Professor Parafuso, da Abadá Capoeira, mostra para o Aguarrás TV a tradição oral na capoeira, com as músicas e ladainhas que contam a sua (nossa) história.
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Agradecemos a todos os colaboradores, leitores e amigos por estas 36 edições.
Professor Parafuso, da Abadá Capoeira, mostra para o Aguarrás TV a tradição oral na capoeira, com as músicas e ladainhas que contam a sua (nossa) história.
Roberto Lima é bailarino clássico do Municipal desde 1977, diretor artístico da Companhia de Ballet de Niterói (RJ), professor, pós-graduado em teatro e coreógrafo da escola de samba Porto da Pedra.
Roberto gentilmente encontrou espaço em sua apertada agenda e nos concedeu esta entrevista, gravada em 22 de junho, no final da temporada do espetáculo CHOROS E VALSAS – um tributo a Pixinguinha.
Confira, divulgue, cole no seu blog:
fotografias do espetáculo de LETICIA VINHAS (divulgação)
stills da entrevista de DAVID LEHMANN (equipe Aguarrás)
Sónós de Paula Toller e sua festa de sonoridades é um álbum redondo. É cool e pop no que os termos possuem de concreto, fugindo do caricato. Ao longo das 14 músicas fica a sensação orgânica, de que tudo pode ser repetido ao vivo, de que estamos participando do registro de um show, onde os músicos tocam entrosados na troca de olhares. O cd está além do mero empilhamento de instrumentos e programações digitais, o que faz, paradoxalmente, que o cool seja um lugar aquecido e aconchegante.
“O legal de esperar entre um cd e outro é que você tem uma outra vida para contar. Nesse eu olhei para dentro de mim. Gosto de falar do que é universal, do que dá trabalho. Como diz Fausto Fawcett, falar do básico”.
Músicas como O que é que eu sou e Você me ganhou de presente são bons exemplos da opção pela simplicidade que dispensa malabarismos. Paula Toller segue o estilo de letras do Kid Abelha, tomando um cuidado especial com a poesia, pequenos recitais musicados, que se encaixam na voz melódica da cantora.
Em Sónós, ela se une a diversos compositores nacionais e internacionais. Tudo graças a essa ferramenta mágica chamada internet. Estão na caixinha musical Kevin Johansen, Jesse Harris e Nenung (compositor de Meu amor se mudou pra lua, primeiro single).
“O cd tem uma proposta diferente da mp3, é um trabalho artístico. As vendas vão diminuir, mas ele não vai sumir. Imagina você dar de presente um link. A música, como toda forma de arte, reflete e a ponta. Ela reflete a sua época, mas deve estar à frente”.
Tudo se perdeu é uma versão de Vicious World do cantor Rufus Wainwright, tido como um dos grandes nomes da música contemporânea. O casamento funciona na feminilidade e melancolia das letras, mas falta algo do delírio de Rufus. “Caiu com Maysa na fossa”, diz a letra mais triste do cd.
Erasmo Carlos assina O que é que eu sou, canção filosófica e reflexiva. Em Pane de Maravilha Paula Toller assume-se Rio de Janeiro e canta um tempo ainda agradável da cidade (maravilhosa e coração do Brasil). A letra também tem a mão de Fausto Fawcett, dando ao Rio um toque de fênix, mas distante do purgatório de Fernanda Abreu. A melodia de Dado Villa-Lobos deixa de lado o agito carioca e estica os pés na beira da praia. Boa por sacadas como “Michê do meu cartão postal / Desipanemeço total”. Só faltou a água de coco.
Outros bons momentos são All Over, um dueto com Donavon Frankenreiter que beira a surf music e À noite sonhei contigo, versão de Anoche soñe contigo de K.Johansen. Essa, boa pela letra e pela melodia para cima. “Que lindo que é sonhar, e não te custa nada mais que tempo”.
O grande destaque é Barcelona 16, feita para o filho da cantora, que começa a sair de casa para viajar e estudar fora.
Solta da minha mão
leva o seu violão
dentro do mochilão
leva também o meu coração
Eu não sabia que existia
esse outro parto de partir
de me deixar na beira do cais
filho sempre meu não mais
– Barcelona 16.
Sónós é um cd que mira o mundo. Como dito no release, as fronteiras se quebraram como vidro, os países não mais nos explicam. Quando termina a primeira audição, fica a impressão de que no bis do show vamos ouvir Pintura Íntima e Fixação, para animar a festa.
“A turnê começa com shows pequenos em lugares intimistas. A estréia oficial é em agosto em Porto Alegre. Fazer show sem o Kid Abelha é a possibilidade de ter uma nova estréia depois de 25 anos de carreira”.
fotografias de Christian Gaul
Dorival Caymmi prima pela simplicidade de suas composições. Os versos enxutos, acompanhados de um ritmo exato, são exemplo para muitos que escrevem. Qualidade do escrever é ser, além de preciso, sobretudo, significativo. Qualidade que sobra em Caymmi. O significativo não é, entretanto, dizer o que seja passível de entendimento imediato, fosse assim, a música não criaria comunicação. O que se está entendendo como significativo é exatamente o oposto do imediato processo de comunicação que o cotidiano nos oferece. Significativo aqui significa um ir além da comunicação, uma interseção de sentidos que resultem em algo novo. O ato criador, ao superpor dois ou mais sentidos, criando sentidos outros, transforma-se em invenção.
As canções de Caymmi – sejam elas as que expressam o ritmo, a paisagem humana e física, sejam as que fazem comentários acerca do cotidiano – são sempre exatas. Dizem o que dizem, sem uma vírgula a mais ou a menos. A belíssima Maricotinha, gravada por Maria Bethânia recentemente, pode ser tomada como um dos inumeráveis exemplos do cancioneiro Caymminiano. O que nos diz a música é simples. “Se fizer bom tempo, eu vou, mas, se por acaso chover, não vou”. O que a música diz é só isso, essa economia fundamental que força o ouvinte/leitor a ilações, percepções e recepções as mais interessantes. O que a música não diz, dizendo, é toda uma percepção sociológica do brasileiro, permitida pela ilação que se pode fazer a partir das pausas musicais que sublinham e alinham os versos e o canto.
Compare-se, ao acaso, com a pintura. Uma pessoa, ao observar um quadro qualquer, pode dar-se conta do processo de composição que levou à composição final do quadro e à ilusão que ele provoca. Raramente observam-se as cores, os substratos que levaram tal quadro a ser tal quadro e não outro e a ele emprestam-se significados retirados imediatamente da realidade. Os retirantes de Portinari sofrem essa interpretação, o sorriso enigmático de Gioconda também a sofre.
Ouvir Caymmi, observar um bom quadro, ler um bom livro requer uma outra atitude. Uma atitude crítica, instauradora, na qual um dos agentes do processo – o leitor/ouvinte/observador – deve participar da composição dos significados. Cabe ao ouvinte ouvir, mas não apenas ouvir. Ao ouvinte cabe perceber os significados ocultados pela maestria do compositor. Isso se pode fazer com qualquer composição, com qualquer quadro, qualquer livro. Entretanto, há aqueles que não obrigam o receptor a este exercício de interpretação, são tão evidentes que nada resta deles para dizer, como há outros que inquietam o receptor e subvertem o sentido imediato da comunicação, para tornarem-se invenção. Não há nestes uma imprecisão sequer, mas que, por serem tão precisos, exigem do receptor a ativação do que nessa precisão se esconde.
A música de Caymmi, incrustada na sensibilidade do ouvinte brasileiro – por pertencer ao cancioneiro que se domina desde que se nasce, por assim dizer – é um caso raro em que a expressão do popular se alia à maestria da invenção da arte. Caymmi captou e expôs, nas possibilidades da arte, do périplo sempre inquieto e inconstante, que é o motivo pelo qual a arte se faz, a capacidade de dizer as complexidades humanas, com o mínimo de expressão e o máximo de simplicidade, no que elas possuem de mais intenso.
Ao colocar nos aparelhos que tocam música – são tantos hoje em dia – o cancioneiro de Dorival, o ouvinte não só reconhecerá a si mesmo como descobrirá em si mesmo outros que ainda não havia percebido ser.
Alphadog de Nick Cassavetes fala da decadência dos valores morais diante de um culto cada vez mais disseminado à bandidagem travestida de cultura hip-hop americana, que já extrapolou fronteiras e dialoga com o cotidiano de diversos países, inclusive o nosso. Ao invés de abordar a hipocrisia da classe média, Cassavetes usa a história real de um traficante americano ligeiramente disfarçada devido a problemas judiciais (quando estava terminando de filmar, o bandido foi preso no Rio de Janeiro vivendo como playboy).
No filme, ele é Johnny Truelove (Emile Hirsch), que vive num casarão e tem a proteção (quase parceria) do pai (Bruce Willis) em seus negócios. Johnny e seus comparsas/amigos levam a vida sem grandes ambições, com muito tempo para gastar com drogas, armas, mulheres e festas regadas a bebidas. As coisas complicam quando Mazursky, cliente de Truelove, não arruma dinheiro para pagar o que deve e é ameaçado. Ao contrário dos amigos de Truelove que baixam a cabeça pra tudo, Mazursky não recebe bem as ameaça
s e reage. No meio das provocações de um lado e do outro, Truelove decide seqüestrar o irmão de Mazursky até que ele pague a dívida. Zack, o tal irmão, é o ponto de interrogação do filme. Mais do que qualquer outro personagem, é ele o elemento que faz o espectador pensar que há algo de errado na ordem mundial. Na companhia de Frankie (Justin Timberlake), Zack conhece os amigos de Truelove, anda em carrões, ouve música, perde a virgindade, participa de festas na piscina e acaba se tornando um parceiro do grupo ao invés de refém (pelo menos do seu ponto de vista e de Frankie). A família de Zack (que não sabe onde ele está) chama a polícia, e para fugir da acusação de seqüestro, Truelove manda um dos amigos metralhar o garoto em um terreno afastado da cidade. Prático assim.
Chama atenção a quantidade de testemunhas contabilizadas pelo diretor na duração do seqüestro. Todos que conheceram Zack e souberam que ele era refém, ao invés de ajudá-lo ou ligar para a polícia acharam a situação excitante. Outro dado importante é a conivência dos pais, sempre em orgias, alucinados com ecstasy ou coisa parecida, pouco interessados nas atitudes e problemas dos filhos.
A versão carioca seria a filha rica que vai morar no morro com namorado bandido que a ama e tem um fuzil “da hora”. Ficam de fora as mansões, as bebidas e os corpos malhados. A versão de Londres, que tem se tornado um sério problema na cidade, são grupos de jovens saindo de noite para atirar nos outros e experimentar “o poder de tirar a vida de alguém”. Eles não roubam, não precisam de dinheiro, só querem mesmo atirar. Qualquer semelhança com o espancamento da doméstica é mera coincidência.
Como o filme é baseado em fatos reais, não há surpresas no final. Nick Cassavetes ainda não achou o ponto certo para seu estilo de direção e roteiro. Alphadog ficaria bem melhor com quarenta minutos a menos, por isso deve funcionar melhor em DVD.
Vale pela perplexidade diante da frieza de Truelove e da inocência de Zack, achando que é melhor fazer parte da gangue sem limites do que voltar para a mãe (Sharon Stone) em casa, e também pela frustração de não poder mudar o final do filme e da história real.
Destaque para as boa atuação de Justin Timberlake.
“Enquanto rabisco não penso em nada”, diz Antonio Bokel recuperando um automatismo à la Breton que há muito tempo ninguém assumia.
Claro, o surrealismo, com sua valoração de um inconsciente não-individualizado, apontava para uma religiosidade das mais burras. Um corpo versus alma primitivo, que se exprimiria, esta última, quando a mente imperfeita dos humanos estivesse dormindo ou, pelo menos, distraída com outra coisa. Tal anti-racionalismo esteve fora de moda até explodir, literalmente, há alguns anos.
Só que não há nada de distração ou alheamento na exposição do espaço Repercussivo, da Barra da Tijuca (RJ). Então, não deve ser automatismo, em que pese a declaração do artista que, inclusive, complementa desconfiar que o que guia sua mão é uma voz superior, algum deus – grafado em seu folheto com todas as letras maíusculas.
O que se vê é o contrário disso. Não só nas obras de Bokel como nas dos dois outros artistas da coletiva: Marcos Dias Corrêa – que é também o galerista – e Bruno Lyra.
Eles vendem tinta.
E são excelentes comerciantes. No folheto e no site da galeria há expressões marqueteiras como merchandising, apresentação de produtos, pessoal especializado “para orientar a aquisicão de trabalhos a preços acessíveis” etc. Nenhuma alma aqui, só negócios.
Mas, nos três casos expostos, a venda e a tinta vendida têm uma contraposição radical. Ou não, se lembrarmos que o mercado tudo absorve, mesmo o que o ataca. E há um ataque.
Bokel rabisca tudo, tela, cubos de madeira e a parede que está por perto. Lyra cobre com lagos de tinta diluída textos e números que ficam, assim, ilegíveis. Corrêa “estraga” pinturas caprichadas de ícones de nosso tempo – carros, computadores, foguetes da Nasa – jogando por cima delas respingos e borrões raivosos de tinta encorpada.
A tinta vendida, portanto, não é conformista, é destrutiva/criativa.
Esta destruição/criação não é às cegas, autômata ou guiada por algum deus. É um espelho exato do espaço estreito e do tempo, curto, onde vivem os jovens artistas e galeristas frente a um mercado que os aniquila e em cuja superfície vivem.
Surrealistas, afinal. A espontaneidade radical apenas é mostrada, aqui, em seu processo, ao deixarem aparente a superfície anterior, bem comportada e lógica, onde ela se manifesta.
Os preços são um segundo ataque a partir de dentro, ou sobre. Telas grandes a mil e pouco reais, peças menores a hilários “R$ 299,00”. Não são os preços do mercado de arte. São os preços de quem faz quadros para quem quer pôr quadro na parede do sofá, sem ser, necessariamente, o sofá do Gilberto Chateaubriand.
Na época dos surrealistas, havia a assertiva de que as artes plásticas tinham um apelo instantâneo e de apreensão simultânea, ao contrário da música que seria uma arte de percepção consecutiva, temporal. Depois, essa dicotomia caiu ao se descobrir que ambas as percepções se acumulam e se modificam a cada instante e que ver uma imagem é tão temporal quanto escutar uma música. Que nada ou ninguém escapa ao tempo e que é o tempo, tanto quanto o espaço, que produz a experiência estética em qualquer meio.
(Ou época.)
Os artistas do Repercussivo fizeram uma experiência interessante. A galeria, muito ampla, tem três janelões atrás dos quais se apresentou, na abertura da exposição, o grupo Bonde Som. Vê-los tocando, emoldurados como se quadros fossem, pelo batente dos janelões, ao lado dos quadros reais expostos, foi uma experiência estética que, esta, não pode ser vendida por preço algum.
A galeria tem outro detalhe que soma. Além dos três janelões internos, há três janelinhas, basculantes na verdade. A galeria é em um subsolo. As janelinhas, de vidro fosco, ficam ao alto da parede e na altura da calçada lá fora. Você vê essa arte que se atraca, e ataca, e, ao mesmo tempo, vê o que ela ataca e em que se atraca: a entrada de um shopping center. A entrada e as pessoas que por lá passam aparecem em sombras, bem, surrealistas, quando iluminadas pelos faróis dos carros.
O Erasure é uma das instituições do tecnopop, ritmo consagrado nos anos 90 (que nasceu em meados de 80). Em sua história, Vince Clark e Andy Bell acumularam um punhado de hits como: Blue Savannah, A little respect, Star, Oh L’amour, I love to hate you, Always, Freedom.
No Brasil, são mais lembrados pelas faixas de melodias alegres, que seguem o pop eletrônico de fácil digestão. Suas músicas introspectivas e lentas ficaram mais restritas ao circuito europeu, sem deixar, entretanto de se destacar por lá.
Após experimentar programações de teclado mais complexas no álbum Erasure, o grupo voltou ao formato tradicional em Cowboy, que não teve muito impacto apesar das boas faixas. Um ano depois, Andy Bell descobriu ser portador de HIV. A notícia (obviamente) impactou sua relação com a arte, e a melancolia ficou evidente em Loveboat, desviando o grupo do estilo original.
Para a retomada, Vincent e Andy resolveram gravar um cd de covers e reencontrar a identidade musical do Erasure através de músicas de outros artistas. A idéia deu certo e o Erasure voltou ao top 10. O grupo lançou Nightbird e logo em seguida o cd acústico Union Street, excursionando pela primeira vez com uma banda completa e revisitando seus clássicos e lados b.
Esse imenso histórico de vivências, impactos, altos e baixos e flertes musicais fez o Erasure expandir seu universo de sonoridades e criar o competente Light at the end of the world. Todos os caminhos trilhados até aqui se refletem nas 10 faixas do cd.
Storm in a teacup e suas lembranças conturbadas de infância mostram que a melancolia não precisa vir aprisionada a uma balada sufocante, a melhor música do álbum. Sunday girl, tecnicamente apurada e voltada para as pistas de dança, retoma as letras simples e para cima, fazendo sucesso nas versões remixadas. Para quem curte dor de cotovelo, há Fly away, algo no estilo meu amor se foi, sem nenhum grande diferencial. I could fall in love with you segue o caminho inverso, é complexa sonoramente e cheia de mensagens positivas. Tem sido muito elogiada pela crítica americana por atualizar o som do grupo e não dever nada aos antigos hits. Vale a pena conhecer.
Zippies que não querem esperar pelas rádios podem passar no MySpace para ouvir os singles lançados e a antiga Breath (de Nightbird). Na janela do youtube, a versão acústica de Sunday Girl e um clip de I could fall in love with you com vários casais se beijando.
“Blinded by the vision
I turn and face my back to the wall
‘Cause I’m locked up in a rhythm
The prism of a big glitter ballShe loves the night
And all that glitters
Her name in lights
Around the city
Don’t you mess your life up Sunday girl”
– Sunday Girl
Para Lucia Leão
O poeta italiano escreveu um dos poemas mais emblemáticos de toda a literatura ocidental. Mattina. Dele conheço duas traduções para o português, a de Sérgio Wax e a de Haroldo de Campos.
O poema de Ungaretti:
Mattina
M’illumino
d’immenso
A tradução de Sérgio Wax:
Manhã
Ilumino-me
de imenso
A tradução de Haroldo de Campos:
Manhã
Deslumbro-me
de imenso
A transcrição das duas traduções não tem o desejo da comparação. Entre iluminar-se e deslumbrar-se há pouca, mas séria divergência. Nos dois verbos a noção de luz, contida no original, se mantém intacta. Lume é ressonância sonora e semântica tanto em iluminar quanto em deslumbrar. O que, por hora, diferencia as duas traduções é o acento tônico no fonema nasal da tradução de Haroldo. A adequação que o poeta brasileiro constrói em relação ao acento em italiano é significativa e não mero capricho, pois o sentido de deslumbrar-se afirma uma interpretação do poema praticada pela tradução.
Percebe-se que a interferência semântica constrói de modo claro uma percepção do sujeito em relação à manhã, que ativa o deslumbramento do qual a vítima é o eu-lírico, reforçada, de resto, pela primeira pessoa e pela reflexibilidade do verbo. Deslumbrar-se a si mesmo – iluminar-se a si mesmo – traz ao poema uma ação que está contida no sujeito, que é capaz de iluminar-se/deslumbrar-se a partir da luz jorrada pela manhã. Desta forma, tanto é impressionado pela luz da manhã quanto em si mesmo percebe esta impressão e a empresta à manhã, criando um jogo de duplicidade semântica e de perceptiva. Não se pode afirmar que o sujeito determina o real ou é por ele determinado.
Se a escolha semântica e fonética de Haroldo de Campos reflete esta duplicidade com maior fidedignidade, interpreta o poema. Há quem prefira as brumas do original, mantida na tradução de Sérgio Wax, há quem prefira a aproximação de Haroldo. As preferências estão a cargo de cada leitor, o que não está na escolha do leitor é justamente a fundação do real promovida pelo poema; esta não se pode deixar de ler e é a partir dela que se vai perceber que o poema é um poema, na sua mínima inscrição e, por isso, exemplar de toda e qualquer poesia.
