmulos costumam ter em si um otimismo. A falta de sentido está no presente, coleções de objetos projetam-se para o futuro quando, quem sabe, algum sentido poderá aparecer. Em seu Provérbios, Márcia Clayton volteia em torno disso: “nomear é dar existência”, “quase tudo o que importa não se sabe falar”, “somos um quadrado, o tempo é que nos esculpe”, “interpretar é trazer à luz”.

Always, de Márcia Clayton

Há um momento involuntário de humor. A peça Always, montada com camisinhas e absorventes, traz um exemplo prático de surdez conceitual. Os invólucros dos absorventes femininos vêm com frasesinhas inspiradoras e bem-humoradas, incluindo a que nos informa sobre o número de 400 ciclos menstruais: “You will have about 400 periods in your life. It just feels like more.”

Já as camisinhas masculinas são as mais diretas possíveis e sua comunicação está em uma única palavra, a marca: ProSex, Durex, Eros, Affair. Ficam perto, uns e outros, e são incomunicáveis.

Aguarrás: Você apareceu pela primeira vez, como autor de Histórias em Quadrinhos (HQ) na coletânea Bang Bang (Gunned Down nos EUA), com “A peixaria da família Lao” que foi um dos destaques do livro, justamente pela arte, sendo assim, quais são suas referências em arte HQ, ou não?

Rafael Grampá: Tenho referência pra caralho. Desde desenho tosco de fachada de mecânica até Gustave Doré. No miolo disso tudo rola cinema, design, artes plásticas. No traço em si, acho que o Crumb, o Jamie Hewlett e o Moebius influenciaram bastante, o Suehiro Maruo e o Patrice Killofer estão influenciando e acho que o Marc Bell vai influenciar. Na verdade o meu desenho ainda tem muito o que melhorar e evoluir. Posso ter muita experiência em desenho, mas HQ é outra coisa. A rotina de desenhar todo o dia o mesmo traço faz com que o seu desenho vá evoluindo naturalmente. Estou curioso pra ver o resultado dessas evoluções, espero nunca estagnar no mesmo traço, pois eu adoro experimentar soluções.

Aguarrás: Ainda sobre “A peixaria da família Lao”, como foi a produção da história? Quando você decidiu que a história não teria balões de fala?

Rafael Grampá: O prazo não era curto, mas eu estava totalmente atarefado naquele mês, quando os Gêmeos me convidaram pra participar da antologia. A história deveria ter 8 páginas, mas no final só rolaram 4. O motivo de não ter balão é simplesmente pelo aperto, pela falta de tempo que eu tive pra pensar no texto.

Aguarrás: Pergunta básica, como você conheceu os Gêmeos?

Rafael Grampá: Eu estava fazendo uma animação pra OLN, um canal de esportes gringo, e eu não ia dar conta de desenhar todos os elementos pro trabalho. Os desenhos do Bá e do Fábio tinham a ver com o briefing, então chamei os dois pro trabalho e acabamos nos conhecendo.

Aguarrás: O autor de quadrinhos nasceu antes ou depois de Bang Bang (Gunned Down)?

Rafael Grampá: O autor só nasce depois de realizar a obra, não é? Mas entendo o que você quer saber. A minha vontade de ser autor de HQ vem de bastante tempo. Desde criança, quando eu lia o Superpato! Já fiz muitas páginas de Quadrinhos desde essa época. Mas nunca tinha acabado nenhuma. Sempre engavetava tudo. Perdi um pouco o interesse no final dos anos 1990, mas agora ela ressurgiu com bastante convicção.

Aguarrás: No seu blog, você fala sobre experiências com materiais alternativos, como cerveja e cinza de cigarro, para o desenvolvimento de uma arte, isso é bem contemporâneo, qual sua experiência em arte contemporânea?

Rafael Grampá: Acho que Quadrinhos é arte contemporânea – uma delas. Até Toy Art é arte contemporânea. O esquema de desenhar com tudo que me dá na telha é só uma mania que eu tenho. Fico testando as texturas só pelo prazer de experimentar, sem me preocupar muito se é arte ou não é. Vou te falar que nunca me preocupei com isso na verdade. Vou fazendo meus desenhos motivado pelo hedonismo, pois é um grande prazer pra mim.

Aguarrás: Você acha que os movimentos artistícos tem alguma influência nos quadrinhos?

Rafael Grampá: Óbvio! E o contrário também. Tudo se influencia mutuamente, isso sempre foi assim.

Aguarrás: Você é graduado? Qual o curso?

Rafael Grampá: Não gosto de salas de aula. Me livrei delas assim que eu me formei do Segundo Grau.

Aguarrás: Como é seu trabalho profissional? O quê acha dele?

Rafael Grampá: Trabalho como diretor de arte de um estúdio super conceituado chamado Lobo. Meu trabalho é criar o look, o conceito dos filmes, resolver o treatment e em alguns filmes, dirigir a equipe de animadores. Trabalhamos com campanhas grandes, muitas delas mundiais, de enorme responsabilidade. Eu trabalho do lado de designers e animadores fora de série, muitos deles artistas e isso ajuda muito você a crescer profissionalmente e artisticamente.

Aguarrás: Foi profissionalmente que você conheceu a tablet? Veio daí suas preferência por hachuras?

Rafael Grampá: Foi quando eu trabalhava numa emissora de TV em Porto Alegre, em 2001. Eu era diretor de arte lá (fazia umas vinhetas na verdade), e tinha uma tablet. Gostei de usar desde que comecei a fazer os primeiros desenhos. A tablet, pra mim, é só mais um instrumento. O bom de usar tablet é que ela evita tendinite, eu nunca tive porque comecei a usá-la cedo. Mas só pra deixar claro, eu só usei a tablet pra fazer a HQ da Gunned Down, porque na época eu morava num apê que não tinha espaço para fazer um estúdio e tive que apelar pra tablet mesmo. O gosto por hachuras vem de fazer isso com pincel e nanquim mesmo.

Aguarrás: Que tipo de complexidade você aceita nos seus trabalhos?

Rafael Grampá: Qualquer uma, desde que faça sentido pro desenho. Mas chega uma hora que o desenho vai naturalmente ficando mais simples, conservando apenas os ingredientes principais do seu estilo. Isso acontece com todo mundo que desenha.

Aguarrás: Você pode dar algum exemplo de trabalho que possa ser visto no site da Lobo, que tenha sua mão? Só se for possível, claro.

Rafael Grampá: Posso sim, vou passar uns links:
Esse foi um projeto pra Diesel, griffe italiana famosa, que chama Diesel Dreams. Nesse trampo eu fiz o concept design e a direção de arte. Os artistas de 3D modelaram meus desenhos de uma maneira que eles parecessem feitos a mão.
Esse foi pro Banco Real. Nesse eu fiz a direção de arte, concept design e direção.
Esse outro foi para a Creme Savers. Nesse eu criei o look, o concept design e resolvi o que acontecia no filme, toda a tranformação do líquido até chegar na assinatura.

Aguarrás: Trabalhando com storytelling, acredita ter desenvolvido uma ferramenta para as HQ? Porquê?

Rafael Grampá: O storytelling não é uma ferramenta de HQ e nem foi desenvolvida por mim. O storytelling é a maneira de contar a história propriamente dita, e sem ela, não existe HQ, nem cinema, nem animação e nem literatura. O certo é que cada um inventa a sua própria maneira de contar histórias e cada storyteller tem um estilo e acho que o meu ainda está bem cru. Tenho muitos experimentos de storytelling pra testar na minha vida e estou excitado com isso.

Aguarrás: Já conseguiu montar sua paleta? Que tipo de cor prevalece no seu trabalho?

Rafael Grampá:
A paleta vai depender do trabalho que eu estiver fazendo. Não tenho uma paleta certa. Escolhi uma para o meu álbum, o Mesmo Delivery, e se limita entre as tonalidades de preto e vermelho.

Aguarrás: Voltando as HQ, você está começando a escrever suas histórias, como está sendo?

Rafael Grampá: Está sendo muito bom. Pra mim, fazer HQ é sinônimo de escrever as próprias histórias. Estou estudando a fundo as formas de roteiro. Até inventei um grupo de estudos de roteiro, onde um bando de cineastas, diretores e quadrinhistas discutem as multifacetas de escrever.

Aguarrás: Você gosta de caminhoneiros? O que Sam Peckinpah tem com isso? Fale um pouco sobre Mesmo Delivery.

Rafael Grampá: Olha, na verdade essa pergunta tá meio gay, mas eu te saquei (ahahahaha)! Eu gostava de um filme do Sam Peckinpah quando eu era criança chamado Comboio (Convoy), que por coincidência foi lançado esse mês em DVD no Brasil. Esse filme me fez brincar muito de caminhoneiro, e resolvi pôr o resultado dessa influência no meu Quadrinho. Acho que caminhoneiros sugerem ótimos personagens.

Bom, Mesmo Delivery é o nome do meu primeiro álbum de HQ, que vai ser lançado na San Diego Comic Con, de forma independente, agora em Julho de 2007.

É um Road Thriller, como eu gosto de chamar.

Aguarrás: O quê achou do convite para a San Diego Comic Con?

Rafael Grampá: Nunca houve um convite pra ir pra San Diego Comic Con. Bom, na verdade o Fábio e o Bá puseram pilha pra eu fazer um álbum e lançar lá, e eles já tinham combinado de estar num booth com a Becky Cloonan e com o Vasilis Lolos, dois grandes artistas de HQ da nova geração, e então eu entrei nessa junto.

Aguarrás: Bem, gostaria de descrever mais alguma coisa que acha importante? Sempre parece que esqueço de perguntar alguma coisa.

Rafael Grampá: Por mim tá excelente!

Pré-início. Maria Antonieta deitada em um divã olha para a câmera. Olha através dela, enxerga o público. Kirsten Dunst enxerga tão bem quanto Marie. Seu sorriso é meio atriz, meio personagem. É uma quebra de diegese. Um sinal de que o filme trará história e linguagem em pesos iguais. Não estamos separados pela tela. Não estamos separados pelo tempo nem pelo espaço. Nem nossas roupas são diferentes. Maria Antonieta vai ao shopping, usa bolsa Prada, tem um cabeleireiro de estimação badalado entre as celebridades, seu penteado lança moda, adora festas, aposta em cassinos e os paparazzi não a deixam em paz. Minto. Maria Antonieta seria assim se vivesse hoje, no mítico e melancólico século XXI das estrelas de rock e de Hollywood. Na corte francesa de seu marido, o Rei Louis XVI, Maria é excêntrica por querer aplaudir as óperas, gostar de arte e de dar festas. Uma menina que casou aos 14 anos com um delfim adolescente e que sentiu o peso da inexperiência na forma de uma guilhotina, 5 anos depois.

Maria AntonietaO filme de Sophia Coppola dividiu críticos. Parte da culpa não é do filme em si, mas do anterior, Encontros e Desencontros (Lost in Translation) que virou cult, ganhou Oscar de melhor roteiro e criou uma expectativa sobre qual seria o próximo projeto. Um desses filmes que todos elogiam, mesmo que a maioria não saiba o motivo. Ele custou US$ 4 (sempre em milhões) e arrecadou quase US$120. Analisando números, o primeiro longa da diretora, Virgens Suicidas, custou US$9 e arrecadou US$10. Maria Antonieta foi seu projeto mais caro (filmes de época geralmente o são), custando US$40. Até agora, arrecadou US$60 nas bilheterias.

Maria AntonietaSophia Coppola fez algumas apostas de risco. Maria Antonieta é longo (2h30) e contemplativo. Muita gente pode sair do cinema achando que nada aconteceu, apesar do roteiro incluir todos os acontecimentos históricos mais conhecidos da história da rainha. Lembre que o que move um filme é a transformação e não a ação. Vemos o casamento com Louis, o envolvimento com um possível amante, o financiamento da guerra americana, os problemas para se adaptar aos modos franceses e a fuga do palácio invadido pela plebe. A guilhotina não existe. É transformada em uma frase e um plano. Só desce na imaginação do espectador com conhecimento histórico. Dever de casa cumprido, resta a tal da linguagem, os pequenos truques de direção, produção e edição que nos lembram de que ali não há verdade crua. Nem ali na tela do cinema nem em lugar nenhum. Marie quer libertar-se dos hábitos da corte e do universo diegético. O truque serve também para quebrar o momento escapista do espectador e obrigá-lo a abandonar a observação passiva, como a protagonista. Nos intervalos negros e nos planos falsamente truncados surge espaço para participarmos da vida da rainha.

O que provavelmente se tornará ícone das escolhas de Sophia é o tênis de Maria Antonieta, largado entre os calçados da época, e a música. Maria Antonieta se esbalda com a corte dançando New Order, Siouxsie and the Banshees e The Cure. Não é mera escolha para compor trilha sonora. A música é um marco preciso de gerações, com um universo de características marcantes que a diferencia dos grupos anteriores e posteriores, passando por zonas de transição. Uma linha do tempo de traço firme que reflete a e se reflete na História.

Maria AntonietaPelo menos era assim antes da fibra ótica. Maria Antonieta sacode a ampulheta. Que droga de mundo. Desde sempre tudo igual. Falta a mídia, mas há a fofoca. Em cada curva do palácio existe alguém falando mal de um outro alguém. Por pouco as duquesas não têm blogs. Há dois pontos distintos do filme, distantes anos um do outro, em que o mesmo diálogo se repete. Duas mulheres falam mal de uma terceira. Mudam as mulheres, o discurso continua. E tem o sexo. A vida dos monarcas gira em torno dele. Louis e Maria Antonieta são cobrados pela geração de um filho. O não-ato sexual é uma vergonha. O rei ter uma prostitua no palácio não. O casal precisa gerar o próximo delfim. A mulher só celebra seu papel dentro da corte após o nascimento do filho homem. Quem se importa com a filha mulher? Quem se importa com um delfim que não faz sexo? Também estão lá as drogas. A cena em que Maria Antonieta e seus amigos passeiam pelos jardins após a festa e o rapé, indo para a beira do lago ver o sol nascer poderia estar em Trainspotting.

Maria AntonietaMaria Antonieta, o filme, propicia uma nova leitura da vida de uma mulher que por muitos anos foi considerada louca, com um ponto final depois. Sophia Coppola conta que ela era uma adolescente, e por conseqüência contestadora, que foi arrancada de hábitos e introduzida em outros, precisando se adaptar. Teve que lidar com as obrigações de uma rainha em seus 15 anos, quando tudo o que queria era se divertir. Seu maior erro, provavelmente, foi o distanciamento, achar que o povo é algo que está lá, lá longe, bem distante dos palácios, isolado no deserto de Brasília. Quando foi até a sacada e encarou pela primeira e última vez as multidões, se tivesse um bom redator de discursos poderia ter mudado o rumo de sua vida e da história. Ao contrário, por mais que lutasse para abrir os próprios caminhos, foi levada na enxurrada de regras criadas por terceiros e que, apesar das guilhotinas, sobrevivem até hoje.

Anátema é o monólogo de uma serial-killer. No palco, Juliana Galdino doa, com precisão, voz seca e face fria à assassina. O texto inquietante de Roberto Alvim perscruta no outro (vítima e público se confundem) vestígios do humano, que tanto mais o é quanto mais se indaga. Espécie rara de humanos, nos tempos de hoje, estes que buscam incansavelmente um não sei bem o que de si, do outro.

AnátemaO texto e a atuação, igualmente raros, são quase auto-suficientes, mas não invalidam a exigência de recursos cênicos, que lhe estejam à altura. As sete velas acesas às vítimas são óbvias demais e a projeção estática das faces mortas fica muito aquém da dinâmica que o texto exige. Diferente é a sonoplastia; os efeitos sonoros, especialmente, a gravação de trechos do “Cântico dos cânticos” lido em aramaico e hebraico, emolduram o monólogo, e conseguem produzir denso contraponto ao drama encenado.

A peça também inaugura o Club Noir, “companhia dedicada à montagem de dramaturgia contemporânea, em espetáculos que dialoguem provocativamente com a atualidade”. Mais do que simplesmente ir ao teatro e fruir uma obra rara, vale aceitar a provocação. A julgar por Anátema, a estratégia da nova companhia é forçar o deslocamento dos sentidos do homem contemporâneo: da superfície das relações, consumistas, intermediadas no nível das mercadorias, para o porão quase sempre obscuro e temerário da busca de.

AnátemaHá um duplo efeito na busca de (assim mesmo, sem complemento). O primeiro é a assunção plena da falta, da ausência, que o consumo só hipocritamente poderia suprir, e o segundo é a imediata projeção do humano para fora da esfera das mercadorias. Explico-me: se busco incessantemente porque (e o que) não há, acabo por reconhecer esta ausência como parte da minha identidade e sei que ela nunca será preenchida seja por um carro novo, um prêmio de um milhão, ou um crime, desses que os noticiários ou Hollywood vendem barato.

Sim, para aceitar a provocação de Anátema, há que se admitir que o homem contemporâneo anda comprando barato o crime e a violência, como se fossem bens de consumo fácil e descartável, mais do mesmo. É sempre mais do mesmo o que garante os grandes índices de vendagem. Há que se ter o crime nosso de cada dia para que tudo se venda, do livro (de auto-ajuda, quase sempre, mas também de sociologia ou de reportagem sobre o crime, a favela, etc etc) ao ansiolítico.

AnátemaSe é assim, por que Anátema, a história de uma serial-killer, leva à crítica, ao deslocamento dos sentidos, e não ao consumo? Ora, a peça escrita e dirigida por Roberto Alvim não é uma história de serial-killer, mas é a história de uma serial-killer. Naquelas, a série é imprescindível, nesta não há série. Naquelas a profusão de assassinatos urde o jogo maniqueísta em que a astúcia e a habilidade do criminoso são inversamente proporcionais à cegueira e inépcia dos agentes da lei. Nesta não há a narrativa da série, mas a reflexão densa a partir da experiência do assassinato como um gesto de amor, de piedade, de entrega e libertação no encontro/confronto com o outro, como a recusa final ao mais do mesmo. Naquelas se garantem as duas horas e pouco de um longa-metragem, ou da dose cotidiana de medo para os que vivem nas grandes cidades. Nesta não há a longa extensão, pelo contrário, o corte é rápido e preciso, para que o expectador saia com mais perguntas, do que com respostas, como quem ouve o eco de uma língua ininteligível. Naquelas, jogos mortais; nesta, um jogo vital.

Anátema“Seriam os serial-killers os heróis da cultura do nosso tempo?” Esta é outra pergunta provocadora feita pela companhia Club Noir. Respondê-la demandaria reflexão mais longa. Concluo apenas com uma hipótese: se os serial-killers forem heróis, em Anátema flagra-se em ação um anti-herói, aquele que não corresponde aos anseios e expectativas de uma comunidade, mas que dilacera e expõe a fragilidade dos valores que a sustentam.

Traço_observações sobre Medéia é o nono espetáculo do Grupo Odradek em seu sexto ano de atividade. Dessa vez o autor e diretor Fábio Ferreira traz ao palco do Teatro de Arena do SESC Copacabana uma releitura do mito de Medéia e Jasão. Não são incomuns no teatro contemporâneo tais desconstruções e releituras de obras ou personagens famosos da literatura, dramaturgia ou mitologia. Chico Buarque, Paulo Pontes, Heiner Müller, Bertolt Brecht, Jean Cocteau e diversos outros já o fizeram. Raro é o dramaturgo contemporâneo que não tenha revisitado os arquétipos clássicos. Muitas vezes, reaparecem conscientes de sua importância histórica, amparados pela psicanálise ou com noção sócio-cultural de suas funções e seus desvios.

Traço_observações sobre MedéiaNum cenário insólito e instigante (do próprio Fábio Ferreira), sobre um pequeno tablado circular rodeado de caixotes de feira, cebolas, ervas, acessórios de vestuário, e sob uma lona-aquário na qual peixes nadam indiferentes durante toda a representação, Jasão – de pijamas e fumando – se anuncia como o herói, com voz pouco animada. Já temos noção de que o tom geral da encenação será inusitado. O famoso herói, já tendo recuperado o Velocino de Ouro, passa agora o tempo realizando tarefas inúteis, e expondo seu fracasso. Espalha e recolhe mapas, tecendo comentários sobre o futuro incerto. Essa parece ser uma das chaves de significação do espetáculo: a incerteza em relação ao que virá. Nossa incapacidade de prever o futuro e nossa teimosia em não compreender as trilhas e exemplos deixados por gerações anteriores ou por nossa própria experiência faz com que repitamos eternamente os mesmos equívocos. Oscar Saraiva acerta no tom que dá a esse novo Jasão, ora displicente ora patético, muitas vezes angustiado com o abismo sobre o qual se debruça. O deboche é sua arma.

Traço_observações sobre MedéiaLogo entrará em cena Medéia, antecipada por seus gritos e desaforos contra Jasão. Quase “afogada” por duas garrafas d´água, anuncia: “eu sou o espetáculo”. O mito virá se lavar em cena? Livra-se de um vestido de noiva que permanece ereto mesmo sem um corpo que o sustente – a instituição do casamento cisma em ficar de pé, mesmo quando não há mais nada que a ampare. Marina Vianna é ágil, irônica e inteligente em sua concepção de Medéia. A personagem vem desabafar, argumentando que Agamêmnon, tendo assassinado sua filha Ifigênia, não é lembrado por esse ato infame; e que Clitemnestra não matou a filha Electra, quando tinha todos os motivos para fazê-lo. Apenas ela, Medéia, é lembrada como a mãe-assassina. O tom desse desabafo é burguês, ocidental, contemporâneo, quase leviano. De vez em quando, cantarola em francês, enquanto Jasão a enjaula com os caixotes.

É mesmo desconcertante o teatro contemporâneo. Seu grande problema, muitas vezes, é a (aparente) falta de significação de alguns dos signos empregados – por que se veste e torna a se despir inúmeras vezes Medéia? Por que coloca uma meia-calça na cabeça? Por que espalha ervas pelo palco? Por ser feiticeira? Ações são feitas e desfeitas sem uma motivação óbvia. Devemos nós exigir motivações para a ação cênica se a realidade parece tão insólita? A vida é incompreensível, a realidade é enigmática, e falta sentido em nossas ações diárias, mas o palco deve suprir a ausência de sentido da vida? A grande pergunta do teatro atual não é mais “o que será que vai acontecer?”, mas “o que é que está acontecendo?”. E assim se dá com Traço_observações sobre Medéia. Aos poucos vamo-nos aproximando – ou pelo menos tentando nos aproximar – das razões que teriam levado o autor a essa releitura. O sentido de algumas cenas é mais obscuro, como o depoimento de duas Medéias – uma delas travestida – onde a verborragia do texto dificulta a compreensão. Mas, de forma geral, não são estéreis as observações sobre essa Medéia.

Traço_observações sobre MedéiaA direção de Fábio Ferreira conduz elenco e ficha técnica por caminhos inusitados, mas o terreno é firme. Consegue extrair imagens plásticas instigantes do mar de signos empregados, e apesar do tom debochado e cáustico, o espetáculo toca no trágico. Ou no seu arremedo contemporâneo. Talvez a peça ficasse melhor sem a cena das duas Medéias caricatas, ou então falte ainda achar o tom certo – se é que ele existe. O figurino de Luisa Macier se afina com a direção, lançando um olhar contemporâneo sobre os mitos: veste Medéia uma camisola preta sob um vestido de noiva rígido, e Jasão – herói cabisbaixo – enverga pijama listrado e chinelos. O coro de senhoras veste-se sobriamente, mas utiliza prosaicos brincos – um detalhe. As Medéias das caixas de remédio usam um debochado vestido vermelho, óculos escuros e perucas – dando um tom caricato à cena menos feliz da peça. A iluminação de Renato Machado é inteligente. Cria sempre novos focos de atenção, nunca é óbvia e aproveita bem a beleza plástica da cenografia e de algumas cenas. A direção musical de Domenico se sai bem: as composições são tocadas por Benjão e acompanhadas por voz e instrumentos alternativos do coro de senhoras da Trupe Solidária. O resultado é interessante – lembrando as trilhas sonoras de filmes de ficção científica e emprestando um tom insólito ao conjunto.

Em cena, Medéia borra-se de baton, usa meia-arrastão e tem, como Lady Macbeth, as mãos manchadas de sangue. Descasca cebolas, mas não sabe mais temperar. Jasão não sente gosto em sua comida. Ela promete: “em breve sentirás”. Sabemos que a heroína tentará envenenar a atual e insípida noiva de seu ex-marido. Mas sua ação mais criminosa será assassinar os próprios filhos para se vingar de um homem que cuspiu fora os caroços depois de ter sugado a fruta até o bagaço. Em cena, dois bonecos de cera – os filhos de Jasão e Medéia – ardem como velas. Medéia perdeu sua imagem, não tem mais a vitalidade da juventude, mas ainda menstrua. Encarna a angústia das mulheres maduras que ainda podem reproduzir. Se soubesse antes, Medéia teria errado tanto? E nós? Mesmo sabendo, repetiríamos nossa trajetória, repisando os mesmos erros? A História está aí para nos provar. Jasão não é menos patético. Sabe que construiu sua fama sobre pouco, ou como ele próprio diz, “sobre a merda e pela merda”. É, portanto, um herói de merda, como tantos outros nossos conhecidos: políticos, empreendedores, líderes, desbravadores. Medéia, culpada e arrependida, ouve os gritos de suas vítimas que não dão paz à sua consciência. Então, ela tem consciência? Não é, enfim, tão bárbara como acusa Jasão. Medéia, a mulher-bomba, é bárbara, no sentido em que não compreende como se constrói a civilização. Alguma semelhança com os bárbaros suicidas dos recentes conflitos internacionais? A qual civilização ela parece bárbara? Bárbara ou civilizada, Medéia parece não resistir às novas investidas de Jasão, que a chama como a uma cadela. Medéia abana o rabo, mas corre como uma loba atrás de um Jasão sem fôlego e acima do peso. O coro aplaude. Os heróis erram de forma compulsiva, mas se perguntam: “isso tudo não era para ter terminado lá embaixo?”. Se eles não sabem amar… saberemos nós? Ou mataremos eternamente o objeto de nosso afeto? Veremos nossos filhos queimarem como velas diante de nossos olhos? Pressionaremos continuamente nossos cônjuges, aos pés do altar? Quando Jasão diz que vai deixar o lar, Medéia ameaça: “Experimenta!” Ah, se soubéssemos antes! Casaríamos? Trairíamos? Jasão revela sua visão: corpos deitados sobre o futuro incerto. Medéia desabafa: “quando acordo, o absurdo é tão grande que eu desejo espancar tudo e qualquer coisa”. Nossas Medéias ainda vivem, dentro e fora de nós.