Ao lermos o deslumbramento do sujeito/manhã, da manhã/sujeito as diferenças entre o que se percebe da manhã e o que da manhã se faz perceber desaparecem, tornam-se unas. Nesta unidade reside a percepção do todo, do que não era e passou a ser – integração e movimento (sugerido pela sonoridade do poema) no qual o homem se torna natureza e a natureza se humaniza. A indivisibilidade do sujeito e do objeto, criada pelo poema, nos faz perceber de imediato – antes de qualquer raciocínio – a impossibilidade de falar sobre a vida, senão através do fazer poético. Por isso a poesia é algo mais que o discurso sobre o mundo, é sua própria instauração.
Uma boa solução para quem acha que os livros estão caros é pesquisar os pockets nacionais. L&PM, Martin Claret e a Cia. das Letras têm abastecido o mercado com gêneros, autores, épocas e estilos variados, que possuem a vantagem de não pesar nem na bolsa nem no bolso.
A garota de Cassidy (lançado aqui pela L&PM) foi escrito em 1951 por David Goodis e, segundo a contracapa, é um romance noir sobre o amor e a sordidez.
O livro conta a história de Cassidy, um motorista de ônibus totalmente bêbado e fracassado que mantém uma relação conturbada com Mildred, uma linda mulher de caráter duvidoso. Cassidy chega em casa e percebe que Mildred deu uma festa na sua ausência, e que seus amigos, para variar, quebraram tudo, sujaram a cozinha e comeram sua comida. Para deixar claro que esse é um relacionamento diferente, David Goodis emenda em uma briga de tirar sangue e fazer a mobília voar. Depois da pancadaria e do estranho ritual de reconciliação, Mildred lembra ao “marido” que deu a festa porque estava fazendo aniversário, sai de casa e vai para o bar.
É um começo desnorteador que deixa o leitor sem saber em que terreno está pisando e o que pode encontrar pela frente. Um artifício inteligente por motivar o leitor e equivocado por criar expectativas que não consegue cumprir.
Cassidy, obviamente, decide afogar as mágoas no mesmo bar. Lá, somos apresentados aos amigos de Cassidy que não gostam de Mildred, o dono do bar e bêbados em geral Entre eles, destacam-se Haney, um sujeito com grana que é apaixonado por Mildred, e Doris, uma espécie de coma alcoólico ambulante, em quem Cassidy vê um anjo perdido na terra.
O desenrolar desse quadrado move a história até o fim, sem nada de muito interessante. No meio do livro, David Goodis faz uma virada de trama tão sem sentido que é difícil não se perguntar o que ele bebeu antes de escrever. Nem mesmo o passado misterioso de Cassidy consegue compensar os vazios narrativos.
Pontos positivos:
Assim como os personagens, o leitor nunca sabe quais provocações são reais e quais fazem parte do jogo amoroso do casal. O amor e o ódio convivem mais próximos do que de costume.
Doris é uma personagem bem diferente dos arquétipos convencionais, totalmente enamorada do uísque e apática para a vida.
Pontos negativos:
Apesar de a escrita fluir bem, o livro passa longe da atmosfera densa que consagrou o noir.
A trama é vaga demais e os personagens não evoluem psicológicamente, terminando do mesmo jeito que começaram. É a típica diversão passageira, recomendada para quem acha que existe um poço mais fundo do que o retratado por Bukowski.
David Goodis nasceu na Filadélfia e chegou a ter algum reconhecimento em vida. A fama veio mesmo após a morte em 1967. Atire no pianista foi adaptado para o cinema por ninguém menos que François Truffaut.
Não dá para não ser pessoal. Por mais distanciamento bem comportado que se assuma, acabam sempre entrando as implicâncias e simpatias de cada um.
Eu, por exemplo.
Ou melhor, o concretismo, por exemplo.
Tiago Judas expõe a opinião dele sobre o concretismo na Galeria Vermelho (SP). Dá nome a tudo, a começar pela exposição, chamada de Matiz Vertical. E continua nomeando: a história em quadrinhos se chama Infinito-D; as aquarelas, Sangue e Clorofila. É o que ele acha a respeito da autonomia da representação em relação ao referente.
A peça com maior destaque é um duplo.
Lado a lado, na parede, há uma construção concreta feita com uma colagem em madeira. Sem fundo/figura, seus campos vermelho e verde se igualam na simetria da composição enquanto se agridem na complementaridade cromática. Nenhuma contaminação pessoal do artista aqui. A obra se impõe como perfeito produto desvinculado de qualquer experimentação fenomenológica, livre de historicidades.
A seu lado, um vídeo. Nele, o artista está sentado em uma cadeira mas não se sente bem, não se mostra relaxado. Sai, então, e dá voltas, inclusive andando pela parede, e tenta várias posições até voltar, suado, à posição inicial. Faz assim, com seu corpo, esse inimigo do concretismo, toda uma pesquisa geométrica (o corpo se dobra em vértices, retângulos) na busca de alguma coisa, o estar-no-mundo perfeito. Ao lado, em uma mesinha, frutas em uma fruteira fazem o papel de frutas em uma fruteira, como se estivessem em uma natureza-morta.
Ri sozinha na galeria.
E rindo continuaria.
O Infinito-D vai pelo mesmo caminho. O Zé é personagem desenhado sem nenhuma linha reta e com o traço sujo característico do gênero. Ele procura, segundo o texto, um alto grau de meditação. Consegue. É o vazio. Texto do último quadrinho: O Zé virou zero.
Duas linhas retas, bem, meio retas, se cruzam no chão. São dois “tênis” costuradinhos de forma a ficarem bem compridos, meio gordinhos e desajeitados, em forma de X. Detalhe, os cadarços estão desamarrados. É o Caminho interno, onde cada pé vai para um lado, mas sempre em linha reta.
Painéis de Comando faz lembrar a arte cinética daqueles tempos, luzinhas, espirais rodando. Mas tudo meio mambembe, de madeira pintada.
Em Sangue e clorofila, pessoas carregadas de objetos complicadíssimos passam perto de árvores. São notepads, televisões portáteis, benjamins de eletricidade que caem do bolso e das mãos. Um cara está com dois relógios. As árvores, estas, parecem não ter problemas em segurar suas folhas.
E em Kipá, bonés tampam buracos na cabeça.
Bem, é hilário.
Ou sou eu que também não tenho muita paciência com os concretos.
Nada desagradava mais ao aristocrático Toulouse Lautrec do que as boas maneiras da arte dos museus e salões. Sua primeira obra foi um cartaz publicitário para um show da amiga La Goulue.
É impossível, hoje, recuperar as condições de recepção da Paris na época. Mas as diferenças entre publicidade e arte se mantêm, embora uma e outra mudem a cada instante. O que pretende uma é o antônimo da outra. Isso não muda.
É uma questão de inclusão-exclusão.
No discurso publicitário, os “outros” ocupam espaços bem determinados.
São negados e estão totalmente ausentes no que é mostrado.
São incluídos como exemplo de bom mocismo, ao desejarem ou se exultarem com a inclusão.
(A inclusão é identificada sempre como o consumo de algum bem ou serviço.)
São incluídos como contraste, como um negativo fotográfico dos que têm/sabem/usam.
A publicidade se deseja ver como agente socializador. Como um ator que, ocupando um espaço de poder, transmite não só a rede de hábitos socializantes de determinada cultura mas também tem o papel de incentivar a inclusão, ao exercer a função de premiar ou castigar o indivíduo durante o curso de sua adaptação no processo de socialização. Não é. É profunda, intrínsica e necessariamente conservadora. Sua ação socializadora parte de parâmetros estratificados e tem por meta estes mesmos parâmetros. É para algo já sedimentado e detentor de um poder que ela dirige seus esforços e sua socialização.
Agora, o Lautrec.
Não se trata de ressaltar aqui o sempre louvado tema do artista, as mulheres de cabaré, os excluídos sociais.
Vamos para a estrutura, a maneira como, porque é aí que não se mente.
Tem a questão das pernas. As figuras de Lautrec raramente têm pernas. A psicologia diz da impossibilidade do artista em retratar o que o destruiu, o duplo acidente das pernas quebradas, que o tornou disforme. A sociologia diz da impossibilidade das figuras em ir em frente, ter sucesso.
Loïe Fuller tem, para propagandear, suas pernas. É bailarina. Loïe Fuller é mulher de cabaré. Tem, para propagandear, o erotismo. Mas Lautrec a retrata de cima. Um círculo. Um ponto fechado em si mesmo. Algo que existe apesar do seu em torno, do que está em sua volta.
A Condessa, mãe de Lautrec, não tem o rosto que anunciaria uma classe social que a diferencia das outras mulheres. Cabelos cobrem o que a caracterizaria.
Em O divã, o móvel toma conta de quem nele senta a ponto de, de quem dele se levanta, se ver cortado pelo artista. A mulher em verde simplesmente não cabe no quadro. As que ficam se integram no vermelho que o estofado expande.
Publicidades não cortam a figura humana a não ser que a intenção seja ressaltar o pedaço que fica, o que não é o caso aqui.
Na publicidade, as figuras são sempre perfeitas.
O que Lautrec faz é desfamiliarizar seu tema. Mesmo partindo da premissa de que o que iremos ver são os excluídos, ele ainda assim dá um jeito de não dar o que esperamos. Ele desautomatiza a visão. Ainda hoje. É este o seu mérito. É aí que ele se põe em uma posição antagônica ao discurso publicitário, em que pese sua carreira, feita principalmente de cartazes de espetáculos.
Sua ênfase não está no reconhecimento de algo que se apresenta como desejável. A ênfase está na percepção. Reconhecimento é confirmar algo esperado por antecipação. A percepção é sempre nova e é uma ação de resistência à integração passiva ao já existente.
Dicionário de pequenas solidões é uma coleção de contos de Ronaldo Cagiano. O material, como explica a nota de edição, é édito e já foi publicado em livros anteriores: Concerto para arranha-céus e Dezembro indigesto, mas passou por algumas modificações. Cagiano, que é mineiro, já transitou pela poesia e trouxe um resquício poético para seu trabalho, apesar de não se apropriar do ritmo lírico. Seu dicionário trata de um sentimento universal. A solidão é democrática e atinge a todos, por outro lado não pode ser confinada a definições, já que é deveras pessoal e os mecanismos que a despertam variam de indivíduo para indivíduo. Ela pode despertar de uma fala, do ruído do mar, um olhar atravessado no meio da rua, da cena da morte no valão da estrada, elementos bem aproveitados pelo autor. Aliás, nada mais solitário do que andar em meio às multidões, e os personagens desse Dicionário possuem um mundo inteiro de figurantes ao redor do seu universo particular.
Ciente dessa amplitude, Cagiano aborda o sentimento de focos diferentes. Há abuso sexual, festas em família, o isolamento da cultura, entremeados de classes sociais.
Em Solidão, acompanhamos Rosalía e seu dia a dia de mulher da vida, as nuances de falsa moral da sociedade que deslocam a personagem para a margem, mesmo que ela sirva de centro para muitas pessoas. Quem já passou por isso sabe o quanto dói. Todos sabem de você, mas fingem que não. Ser você só para si e para os demais, um outro.
“Todo mundo sabia que ela se engraçava com o português do armazém. Não havia dia de chuva ou sol que não passasse em frente ao Empório do Alentejo e jogasse seu charme, seus olhares enviesados, ou um veneno, se visse dona Hormenzinda no balcão. A velha tinha desconfiança, mas nunca deu flagrante. Nunca”.
Há também a solidão da idade, de um distanciamento (i)natural de quem estaciona em um ponto do tempo e recusa-se a girar com o resto do planeta. A solidão nem sempre é imposta pelo externo, pode vir de dentro como opção ou conseqüência de decisões cotidianas (nem sempre claras, apesar de constantes). Essa fuga simbólica do futuro é mais evidente no conto Pavlov, em que uma velha só tem a companhia de seu cachorro (bem mais solitário do que ela, um tipo de companheirismo vitimado).
“A velha monologava seus mistérios, seus mundos estranhos, suas paranóias (…) o cão sofria os diabos, a duras penas conseguia viver naquele mesmo espaço, entre os delírios de Bratislava e suas rabugices”.
Tecendo com sutileza as tramas, Cagiano sabe trabalhar com a ausência, usar o que é dito nas páginas para revelar o que falta no mundo de cada um de seus personagens. O interessante do livro não está em como o autor os isola na história, mas de onde ele evoca a angústia literária e a transfere para o leitor.
Destaque também para encontros, com Kafka passeando por Cataguases.
Vale comentar ainda o capricho da Editora Língua Geral com suas publicações. O acabamento bem planejado torna as páginas mais do que um mero veículo do texto, sem, entretanto, competir com a literatura que apresenta.
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No próximo dia 21 de junho, às 20h30, Claudio Dauelsberg, piano, e Ney Conceição, contrabaixo, se apresentam na Fundação Eva Klabin, na Lagoa, dentro do projeto Quintas com Música. No repertório, Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim, Maurice Ravel, Johannes Brahms, Cláudio Santoro e do próprio Claudio Dauelsberg. Antes da apresentação do concerto, haverá visita guiada pela Fundação Eva Klabin, às 19h, e um coquetel no belo jardim da casa-museu, o que propicia a interação entre música, artes plásticas e a convivência social entre os freqüentadores.
[texto de Marcos Noronha]
MARAT OU A HORA EM QUE PERDEMOS A CABEÇA
23/6 – Internos de um hospital psiquiátrico se apropriam de personagens que viveram os terríveis acontecimentos da Revolução Francesa de 1789 e representam o assassinato e fim de Jean Paul Marat, líder popular, sanguinário, defensor da carnificina e do terror. Com a Nonada Cia. de Arte, texto e direção de Fabio Cordeiro. 20h. R$ 4 (com.), R$ 8. 16 anos. Sesc São João de Meriti
leitura de peças
OS CONTOS DE CANTUÁRIA
22/6 – Contos da oralidade medieval, fantasias ousadas, desatinadas ou moralizantes, nas quais o cancioneiro, trovador ou poeta mendicante denuncia os desmandos dos soberanos. O texto de Geoffrey Chaucer, escrito no século 14, é uma gama rica de comportamentos ancestrais, ainda vigentes e de grande atualidade, apesar de transcorridos mais de 600 anos. Direção de Marcos Henrique Rego. 15h. Grátis. 12 anos. Sesc São João de Meriti
MÚSICA
SOM PAN-AMERICANO
22/6 – O Grêmio Musical Paquequer apresenta uma amostra do estilo musical característico dos países que participam dos Jogos Pan-americanos. 16h às 18h. R$ 2,50 (com.), R$ 5 (est., id.), R$ 10. Livre. Sesc Teresópolis
VITRINE MUSICAL
22/6, 20h – Sergio Ricardo mostra repertório de MPB. 12 anos. 29/6, 20h – Pierre Gaioni apresenta o CD MPB, Sim. 14 anos. 20h. R$ 5 (com.) e R$ 10. Sesc Madureira
COISAS NOSSAS
24/6 – Bambas do samba e seus convidados contam histórias e cantam as melhores composições desse gênero. Este mês: Gisa Nogueira, Rafael de Moraes e o grupo Pano Pra Manga apresentam canções de Noel Rosa, Cartola e Chico Buarque de Hollanda. Participação do ator Bruno Salgueiro e direção artística de Cauê Harada. 17h. Grátis. Livre. Sesc Tijuca
DANÇA
23/6 – Formado por três bailarinos cadeirantes e três sem deficiência física, o grupo Ciranda Sobre Rodas demonstra que todos podem usar a dança para explorar e demonstrar seu gesto, bem como as diversas possibilidades que uma cadeira de rodas traz enquanto movimentação. Direção da dançarina e fisioterapeuta Adakrishna Sampaio Saraiva de Oliveira. 21h. R$ 2 (com.), R$ 4 (est., id.), R$ 8. Livre. Sesc Teresópolis
TERÊ PRO ROCK
23/6 – Ana Zélia e Carrt são as bandas teresopolitanas que se encontram com as cariocas Catchside, Planar, R. Sgma e Kaza 17. Coordenação de Marcela Lahaud Pinheiro e Aloísio Moraes. 16h às 22h. R$ 3 (com.), R$ 6 (est., id.), R$ 12. 16 anos. Sesc Teresópolis
FESTA JUNINA
Música, quadrilhas, co-midas típicas, brincadeiras e grupos de forró animam aquela que é nossa festa mais popular. Sesc Três Rios – 2/6, 18h às 24h. R$ 1 (com.), R$ 2. Sesc Barra Mansa – 14 a 17/6, 18h às 24h. R$ 1 (com.), R$ 2. Sesc Engenho de Dentro – 16/6, 15h às 20h. R$ 3 (com.), R$ 6. Sesc Petrópolis – 16/6, 6h às 19h. R$ 0,50 (com.), R$ 1. Sesc São Gonçalo – 16/6, 16h. Grátis. Sesc Madureira – 23 e 24/6, 14h às 22h. Grátis.
ENCONTRO DAS ARTES
As mais variadas mani-festações artísticas e seus desdobramentos reunidos em um evento multicultural. Este mês: homenagem a Noel Rosa. 19/6 -18h – Abertura: Apresentação artística da Cia de Dança Lídio Freitas – Jaime Aroxa; 19h – Palestra: A Crônica e o Samba em Noel Rosa – com Marcos Antônio de Azevedo, mestre em Semiologia pela UFRJ; 20h – Encerramento: Dançando com Noel – Apresentação artística da Cia. de Dança Lídio Frei-tas – Jaime Aroxa. 20/6 – 19h – Espetáculo musical: Rosas de Noel – com Marcos Novato, voz e vi-olão, acompanhado da Orquestra Vira Lata. Grátis. Sesc Tijuca
[texto original de Paulo Gramado, editado]
Em seu último livro, História. Ficção. Literatura. (Cia. das Letras. 2006), Luiz Costa Lima aborda as relações entre a história, a ficção e a literatura. Como um dos objetivos de sua indagação não é verificar a especificidade de cada um dos discursos, embora a especificidade de cada um seja fundamental para o que se afirma, o conceito de ficção, que se desenvolve, tanto serve para iluminar o que é específico à história quanto para a o que é pensar a literatura.
A partir da afirmação central de que os dois discursos se aproximam e se afastam, um procurando negar o ficcional, o outro a querer dar a si o estatuto da ficção, o leitor perceberá que, a balizar as noções da percepção do mundo, emprega, para delas dizer, para delas se aproximar, a noção de um saber naturalizado, que não se percebe como ficção. Chamar atenção para este saber vem a ser um dos inúmeros méritos do livro.
A abordagem que o teórico da literatura faz das outras formulações discursivas pressupõe o domínio dos conceitos que analisa. A preocupação, neste sentido, de ter, como contraponto ao objeto de indagação, diversa grade discursiva, faz com que o teórico da literatura fale a partir de uma grade própria, isto é, mesmo que o teórico invista no conhecimento da filosofia, da história, da antropologia, e deve fazê-lo, a consideração que se deve levar em conta é a do conhecimento/indagação do estatuto do literário.
A questão que se levanta tem uma função didática, pois a abordagem de outros discursos facilmente poderia ser vista como tábua de salvação para o analista e, com essa intromissão, salvar o analista da literatura da tematização teórica, fazendo com que ele se atenha apenas ao discurso que não é o literário.
A questão que Luiz Costa Lima nos coloca tem como pano de fundo exatamente a intercessão discursiva entre a História, a ficção e a literatura. O cuidado, com que Costa Lima trata do tema, busca não só a teorização do que é o literário, mas aponta para os limites da utilização seja da história, seja da filosofia. Observar essa preocupação como centro de seus estudos evita que, por exemplo, a literatura seja submetida a outra discursividade e dela se faça um apoio para análises historiográficas, sociológicas ou filosóficas.
A formulação do discurso literário como determinador do real e não como seu reflexo pressuporia o fio da indagação teórica da literatura, ou por outra, a indagação do que é a literatura permitiria ao homem, que se relaciona com o seu mundo, uma visualidade diferente e menos afeita, ou afeita de modo diferente, aos discursos dominantes acerca da definição da realidade.
O como se, a desimportância com que o discurso da ficção trata da verdade, não permitiria só que se verificasse, no discurso que toma a suspensão deste critério, uma possibilidade de extensão do real para fora de sua determinação primeira, dada pelas discursividades que se atrelam a busca de uma verdade.
A formulação da ficção como lugar de onde deriva o saber e o dizer deste saber é, pois, fundamental para que se verifiquem as intersecções entre os discursos e suas especificidades. O que Costa Lima oferece em sua obra ao leitor e estudioso da literatura está na radicalidade e no rigor com que aborda as fronteiras e os limites a partir dos quais se deve e se pode pensar a literatura.
“Valsa nº 6″, de Nelson Rodrigues, no SESC Campos, dias 29 e 30/6, com entrada franca
Fragmentos de memórias são evocados em cena: sabe-se que Sônia foi assassinada, aos 15 anos, por seu médico enquanto tocava a “Valsa nº 6″, de Chopin. Sônia era apaixonada por Paulo e sonhava com o dia em que ele beijaria a sua boca. Mas, ao mesmo tempo, ela repudiava o contato físico com qualquer homem. Nelson Rodrigues trabalha a contradição como uma marca da passagem, da transição. Sônia está entre a menina que foi e a mulher que será. Mas a Sônia que se vê em cena, lembrando-se do seu assassinato, também está numa transição entre a vida e a morte. Este é o fio da meada da peça “Valsa nº 6″, atração teatral do SESC Campos dos próximos dias 29 e 30/6, às 20h, com entrada franca. A direção é de Antonio Guedes.
O diretor Guedes tem a carreira identificada com a obra de Nelson Rodrigues: seu espetáculo de maior repercussão foi “A serpente” – que lhe valeu duas indicações para o Prêmio Shell em 1998. Além disso, foi convidado para fazer a apresentação do volume 4 da nova edição de ‘Obras Completas de Nelson Rodrigues’, e participou do seminário ‘Nelson Rodrigues e a cultura brasileira’, realizado no Festival Recife do Teatro Nacional.
A montagem
A atriz Mariana Oliveira possui uma escala de nuances extremamente ampla o que, associado às suas características físicas, permite que esta atriz, de 26 anos, se assemelhe a uma adolescente, tendo, ao mesmo tempo, a experiência e a maturidade necessárias para compreender as camadas de sentidos que tecem este texto.
O espaço terá várias telas que, às vezes, criarão espaços translúcidos e às vezes, delimitarão planos na cena, recortando o espaço. Buscando concretizar a idéia de uma Sônia que se multiplica, trabalha-se com a projeção de sombras, multiplicando, para o público, a imagem da atriz. O monólogo, assim, será, repentinamente, povoado de imagens, criando um movimento que tomará todo o espaço cênico.
“Valsa nº 6″ é uma das peças que instauram a modernidade no teatro brasileiro, propondo uma ruptura com o teatro tradicional. E traz questionamentos fundamentais para o debate a respeito da dramaturgia contemporânea. A dramaturgia vem sendo objeto de estudos, atualmente, no mundo todo e considerada como uma inesgotável variedade de tendências.
Ficha técnica
Direção: ANTONIO GUEDES
Cenário: DORIS ROLLEMBERG
Figurino: MAURO LEITE
Com MARIANA OLIVEIRA
“VALSA Nº 6″
SESC CAMPOS – Rua Alberto Torres 397 – Tel: 22-2725-1209
Dias 29 e 30/6
20h
Classificação 14 anos
Entrada franca
(texto: Paulo Gramado)
Ferreira Gullar e convidados participam de roda de leitura no SESC Rio, com entrada franca, dias 22 e 29 de junho
Na programação, destaque para o encontro com Adriana Calcanhotto
O poeta Ferreira Gullar é o homenageado do projeto “Conexões literárias” do SESC Rio e participa de rodas de leitura, com artistas convidados, nas unidades de Madureira (22/6) e da Tijuca (29/6). Os convidados do escritor serão o poeta Salgado Maranhão, além da cantora Adriana Calcanhotto. Sempre com entrada franca. As rodas de leitura terão temas específicos. Com o poeta Salgado Maranhão, no SESC Madureira (22/6), será sobre a criação poética, com leitura de poesias por Marcela Moura (atriz) e Leandro Wirz (poeta). Encerrando a série, Ferreira Gullar e a cantora Adriana Calcanhotto protagonizam roda de leitura no SESC Tijuca (29/6) sobre letra e música – e a leitura das poesias será feita pela cantora e compositora.
A programação inclui também contação de história. “Brinquedo Poético” aborda a literatura infantil de Gullar: os livros “Um gato chamado gatinho”, “Um rei que mora no mar”, “Doutor Urubu” e outros serão contados. O projeto propõe traçar um painel da personalidade e da literatura de Ferreira Gullar, aproximando o artista dos seus leitores.
Rodas de Leitura
22/6
19h
Ferreira Gullar e o poeta Salgado Maranhão. Leitura de poesias por Marcela Moura e Leandro Wirz.
SESC Madureira – Rua Ewbanck da Câmara 90 – Tel 3350-774429/6
18h
Ferreira Gullar e a cantora Adriana Calcanhotto. Leitura de poesias pela cantora.
SESC Tijuca – Rua Barão de Mesquita 539 – Tel 3238-2434
Contação de histórias
28/6
15h
SESC Tijuca – Rua Barão de Mesquita 539 – Tel 3238-2434
Mostra de Vídeos
Trechos de entrevistas e filmes traçam o perfil do poeta.
27/6
15h
SESC Tijuca – Rua Barão de Mesquita 539 – Tel 3238-2434
(texto: Paulo Gramado)
Espetáculo “Cartas”, dia 22/6, às 20h, no SESC CAMPOS, com entrada franca
As relações humanas vistas sob a ótica da troca de correspondência
O Grupo Quatro, através do espetáculo “CARTAS”, traz à tona o universo que povoa as relações humanas. E que trazem em si o sabor de grandes lições, através de correspondências sobre estética, política, viagens, sentimentos, vida e função do artista no Brasil dos anos 30, 40 e 50. O espetáculo, com entrada franca, estará em cartaz no teatro do SESC CAMPOS, no próximo dia 22/6, às 20h. Com textos de Clarice Lispector, Fernanda Montenegro, Fernando Pessoa, Fernando Sabino, Márcio Vassalos, Martha Medeiros, Maury Gurgel, Pero Vaz de Caminha e Aucilene Freitas. A direção é da atriz Jane Rangel
Nessa leitura de “CARTAS”, sem trocadilho, o grupo reforça que destinatário e remetente, autor e leitor de cartas, são homens que diariamente revezam suas funções e emoções. Mas que ambos anseiam por notícias e por um interminável diálogo de (re)transmissão da vida em prol da memória que se transforma em letras e palavras, consequentemente.
“Quem escreve; para quem escreve; por que escreve; como escreve; quando escreve; e em que contexto histórico escreve”. São indagações que desejamos alcançar para afirmar que “narrar é resistir”, como já disse Guimarães Rosa. Num cenário lírico e instigante, o Grupo Quatro propõe, com o espetáculo CARTAS, o entrelaçamento da literatura com o teatro proporcionando, assim, ao espectador, momentos saudosos de encontro e troca com arte.
Espetáculo “Cartas”
dia 22/6
20h
SESC CAMPOS – Rua Alberto Torres 392
Tel – 22-2725-1209
Entrada franca
(texto: Paulo Gramado)
Dois caras-de-pau históricos começaram suas obras com uma mesma frase.
Cosa non detta in prosa mai ne in rima é de Ariosto em Orlando Furioso. Em uma tradução literal, cem anos depois, vem Things unattempted yet in Prose or Rhyme, de Milton, em Paraíso Perdido. Em ambos, o orgulho de ter feito algo nunca feito antes. Em ambos, a ambição de apresentar um caminho novo tanto a seus contemporâneos quanto às gerações vindouras.
Hoje também os temos, os que enchem o peito para dizer “nunca antes”, mas não nas artes. Nas artes, o nunca antes é onde labutamos todos, portanto é inútil explicitá-lo.
A peça Essencial, de Demétrio Nicolau, no Oi Futuro (RJ), começa sem avisar. Nem a respeito da novidade que contém nem que, ei, já começou. E é esta a novidade.
No romance épico renascentista de Ariosto, a novidade é a posição feminina, ou melhor, feminista, dentro de uma sociedade em que a exaltação do amor é elemento de subjugação. No poema religioso de Milton, a novidade é a mesma, em outro contexto. Eva, aqui, divide de igual para igual suas responsabilidades com o marido, um complexo e falível Adão.
Essencial nos remete ao mesmo tema. Infiltrada em todo o espetáculo está a construção do feminino – que só é possível, no Renascimento ou no Século XXI, na guerra ou no amor, quando é pensada em relação à construção do masculino. E, como mancha de óleo, na peça esta relação não se atém ao que acontece em cena mas se espalha para uma outra, maior, mais abrangente, que é a relação do ator (“masculino”) com a platéia (“feminina”). E, mais ainda, para a relação do papel social (que todos temos, atores ou não), na vida diária, com o papel privado que nos damos a nós mesmos, quando a sós, cara no espelho, tirando a maquiagem.
Há duas mulheres em Essencial, e cada uma delas se desdobra em duas. Lilian/Marta, Vítima Passiva/Agente Ativo.
Lilian é o nome da personagem principal de Essencial.
É uma atriz e está fazendo um papel em uma peça chamada Quem tem medo de Torquato Neto, que é um pastiche de outra peça, Quem tem medo de Virgínia Woolf.
Enquanto ela está no camarim, ela é chamada de Lilian. Entra no estereotipo de mãe preocupada e esposa carinhosa. Enquanto ela está atuando na “peça”, ela é chamada de Marta, que é o nome da personagem principal de Quem tem medo de Virgínia Woolf. E entra no estereotipo contrário, o da megera de meia-idade, agressiva e destrutiva.
Quem estou chamando aqui de Vítima Passiva é a personagem da filha de Lilian. É uma jovem que se encontra em um cativeiro, seqüestrada. Entra no estereotipo de virgem indefesa.
Um de seus seqüestradores é frágil e humano e ela o chama de Honey, que é o nome feminino da segunda personagem-mulher da peça de Edward Albee. Ao inverter os nomes do casal coadjuvante de Quem tem medo de Virgínia Woolf, Demétrio Nicolau inverte também seus papéis sociais. Qual Sherazade, a filha de Lilian é uma vítima passiva que, mesmo amarrada, determina a seqüência da ação sobre um seqüestrador que imagina estuprá-la mas não o faz. Torna-se, portanto, agente ativo. Adeus estereotipos.
É esta a novidade da peça. Há um jogo entre os papéis dos homens e os das mulheres, do público (presente fisicamente nos vários cenários da ação) e dos atores (que se exibem sendo exatamente isso, atores, o que denuncia a ficção que deveriam defender).
A peça traz paietês tecnológicos e, no meio deles, um merchandising dispensável dos aparelhos celulares da Oi Futuro, em cujo Centro Cultural a peça se apresenta. São celulares de última geração que tocam sem parar; telas de notebooks – reproduzidas em telão visível a todos – com a banda larga da empresa (a peça é reproduzida em tempo real na internet) e seu logotipo em local de destaque.
O telão traz também citações de montagens brasileiras da peça de Albee e do filme homônimo de Mike Nichols em uma intertextualidade interessante.
E traz segmentos da ação que se desenvolve nos outros cenários da peça, como o cativeiro ou a rua, com o táxi que traz a seqüestrada em tempo real à sede da Oi Futuro.
Mas tais paietês não acrescentam muito. Por exemplo, não há ação concomitante exatamente, pois quando o telão apresenta o que está acontecendo em um outro cenário, a ação desenvolvida no cenário principal cessa ou quase cessa. E o uso de um telefone – de manivela, tecla ou última geração, tanto faz – para trazer à cena um espaço não diegético existe há muito tempo.
Outro ponto negativo. A integração cenário-público não se dá por completo. No cenário principal, o público se espreme em cadeirinhas extremamente desconfortáveis encostadas na parede. A peça, longa, que ganharia se enxugada, fica mais longa ainda, com todos se mexendo, inquietos. Almofadas pelo chão funcionariam melhor e aumentariam a integração.
Afinal, o texto pede por isso, com os atores incluindo o público em frases como: “Não estamos a sós, Marta”, “E vocês querem saber o que aconteceu?” ou “Vocês estão vendo, Marta interrompe sem parar a história.”
Mas é uma boa história.
O festival Visões Periféricas tem uma proposta simples: a inversão do olhar. Como o mundo vê a periferia, estamos cansados de saber, seja por filmes ou em novelas que transformam as favelas em locação. Não que toda periferia seja favela (como mostram os curtas) e, acredito, em breve nem toda favela será periferia. Enquanto alguns aguardam ansiosos o passeio de Hulk por esse labirinto humano, a Petrobrás desmembra a pergunta: como a periferia vê o mundo e a própria periferia? É um universo rico como todos, que encerra em si milhões de possibilidades. Sua graça está então no olhar que o analisa. É importante que o objeto de análise consiga se ver além do estereótipo. Em muitas camadas da sociedade o estereótipo é assumido como identidade, homogeneizando o comportamento, por isso vale comemorar o resultado dos curtas.
Na exibição Memória da Periferia no Espaço Caixa Econômica Cultural do Rio, entra em cena o idoso, a tal terceira idade (de acordo com Ariano Suassuna, quem tem três idades é fruta: verde, maduro e podre; por isso mantenho a palavra idoso) e o diálogo com o tempo. Apesar de faltar recursos e a técnica ainda ser muito incipiente, os curtas já mostram um diálogo com linguagem, sendo bem diferentes entre si, olhares com propriedade.
Iracema, a mãe sertaneja foi filmado em Belo Horizonte em 2005. É um documentário do grupo Favela é isso aí feito por Cesar Maurício e Clarice Libânio. Iracema é uma artista, cantora, que desde os cinco anos vive do seu trabalho. Ela canta em festas, em rádio, cantou muito tempo no circo. Faz parte de todas as associações de cantores e recebe seus direitos autorais direitinho, já que algumas duplas sertanejas de prestígio regravam músicas suas.
Não só é a história de um outro artista, como mostra mudanças de costume. O circo popular que virou circo espetáculo, a rádio que tocava de tudo e agora toca sempre a mesma coisa.
Iracema diz que não se sente velha, pois onde ela vai é respeitada. Termina o curta com uma frase muito boa: “A cultura é igual cachaça, depois que você começa não quer mais parar. Você vê artista aposentado? Você não vê. A maioria morre no palco trabalhando”.
Retratos não registrados é de Riacho Fundo (DF), foi feito na Oficina de Imagem Popular e é um trabalho coletivo. Em 10 minutos, consegue mostrar diversos olhares de idosos, o que pensam da vida e da morte. A quantidade de entrevistados é uma das qualidades do curta, que peca ao entrar no assunto religião e mostrar que todos ali são devotos da mesma fé, com o mesmo pensamento, quebrando a pluralidade proposta. O melhor momento é de um casal que diz que o sexo está cada vez melhor e cita a velha máxima: “Se a morte é descanso eu quero viver cansado”.
O Auto Comunicador Falante é o mais pretensioso e bem arranjado tecnicamente. Foi feito em São Paulo no projeto Revelando Brasis pelo diretor e roteirista Paulo Augusto Vieira. Conta a história de um senhor que anunciava pelo sistema de auto-falantes da cidade a vida e a morte dos cidadãos. Com a mesma voz que avisava que alguém morreu, anunciava que a próxima sessão de cinema já ia começar. Nelson e Anice Fortunato, o casal tema, podem se orgulhar de ter vivido do cinema. Suas exibições sempre lotavam. As crianças se juntavam para ver os filmes, as ruas da cidade esvaziavam. Mais uma vez, ao olhar para trás o trabalho evidencia as mudanças do presente. A cidade pequena, um cinema sem luxo nenhum (bancos de madeira, chão de terra batida) vivia cheio. Nelson ainda guarda as objetivas e películas. Conta que nas cenas mais quentes, tampava com os dedos a projeção para proteger as crianças. Diz que quando a cena era boa ele girava a manivela do projetor bem devagar para ela durar mais. Quando era ruim, girava rapidinho.
Fica de Anice a frase: “O cinema estava lotado. As pessoas não cabiam mais na sala, o chão tremia. Acho que foi por isso que desabou”. Como Nelson Fortunato anunciou a morte de todos na cidade, decidiu gravar uma fita, anunciando a sua também. Começa assim: “Hoje eu morri”. Isso que é bom-humor.
O último curta é o mais engraçado. Como se Rouba a Cena no Cinema foi feito em Cotia (SP) no projeto Kinoforum de Realização Audiovisual por Luis Tadeu Carraca, Marcelo Guerra, Otávio Augusto e Rafael Ferreira. Enquanto filmavam uma feira (nunca saberemos qual era o tema original do curta), uma mulher invade as gravações e fala em 11 minutos mais de 30 assuntos. Sebastiana é engraçadíssima e realmente emenda uma frase na outra, fazendo a alegria da produção. Morre de vergonha do nome, é comediante nata e vendedora em uma feira. Lá pelas tantas ela diz algo assim: “Eu não converso com velho. Só converso com jovem. Jovem não fala do preço do tomate, não fala que o dólar subiu. Jovem só fala coisa boa”. O curta é hilário do início ao fim. Seu único deslize é a piadinha que um dos presentes (alguém da equipe?) faz com a mulher. Quando perguntam seu nome e ela diz que tem vergonha de dizer, alguém sugere que poderia ser Monalisa. Sebastiana da Silva (ou da Sílvia, como ela diz) tem um único dente na boca, pendurado na arcada inferior. Nem se abala com a piada.
O festival vai até 16 de junho e teve uma programação extensa e diversa, inclusive com mostras competitivas. Os vencedores serão exibidos dia 16, às 18 horas.
Destaque à parte para o livreto do festival, muito bem feito e organizado.
Cinco senhoras solteiras e virgens buscam desesperadamente encontrar um homem que lhes alivie as horas, seja para casamento ou sexo. Devotas obviamente de Santo Antônio, elas estão em busca de qualquer meio que lhes encurte o caminho para seu objetivo, mesmo que para isso tenham que se livrar da imagem do santo, se bandear para a macumba, fazer mandingas, pequenas traições e crimes. O enredo de Antônio de Chica não é exatamente inovador, mas poderia dar bom caldo cômico, não fosse o desperdício de esforço e talento em cenas e até personagens dispensáveis ou o mau aproveitamento de algumas situações e tipos. O texto de Cláudia Souto é desigual, mas geralmente não escapa da obviedade. Fazer comédia não é acumular piadas de gosto duvidoso, preconceitos, escatologias e referências a uma estética kitsch. A peça se encaminha para alguns becos sem saída, o que faz com que a comédia vá piorando até seu desfecho apelativo e falsamente conciliador.