O filme tem uma vantagem que deve ser dita logo de cara: não precisou pegar poeira barrenta do sertão nem subir favela para ser bom. Ele é urbano, foi ambientado em São Paulo e não apela para o clichê da selva de pedra sufocante.

O cheiro do ralo conta a história de Lourenço (Selton Mello), o dono de uma loja que compra objetos usados. Seu papel como comprador é pagar o menos possível pelo objeto para conseguir um bom negócio. Já quem vende tem a opção de barganhar um preço mais alto ou se deixar desvalorizar pelo papo do comprador. Para lucrar, Lourenço desenvolveu uma frieza técnica que o faz desprezar as histórias dos objetos e o problema de quem está vendendo, frieza levada também para a vida pessoal. Soma-se ao capitalismo de entranhas o encanamento entupido no banheiro, que deixa a loja empestada pela fedentina de esgoto e obriga Lourenço a explicar para os clientes que o cheiro não vem dele, mas do ralo.

O filme avança com a transformação interior de Lourenço (que vez por outra extravasa, transborda, suja o banheiro inteiro) e acompanha suas reações na expansão da fronteira capitalista de seu reinado até a lanchonete. É lá que ele conhece a bunda.

Explico.

Todo dia Lourenço passa lá para lanchar e olhar para a bunda da garçonete, de quem nem sabe o nome, por mais que ela sempre diga. Ele lê, pede sanduíche, reclama da vida, tudo para passar o máximo de tempo perto da bunda. O ápice do ritual acontece no instante (breve) em que a garçonete precisa se abaixar para pegar o refrigerante e então ele vê… Você já sabe.

Enquanto decifra a estranha relação de poder com a garçonete, Lourenço descobre em si o afeto, e isso vai contra o seu método maquinal de pensar e agir. A esquisitice aumenta ainda mais com a compra de um olho de vidro, a quem ele quer apresentar a bunda, fechando a linha de raciocínio da coisificação de um lado e invertendo o pragmatismo capitalista do outro. Sim, a bunda, o olho e o ralo estão intimamente relacionados.

Filosofias de Lourenço: ele come a comida estragada da lanchonete para ver a bunda, usa o banheiro, o ralo entope e vem o cheiro que, de repente, é dele mesmo.

O cheiro do ralo é uma crítica a coisificação do mundo. Na primeira etapa, temos a coisificação dos objetos. O cordão que vovó comprou na Europa e usou a vida inteira e me deu de presente de casamento torna-se vinte reais ou se manda daqui. O violino raro tocado em festas e apresentações internacionais transforma-se em trinta. Trinta e cinco e não se fala mais disso. Saindo da loja, temos a coisificação das pessoas, a bunda sem nome, o olho. O próximo passo, nós sabemos. Vivemos nele. A conseqüência dita natural.

Como dito na sinopse oficial, O cheiro do ralo é pontuado por um humor cínico, que faz rir de nervoso. Selton Mello está perfeito no papel, Suzana Alves faz uma ponta curiosa (ela, a Tiazinha, o símbolo da…) e o roteiro é bem-amarrado e contido, explorando apenas 3 locações (a casa de Lourenço, a lanchonete e a loja, que a bem da verdade é um mundo completo). Destaque também para a fotografia amarelona e a trilha sonora, disponível no site oficial.

Esther Ferrer
performance @ Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.
03 de abril de 2007

imagens em vídeo: cortesia do INSTITUTO CERVANTES (RJ)
câmera: TIAGO SALLES
imagens still & edição: CAROLINA VIGNA-MARÚ
texto: ELVIRA VIGNA
locução em português: ROBERTO LEHMANN
locução em espanhol: FERNANDO ROIG
locução em inglês: DAVID LEHMANN
versões: ESTADO DA ARTE – www.estadoarte.com.br

ERRATA
Tiago Salles nos corrige: “a Esther não passou pela Assembléia Legislátiva e sim pela Câmara Municipal do Rio (Palácio Pedro Ernesto, apelidado de gaiola de ouro devido ao superfaturamento da obra iniciada em 1920).”
Obrigada, Tiago!

Locução em português:

Locución en español:

Voice-over in english:

Aguarrás TV
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CARLA BRANCO
FERNANDO ROIG
FLÁVIA TENÓRIO
PRISCILA BESSA
INSTITUTO CERVANTES
LEAD Comunicação & Marketing
Museu Nacional de Belas Artes

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300, adaptação do HQ homônimo de Frank Miller dirigida por Zack Snyder, tem recebido boas resenhas em todos os países onde estreou, foi considerado pelo New York Times o primeiro filme obrigatório do ano e apenas Rodrigo Santoro sofreu com críticas pontuais, certo exagero de seu personagem. É verdade que o fim de semana de estréia extremamente lucrativo nos cinemas americanos e as primeiras críticas vindas de lá influenciaram os resultados seguintes em uma onda positiva. Parece que ninguém quer se levantar contra a maré de dólares e de sangue. Com apenas um mês de exibição, 300 já se aproxima de US$323 (sempre em milhões) de bilheteria mundial, um ótimo resultado para um filme que custou US$65. Para entender melhor a força dos números, vale comparar com outros blockbusters vindos de HQs.

Superman Returns custou US$270 e arrecadou US$ 391. Motoqueiro Fantasma, custou US$110 e se aproxima de US$215. Sin City, também uma adaptação da obra de Frank Miller, custou US$40 e arrecadou US$158.

300300 conta a história da batalha de Termópilas, em que 300 espartanos comandados pelo Rei Leônidas lutaram bravamente até a morte e conseguiram atrasar a invasão do exército de Xerxes, dando tempo para as cidades gregas organizarem o contra-ataque. Contam pontos para o heroísmo sacrifical “o maior exército do mundo”, “soldados imortais”, “o rei-deus”, “lutadores de garras e presas” e outros qualificadores relacionados ao império persa na época da batalha das termópilas.

300Apesar do potencial financeiro e da aprovação de Frank Miller e da maioria dos fãs, 300 não é um filme fiel às suas origens narrativas e dramáticas. Quando decidiu banalizar a violência para transformá-la em ferramenta gráfica, o diretor esvaziou tudo o que há de humano no HQ, perdendo as entrelinhas. Nas páginas do gibi, não nos interamos dos sentimentos e conflitos dos soldados através de seus olhos, gritos e risadas, mas pelas nuances de cores e sombras dos cenários, no céu sempre vermelho, naquele tom de pôr do sol eterno mantido pelas fogueiras quando a noite cai, não para aprisionar a cor de sangue, mas para manter a densidade psicológica que ele ativa em nosso inconsciente na transformação mítica da luz em trevas. Basta pensar em O grito, de Munch, e perceber no unwelt o turbilhão interior do homem com face de múmia. No HQ, os personagens se comunicam o tempo inteiro com os elementos externos. Zack Snyder passou longe disso. O diretor que chamou atenção com a refilmagem de Dawn of Dead (Madrugada dos Mortos) viu em 300 um novo filme de terror, e substituiu a magnitude do império persa por um circo de horrores. Temos bestas lutadoras, elefantes de guerra, rinocerontes montados, soldados gigantes deformados, homens com mãos de lâminas e os lendários imortais agora com feições zumbificadas, próximas a dos Orcs de Senhor dos Anéis. O gibi foi recriado quadro a quadro, um capricho visual bem-vindo. Mas o espaço vazio entre os quadrinhos que deveria ser desenvolvido na transposição para aumentar a coesão diegética e a teia narrativa foi desperdiçado. Temos de um lado o invasor, do outro o defensor. O invasor é covarde e vem com o maior exército do mundo, o defensor é heróico e leva apenas trezentos homens. O invasor é rico, esbanja ouro e anda sobre escravos. O defensor usa tanga, capa e elmo e trata os soldados como semelhantes. O invasor aceita deformados e dançarinas lésbicas, o defensor chama os atenienses de maricas e expulsa os que não nasceram para a guerra.

300Do que adianta um filme com tão diversa paleta de cores, se a história e os personagens são pretos e brancos? Rodrigo Santoro foi acusado de exagero. Mas as demais atuações estão repletas deles. Veja por exemplo o momento em que o mensageiro negro de Xerxes chega às portas de Esparta. Por que erguer o cavalo negro contra a luz, parado nas duas patas traseiras, fazendo cara de poucos amigos enquanto balança crânios com coroas num chaveiro gótico? É para impressionar quem o recebe ou quem assiste ao filme? Por que colocar Xerxes (que era realmente alto) como um gigante, com dedos que lembram o ET de Spielberg e cobrem o dorso inteiro de Leônidas? A direção de atores também é responsabilidade do diretor. Nos HQs, Xerxes é mais sóbrio e menos deslumbrado. Leônidas mais introspectivo e menos arrogante. Os sacerdotes deformados não exibem seu aspecto grotesco como um trunfo nem lambem a mulher que faz o papel de oráculo para estimular a revelação. Mas como dito, Snyder decidiu apagar as entrelinhas. Snyder falha como diretor, falha como roteirista e mesmo no diálogo com seu diretor de fotografia. Estética é mais do que textura, mais do que pintar abdomens definidos, vide Maria Antonieta de Sophia Coppola. Um bom roteiro não indica na primeira cena quem vai morrer dramaticamente uma hora depois. Uma boa montagem cria unidade e faz desaparecer os cortes entre cenas. Um bom diretor usaria tempo desenvolvendo a narrativa ao invés de congelar as cenas de efeitos especiais, ridicularizando os personagens envolvidos.

300Walter Benjamin aponta em seu Estética da guerra a arte que existe por trás da mortandade. É a guerra que dá um objetivo real para o compacto deslocamento das armas, é o momento em que o homem se funde com a máquina e transforma uniformes e metralhadoras em partes do próprio corpo. Nela se desenvolvem arquiteturas únicas, na organização de exércitos de homens idênticos, no movimento de tanques e aviões. O homem, que sempre domina a máquina e exige dela energia para funcionar, se vê obrigado a uma inversão de valores, transformando-se na energia humana que movimenta batalhões inertes, natural e não-natural trocam de lugar.

300Obviamente, 300 não dialoga com o futurismo, mas dialoga com a guerra e com a geometria, os círculos de 300 escudos, a sincronia dos taques, as ondulações de chicotes, os polígonos de pontas de lanças e espadas, multidões de máscaras iguais (por isso os espadachins de Xerxes eram chamados de Imortais). 300, o filme, cai no abismo das Termópilas entre um ponto e outro. Não aproveita o drama, raso e calcado em gritos, e não aproveita o estético, preferindo braços, pernas e cabeças voando.

Novamente, recorro a Walter Benjamin para explicar o fenômeno de público de 300: “A reprodução em massa corresponde de perto à reprodução das massas. Nos grandes desfiles, espetáculos esportivos e guerreiros, captados pelos aparelhos de filmagem e gravação, a massa vê seu próprio rosto”.

Leia também Os 300 de Esparta de Frank Miller

Uma das coisas que separam a Semana de 22 do que acontecia na mesma época na Europa é que aqui a industrialização e suas conseqüências eram bem-vindas, algo a ser integrado na paisagem bucólica e rural.

Camille Kachani Lá, ficavam pinturas em tons de cinza de máquinas, fábricas e operários, com a industrialização se contrapondo a um ideal burguês de casas de campo, aves. Aqui, a estrada de ferro de Tarsila cuspia cores em meio a bananeiras.

Não se trata mais de industrialização nem de Tarsila mas é daí que vem o fio.

Camille KachaniNa exposição de Camille Kachani na Galeria Anna Maria Niemeyer (Rio de Janeiro), há um vídeo que o artista fez em 2005. Não faz parte, portanto, das pesquisas expostas, grandes montagens de pelúcia e de emborrachado E.V.A. Mas mostra a continuidade de um pensamento. Nesse vídeo, chamado de Pegando tudo, por cinco minutos e meio vemos um carrinho de duas rodas, desses que às vezes acompanham moradores de rua que lá empilham seus pertences. O carrinho e seu proprietário andam pelo centro deteriorado de São Paulo, uma zona de cortiços e comércio popular, o Viaduto Santa Cecília, a Amaral Gurgel. No áudio ouvimos ele cantarolar uma meia frase musical. Há cartazes de compra de ouro. Alguém berra que três pacotes de alguma coisa saem por um real. O carrinho e seu conteúdo estão pintados de dourado. Mas fazem parte de, e andam por, um lixo pós-industrial da megacidade.

Camille KachaniNa exposição, pelúcia e emborrachado constroem objetos desse mesmo entorno: caçambas de lixo, engradados de bebidas. Fora da exposição mas dentro da mesma série, há um pacote de Omo, um liquidificador, uma Kombi, um sanduíche de fast-food. O descarte. Mas aí está. A textura e as cores de Kachani mostram não o repúdio mas uma espécie de acolhimento que fica, tal como o dourado do morador de rua, entre uma ironia e uma real valorização. A deglutição de Tarsila continua, agora com os restos que ficaram da aventura.

Há um outro ponto a estabelecer nobre linhagem na atual contemporaneidade do artista.

Os objetos representados em um único plano têm, todos eles, um dentro.

A fronteira a ser ultrapassada pela deglutição é estabelecida, portanto, não como binária (o lado de cá e o lado de lá) mas como tendo, a própria fronteira, um meio-de-campo híbrido.

Camille KachaniCaçambas, liquidificadores e engradados guardariam em um interior – ou em um anterior (à colocação da pelúcia e do emborrachado) – o registro mais duro e seco de uma geometria que é apresentada amolecida no plano exterior. Mas nem aí. Os poliedros se inserem na forma difícil que o construtivismo adquiriu por aqui. No oco apontado dos objetos só podem existir formas desmanchadas ou em constante transformação.

Camille Kachani

Exposição: até 30 de abril de 2007
segunda a sábado das 10:00 as 22:00h
Galeria Anna Maria Niemeyer
Rua Marques de São Vicente, 52/205
Shopping da Gávea
Rio de Janeiro, RJ
(21)2239-9144

O italiano, do século XVI, foi um boquirroto.

Como escritor, inventou o gênero pornográfico, seus Sonetos Luxuriosos, traduzidos para o português por José Paulo Paes, são um belíssimo documento de sua época e da poesia que nela era produzida. Poesia voltada para o corpo, para a necessidade de purgação do corpo. Poesia moralista, enfim.

Como ser social e humano, era temido pela capacidade crítica da qual se aproveitava para fazer valer suas necessidades. No mundo dos mecenas, no qual se inseria Aretino, o espaço para a afirmação das vaidades e individualidades era mínimo. Mesmo podia-se verificar a inexistência de condições para o surgimento do sujeito tal como o conhecemos hoje. As características pessoais da obra seriam conquistadas pela habilidade que tivessem os artistas de seguirem o cânone. Sem ele, a obra sequer seria concebida.

Dentro desta configuração, a poesia de Aretino se mostra ligada ao que dele se esperava. Propor um sistema em que os defeitos, a condição do humano, se contrapusessem aos ditames da moralidade, não para negá-la, mas para reafirmá-la, para corroborar com o vasto repertório que exibia.

Assim, tomando o escatológico como tema, Aretino buscará, pela exposição crua dos atos obscenos, enquadrar-se na vasta proposição dos temas que se permitiam os escritores de então. Sabe-se que a medida do erótico sempre foi, desde o fim da Idade Média, o texto da sátira. Boccaccio, Rabelais e outros ao buscarem a moralização dos hábitos o fizeram a partir do escatológico. Famosa a página do Gargantua, na qual Rabelais, através de seu personagem, faz uma lista de limpa-cus. Hilariante e mordaz, o capítulo traz uma bela reflexão acerca da utilidade da lógica. A passagem revela sua intenção: chocar o leitor. Diz Gargantua a seu pai, a quem conta a invenção dos limpa-cus:

“__ E você – indaga Gargantua – está disposto a pagar-me uma pipa de vinho bretão se eu o deixar encabulado com a história?”

Ora, a intenção de Gargantua é clara e se desdobra na necessidade do riso educativo. Perceba-se que o choque recebido por seu pai – pater, padre – está na lógica com que defende sua invenção:

“__Pois bem – continua Gargantua – só se limpa o cu quando ele está sujo; ora, ele só está sujo quando se caga; logo, para limpar o cu é preciso cagar.”

A lógica irreprochável de Gargantua tem como endereço as universidades e o tipo de pensamento que nelas se desenvolve. Ao imitar esse discurso, não quereria Rabelais apontar para dificuldade de aceitação do saber desvinculado dos poderes religiosos, da plena aceitação das ações divinas, embora o saber universitário estivesse ainda a ele vinculado?

Se a resposta é negativa ou positiva, no nosso caso, é menos importante, já que o que nos interessa aqui não é a obra de Rabelais, mas a afirmação da duplicidade da sátira. Assim como aponta para a necessidade do riso, a sátira aponta também para a vocação da educação moral. Deve-se, pois, perceber, na passagem do escritor francês, tanto a crítica que aponta para lógica que se inicia quanto para a lógica que a precedeu.

Os sonetos de Aretino, ao contrário, contracenam com a seriedade. A cena dos culhões, conas e adjacências não busca de imediato o riso, mas a capacidade – meio voyerística –  de produzir no leitor uma reação erótica. Dirá Samuel Pepys, acerca de livro (L’École dês filles) que se mantém na linha de Aretino:

“Era um livro poderosamente lascivo, mas maltratou minha piroca, deixando-a erguida uma porção de tempo; precisei descarregá-la uma vez.”

Essa busca da reação erótica irá demarcar o pornográfico e esta demarcação ensaiará o sujeito como centro das preocupações do escritor, anunciando e permitindo que o mecenatismo comece a ser ultrapassado.

Há quase vinte e oito anos não subia à cena uma montagem profissional de Rasga Coração, última peça de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974). Vianinha foi um dos mais importantes homens de teatro que o Brasil já conheceu. Participou ativamente do Teatro de Arena, do CPC-UNE, da vida política e artística de nosso país durante os anos de ditadura militar. É um dos criadores do seriado A Grande Família; tendo reformado a teledramaturgia nacional. Para Rasga Coração, Vianinha e sua amiga Maria Célia Teixeira realizaram uma vasta pesquisa sobre o panorama político e cultural do Brasil nos últimos 50 anos (a peça é de 1972-74) – a maior pesquisa já feita para se escrever uma peça de teatro. Vianinha começou a redigi-la em 1972, mas teve que interrompê-la para se dedicar a escrever para televisão.

Após descobrir que estava com câncer, Vianinha fez um esforço sobre-humano para terminar aquela que considerava sua melhor obra, na qual faz mais uma vez uma auto-crítica ao revolucionário de esquerda. O segundo ato foi criado literalmente em seu leito de morte. Sem conseguir escrever com as próprias mãos, ditava para sua mãe, que datilografava e entregava para o filho revisar. Infelizmente, Vianinha não pôde ver sua última obra encenada. Rasga Coração foi censurada e só estreou em 1979, com a abertura política, sob direção de José Renato e com Raul Cortez no papel principal. Durante cinco anos, cópias mimeografadas do texto censurado haviam circulado entre a classe artística, arregimentando uma grande torcida pela encenação da peça. A morte prematura de Vianinha também colaborou para tornar a montagem da peça um marco na história do teatro brasileiro. Rasga Coração se tornou um ícone da resistência artística à ditadura militar. Vianinha também não viu encenadas suas obras: Papa Highirte, Mão na Luva, Moço em Estado de Sítio.

Rasga coraçãoNunca Vianinha ousou tanto ao escrever uma peça quanto em Rasga Coração. Grande parte da ação se passa no apartamento de Custódio Manhães Jr., apelidado de Manguari Pistolão, onde o protagonista vive com sua mulher Nena e seu filho Luca. Mas Vianinha cria inúmeros outros focos de atenção, pois Manguari se relaciona igualmente com seus fantasmas, personagens que habitam sua memória – o pai, conhecido como 666, fiscal do Serviço de Saneamento do RJ; Castro Cott, integralista fanático; o revolucionário Camargo Velho; e principalmente o amigo, Lorde Bundinha, simpático, alienado, piadista e libertino. Os flashbacks invadem a ação do presente, dialogando com os fatos, relativizando-os. As diversas inserções do plano da memória deixam claro de quem é o ponto de vista da peça: de Manguari Pistolão.

A ação dramática de Rasga Coração demora a se estabelecer, mas quando Luca é suspenso do colégio por ter cabelos compridos, seu pai Manguari Pistolão vê aí uma chance de animar politicamente o filho, incentivando-o a fazer dessa suspensão um ato consciente e revolucionário. Pai e filho entrarão em choque ideológico, pois o filho hippie vai tentar demonstrar ao pai a fragilidade de suas convicções e ações políticas. Apesar de dar justificativas plausíveis para o pensamento e as palavras de ambas as personagens, Vianinha parece tomar o partido do posicionamento do pai. É o próprio Manguari que diz na peça: “Revolução sou eu! Revolução (…) é todo dia, lá no mundo, ardendo, usando as palavras, os gestos, os costumes, a esperança desse mundo”. E logo em seguida, chama o filho Luca de covarde e alienado. Vianinha escreveu essa peça para pôr em xeque uma questão que o incomodava: nem sempre o novo é revolucionário. Nunca foi a favor das drogas, do desbunde, da guerrilha; sempre olhou com desconfiança qualquer ação que pudesse nos alienar da realidade ou que levantasse a hostilidade da opinião pública.

Rasga coraçãoA atual montagem de Rasga Coração, dirigida por Dudu Sandroni, tinha um grande desafio pela frente: provar que o texto de Vianinha não era datado. Para tanto, os diversos discursos políticos que se entrecruzam deveriam se tornar verdadeiros em cena. Infelizmente, nem sempre é isso que acontece no palco do Teatro Glória. Muitas vezes, os atores não conseguem dar sustentação aos apaixonados pontos de vista de seus personagens. Nosso mundo atual não tem mais a esperança de uma reforma política, ideológica, cultural, que alimentava Vianinha nos anos 60 e 70, mas isso não absolve atores e direção de defender esse passado recente, com convicção e coração. O título da peça já nos dá uma pista em relação a isso. A vida, a luta e a morte de Vianinha os obriga a isso. Mas a montagem nem sempre escapa do academicismo, conduzindo o elenco, a cenografia, o figurino e trilha sonora incidental a um tom ilustrativo.

No elenco, Zecarlos Machado tem altos e baixos na pele do contraditório Manguari Pistolão; às vezes o fragiliza demais, tornando-o covarde, auto-indulgente e tolo, parecendo esquecer-se de que é o filtro da ação dramática da peça. Afinal, tudo ocorre na sua memória, no seu apartamento, na sua participação anônima como revolucionário. Algumas vezes emprega um tom teatral demais, o que contribui para distanciar ainda mais seu personagem da afetuosidade do público. Sua artrite convence tão pouco quanto suas convicções. A infância e adolescência de seu personagem não precisavam também de um boné para ilustrar a idade, mas Zecarlos o utiliza. Inclusive na cena, em que aos 19 anos de idade, tenta uma relação sexual com a jovem namorada Nena. O ator empresta maior carga dramática no segundo ato, mas ainda assim, parece ter dificuldade de se apropriar genuinamente das palavras de seu personagem, perdendo vantagem para seu rival ideológico, o próprio filho Luca, interpretado por Pedro Rocha. Pedro é carismático e constrói um Luca crível e convicto, lhe conferindo verdade e paixão. Há simpatia nesse enfarado da civilização e o público parece compreendê-lo melhor. Kelzy Ecard também tem bom rendimento como Nena. Apesar da diferença de idade entre atriz e personagem, Kelzy interpreta com humor e verdade a esposa e mãe dos dois protagonistas. Talvez seja a personagem que menos tenha modificado com o tempo e o atual momento histórico. É o arquétipo da mãe amorosa, sofredora, sempre apta a pôr panos quentes e conciliar os conflitos domésticos. Daí uma comunicação franca com a platéia. Xando Graça estabelece empatia como Lorde Bundinha, mas não dá conta das partes mais dramáticas do papel, nos momentos de doença e morte do grande amigo de Manguari. Seus acessos de tosse não convencem e seu gradual enfraquecimento não encontra eco interior na interpretação de Xando. Alexandre Dacosta defende febrilmente o seu 666, mas em alguns momentos parece destoar do tom geral da peça, resvalando para a farsa. Expedito Barreira também atua farsescamente como Castro Cott. Alexandre Mofati tem uma interpretação confusa de Camargo Velho, e suas falas são geralmente ditas como do alto de um palanque, o que desumaniza a personagem. Tiago D´Avila está caricato como o apresentador do concurso de dança e ainda um pouco limitado como Camargo Moço, faltando-lhe talvez compreensão da dimensão da personagem. Miriam Roia não está bem no papel de Milena, atuando acima do tom e com voz esganiçada. Para alguns atores ainda falta vivenciar, em vez de narrar. Uma coisa é dizer: “estou morrendo”, outra bem diferente é morrer em cena. Na arte dramática, dar a palavra nem sempre é dar a coisa.