A direção de Zéu Britto deixa a descoberto algumas falhas do texto e ainda lhe adiciona outras. Mesmo uma comédia trash precisa de algum rigor na sua feitura. Há no espetáculo um bom número de “temas polêmicos” que poderiam ser tratados com um humor mais apurado, não apelando tantas vezes para uma parcela menos exigente do público. O maior mérito da encenação fica por conta dos cinco atores que interpretam as velhas casadoiras. André Arteche (Urânia), Marcos Nauer (Miminha), Fabrício Boliveira (Neném) e, principalmente, Edmilson Barros (Filoca) fazem boa composição, e conduzem seu trabalho com profissionalismo e contenção, o que eleva o nível do espetáculo. A protagonista Chica é defendida por Ari Guimas, que ainda não parece tão à vontade no papel, mas que também tem bons momentos, principalmente quando Chica abandona seu Santo Antônio e se converte a alguma religião afro-brasileira. O final feliz de Chica com outro Antônio de carne e osso não é satisfatoriamente resolvido pela autora e pelo diretor. As referências a alguns desfechos felizes de telenovela com direito a trilha sonora brega não acrescentam muita coisa e não chegam a extrair o riso do público. O final de Urânia, que sai de cena espumando, é desnecessariamente escatológico. Assim como o surpreendente lesbianismo de Filoca e Neném. Mesmo que a farsa trate de tipos toscamente psicologizados, não é de muito bom tom insinuar que o lesbianismo advém da insatisfação feminina por falta de homem. O desfecho dado a Miminha é um pouco mais crível: a partida para a capital em busca de maiores possibilidades de encontrar um parceiro. Além das cinco senhoras, mais quatro personagens ocupam a cena. Sereco é um transexual, educado por Chica, e presente em cena para fazer um contraponto à virgindade das cinco senhoras. Liberado sexualmente, escancaradamente cômico e afetado como uma libélula, Sereco é interpretado por Bárbara Borgga. São muitos os exemplos de atores e atrizes que, no cinema ou teatro, interpretam transexuais e realizam um trabalho significativo, tirando partido dessa ótima oportunidade. Em Antônio de Chica, no entanto, a atriz desperdiça a personagem, com uma composição repetitiva, que denuncia certo descuido. Lucci Ferreira tem participação pequena como Antônio, mas cumpre bem a sua função. A personagem Filipa, interpretada por Rose Lima, parece não ter muita razão de ser. O tempo inteiro em cena, num apêndice da cenografia, Filipa é uma desfrutável, grávida cheia de desejos e volúpia, mulher sexualmente satisfeita e, ao mesmo tempo, insaciável. Quase todas as suas cenas são ao telefone comentando a ação ou contando um pouco do passado das personagens, com exceção do único momento em que ela invade o ambiente de Chica e entra em contato com as outras figuras. A má construção dramatúrgica da personagem dificulta o trabalho da atriz, e Rose Lima tenta salvar como pode uma personagem que não faz falta à ação da peça. Completando o quadro de personagens, Davidson Santos interpreta Agamenon, admirador de Sereco e que vai lhe servir de par romântico. A utilização de um anão para parceiro de um transexual dispensa comentários.
A cenografia de Juliana Werneck se divide em dois planos, a casa de Chica, mais notadamente o ambiente onde se reza a trezena, devoção que se faz nos treze dias que antecedem à festa de um santo. Um grande oratório de Santo Antônio domina a cena, rodeado de imagens de outros santos, de licores, bolos etc. – um ambiente feminino e pueril onde pululam as ansiosas senhoras. Há ainda a casa de Filipa, cômodo simples com telefone, mesinha, alguns adereços que insinuam ser ambiente de maior luxúria. O figurino de Bianca Nabuco é mais feliz na criação dos vestidos das cinco senhoras, seguindo uma linha mais farsesca e bem humorada. Os outros figurinos são menos bem cuidados. Filipa veste o óbvio penhoar vermelho, a roupa de Antônio é típica de caipira e o figurino de Sereco oferecia possibilidades mais criativas para Bianca. A iluminação de Luciana Liege segue convencional até a virada da peça, quando as velhas apelam para recursos menos convencionais para atingir seus fins. Aí, a luz passa a acompanhar o delírio da cena, e se tornar também mais autoral. A trilha sonora de Zéu Britto segue alguns caminhos óbvios e ora acerta, ora resvala para um tom apelativo. Alguns números musicais inseridos na peça, como a canção da vitamina C e o showzinho de Sereco parecem gratuitos e não dizem a que vieram. É significativo o trabalho de Ana Paula Bouzas como preparadora corporal e diretora de movimento, tendo falhado apenas no que poderia extrair da composição de Sereco. Mas o naipe masculino tem corpos expressivos ao compor as velhas senhoras.
Antônio de Chica possuía elementos para ser uma comédia despretensiosa, porém carregada de possibilidades interessantes: a necessidade de gozar das velhas senhoras é sinal de lubricidade senil ou de nossa busca incessante por prazer e felicidade, mesmo que no fim da vida? Em tempos de internet e relacionamentos virtuais, qual a conexão desse nosso atual panorama com os recursos místicos da peça? Como tratar hoje o sincretismo religioso ao qual a peça faz menção? Alguma novidade no front? Dentro do contexto tão sexualizado da peça, como tratar o jogo da indiferença sexual ao ter no mesmo elenco uma atriz interpretando um homem e cinco homens interpretando mulheres? Segundo Jean Baudrillard, “o sexual tem por objetivo o gozo e o transexual tem por objetivo o artifício, seja o de mudar de sexo ou o jogo dos signos vestimentares, morfológicos, gestuais, característicos dos travestis”. No meio de tantas aberrações transexuais, soam estranhamente normais as presenças de Filipa (personagem feminina interpretada por uma atriz) e de Antônio (personagem masculino interpretado por um ator) – e isso poderia ser mais bem aproveitado no espetáculo.
Seria bom que se se visse no teatro algum diferencial para o que assistimos em programas humorísticos de TV, geralmente pouco elaborados e pouco inovadores. Segundo Patrice Pavis, “graças à farsa, o espectador vai à forra contra as opressões da realidade e da prudente razão”. Há, portanto, um grande compromisso ético do trabalho artístico, também nas farsas, e a necessidade de senso crítico e espírito subversivo para que o riso libertador se dê. Repisar, no teatro, preconceitos cotidianos ou o senso comum sem pervertê-los não satisfaz os ambiciosos objetivos da farsa. Antônio de Chica, nesse sentido, não é um espetáculo homogêneo. Nem sempre desperdiça as setas, nem sempre atinge o alvo. Mas para se dar tiros certeiros em cena, é preciso que antes se fite os olhos aonde se quer atirar. E parece ter havido certa confusão nessa mira, principalmente por parte da autora e do diretor.
1ª. Etapa – outubro-dezembro de 2006
A Secretaria de Estado de Educação do RS, via Gabinete Pedagógico, indicou para participar na 1ª etapa do projeto o Colégio Estadual Erico Veríssimo (28ª CRE- Alvorada – Dir. prof. Marcos Nardi Polwelmiez e Coord. Pedag. Profa. Sheila Cristina Mellos); Colégio Santos Dumont (4ª CRE – Gramado – Dir. Profa. Maria Inez Zanotto Catani e Coord. Pedag. Profa. Gilda Maria Pellicioli); Instituto Estadual de Educação João Neves da Fontoura (24ª CRE – Cachoeira do Sul – Dir. Profa. Dulce Maria Marques Lopes). Nesses estabelecimentos, distribuíram-se a professores, coordenadores pedagógicos, bibliotecas e alunos cerca de 3.500 exemplares do livro Um menino vai para o Colégio, de Cyro Martins, texto desencadeador do projeto.
Desde a proposta inicial, a receptividade foi excelente. Surpreendeu-nos até porque tivessem pouco tempo para ler e preparar trabalhos, bem como por estarem sob a pressão dos compromissos de final de ano letivo.
Evidenciou-se intensa interatividade multidisciplinar, permitindo que professores e alunos tivessem uma experiência efetiva de ensino e aprendizagem com caráter interdisciplinar, pois diferentes áreas do conhecimento se complementaram, interagindo e se ampliando mutuamente, construindo outros conhecimentos. Essa proposta mobilizou praticamente todas as disciplinas, muitos professores e alunos desde a 4ª série do Ensino Fundamental até os de cursos de formação para o magistério e de educação de adultos.
Realizaram-se maquetes reproduzindo a paisagem campeira e a urbana descritas no livro. Nelas, detalhes como instalação de energia elétrica propiciaram tanto o encantamento de descobertas ao elaborarem o trabalho como ao apreciá-lo: trenzinho e cata-vento em movimento, ruas e casas iluminadas; graciosas construções em madeira e palitos de picolé; noções de perspectiva conjugadas à criatividade e ao senso de síntese. De esquetes com episódios do livro a poemas a seu respeito, de receitas culinárias à feitura de doces oferecidos aos visitantes; de mapas, vídeos, fotos, filmagens e dramatizações com personagens e cenários caracterizados. De um CYRONÁRIO, em formato de caderno ilustrado – com expressões colhidas no texto lido e ‘traduzidas” para a linguagem corrente dos alunos a um glossário inclusive inserindo pictoricamente as palavras originais em espécie de pergaminhos e as versões contemporâneas inscritas em molduras em formato de monitores de computador, insinuando transformações tecnológicas, de visão da realidade, mudanças de tempo e espaço. Desenhos, caricaturas, poemas, reconstituição da época em que o relato ocorre – em torno de 1920-, tudo harmoniosa e cuidadosamente apresentado e exposto para que cada membro da escola aprecie e compartilhe a realização, revelando envolvimento e esmero dos participantes e seus orientadores.
À medida em que esses trabalhos – ora expostos na escolas – forem sendo encaminhados para nós, iremos elaborar um dossiê que será inserido em nosso site www.celpcyro.org.br e deverá orientar uma seleção a ser reapresentada durante as comemorações do centenário de Cyro Martins – agosto de 2007 a agosto de 2008.
Desse modo, retribuiremos o que foi realizado, pelo que agradecemos, acrescentando nosso entusiasmado reconhecimento pela disponibilidade e criatividade com que responderam ao projeto, desejando a todos os participantes belas realizações no próximo ano letivo, bem como que a etapa seguinte de nosso CYRO MARTINS VAI ÀS ESCOLAS também encontre a receptividade que teve neste 2006.
Profa. Maria Helena Martins – Coord. do projeto CYRO MARTINS VAI ÀS ESCOLAS
Profa. Aymara Celia – Vice- coordenadora
Profa. Elizabeth Rizatto – Colaboradora
Av. Borges de Medeiros, 453 Conj. 82 – CEP 90020-023 – Porto Alegre – RS – Brasil – Tel/Fax: 0xx-51-3224-4233 e 0xx-51-3224-8209
Em comemoração ao Dia dos Namorados, a poetisa e atriz Elisa Lucinda e o cantor, compositor e violonista Marcos Lima apresentam “Ô DANADA”, um show de poesia e música, nesta terça, dia 12, no Estrela da Lapa (www.estreladalapa.com.br).
- Rua Mem de Sá, 69 – Lapa tels. 2507-6686 / 2509-9626
- Couvert artístico: R$15,00

[texto João Pontes e Stella Stephany, assessoria de imprensa]
Mesa-redonda com CHEMA MADOZ e Catherine Coleman
Data: 13/06
Horário: 18h30
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
End: Rua 1º de março, 60 – Centro – Rio de Janeiro – RJ
Tel: (21) 3808-2020
Auditório, 4º andar
Censura: livre
GRÁTIS!
apoio Instituto Cervantes
O Instituto Cervantes organiza mesa-redonda com o fotógrafo espanhol Chema Madoz e a crítica de fotografia Catherine Coleman, dia 13/06, ás 18h30, no CCBB. Autoridades no mundo da imagem, fotógrafo e crítica vêm ao Brasil para inaugurar a expo “Poética”, de Chema Madoz, com curadoria de Coleman.
Serão exibidas 64 fotografias recentes de Madoz, produzidas entre 2000 e 2005, nas quais o fotógrafo cria metáforas e jogos visuais a partir de objetos cotidianos. A proposta de Chema Madoz é dirigir o olhar do espectador a coisas que estavam ocultas ou passavam despercebidas.
A exposição….
“Está claro que o mundo é pura paródia. Tudo o que vemos nele é a paródia de outra coisa, inclusive é a mesma coisa com uma forma mais ainda enganosa”. – Georges Bataille
EXPO “POÉTICA” – CHEMA MADOZ
apoio Instituto Cervantes
O artista e seu trabalho
O trabalho do fotógrafo espanhol transmite o conceito de que toda matéria está cheia de sentido, e seu lugar no mundo lhe dá significado. Chema Madoz trabalha com o sentido das coisas como se se tratasse efetivamente da matéria. A tarefa de materializar o sentido é, sem dúvida, um exercício poético. Por isso, pode-se dizer que Madoz utiliza os objetos e
sua representação gráfica como se fossem palavras de um vocabulário nítido.
“Analisando o perigoso mapa de sinais que emitem as coisas a partir o lugar que ocupam no mundo, Madoz individualiza e desordena, confronta e anipula até conseguir mostrar uma nova ordem, uma face oculta do sentido, uma nova verdade simbólica que ressalta através do impacto a desordem da lógica. As coisas, os objetos, situados em um novo lugar, despidos do ambiente natural onde realizam sua função, estão frente à câmera emitindo outros sinais diferentes. Transformados em signos estão agora literalmente falando. Ou melhor, são imagens que estão literariamente falando. Porque, partindo da estética da semelhança, Madoz desloca o sentido natural dos conceitos para outras compreensões, explorando ao máximo suas capacidades simbólicas: analogias, metáforas, paradoxos ou metonímias visuais que oferecem ao espectador um jogo de percepção poética e lhe exigem uma colaboração ativa.” – sintetiza o diretor da revista cultural espanhola “El Europeo”, Borja Casani.
A obra de Madoz tem, portanto, uma ampla vizinhança literária. Suas composições se aproximam do poema minimalista e da contraposição de imagens poéticas que produzem uma explosão metafórica.
Nitidamente há uma linha que conecta a obra de Madoz com os artistas que se expressam através da ironia dos objetos, como Marcel Mariën ou Marcel Broodthaers de, por exemplo, Casserole et moules fermées, que o mesmo Broodthaers explica de maneira tão próxima à obra de Madoz: “A brusca saída dos mexilhões da caçarola não segue as leis da ebulição, segue as leis do artifício e é resultado da construção de uma forma abstrata”. Também é conhecido seu encontro com Joan Brossa, com quem colaborou em um livro em comum (Fotopoemario) antes da morte deste em 1998, e sua obra foi comparada com os poemas visuais do poeta catalão, com o qual sem dúvida compartilha um fino senso de humor e a capacidade de estabelecer associações entre objetos que produzem evidências, mas Madoz, põe seu objetivo além da mera presença do objeto e seus deslocamentos semióticos, contribuindo com a dimensão finalmente fotográfica de sua obra.
Chema Madoz trabalha na delicada fronteira que existe entre o real e o imaginário.
Há conceitos que Madoz costuma recorrer assiduamente: o tempo com suas medidas e seus medos; os sentimentos, estranhamente de aço na sua obra, como se lê na carta do cinco de corações feitos com anzóis ou n violento par “Tu” e “Eu”, ou as cáusticas alusões ao consumo, onde utiliza ironicamente os estudados e contundentes recursos da fotografia propagandista.
Muitos artistas trabalham como em uma mesa de ping-pong e jogam a ambos os lados sucessivamente. Entretanto, Madoz realiza sempre um equilibrado exercício de contenção. O fotógrafo tenta aparecer o menos possível na sua obra e deixa que as coisas, os objetos, falem por ele. Por isso os coloca em um espaço neutro e à distância.
Serviço:
Poética – CHEMA MADOZ
Data: 12/06 a 15/07
Horário: 10 às 21hs (terça a domingo)
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
End: Rua 1º de março, 60 – Centro – Rio de Janeiro – RJ
Tel: (21) 3808-2020
Censura: livre
GRÁTIS!
LEAD Comunicação
Flávia Tenório e Priscila Bessa
Tel (55 21) 2222-9450 / cel 9348-9189
leadcom@gmail.com
Prefeitura do Rio e Instituto Europeu de Design apresentam o projeto arquitetônico de revitalização do Cassino da Urca
Projeto foi aprovado pela Prefeitura e as obras começam em julho.
A inauguração será em março de 2008.
O Prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, o Secretário das Culturas, Ricardo Macieira, e o diretor-geral do Instituto Europeu de Design (IED), Stefano Paschina, apresentam dia 12 de junho de 2007, às 10h, no Palácio da Cidade, o projeto arquitetônico de revitalização do Cassino da Urca, que acomodará um centro de excelência em pesquisa e desenvolvimento de design, moda, artes visuais e comunicação, e espaços culturais voltados para a cidade. As obras começam em julho próximo para serem concluídas parcialmente em março de 2008.
O projeto arquitetônico de revitalização do Cassino da Urca, feito pelo arquiteto Ado Azevedo para o IED, foi aprovado pela Prefeitura no final de maio, depois das avaliações cuidadosas do Patrimônio Histórico e da Secretaria de Urbanismo. As obras de restauro começam pelas fachadas e telhados para, em apenas oito meses, devolver à cidade do Rio de Janeiro este prédio simbólico da cultura brasileira, que já foi hotel, depois cassino e sede da TV Tupi no Rio de Janeiro. O Cassino revitalizado vai interferir positivamente na estruturação urbana da cidade, dando nova vida à Urca.
Mais informações: CW&A Comunicação
Claudia Noronha / Beatriz Caillaux
21 2286.7926 ou 3285.8687
claudia@cwea.com.br / beatriz@cwea.com.br
“É possível dividir o filme de diversas maneiras. A mais tradicional é usar Johnny Depp como ponto de análise. Há as partes com Depp e há o resto. O diretor Gore Verbinski disse que dessa vez não queria o ator como a atração principal e iria apostar nos efeitos especiais. A promessa foi cumprida”.
Espera.
Essa foi a crítica do filme anterior, Piratas do Caribe: O baú da morte. Mas se aplica também a Piratas do Caribe: No Fim do Mundo, sem grandes ressalvas. Em time que está ganhando não se mexe, diriam os produtores, principalmente quando o time enche os cofres do estúdio.
Piratas 3 é o mais caro da trilogia. O primeiro custou US$140 milhões e arrecadou US$654, rendendo ainda uma indicação ao Oscar de melhor ator para Johnny Depp. O segundo subiu ambas as cifras. Custou US$225 e arrecadou nada menos que US$1.066.200 bilhão, um retorno sobre investimento considerável. Nada mais natural que as apostas subissem e os números também. O Fim do Mundo custou US$300 milhões e em 15 dias arrecadou US$635 milhões (para efeito de comparação, o blockbuster Homem-Aranha 3, em um mês, chegou em US$847 milhões).
Pelos números é possível ter também uma idéia dos efeitos especiais. Mas Piratas 3 não tem nenhuma novidade cativante como os esqueletos de Piratas 1 ou os homens-peixe de Piratas 2. Só mais do mesmo, com um toque de exagero e uma promessa de deuses que não se concretiza.
No filme, o entediante Lord Beckett (Tom Hollander) conseguiu o coração de Davy Jones (Bill Nighy). Usando o demônio como arma, ele declara caça a todos os piratas. Morte para todo lado, a situação fica preocupante e eles resolvem convocar a assembléia dos lordes piratas. Tia Dalma (Naomie Harris), que ressuscitou Capitão Barbosa (Geoffrey Rush), parte com ele, Elizabeth (Keira Knightley) e Will Turner (Orlando Bloom) para o mundo dos mortos, terra de Davy Jones, para resgatar Jack Sparrow (J. Depp), um desses lordes. Com o desenrolar da história, o espectador descobre que cada um tinha um motivo diferente para o resgate, inclusive a feiticeira Dalma. Uns queriam a convocação, outros queriam se dar bem e alguns queriam resgatar dívidas com o passado, aproveitando para uma suposta vingança. Quase morrer por amor ao Capitão Jack, só mesmo os piratas coadjuvantes, engraçados como sempre. Disso nascem diversas viradas de trama e traições que remetem ao lado bom de Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. O roteiro, melhor amarrado que o segundo, fecha as tramas que ficaram em aberto em O baú da morte e explica as invencionices do próprio filme. Se navios piratas disparando canhões nunca fizeram a alegria do espectador, as lutas de espada são bem eficientes.