O cenário de Lídia Kosovski é eloqüente. O apartamento de Manguari, não exatamente realista, acumula mesas, cadeiras, escrivaninhas, quadros, armários, objetos em abundância, sendo dominado por uma grande persiana, que separa o nicho do revolucionário do mundo lá fora. Jornais no alto da cenografia completam o quadro. Uma grande luminária de boate não tem grande utilidade e dificulta a visão de algumas cenas que se dão no alto do cenário. É um grande painel de referências pessoais e temporais. Atores saem e entram pelos vãos deixados pelo amontoado de móveis, mas a direção poderia ter aproveitado melhor as possibilidades insinuadas pelo cenário. A iluminação de Djalma Amaral dialoga mal com a cenografia, não estabelecendo a criação de espaços alternativos para os diversos focos de Rasga Coração. Alguns efeitos se repetem a cada flashback, e a luz em nada surpreende. Focos laterais tiram o caráter evocativo da peça e enfeiam a cena, deixando sombras – inclusive fora da caixa cênica. Muitas vezes a luz deixa a cena desprotegida, fazendo conviver, numa intimidade confusa, os personagens reais e os fantasmas. O figurino de Ney Madeira é correto, mas em alguns momentos também não consegue escapar de certo tom ilustrativo, particularmente nas roupas dos três personagens mais jovens e no terno verde de Castro Cott. A parte musical (que faz parte da pesquisa de Vianinha e Maria Célia) dá um tom simpático às cenas, acompanhada algumas vezes por coreografias simples mas eficientes de Duda Maia. A trilha incidental deixa a desejar, pois ilustra em vez de emocionar. Vale a pena destacar também a seriedade do programa da peça, que esclarece o espectador quanto aos momentos históricos, gírias e personalidades citados em cena.

À direção de Dudu Sandroni falta talvez uma maior ousadia, e a montagem atual de Rasga Coração não escapa totalmente de um tom acadêmico. Permanece certo caráter didático na encenação, distanciando-se da intenção apaixonada e urgente da última obra de Vianinha. Falta rasgar o coração dos atores para que o coração da platéia seja tocado. Platéia que, em grande parte, não vivenciou os apertos dos anos de chumbo, mas que poderia tomar contato sentimental com essa experiência. Faltou também criar espaços cênicos criativos para a relação entre as personagens. Apesar das pequenas dimensões do palco do Teatro Glória, seria possível aproveitar melhor a cenografia e exigir mais da iluminação. Faltou expulsar de cena certo tom demasiadamente teatral e pouco verdadeiro de alguns atores e alguns falsamente “apaixonados” discursos políticos. Faltou extrair maior peso dramático de algumas cenas. Se a ação complexa de Rasga Coração não adquire vida e verdade em cena, tudo se perde. E os discursos e os atos passam a ser de mentirinha, para ilustrar algo que deveria estar lá e não está. Faltou destacar a personalidade de Manguari Pistolão, tornando-o o real protagonista da peça. Mas em algumas vezes, Luca e Nena assumem o comando da cena. A música final em off, na voz de Kelzy Ecard, parece estabelecer que “o coração e o penar” da canção sejam de Nena, e não de Manguari. Faltou talvez à direção traçar um paralelo maior entre a época de composição da peça e a nossa. Teríamos muito o que pensar e discutir sobre a figura de Manguari Pistolão, visto que em nossa época assistimos ao ocaso do revolucionário, do homem politicamente engajado que acreditava na ação gradual e anônima, na mudança da mentalidade do povo. Em 1974 os artistas ainda se preocupavam com a nação, com o bem-estar geral, com a conscientização do público, e não apenas lutavam individualmente pelo sucesso e pela sobrevivência pessoal. Acreditamos que, além de seu interesse histórico, tenha sido por isso que Dudu Sandroni e sua equipe escolheram Rasga Coração para ser encenada: comprovar a contundência e importância desse autor e desse texto. Senão por que encená-la? Mas a montagem irregular de Rasga Coração entra, muitas vezes, em conflito com a fuga de clichês empreendida por Vianinha. Esse homem lutou para fazer uma análise sincera e intensa de sua posição na sociedade, da sua participação, da eficácia de sua obra. Falta à atual montagem essa mesma contundência. Falta coração. E falta rasgá-lo.

Teatro Glória – Rua do Russel, 632 – Glória
Tels.: 2555-7262
5ª a sábado, às 20h; domingo, às 19h
Ingressos: 5ª e 6ª f, R$20,00; sábado e domingo, R$25,00
Classificação etária: 14 anos
Temporada: até 13 de maio

Anteontem, 03 de abril de 2007, certamente entrará para a história musical da cidade de São Paulo. Radicada há décadas nos Estados Unidos, a pianista Diana Kacso fez um retorno triunfal aos palcos brasileiros. A grande surpresa foi o fato de estar dividindo a noite do recital, na Faculdade de Artes Santa Marcelina, com seu filho Gabriel Panny, jovem violoncelista de 14 anos.

Diana é a pianista brasileira detentora de maior número de prêmios em Concursos Internacionais de Piano. Destacam-se os primeiros prêmios dos Concursos Tereza Careño e Viña del Mar (Venezuela e Chile), os segundos prêmios nos Concursos de Leeds e Gina Bachauer (Inglaterra e Estados Unidos), assim como o 2º lugar e prêmio medalha de ouro do Concurso Arthur Rubinstein de Israel, sendo que a medalha lhe foi conferida pelo próprio Rubinstein.

Já Gabriel, com a pouca idade que tem, não é mais uma promessa, e sim um fato. Membro do Spectrum Quartet e da Sinfônica Jovem de Nova York, apresenta-se no Carnegie Hall.

Na noite desta terça-feira o duo abriu o programa interpretando a Ária das Bachianas Brasileiras nº 2 de Villa-Lobos. Esta obra serviu como um aquecimento para o que ainda estava por vir. Em seguida Gabriel interpretou a Suite II de Bach, violoncelo solo. As Suites para violoncelo de Bach são uma das obras mais importantes e difíceis para este instrumento. É raro escutar um Bach interpretado com tamanha autoridade, mais raro ainda é acreditar que o belíssimo e robusto som vem de um rapaz, ainda menino.

A esta altura, a platéia já começava a entender o altíssimo nivel musical com que seria brindada na noite.

Na sequência foi a vez de Diana tocar solo. Há mais 20 anos ela protagonizou um fato inédito: tocou os 12 Estudos Transcendentais de Liszt em um único recital. Haja energia.

Diana Kacso & Gabriel PannyDesta vez, ela interpretou os 4 últimos da série. “Ricordanza” soou com uma plasticidade rara, uma imensa riqueza de toques. “Allegro Molto Agitato” elevou a platéia às alturas, tamanha energia e disposição técnica. “Harmonies du Soir” encontrou na intérprete uma artista à altura. Com seu início que, talvez, soe como um “avant première” do impressionismo, artista – compositor – instrumento pareciam estar em perfeita comunhão. É um estudo especial, de beleza ímpar, e logo o ar impressionista foi dando espaço aos virtuosismos lisztianos, um dos habitats da artista. Para finalizar, “Chasse Neige”, onde a pianista não poupou o uso de todos seus recursos técnicos e sonoros. Resultado: foi ovacionada por uma platéia quase incrédula com o que estava assistindo. A intensidade de Diana é rara, e, se como o próprio título da obra sugere, o fato foi que Diana realmente transcendeu. E como transcendeu…

Retornando após breve intervalo, mãe e filho interpretaram o “Contemplativo” de Villani-Côrtes, belíssima obra, uma pequena jóia musical.

Para terminar a apresentação, mais uma obra de fôlego para o repertório violoncelo/piano: a Sonata em sol menor, op. 19, de Rachmaninoff. Comentar cada movimento seria extenso, mas com a maturidade e garra de Diana, aliadas à juventude e virtuosismo de Gabriel, o recital fechou com chave de ouro.

Merece nota especial a postura de Gabriel que, por sua pouca idade, ainda tem muito chão pela frente. Entretanto, sua juventude não fica em primeiro plano, uma vez que, ao pegar o arco, aos primeiros sons percebemos que é um artista de raro quilate, já enfrentando os palcos com a mesma magia e eficiência dos grandes violoncelistas.

Aos que não puderam comparecer, guardem esses nomes. Ambos ainda reservam grandes surpresas!

Os desenhos de Marco Veloso são como notas ao pé de página. Comentários que você lê com uma atenção paralela, e que versam sobre passagens sem muita importância da vida de um autor ou sobre uma análise mais detalhada do por quê de alguma construção de linguagem. Pequenos, sem cor, não foram feitos para chamar a atenção.

Mas são o que há. Pois se referem a um texto que não está lá. Nisso, eles não poderiam ser mais contemporâneos. Não há textos grandes, em letras tamanho 12, na contemporaneidade. É uma das possibilidades de definição do que vivemos: grandes temas, leis universais, transcendências do pequeno, eis o que sumiu.

Marco Veloso: distante êxtaseOs desenhos se chamam line of grace, paisagem com castelo e clímax, no silêncio de uma noite azul, pequena glória, distante êxtase. Assim mesmo, com letras minúsculas, a indicar seu tamanho pequeno, sua continuidade de algo que se iniciou antes deles. Um adendo a uma frase anterior. Anterior mas ausente. Além disso, o vocabulário usado nos títulos indicariam a existência de um centro, algo importante que acontece, nuclear. O texto principal. Mas isso é desmentido. Os desenhos são notavelmente descentralizados em sua estrutura. Com ênfase nas linhas diagonais, até mesmo o seguindo a luz central. Neste desenho várias listas em perspectiva se afundam, todas escuras, exceto uma, e esta, mais clara, não é a do meio. As curvas em Veloso são maneiristas, se esvaem para além dos limites do papel. E o branco, que não é branco, é buscado com a borracha, a posteriori. O vazio portanto já foi cheio. Ficou vazio. A página onde havia o texto foi na verdade apagada, não que nunca tivesse havido o texto.

Por serem feitos desse modo, como um comentário sobre algo que se mantém ausente, esses desenhos se tensionam entre dois pólos: foram considerados importantes o suficiente para serem feitos e, ao mesmo tempo, exigem um status de não-importância. É preciso que sejam assim. Apenas sendo não-importantes eles poderiam falar do que falam, da ausência do que é importante.

Sem a lógica associativa de uma linguagem metafórica, os desenhos de Veloso trazem questões de linguagem, não há foco na representação, mesmo quando ela está lá. Ou então, e esta é a segunda linha dessas pequenas notas de pé de página, os desenhos são registros de memória onde também não há ilusão de transcrição da experiência vivida. E não há essa ilusão porque os registros vêm modificados pelo gozo do carvão que passa e passa, livre, sem o arcabouço de um plano esboçado de antemão.

Ao mesmo tempo – e isto é possível apenas porque os desenhos são como são – essa prática enfatiza o acúmulo, o numérico. São vários os desenhos onde as as linhas serpenteiam, são muitas as curvas que saem do quadro. E por permitir a serialização, o leitor/fruidor é convidado a continuar a indexação em mais notas, suas, pessoais, ele (nós) também nesse mesmo mundo que gira sem eixo.

MARCO VELOSO
no silêncio de uma noite azulexposição 04 de abril a 12 de maio de 2007
segunda a sexta-feira das 14h às 19h. sábados das 16h às 20h

Mercedes Viegas Arte Contemporânea
rua João Borges, 86 Gávea Rio de Janeiro RJ
tel 21 2294 4305

Com mais de quarenta filmes no currículo como diretor, fica difícil falar alguma coisa sobre Woody Allen e sua fórmula mágica. A essa altura ou você gosta ou você não gosta. O problema é que Woody Allen também anda com dificuldade para falar alguma coisa nova de si, o que deixa um gosto de mais do mesmo nos personagens que ele interpreta, apesar da precisão na direção.

ScoopScoop dividiu os críticos. Fórmula desgastada, piadas repetidas e outro punhado de frases comuns nas críticas ao diretor. O engraçado é que as reações se devem menos ao valor absoluto do filme e mais à comparação inevitável com o antecessor, Match Point, que fez bastante sucesso de crítica e de público e colocou novamente o diretor no centro das atenções, justamente quando Allen decidiu não atuar e disfarçou suas gags de comédia com um suspense.

Scoop, entretanto, é uma comédia, o retorno ao estilo tradicional. Sondra Pransky, uma jornalista loira burra, participa de um show de mágica (alguém da platéia, por favor) e, ao entrar em uma caixa de desmaterialização, encontra um famoso jornalista recém-falecido que conta um Scoop ou furo de reportagem – o serial killer das cartas de tarô que está matando mulheres é Peter Lyman, aristocrata bonito, exemplar, que usa terno, tem o cabelo bem cortado, esbanja dinheiro e é filho de Lord Lyman.

ScoopSondra fica com a imagem na cabeça e volta depois do show para falar com o mágico Sid, Woody Allen. O mágico debocha da loira até que o fantasma aparece na sua frente e confirma a dica. Desse ponto em diante, o filme se divide em dois. Um deles é o roteiro bem costurado, com caprichos inteligentes e pontos de trama que fazem a história andar para frente. O outro é o palco pessoal de Allen, quase uma stand up comedy com atores secundários sem fala. Como as piadas não encontram contexto para existir, elas interrompem a continuidade dramática, transformam-se em alívio cômico dentro da comédia. Fica a pergunta se no lugar delas não caberiam novas evoluções do roteiro.

ScoopNo filme, Sid e Sondra se apresentam como pai e filha para se infiltrar na alta-sociedade e investigar a vida de Peter Lyman (Hugh Jackman). Allen vira uma espécie de acessório de Sondra (Scarlett Johansson), o famoso acessório verborrágico que atropela os demais personagens. Como a direção de atores de Allen é muito peculiar, Scarlett Johansson e Hugh Jackman, que apesar da fama ainda lutam para dizer a que vieram, ficam amarrados ao tempo de ação de Allen, um jeito certo de sorrir, uma expressão exagerada de raiva, a reação natural às loucuras de Sid. O lado positivo é que Allen em si é uma segunda versão da tragédia grega, por isso não priva os personagens da dicotomia e explora muito bem nuances de personalidade. No roteiro, mantém a criação de rimas que fortalecem a diegese dentro da realidade extrapolada da comédia. Como o assassino usa cartas de tarô, lá está Sid fazendo truques com seu baralho. Allen também busca associações entre a morte e a água, utilizando ambos os elementos de diversas formas, a mais óbvia através do fantasma do jornalista (que para voltar ao mundo dos vivos e escapar de Caronte mergulha no rio da morte).

ScoopDeixando as peripécias entediantes de Sid de lado, Scoop pode passar como uma comédia inteligente, que parodia o clima detetivesco usando sua própria estrutura. Se você é fã vai gostar. Se não é, escolha outro filme. Se nunca viu nada de Woody Allen, comece com Poderosa Afrodite.

Entrevistamos o pianista erudito Eduardo Monteiro no dia 25 de março, em uma breve passagem pelo Rio de Janeiro. Gentilíssimo, nos atendeu horas antes de viajar, numa manhã de domingo.

Assista:

Roberto Magalhães, mesmo fazendo enorme sucesso, jamais permitiu que isso o estigmatizasse, engessando a sua criação ou moldando a sua identidade.

“Tornar o simples complicado é fácil, Tornar o complicado simples é criatividade”. Charles Mingus não se referia ao trabalho de Magalhães, mas seria bem apropriado.

Roberto Magalhães: detalhe de “Sonho”, óleo sobre tela, 1,20×1,20m, 2004.

O trabalho de Magalhães é limpo, o óleo dele não empastela, a cor é homogênea, a pincelada firme e precisa. É de fazer inveja: as minhas pinturas são imundas.
Roberto Magalhães: “Auto-retrato pintando…”, óleo sobre tela, 0,50×0,73m, 2003.

O seu “Auto-retrato pintando…” traduz bem a fusão da precisão absoluta, geométrica, de formas precisas e cores limpas com o tema livre, fantástico, de um imaginário complexo e heterogêneo.

Roberto Magalhães: “Origami”, óleo sobre tela, 0,50×0,40m, 2002.

O meu quadro favorito, sem margem de dúvida, é o “Origami”, que me lembra de “O Bibliotecário”, mas não por isso. A recordação de Giuseppe Arcimboldo (1527-1593), aliás, me acompanhou durante toda a exposição. “Origami” é o meu favorito porque é quase um ato falho, um quase auto-retrato: finas, meticulosas e cuidadosas camadas que compõem a figura traduzem perfeitamente, para mim, Magalhães.

Roberto Magalhães: “Carro-forte”, óleo sobre tela, 0,65×0,92m, 1998

Roberto Magalhães não faz opções fáceis ou fúteis. E isso, por si só, já o define.

Roberto Magalhães: “Cidade Moderna”, óleo sobre tela, 1,30×0,81m, 2003.

Classificar Magalhães dentro de um estilo ou movimento artístico não é tarefa simples: claras referências ao maneirismo, com uma escolha de cores pop, com temas do fantástico ao surrealista. Então, esqueça os rótulos e vá vê-lo sem se preocupar com isso.
Roberto Magalhães: “Poeta”, pstel, 0,70×1,00m, 2002.

Roberto Magalhães estava desde 2001 sem realizar uma exposição individual no Rio de Janeiro. A exposição vai até o dia 5 de maio em galerias vizinhas no Shopping Cassino Atlântico, em Copacabana.

Serviço: Roberto Magalhães
Exposição: 30 de março de 2007 a 5 de maio de 2007
Entrada franca

Arte 21 Galeria (pinturas)
Av. Atlântica, 4.240, loja ss 123, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana – Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2227.7280. De segunda a sexta, das 10h às 19h; aos sábados, das 12h às 18h.

Marcia Barroso do Amaral Galeria de Arte (desenhos)
Av. Atlântica, 4.240, ss 129, Shopping Cassino Atlântico, Copacabana – Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2267.3747. De segunda a sexta, das 10h às 18h; aos sábados e domingos, das 13h às 17h.

Em cinco anos, a produtora Zucca Produções realizou oito espetáculos teatrais badalados, um lançamento de CD, dois curtas metragens e um festival de dança. Acaba de receber o prêmio Zilka Salaberry de teatro infantil nas categorias de melhor texto (João Falcão) e melhor espetáculo, e promove um curso de produção cultural que já soma 200 alunos em pouco mais de um ano. Pilotada pelo produtor Júlio Augusto de Oliveira Silva – ou Júlio Augusto Zucca – e pela atriz Gisela de Castro, responsável pela direção e qualidade artística dos projetos, a produtora tem conseguido consolidar uma marca no mercado cultural que associa credibilidade e qualidade artística. E prova que o mercado da arte e cultura é viável para quem tem disponibilidade ao trabalho, dedicação e generosidade. Na pequena sala da produtora, os dois falaram ao Aguarrás.

Aguarrás: Como surgiu a campanha “Primeira Ida ao Teatro”?

O Pequenino Grão de AreiaJúlio Augusto: Essa idéia surgiu em 2004, quando a gente estava preparando o projeto de “O pequenino grão de areia”. Achamos na internet uma pesquisa que falava que tinha um percentual alto de jovens que nunca tinham ido ao teatro, e a pesquisa fazia uma outra pergunta: “dentre essas atividades culturais (festas, shows, etc.) que você nunca foi, se você tivesse a oportunidade de ir, qual você escolheria conhecer?” O teatro era o segundo colocado numa lista de dez ou quinze itens. O segundo colocado nas atividades que as pessoas mais tinham vontade de conhecer e, ao mesmo tempo, o primeiro que as pessoas nunca tinham visto. Ela [Gisela de Castro] estava lendo isso para mim e caiu a ficha: porque a gente não faz um projeto para trabalhar exatamente essa necessidade e essa vontade das pessoas, aliada a essa deficiência cultural da sociedade? As pessoas não vão ao teatro mas elas querem ir ao teatro. A campanha não nasceu como ação social, o objetivo não é inclusão de comunidades mais carentes, exclusivamente. Cumpre esse objetivo porque acabamos achando grupos que nunca foram ao teatro nessas classes sociais. Mas o objetivo era fazer uma inclusão do teatro como produto cultural. No final das contas é um projeto de formação de platéia.

Aguarrás: O que, para quem trabalha com teatro e cultura, é uma necessidade de primeira ordem, não?

Júlio Augusto: Isso faz parte de uma filosofia nossa. A gente não fica sentado, esperando que o público bata na porta do teatro. Todas as nossas produções, desde a primeira em 2003 até a última, procura buscar quem é o público e vai atrás. Então isso faz parte dessa filosofia de mercado. Se a gente vive de teatro, se é o nosso produto, independente de patrocínio – a gente já fez oito peças e só três tiveram patrocínio –, nosso mercado é o público que vai consumir nosso produto. Nada mais natural do que promover ações que aumentem esse público, que criem novos públicos, que criem novos hábitos de consumo.

Ana Carina Santos e Gisela de CastroAguarrás: Acha que há uma certa preguiça no meio artístico-cultural de correr atrás desse público?

Júlio Augusto: Não diria que é uma preguiça, não. Porque todo mundo que trabalha nessa área, trabalha muito. É uma falta de foco. As pessoas estão muito preocupadas em desenvolver seus projetos artísticos, em realizar seus trabalhos artísticos, e esquecem que estamos inseridos numa sociedade de mercado. Então um produto sem ter consumidor não é produto, não acontece.

Gisela de Castro: Acho que as peças têm realmente o seu público alvo. Quando a gente preenche aqueles formulários e bota “público alvo”, sempre acha um pouco chato. Porque é óbvio: todos são meu público alvo. Mas na verdade não é bem assim. Existe, sim, um público específico, um direcionamento. A “Greve de Sexo”, por exemplo, era uma peça feita por jovens e a gente acreditava que o público alvo era esse. Era um teatro a céu aberto, na UFRJ, era uma comédia, muito descontraída, um texto grego bem traduzido e talvez as pessoas mais velhas se sentissem um pouco desconfortáveis de estar ali, na arquibancada. Tinha esse caráter de informalidade, então era para os jovens. A gente focou nisso.

Aguarrás: Então o primeiro ponto é saber para que público você vai falar?

Gisela de Castro: Ou saber o público preferencial. Não necessariamente um público fechado. Porque depois, se a peça é boa, a gente já viu que o boca a boca é que leva o público ao teatro.

Júlio Augusto: Foi assim que surgiu o “Primeira Ida ao Teatro”, uma idéia natural de você formar e atender a uma lacuna que a gente percebeu que existia e tentar estimular que outras produções fizessem isso, que outras ações dessa natureza acontecessem, que isso aumentasse aos poucos, a médio prazo. Acabou que essa ação gerou outros desdobramentos. Como eu falei, ela não surgiu com uma intenção de ser uma contrapartida social, mas funciona muito bem para isso. O projeto vai acontecer sempre que for possível, mas com as crianças ele tem um caráter extra. Tem um caráter não só de formação de platéia, mas de formação de indivíduo, de uma pessoa mais bacana. Uma pessoa que consome arte tende a ser uma pessoa mais interessada em questões mais importantes da vida. Eu acredito nisso.

Gisela de CastroAguarrás: E uma pessoa que produz e trabalha com arte deve ter esse foco nas “questões mais importantes da vida”?

Júlio Augusto: Não necessariamente, acho que cada um busca atender suas necessidades.

Aguarrás: E para vocês dois?

Júlio Augusto e Gisela de Castro:
Para a gente é importante.

Júlio Augusto: A gente se preocupa com o nosso conteúdo artístico, mas como não sou artista, não venho da área artística, a minha participação na produtora é mais de mercado: a Gisela cuida mais do artístico, eu cuido mais do mercado. Para mim, o produto artístico está inserido dentro de um contexto que tem vários aspectos: os que dão resultados a curto prazo, tem aspectos que dão a médio prazo, a longo prazo; tem os que contribuem para a construção de uma marca da produtora, uma marca que gere credibilidade, reconhecimento pela qualidade do trabalho que produz. A gente acredita que construir valores em cima de uma produtora é importante para dar credibilidade nos produtos, para dar confiabilidade nas coisas que a gente faz, para facilitar nosso acesso a parceiros, para facilitar a divulgação de nossos projetos. Estamos vendo resultados claros disso acontecendo. Por exemplo, em “O Pequenino Grão de Areia” agora, na segunda temporada, a gente não precisa de assessoria de imprensa. A mídia divulga.

Gisela de Castro: A peça já se tornou bem falada.

Júlio Augusto:
Sai coisa no jornal que a gente não mandou, que ninguém mandou. No último dia do Clara Nunes saiu quase meia página, uma foto de um quarto de página. Acho que isso é fruto não só da peça, é fruto de um posicionamento que a gente adota em todas as produções. As pessoas já conhecem, dão crédito aos assuntos que chegam da Zucca.

Gisela de Castro:
Ah, sim. Mas porque a peça também está concorrendo ao prêmio [Zilka Salaberry de teatro infantil. Venceu nas categorias melhor texto e melhor espetáculo no dia seguinte à entrevista]. Acho muito importante quem lida com cultura fazer esse tipo de ação, não por uma mera questão filantrópica, não é isso, mas para criação de mercado. Se você não tem um público consumidor de teatro e você não forma essa platéia, não só de crianças e jovens, mas até de adultos também, aquilo não cria o hábito. Infelizmente a maioria dos teatros está na Zona Sul ou no Centro do Rio, tem pouco teatro na periferia. Criar o hábito da pessoa ir ao teatro é diferente de levar o teatro à comunidade, de levar o teatro a uma escola que, muitas vezes, nem tem uma infra-estrutura de verdade, não tem refletor, não monta o cenário como deveria.

Aguarrás: Estruturalmente esse tipo de campanha é complicada ou só precisa de vontade?

Gisela de Castro: Não acho complicado não. O transporte é sempre uma logística, você tem que ver esse custo, contratar pessoas…

Júlio Augusto ZuccaJúlio Augusto: A gente já tentou fazer essa campanha sem fornecer transporte. Eles não aparecem porque você tem que romper uma inércia inicial das pessoas. Achamos importante facilitar ao máximo para que as pessoas não tenham desculpas. E essa coisa que ela estava falando, de levar as pessoas para o teatro e não a peça para fora do teatro, é importante não só para as crianças que estão indo ver, pois há toda uma magia no teatro, mas para que os pais se acostumem também a levar as crianças para o teatro, para os pais também saírem do comodismo. É o pai sair de casa, preparar a criança, botar no carro, estacionar o carro, levar a criança, pagar ingresso. É uma disponibilidade que, a gente estimulando, a própria criança em casa vai continuar esse trabalho com o pai, vai criar esse hábito.

Gisela de Castro: É uma questão de hábito: se pega um ônibus, um trem para ir até o Maracanã, até a praia. Por que não ir até o teatro? E muitas vezes existe esse grau de desconhecimento de ser cidadão. A pessoa não sabe que ela pode, que tem o direito de ir ao teatro. Às vezes a peça custa um real, às vezes é de graça. Mas ela não vai porque ela acha que não faz parte daquilo. Eu, no “Greve de Sexo”, via a galera na arquibancada bebendo cerveja, comendo biscoito globo, sabe? Eu ficava tão feliz, me sentia, assim… eu queria que teatro fosse Maracanã. (risos)

Aguarrás: Quem produz cultura hoje tem clareza do foco, do que está produzindo?

ArtorquatroJúlio Augusto: O que eu tenho visto é muitos artistas envolvidos na produção e isso tem um efeito colateral que é o das pessoas se preocuparem muito mais com o produto, com a arte em si, do que com a questão de mercado: para quem estão produzindo, se está inserido dentro de uma categoria, se é pertinente àquele espaço. É natural, porque a função do artista é essa. O artista tem o direito e tem o papel de trazer a arte sem nenhuma preocupação mercadológica. Se todo mundo fizer arte pensando num mercado, ninguém vai querer fazer peça experimental, de desenvolvimento de linguagem, as companhias de teatro não existiriam na sua essência. O que falta nas produções é alguém que estude esse produto artístico e pense se existe mercado, qual o mercado, aonde esse produto pode ser melhor apresentado, como trazer o público para vir assistir, que público é esse. Acho que falta uma visão de mercado na produção, não nos artistas.

Aguarrás: Mas hoje se os artistas não se produzirem, não realizam seus projetos pessoais.

Júlio Augusto: É verdade, mas para isso eles têm que se capacitar, se preparar.

Aguarrás: Artista e produtor. É uma dupla?

Júlio Augusto: É complicado o artista pensar em arte e pensar em mercado para o seu produto. Não que isso não exista. Tem muitos artistas que são ótimos vendedores dos seus produtos. Mas normalmente existe um empresário, um produtor associado a esse artista.

detalhe do escritório da Zucca ProduçõesGisela de Castro: Tem muita gente que faz acreditando que a produção vai se manter, e a bilheteria é uma forma de manter a peça em cartaz, e aí funciona bem. Tem gente séria trabalhando nesse sentido. Por um outro lado, e aí é até um pouco perigoso o que eu vou dizer, às vezes essa coisa de patrocínio atrapalha um pouco. Porque a gente vê produções que não estão preocupadas com o lado artístico do produto, que conseguem um patrocínio e então dizem: “ah eu consegui aqui essa grana” e faz qualquer coisa, de qualquer jeito.

Júlio Augusto: Não só faz qualquer coisa como, o que eu acho mais grave, as pessoas com a produção paga, com os artistas pagos pelo patrocínio, dizem: “se não tiver público, não tem problema. Se a peça não for bem de bilheteria, não importa”. Isso é mais grave.

Aguarrás: Não acha que essa falta de conteúdo é um mal que assola a nossa época e não só o teatro?

Júlio Augusto e Gisela de Castro: Ah, com certeza. Em todas as áreas.

Júlio Augusto: É uma busca mais fútil, mais imediatista, mais impaciente. Quer esse resultado imediato para tudo o que se faz, todo mundo quer o sucesso antes de trabalhar, quer reconhecimento antes de conquistar, antes de fazer por merecer. Em todas as áreas, nas empresas, nas artes, na política. Acho que a política, inclusive, é o que puxa (risos). É o causador desse mal.

Aguarrás: Dentro do mercado de produção cultural a prática é de uma atitude muito fechada, o produtor não abre seu quinhão. A postura da Zucca é oposta a isso. Acredita que uma postura fechada trava o mercado?

Júlio: É uma questão estratégica.

Aguarrás: Que estratégia é essa?

Gisela de Castro e Júlio Augusto ZuccaJúlio Augusto: Isso eu aprendi trabalhando em empresas. Existem os profissionais nas empresas que desenvolvem determinado trabalho ou são responsáveis por uma determinada tarefa que não contam como se faz aquilo de jeito nenhum para ninguém. Acham que se contarem vão perder o emprego assim que aparecer alguém que saiba fazer aquilo por menos dinheiro. Mas é justamente o contrário. As pessoas que evoluem são as pessoas que abrem os seus conhecimentos, que não têm segredos sobre como que aquilo funciona. Eu penso da mesma forma. Se estou formando produtores eu vou estar de certa forma formando concorrentes. Quem é bom se estabelece. A qualidade dos trabalhos melhora à medida que a competição melhora, ter pessoas que você formou e instruiu bem posicionadas no mercado, fazendo coisas corretas, só aumenta a sua reputação e a credibilidade. Isso tem se provado uma verdade absoluta.


Aguarrás: E humaniza esse mercado, com profissionais que assumem a postura dividir.


Júlio Augusto:
Desde que eu comecei a dar aula, a gente não percebeu nenhuma situação de ameaça dos alunos, com relação a nossos produtos e projetos, e só tenho tido respostas positivas. Um aumento da credibilidade da empresa, um aumento da minha credibilidade pessoal, como profissional de cultura.

Gisela de Castro:
E tem somado parcerias que aparecem.

Aguarrás: Tem muito artista fazendo esse curso?

Júlio Augusto: No início eram quase só artistas. O curso foi pensado para esse público de artistas que querem se produzir. Mas hoje já é misto. São pessoas que estão querendo traçar o caminho que eu fiz, por exemplo. Vêm de outro mercado, para conhecer o mercado e identificar se é um bom negócio, se é uma boa oportunidade de trabalho, se é um mercado com espaço para trabalhar.

Aguarrás: A palavra mercado foi muito nesta entrevista. O que é o Mercado Cultural?

Júlio Augusto:
É o mercado formado pelos consumidores de produtos de arte, de todas as formas de expressão de arte. É o mercado de pessoas que vão ao cinema, que vão ao teatro, que se interessam por artes plásticas, que lêem e compram livros, são as pessoas que dão crédito a novas formas de arte. Acho que o mercado cultural, no final das contas, são os consumidores. Só que esse mercado é formado pelos consumidores, pelos intermediários, pelos viabilizadores. Os produtores fazem parte do mercado como intermediários ou viabilizadores. Os artistas fazem parte desse mercado como produto final a ser consumido.

Gisela de Castro:
É importante saber o que isso gera na sociedade. É importante você ter na área cultural um mercado, um capital circulando. Você tem profissionais envolvidos e é importante que o profissional seja remunerado, do ator ao técnico, ao diretor, todo mundo. A importância de implementar um mercado significa isso, que as pessoas estejam vivas e capazes de consumir na sociedade. O mercado cultural é uma opção de movimentação financeira, sim. E quanto mais diversidade e pluralidade a gente tiver, melhor para o meio.

Júlio Augusto: A gente acredita na cultura como conceito, que a cultura é ou pelo menos deveria ser um dos itens da cesta básica da população, assim como a alimentação, transporte, educação. Cultura deveria fazer parte dessa cesta básica e ser vista por quem detém a capacidade de ditar regras ou de financiar coisas como tão importante quanto. A cultura se replica em várias situações. Me dá orgulho de ter montado uma empresa e ter entrado nessa história, estar criando postos de trabalho e fomentando pessoas, e empurrando a carreira das pessoas, disseminando trabalho e movimentando a economia. As pessoas trabalhando, consomem e devolvem para a economia esse dinheiro, que circula. Isso que faz um mercado melhorar em determinada região. Se você fomenta essa cadeia, tudo melhora. Toda vez que alguém me fala que está fazendo um trabalho que foi fruto de uma coisa que começou com a gente me dá a sensação de que estou contribuindo positivamente para o mercado cultural.

Aguarrás: Tem percebido retorno dessa postura aberta como princípio profissional?

Júlio Augusto: Eu tenho tido retornos diretos e positivos. Esse curso de produção eu criei para atender a uma demanda que percebi no mercado. Pessoas me ligando para pedir ajuda para fazer projetos e para aprender essa história de como funcionam as leis de incentivo. E eu vi que era muito pouco eficiente fazer uma consultoria para todo mundo e cobrar. E aí falei para a Gisela “vamos juntar essas pessoas todas, já tem três, quatro que me ligaram essa semana. Vamos tentar juntar essas pessoas”. Eu tive quatorze interessados na primeira turma. Agora, é a décima terceira turma que começa. E o que esse curso já me gerou? consultorias bem remuneradas de pessoas que fizeram o curso, o interesse do Sesc nacional em um curso no mesmo formato, via vídeo conferência, para 24 estados. O público desse curso são os técnicos de arte e de cultura de cada estado.

Aguarrás: Como vêem a imagem da Zucca hoje no mercado?

Greve de sexoJúlio Augusto: Acho que a gente está traçando um caminho bacana. Estamos conseguindo uma coisa que é super difícil em marketing: criar uma marca. Acho que esse que era o grande desafio. A gente está conseguindo isso e essa marca hoje tem credibilidade, é razoavelmente conhecida, um dos instrumentos que são impulsionadores disso é o nosso mailling eletrônico, nosso “spam do bem”. Divulgamos nossos projetos por email, é um mailling muito bem cuidado, muito trabalhado, dificilmente a gente repete envio para quem pediu para sair, só se for uma falha técnica, mas é muito raro isso acontecer. Nossos emails têm nosso nome, nosso telefone, e eles servem como meio de divulgação da nossa marca e de nossos projetos. Fora isso tem o boca a boca de nossos produtos, tem a repercussão dos projetos que a gente faz. A gente tem um lado, que faz parte da minha formação, que é trabalhar também mercado de empresas, não só o lado de consumidores de arte.

Aguarrás: A Zucca matém o foco mais forte no teatro?

Júlio Augusto: Estou fazendo uma migração estratégica para a área de cinema. Quero trabalhar esse mercado. Principalmente documentários. Já fiz dois curtas, um documentário e um ficção. Estou finalizando o de ficção.

Aguarrás: quais os projetos para este ano?

Gisela de Castro:
O “Dança” é uma forte parceria. Foi um produto do curso.

Júlio Augusto: Uma pessoa que fez o curso, a Regina Levy, produzia como pessoa física um festival de dança e aí ela me chamou para ser um parceiro dela no primeiro ano. Entrei para cuidar de determinados aspectos da produção. Esse ano eu assumi o projeto pela produtora, e aí a gente entrou também no “Dança em foco”, um festival de vídeo dança que ela desenvolvia há alguns anos.

Aguarrás: Tem como sobreviver sem parcerias em cultura?

Julio Augusto: Existem patrocinadores que são parceiros independente de terem isenção fiscal do patrocínio. Daria para trabalhar, já montei um planejamento de trabalho que, com mais dificuldades e com prazo maior, a gente conseguiria descobrir formas de ganhar dinheiro e sobreviver sem patrocínio, por exemplo. Mas é mais difícil. A parceria vem naturalmente quando você conquista credibilidade, se mostra como uma pessoa que faz coisas legais de uma forma honesta, com base no trabalho. O resultado fala por si. Temos a preocupação com o conteúdo artístico das coisas que a gente faz, a Gisela é a responsável pela qualidade artística. No final das contas, o que interessa é o resultado produto final.

O Aguarrás agradece a atenção de todos os profissionais da Zucca Produções.

Estreou no Rio e, desde o início deste ano, já viaja pelo Brasil, A ratoeira, montagem da mais famosa peça de Agatha Christie (The mousetrap, 1952), com direção de João Fonseca. Cenário grandioso, figurino impecável e atores entrosadíssimos, o espetáculo é competente e bastante fiel ao texto original. Esta fidelidade talvez seja o ponto mais delicado da atual versão brasileira (houve outras, nos anos 50 e 70). A trama, extensa demais, poderia tornar óbvia a intriga e, antes de o final surpreender, o público já anteciparia a identidade do assassino. O policial de mistério, se encenado, requer um tempo preciso, uma duração exata da ação, o que se não for observado pode derrotar muita superprodução. Não só as marcas textuais que visam ressaltar indícios ou pistas falsas devem ser precisamente entoadas, mas a sonoplastia, a iluminação e o movimento são recursos indispensáveis para se chegar ao efeito desejado, à surpresa final. Confesso que pude ouvir algumas interjeições de surpresa na platéia que lotava o teatro, quando assisti à peça. Mas, antes do final, eu já estava cansado.

De fato, não fui ao teatro motivado pelo criminoso da hospedaria Monkswell (cenário onde se reúnem todos os suspeitos). Intrigava-me outro mistério: que coisa faz esse texto da rainha do crime (originalmente uma radionovela, depois adaptada para o teatro) estar em cartaz ininterruptamente no West End theatre, em Londres, há 54 anos? Saí do teatro sem a resposta certa, mas com pelo menos uma pista.

Foi em Londres que o gênero policial criou raízes e se popularizou. Um dos primeiros grandes centros urbanos do mundo a experimentar as mazelas do próprio crescimento, a cidade virou cenário ideal para os crimes misteriosos que só mentes privilegiadas como a de Hercule Poirot poderiam solucionar. E se não fosse o surgimento do detetive, esse herói da modernidade urbana, com certeza seria entre ruas escuras e estreitas, ou dentro de sobretudos, no fog das noites úmidas, que os criminosos se dissipariam para todo o sempre. A simbiose entre o gênero policial de mistério e o cenário londrino é tão forte no imaginário ocidental, que, até hoje, assim como há no mundo inocentes que não crêem que o homem tenha pisado na lua, há outros que endereçam pedidos de ajuda ou consultas especializadas ao 221-B, Baker Street, em nome do sr. Holmes, Sherlock Holmes. É como se a Londres mítica dos contos policias se sobrepusesse à cidade real. Pode não ser esta fusão entre mito e realidade o único motivo para a longevidade de A ratoeira, mas com certeza é um deles. A identidade entre a cidade e o gênero policial transformou a peça de Agatha Christie em um ponto turístico londrino.

Tudo isso me ocorreu depois de ter visto Sassaricando – e o Rio inventou a marchinha, de Sergio Cabral e Rosa Maria Araújo. O musical resgata um Rio de Janeiro mítico, que sobrevive no desejo dos habitantes, apesar do clima de guerrilha urbana que o narcoterrorismo e a incompetência dos governantes impõem à cidade. É verdade que este clima também não deixa de ser aludido pela sonoplastia na primeira cena do espetáculo, mas por sobre as rajadas de munição pesada, sobrepõe-se a delicadeza e o humor das marchinhas. As canções são apresentadas em 10 blocos temáticos, juntamente com dois vídeos, ao longo de dois atos, e um gran finale, por um elenco afinadíssimo no canto e na coreografia, e por músicos de primeira.

A direção musical (Luís Felipe de Lima) foi capaz de aliar momentos transgressores como uma paródia lírica da marchinha que dá título ao espetáculo, Sassaricando (Luiz Antônio/Oldemar Magalhães/Zé Mário) ou uma debochada récita de Alá-lá-ô (Haroldo Lobo/Nássara), com a vivacidade de arranjos que reverenciam e renovam as tradicionais bandinhas carnavalescas. O sexteto, em palco, liderado pelo carisma e o sarcasmo de Eduardo Dussek, canta, dança e envolve o público. Deixa a certeza de que todos vivem na Cidade Maravilhosa, aquela do bonde, de Noel Rosa e Ismael Silva, dos velhos carnavais, de Chiquinha Gonzaga, das cadeiras nas calçadas, de Ataulfo Alves e Mário Lago, do Cordão da Bola Preta… este mesmo bloco que até hoje atrai foliões no sábado de carnaval e transforma a Cinelândia em elo perdido entre duas cidades distintas.

Dussek, Pedro Paulo Malta (que também esteve na cena de outro projeto antológico, O samba é minha nobreza) e Alfredo Del-Penho compartilham o palco e o canto com Soraya Ravenle, Juliana Diniz e Sabrina Korgut, e através da malandragem ingênua das marchinhas, fundam com e para o público a comunidade cordial e zombeteira, Rio que sonhamos ter sido e transformamos diariamente num vir-a-ser. As cento e poucas marchinhas apresentadas ao longo de duas horas de espetáculo deixam o público com vontade de voltar. Sassaricando é para ser visto e revisto por todos. Cariocas, brasileiros, turistas estrangeiros devem visitar este espetáculo como a um ponto turístico. Esse espetáculo é a nossa “ratoeira”, momento mágico em que velhos e moços comungam a cidade dos sonhos, em que todos os crimes têm solução.Tudo isso pode estar bem longe da cidade real, mas estou convicto de que a realidade do Brasil será muito melhor se, em 2070, Sassaricando ainda estiver em cartaz.

Aguarrás: O Sunrise Avenue é considerado um grupo que vai do hard rock às músicas acústicas. A versatilidade é um objetivo ou uma busca por seu próprio estilo?

Sunrise Avenue: Bem, claro que todas as bandas devem manter os olhos abertos para coisas novas e tal, mas eu acho que a principal razão de ir do leve ao pesado é que gostamos de tocar nossas músicas de diferentes modos. Mas o “conceito” é um concerto tradicional de rock ao vivo, tocado bem alto no palco.

Aguarrás: A banda ganhou impulso se apresentando ao vivo, antes de gravar On the way to Wonderland. Você acha que o grupo conseguiu trazer toda essa energia para o estúdio?

Sunrise Avenue: O processo de gravação foi bastante tranqüilo nesse estúdio próximo a Helsinki, montado em uma antiga escola com sauna e tudo. Nós realmente não tínhamos nenhum plano em relação à produção ou os arranjos. Simplesmente apertamos o botão e fizemos o que tivemos vontade. Muitos dos riffs e das coisas do álbum vieram das apresentações ao vivo, o que é bom.

Aguarrás: Existe algum tipo de caminho-padrão para as bandas da região nórdica? Alguns mercados da Europa, como a Alemanha, são mais abertos do que os demais à música estrangeira ou isso depende do estilo musical?

Sunrise Avenue: Os alemães parecem gostar de rock finlandês, e geralmente a Alemanha é o primeiro grande passo que todas as bandas nórdicas tentam dar. Os países escandinavos, de onde viemos, são bem pequenos e eu acho que as bandas precisam ganhar mais status para convencer outros territórios, e a Alemanha parece ser a primeira escolha para a maioria delas.

Aguarrás: O que você acha desse mundo interconectado que permite entrevistas como essa? Qual o papel da Web no desenvolvimento do Sunrise Avenue?

Sunrise Avenue: Eu acho muito legal. Teria sido bem engraçado fazer isso 20 anos atrás enviando uma carta ao Brasil. A Internet é uma grande ferramenta, especialmente para bancas novas promoverem seu trabalho e compartilharem algum material especial, como vídeos de backstage, entre outros. Nós mesmos administramos nosso Myspace e Web site, até hoje, o que é uma ótima forma de obter retorno dos fãs.

Aguarrás: Se vocês tivessem que se apresentar para os fãs brasileiros, que hit escolheriam?

Sunrise Avenue: “Fairytale gone bad” parece ser a música que vem abrindo mais portas em outros países até agora, e por isso seria nossa escolha para o Brasil também. Seguida de “Forever Yours”, provavelmente…

Aguarrás: Qual o próximo passo do Sunrise Avenue? O céu é o limite?

Sunrise Avenue: O céu é o único limite, vamos ver até onde chegamos. O próximo passo é tocar em centenas de palcos e conhecer várias novas cidades e pessoas. Acho que temos muita sorte em ter o trabalho mais divertido do mundo.


Sunrise Avenue


Aguarrás: Sunrise Avenue is considered a group that can go from hard-rock to acoustic songs. Is the group’s versatility the ultimate goal or a search for its own unique style?

Sunrise Avenue: Well sure all bands should keep eyes open for new stuff and all, but I guess the main reason for being from soft to harder stuff is only because the fact that we like to perform our stuff in different ways. Still the “concept” is traditional open live rock played live & loud on stage.

Aguarrás: The band gained momentum performing live, before recording On the Way to Wonderland. Do you think that the group managed to instill all that energy in its recordings?

Sunrise Avenue: The recording process was pretty relaxed in this studio near Helsinki built in an old school with sauna and all. We really had no plan with regards to the production or arrangement and we just pressed record and did what felt good. Many of the riffs and stuff on the album are from the past live shows and that’s good.

Aguarrás: Is there some kind of “standard” path for bands in your area? Are certain markets in Europe, like Germany, more open than others to foreign music, or does that depend more on musical style?

Sunrise Avenue: The Germans seem to like Finnish rock and usually Germany is the first bigger step all Nordic bands try to take. Scandinavian countries, where we are from, are pretty small and I guess bands need to get a bigger head-skin to convince other territories and Germany seems to be the first choice for most of them.

Aguarrás: What do you think about this interconnected world that enables interviews like this one to be conducted? What is the Web’s role in the band’s development?

Sunrise Avenue: I think it’s really cool. Would have been pretty funny to do this 20 years ago sending a letter to Brazil. The internet is a great tool for especially for upcoming bands to promote their stuff and specially share some special stuff like backstage videos and stuff. We actually operate our own Myspace & website ourselves, even now, and it’s a great way to get feedback from fans.

Aguarrás: If you had to present yourselves to Brazilian fans, which hit would you choose?

Sunrise Avenue: “Fairytale gone bad” seems to be a good door opener in most of the countries so far and therefore that would be the thing for Brazil too. Followed by “Forever Yours” probably…

Aguarrás: What is Sunrise Avenue’s next step? Is the sky the limit?

Sunrise Avenue: The sky is the only limit, we’ll just have to see how high we get. The next step is to get to play on hundreds of stages and to see many new cities and folks. We feel very fortunate having the coolest job in the world.

Entre 22 de março e 26 de abril, o festival É tudo verdade percorre Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Brasília e Porto Alegre, levando ao público nomes consagrados e estreantes de um universo nem tão distante da ficção. Dedicado exclusivamente a documentários, ele é considerado o maior do gênero na América Latina, contando com 141 títulos em 2007, na sua 12ª edição.

Uma ótima surpresa é o brasileiro Caroneiros (Roads to Identity), um vídeo independente de 52 minutos que chamaria muita atenção do Instituto Cervantes. O projeto foi idealizado por Martina Rupp e realizado por uma equipe dedicada que você pode conhecer no blog oficial do projeto.

No documentário, acompanhamos entrevistas com diversos caronas durante uma viagem pela América no Sul à bordo de dois fuscas, vulgo Mostarda e Azeitona. “Foram 2 meses injetando vontade, trabalho e dinheiro”, disse Martina. O resultado foi uma viagem de 18.000 quilômetros e uma coletânea de opiniões sobre a identidade latino-americana, através dos olhos de pessoas que não enxergam fronteiras como barreiras à integração.

A princípio, o atrativo é o clima de viagem. Os carros sendo abarrotados de malas, a fumaça do asfalto distorcendo a imagem, um grande mapa e um apanhado geral de sotaques comuns para quem gosta de viajar. Aos poucos, o filme ganha conteúdo e nos faz descobrir que os países da América Latina não são tão diferentes assim, tanto nas qualidades quanto nos problemas. Um dos temas abordados é a música. O que o Brasil exporta para seus hermanos? O axé e suas dancinhas, diz um dos caronas, e tem uma tal que bossa nova que não conhecem muito bem, comenta outro. E o que conhecemos da música de nossos vizinhos? Quase nada, foi sua provável resposta. A situação não é diferente com las películas. Além de ser raro que os filmes de um lugar migrem para outro, a dificuldade para realizar projetos é grande em todos os países, assim como o preconceito com a produção nacional. “Se o filme está acima da média, logo dizem que não parece um filme argentino”. Provavelmente você já escutou isso por aqui também.
A vergonha da atual programação da TV, a falta de investimentos em educação e o desapontamento com políticos também são assuntos da viagem. Em tempos de integração do Mercosul, é impactante perceber que aprendemos muito pouco ou nada nas aulas de história sobre a formação e o passado da América Latina.

“No Chile comemoramos com festa os nossos fracassos. A identidade dos povos da AL já foi violentada”.

A parte engraçada fica por conta das opiniões de brasileiros, uruguaios, argentinos, chilenos uns sobre os outros, principalmente pela implicância generalizada com os argentinos, mas também pelo reconhecimento dos preconceitos sem fundamentos que alimentamos desse lado do globo.

O charme do filme está no carisma dos caroneiros, sejam os caronas ou os motoristas que souberam deixar seus entrevistados à vontade, mas vale destacar também a qualidade técnica do som, imagens, planos e trilha sonora. Bem planejado, produzido e editado.

Caroneiros (Roads to Identity) Caroneiros (Roads to Identity) Caroneiros (Roads to Identity)

Super Amigos, co-produção entre México e Canadá, também segue o debate de temas sociais. O diretor Arturo Perez Torres acompanha a vida de cinco ex-lutadores de luta livre que abandonaram os ringues para defender causas mais nobres nas ruas do México, fantasiados de super-heróis. Super Barrio, Ecologista Universal, Super Gay, Super Animal e Fray Tormenta dão um panorama geral da cultura mexicana e dos problemas que o país enfrenta entre o conservadorismo e contemporaneidade.

“Reality begins when we all choose to believe”, mostra a tela. Pessoas comuns são entrevistadas na rua dando credibilidade ao trabalho do grupo. Um desenho explica a origem das máscaras dos heróis e retorna para contar como deixaram de ser lutadores e decidiram fazer trabalhos sociais. Um senhor na rua diz que são verdadeiros Quixotes. Logo de início, o diretor deixa claro de que lado está.

Ambientação feita, conhecemos Super Barrio, que luta pelos direitos de propriedade. O documentário fala que o processo de modernização dos centros urbanos mexicanos está levando ao despejo de diversas famílias. Donos de edifícios querem transformá-los em apartamentos de luxo ou centros comerciais, tentando de todo modo se livrar das famílias de baixa renda que moram nos locais. Acionam a justiça e legalmente têm direito de despejar as pessoas, independentemente do pagamento do aluguel estar em dia. Super Barrio então reúne os condôminos, pede união faz passeatas, avisa que está defendendo a construção e torce por um final feliz. Tem direito até a BarrioMóvel.