Sobre as atuações, a atração principal continua sendo Johnny Depp, que aparece bem mais do que no filme anterior. O lado soturno de Jack Sparrow em O baú da morte foi deixado de lado, restando só os trejeitos e a loucura. Geoffrey Rush também não decepciona. Apesar de ter escolhido uma persona caricata de pirata, é um ator de talento indubitável. Orlando Bloom e Keira Knightley mantêm as péssimas atuações. Algumas cenas com os dois chegam a ser constrangedoras. Bill Nighy, que passa o filme inteiro maquiado, consegue se expressar mais com os olhos do que os dois atores com o corpo inteiro. Considerados defeitos e qualidades, Piratas do Caribe: No fim do mundo se sai bem. É a velha fórmula dos filmes-pipoca: pouco cérebro, cenas de ação e piadas espalhadas. E que ninguém duvide do beijo da mocinha e do mocinho no final. Quem se divertiu um mínimo com os anteriores pode ver sem sustos o final da trama que colocou Gore Verbinski no hall da fama de Hollywood.
Se você é um espectador paciente, depois dos créditos há uma cena bônus. Se não é, vá embora sem peso na consciência e veja no DVD.
Assim como em Homem-Aranha 3, as conversas para uma quarta parte são inevitáveis. Verbinski, entretanto, disse que irá dirigir a trilogia de Príncipe da Pérsia, baseada no antigo jogo de computador, e que ainda não há planos para Piratas 4.
Vídeo pode fazer o que faz a poesia, desprezar o cognitivo, o racional, e ir para o estético sem essa passagem, tão cara a nós, ocidentais formados no iluminismo. Não mais relações sintáticas, lógicas, seqüenciais, mas abrangências informais e analógicas, livres, destinadas a causar uma resposta não exprimível em frases de sujeito, verbo e predicado, esta outra linguagem, cujas seqüências não são livres, mas causais.
Foi o que eu esperava ver na edição do grupo Laisle da Galeria Novembro (RJ), o LaisleNonStop.
E foi o que eu não vi. Há um tema que se repete, proposital ou inadvertidamente. É o do artifical ou tecnológico, contraposto a um “natural”, bipolaridade conservadora.
Fernando Alexim mostra um pato enorme, duro na sua imobilidade de metal. É um brinquedo de parque infantil. Atrás dele, árvores se balançam na brisa gentil. Depois, há um escorrega também de aço, uma torneira que pinga lentamente. Alguém passa atrás de uma cortina, em uma janela recortada em meio ao cimento e ferro de tetos de edifícios. Até mesmo um céu com nuvens, visto em paralaxe, tem produzidas duas linhas de luz, duras como se de metal fossem.
Antonella Kurzen filmou uma pomba pousada em frente a uma roda gigante que, esta, “voa” lentamente ao fundo.
Rob Tyler mostra um abridor que abre latas girando-as em círculo, um mesmo movimento de arruelas, engrenagens, estas últimas vertendo óleo, as primeiras, molho que, como sangue, escorre, viscoso.
Há um vídeo em tons do cinza ao negro, cidades por onde passam nuvens de insetos, que depois estão dentro de palácios vazios. Insetos enormes estão sobre os tetos e em volta de um homem sentado. Um peixe cai do céu, chifres nascem de um edifíco e pentelhos em uma pia. O homem luta contra seu ambiente urbano, dando socos inúteis no ar.
Em outro, uma animação faz sair de um “disposal bag”, os sacos de vômito distribuidos em aviões, uma enorme quantidade de objetos de consumo. Uma metáfora não muito original que iguala o excesso de máquinas fotográficas e relógios ao que não nos é possível digerir.
Há outras repetições.
Em todos os trabalhos sobre paisagens, a mesma idéia de animar artificialmente o que se vê produz resultados de eficácia variável. A estrada reta, com cor modificada, que não acaba nunca, é a que mais se aproxima de um pensamento estético, não professoral. Augustine Gimel faz uma animação interessante, ao sobrepor um tempo presente a resíduos de um tempo imediatamente anterior, o da memória. Gerben Kruk faz a mesma coisa com resultado bastante similar. E Akiko Nakamura também. Mas este corta a tela em várias, tanto na vertical quanto na horizontal. Isto, somado às animações e montagens, faz com que sua viagem de trem apresente a mesma simultaneidade de tempos dos nomes anteriores mas com uma riqueza maior de referências e intervisualidades.
A artificialidade versus “naturalidade” também está presente em Alex Hetherington, com um diálogo impossível entre uma mulher e um homem. Dizem frases como “I’m here”, “I wish I had a conversation”. O homem está de cabeça para baixo na tela, o que faz com que eles nunca estejam em um mesmo plano visual. Ambos não são eles mesmos mas fazem um papel, ela de cantora, ele de palhaço. Uma câmera, voltada para o fruidor, o põe na cena, aumentando a incomunicabilidade. Nós, ao sermos instados assim a sair de nossa “realidade”e virar personagens, nada podemos falar aos outros dois.
Sabine Gruffat e Fernando de La Rocque, apesar de se manterem no tema dominante da exposição, o pensam de forma mais complexa. Ela produz um mar em 3D e faz com que ele se mova a partir de uma música. A água vira pele de um grande dançarino azul. Ele tem seu retrato em close dissolvido em granulação e filtros. Ambos enriquecem o tema ao apontá-lo como falso.
Leonardo Galvão traz um outro tipo de conservadorismo, ao recuperar a metáfora freudiana do ID como sendo o local do animal em nós. Ele faz um jogo com a palavra masturbação/masturba cão. A imagem do cão ocupa o lugar do pênis do modelo masculino que se masturba na tela e, depois, o lugar de sua cabeça. Karen Golan entra em fade in, sai em fade out e, entre um e outro, mastiga a própria língua, também em uma recuperação do corpo como lugar do sentir que nos remete à década de 60 do século passado.
E agora os que usam texto, incluindo os dois curadores da exposição, Érika Fraenkel e Carlo Sansolo. Se até agora os vídeos se posicionaram em graus variados de uma recepção analógica, estes são decididamente lógicos, têm uma mensagem para passar, um recado a dar. Érika Fraenkel estuda a questão do objeto na vida contemporânea e nos informa que “O homem pode se tornar vazio” e que “O objeto é sempre erotizado”. Carlo Sansoro faz uma crítica ao mundo corporativo tecnológico, com pastiches de marquetês como “Com o propósito de expansão de mercados” e palavras como “requerimentos”, “propostas”, que ele junta com outras, íntimas ou cotidianas, como “Do fundo da minha gônada” ou “O que você vai fazer sobre isso? Eu sei o que vou fazer. Eu vou pegar um táxi e voar para casa”. No mesmo grupo dos que ilustram frases vem Joacélio Batista. Ele faz uma montagem de stills animados de um jovem de braguilha aberta sobre cenários urbanos e de periferia. O vídeo abre com a frase-título “Se me queimo no fogo do desejo, por que meus olhos ardem na água?”.
A exposição traz alguns poucos vídeos individualizados em televisões na primeira sala. A grande parte deles está em seqüência em um telão da segunda sala. Estes últimos nem sempre puderam ser identificados com precisão pois a ordem de apresentação, fixada na parede ao lado, não corresponde à ordem de exibição.
Inscrições serão abertas dia 28 de maio e encerradas em 28 de junhoO Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro realiza, pelo segundo ano consecutivo, o Projeto Seleção Brasil em Cena – Concurso de Dramaturgia de 2007, de âmbito nacional. As inscrições estão abertas a partir de 28 de maio e até 28 de junho. O regulamento do concurso bem como fichas de inscrição estão disponíveis no site da instituição (www.bb.com.br/cultura). O objetivo principal do projeto é fomentar a literatura dramática bem como o surgimento de novos dramaturgos, através de leituras dramatizadas de textos inéditos de autores brasileiros, em qualquer categoria. Podem concorrer textos de brasileiros natos ou estrangeiros naturalizados. O primeiro lugar ganha R$ 5 mil e a encenação de seu texto pelo CCBB; o segundo R$ 3 mil e o terceiro R$ 1 mil. O êxito do projeto pode ser mensurado pelos números da edição inaugural. O Projeto Seleção Brasil em Cena – Concurso de Dramaturgia recebeu, em um mês, nada menos que 311 textos de todo o país. Destes, 12 foram eleitos e apresentados a um público de 960 pessoas.
As leituras foram dirigidas por alguns dos mais importantes encenadores do teatro contemporâneo brasileiro – Ivan Sugahara, Stella Miranda, Gilberto Gawronski e Moacir Chaves. Ao longo do processo, 46 atores, indicados por seis renomadas escolas de teatro participaram das leituras, juntamente com dezenas de estagiários em cenotécnica, iluminação e figurinos. O dramaturgo Pedro de Senna, carioca que atualmente vive em Londres, foi o grande vencedor com o texto A tragédia de Ismênia – A princesa de Tebas, concorrendo com Vocês estão com fome?, de Liane dos Santos, O profeta do espanto, de Edmilson dos Santos, GNS, de Walter Coe, Velha é a mãe, de Fábio Porchat, Perfídia quase perfeita, de Carlos Correia Santos, Basílio, o destemido, de César Moura, Última Carta, de Paulinho Faria, Mississipi e Missouris, de Walter Coe, Malzibier e Berimbau, de Éber Inácio. Vale destacar que os textos são analisados sem que os selecionadores saibam o nome dos autores. Sendo assim, um mesmo autor pode concorrer com vários textos.
Os textos selecionados serão lidos pela comissão julgadora – formada por no mínimo quatro e no máximo seis profissionais de artes cênicas – ao longo de três meses. Após a seleção, os textos terão leitura dramatizada no Teatro 2 do CCBB entre 31 de outubro e 16 de dezembro. O voto do público (realizado no verso do ingresso, anonimamente) perfaz 80% da avaliação, e dos diretores responsáveis pela leitura dramatizada os 20% restantes.
Além do prêmio em dinheiro, Pedro de Senna terá a montagem de seu texto realizada pelo CCBB-RJ em novembro de 2007, sob a direção do premiado Moacir Chaves. Foi o mesmo Moacir que dirigiu a leitura dramatizada desse texto no período de seleção e por isso, obedecendo à mecânica do concurso, será o responsável pela montagem. Esse ano, o nome dos jurados será conhecido apenas após a divulgação do resultado no site do www.bb.com.br/cultura, até 120 dias após o término das inscrições.
O texto a ser inscrito no Projeto Seleção Brasil em Cena – Concurso de Dramaturgia deverá ser encaminhado para cadastro no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) à Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro -RJ, Cep. 20010-000, de terça a domingo, no horário das 10h às 18h, ou postados pelos Correios, através de carta simples ou Sedex, com Aviso de Recebimento. Os textos deverão ser inéditos. O primeiro lugar recebe R$ 5 mil e a montagem do seu texto pelo CCBB. O regulamento completo consta do site www.bb.com.br/cultura.
Outros esclarecimentos podem ser obtidos com a coordenação da mostra pelos telefones 21 2547-3315, 21 2547-3221, 21 2547-2145 ou no Centro Cultural Banco do Brasil, telefone 21 3808-2100.
[texto: Mônica Riani, assessoria de imprensa]
Depois de um mês e meio de análises de uma comissão de especialistas, foram anunciadas as organizações contempladas pela edição 2007 do programa Novos Brasis, que apóia iniciativas inovadoras de transformação social através da tecnologia. O montante destinado neste ano será de R$ 1,8 milhão.
No total, oito estados brasileiros estão representados pelos seguintes projetos: Olhar Circular, da ong Saudáveis Subversivos (Alagoas); Jogos Educativos para Informática, do Instituto Certi Amazônia, e Rede Ribeirinha de Comunicação, da ong Mamirauá (Amazônia); Expresso Digital, da ong Instituto de Ecocidadania Juriti (Ceará); Fabriqueta de Software, do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (Minas Gerais); A Bagagem das Mulheres da Floresta, do Conselho Nacional dos Seringueiros (Pará); iTEIA, do Instituto InterCidadania (Pernambuco); Portal Moda Brasil, do Inbracultmode e Oficina Legal, da Ong Projeto Legal (Rio de Janeiro) e Da Floresta para a Cidade, da Cidade para o Mundo – da Hutukara Associação Yanomami , (Roraima).
Este ano todas as ongs contempladas terão, durante 12 meses, um curso de capacitação à distância realizado pelo Instituto Hartmann Regueira, de Minas Gerais: o PDG.org (Programa de Desenvolvimento em Gestão para Organizações de Terceiro Setor-on-line). Os projetos selecionados têm como foco principal o desenvolvimento de soluções sociais em comunidades vulneráveis, beneficiando crianças e jovens. As iniciativas também têm a possibilidade de serem replicadas em outras localidades.
Desde 2004, o programa Novos Brasis já investiu cerca de R$ 4 milhões, beneficiando mais de 30 mil pessoas através dos mais de 50 projetos que já se tornaram realidade. “Por meio do programa o Oi Futuro busca contribuir para fazer a diferença na vida de milhares de pessoas que passam a ter acesso ao conhecimento de forma mais rápida e autônoma”, revela Samara Werner, diretora de projetos do instituto. “A construção de tecnologias sociais é uma das metas. Educação à distância, produção de software, o uso social do celular e a formação e fortalecimento de redes de conhecimento são exemplos de projetos a serem apoiados”, completa.
O edital foi aberto a organizações do Terceiro Setor e outros perfis de instituições sem fins lucrativos. Após a seleção, o Oi Futuro acompanha a implantação de cada iniciativa, através do auxílio na gestão e na avaliação do impacto das atividades. Por apostar no desenvolvimento de soluções sociais, o Novos Brasis dispõe, ainda, de uma rede virtual de relacionamento, focada na troca de experiência entre os parceiros. “Além disto, também promovemos um encontro anual onde os integrantes de todas as organizações se conhecem pessoalmente e iniciam conversas para parcerias concretas”, lembra a diretora.
[texto: Marcio Batista, Comunicação Corporativa - Oi]
Começou hoje no Oi Futuro a expofoto Recortes da Inquieta Retina. São fotografias projetadas na parede defronte ao simpático café do último andar. Todos os fotógrafos foram orientados pelo Walter Firmo, em momentos diferentes. A linha narrativa é clara, objetiva e com forte preocupação pela composição.
As fotografias, de uma forma geral, perdem muito na projeção. São fotografias que usam e abusam do chiaroscuro e o ambiente claro e movimentado prejudica a fruição. A movimentação excessiva do slideshow da projeção também fere as imagens. É tanto recorte, zoom e entradas ?dinâmicas? que o espectador precisa de um esforço extra para conseguir ver, de fato, as fotografias.
O grupo, formado por Jayme Plotkowski, Luiz Carlos Lopes, Nilton de Moraes Filho e Sergio Povoa, tem uma força incomum na fotografia contemporânea através do cuidado com a composição e a tonalidade, sem se perder em seus próprios grafismos.
Felizmente a exposição também pode ser vista online, no endereço www.oifuturo.org.br/expofoto, sem as pessoas passando na frente ou o grupo barulhento que insiste em debater amenidades enquanto você está lá tentando apreciar as fotografias.
“Recortes da Inquieta Retina”
Curadoria: Pedro Agilson
Projeção de trabalhos dos fotógrafos Jayme Plotkowski, Luiz Carlos Lopes, Nilton de Moraes Filho e Sergio Povoa
Exposição: 5 de junho a 31 de julho
Oi Futuro
Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Nível 8 – (21) 3131-3060
Classificação etária livre / Entrada Franca
Terça a domingo, das 11h às 20h.
CORPUS CHRISTI
Segundo minha memória infantil, somada a dados colhidos na wikipédia o feriado de Corpus Christi é um festa da Igreja Católica que “celebra a presença de Cristo na Eucaristia” que se realiza na “quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade“.
As procissões pelas ruas da cidade fazem parte do Código Canônico (art. 944) que determina ao Bispo diocesano que a providencie, onde for possível, “para testemunhar publicamente a veneração para com a santíssima Eucaristia, principalmente na solenidade do Corpo e Sangue de Cristo“.
No Brasil assumiu um caráter amplo pela sociedade e já se caracteriza como festa popular, além do aspecto religioso.
A Revista Digital Art& gostaria de mostrar como essa festa acontece nos lugares mais diversos do Brasil.
Os “tapetes” feitos com os mais diversos materias, nas ruas por onde a procissão passa, são verdadeiras obras de arte. Assim, se na sua cidade existe a tradição, e os tapetes são feitos, que tal fotografa-los e mandar prá gente?
Orientações para participar:
- Envie sua foto digital, como anexo único, até 15 de junho, para o e-mail editor@revista.art.br,
- As fotos devem ser nos formatos JPG ou GIF, de até 500kb,
- No corpo do e-mail, escreva o nome completo do autor da foto, CPF, telefone de contato, nome do lugar onde a foto foi tirada e a data em que foi feita,
- Menores de idade devem enviar o nome e CPF dos pais ou responsáveis no mesmo e-mail.
- No e-mail também deve estar identificado se o autor da foto é amador ou profissional de fotografia,
- Só será aceita uma foto por participante.
- A Revista Digital Art& não se responsabiliza por problemas legais de direito autoral das imagens, sendo que o envio identificado significa que o autor do e-mail assume a autoria da fotografia.
TODAS AS FOTOS RECEBIDAS, QUE ATENDEREM AOS REQUISITOS DESCRITOS ACIMA, SERÃO PUBLICADAS, IDENTIFICADAS, NA REVISTA NO DIA 20 DE JUNHO
Depois da publicação, por votação direta e aberta dos visitantes do site www.revista.art.br, até dia 30 de junho, a foto considerada a melhor, vai receber de presente uma camiseta da Revista Digital Art&!
ATENÇÃO: O objetivo principal do evento é o de divulgar a festa e as manifestações culturais e artísticas populares do nosso povo e, desta forma, NÃO tem caráter comercial nem religioso e NÃO remunera financeiramente seus participantes em nenhuma hipótese. Nenhuma das fotos será usada pela revista para qualquer fim além deste evento.
Ao enviar sua imagem para participar o autor assume conhecer o regulamento e concordar com ele.
Vamos participar?
Father and Daughter é uma animação de Michael Dudok de Wit (Le Moine et le poisson, Tom Sweep e The Aroma of Tea). Com forte presença do preto, do branco e do sépia, o curta tem um visual noir que remete ao psicológico por trás das imagens, ambiência pura. A trilha sonora também é feita sob-medida, pensada para que os sentimentos extrapolem a imagem. Ao contrário de Le moine et le poisson, F&D traz um cenário vivo que se exprime em pequenos movimentos e sutilezas, assim como a personagem principal. O movimento não é cômico, os traços não são arredondados, a preocupação é com o interno e não com o externo.
O curta mostra pai e filha andando de bicicleta por uma alameda. No fim desse caminho, o pai pega um barco e segue pelo mar. A filha vai para casa sozinha. Dia após dia, ela pega a bicicleta e visita o local de onde o pai foi embora. Em princípio, parece aguardar o seu retorno. Passa alguns instantes lá, mais ou menos pensativa, e se vai. Acompanhamos a criança virar adolescente, passear com amigas, quase adulta aparecer de motocicleta, casada, com marido e filho e enfim, uma velha novamente na bicicleta. O cenário marca a passagem das estações, lua e lanterna assumem o papel de faróis costeiros. Há sempre algo de tristeza no ar, do desejo que não se realiza.
A grande sacada está no uso de uma convenção técnica simples. A esquerda, na maioria das vezes, é o ponto de partida e a direita, o de chegada. Um carro ou barco costuma chegar da esquerda para a direita e partir da direita para a esquerda. A menina de Father and Daughter leva o pai até a beira do mar, eles surgem pela direita da tela, o mar está na esquerda. Dudok com isso marca ali no remanso o ponto principal para a menina, o seu farol. Ela não vai ao mar e volta para casa. Ela vai para a casa e volta para o mar. Todo dia, é ali que ela deve estar. Quando finalmente velha ela decide encarar o mar e reencontrar o pai, a menina não está indo embora, mas voltando para algum lugar, voltando para os braços do pai, encarando a água, eterno símbolo da morte. O cuidado com essa idéia é tanto, que mesmo as sombras se invertem. No lado “vivo”, as sombras estão sempre para frente, do outro lado do mar, onde encontra o barquinho encalhado na areia e volta a ser criança, sua sombra é projetada para trás.
Os trabalhos de Michael Dudok sempre flertam com a idéia da morte. Sempre buscando novos caminhos, fica como ponto em comum a máxima de que na tela, as palavras são desnecessárias.
Father and Daughter ganhou 20 prêmios, inclusive o Oscar de melhor curta de animação.
youtubes:
Father and Daughter
Le moine et le poisson
The Aroma of Tea
A artista e estudiosa das Artes paulistana Edith Derdyk, formada em artes plásticas e autora de livros sobre ensino de arte consagrados na área, participa com duas produções no Projeto Octógono de Arte Contemporânea, iniciada dia 26, na Pinacoteca do Estado.
Edith tem um vasto histórico como artista plástica já tendo participado de diversas mostras individuais em lugares como Centro Universitário Maria Antônia, Paço das Artes, Centro Cultural São Paulo, MASP e a Pinacoteca do Estado.
Nessa exibição a artista apresenta uma instalação, de nome “Onda Seca”, que é formada por um conjunto de 28800 folhas de papel empilhadas no chão do Octógono alcançando alturas variáveis de 1,5m a 10cm, numa extensão de 10m.
Também faz parte da mostra o vídeo “Folha a Folha”, em parceria com Raimo Benedetti, que mostra muitas folhas de papéis brancos desfolhando, uma a uma, com movimentos mínimos de mãos invisíveis.
No dia 26 também foi lançado o livro Desenhos, novo trabalho da artista, que apresenta o percurso de Edith Derdyk tendo o desenho de seus projetos e textos como condutor e protagonista do pensamento construtivo de sua poética.
Outros Livros da Artista:
Ora Bolas, com Pauo Tatit. Cosac&Naif, 2005.
Formas de Pensar o Desenho, Scipione, 2003.
Rato, com Paulo Tatit, Cosac&Naih, 2003.
Linha de Horizonte, Escuta, 2001.
Linha de Costura, Iluminuras, 1997.
O Desenho da Figura Humana, Scipione, 1990.
Num típico apartamento de homem solteiro, com colchão pelo chão, sofá velho, geladeira de segunda mão, o indefectível aparelho de TV, revistas de História em Quadrinhos, LPs e muita cerveja em lata, se passa a ação de Diário das Crianças do Velho Quarteirão. Jaime, seu único habitante, é um músico, amante do jazz e do blues, enojado da civilização, que gasta suas horas consumindo cerveja, vendo repetidas vezes o filme Bird, listando as coisas de que gosta e de que não gosta, em companhia do amigo Álvaro, desenhista, leitor voraz de histórias em quadrinhos, fã absoluto de A Morte do Superman, que ele considera seu Os Irmãos Karamazov.
Os dois – como as duplas cômicas – se equilibram nos papéis que criaram e aceitaram para si mesmos: os de esperto e de otário; de tenso e de desengonçado. O papo de ambos, com uma linguagem povoada de palavrões, percorre os assuntos mais variados: ao mesmo tempo em que citam Baudelaire, Walter Benjamin, William Blake, confessam suas experiências sexuais, criticam a sociedade consumista e revelam seus hábitos amorais ou pseudo-chocantes (tanto da sociedade quanto deles próprios). Jaime diverte-se atirando da janela, sem alvo certo. Embora prefira os motoqueiros playboys ou as burguesinhas lolitas como vítimas. Mas se seu revólver é de brinquedo, isso é ainda mais revelador. Jaime se compraz em firmar a imagem de herói rebelde para o convenientemente ingênuo Álvaro. A convivência, nem sempre pacífica, de ambos será abalada pela presença de Tatiana, jovem lânguida, pouco informada, compulsiva sexualmente, que se delicia com o seu próprio estereótipo, e que chega para formar o clássico triângulo amoroso.
O texto de Mario Bortolotto é composto de cenas dialógicas e de seis solilóquios confessionais (dois para cada personagem), escritos sempre num filtro poético, intenso, ferino, recheado de imagens urbanas impactantes (ou que talvez já não provoquem tanto impacto, dada a nossa surdez para qualquer nível de estímulo). A cidade está em colapso, as relações pessoais estão vazias, os dois rapazes não sabem como tornar significativas suas vidas desperdiçadas. Estão à espera de um milagre. E ele vem. Ou talvez sua esperança seja tão grande que eles imaginem ver em Tatiana a resposta às suas expectativas. E os dois amigos apaixonam-se por ela, cada um ao seu modo. Seria o amor este elemento redentor, que é a possibilidade de atenuar a angústia e a solidão terrestre, ou é mais uma ilusão, mais uma armadilha do velho quarteirão? Quanto tempo durará o paraíso anunciado?
O texto de Mario Bortolotto tem um traço peculiar: apesar de antenado com as mazelas pós-modernas de nossa sociedade, busca inspiração estética e estilística em escolas que se destacaram no século XIX – a romântica e a naturalista. Do romantismo, ele capta a busca constante da arte pelo ideal, os desabafos poéticos, a idolatria de heróis rebeldes, o amor e a liberdade como temas, a decepção com os ideais naufragados por uma sociedade cada vez mais materialista, o homem divorciado da natureza, a fuga para o vício – a bebida, o sexo, a droga, em busca de um consolo que a fé nas ideologias não traz mais. Do naturalismo, herda a cenografia, as personagens desagradáveis influenciadas pelo meio, o tempo esgotado em conversas banais, o diálogo prosaico e muitas vezes repleto de palavrões, o efeito “buraco da fechadura” por onde a platéia observa o que não deveria, a obra como “fatia da vida”, a busca de pequenos paliativos para o vazio e o tédio, o respeito às unidades de tempo, espaço e ação.
A dramaturgia de Mario Bortolotto expõe poeticamente a ferida de nossa monotonia pós-orgia. O que fazer depois de terem sido percorridos todos os signos, prazeres, ideologias, mensagens? Jean Baudrillard – sociólogo francês recém-falecido – acredita que agora “só podemos simular a orgia e a liberação, fingir que prosseguimos acelerando, mas na realidade aceleramos no vácuo, (…) e o que nos preocupa, nos atormenta é essa antecipação de todos os resultados, a disponibilidade de todos os signos, formas, desejos”. O tédio domina as relações e o dia-a-dia dessas personagens, e não é equivocado reconhecermos alguma semelhança com a dramaturgia tchekhoviana, claro que num panorama histórico-sócio-econômico muito distinto. Como as personagens russas da virada do século XIX para o XX, as criações de Bortolotto também se arrastam num tédio infinito, desperdiçam sua vitalidade jogando conversa fora, trabalham sem muita crença no futuro e buscam suprir o vácuo que lhes oprime através de pseudo-relações amorosas. A covardia e o orgulho ferido dos anti-heróis, as pequenas traições, os monólogos paralelos, a fuga na bebida ou na literatura, os desabafos que ninguém ouve, a decepção com a raça humana, a repetição de ações pouco produtivas, como ler ou assistir diversas vezes a mesma revista ou o mesmo filme – está tudo aí, nesse Diário das Crianças do Velho Quarteirão. Somados a esses elementos, outros bem peculiares da obra de Bortolotto e da nossa época: a ironia, o cinismo, a descrença em todos os discursos, as relações masturbatórias, a voracidade feminina que atemoriza o macho, o uso debochado dos clichês contemporâneos, o nojo, a extrema solidão – ainda mais acentuada nas megalópoles.
Geralmente, Bortolotto trabalha com sua própria companhia em São Paulo, tendo se destacado como um dos dramaturgos contemporâneos mais reconhecidos no circuito off. Essa atual montagem, Bortolotto dirigiu a convite da Cia. Livre de Teatro, de Cadu Fávero e Luisa Thiré. Sua encenação é simples, destacando as relações pessoais, os conflitos contemporâneos do trio em cena, abrindo espaço para a carga poética da peça ao preocupar-se com a agilidade e concretude de seu texto na boca dos atores. Ao mesmo tempo, não abandona o seu costumeiro naturalismo tardio. Assistimos ao espetáculo, quase como se fosse pelo buraco da fechadura. No naturalismo do século XIX erguia-se a quarta parede entre atores e público e ela não podia ser rompida. A cena voltava-se para dentro e os espectadores assistiam supostamente a uma intimidade à qual não foram convidados. Aqui não, é uma pseudo-quarta parede que se ergue. As personagens parecem simular que não estão sendo vistas, mas conscientes de um olhar invasor, da possibilidade de estarem sendo filmadas por alguma câmera oculta. O que as leva a fazer poses e representar papéis, em sua maior parte, estereotipados. Não há solidão possível. E ao mesmo tempo, é tudo de uma aberrante solitude. Em determinado momento, Jaime pergunta: “Já dirigiu na chuva, sem ter ninguém pra conversar?”. É sintética e tocante a imagem da solidão das grandes cidades criada por Bortolotto. Em outro momento, Jaime diz ser preferível a masturbação a uma relação sexual sem cumplicidade. Sintoma, na verdade, de que quase todas as relações sexuais hoje são masturbatórias, são a negação da presença do outro. Está explicitada na obra de Bortolotto uma grande monotonia do sexo compulsivo e talvez uma busca neo-romântica pelo parceiro ideal. Infrutífera, talvez. O saldo final do espetáculo é positivo, embora já pareça haver certo esgotamento na estética e nas “rebeldias” de Bortolotto. Mas não podemos deixar de reconhecer o valor desse fértil autor de mais de sessenta peças. É normal que diante de produção tão veloz haja saturação de alguns temas e obsessões. Mas sua crítica e seu sarcasmo são sempre bem vindos.
O elenco se sai bem. Cadu Fávero se apropria do texto, com grande domínio das palavras, equilibrando as pausas, a respiração, a suspensão da tensão, tendo grande autoridade sobre o que está fazendo e em sintonia com o público e seus parceiros de cena. Imprime humor na dose certa, não sublinhando demais e não desperdiçando nenhuma oportunidade que o texto oferece. Empresta contradição e humanidade à personagem, tanto nos momentos mais densos quanto nos mais leves. Um ótimo desempenho. Priscila Assum compõe uma Tatiana estereotipada, mas não por falha da atriz, e sim porque a própria personagem se enxerga como estereótipo, e age assim. Mesmo quando a personagem deixa de ser tratada como vaca pelos dois machos em cena, Tatiana não consegue despir sua máscara de fêmea emancipada e sexualizada. Em resposta ao “eu te amo” duplo que recebe, ela reage como uma cadela no cio. É bom o equilíbrio entre o texto de Bortolotto, com sua crítica mordaz, e a interpretação da atriz, que legitima essa visão, humanizando-a. O único senão está num dos depoimentos de Tatiana, ao querer justificar comportamento compulsivo da personagem. Talvez fosse melhor que esse excesso sexual não tivesse causas tão visíveis e compreensíveis para a própria agente. Jorge Neves compõe um Álvaro inquieto, falastrão, empolgado com seu universo pessoal. O ator transpõe bem o obstáculo de fazer uma composição estereotipada, e a personagem ganha certa ambigüidade, deixando-nos em dúvida em relação à consciência que tem de seus próprios atos e de quanto poderia ter evitado suas pequenas traições.
A cenografia e o figurino de Pedro Sayad dialogam bem com o espetáculo, no sentido de se estabelecer como não-cenário e não-figurino, como se o que vemos em cena não fosse escolha de um artista, mas efeitos do acaso, surpreendidos pela visita do espectador, e que as personagens se vestem como a própria platéia, sem lente embelezadora ou estética. É uma tentativa de se anular como elemento teatral. Funcional para o tipo de espetáculo e para o universo do autor. A trilha sonora do próprio Mario Bortolotto acompanha o bom gosto musical dos dois personagens masculinos. Cria ambiência contraditória para a vida desmotivada em cena. Ótima vela para maus defuntos. A iluminação de Cadu Fávero é também simples, mas pessoal.
Em relação ao título da obra de Bortolotto, em determinado momento uma das personagens diz: “nosso quarteirão é nosso mundo”. O “velho” como adjetivo indica a antiguidade desse território, principalmente no âmbito moral, em seu viciado jogo de criar esperanças e ideais que nos guiam na infância para depois serem desmentidos na maturidade, gerando adultos mal-humorados, decepcionados, que buscam consolo onde não o encontram – no sexo compulsivo, nos vícios, na solidariedade do outro. As “crianças” do título parecem indicar que aquelas personagens ainda crêem nos ideais ou, pelo menos, têm no seu íntimo uma leve esperança de que possam ser cumpridos, mesmo que o velho quarteirão não seja o lugar ideal para isso. Apesar de Jaime declarar que “já nasceu velho”, essa é a doce ilusão com a qual ele se defende e a única arma que lhe parece legítima para enfrentar um velho mundo: enojar-se dele e encará-lo como um livro lido, do qual já conhece suas tramas, seu enredo, seu desfecho – artifício que Tatiana vem mostrar ser falso, ao desequilibrar o terreno com a possibilidade do amor. Essas “crianças” do título também comprovam nossa ausência de culpa e de responsabilidade. Segundo Friedrich Dürrenmatt, dramaturgo e pensador suíço, “nessa comédia de vaudeville de nosso século, nesse recuo da raça branca, não há mais culpas, nem há, tampouco, homens responsáveis. Sempre se repete ‘não pude fazer nada’ e ‘a verdade é que eu não queria que isso acontecesse’. E a verdade é que as coisas acontecem sem que ninguém, em particular, seja responsável por elas. Tudo é arrastado à força e todo mundo acaba colhido em algum lugar pela varredura dos acontecimentos. Somos todos culpados coletivamente, coletivamente empantanados nos pecados de nossos pais e de nossos antepassados. Somos descendentes de crianças. Essa a nossa desgraça e não nossa culpa. (…) A única coisa compatível conosco é a comédia”. O “diário” de Bortolotto comprova ainda que nossa tragicomédia se dá dia-a-dia, é nesse cotidiano surgir do sol e da lua que temos que equilibrar a criança dentro de nós com o velho quarteirão onde habitamos. E como melhorar nosso humor nas grandes capitais? Bortolotto se pergunta. E nós intimamente buscamos a resposta.
Depeche Mode, U2 e Michael Jackson já beberam na fonte. Agora é a vez do Garbage aderir ao formato 18-hits e lançar sua primeira coletânea – Absolutely Garbage. O grupo liderado por Shirley Manson surgiu com força total em 1995, com um rock ligeiramente puxado pro punk e com influências de trip-hop. Only happy when it rains foi sucesso imediato, inclusive no Brasil, a começar pelo título engraçadinho. A ruiva dissimulada de sombra negra transitava bem pelo visual pop e o glam, cantando muito. Foi fácil conquistar o público em uma época em que o punk rock havia varrido o pop das rádios. Composto por produtores musicais, o Garbage tinha qualidade, fugindo do som clichê dos anos 90 com criatividade. Stupid Girl, que explorava o cenário alternativo, foi mais um hit de fãs do que rádio, mas ajudou a compor a identidade musical do grupo. “You pretend youre high / You pretend youre bored / You pretend youre anything / Just to be adored”, dizia a letra. Nos extremos dos estilos vieram Queer, de essência mais pesada, e Milk, o lado eletrônico viajante, ambas bem recebidas.
Nessa época, Portishead começava a brilhar e Massive Attack (o maior símbolo do trip-hop) já tinha um cd incrível, chamado Protection, sucesso na Inglaterra. Houve então uma pressão silenciosa para que o grupo abrandasse o lado rock e assumisse a verve trip-hop com que flertava. Repentinamente, todos tinham virados fãs da sonoridade. Só que o Garbage fez exatamente o inverso. Version 2.0 saiu três anos depois muito mais pop, querendo ganhar espaço. O Garbage mostrou serviço com Push it, deixando claro que a eletrônica e o rock conviveriam em harmonia no seu trabalho. Foi o maior hit do cd e o clipe concorreu a vários prêmios na MTV. Dessa época, se destacam Special, dançante com clipe estilo videogame, e You look so fine, refinando o mix de estilos do grupo. Para coroar a boa fase, o Garbage foi chamado para fazer o tema de James Bond, talvez um dos melhores. A música explorava com louvor a potência vocal de Shirley Manson e a capacidade de Vig, Erikson e Marker construírem um clima apoteótico para os acordes. The world is not enough era indiscutivelmente um hit, do tipo que agrada gregos e troianos.
Disposto a fugir da fórmula, o Garbage mudou radicalmente em Beautiful Garbage, mas a jogada não deu certo. O cd foi um equívoco total. Esse sim, no ano de 2001, parecia preso à sonoridade da década de 90. O maior impacto, porém, veio do visual de Shirley Manson, que abandonou os cabelos ruivos longos e adotou um loiro curtinho, estilo Madonna e Paula Toller nos anos oitenta. Nem os fãs nem os críticos apoiaram a guinada. Androgyny (o primeiro single) foi um fracasso. Por sorte, o grupo tinha boas cartas na manga e se recuperou com Cherry Lips, um resumo de tudo o que o grupo tinha experimentado até o momento e um dos grandes sucessos da sua história. As músicas seguintes foram tradicionais, daquelas que não arriscam. Shut Your Mouth (excelente) e Breaking up the girl quase fizeram a mídia esquecer o restante pitoresco do cd.
Quase. Bleed Like Me, o trabalho seguinte, foi um cd cantado como um retorno às origens rock. Bem melhor que o anterior, não decolou em vendas, mas trouxe boas músicas e alívio. Why do you love e Bleed like me eram tudo que um fã do grupo podia querer. A primeira, rock rápido e eficiente. A segunda, o estilo de balada sombria que só o Garbage sabe fazer.
Absolutely Garbage vem com a inédita Tell Me Where It Hurts, que será lançada dia 9 de julho. Agora é esperar seu efeito para saber se Absolutely é a primeira coletânea do Garbage ou se será a última.
O cd terá também uma versão dupla, com 14 remixes. Androgyny e Breaking up the girl só aparecem por lá, retrabalhadas por Neptunes e Timo Mass, respectivamente. Ele conta ainda com a música Bad Boyfriend.
Se você não é fã de coletânea mais ficou interessado, confira Garbage (1995) e Bleed Like me (2005), e compre a inédita no e-musica.
Um truque de quem escreve narrativas é fazer com que surpresas e tensões sejam sempre anunciadas antes, em descrições anódinas, para que o leitor não perceba a literalidade ou a possibilidade oculta daquilo que está sob seus olhos, e depois veja que o desenrolar da história se sustenta, é filho de, integrado mesmo, às circunstâncias anunciadas. Assim, a coisa segue com naturalidade e o que vem à cabeça é um “é como as coisas acontecem”.
Gabriela Maciel faz esculturas que mostram como as narrativas são feitas. Usa, para isso, aquelas telas de plástico que edifícios em construção têm estendidas em suas fachadas, à guisa de proteção para pedestres, disfarce para o que está sendo feito.
As telas são furadas, por elas perpassam ar e olhos. E som.
Na galeria de Laura Marsiaj, as telas, enroladas e desenroladas, têm sua trama – nos dois sentidos, o literário e o fabril – disposta pelo chão, com os nós das tensões, os desvios e prolongamentos existentes em qualquer história. Você pode modificá-los, trata-se de uma história aberta, daquele tipo em que o leitor participa, decidindo-se por esta ou aquela hipótese, todas viáveis.
O que Gabriela Maciel diz aqui é que as linguagens se aproximam nessa nossa contemporaneidade sem categorizações. Sua exposição é uma escultura, perfomance, a imagem de um som. E estrutura de novela (novelo).
A etimologia da palavra alegoria é alla agoreuein, e quer dizer dizer algo diferente, ou dizer a mesma coisa de forma diferente. Com a virtuosidade da ilusão da representação há muito perdida, há aqui uma ilusão tão potente quanto a antiga: faça o teste, comece em um dos grandes nós brancos, apoiados na parede e siga, pondo nesse caminho um enredo de sua escolha, sem perder de vista a tridimensionalidade/intertextualidade da sua história, que se imbrica com outras, de outros conteúdos, e com o passado distante que está, como os passados distantes estão sempre, tanto na tradição da pintura e da literatura, envoltos na cor azulada do horizonte. Os nós e seguimentos azuis estão mais ao fundo para quem entra.