Em outro ponto, Fray Tormenta, um homem também vestido de herói, com roupa e máscara clássicas de luta livre, fala de seu trabalho social, resgatando crianças da rua e dando alimentação e educação. Vemos imagens comuns ao Rio de Janeiro, com famílias morando dentro de buracos e crianças viciadas na rua. Além da máscara, uma capa com símbolos do catolicismo justificam a missão divina.

Já Ecologista Universal é um herói clássico, um capitão planeta sem poderes, desses que são assassinados em nossas florestas e manguezais. O foco não é o seu trabalho contra o desmatamento e a morte de animais, mas a quantidade de ameaças de morte e agressões que já sofreu por isso.

Super Animal, o mais divertido deles, luta contra as touradas. Além de ser uma herança espanhola, é extremamente cruel com os animais. Para que ninguém duvide disso, o documentário mostra a trajetória do touro já maltratado na fazenda, passa pela arena (com espadas sendo ficadas de todos os modos) e filma a carcaça depois da morte. Acredite se quiser, o touro é arrastado com uma corda para rua e aberto em público,a frente de quem quiser ver. Vários homens se juntam e bebem copos e copos de sangue, enquanto as tripas são levadas para um caminhão. Super Animal diz que se os toureiros são tão corajosos deveriam enfrentá-lo em um combate até a morte. Com um carro estilizado, possui também um ajudante, o Super Animalito.

Super Gay luta pelo fim do preconceito e da violência. Joga vôlei com os amigos, anda de mãos dadas com o namorado, participa de parada Gay agitando bandeira. Seu primeiro parceiro morreu após um ataque na rua, quando saíam de um bar. A parte mais eficiente é a entrevista de uma mãe que perdeu o filho gay e não pode dizer aos vizinhos a verdade, para não ser prejudicada no emprego ou hostilizada pela sociedade (o filho foi morto em um hotel, após violência sexual e tortura).

Mesmo com a relevância do conteúdo, o documentário peca na qualidade da imagem e da edição. Ao mostrar os heróis separados, perde-se a noção do grupo e a união aqui é um conceito primordial. O filme não diz se há um vínculo maior entre eles do que as máscaras e, havendo esse vínculo, como interagem em suas causas. Repleto de silêncios, caminhadas e olhares para o infinito, fica a impressão de que as cenas foram incluídas apenas para cruzar a barreira de 80 minutos que separa o média e o longa metragem. 75 minutos de apresentação e 5 minutos com os resultados dos trabalhos.

Mostra comemora centenário de Mário Zanini

Mário Zanini – Territórios do Olhar”, em comemoração ao centenário do artista.

Mostra comemora centenário de Mário Zanini

FAAP – Sala Anne Penteado

R. Alagoas, 903, mezanino

Higienópolis

São Paulo

tel. 3662-7000

Terça a sexta, das 10h às 20h

Sábado e domingo, 10h às 17h

Abertura 25/3

Até 13/5

Há duas maneiras de se falar da diferença: na primeira pessoa, quando você se considera como fazendo parte de um dos campos em questão, e na terceira pessoa, quando você acha que não está tomando partido e se dispõe a analisar o jogo.

A questão com as aquarelas em preto e branco de Fabio Cardoso é que ele obviamente está no lado do escuro, mas isso não o impede de analisar a luz.

A sua “primeira pessoa” faz com que as imagens tenham seu valor de verdade indiscutível a partir de uma experiência vivida. Assim, os limites dos dois campos, o claro e o escuro, têm um referente que pode ser transposto da vivência do artista para a de quem vê. Está bem, são portas, todos já vimos o terror e o fascínio de uma porta que se abre para o claro.

Já seria bom.

O caso é que Cardoso não discute a experiência mas a construção da linguagem. As evidências da experiência, então, passam a ser evidências de uma diferença, qualquer uma (sexual, espacial, psicológica), construída dialogicamente em uma linguagem.

Com uma vantagem. Um posicionamento em “terceira pessoa” contém a ilusão de que os eventos analisados não incluem o observador. Cardoso, no seu local escuro, escapa disso. O paradigma epistemológico de sujeito versus objeto tem dificuldades em se manter hoje tão incólume quanto no tempo de Freud. Sujeito e objeto se fundem em práticas culturais onde a compreensão é anterior à explicação pois há tanto do sujeito no objeto quanto vice-versa. Assim, “portas” pode ser apenas a maneira como se fala da negociação de um nanquim (agente) que invade mas é contido pelo papel (outro agente igual). Sendo que ambos podem ser vistos não mais como agentes mas como receptores que sofrem a ação limitante um do outro. Um no outro.

E mais uma vantagem, inversa e igual à anterior. Sua “primeira pessoa” não exerce o poder fenomenológico porque dá à tinta e ao papel, e aos acasos de ambos, a palavra final sobre a negociação dos dois campos, o claro e o escuro, o do sujeito e do objeto.

Além disso, Cardoso põe suas imagens em caixas de acrílico. Mais um jogo no qual ele se posiciona como espectador: o papel dança lá dentro.

Nessas aquarelas quem constrói também é construído. A experiência vivida é recuperada por um posicionamento que inclui: 1) o evento sob investigação; 2) quem faz/sofre a investigação; 3) e também quem por lá for ver as aquarelas, pois as caixas de acrílico, ao refletir o que está em volta, põem no seu interior o que – ou quem – se pensa exterior.

99 PORTAS
Fabio Cardoso
26 mar -04 mai 07
Horários de exposição
seg – sex 14 – 19h
sab – agendamento pelo telefone
Lurixs
Rua Paulo Barreto 77, Botafogo
Rio de Janeiro / RJ
22280-010
(21) 2541-4935

Eles acabam de conquistar disco de ouro na Suécia, e se a EMI Brasil estiver atenta às atividades de seus braços internacionais trará em breve para o Brasil o Sunrise Avenue, trilha sonora de nível, compatível com o rock adolescente que faz sucesso nos episódios de Malhação e nas rádios daqui.

Sunrise Avenue

O grupo finlandês foi criado pelo vocalista Samu Haber e o guitarrista Janne Kärkkäinen em 2002. Depois de um tempo tocando juntos, o duo incorporou Raul Ruutu no baixo e Sami Osala na bateria. O Sunrise Avenue ganhou força e público fiel com as apresentações ao vivo, sendo muito elogiados por onde passavam, mas tiveram dificuldade em encontrar gravadora. Depois de muita procura, o produtor Jukka Backlund assistiu um dos shows e resolveu apostar no quarteto, levando-os para o estúdio. Assim surgiram os singles All Because of you (fevereiro de 2006) e Romeo (abril de 2006), que abriram caminho para o cd On the Way To Wonderland. A trilha de tijolos de ouro é mais ou menos a mesma de outros grupos da região nórdica. Depois de emplacar o hit Fairytale Gone Bad nas rádios finlandesas, portas se abriram para uma turnê por Suíça, Suécia, Áustria e Alemanha, onde os ingressos esgotaram.

On the Way To Wonderland tem 14 faixas que transitam entre o rock de peso nas guitarras e as baladas eletroacústicas. Os destaques são Diamond, que une os dois extremos, Fairytale gone bad, feita na medida para as rádios e para o repeat do som, e a balada Heal me, onde Samu Haber mostra um estilo semelhante ao de Ed Kowalczyk, vocalista do Live.

Para os zippies, basta passar no MySpace para ouvir as músicas e assistir os clipes disponíveis. Na wikipedia você encontra links para apresentações ao vivo.

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito, em cartaz no Teatro de Arena da Caixa Cultural, é uma homenagem ao poeta e dramaturgo espanhol que dá título ao espetáculo. Não exatamente retratando sua vida e obra, mas tentando captar seu pensamento, seu espírito – suas memórias e sonhos, a ligação íntima com sua gente, o seu amor às palavras, a admiração pela cultura popular, particularmente, a música, e, antes de tudo, a relação visceral com Granada, sua terra natal. Federico García Lorca, autor de Romanceiro Gitano, livro de poemas, e de peças como Bodas de Sangue; Yerma; Dona Rosita, a Solteira; A Casa de Bernarda Alba; fundador do grupo La Barraca, nasceu em 1898 e morreu precocemente em 1936, assassinado pela ditadura franquista durante a Guerra Civil Espanhola, o que torna ainda mais contundente sua contribuição humana e artística.

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito - fotografia de Leonardo Aversa O roteiro (sobre textos de Lorca: uma conferência de 1933, fragmentos de entrevistas, poemas e canções) de José Mauro Brant e Antonio Gilberto, respectivamente intérprete e diretor do espetáculo, apresenta um Lorca sempre atento para o que o rodeia, seja a natureza, sejam os homens. Muito bem traduzido por Roseana Murray, o texto valoriza a sonoridade e o poder da linguagem, linha-mestra da obra do poeta espanhol. Revela também, em primeira mão, alguns traços muito particulares de Lorca: o contato com aquilo que o emociona – a pobreza de seu povo, a admiração pela bravura com que sua gente enfrenta a miséria, o respeito pela arte popular, suas considerações sobre a morte, reflexões sobre o teatro e a poesia. Lorca exigia do teatro uma grande força vital e uma conexão com o povo. Alertava os atores a serem como alguns professores, mantendo sempre uma atitude digna e severa com seu ofício, a pensarem não apenas no “hoje da bilheteria”, mas no amanhã, no amanhã, no amanhã.

O espetáculo é um monólogo, onde o único ator interpreta, canta e toca piano. José Mauro tem domínio das palavras, sabe o que está fazendo e falando. Nada se perde do que é dito e as imagens sugeridas pelo texto se tornam concretas na interpretação de Brant. Talvez o grande amor do ator pelo texto, seu grande apreço ao autor, às vezes lhe dêem um tom cerimonioso com as palavras, respeitoso demais, e falte uma maior embriaguez do intérprete, uma emoção à flor da pele. Em vários momentos, essa febre parece estar presente no ator, mas nem sempre atinge o público. José Mauro transmite maior carga dramática quando canta e toca piano. Ali transparece com mais clareza o combate interior de uma alma emocionada que tem que se expressar artisticamente e, portanto, deve aprender a administrar seu excesso trágico. Como o próprio Lorca revela, o poeta não sabe o que é poesia e a palavra deve se tornar carne viva. E viver é deixar de lutar contra os instintos. A direção musical de Sacha Amback é delicada, e as canções populares dão um toque muito especial ao espetáculo, facilitando o entendimento da alma do poeta e recuperando o ambiente de Granada.

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito - fotografia de Leonardo AversaA cenografia e o figurino, assinados por Ronald Teixeira, trazem à cena o essencial: um tapete de folhas, um tronco, um piano coberto por um pano bordado com desenho de Lorca. Destoa, no entanto, a presença de uma pequena árvore no canto da cena. Parece estranho um elemento real dentro de um ambiente que apenas sugere, nunca demonstra. Os olivais, já sugeridos pela iluminação, não precisavam de um exemplo tão real como o vaso de planta. O ator veste um terno claro, inspirado em fotografias do próprio Lorca.

A direção opta por um tom delicado, sensível e sem estardalhaços. O grande mérito do roteiro e direção é devolver o valor à linguagem, fundamental para as platéias de hoje que muitas vezes estão atentas apenas ao que vêem e nem sempre ao que ouvem. O prólogo da peça já traz um convite para se preparar os ouvidos e espantar o tédio. Mesmo assim, ainda há uma dificuldade inicial de interação do público com o que está sendo dito no palco, mas o domínio do intérprete, o auxílio luxuoso da música e a intervenção expressiva da iluminação de Paulo César Medeiros contribuem para que o contato se realize. A luz é companheira de José Mauro em cena, com focos recortados que às vezes sugerem trilhas, projeções que lembram os olivais, pequenas lâmpadas representando as estrelas, o azul que traz a noite, as lamparinas que evocam a simplicidade, e um belo efeito que dá uma sombra quádrupla de José Mauro, quando Lorca está se aproximando da “morte”, como se realmente esse homem fosse um pequeno poema infinito. O outono da morte roubou o frescor da sua face, mas não assassinou o grande homem que ele foi. Como o próprio poeta revela, vivemos nesse mundo emprestados. Nós vamos e Granada fica.

Federico García Lorca – Pequeno Poema Infinito está em cartaz no
Teatro de Arena da Caixa Cultural Rio de Janeiro,
de quarta a domingo às 19h:30. Ingresso: R$ 10,00.
Vale a pena conferir esse novo espaço teatral.

É o segundo FILE-RJ e podia ser o terceiro ou o sexto e o resultado seria igual. Você entraria lá (no Oi Futuro) com cuidado. É o medo de coisa nova. E no entanto.

Relaxe, você está no século XIX. Está bem, no final do século XIX. Gostas de um Monet?

Pois então.

A arte tecnológica, assim chamada por falta de um marqueteiro que lhe arranje – como aos impressionistas – um nome melhor, faz o que Monet fez, com todo o respeito.

Na época, era a busca pelo muito pequeno e pelo que estava dentro. Átomo, inconsciente. Verdades minúsculas e anteriores. Era preciso desvendar coisas, ultrapassar uma exterioridade para que se chegasse a um “lá”. As novidades tecnológicas que tomavam as ruas eram a câmera fotográfica e um novo impulso nas artes gráficas, de impressão, com papéis industriais e mais controle de cores.

Hoje o que nos toma é como essas mesmas coisas muito pequenas interagem. São redes. Movimentos quânticos. Ou sua (sua-tua, a de você) participação no planeta. A noção muito clara de que somos feitos da mesma matéria das estrelas, poeira das estrelas.

Uma coisa é engraçada de notar. Os impressionistas, que tiveram a coragem de pegar o que havia de mais novo e usar isso na maneira como representavam o mundo, representaram o mundo de um ponto de vista burguês. A maneira como pintavam era escandalosa e agressivamente nova. E o que pintavam eram dondocas passeando no parque, ou como a catedral ficava ao pôr-do-sol.

Na FILE deste ano, há mulheres brincando lânguidas com espelhos d’água. Há a modelo Claudia Schiffer. Ok. A mulher da água é virtual e o rosto da Claudia Schiffer tem um morphing. Mas fica a impressão de que para que algo novo se torne palatável é preciso usá-lo em algo muito velho.
palestra de Ted Nelson de 20/03, no Planetário da Gávea

(Na palestra de Ted Nelson de 20/03, no Planetário da Gávea, ele disse que não conseguiria pensar em nada mais estúpido do que usar computador como se fosse um papel. Sim. Mas graças a esse uso estúpido é que as maquininhas se tornaram realmente populares.)

2º FILE-RJ - O Avator

Em O Avator, Ricardo Barreto, Maria Hsu e Marcos Paulo Moreti apresentam, ahn, Nietzsche (eu não disse que você estava no século XIX?). O interesse é que Nietzsche é mediado por um avatar. Você tecla um tema (eu teclei “o outro”) e escuta um Nietzsche feminino e robotizado, mediado portanto pela cultura de massa que ele tanto detestava, falar a respeito.

2º FILE-RJ 2º FILE-RJ

A instalação da Claudia Schiffer feita por Tim Coe, A perfect face, ataca a perfeição tecnológica. Linda, a moça. Mas não tão linda quando minúsculas modificações que você não percebe que estão acontecendo vão transformando seu rosto. Creep, hein? Parece o clima do planeta. Você também quase não nota até que nota.

2º FILE-RJ - Livr(e/o) de Christus Nóbrega

Se o avatar de Nietzsche e a Claudia Schiffer de Coe são instigações críticas à tecnologia, o Livr(e/o) de Christus Nóbrega, um livro livre ou livre-se do livro, é um convite para dar o passo de saída da tecnologia antiga em direção à nova. Você manuseia um livro velho (esotérico, por sinal), e na tela em frente aparecem desenhos, movimentos que não estão nas páginas impressas mas que saem delas.

2º FILE-RJ - Drum in Braz

Essas são algumas das obras presentes. Há obras que não estão propriamente presentes, estão registradas. Os documentários da série Hipersônicas trazem para o centro cultural coisas das ruas. Um deles, o Drum in Braz, de Marcelo Machado e Bobby Nogueira, dá um som para o que você está vendo ali, com as outras obras, dentro do ambiente de ar condicionado. Drum traz a interação, a rede, a ligação. Nele, o som de instrumentos e o som das ruas, juntos.

2º FILE-RJ - Hikenai Guitar wo Hikendaze

Entre os vídeos premiados do Media Art Festival do Japão está um que fala o que estou falando aqui. O Hikenai Guitar wo Hikendaze, de Dendi Groove e Pierre Taki, pega cenas de quadros antigos misturados a perfomances atuais para servir de cenário a um tocador de guitarra. Diz: veja, é a mesma coisa, só que diferente.

E tem mais, mas não deu para ver/fazer tudo. Tem passeio de bicicleta, táxi e ônibus para pegar sons, imagens e juntá-las, você, os artistas, a tecnologia. Pode até ser que alguma catedral ao pôr-do-sol entre nessa.

Está no ar a entrevista do San, um grafiteiro espanhol badalado mundo afora, trazido ao Brasil pelo Instituto Cervantes.

Assista:

Carlos Vergara
Abertura na quarta-feira, dia 28 de março, das 19 às 23 h.
Exposição até 28 de abril de 2007
Segunda a sexta, das 10 às 19h; aos sábados das 10 às 14 h.

Manoel Macedo Galeria de Arte
Rua Lima Duarte, 158
Carlos Prates
Belo Horizonte – MG
(31) 3411-1012
mmgaleria@veloxmail.com.br
www.manoelmacedogaleriadearte.com.br

Se você não lembrar de nenhum filme de Allen Coulter, não estranhe. Até 2006, seu foco eram as grandes séries de televisão. Ele se firmou como um dos nomes por trás de Sex and the city (8 episódios) e Família Soprano (produtor e diretor), além de deixar sua marca em episódios pontuais de Roma, Arquivo-X e Millenium. Para azar do espectador, o entrosamento com a dinâmica televisiva que fez a fama de Allen Coulter contaminou Hollywoodland de tal forma, que foi impossível contornar os equívocos do roteirista Paul Bernbaum, também fruto da tevê.

HollywoodlandA proposta do filme é criar um thriller ficcional em cima de um fato verdadeiro – a morte de George Reeves, o superman do seriado de TV dos anos 60. Reeves (Ben Affleck) estava tocando violão em casa com a namorada Leonore Lemmon e um par de amigos. Um desentendimento com Leonore o fez subir mais cedo para o quarto e instantes depois veio o tiro. A polícia sentenciou rapidamente um suicídio, as manchetes renderam por um tempo, morte trágica, prisioneiro da fama, coisa e tal, e logo Reeves se tornou página virada. Parecia mais um caso de depressão em Hollywood, até o detetive Simo (Adrien Brody) retomar o caso e jogar na mídia a idéia de um possível assassinato. Tudo isso, claro, bancado pelo dinheiro da mãe de Reeves, a velhinha inconformada.

HollywoodlandA partir daí, Coulter divide o filme em duas narrativas. A primeira acompanha Simo nas investigações, o modo como lida com informantes e jornalistas, a vida com a ex-mulher e momentos com a atual namorada. A segunda e mais interessante mostra a vida de Reeves em flashback, misturando fatos reais com as suposições de Simo sobre o dia do assassinato. Com um toque sutil de humor, vemos Reeves em um restaurante que não pode bancar tentando aparecer de papagaio de pirata nas fotos de famosos. É assim que conhece Tonni Mannix, mulher mais velha de quem vira amante. Como nada é por acaso, Tonni (Diane Lane) é esposa do poderoso produtor Eddie Mannix (Bob Hoskins) e isso abre portas para o aspirante a ator. Por tratar de um personagem real, o filme não deixa claro quanto Reeves conquistou por mérito em estúdio e quanto conseguiu por mérito na cama, o que importa é o forte vínculo que tinha com a amante e a dor que ela sentiu ao ser trocada por uma mulher mais nova (Leonore).

HollywoodlandO filme dialoga bem com o noir e acerta ao não se apropriar demais de clichês. Por não ter mocinhos e bandidos, Hollywoodland trabalha bem a dimensão humana e permite a evolução da história não em cima de viradas de trama mirabolantes, mas de uma análise mais profunda dos sentimentos envolvidos. As ambições e fraquezas de Reeves não o tornam uma vítima desesperada, Eddie não assume o papel de marido traído com sede de vingança e Tonni não saca o picador de gelo nem cruza as penas no consultório do psicanalista. Como é um filme sobre símbolos (superman), Coulter flerta bastante com códigos visuais. A presença de um homem já velho malhando enquanto pega sol, a capa do superman no armário e na churrasqueira são alguns exemplos.

HollywoodlandCuriosamente, o maior erro do filme está no personagem mais clássico do noir, o detetive. O drama familiar ocupa espaço demais na trama sem ter nenhuma função além de compor Simo mais amplamente. Para amarrar melhor essa parte, o roteiro usa o filho de Simo para explicar como as criancinhas ficaram deprimidas quando o super-herói símbolo da justiça e da verdade se matou, e também para fechar a trama depois de muita investigação.

Certo na forma de explorar o relacionamento entre os personagens, errado na estruturação entediante da narrativa, Hollywoodland conseguiu destaque pelas boas atuações de Ben Affleck e Diane Lane (Sob o sol de Toscana). Pela primeira vez Affleck foi visto pelos críticos como alguém capaz de… atuar. Pode parecer óbvio, mas vale lembrar que o filme é uma ficção, e a vida de Reeves foi mais longa e complexa do que Hollywoodland demonstra.

“A arte diz o indizível;
exprime o inexprimível;
traduz o intraduzível.”
(Leonardo Da Vinci)

Ao nos agarrarmos a um lápis, um pincel, um formão ou a um buril, sentimos que algo inexplicável acontece. O impulso criador nos chama para a comunhão da tríade “criador-ferramenta-criatura”, fazendo com que esses materiais se tornem prolongamentos de nossas mãos, a fim de uma única função: criar coisas belas (1).

Sabemos que é este impulso que nos faz ficar debruçados sobre um trabalho durante horas, dias, semanas ou até mesmo anos, fazendo com que atinjamos o limite de nossas forças e de nossos sentidos. Este sentimento, infelizmente, não comunga com uma explicação lógica, de bate-pronto, que nos faça entender o porquê de comprometermos nossa própria sobrevivência em troca de algo que não é, propriamente, uma necessidade vital. Sendo assim, nos questionamos a respeito da real utilidade da arte e sobre sua importância, meditando sobre o quanto ela é realmente valiosa e indispensável para a humanidade.

Por não possuir uma relação fisiológica com o ser humano, a arte passa a figurar – erroneamente – no circuito dos fatores culturais. Embora de fácil aceitação, não podemos dar crédito a esta afirmativa, pois ela transcende qualquer tipo de formação cultural, a ponto de nunca ter havido, desde o início das organizações sociais, uma única sequer em que não se explorasse as possibilidades do fazer artístico, independente de sua finalidade. É certo que as primeiras formas de arte tinham um vínculo muito mais estreito com a religião (2) do que com o deleite estético, como hoje conhecemos. Na verdade, arte e religião praticamente nasceram juntas e possuem – até hoje – um elo quase indissolúvel.

Se explorarmos este tema, chegamos a associações inevitáveis. A arte, em seu início, era utilizada como forma de domínio da natureza. Ao desenhar toscamente um bisão com um punhado de terra colorida, nossos ancestrais supunham estar adquirindo um controle sobre a sua caça. Durante o decorrer dos séculos, esta idéia não foi totalmente perdida, sendo, de certa forma, berço de todo o fazer artístico.

Podemos dizer que a busca pela arte está associada à busca pelo êxtase e pela intenção de se manipular a natureza, a fim de manter-nos eternos através dos tempos. Encontramos, sem muitas dificuldades, indícios desta idéia na Poética, de Aristóteles. Os conceitos de mímesis e katharsis (3) reiteram, respectivamente, a intenção de aprisionar a natureza, e a partir dela obter a purgação das emoções provocadas. (4) Não é de se espantar a relação que existe entre os étimos gregos AISTHESIS, que significa “sensibilidade” e EKSTASIS, que significa êxtase.

Pode parecer incoerente afirmar que a arte ainda possui um vínculo religioso, mesmo diante das transformações culturais que a humanidade sofreu, inclusive no pós-guerra. Porém, em nenhuma dessas transformações a arte perde seu caráter espiritual, onde o artista, através da interferência na natureza, busca sua própria forma de êxtase, levando à imortalidade.

O filósofo Herbert Read, em relação à produção artística atual, afirma: “mesmo quando grandes artistas criaram obras-primas, aparentemente afastados de qualquer fé religiosa, quanto mais de perto lhes examinamos a vida, mais nos parece descobrir a presença daquilo que se poderá denominar sensibilidade religiosa.” (5) É através da arte que o homem dá vazão a seu caráter de sobrevivência e tenta estar presente na natureza durante a eternidade. Os homens passam, mas a sua arte fica.

A arte é inútil sim, como já disse Oscar Wilde,(6) porém, devemos entender esta sentença como a ausência de sua função prática. A razão dela existir não pertence somente à esfera racional, que irremediavelmente se associa a algum motivo doutrinário, didático ou social. Existe uma razão, porém, não há uma finalidade prática. Por isso, ela está muito mais ligada a necessidades espirituais que a razões fisiológicas (7).

É  por isso que sempre devemos respeitar qualquer tipo obra de arte, pois, com certeza, ela é o símbolo da transmutação do ser humano, que o eleva à imortalidade da natureza. Neste ponto, a arte não imita a vida; ela a transcende.

(1) Considero a designação adotada por Ganzarolli, onde “nas coisas belas, nada se acrescenta, nada se suprime” (Oliveira, João Vicente Ganzarolli de. Do essencial invisível/arte e beleza entre os cegos, REVAN:FAPERJ, 2002, p. 26)
(2) Aqui, religião representa, de acordo com o novo dicionário Aurélio, ed. 1973, “reverência às coisas sagradas”, não necessariamente às organizações religiosas tradicionais.
(3) Imitação e purificação, respectivamente.
(4) “É pois a tragédia imitação de um caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamento distribuídas pelas diversas partes do drama, imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação destas emoções”
(Aristóteles, Poética, tradução, prefácio, introdução comentário e apêndices de Eudoro de Souza, Porto Alegre, Editora Globo, 1966, p. 74-75)
(5) Silveira, Antônio José da. Deus, homem, mundo e arte – a experiência religiosa na arte sacra. Revista Magis/Cadernos de Fé e cultura – Centro Loyola de Fé e cultura/PUC-RIO. (6) Prefácio do Livro “O Retrato de Dorian Gray”
(7) A arte está mais ligada a uma necessidade metafísica, como a religião, do que com a fisiologia humana, como a fome. Não comer resulta na extinção do ser humano, porém, a abdicação do fazer artístico não gera nenhum transtorno físico. Isso leva a crer –equivocadamente- que a arte é perfeitamente dispensável ao ser humano.

Vi a exposição de Renata Cazzani no Centro Cultural Cândido Mendes (RJ) no mesmo dia em que assisti a uma palestra de Ted Nelson, onde ele apresentava sua visão de computação e de rede, em uma outra lógica, não seqüencial ou hierárquica.

Na minha cadeira, eu escutava ele falar dos quadros dela.

Renata Cazzani Não que Cazzani não seja seqüencial e hierárquica. Seus enormes quadros são exercícios coloridos de lógica. Mas só se você os vir de frente e de longe.

De perto e de lado, seu construtivismo desmorona frente a um duplo ataque. Porque as laterais dos quadros estão pintadas, tudo aquilo vira uma representação tridimensional de vãos (as massas maiores, de cores escuras) por onde se chega através de degraus de cores mais claras (os campos retangulares, paralelos às margens do quadro). E, segundo ataque: porque todas essas cores têm falhas, a superfície do quadro mais uma vez ganha da ilusão de profundidade e voltamos a estar diante de telas pintadas. Mas não mais construtivistas, ou pelos menos de um construtivismo à la brasileira, falhado, que ri do rigor, com os caminhos do pincel claramente visíveis.

Renata Cazzani Tendo assim demonstrado as aporias que aguardam um pensamento causal e linear, Cazzani se depara, contudo, com perigo similar: o da retórica interna, fechada. Ao não adotar uma única linha conceitual mas, pelo contrário, apontar os limites que haveria em algumas delas, Cazzani ao mesmo tempo que ataca o pensamento hierárquico, lógico, se fecha em seus vãos ocres ou vermelhos – que podem não ser vãos de todo, mas rasos nordestinos.

Como se trata de artista que historicamente não hesita em experimentar, tal perigo parece afastado e o que fica é sua declaração, bastante interessante, de que hoje não há possibilidade de constituição unitária de significado.

Tal impossibilidade levaria, paulatina e inexoravelmente, degrau de cor por degrau de cor, até um nada – os campos maiores de cor. Mas como mesmo esse nada tem sua fatura aparente, voltamos ao começo mais uma vez.

Renata Cazzani Os quadros têm cerca de dois metros por metro e meio, a maioria na dimensão vertical. E aqui cabe também um comentário a respeito da horizontalidade, mais afeita a uma leitura reflexiva, “paisagística”, de uma narrativa imagética seqüêncial. E as dimensões verticais do retrato, individualidade sobre a qual, justamente, Cazzani lança sua dúvida.


Centro Cultural Candido Mendes
Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema – RJ
(21) 2267-7295

Renata Cazzani

AlbertoSughi - uomo nel paesaggio

Fiquei muito contente ao receber o release da enorme retrospectiva que a Biblioteca Malatestiana, em Cesena, na Itália, está fazendo do Alberto Sughi.

Biblioteca Malatestiana

Alberto Sughi
Retrospective Exhibition

Curator: Vittorio Sgarbi
Catalogue: SKIRA

This exhibition is a large retrospective, with over 50 works on display, covering the career of Alberto Sughi, the famous artist and citizen from Cesena. Loneliness and the inability to communicate, suffering and pleasure are the dominant themes of his profound poetics, from sensuality to social criticism, often tinged with bitter irony, depicted using a deliberately meagre and rough palette, tending towards the monochrome in his more recent works, yet so effective.

Alberto Sughi During his long career Alberto Sughi has always been an attentive observer of modern life and the most striking aspects of our daily existence. He has made a shockingly accurate study of human poverty, with an impartial eye, and he meticulously reports events, feelings and perversions, without sentimentality or condemnation. He leaves the observer to make moral judgements. His painting does not explain, it simply represents, without filtering. His social criticism emerges in his clear depiction of the degeneration, anger, sadness and suffering of the upper middle classes, but he does not feel the need to discuss the moral implications, confining his work to the well-documented report within a severe and silent context.

The exhibition that will be held inside the prestigious Biblioteca Malatestiana (a splendind Renaissance Library), has been strongly wanted by the city of Cesena, to celebrate a great artist and one of his most illustrious citizens.

(translated by Joëlle Crowle)

Alberto Sughi

From 23/03/2007 to 22/07/2007
Cesena, Biblioteca Malatestiana,
1 Piazza Bufalini – Cesena

PHONE 0039 0547 610892
FAX 0039 0547 21237
http://www.malatestiana.it

www.albertosughi.com
studiosughi@albertosughi.com

Alberto Sughi

Visitem também o Studio Sughi e o blog de Alberto Sughi, no Absolute Arts. Seu último artigo foi “A Painting Lesson“, um doce relato do início de sua carreira.

Mario Sughi, ilustrador.

Mario Sughi
Nero su nero (preto sobre preto)

Observação da editora: Mario é filho de Alberto Sughi, de quem sou grande fã, tanto das pinturas e dos desenhos, como dos artigos sempre inteligentes, bem escritos e inovadores.

Alguém se lembra de Waterworld? Kevin Costner certamente.

Mesmo considerado um fracasso, Waterworld serve para fundamentar a teoria de que a ficção tem função documental tão importante quanto o formato tradicional do documentário, dando uma amostra do pensamento nascente em meados dos anos 90.  Protagonizado e dirigido por Costner, o filme se passa no futuro, em um mundo debaixo de água. Sem espaço para plantar ou criar animais, água potável e comida viraram raridades. É quase uma ironia viver cercado de água e não ter o que beber (deveria ser se o filme tivesse mais humor).

As colônias humanas existentes parecem ter escolhido novos tipos de loucura, desenvolvendo religiões ecológicas que vêem o corpo como material reciclável para nutrir as poucas plantas remanescentes. Em determinada cena do filme surge como artigo de luxo um pé de tomate. O tomate é um símbolo da história da culinária, um fruto vermelho para colorir pratos e que tinha como maior atrativo não matar quem o comesse. Outro artigo que vale ouro é a terra, talvez pelo simbolismo da ausência e pela esperança de que haja em algum lugar um pedaço de chão firme distante da insanidade oceânica. Além das pessoas em colônias, o filme mostra nômades que viajam de um lado para outro fazendo comércio e assaltando barcos abandonados. A maior parte deles também passa sede e fome e demonstra loucuras variadas, exposição contínua ao sol. Há também os mutantes, uma variedade do Homo sapiens que nasceu com membranas nos dedos dos pés e guelras atrás das orelhas (um dos detalhes mais criticados do filme, por questões estéticas). Os únicos felizes nessa versão caótica do futuro são os smokers, um grupo de saqueadores comandado por Dennis Hopper. Os smokers são industriais (por isso a fumaça), dominam a fundição de metais, constroem armas de fogo, barcos, jetskis e aviões, são totalmente dependentes do petróleo e, apesar de se chamarem de primos, possuem hierarquia de subserviência e trabalham intensamente por uns poucos trocados. Para compensar tantas vantagens e justificar o comportamento violento, o intelecto foi reduzido.
Os smokers são burros.

É um mapa ficcional simplista, uma metáfora do mundo moderno que se consolidou no contemporâneo. Curioso pensar que ele antecipe grandes problemas que enfrentamos hoje em dia, por exemplo, a guerra do petróleo e da religião.

Na segunda parte de Waterworld, um dos personagens fala que o planeta ficou assim devido a erros de seus ancestrais, algo que eles – eles que somos nós – fizeram. Em 1995, já havia um pensamento ecológico latente e preocupações ambientais, mas nada semelhante ao medo que temos do aquecimento global. É certo que para o mundo estar debaixo de água as geleiras derreteram. Hoje vemos na televisão imagens de montanhas que não possuem mais neve, notícias sobre a elevação do nível dos mares e o comprometimento da água doce do planeta. Na época, o distanciamento da realidade gerado pela falta de dados abria mais espaço para a invenção. Um filme catástrofe recente talvez dissesse que os oceanos não sobreviverão, já que o aumento de gás carbônico que eleva a temperatura do planeta acidifica as águas e mata corais e plânctons, destruindo a cadeia alimentar marinha em sua base, inviabilizando mágicas evolutivas que criam um Kevin Costner mutante.

O filme catástrofe sempre possuirá força comercial, vide o desempenho de O dia depois de amanhã. Com US$125 milhões de orçamento conquistou US$543 milhões de bilheteria. Seu mérito foi explorar tufões, terremotos e ondas gigantes de uma só vez, associando o equilíbrio político do planeta às condições climáticas, e deixando uma ponta de esperança no ar.

Apesar de todas as críticas negativas, Waterworld se pagou no fim das contas, graças ao mercado mundial. Até então era comum esperar que um filme tivesse lucro ainda na fase de exibição nos Estados Unidos. Com o custo de US$175 milhões – o mais alto da época – arrecadou US$264 milhões, mas manteve o estigma do fracasso.

Provavelmente Waterworld será lembrado como uma cópia ambiciosa, desnecessária e malfeita de Mad Max, e Kevin Costner jamais recuperará seu status e seu cachê. Ainda assim, é interessante analisar os elementos da ficção que possuem caráter documental e pensar como depois de uma década o roteiro se tornou atual.

Se o Centro Cultural Banco do Brasil cometeu algum pecado mortal no último ano, com certeza a exposição Impressões originais: a gravura desde o século XV e a atenção que a instituição vem dando a esta técnica são motivos de sobra redimí-lo. Ter contato direto  com trabalhos dos grandes mestres desde o século XV é algo inesquecível para qualquer admirador do gênero, mas  é especialmente emocionante para um gravurista, que conhece e entende na prática o  quão valioso é cada pequeno ponto visto com as preciosas lupinhas fornecidas aos visitantes.

Percorrer 500 anos de produção em uma exposição é mais que um presente para nós gravuristas, é uma dádiva.  Quem não tem a opção de viajar pelo mundo para ficar cara a cara com  um autêntico Goya, Picasso ou Rembrandt,  com certeza vai se sentir em êxatse.  E por falar em Rembrandt, não é a primeira vez que somos agraciados com suas gravuras. O próprio CCBB – abençoado seja – há alguns anos nos trouxe uma série de gravuras originais, que deixou até os mais distraídos espectadores um tanto quanto embasbacados. Mesmo a gravura sendo desconhecida, misteriosa ou até, em alguns casos, considerada ultrapassada, é difícil não ver alguém impressionado com a qualidade do material exposto nesta exposição.

Embora trágico, não deixa de ter um pouco de graça a total desinformação e o misticismo que a gravura (e até a própria exposição) carrega em seu próprio nome.  Desde que entrei para a faculdade, já  estive diante de diversas teorias sobre o que poderia ser a bendita: desde “colagem” (trazido por aqueles obscuros trabalhos de ciências do primário, onde a “tia” pedia para recortar e colar três gravuras de jornais ou revista de um tema proposto) até a hilária história de uma pessoa que entrou para o curso pensando que era para gravar discos de vinil. Menos divertido que a desinformação sobre “o que é”, é o “para que serve”.  Este sim é um campo mais que fértil para associações nefastas, como: “não é mais fácil tirar uma xerox?”, “sabia que existe scanner?” ou então o meu favorito: “não é mais fácil fazer a nanquim?”.

Não é necessário ir muito longe para perceber o quão misteriosa a técnica pode parecer. Na própria exposição — à qual eu fui acompanhado de mais três amigos que, assim como eu, são formados em gravura pela EBA/UFRJ — eu conseguia perceber olhares curiosos e incrédulos para nós, que tínhamos alguma informação sobre o assunto. Sim, porque gravura, além de tudo, parece ser coisa de velho. Frases como “mostrar o buril”, “segurar firme no borriquete”  ou “dar uma mordida profunda” proferidas por três jovens de vinte e poucos anos têm um cunho sexual muito maior do que esperávamos.

Me ocorre que na época em que eu fiz pré-vestibular havia a tradicional chacota com o curso de menor procura. Durante um bom tempo, a cadeira de oboé foi a grande vítima dos gracejos dos vestibulandos: “se eu não conseguir passar para medicina, tentarei oboé” ou então “eu passarei, nem que seja para oboé” eram piadas corriqueiras entre nós. No ano passado, conheci duas meninas, sete anos mais novas e ainda vestibulandas, que se assustaram ao saber da minha formação de gravurista.  Não entendendo muito bem o porquê de tanto espanto, fui esclarecido que o posto que outrora era do oboé tinha sido tomado pelo curso de gravura. Surpresa para elas foi saber que existia alguém realmente formado em tal curso. Eu imagino o estranhamento dessas meninas, hoje grandes amigas, quando me ponho a pensar como seria se alguém me dissesse que era formado em oboé quando eu estava no pré-vestibular.  Pois uma das melhores surpresas que tive foi encontrar justamente com uma dessas amigas bem no meio dessa exposição, cujo tema era algo que há algum tempo parecia obscuro demais.

Se de tudo esta mostra é um sonho para todos os gravuristas ou admiradores da técnica, vale ressaltar existe uma deficiência (ou seria inexistência?) de um foco informativo para o público leigo. Creio que uma exposição desta amplitude e com esta temática demanda de uma didática muito bem elaborada para que o público não saia dali achando que são apenas desenhos ou, no máximo, desenhos reproduzidos. Não é difícil confundir uma xilogravura a buril com uma gravura em metal ou uma serigrafia com uma litografia. Desmitificar, mostrar, ensinar e popularizar a gravura deve ser função não só dos espaços culturais, mas dos próprios artistas. Não se limitar à sua torre de marfim e se empenhar um pouco mais em fazer o espectador entender seu trabalho, sua linguagem, o porquê e como de cada técnica é obrigação de todo aquele que tem amor pelo que faz.

Confesso que, voltando um pouco, teve um sabor especial encontrar esta amiga justamente nesta exposição. O tom jocoso de algum tempo atrás tornou-se, no mínimo, curiosidade. A gravura tem por si esse poder de encantar, de prender quem a conhece. Não é uma  obra aberta, que deve ser vista a distância. Temos que nos debruçar sobre ela, para que através do micro consigamos entender o macro e, para este fascínio se tornar real, basta o simples ato de conhecer. São essas pequenas coisas que a gravura precisa para, enfim, assumir um papel mais digno na arte contemporânea.

Impressões originais: a gravura desde o século XV
Em cartaz até 29 de abril de 2007
Terça a domingo, 10 às 21h
Centro Cultural Banco do Brasil
Rua Primeiro de Março 66
Centro – Rio de Janeiro

Reabrindo a temporada do já tradicional 5as com Música, a Fundação Eva Klabin trouxe ao palco de seu aconchegante e diferente auditório em forma de capela o Duo Gilson Peranzzetta e Mauro Senise. Itinerário imperdível aos interessados em música de arte no circuito cultural carioca, o 5as com Música é tiro certo para aqueles à procura de lugares e momentos que realmente valham a pena no ritmo prestíssimo dos dias de semana em grandes cidades, como o Rio de Janeiro.

A proposta não é simples, tampouco complicada. Aos mais iniciados no mundo da música, enunciá-la é o suficiente para dar o tom de sua polêmica, embora o termo polêmica exprima pouco o embrolho que se apresenta: reler obras clássicas, consagradas no repertório erudito, com novos arranjos, nova instrumentação, transposições, etc. É o tipo de projeto que pode dar em qualquer coisa. Do luxo ao lixo. Isso sem falar da recusa que sucitam nos espaços mais eruditos. Não fruto de conservadorismo pois uma releitura, mesmo ousada, paradoxalmente, pode ser conservadora. O que se pretende com as obras, a meu ver, legitimamente, é descobrir aquilo que pulsa em seu interior, que dá brecha e margens à criatividade, ao descobrimento, ao relapidamento. Extrair sonoridades contemporâneas, aspectos frescos de uma obra tricentenária, por exemplo, pode ser muito mais potente à sua conservação histórica e cultural do que interpretações clássicas, tradicionais, pouco inspiradas. Essa parece ser a principal característica do duo, sem preocupações de implementar melhorias nas obras ou de promover a exaltação do que quer que sejam suas essências primordiais. Criar a partir de um dado nada bruto é, sem dúvida, um grande desafio. Nesse sentido, a recusa ao novo não é fruto de conservadorismo conceitual, é da ordem da estreiteza de horizonte cultural e musical, do preconceito, fundamentalmente, e do fechamento interior àquilo que há de primordial na história da arte musical, seu mobilismo formal e estilístico centrado na cultura.

E cá estamos falando de um arranjador que é, de fato, um nome em seu tempo. O simpático, gracioso e oralmente sucinto ao palco, Gilson Peranzzeta é um artista cujo currículo me força a escrever aquele chavão que não posso evitar: fala por si só. Pianista, arranjador, maestro, músico completo enfim, possui uma verdadeira folha corrida, em bom sentido, e em tamanho, de vigência internacional. Seu parceiro ao palco, Mauro Senise, flautista, saxofonista e clarinetista, possui a verve do que há de melhor nos sopros (alegórica e literalmente falando) da MPB.

Duo Peranzzetta e Senise

Apresentaram-se abrindo o espetáculo com a conhecidíssima Sonata K 545 de Mozart, em Dó maior. Ao ouvir os primeiros arpejos e as primeiras notas, tomando consciência, subitamente, de que obra se tratava, o espectador logo se deu conta de que estava diante de uma apresentação que jamais poderia ser acusada de algo como pouco corajosa. A flauta, instrumento melódico por natureza e harmônico por vocação, fez logo saltar aos ouvidos a melodia mozariana: uma escala diatônica óbvia que sublima-se em deliciosa e instigante melodia. O segundo movimento, muito melódico, cantabile, romântico, ora gracioso ora misterioso, foi o que todos mereciam ouvir, um presente. O prelúdio n. 4 de Chopin, em Si menor, pregou uma peça em todos, ao introduzir-se com algo que nem de longe lembra a insistente melodia que marca esta peça. As melodias ao piano intercalando-se sutilmente com a flauta foi delicioso. A sobreposição do prelúdio com Insensatez, de Tom Jobim, declaradamente inspirada nesta peça de Chopin, em dado momento, foi imperdível, afinal quem nunca se lembrou de Tom Jobim ao olhar atenta e abertamente os acordes daquele prelúdio? O prelúdio XX do Cravo Bem Temperado, esse de Bach, foi irretocável, a ressaltar a concentração de Mauro Senise, impecável no que, aos ouvidos de um leigo nas flautas, parece ter sido seu maior desafio. O prelúdio das Bachianas Brasileiras n. 4, de Villa-Lobos, foi muito inspirado, com improvisos competentes das duas partes, piano e flauta, mas infelizmente perdeu sua caracterísitca Bachiana, isto é, relativo a Bach, quando ignorou, ou pelo menos deu pouca importância, ao mesclado de vozes, silenciando prematuramente ou não enfatizando corretamente algumas notas mais longas, cuja função é ligar vozes, trazer à luz o bailado de temas em estilo fortemente inspirado em Bach. Não fossem dois imensos instrumentistas no palco, a roubar a própria cena, eu diria que a tônica do espetáculo foram os arranjos, desafio que está no cerne e na alma de proposta nada trivial.

Coloquei, em minha introdução, que o encontro destinava-se, principalmente, a pessoas interessadas em boa música. Erudita, popular, clássica? Não interessou precisar claramente tais fronteiras. A ver um clarinetista improvisar num prelúdio de Chopin, um pianista improvisar numa peça de Villa-Lobos, vemos que o duo se não é simples, também não é complicado, um trabalho digno do conceito de pensamento complexo do sociólogo e pensador francês Edgar Morrin: “É o pensamento apto a reunir, contextualizar, globalizar, mas ao mesmo tempo reconhecer o singular, o individual, o concreto.”

Receber arte intermediada facilita o controle social.

Por exemplo, a Idade Média.

Leitura? Só com leitores especializados em emendar deficiências físicas (manuscritos em más condições, copiados e recopiados várias vezes) e morais (manuscritos precisando de uma mãozinha interpretativa extra, para que uma determinada mensagem, considerada “correta”, fosse bem entendida).

Imagens? Só com clérigos reforçando o que a tinta não poderia dar, por excesso de concretude.

No mais das vezes, a intermediação acontecia através de anotações diretas no texto ou na imagem. Um controle sempre renovado e, a cada vez, integrado na obra original.

Pelo lado do populacho, entendia melhor quem melhor estava sintonizado com a mensagem do poder – eclesiástico ou nobiliárquico. E a mensagem era a mesma e clara: havia o concreto vivido no dia-a-dia de fome e dificuldades, e havia um algo além. E nós, que fazíamos parte do primeiro, deveríamos nos esforçar para corresponder às expectativas desse nebuloso segundo universo que passava por nós, voando, pelas ruelas esburacadas, envelopado em roupas, carruagens ou nuvens, todas elas igualmente fantásticas.

E aí veio o grafite. Zero intermediação.

Entre a Idade Média e o grafite houve o século XVIII, é claro. Foi quando começou a ficar óbvio que o “algo além” – feito de riquezas terrenas ou não – poderia simplesmente não ser alcançável e, talvez, sequer totalmente desejável. As ruas teriam também seu orgulho, sua auto-estima, sugeria Swift. Ainda houve um contra-ataque do controle do tipo medieval, inculcando a noção de que há que haver muito esforço para obter algo nebuloso que dizem que é ótimo. Foi na literatura. Teve o nome de bildungsroman e era uma volta de controle social, agora não mais de forma grupal mas individual: o indivíduo bom era quem passava por todos aqueles perrengues e chegava a…, bem, não mais ao paraíso propriamente mas a uma espécie de conformismo (também chamado de felicidade, sabedoria, justiça) que, do ponto de vista do poder, também dava conta do recado.

No século XIX, o controle via esforço em direção ao paraíso – ou seus sinônimos oitocentistas – foi exercido pelas grandes ideologias. Se você era capitalista, a riqueza estava logo ali. Se você era socialista, a justiça vinha depois de algumas etapas que, infelizmente, jamais terminavam. E se você era hippie, bastava implementar a utopia em seu quintalzinho que logo, logo, todos, felicíssimos, faríamos a mesma coisa e chegaríamos ao equilíbrio ecológico.

No modernismo do século XX veio a arte construtivista fazendo eco a um outro controle que tomava corpo em mentes positivistas. Se Rousseau tinha feito um Émile com que todo poder sonha (seu personagem era incapaz de idéias ou iniciativas próprias e obedecia cegamente ao seu tutor), o herói aqui tinha fé cega em outro preceptor infalível, a matemática. O controle social se dava por impossibilidade de argumento contrário.

No pós-moderno, não sabemos quem é o preceptor, e ficamos na nóia de que estamos sendo manipulados por ‘alguém’ exterior a nós, como em uma narrativa feita na terceira pessoa, onde os personagens têm seu interior desvendado por um narrador externo a eles.

E agora ao grafite. Há aspectos que lembram a Idade Média, mas de forma perversa, revirando pelo avesso o que lá funcionava tão bem. Bem do ponto de visto do poder, claro.

Sem intermediação, com referências diretas a aspectos temporais e geográficos, com a necessária ambigüidade e indeterminação para uma recepção rica, o grafite repete a função autoral medieva, com suas implementações constantes a uma criação primeira e não-autoral.

Também repete a organização de uma praxis cultural grupal, de produção e reprodução, embora não de recepção. Não totalmente, porque se a recepção não é mediada, ela por outro lado lembra a recepção da Idade Média, na sua formação grupal de subjetividades. Quem vê e se identifica, passa a fazer parte de um grupo virtual, se inscreve no que poderia ser chamado de tradição, fossem outras as condições sociais de seu aparecimento, pouco afeitas a valorizações desse tipo.

E talvez um de seus grandes impactos seja mesmo apontar para quais condições, ou falta delas, de um historicismo, de um conhecimento histórico em suas tintas que se sobrepõem.

Começa a mudar. Na foto, o início de um trabalho do artista espanhol San, trazido ao Brasil pelo Instituto Cervantes. Ele prepara uma parede na Rua do Lavradio, pondo uma base, cuidadoso, antes da aplicação das tintas. É um preparo, não mais um grito.

San - fotografia de David Lehmann

Há tantas contradições em arte que fico muitas vezes com medo de escrever uma linha que seja sobre o assunto.

Escrever sobre arte no Brasil então é tão confuso que o próprio escritor(?) sente-se indefinido.
Ser atacado não é o problema, não ser compreendido esse sim é o problema.

O sentimento como definição é vago e pomposo, não quero ser pomposo, nem espalhafatoso, mas a pergunta que me faço é:

O final de toda arte deve ser a arte? Ou o fim é apenas o começo da interpretação pessoal?

Essa pergunta me bate como um martelo, ao contemplar a exposição dos jovens artistas que compartilham a experiência de viver na cidade suja.

A pergunta que me faço é porque esse sentimento de inadequação se faz presente sempre que vejo algo inusitado como a percepção visual de algo não-novo, mas colocado de forma inusitada como sendo algo novo?