Siga a linha da trama, modifique-a, aqui houve um susto em um momento, seguido de outro logo depois, e vá. Chegará na falsa veritas da ficção – feita de palavra ou imagem.
Palavras escritas em obras de arte visual – desde assinaturas a títulos e inscrições – têm sua materialidade dentro da obra e sua extensão significativa para além da obra apreendidas ao mesmo tempo. Trata-se de uma escritura, um fragmento de discurso, sem origem determinável de imediato, que absorve e rejeita uma hermenêutica fechada. Aqui nessas esculturas/novelas, a virtualidade de uma frase e a imagem que ela teria, o signo e o material, uma tela de construção, não se opõem, mas se integram, difícil dizer onde uma, onde outra.
É você quem escolhe a música que quer ouvir durante a criação. E o título da mostra é Move. De mover-se e mover o que está lá. A veritas, nem um pouco falsa, é que a linguagem artística é capaz de representar uma verdade, a de como nos construimos e ao mundo.
No último dia 14 de maio o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, anunciou o lançamento dos editais de Fomento à Cultura nas áreas de Música, Teatro, Dança, Circo e Artes Visuais. Estavam ainda presentes na entrevista o presidente da Fundação Nacional de Arte (Funarte), Celso Frateschi, acompanhado dos diretores Pedro Braz (executivo) e Xico Chaves (Centro de Artes Visuais), Pedro Muller (Centro de Música) e Hélvio Tamoio (Centro de Programas Integrados); o secretário executivo do MinC, Juca Ferreira e a gerente de Patrocínios da Petrobras, Eliane Costa. A Petrobras é a empresa patrocinadora da maioria dos programas anunciados.
O ministro destacou sobre a importância do patrocínio da Petrobras (R$ 22 milhões) dizendo que: “Este valor, em aporte direto para programas culturais, representa algo vultoso” e afirmando, ainda, que o modo como os editais foram desenvolvidos “expressa a continuidade aperfeiçoada da política de distribuição de recursos públicos, num modelo democrático de seleção pública” e que esse modo democrático consolida a “marca registrada” do Ministério da Cultura no Governo Lula.
O Presidente da Funarte, Celso Frateschi, complementou as informações a respeito dos editais, informando que a atual gestão da Funarte decidiu que, a partir deste ano, haverá comissões estaduais, julgadoras dos programas. Em sua fala, Celso Frateschi disse que: “O mérito não deixará de ser o critério fundamental para a seleção, mas vamos levar critérios diferentes a estados que têm realidades distintas. Além da demanda natural de cada estado, é importante que o Ministério provoque essa descentralização, fomentando o desenvolvimento da criatividade“.
A parceria entre o Ministério da Cultura e a Petrobras foi a ênfase da fala de Eliane Costa que afirmou serem parte de “um conjunto estruturante de projetos que envolve a parceria extraordinária” entre a empresa e o Ministério.
No mesmo evento também foi anunciado o edital da 30ª edição do Projeto Pixinguinha que, nesta edição especial de comemoração de aniversário do projeto, terá curadoria e consultoria de Hermínio Bello de Carvalho, seu criador.
Para conhecer os editais:
A expressão preto no branco tem sempre uma entonação meio autoritária, masculina. Por trás de sua aparente chamada por clareza, simplicidade, está uma semiologia de cores. O preto do preto no branco é preto porque seriam as letras de uma comunicação na qual não pairam dúvidas, e o branco é o do papel. Mas preto é também a cor da morte e, por sinédoque, a cor de quem tem o poder de infligi-la.
Não é preciso dizer que o branco é a cor da virgindade, da vitimização deste poder.
Ao mesmo tempo, tanto uma cor quanto a outra trazem, em sua ausência de tonalidades, a noção de um ocultamento de autoria, uma impessoalidade. Ausência de tonalidades porque o preto é, em princípio, preto total, idem para o branco. Qualquer quebra deste absoluto e estaremos no cinza, uma outra cor. E impessoalidade porque não há vestígios individuais em tais registros, já que não há nuance. Assim, trata-se de um poder ainda em grau maior, porque exercido atrás do conforto e segurança de uma invisibilidade. Uma tautologia: o preto no branco exigido para maior clareza é o mesmo preto no branco da ilegibilidade, opacidade, ocultação.
Quanto ao branco, a ausência de individuação também reforça o poder do preto, já que seu poder é exercido indiscriminadamente, em uma abrangência cega de alvos.
E aí você pega o preto no branco, amassa, faz uma bolinha e joga fora.
Cinthia Marcelle, em exposição na Box 4 (RJ), fez várias bolinhas. Sua exposição é uma montanha de bolinhas de papel que enche todo o exígüo espaço da galeria.
Na parede, o vídeo de uma de suas outras instalações.
Os papéis amassados e empilhados são em sua maioria brancos e integram-se às paredes também brancas.
Há, é claro, a idéia óbvia de uma linguagem em crise, a da escrita, a idéia de leis/parâmetros sociais também em crise, e de uma mídia – a impressa – tão lenta quanto o fazer uma bolinha caprichada, redondinha, com ela.
Mas enriquece pensar que junto com esse lixo todo cai também um autoritarismo, ainda que metonímico.
Galeria Box 4
Rua Teixeira de Melo 53, Ipanema
Rio de Janeiro – RJ
(21_ 2247-8809
Aguarrás TV entrevista

MARCELO MOUTINHO
www.marcelomoutinho.com.br
Assista, divulgue, cole no seu blog!
entrevista: ELVIRA VIGNA e ERIC NOVELLO
câmera 1 e direção: ERIC NOVELLO
câmera 2 e stills: DAVID LEHMANN
edição: CAROLINA VIGNA-MARÚ
versão e legendas: ESTADO DA ARTE – www.estadoarte.com.br
Que você fala porque não consegue suportar a imensidão do silêncio é uma idéia que pode tropeçar no misticismo. Não é à toa que práticas religiosas incluem silêncios obrigatórios como uma das condições para que se escute a palavra do deus. Há aí uma noção temporal: primeiro, no “início”, haveria um silêncio, e depois, surgiria a palavra, sendo que a do deus é a primeira, mais completa, verdadeira, abrangendo todas as outras. Ou seja, o deus é o dono de um silêncio total que ele pode ou não quebrar e é a partir daí, em um segundo momento, que reproduziríamos “ecos” imperfeitos, as palavras.
Religiões à parte, fica um conceito interessante para os que se dedicam a pensar linguagens: no silêncio há um significado fluido e unificante (ponha-se aí um deus, mais de um ou nenhum, no resquício de um passado não-humano – não inserido em linguagem – que sempre tentamos entender historicamente e que talvez devamos ver como concomitância enriquecedora). Este significado uno do silêncio, nós o destrinchamos em pedacinhos, individualizamos e, ao fazer isso, também o estratificamos, mesmo que seja apenas pelo tempo de a palavra atingir um outro e ter por ele seu significado modificado.
É desse silêncio que fala a exposição Portfólio, no Itaú Cultural de São Paulo. Tem texto e imagem, e o jogo intersemiótico das duas linguagens merecia um comentário separado, que incluísse essa longa e ideologicamente comprometida convivência, em diversos graus de “textos ilustrados”. A mostra traz curadoria dupla de Nelson de Oliveira (texto) e Eduardo Brandão (fotos). As fotos são do grupo Cia de Foto e o texto é da escritora Olivia Maia.
Como é o silêncio deles: o som da sala é de sirenes, zumbidos, batidas indistintas. As fotos são de paredes manchadas, pessoas cujas vozes não são ouvidas pela sociedade de consumo, alguém dança em uma montagem de stills. No seu texto, Olivia Maia descreve o ruído urbano que cerca alguém que quer tocar um piano. Termina assim:
“São as paredes desse apartamento. Cinzentas. Absorvem a luz e acolhem todos os sons distantes da cidade, e sempre haverá um zumbido feito conseqüência de tudo que se move, e sempre haverá os gritos e meus pensamentos e essa música repetitiva que segue rumo a lugar nenhum perseguindo labirintos dentro da minha cabeça. Deixo que os dedos toquem as teclas e delas então são as notas saindo mudas e invisíveis: que eu fosse parte desse silêncio histérico que me afligia, dissolvido no espaço. Tocava o que ninguém poderia ouvir, como sopra o vento no deserto. Era o silêncio, todo, aos gritos. A melodia e os ratos e os carros e a fotografia e o aspirador de pé e os gritos de uma criança na rua, caminhões atravessando pontes e um morador do último andar que assiste à televisão, e o feirante que chama os passantes olha a laranja laranja laranja.”
Que Olivia Maia descreva o silêncio total, uno, como o composto indistinto da vida só fala bem dela e de nós que estamos nele e o fazemos assim.
Uma nota: o narrador toca. Isso faz lembrar Heidegger e o que ele disse da música: a única atividade humana que não quer representar nada, que é, ela em si, o impulso da representação. Algo de muito, muito antigo, ou de muito, muito presente.
Um livro de ficção científica ainda consegue fugir dos clichês que acompanham o gênero? Tibor Moricz mostra que sim em sua estréia na literatura. A trama gira em torno de uma das maiores ambições da humanidade: viajar no tempo. Tibor evita descrições de efeitos especiais mirabolantes e explora o psicológico dos personagens, usando a ambientação da ficção. Em Síndrome de Cérbero o leitor não encontrará dinossauros, reis egípcios ou naves alienígenas. O que está em jogo é a vida (no mais amplo sentido) do protagonista e aquela velha pergunta que todos fazemos um dia: se pudéssemos voltar no passado, mudaríamos alguma decisão?
O narrador da história é Leonard Cameron, um cientista atormentando pelo passado amargo, descrito como um físico não muito brilhante, mas que se torna o homem certo no lugar certo. Leonard é um homem solitário, quase assexuado, que decidiu viver em suas memórias. Ele é incapaz de se relacionar, fazer planos que mirem o futuro, talvez pelo medo de não estar lá. Não quer constituir família, nem criar vínculos ou dependências, por carregar nas costas uma perda muito grande, irreparável. Ao mesmo tempo, Leonard tem uma carreira bem-sucedida. É o supervisor de uma instituição científica, o sujeito que confere os projetos, orçamentos e cronogramas. Aquele cara que anda pelo corredor com olhar atento e de quem ninguém gosta. Você deve conhecer um desses. Por isso, ele tem um pé no presente (o lado profissional) e um pé no passado (o sentimental), funcionando como uma máquina do tempo humana em tempo integral.
A união do elemento ficcional ao diálogo com a memória é o grande trunfo do livro.
No primeiro capítulo, conhecemos a infância do futuro cientista. Um garoto de dez anos que vê no mundo um terreno infindável de descobertas, pronto para ser modificado pela sua imaginação. É um mundo povoado mais por heróis do que vilões. Num pulo da cama Leonard pode voar e subir pelas paredes. Em um terreno baldio, enfrentar inimigos terríveis na ponta de um galho de árvore. Não é preciso fechar os olhos para sonhar. Dentro desse universo fantástico há um herói em especial: Robert Cameron, seu pai. Ele não possui super-poderes, não levita nem atravessa parede, mas é perfeito aos olhos do filho, que se encanta com um jogo de beisebol, uma corrida no parque, um minuto de atenção.
“Meu pai era uma pessoa especial. Jamais, em tempo algum, deixou de atender aos meus pedidos, mesmo os mais idiotas. Não que ele me fizesse tudo, mas sua atenção era a mesma, seja para satisfazer minhas vontades, seja para me repreender quanto ao absurdo de minhas propostas. Eu era seu referencial. Único filho e essas coisas todas. (…) Ter 10 anos de idade tinha lá suas vantagens. A diversão era uma das minhas mais importantes responsabilidades sociais”.
Tudo corre bem no dia a dia, mas o clima melancólico das lembranças de Leonard já anuncia a morte que mudaria sua vida. Um besouro negro avermelhado que pousa na testa do pai durante um passeio e que de repente escorre. O corpo tomba para frente, a mãe grita e se desespera. A criança entende que algo está errado. Seu pai está morto.
É uma cena de simbolismo forte, pois desmonta a dinâmica da morte pelo tiro. A bala entra por um lado, sai pelo outro e o sangue escorre. O conjunto em si é traumático. É um evento rápido, uma mudança muito drástica que a mente não tem velocidade para acompanhar. Para Leonard, todo esse conjunto está aprisionado em um só momento. Não se trata do dia em que o pai morreu, mas do segundo preciso. O instante em que Leonard teve a infelicidade de estar olhando para o pai, e ver o furo na forma de um besouro.
Como nem só de memórias vive o protagonista do sci-fi, as viagens ganham também um veículo físico. Um dos pesquisadores da fundação de pesquisas científicas Leicester, depois de muitas tentativas frustradas, descobre um modo de viajar no tempo. Leonard não resiste à possibilidade e se oferece de cobaia. O ponto no passado não poderia ser outro.
Em princípio, o objetivo de Leonard é salvar o pai, nada mais natural. Entretanto, quando ele fala sobre o assunto, usa uma diferença sutil, que explica o seu comportamento até o fim do livro: ele quer ter mais tempo ao lado do pai. O que poder entendido como recuperar a própria vida.
“Eu, no presente, calculando como agiria no passado. Paradoxal, mas envolvente e espetacular. Aquele dia seria um marco na história humana. Seria um marco na minha história e na história do meu pai. Quantas vezes ouvi alegações sobre a inexistência da vida após a morte?Eu provaria que ela existia. Meu pai não morreria… mesmo tendo morrido”.
É claro que ninguém sai ileso de viagens no tempo. Todo bom fã de ficção científica sabe que a lista de contra-indicações e efeitos colaterais é extensa. Tibor é bem competente ao inventar teorias do espaço-tempo e conseqüências orgânicas e temporais, sem jamais abandonar o perfil psicológico do protagonista. O que acontece sempre se reflete em sua mente, chegando inclusive a ampliar a solidão da qual está tentando fugir. Junto a isso, o desnudamento do passado de Leonard e o retorno às lembranças ganha um caráter investigativo. Afinal, quem matou Robert Cameron? Por que um político em início de carreira vira alvo repentino de um atirador? Por que a polícia não solucionou o caso? Mera incompetência?
Como investigar é abandonar a passividade, ao assumir o papel de detetive e salvador, Leonard lança um novo olhar sobre sua história. Além de um ótimo lugar para um viajante do tempo passar o dia, o passado é uma verdadeira caixinha de surpresas. Basta analisar com atenção.
“Jamais em minha infância tive a experiência de ver a TV ligar sozinha. (…) Por isso mesmo que essas manifestações me causavam um susto considerável. É difícil lidar com eventos dessa natureza. Bem, na verdade também era difícil lidar com portas rangendo quando eu era criança. Conscientemente sabemos que é o vento. Só que há um sussurro que vem do fundo da gente, alertando que ali, naquele ranger inofensivo, se esconde um monstro brutal que ambiciona o nosso sangue”.
Tibor Moricz foi um dos premiados do XI Concurso de Contos de Araraquara – Prêmio Ignácio de Loyola Brandão, com um conto de ficção científica.
Síndrome de Cérbero
332 páginas.
JR Editora.
Agora como sempre
com outro é que se obtém perícia:
pois não é fácil alcançar
a porta das palavras nunca ditas.
De Baquílides encontramos alguns fragmentos de peãs e dezenove poemas completos (segundo informação de Péricles Eugênio da Silva Ramos). Um de seus fragmentos – o Agora como sempre – que transcrevo no inicio do texto, é de uma inusitada beleza.
Quando se lê a poesia grega, muitas vezes espanta a clareza de suas construções; parece que elas comentam e traduzem um sentimento que se universaliza como certeza. Fica-se meio perdido, com a sensação de que a beleza pode ser simples e clara. Desconfia-se. Os leitores socorrem-se de Safo, Anacreonte ou Arquíloco. A mesma precisão é encontrada em seus versos.
Embora não conheça o grego, a percepção das traduções em português, em espanhol e em francês revela a mesma impressão de que estes poetas aliam duas qualidades fundamentais da poesia, a extrema musicalidade e a naturalidade do que dizem e do como dizem. O peã de Baquílides mostra ao leitor do século XXI – ainda que a recepção grega deva ter sido diferente – alguns métodos da composição poética da Antiguidade Clássica.
O primeiro verso do peã inicia-se com afirmação peremptória que lhe dá a medida do que é próprio à composição, unindo as pontas do tempo, isto é, o agora como sempre indica o presente e impele tanto para o passado quanto para o futuro. A certeza de que o verso se mantém dentro de sua unidade parece evocar uma imanência perfeita: poesia é e será – pretensiosos esses gregos – o que dela a tradição diz ser.
O segundo verso confirma a percepção, pois se deve mergulhar no estudo do passado, da tradição, para que se possa manter e ou confirmar a perícia da poesia. O verso parece confirmar a peremptória afirmação inicial, entretanto, tanto funciona para sua manutenção quanto para a sutil e não menos peremptória afirmação de sua diferença. A tradição serve para repetir – imitar – e para diferenciar, tornar único o poema que se escreve, ou para, como quer o poeta, alcançar as portas das palavras nunca ditas.
Em seus versos, toda a construção do pensamento grego sobre a arte – que estará em Platão, com seu realismo, e em Aristóteles, com sua busca de uma função para a arte, se perfaz de maneira assustadora e completa. Pensar o que é a poesia, para Baquílides de Ceos, é acercar-se do inusitado mantendo sobre esse inusitado uma base comum, uma dicção que repete e amplia.
Imitação e diferenciação. Repetição e ampliação. Talvez seja esta a medida que se perdeu, quando os latinos introduziram na poesia a medida prática da moralidade e viram na mimesis grega apenas a imitação – repetição dos cânones consagrados que irão marcar a poesia e o pensamento ocidental por longo tempo.
Perdida a qualidade da mimesis, perdeu-se a conexão direta com o inusitado da beleza, que se revelava nas portas das palavras nunca ditas, mas reconhecidas por toda comunidade grega e de seus herdeiros, que somos nós.
Errática – a poesia em movimento é um projeto em que poetas e artistas recitam, cantam, interpretam, criam performances, ou simplesmente conversam com o público, tendo a poesia sempre como motivo principal. O espectador poderá achar as apresentações irregulares, com momentos de fato especiais e outros nem tanto. Mas o que se pretende, aqui, não é propriamente uma resenha crítica do projeto, ainda em andamento, e sim uma reflexão motivada pela sua principal virtude: Errática convida o público a pensar sobre os limites possíveis (ou impossíveis?) que há entre a linguagem poética e outros domínios da expressão artística, como o teatro, a música, as artes plásticas, ou o vídeo. Corre-se sempre o risco de tocar neste assunto e simplificar certas questões teóricas. Mas arriscarei no espaço desta coluna uma experiência de ensaio e erro, a fim de trazer alguns pontos de vista sobre a poesia e suas encenações.
O projeto Errática lança mão de tantos recursos quantos são os poetas convidados. Houve a sobreposição de vozes gravadas e recitadas em palco, na performance de Ricardo Aleixo; o poema canto-falado acompanhado pela base eletrônica do DJ Dodô e pelo teremin de Lica Cecato; a (in)formalidade de Armando Freitas Filho que se dispôs a conversar com o público sobre sua carreira e em seguida apertar o play de um antigo gravador portátil, com uma fita cassete em que o poeta gravara seus poemas; o improviso estudado de Michel Melamed e Adriana Calcanhotto, ao escolher livros de uma pilha e ler poemas alheios; a exibição de vídeos sobrepostos à figura tímida de Eucanaã Ferraz, que passeava no palco e lia versos próprios, enfim, miríade de variantes cênicas e de suportes técnicos para apresentar para o público a velha e boa poesia.