O novo entenda-se, como sendo aquela experiência de excitação e perplexidade diante da visão do objeto. O objeto aqui é a produção do artista. Compreendo isso seguindo a visão de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), aonde a visão do objeto depende da percepção do observador (ao observar estou vendo o que o artista viu? Na verdade vejo o que minhas experiências permitem, contrárias ao desejo do artista, que imagina de maneira diferente e eu, imagino o que ele desejou sem imaginar o que ele realmente imaginou, dialogamos num vácuo de filosofia, aonde a necessidade de identificação é segunda, não imediata – imagina eu falando isso numa aula!) que é a grande isca da arte. A pólvora que impulsiona a bala.

Não vou me ater a Merleau-Ponty, vou ser mais sincero e deixar essa coisa de visão mais pessoal.

Vamos então ao que interessa, começando pelo título da exposição, do grupo Sociedade Criativa.

Experimentações, uma experimentação parte de um método científico de verificação experimental de hipóteses teóricas. Teoria não possui nenhuma surpresa, eu acho.

Seria essa uma justificativa para um eventual não entendimento do público? (Sei do medo do fracasso, mas considero que o maior medo do artista é a comparação imediata com outro, por isso as teorias que são desenvolvidas tornam-se fundamentais para o desenvolvimento de uma saber maior sobre a arte, individual ou não).

As experimentações dos três baseiam-se na mais tradicional das artes visuais, a pintura, aquela que remete aos grandes mestres, conhecidos de todos e justamente mais propicia a crítica, pois qualquer um sente-se digno de falar isso ou aquilo. Afora a frase típica:

_ Isso eu também faço – e suas variantes.

Acho que nesse momento, você que esta lendo essas linhas, pergunta-se porque ele não fala das obras?

Ora, muito simples, falo do público, pois é ele que define o ponto crucial de uma exposição, que só o artista conhece.

Voltando: as teorias sobre pintura, definidas de forma secular, renovadas constantemente, me impulsionam a descrever a necessidade do artista ao escolher um suporte tão comum para sua expressão.

Concluo que: somente a certeza da completa feitura pode descrever a totalidade da experiência. O sensor mais comum deve advertir aos sentidos, ao sentir deve permanecer como mero precursor dele mesmo.

Uau, nem acredito nisso, mas o que desejei escrever é que ao estudarem formas tão simples – sabendo que simplicidade é sempre mais difícil – posso afirmar que as obras estão cumprindo o seu papel de experiências sensoriais e visuais, aos confrontarem elas mesmas e suas definições, tanto quanto arte, como suporte ou qualquer outra definição.

Descreverei a sensação que tive com cada um dos trabalhos expostos.

Joelson Bugila, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Joelson Bugila, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Joelson Bugila, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila

Joelson Bugila

Têmpera sobre papel.

O graffiti é considerado como forma de expressão, marcado pelo desenvolvimento crescente do urbano, nascido da marginalidade, aonde cumpria papel de identificação territorial, passa a fazer mais parte dos grafismos primitivos, usados em tribos, lembram dos índios? Pois é, ou então dos grafismos de cavernas que tentam demonstrar uma vida social, uma forma de verificar a sociedade fazendo uma leitura irônica e individual dela mesmo, claro que as nuances são apenas conjecturas.

Uma das definições dessa arte é a imobilidade do suporte, que geralmente é externo, como edifícios, muros e outros, faz pouco tempo que o graffiti migrou para telas ou suportes mais alternativos (estou falando dos graffiti que nasceram de pichações, ok?) como geladeiras – uma revisita a Basquiat? – nosso artista deve ter pensando nisso? Vocês podem dizer que sim, mas acredito que o suporte para seu trabalho, que são sacos de papel, daqueles usados em mercados e padarias, é mais uma homenagem – ironia, ironia – as fomes contemporâneas, que transformam todos os brasileiros em antropófagos (não estou falando de arte agora), a fome de nossa sociedade por novas saídas, estratégicas ou não, remete principalmente a fome individual, que assola tudo, mas é sucumbida pela primeira necessidade.

Admito também a ironia – mais uma vez – usada pelo Sr. Bugila, ao trabalhar com um suporte que remete ao alimento, ele demonstra uma fina intencionalidade de rir da necessidade que é a arte, sua função em nossa sociedade e sua real intenção. Em seus desenhos ele decide saciar as duas fomes, com desenhos primitivos alimenta uma necessidade nada primitiva. Com os sacos de papel ele alimenta o corpo, mesmo que metaforicamente.

Outra intencionalidade nada amadora transparece no material utilizado, a têmpera, ao deixar os materiais alternativos e utilizar a forma pura em um suporte alternativo à brincadeira torna-se mais divertida, atraindo e desenvolvendo um vínculo com o espectador ao relembrar momentos específicos da infância, perdido em nossa geração 80.

Felipe Kanareck, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Felipe Kanareck, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Felipe Kanareck, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila

Felipe Kanareck

Lápis 8B diretamente na parede e flyers.

Saindo da intencionalidade do suporte e partindo para o questionamento, temos o trabalho do Sr. Felipe. Extremamente ativo na percepção desenfreada do impulso de terminar algo e a visão pré-programada que temos de algo terminado, além da pouca intencionalidade infantil, mais abrangente e contundente. O trabalho explora questões fundamentais para novos artistas que buscam respostas para valores da obra, ou valores de representação da obra, ao transformar a moldura, que pode ser de um espelho, quadro, foto, em um objeto artístico, objeto?

Seria mais realista falarmos de intenção-objeto, ao utilizar a parede da própria instituição como suporte, ele luta com a intencionalidade, claro que a questão não é nova, mas é contemporânea ao tratar de questões como reciclagem e adornos fúteis. Outro ponto de discussão muito batido em arte, sua futilidade diante de novas experiências visuais, meios e formas de expressão. Sem esquecer da forma como lemos uma obra de arte.

Quando falo tudo isso é apenas para determinar meu ponto de vista, imagino que a curiosidade do leitor se dê ao imaginar o objeto, o Sr. Felipe trabalhou diretamente nas paredes da galeria, utilizando lápis 8B, desenhando molduras.

Simplório, não-novo, mas intensamente ligado aos valores intrínsecos da arte, o que o artista mais desejou com sua intenção foi a de aproximar sentimentos, tão contraditórios como efemeridade e durabilidade, ao transformar o mais inútil de uma obra em algo intransmissível e também transmissível, pois sua obra não se mantém apenas na parede, ela migra para flyers, que são entregues aos espectadores, que por usa vez fazem suas próprias interferências, colando, ou apenas guardando aquele momento, emoldurando sua percepção da sensação.

O questionamento, esse mais profundo, demanda perguntas que hoje se mostram como ontem, mas que permeiam qualquer trabalho de arte desde a modernidade permanecendo inclusive como meio e caminho em qualquer curso de artes visuais, caminhos estudados por pesquisadores como Arthur C. Danto (1) ou Hans Belting (2), ao contemplar esse questionamento acredito que o artista almeja, mais que a pintura, progredir de forma consciente, em uma caminho conciso daquilo que seria sua arte.
Cristine Gomes, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Cristine Gomes, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila Cristine Gomes, fotografia gentilmente cedida por Joelson Bugila

Cristine Gomes

Batom sobre tela.

O trabalho da Srta. Cristine conjuga a intencionalidade e o questionamento, mas não foca no suporte, o suporte para ela é apenas o caminho para o resultado. O que a Srta. Cristine foca é o instrumento, seu próprio corpo, nesse caso uma parte dele, sua boca. O suporte, como tradicionalmente se vê é apenas o receptáculo do instrumento e da intenção.

Seu trabalho nos remete as experiências de Ligia Clark (1920–1988), sua pesquisa com e no corpo, mostra toda sua preocupação em movimentar idéias e conceitos não-novo, pois o novo é apenas um caminho.

Porque digo isso? Todas as suas obras se baseiam na pintura, como as de seus amigos, mas o novo nesse caso parte do não-novo (essa minha teoria, como descrevi acima, tem tudo com Merleau-Ponty, não se esqueçam) sendo ele algo que procura desvirtuar o novo.

Agressão, atenção e choque são palavras que nasceram na arte moderna, assim como o uso da sexualidade e do erotismo como formas de expressão. Colocando de lado conceitos antiquados e buscando uma vanguarda baseada no ser como fundamento.

Sua forma de trabalho é simples, ao escolher o material, ela utiliza sua boca, que foi “pintada” com uma dose generosa de batom e beija o material de suporte até que considere a obra acabada, por mais simples que pareça ao transformar a si mesma em instrumento de trabalho, ela está constantemente ligando-se a suas pinturas, se é que posso descrever assim.

Sua inquietação perante o corpo, sua profunda pesquisa e questionamento são apenas afirmados em telas como a do homem andando. Aonde podemos ver duas questões, daquelas que todo crítico adora:

A pintura, efetuada com beijos, um gesto de carinho que transmite intimidade e cumplicidade, o beijo em si que por si só caracteriza um auto-retrato, o homem andando (ou correndo, não sei), que está colocado deitado! Não é interessantíssimo? Com recursos simples ela mostra sua inquietação e dúvida, gestos próximos?

Impossível descrever sem ver. O espectador é fundamental nessa parte!

Reconhecer o objeto, novo ou não-novo é o primeiro passo para a intenção do artista.

Exposição Coletiva “Experimentações”
de 06 à 29 de março de 2007

Obras de Cristine Gomes, Felipe Kanarek e Joelson Bugila
Local: Galeria Municipal de Arte de Itajaí

Entrada Franca
Fundação Cultural de Itajaí/SC
Galeria Municipal de Arte
Rua Lauro Müller, 53 – Centro.
Fone: 3349-1214/3349-1516
De 2ª a 6ª – Das 13 às 19 horas.

1 – A transfiguração do lugar comum
Arthur C. Danto
Tradução: Vera Pereira
Cosac Naify

2 – O fim da história da arte
Hans Belting
Tradução: Rodnei Nascimento
Cosac Naify

Em cerimônia realizada na Sala Baden Powell na noite desta 3ª feira, foram anunciados os vencedores do Prêmio Zilka Sallaberry, que premiou os melhores espetáculos de teatro infantil de 2006 no Rio de Janeiro.

E o grande vencedor da noite foi O PEQUENINO GRÃO DE AREIA de João Falcão, que ficou com os prêmios de melhor espetáculo e melhor texto.

A peça estava também indicada para melhor direção, cenário e iluminação.

Confiram os demais vencedores em http://www.zuccanet.blogger.com.br

No próximo final de semana, dias 17 e 18 de março, acontecerão as últimas apresentações do espetáculo no Teatro da UFF em Niterói.

Teatro da UFF
Rua Miguel de Frias, 09 – Icaraí
TEL: (21) 2629-5020
sábados e domingos às 17h
DURAÇÃO: 50 minutos
INGRESSOS: R$ 15,00 (meia entrada para crianças, estudantes e idosos)
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: livre

A partir de 31 de março, a peça fará curta temporada na Barra da Tijuca, com o lançamento da programação da mostra infantil do Teatro Antônio Fagundes pelo projeto CBTIJ em Ação.

Saiba mais sobre o CBTIJ em www.cbtij.org.br.

O Pequenino Grão de Areia conta com o patrocínio do Opportunity e está participando da Caravana Funarte Petrobras de Circulação Nacional de Teatro.

Estive outro dia relendo o Machado. O Dom Casmurro e alguns dos comentadores que mais me agradam. Fiquei pensando no que disseram uns, no que disseram outros. Gosto dos calidoscópios, de montar e desmontar imagens que nunca são tão diferentes do que são e nunca são também iguais, ou tão iguais, ficam num entrecruzar de possibilidades que jamais poderemos definir como definitivas. É um recurso intenso.

A obra do velho bruxo tem um pouco desta magia dos calidoscópios; se o leitor mexe com as possibilidades textuais, todo o universo do texto se reorganiza e produz uma imagem diferente semelhante e dessemelhante ao que antes havíamos percebido. Ativa no leitor o desejo de testar essas possibilidades, de produzir no texto lido tantas imagens quantas são as variáveis possíveis. Tarefa inglória. Tanto mais mexemos no texto, tanto mais o texto demonstra sua face mutante.

Se entrarmos pela percepção do discurso científico, o enigma de Capitu se revela um; se pelo discurso jurídico, outro; se pela matriz dos textos semelhantes, a nosso espanto se revela – como propôs Silviano Santiago – um discurso construído por respostas sociais e políticas ao nosso estar advocatício e religioso. Todos estão ali, constituem as peças, através das quais o nosso machado sangra, rasga a carne do que vai se estabelecendo como tradição. Todo esforço de leitura unívoca do texto machadiano tende ao fracasso.

Ler Machado é necessariamente reler o que dele antes propuseram, reler o que dele hoje propõem, pois todas as possibilidades falam de um Machado possível, de um Machado legível. Na legitimação das diversas leituras, na percepção de que ler assim ou assado foi possível é que se constitui a esperteza do leitor: saber que nenhuma deva ser desprezada.

Ao torcermos a caixa de surpresas que são seus livros, uma nova configuração se adequará à cena construída, uma outra imagem, insuspeitada, se formará e seremos todos obrigados a ver nessa nova revelação, que o texto contém desde sempre, o sorriso sardônico do autor e a nossa incredulidade de estarmos frente a um novo texto, que, entretanto, é tão semelhante ao anterior.

O calidoscópio machadiano nos toma e somos levados a brincar com ele, a buscar sempre a prefiguração de novas possibilidades.

Notas sobre um escândalo é um thriller eficiente em que a evolução da história acompanha o conflito psicológico de seus personagens. Estão descartadas perseguições automotivas e atividades de espionagem. O jogo está mais próximo de nós, do cotidiano de quem anda entre a razão e a emoção, aumentando assim o envolvimento do espectador. Manipulando uma atmosfera causticante, o diretor Richard Eyre faz o filme seguir num crescente e sufoca quem assiste ao mesmo tempo em que afoga os personagens na conseqüência de seus atos. Nada fica sem resposta.

O filme fala de Barbara Covett (Judi Dench), professora de escola pública rigorosa com seus alunos, tida como exemplo de ordem e conservadorismo pelos companheiros de profissão. Uma mulher solitária, ela escreve tudo o que acontece em um diário contínuo, cadernos e mais cadernos de infelicidade transformada por sua ótica psicótica. Barbara vê a chance de acabar com sua solidão quando Sheba Hart (Cate Blanchett), a nova professora de artes, chega na escola. Sheba é uma mulher muito bonita, que não consegue domar os alunos. Barbara decide ajudá-la nessa missão profissional, tendo como objetivo pessoal conquistar sua amizade. Problemas contornados aqui e ali, a relação se intensifica. Agradecida, Sheba convida a velha professora para um jantar em sua casa, momento em que Barbara conhece o marido bem mais velho, a filha mimada e o filho com síndrome de down – novas armas para seu tratado psicológico. Como uma mulher tão bela pode ter uma família tão insuportável?, ela se pergunta. A situação se descontrola quando a suposta defensora dos bons costumes descobre um affair de seu objeto de desejo com Steven (Andrew Simpson), um rapaz de 15 anos de idade. A partir daí, Barbara se infiltra como uma doença na vida de Sheba, aproveitando-se de cada equívoco da beldade para tornar a amizade um jogo vampiresco de dependência e traição, sempre com ameaças disfarçadas de boas intenções.

Quem adapta romances para o cinema deve ter plena liberdade de escolher quais cenas são relevantes para alimentar o ponto dramático central, de eliminar todo o entorno sacrificando personagens secundários e de criar a partir de poucas linhas uma cena realmente impactante ou transformar um capítulo inteiro em 10 segundos de imagem. Seguro no tema, Patrick Marber transformou o romance de Zoe Heller em um filme coeso, centrado na relação das duas mulheres. A família de Sheba e seu aluno Steven se aproximam e se afastam do tema central sem estrangular a trama ou se mostrarem desnecessários. São orgânicos, bem construídos no roteiro e bem dirigidos por R. Eyre, escapando da armadilha do personagem funcional. Compõem indiretamente Sheba e Barbara, refletindo os sentimentos duvidosos e a índole fluida da dupla principal. Os demais elementos narrativos também são muito bem integrados, dispensando narrativas em off. É a imagem que carrega a informação, seja num fio de cabelo caído no colo ou em uma pá suja de terra, e faz evoluir a trama.

Patrick Harber, também escreveu o roteiro de Closer (bilheteria mundial de US$115 milhões com custo de US$27 milhões), sucesso do ano de 2004, outro exemplo de diálogos inteligentes. Richard Eyre é mais conhecido por trabalhos na TV, e em 2004 dirigiu A Bela do Palco, um romance de arrecadação modesta sobre um ator que interpreta papéis femininos e que entra em crise de identidade quando o rei decide liberar as mulheres para atuar no teatro.

Exercício de sensualidade de um lado, exercício de relacionamentos conturbados do outro. A combinação perfeita para Notes on a Scandal.

Melhor Filme pelo Júri Popular do Festival de Gramado (2006)

Pré-estréia no Centro Experimental Cícero Dias, localizado no Complexo Esportivo Santos Dumont, em Recife.

A exibição do documentário terá debate mediado por Zuenir Ventura com o diretor João Jardim e alunos que participaram do projeto.

Serviço:
Dia 16 de março de 2007
A partir das 19 horas
Entrada franca

Borat se tornou um fenômeno mundial, com exceção talvez do Cazaquistão. Com o custo estimado em US$18 milhões, deve ultrapassar US$260 milhões de bilheteria em breve, colocando a carreira de Sacha Baron Cohen em um novo patamar. Sacha é a voz de Julien em Madagascar. Ele fez diversos episódios de TV com o personagem Borat e também como Ali G, sua encarnação rapper, que aparece no clipe de Music (Madonna) e no filme Ali G Indahouse.

Em Borat – o segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão, acompanhamos o personagem em uma viagem pelos Estados Unidos, onde ele deve aprender o que fez dos EUA uma grande nação, e depois ensinar tais valores e virtuosidades ao seu país de origem. Durante a jornada, nem tudo sai como planejado, o dinheiro aperta, a recepção americana não é muito amistosa, os costumes são deveras diferentes, e para melhorar, Borat se apaixona por Pamela Anderson (depois de assistir Baywatch) e decide mudar o roteiro da viagem para conhecê-la e pedi-la em casamento.

Relembrando. Sacha é um ator branco, com bigodão falso, um sotaque britânico carregado, que força os erros de pronúncia como “um imigrante do Cazaquistão” e usa um terno impecável com calça na canela. Tudo que – propositalmente – pesa contra um perfil realista do povo turcomano cazaquistanês.

O filme se desenvolve desde o roteiro até a direção mantendo um flerte constante com a linguagem do documentário. Buscar autenticidade através do fake foi um risco que deu certo. Mesmo sabendo que não há uma câmera invisível, que o equipamento envolvido não é amador, que a iluminação, o posicionamento de atores e a história foram cuidadosamente calculados, o espectador acredita que as pessoas no filme expressam uma reação natural. A graça surge exatamente dessa suposta espontaneidade da situação. Por ela, Borat contesta valores clássicos americanos como o capitalismo desenfreado que tenta se adaptar a qualquer situação e cliente, a situação absurda das pregações religiosas, o conservadorismo preconceituoso texano e por aí vai.

No affair com a prostituta vivida por Luenell conhecemos uma mulher adorável. No trailer de jovens de classe média americana, nos deparamos com bêbados sem princípios e moral. No diálogo com negros, humor legítimo. Na entrada de um hotel luxuoso, a rejeição pelo que não é igual e não está no padrão aceitável de comportamento.

Uma das graças do filme, não intencional porém bem-vinda, é prestar atenção nos “atores” que não se agüentam e começam a rir no meio das situações escabrosas criadas por Borat. As cenas com o casal de velhinhos judeus e o culto religioso estão repletas desses risos incontidos.

A manipulação da estrutura documental é sempre um assunto delicado, pois diminui a capacidade de distinção entre o que é a realidade e o que é ficção. Felizmente, aqui o exemplo é uma comédia.

Sacha Baron Cohen volta às telas em breve em Madagascar 2, estará em 3 filmes atualmente em produção e os direitos pelo seu novo personagem (um gay austríaco do mundo da moda) foi disputado até o último dólar pelos estúdios hollywoodianos.

Está no ar o primeiro Aguarrás TV!

Ana Paula Maia e Eric Novello

making of Aguarrás TV entrevista Ana Paula Maia

Ana Paula Maia gentilmente nos concedeu esta entrevista, pouco antes do lançamento de seu novo livro, Guerra de Bastardos.

Assista, mande para os amigos, coloque no seu blog!

No youtube.

Visite também Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos.

O primeiro solo da atriz Dani Barros adapta para o teatro o romance de estréia da jovem escritora paulista Patrícia Melo, Acqua Toffana, sob direção de Pedro Brício. O espetáculo integra o projeto Solos Femininos, da Zeppelin Companhia de Teatro, alternando o horário alternativo (terças e quartas) do Oi Futuro com o espetáculo de Isabel Cavalcanti, O caderno rosa de Lori Lamb, adaptado do livro de Hilda Hilst.

A montagem desperta a curiosidade pelo próprio desafio: o texto de Patrícia Melo se alinha à literatura policial e possui características fragmentárias, tentando transpor para as letras a linguagem multimídida/videoclipe a que nos acostumamos no universo tecno-urbano contemporâneo. Uma proposta estética que teve forte representação a partir da década de 90 (o livro é de 1994).

Acqua Toffana

Hoje, na terceira linha de combate, Dani Barros e Pedro Brício tinham pela frente o desafio de transpor a quatro mãos, mais uma vez, a linguagem – agora das letras para o palco – e contar a história do personagem Fulano de Tal, um burocrata de rotina mecânica e medíocre que, por motivo fútil, desenvolve uma obsessão odiosa e o desejo compulsivo de matar sua vizinha gorda Célia, passando a planejar incessantemente as formas de assassinato, às vezes sutis, às vezes brutais. A obsessão vira paixão psicótica. O livro vira teatro de leituras dúbias, de múltiplas interpretações possíveis.

O trabalho de adaptação é sem dúvida um dos pontos positivos do espetáculo. Em cena, o texto mantém sua força sustentado pelo humor negro e pela tensão que gera expectativa no público.

O tom confessional do texto facilita a ponte para o teatro. A mistura ambígua de realidade e imaginação, o mergulho intenso na psiquê de um assassino potencial, esses eram elementos de dificuldade para o roteiro cênico: como manter as cores e as nuances literárias no palco? Como manter a perspectiva esquizofrênica que o personagem tinha do mundo e das coisas sem se perder numa dramaturgia confusa? Este obstáculo o diretor e a atriz saltaram bem.

Entre a fantasia e o real, a história é conduzida na incerteza, deixando o público sempre numa certa “suspensão”, até o fim, num exercício constante para decifrar os códigos, montar e remontar o quebra-cabeças, e compreender o que se passou de fato e quem é esse Fulano de Tal, assassino apaixonado e torturado.

Ao sair da escrita para o palco, porém, o espetáculo encontra dificuldades. A direção optou por utilizar recursos técnicos (luz, cenário, marcações de movimentação) para acentuar ou tentar traduzir na cena a fragmentação videoclipe utilizada no livro e a mecanicidade da rotina do personagem.

Acqua Toffana

Os excessos – em cortes, repetições notoriamente marcadas, blecautes, uma cenografia plástica mas carregada – acabam pesando, gerando quebras de fluxo, desvio de atenção. Ao final, fica a sensação da expectativa não realizada plenamente. Um caminho entrecortado que acaba gerando distanciamento e não permite que se chegue ao clímax. Vislumbramos a explosão máxima, mas não chegamos lá.

Acqua Toffana aborda questões bastante primitivas no humano: a morte e o desejo. A perda de limites estipulados socialmente para determinar o que é moral, o que é violento ou brutal, o que é “normal”. O teatro provocador nos leva para além dos limites e fronteiras e ainda conseguimos sair da sala de espetáculo impunes (ou quase).

Não há dúvida que a montagem de Pedro Brício e Dani Barros consegue tocar o ponto fundo e mais obscuro desses nossos impulsos primitivos. Articula e expõe com crueza nossos próprios mecanismos de defesa, às vezes pífios, fundados na fantasia que se mescla ao real até que todas as referências se percam.

Mas o toque que gera um incômodo inicial – e daí a expectativa íntima, a espera por algo indefinível que passamos a desejar ver realizado na cena: queremos todos matar a vizinha Célia – é interrompido.

As quebras do fluxo parecem criar pequenos “curtos” que nos desligam da corrente elétrica que deveria crescer, nos fazem perder esse contato íntimo com nossa própria obscuridade. E nos percebemos outra vez público, na poltrona confortável do teatro. Voltamos ao príncípio da relação com o personagem e seu universo, no esforço por um novo envolvimento que nos conduza ao toque íntimo, ainda uma vez.

Essa exigência de retomada constante poderia ser cansativa, não fosse o trunfo Dani Barros. A atriz sustenta bem o espetáculo, dá consistência à composição desse homem obsessivo e sua paixão homicida, tem facilidade e verdade na relação direta de diálogo com a platéia e ganha o público com domínio do humor negro e surreal proposto pelo texto.

Ao fim das contas, Acqua Toffana é um espetáculo de resultado curioso: a boa atuação de Dani Barros e o corte dramatúrgico bem sucedido do texto só pedem a mesma limpeza e precisão técnica dos outros elementos para que a cena transcorra fluida.

Serviço:

“Solos Femininos – Acqua Toffana”, com Dani Barros. Direção Pedro Brício. Terças, 19h30. Até 10 de abril.

Assista também “O caderno rosa de Lori Lamb”, com Isabel Cavalcanti.
Às quartas, 19h30. Até 11 de abril.

No Oi Futuro

Después de passar

Los niños miran
un punto lejano.

Los candiles se apagan.
Unas muchachas ciegas
preguntan a la luna,
y por el aire ascienden
espirales de llanto.

Las montañas miran
un punto lejano.

(Federico Garcia Lorca)

Depois de passar

Os meninos fitam
Um ponto distante.

Os candis se apagam.
Umas moças cegas
interrogam a lua
e pelo ar ascendem
espirais de pranto.

As montanhas olham
um ponto distante.

(Tradução William Agel de Mello)

O texto acima, do poeta espanhol, Federico Garcia Lorca, revela toda a economia e magia da escrita poética. Sabemos que há meninos que olham um ponto distante e que este ponto distante será, no final do poema, objeto de um outro olhar, o da montanha. Não se afirma que ponto é este que montanha e meninos olham. Apenas o sabemos distante. Sabemos mais: que entre o olhar dos meninos e o olhar das montanhas os candeeiros se apagam e as moças estão cegas e choram e que o choro corrobora a distância anunciada dos olhares dos meninos e anuncia a das montanhas.

Todo o poema cabe nesta descrição feita acima. No entanto, há algo que perturba a vigília do leitor. A magia poética que se cria entre a luz do candeeiro, que se apaga, e as esperais que sobem pelo ar criam um nexo lógico e causativo, isto é, a razão, sugerida e não dita, pela qual a cegueira das moças as faz interrogar a lua – o ponto distante e nomeado – que não enxergam, está em relação direta com o ponto não nomeado que montanhas e meninos olham, a lua. Nomeia-se o ponto distante pelo que as moças não olham, por serem cegas, e os que possuem a capacidade de olhar, meninos e montanhas, não podem nomear o que olham. Assim, a cegueira contamina o olhar. O olhar assim contaminado estende sua capacidade até os seres (a montanha) – pois é disso que se trata – a quem é impossível o olhar.

Essa junção entre olhar e não olhar permite ao poeta, e ao leitor, perceber não só a humanização das montanhas como o homem desumanizado, porque pasmo diante do que olha: o ponto distante. Inserido no que não são e ao mesmo tempo são, homens e montanhas conhecem seu paradoxo. Um participa do mundo do outro por pertencerem ambos ao mesmo mundo, sobre o qual, aliás, nada poderá ser dito, senão a negação dos sentidos que os sentidos permitem aos homens como ilusão.

A desolação é absoluta. Resta ao leitor e ao poeta a afirmação de uma estranha ficção, que serve ao mesmo tempo para remir do cativeiro em que os sentidos o colocaram como para afirmar a diferença que os homens possuem quanto à natureza: a capacidade de produzir ficções e vivenciá-las.

Em seu mais recente livro, História, Ficção, Literatura, Luiz Costa Lima indaga-se acerca da determinação do ficcional. Nesta indagação verifica que o estatuto do ficcional se estende por toda manifestação humana. Quanto mais somos passíveis de produzir linguagens mais somos capazes de dotar o mundo de ficções. Tal argumentação, se nos diz de uma pressuposição comum aos homens, no entanto, terá um outro desdobramento, quando o assunto, sobre o qual se reflete, é a literatura.

A formulação do discurso literário como determinador do real e não como seu reflexo pressupõe o fio da indagação teórica da literatura e de sua prática. Assim como é uma forma de ficção calcular as estruturas de um prédio, é uma forma de ficção dotar o mundo de possibilidades para o real, isto é, ser capaz de produzir uma realidade. Embora os discursos humanos promovam essa produção, o único que se sabe produtor de realidades e não a realidade ela mesma é o artístico, o que se produz como um como se e não como uma formulação do que é. Essa diferença brutal vai fazer com que o leitor, diante do inusitado, diante do não previamente demarcado como real, possa aceitá-lo e possa produzir uma percepção crítica diante do que foi já determinado como a fixidez do real, imutável e cristalizado.

Assim é que a magia do poema de Lorca se estende para a determinação de uma sensação de aniquilamento dos modos perceptivos do homem e o deixe com um traço mínimo, econômico, do que é o real: a sua completa incapacidade de distinção, produzida pela linguagem poética.

COSTA LIMA, Luiz. História, Ficção, Literatura. Cia. das Letras. São Paulo. 2006.
LORCA, Federico Garcia. Obra poética completa. Martins Fontes. São Paulo. 1989.

Thiago Barros ficou de pé na beirada urbana do Brasil, olhando para o interiorzão sem fim. Deu um arrepio de solidão e, então, ele chamou suas fotos de Soledades. Mas não foi bem a solidão o que ele fotografou.

Quando em uma borda, você monta uma estratégia de sobrevivência. Pega alguma coisa do lado de lá sem abandonar de todo o lado de cá, e vai negociando e trocando essas trocas à precisão do momento. A borda continuará lá e vai aparecer a cada passo, você apenas aprendeu a viver nela.

Foi isso o que ele fotografou, a estratégia.

São poucas, as fotos. Estão expostas a partir de 01/03/07 na Galeria Tempo, em Ipanema. Antes estiveram em uma galeria parisiense. Thiago Barros ganhou o Prêmio Juan Rulfo de Fotografia, ano passado.

Thiago Barros - Chapada dos Veadeiros - GO - 2003 Thiago Barros - Barra de São João - RJ - 2000

Adeus é um trilho de trem onde aparecem os pés de quem fotografa; Soledade 1 é um trailer abandonado em uma praia deserta; Soledade 2 é um balanço de criança no meio do nada; Espera feliz é o nome de uma localidade na Chapada dos Veadeiros, e a foto, feita no local, mostra uma cerca enferrujada separando o mato, igual em ambos os lados; Pets são garrafas de plásticos emborcadas em mourões de madeira; Eucaliptos são apenas isso mesmo.

Thiago Barros - Azeite - MG - 2005 Thiago Barros - Madre de Deus de Minas - MG - 2005

Azeite e Vale da Lua (o primeiro é um lugarejo em Madre de Deus de Minas, o segundo fica em Goiás); Barreiro, no Vale do Jequitinhonha; e Dunas, em Massambaba, fazem um segundo grupo e já vou falar delas.

O primeiro grupo traz divisões nítidas na composição: um horizonte, a cerca, as linhas verticais das árvores. A negociação, aqui, se dá na quebra dessas linhas e na quebra também do que representam: o nada agreste do lado de lá terá sempre um vestígio do urbano do lado de cá.

Thiago Barros - Parque Estadual de Ibitipoca - MG - 2004

O segundo grupo negocia a borda de outra maneira. O próprio preto e o branco, em composições quase abstratas, lutam centímetro a centímetro pelas suas diferenças. É a demonstração técnica de Thiago Barros. Além de fotógrafo, é laboratorista famoso.

Thiago Barros - Jequitinhonha - MG - 2004

Em cada grupo, individualmente, e na soma dos dois, uma estratégia brasileira de viver na beirada. Vai mais além a coisa, do que o aparante antagonismo entre cidade e campo, árvores e objetos de metal. Ou entre exibição de um exótico oferecido para o consumo de um mercado internacionalizado, e a abdicação incondicional, via técnica, a este mesmo mercado, sem passar pelo exótico.

No primeiro grupo, Thiago Barros diz que a divisão entre este ou aquele território não é mais possível, que as linhas não são mais contínuas em um mundo que se retalha. No segundo grupo, ele diz a mesma coisa, mas usando o tempo em vez do espaço: na limpeza técnica de seu grão, obtido a partir da revelação de uma foto 6 x 6 (Hasselblad), está o grão de um barro de artesãos brasileiros. É o salto histórico de um saber, aliás de dois.

Thiago Barros - Espera Feliz - GO - 2003

A descontrução de certezas é atividade valiosa. Na soma dos dois grupos de fotos está implícita a transitoriedade das certezas, incluindo a da própria exposição. A certeza da exposição é que a construção de identidades se dá através de seqüências de invenções transitórias. Tudo nas fotos parece parado, nada é. Arames de cercas enferrujam, trailers têm rodas, o trem anda, a balança balança, a areia estará diferente no dia seguinte e até a casca dos eucaliptos se solta. Mas há estabilidade. Para o bem, para o mal, seremos isso mesmo – misturas de tempos e espaços – até onde a vista alcança.

Geralmente pensamos em novas tecnologias de forma excludente. Todo ano surgem câmeras digitais que tornam os modelos anteriores obsoletos, celulares estão continuamente inovando e computadores envelhecem num piscar de olhos. Entretanto, quando falamos de música e do mercado fonográfico, o parâmetro da exclusão é insuficiente e simplista para analisar as diversas camadas em jogo. Afinal, é possível chegar a uma coexistência pacífica, lucrativa para todos os lados.

É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) A primeira análise cabível é a do fim da era do vinil. As bolachas perderam espaço e tiveram seu fim decretado com o surgimento do cd. Nada mais de vinil duplo. Todas as faixas cabiam em um disco compacto, durável, fácil de carregar e guardar. Seus avançados tocadores vinham integrados ao som esbanjando modernidade. Para melhorar, mini e micro systems tornaram-se PowER Plus, Super Surround e outros exageros. O futuro estava logo ali, era a mensagem. Graças ao esforço de colecionadores e da preferência dos DJs, a morte do vinil foi adiada. Um exemplo recente (2005) foi o álbum Confessions on a dance floor, da cantora Madonna, lançado também em Vinil triplo rosa, edição limitada. Graças ao status cult, o vinil sobreviveu, mas perdeu o mais importante para a indústria – a representatividade em vendas.

Não é preciso falar do impacto da mp3 – uma tecnologia que inverteu o caminho tradicional de disseminação pela pirâmide de consumo e permitiu a troca digital em massa, entre outros dados que já nos acostumamos a ler com freqüência em jornais. Por muito tempo ela foi considerada a grande vilã que levaria as gravadoras à falência. O mesmo barateamento de tecnologia que havia popularizado o cd player chegou ao gravador de cd, facilitando a pirataria de mídia física e libertando a mp3 do computador. Gravar cds não era mais um recurso para poucos (que o diga o gravador de dvds).

Com alguma inteligência comercial e programação logística, as gravadoras perceberam que a resposta para os problemas estava na suposta vilã – essa tal mp3 – e a transformaram em ferramenta de venda de acesso universal, ajudando a reverter o quadro de queda do consumo de música e começando a recuperar o público que tinha migrado para o download ilegal.

Apesar de ser um processo embrionário no Brasil, a venda legalizada de música digital cresce a olhos vistos. Warner e Biscoito Fino já possuem sites de downloads similares ao iMusica, e a Warner acaba de anunciar parceria com a Vivo para vender seu catálogo como toque de celular. A tendência é que o repertório disponível digitalmente cresça ano a ano, e o número de clientes acompanhe a taxa. A renovação de mp3 players também continuará. Os tocadores portáteis estão cada vez mais baratos e celulares e relógios de tecnologia bluetooth já disputam o mercado. Em breve será possível baixar amostras grátis de música que durarão 3 dias no player, só ficando novamente disponíveis após a compra. Provavelmente as lojas de cd terão mesas wireless de onde o cliente aproximará seu aparelho para escolher, copiar e comprar as músicas. Um repertório infinito disponível em espaço digital, com painéis que alteram o foco da propaganda a cada instante e de acordo com o gosto do cliente. Lembre-se que hoje já é possível pagar contas pelo celular.

As rádios, que hoje ganham dinheiro com anúncios e comerciais (finja que não existe o jabá, por favor), também se transformarão em lojas de mp3. Com auxílio da tecnologia digital para exibir o nome da música e do cantor no display, bastará ao ouvinte escolher a faixa, consultar o preço e fazer o pagamento. Novamente a dobra espacial se abre e o futuro fica mais próximo.

Diante de tantas inovações, analistas e palpiteiros resolveram antecipar o fim do cd, com a mp3 (ou seja lá qual for o nome do próximo arquivo compacto revolucionário) assumindo o seu lugar. Mas você quer mesmo trocar o conjunto cd + encarte + informações + arte por um blábláblá.mp3 na tela do computador?

Talvez seja hora de mudanças. É mudando a mentalidade do consumidor e oferecendo produtos de qualidade que os sites de venda digital lucrarão cada vez mais. O mercado de singles no Brasil é inexistente e os interessados sempre dependeram de importadoras para conseguir o que queriam a preços exorbitantes. A mp3, ao invés de competir em venda com os cds, pode ocupar o espaço deixado pelos singles, esses sim verdadeiramente ameaçados pela era digital. Versões acústicas, remixes, novas roupagens, faixas exclusivas. Temos produtores e DJs de excelente qualidade no Brasil, plenamente capazes de tornar o mp3-single um produto interessante e, por que não?, diferenciado daquele disponível no cd, transformando a concorrência entre produtos em maior oferta de músicas. Uma nova demanda plenamente aproveitável, capaz de manter o sucesso de músicos consagrados e ajudar a divulgar novas bandas no espaço digital. Você é capaz de imaginar um programa de rádio anunciado assim: “e agora, as 10 músicas mais compradas durante o dia”.

O cd deve realmente virar item de colecionador o mais rápido possível, mas no bom sentido. Outra vez, se faz necessário a mudança de mentalidade e quebra de paradigmas. Ela deve partir das gravadoras em suas políticas internas, para alimentar um crescente público potencial. Vale parar e pensar. O que é o cd afinal? É realmente um transporte de mp3 da loja para a casa do consumidor? Ou ele pode ser mais do que isso? Para se manter vivo, o cd precisa se tornar um produto único, expor mais o lado arte, trazer um conteúdo exclusivo e personalizado que desperte o interesse do fã, não só pelo ouvido, mas pela visão e pelo tato, e quem sabe, o olfato. Deve ser vendido e anunciado como tal.

Exemplos não faltam. Veja a primeira coletânea de Michael Jackson, chamada History vol 1.. O álbum era duplo, vinha com um cd de coletânea e um cd de inéditas e tinha a caixa ampla para abrigar um encarte de 50 páginas com fotos, registros de shows, notícias sobre vendas e declarações de amigos. A capa tinha a foto da famosa estátua gigante que circulou em alguns lagos da Europa e os cds eram dourados, com a imagem da estátua gravada, um verdadeiro item de colecionador. Não há arquivo.mp3 que se compare. Em 1992, o grupo sueco Roxette teve a idéia de gravar um cd inédito enquanto fazia turnê. O resultado foi Tourism, que mistura versões ao vivo, gravações em estúdios diversos e até em nightclubs. O encarte ficou à altura e trouxe além das letras, declarações e fotos compondo um diário de viagens. Otto, de outra perspectiva, fez algo semelhante em Sem Gravidade, montando um álbum de fotos de viagem com encarte caprichado e arte gráfica no próprio cd, ajuda certa na ambientação audiovisual. Também pela Trama, Jair de Oliveira lançou o cd virtual 3.2, com as músicas que não entraram na seleção final de 3.1, o cd físico.

Em 2002 foi a vez de Christina Aguilera ter um surto de bom gosto e unir às músicas de Stripped um encarte prata cuidadosamente planejado que valorizou o pacote. O trabalho fotográfico foi tão bom, que rendeu a capa de 3 dos 4 singles que saíram dele. Dos artistas nacionais, Fernanda Abreu entende como ninguém o conceito da completude do cd como objeto de consumo. Sempre caprichou na produção dos encartes, com destaque para as montagens de Entidade Urbana – um verdadeiro quebra-cabeça de roupas e estilos – e o colorido de Na Paz, uma inversão da estética da guerra explorada por Madonna em American Life.. Toda cura para todo mal, do Pato Fu, fez do encarte um grande rascunho de desenhos, letras e cifras, aproveitando o conceito também para a ilustração do cd. Já o Nenhum de Nós aproveitou Pequeno Universo para montar um encarte miniatura, com um quarto do tamanho original, puxando a força da imagem para a arte gráfica do cd. Talvez, o exemplo mais clássico de cd conceitual brasileiro seja Barulhinho bom de Marisa Monte, quase um gibi erótico baseado nos desenhos de Carlos Zéfiro, aproveitando inclusive a textura do papel.

O cd-produto de consumo como espaço criativo não possui limites. Tem quem vá além do encarte e veja a caixa como parte da obra, fugindo da mesmice do acrílico no plástico preto. O cd Mutantes ao vivo recém-lançado optou por um design sóbrio e contemporâneo, mudando também a caixa do dvd. Parece ser uma tendência de refinamento dos pequenos detalhes. Mais elaborado foi o projeto do grupo oitentista Oingo Boingo, que uniu a embalagem totalmente trabalhada a um livro com fotos, desenhos e letras, gerando uma atmosfera sombria que casa perfeitamente com a sonoridade proposta no álbum de despedida (em seguida veio o ao vivo Farewell). O fã se deleita não só com a música, mas com o material do livreto. Um cd que raramente iria para um sebo. A parceria entre Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede, também mostrou bom gosto e criatividade de sobra na criação de arte de Vagabundo, um ótimo repertório com um conceito gráfico acima da média do mercado.

Inovações com a caixa também foram feitas em 1993 pelo duo Pet Shop Boys, que lançou Very com capa laranja de borracha e em 1996, Bilingual, que tinha a tampa de acrílico pintada de branco vazada com o nome do cd. Possivelmente, o exemplo mais diferenciado da caixa tradicional seja a embalagem do acústico do 10.000 Maniacs feita artesanalmente na forma de envelopes de papel nepalês fechados com um palito de bambu.

Você deve ter alguma noção da quantidade de material deixado por Raul Seixas após sua morte, vide o mítico Baú do Raul. Como pensar então em um cd do ídolo do rock que não tem nada além da capa e o nome das músicas, com o interior do encarte em branco? Você tenderia a comprar esse produto – aqui sim, um mero transporte das músicas – ou diretamente a mp3 de seu interesse? E se o encarte viesse recheado de fotos, contando a história das músicas, comentando o impacto de Raul no mercado fonográfico, imagens de letras manuscritas e outras curiosidades que cercam o artista?

A interatividade pode integrar o processo, com os fãs votando nas fotos, informações e artes gráficas que gostariam de ver no produto antes do seu lançamento (uma das músicas na coletânea dos Cranberries foi escolhida pelos fãs do grupo), ou mesmo encartes virtuais, montados de acordo com a preferência do comprador.

O conteúdo de cd traria como adicional clipes, entrevistas, explicações sobre músicas, bastidores de composições e gravações, ou mesmo papéis de parede para o computador. Os dvds, a exemplo do trabalho de Jean Michale-Jarre, podem oferecer mixagens 5.1. dos cds originais, atraindo os consumidores que já contam com home theater e elevando a experiência audiovisual.

A tecnologia só será uma ameaça a artistas que lançam cds burocráticos que servem de veículo para uma ou duas músicas de trabalho. Serão reconhecidos como criadores de singles e não de álbuns. Talvez vendam somente quatro músicas lançadas por ano em lojas virtuais, existindo fisicamente apenas em coletâneas. O que não deixa de ser um produto lucrativo voltado para esse novo público em constante formação, que monta a sua própria programação de rádio e vê a música de trabalho como uma sugestão e não uma imposição. Cabe à indústria perceber a demanda e explorar o nicho por meio de produtos inteligentes pensados para um público de sentidos mais apurados, mudando assim as tendências da queda de vendas de cds.

É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br) É cedo para aposentar o CD - artigo de Eric Novello no Aguarrás (www.aguarras.com.br)

Fui ver, enfim, no Centro Cultural FIESP, a exposição “O Brasil de Marc Ferrez”.

Composta de 350 imagens, a mostra é uma seleção de parte do acervo do Instituto Moreira Salles (a coleção com a obra completa do artista pertence ao IMS desde 1998 e é composta de mais de 5.500 imagens diferentes e 4 mil negativos originais de vidro), entre fotografias e originais, produzidas pelo fotógrafo carioca, de origem francesa, o “recorte” dessa mostra é o domínio da técnica fotográfica de Ferrez.

Marc Ferrez (1843-1923)

Embora eu tenha ouvido muitas críticas sobre a curadoria dessa mostra, o que vi por lá achei bastante coerente e interessante. Ao contrário do que foi dito, não acredito que seja uma mostra “sem graça”. Muito diferente disso! Achei que a opção pela seleção usando critérios como a técnica fotográfica torna-a bastante didática aos iniciantes na arte da fotografia. E o aspecto artístico não ficou “de fora”, como alguns críticos insistiram em propagar. É interessante observar o domínio da luz e perceber a precisão evidentemente estudada da escolha dos “pontos de vista”, que o artista sempre teve. A qualidade estética das imagens é inegável. Uma “aula” de composição.

Grande parte das imagens retrata a presença de “gente” nas cenas, o que confere aos expectadores uma sensação de “pertencimento” interessante e, naturalmente, ajuda a esclarecer o entendimento de “escala” no estudo de composição de imagens.

Estes são, aliás, os pontos que fazem com que Ferrez “freqüente” a “categoria” de artista da imagem. A qualidade técnica das imagens, mais o olhar artístico de seu autor se juntam em trabalhos belíssimos e bastante interessantes deste artista, que é considerado o maior fotógrafo brasileiro do século XIX.

Esta mostra já foi exibida no Rio, Poços de Calda (MG), Porto Alegre e Paris, na programação do Ano do Brasil, em 2005.

Este fim de semana é a última oportunidade de ver a mostra, que vai até 04 de março.

Galeria do SESI. De terça a sábado, das 10 às 20h; domingos das 10 às 19h. O Centro Cultural da FIESP fica na Avenida Paulista, 1313. Fones – 11 3146–7405 e 11 3146-7406. Entrada franca.

Foi aberta ao público ontem, 1º de março de 2007, a mostra “Leonardo da Vinci – A Exibição de um Gênio”, que foi inaugurada no dia 28 de fevereiro, durante um evento fechado, somente para convidados. Apresentando mais de 150 peças, todas com a ‘marca’ de autoria do “multimídia” (inventor, cientista, arquiteto, engenheiro, filósofo, anatomista e, mais conhecidamente, pintor) é, segundo a divulgação dos organizadores, a exposição de maior abrangência sobre as habilidades desse “gênio”. As peças expostas nesta mostra foram feitas por artistas e artesãos, com base nos projetos e desenhos do mestre, usando técnicas de execução do século XV.

Leonardo da Vinci - A Exibição de um Gênio Leonardo da Vinci - A Exibição de um Gênio

Mas há “novidades” também bastante interessantes. Com auxílio da tecnologia o “Homem Vitruviano”, o princípio da “Proporção Divina” e a criação da “Última Ceia” poderão ser vistos em 3D interativo no subsolo da Oca, no parque Ibirapuera, SP. A exibição de documentários e vídeos completam a mostra.

Os 13 setores da exposição são: “Estudos Anatômicos”, “Arte da Guerra”, “Máquinas Civis”, “Códices”, “O Pai da Aviação”, “Máquinas Hidráulicas e Aquáticas”, “Instrumentos Musicais e Ópticos”, “Estudos sobre Física e Mecânica”, “A arte da Renascença”, “O Homem Vitruviano”, “Desenhos da Batalha de Anghiari”, “Documentário” e “Vídeos em 2D e 3D sobre o Homem Vitruviano e a Última Ceia”.

SERVIÇO:
De segunda a sexta-feira, das 9h às 19h. Sábado, domingo e feriado, das 10h às 20h. Não há data para o término.
Subsolo da Oca no Parque Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, portão 3.
Fone – 11 6846-6000.
Inteira: R$ 30.
Meia-entrada: R$ 15.
Grátis para crianças até 2 anos. Crianças de 3 a 6 anos pagam meia-entrada. Menores de 12 anos entram somente acompanhados por responsável
Informações: exposicaoleonardodavinci.com.br

Na mostra Fotografia como Memória, de German Lorca, que fica até 11 de março na Pinacoteca de São Paulo, estão sendo mostrados trabalhos dos 60 anos de carreira deste fotógrafo paulistano, ex-contabilista, que no fim da década de 40 resolveu abraçar a arte como opção de vida. São 200 imagens em preto-e-branco expostas divididas nos três temas: Retratos, Arte e Quarto Centenário de São Paulo (Ele foi o fotógrafo oficial do IV Centenário da cidade).

Foto de divulgação da exposição

Artista de formação auto-didata, o trabalho de Lorca, que nos anos 40 e 50 mostrava um experimentalismo influenciado pelo modernismo e pelo concretismo apresenta uma maturidade estética interessante. Com mais de 80 anos, Lorca registrou lugares e momentos da cidade de São Paulo que se tornaram históricos. Muitos deles já apagados pelo progresso. Da mesma geração de Geraldo de Barros e Thomas Farkas, Lorca é considerado um dos pioneiros da fotografia artística. A exposição é, sem dúvidas, que é uma grande oportunidade de aprender muito sobre a história da fotografia no Brasil, tem curadoria de Diógenes Moura.

Até 11 de março de 2007
De terça a domingo, das 10h às 18h. Pinacoteca do Estado de São Paulo – Praça da Luz, 02
Luz – São Paulo.
Fone – 11 3229-9844
R$4,00 (meia – R$2,00) e grátis aos sábados

A nova versão do open-source para modelagem 3D incorpora ferramentas que o levam a um novo patamar de produtividade. Após sete meses de intenso trabalho, a Blender Foundation liberou a versão final com uma enorme lista que inclui melhoramentos, novas ferramentas e correções de bugs. Foi apelidada de “multi”, porque, segundo a empresa, alguns destaques são o uso de Meshes de multi-resolução, UV multi-nível, imagens multi-layer e multi-pass rendering.

Dessa lista, podemos citar o Sculpt Mode, muito esperado desde a versão beta, uma ferramenta voltada a modelagem orgânica, que utiliza pincéis para manipular o objeto, ao contrário do modo de edição convencional; Retopo, que permite mudar a topologia de um mesh, enquanto preserva a forma básica do objeto, e pode ser usado tanto na forma de edição convencional, quanto na chamada Retopo paint, com uso de pincéis; Composite: UVmap, Displace, IDmask, Zcombine, para remapeamento, warping e uso de máscaras nos objetos durante sua composição, entre outras.

Blender 2.43: composite Blender 2.43: retopo Blender 2.43: sculpt Blender 2.43: sculpt

E alguns do melhoramentos incluem o Render Pipeline, modificadores, modelagem do mesh, ciclos de movimento, partículas, sistema de animação, e física de corpos rígidos.

Blender 2.43: fluidos Blender 2.43: walkcycle

Disponível para Windows, Mac OSX, Linux (i386/PPC), Solaris e FreeBSD.