A questão que se coloca inicialmente é: em que medida pode haver um contato entre os recursos de que o projeto Errática lança mão e os tradicionais saraus poéticos, ou mesmo as performances arrojadas que desde os anos 60/70 vêm encontrando bastante receptividade do público? Contemporaneamente os recitais ou performances poéticas reeditam a tradição dos saraus da Belle Époque carioca? É certo que a pompa ou a dicção elitista daquela poesia fica muito longe do despojamento verbal da poesia que freqüenta os saraus de hoje, mas o que aproxima estas duas épocas é a oralidade como meio de comunicação/elaboração poética. Neste caso, seria até possível remontar à origem oral da poesia, junto à lira do aedo. No entanto não é preciso ir tão longe.
Um breve retrospecto da tradição oral da poesia brasileira, feito pelo poeta Mano Melo (“A força dos recitais” In: 100 anos de poesia – um panorama da poesia brasileira no séc XX), indica os anos 60 como o momento de retomada, na cena cultural brasileira, dos recitais poéticos, que se tinham tornado mais escassos entre as décadas de 20 e 50. É sintomático que a revalorização da oralidade tenha acontecido naqueles anos rebeldes. Além da consciência de povo (e, conseqüentemente, do analfabetismo) que orientava o projeto cepecista, a década é a do início da explosão da TV, que se afirmará como principal meio de comunicação, ao longo dos anos 70/80. Isso representou, também, considerável mudança na natureza do verso modernista.
Os anos 50 contextualizam o auge da poesia modernista brasileira, tanto com poetas que a traziam desde o momento inaugural, como Drummond, Murilo Mendes, ou Jorge de Lima, quanto de Cabral e de outros, mais novos ainda, como Mário Faustino, os irmãos Campos, ou o primeiro Gullar. Após essa elaboração madura e erudita, a que foi submetida, a poesia reencontra o coloquialismo e a oralidade. E o projeto de formar um público leitor no Brasil começa a enfrentar a injusta concorrência do áudio-visual. Desde então, a experiência de comunicação oral da poesia passou pelo agito dos anos 70, pela performance pop dos 80, e encontra ecos até hoje, em atuações de poetas como Elisa Lucinda, e de grupos como o Ver o verso, o Cep 20000, ou o Poesia simplesmente, que já há vários anos organiza o Festival Carioca de Poesia.
Tais movimentos indicam uma mudança de dicção e de roupagem que a poesia modernista experimentou na cultura brasileira, na qual o poeta, que recorria ao livro como principal suporte para sua criação, ombreia com a figura do porra-louca da praia de Ipanema, a compartilhar versos e baganas. Dos anos 70 a este início do século XXI, o que houve foi considerável retração da porra-louquice e alguma oficialização dessa nova forma de atividade poética, através da ocupação regular dos espaços públicos. Errática, portanto, chega ao CCBB representando, em alguma medida, a canonização da oralidade como alternativa poética. Pode ser um caso isolado, mas é sintomático: na fila de uma das apresentações, um espectador me confessou: “gosto mais de ouvir do que de ler poesia”. O que a permanência dos recitais deixaria claro, e Errática viria apenas confirmar, é certa vocação para o áudio-visual do “leitor” de poesia?
Mas esta não é a única questão. Não deixa de ser instigante refletir também sobre as transformações que tal processo passa a exigir dos poetas, no exercício de sua arte. O poema para ser lido em silêncio nem sempre funciona na exposição oral. Por exemplo, o texto que Ricardo Aleixo apresenta em palco, com recursos cênicos, efeitos sonoros e repetições, não é o mesmo poema que está na página de seu livro. Resta, em função disso, enfrentar a difícil questão sobre o quanto a encenação pode ou não mascarar o rigor da linguagem poética. A transposição da poesia para o palco depende mais do elemento performático, que vai desde a atuação do leitor até os recursos técnicos e cênicos, e menos da consistência verbal do poema propriamente dito. Mas se o apresentador não atenta para esse detalhe ou erra no cálculo da inflexão, a apatia da platéia leva a constatar que o veículo oral não foi suficientemente elaborado para aquele discurso poético. Por outro lado é evidente (embora não seja regra geral) que muitos poemas, que comovem, deleitam e ensinam no palco, não resistem à leitura silenciosa.
As apresentações de Errática, então, têm o valor adicional de revelar a dessimetria entre o poeta dos livros e o dos palcos. Adriana Calcanhotto e Eucanaã Ferraz, por exemplo: ela ia conversando, sacando livros, lendo poemas, cantando em provençal e encantando; ele, sem habilidade de palco, com um verso hábil entre folhas sulfite nas mãos, não foi capaz de atingir o público. Armando Freitas Filho, por sua vez, soube reconhecer a distância entre a sua competência performática e a de Ricardo Aleixo, e conseguiu angariar a simpatia do público e dar o seu recado, embora, quando se tratou de recitar o poema, o gravadorzinho de mão comprovou a distância entre seu verso e a percepção auditiva. As apresentações de Michel Melamed e Lica Cecato revelaram a mesma distinção entre o suporte de papel e a poesia multimídia. Arnaldo Antunes, por sua vez, desde Psia, demonstra que a página do livro não é suficiente para seu poema. A programação reserva, ainda, Antonio Cícero e Lenora de Barros (22/05) e Jorge Mautner e André Vallias (05/06).
Enfim, Errática comprova que o limite entre o bom poema e o espetáculo que tem a poesia como atriz principal é (para se homenagear a canção de Caetano Veloso que nomeia o projeto) pausa de fração de semifusa. E os poetas, ou cantores, ou atores, ou apresentadores, enfim, os que estiverem contracenando com essa diva devem pensar nisso.
The Most Beautiful Man in The World é um pequeno drama de diálogos quase inexistentes e de muita intensidade nas imagens. O curta foi filmado em 35mm, dirigido e escrito por Alicia Duffy e protagonizado pelas atrizes mirins Holly Bishop e Paige Bishop. Belíssimas, elas se revezam no papel de Lacey, uma menina entediada com a televisão e suas revistas, que resolve sair de casa em busca do que fazer.
Do lado de fora, ocupada com distrações infantis, Lacey ouve seu cachorro latir e vai atrás. No cenário bucólico, encontra-o sendo afagado por um homem adulto (Anton Saundes), por quem se encanta imediatamente. Neste ponto, o curta ganha força nos detalhes, planos caprichados de intenções bem-definidas, pintando uma relação pueril e ingênua, um momento platônico de ambas as partes, interrompido pela aparição brusca da mãe. Em 6 minutos e pelos olhos de uma criança, Alicia Duffy consegue representar um cotidiano comum, que aprisiona na rotina e tira sonhos de onde menos se espera.
Destaque também para a direção de fotografia de Nanu Segal, que soube potencializar a direção de Alicia nas tomadas externas.
The Most Beautiful Man in The World foi indicado a melhor curta e melhor diretor em Cannes e concorreu ao Bafta nas mesmas categorias. Ele está disponível no Joost no canal WildLight, que passa curtas do mundo inteiro, incluindo animações, trabalhos premiados em Sundance, indicados ao Oscar e ao Bafta.
Está em cartaz no despretensioso Espaço Café Cultural em Botafogo o espetáculo Encontros de Humor – projeto que reúne sete novas companhias de teatro que, entre 5 de maio e 3 de junho, apresentam seus esquetes cômicos. A cada final de semana, seis companhias apresentam sete peças curtas (algumas se repetem, outras se revezam), totalizando um prodigioso número de doze produções, intercaladas por cenas improvisadas pela sétima companhia. Anticia de Teatro, Colápsico, Corpostranho, Histéricos e Obsessivos, Os Improvisáveis, Teatro de Nós e Ubu no Orelhão criaram e produziram o evento / espetáculo (como eles próprios o definem), que tem Diego Molina na direção geral.
Jovens atores, diretores, autores e figurinista (o único citado no programa é Bruno Perlatto) dedicam-se à difícil arte da comédia com diversidade, criatividade e séria proposta de investigação e renovação do gênero cômico de curto fôlego. Apesar da produção modesta, o que se vê no tablado não é simplório nem busca o riso fácil. Os sete esquetes não extraem sua comicidade explorando as velhas piadas sobre as minorias (negros, homossexuais, judeus, idosos) nem enfocando o sexo fácil ou histérico, mas preocupam-se em produzir um humor mais atento às particularidades da sociedade contemporânea. Por isso, não provocam a risada solta, rasgada. Atuam, antes, com um humor meio-amargo, dialogando com a inteligência do público. Aliás, comédia nunca foi sucessão de piadas, como estamos cansados de ver por aí. É gratificante assistir o rigor e o talento desses jovens profissionais que, sem pudor de “meter a mão na massa”, realizam com dignidade e poucos recursos econômicos a sua atividade.
A estrutura de Encontros de Humor evoca o Teatro de Revista, com cenas autônomas interligadas por uma dupla de mestres-de-cerimônia. Em tal gênero musicado, os esquetes deveriam passar em revista os acontecimentos mais marcantes do ano anterior. No atual espetáculo, temos uma espécie de arremedo do Teatro de Revista, sem o auxílio da música cantada, onde os fatos revisitados não são exatamente os do ano que passou, mas traços marcantes de nosso mundo atual. Tendo assistido o espetáculo dos dias 12 e 13 de maio, os esquetes a serem analisados são, por ordem de apresentação, O Encontro; Um. Zero. Um; Fome; Manual do Bom Teatrinho; Sessão Matiné; Secretária Maldita; Repertório De. Graça (Ciganas); além das inserções da companhia Os Improvisáveis (que também alteram suas cenas a cada semana).
Em O Encontro da companhia Teatro de Nós, três mulheres, sentadas num banco de praça, aguardam um homem para o primeiro encontro. Em seguida, passam a desconfiar de que o homem esperado é o mesmo para as três. Partindo de uma situação absurda, o texto de Renata Mizrahi revela a impossibilidade de comunicação entre as três mulheres cujo objetivo comum é inconciliável. Alternando pausas com monólogos paralelos, a direção de Diego Molina expõe ainda mais a proliferação do mesmo: as três personagens aguardam ansiosamente, embora com desconfiança, aquele que poderá trazer alento para sua solidão urbana. Interessante notar que a peça não mostra uma única mulher à espera, melancólica e desiludida, mas três cópias da mesma, deixando à mostra a reprodução em série da solidão. Às três é vetado o diálogo entre si, estão ilhadas na expectativa pelo que virá de fora, e que poderá aliviar-lhes o peso do desamparo no mundo. Obviamente, esse alívio não virá: o pretendente a namorado é uma personagem inalcançável. Se é de todas, não será de nenhuma. A peça faz-nos pensar no grande número de amigos virtuais que temos em sites de relacionamento, e que parecem preencher o vazio de nossa solidão, mas acentuando-o em contrapartida. Não é mais a solidão por falta de companhia, mas pela extrapolação de companhias virtuais. Elisa Pinheiro, Natália Simonete e Renata Mizrahi, que interpretam as três solitárias, executam com rigor técnico a repetição de gestos, pausas, silêncios e monólogos, trazendo a essa “monotonia” um humor perspicaz, sublinhado pelo sobressalto constante em que posicionam suas personagens.
Um. Zero. Um. é uma adaptação do conto “Osmo” de Hilda Hilst, feita pela companhia Ubu no Orelhão e dirigida por Natália Simonete e Bruno Perlatto. Um homem recebe o telefonema de uma mulher, convidando-o para dançar e esse fato corriqueiro provoca nele um fluxo intenso de pensamento, enveredando por um terreno escatológico, colocando-o em estado de crise: Osmo não sabe se permanece em casa, em seu estudo de metafísica e sobre Deus, ou se aventura na noite, em companhia de um ser vivo, que pode lhe trazer prazeres e desgostos. Sua verborragia é cortada por recurso teatral, com o crescendo do volume da música e o apagar das luzes sobre o ator. Calaram o incômodo desabafo de Osmo. Marcos Nauer imprime vigor corporal à personagem de Hilda Hilst, e contrapõe o humor cáustico de Osmo a uma inquietação sorridente, mesmo quando fala das coisas mais absurdas. O contraponto, quando se trata de comédia, sempre é bem vindo.
O terceiro esquete, Fome da Cia. Corpostranho, tem texto e direção de Jô Bilac. Três mulheres vestidas de noiva e carregando sombrinhas, como damas antigas, compartilham do mesmo homem: Timothy, a antítese do garanhão. Após um pequeno preâmbulo onde citam a voracidade do mundo animal, Darling, Honey e Cherry passam a pôr em prática a convivência com seu único esposo: o trato inclui direitos iguais para as três noivas, o que for dado a uma deverá ser entregue às outras. É quando começa a escatologia reveladora do esquete: Darling devora um dos braços do noivo, o que dá às outras a vontade e o direito de literalmente comer Timothy aos pedaços. A fome das três mulheres não tem limite; elas só ficarão saciadas quando nada mais houver para comer. O texto, com requintes de humor negro, expõe inteligentemente a fatalidade de nosso desejo voraz, que não freia nem diante da possibilidade de se extinguir o objeto de nosso desejo. Fez-me lembrar a canção entoada por Jeanne Moreau no filme “Querelle”: Each man kills the thing he loves… (Cada homem mata a coisa que ama…). Darling, Honey e Cherry destroem o que amam, e Timothy, mesmo mutilado, não perde a gentileza e não deixa de se render afetuosamente ao desejo voraz de suas amadas. É uma amarga metáfora de nossos relacionamentos amorosos, com boas interpretações de Sandro Pamponet, Adriana Valdevina, Patrícia Britto e Taciana Brown, que equilibram a voracidade da situação com delicadeza, afetividade e certa tristeza fatalista.
Manual do Bom Teatrinho de Aramis David Correia, Fernando Maatz e Lídia Olinto é o único esquete a trabalhar com a metalinguagem. Três atrizes debatem sobre a melhor maneira de se fazer o bom teatro, sendo necessário que consultem o “Dicionário de Teatro” de Patrice Pavis, que desaba sobre elas como uma bigorna. Após lerem a definição do termo sketch, decidem pôr em prática o breve verbete. Fernando Maatz dirige com dinamismo, criatividade e explorando as possibilidades vocais das três disponíveis atrizes: Fabiana Fontana, Helen Miranda e Janaína Russef. O texto é ágil e não tem critério moral: trata ironicamente tanto o teatro comercial quanto as pesquisas de vanguarda. O “teatrinho” do título não tem alvo certo, pode ser um drama realista ou uma montagem “renovadora”. A flecha pode, inclusive, atingir a elas próprias, em cena. De todos os esquetes, esse é o mais iconoclasta. As personagens (se é que se pode falar em personagem) alegam que a única coisa que sabem fazer, ou pelo menos o que fazem melhor, é gritar. E gritam, mesmo que sem causa, mesmo pelo simples prazer de gritar. Parece uma alusão à arma dos jovens atores que querem romper as barreiras do teatro profissional: a rebeldia (com ou sem causa).
Sessão Matiné, pela companhia Histéricos e Obsessivos e sob direção de Rodrigo Nogueira, parece a princípio o mais inofensivo dos esquetes: um pretexto simples move a ação. Um homem senta-se, num cinema praticamente vazio, ao lado de uma mulher. Mas ao contrário do que se poderia esperar, o tal sujeito não é um tarado sexual. Felizmente, o texto de Julia Spadaccini e Rodrigo Nogueira não cai nessa obviedade. Incomodada com a proximidade do desconhecido, a mulher argumenta que o homem teria 514 lugares vagos onde poderia se sentar, e não precisava invadir o espaço pessoal dela. Conclui, com pouca paciência, que no caso de um cinema praticamente vazio – visto que estão numa sessão matiné de terça-feira – seu espaço pessoal se expande e a agressiva proximidade do outro mais a afeta. A simpatia do invasor não a comove e ambos desenvolvem o assunto até o desfecho constrangedor. Mas o que é interessante registrar é o debate atualíssimo sobre a convivência com o outro nas megalópoles superpovoadas, é a aceitação dessa incômoda vizinhança, dessa nossa solidão rodeada de rostos, é a tentativa de preservar alguma dignidade e individualidade numa sociedade que constantemente nos invade, nos incomoda e nos observa com proximidade incomodativa. Nina Morena e Pedro Monteiro formam uma boa dupla cômica, explorando com segurança o clássico jogo do ingênuo e da mal-humorada, revertendo-se ao final para o choque entre a esperteza e o pasmo. É interessante a curva que o texto faz, levando as argumentações femininas a fortalecer as justificativas do incômodo vizinho.
Secretária Maldita, mais um texto de Renata Mizrahi da companhia Teatro de Nós, é o menos surpreendente dos sete esquetes, talvez por conduzir a situação dramática a um beco sem saída. Uma atriz frustrada por ter seu projeto de teatro bloqueado por uma burocrática secretária, procura uma psicóloga estagiária para livrar-se de seu ódio. Contudo, quando a psicóloga reproduz o discurso da secretária em relação ao dinheiro necessário para a cura, a paciente surta e passa a ameaçá-la com um revólver, obrigando-a a realizar uma retrospectiva do encontro com a secretária maldita, até o desfecho fatal. O que o esquete tem de mais interessante é a nossa descrença dos discursos (inclusive o psicanalítico) e a busca das soluções radicais, mesmo que representem uma viagem sem volta, como o uso de armas para se conseguir o que se quer. A neurótica atriz não faz esforço para compreender os meandros da burocracia teatral e nem as suas próprias falhas como atriz-produtora. Quer apenas vingar-se, não importa em quem. Essa violência exacerbada justifica o esquete, apesar de sua pouca ousadia estética. Novamente, Diego Molina dirige Renata Mizrahi e Elisa Pinheiro, boa dupla de comediantes.
Ciganas é o último esquete da noite, apresentado pela Cia. Colápsico em seu Repertório De. Graça. A companhia, de todas a mais fértil, tem quatro esquetes em sua programação. O texto, a direção e a atuação estão a cargo das ótimas atrizes curitibanas Katiuscia Canoro e Fabiula Nascimento. Uma cigana explora a caridade pública numa praça, ao se apresentar ao lado da filha cega. O esquete faz uso da crueldade, da escatologia e do mau gosto numa cena de humor negro, onde a dupla de comediantes expõe o desrespeito com o próximo, mesmo que seja sua própria filha, a necessidade de sobrevivência, a exploração de aberrações ou deficiências físicas. É cáustico o humor da Cia. Colápsico, desrespeitoso no que o desrespeito tem de melhor: expor as feridas sociais e a nossa face hedionda.
Os Improvisáveis é a companhia responsável pelas ligações entre os esquetes, com cenas que têm como base a improvisação. André Siqueira e Diego Becker formam uma afinada dupla de comediantes, ótimos mestres-de-cerimônia desse agradável espetáculo de humor. Vale a pena sair do circuito badalado dos teatros, redutos de espetáculos cômicos da cidade, e assistir Encontros de Humor, antes que eles acabem. Ainda fazem parte do repertório os esquetes Adeus. Aquele Abraço; Estudo sobre a Sedução em Mamíferos Racionais; Bruna Moribuguie; Graucia e Grauciane; Romeu e Julieta.
Aguarrás TV entrevista André Silveira, ator humorista do Teatro de Quinta e da stand up Tarja Branca.
Assista:
Não dá para dizer que conheço a China. Nem precisaria. Afinal, uma arte que se nomeia contemporânea e, portanto, internacionalizada, não dependeria de tais contextos. Sei que deve ter um cheiro de cavalos de carroças pelas ruas e um cheiro de fumaça de fábricas pelos ares, na passagem do rural para o urbano. E uma perplexidade de quem sai da brutalidade de uma repressão política. Coisas portanto conhecidas por aqui.
A peça central da exposição China Hoje – Coleção Uli Sigg, do CCBB-RJ, é um grão de areia onde há um texto escrito, um exemplo atual da velha arte da caligrafia. Está no foyer da instituição e só por isso já adquire um status diferente das demais. Seu autor, Lu Hao, participará da próxima Documenta, de onde Alfons Hug, o curador da mostra carioca, já foi curador. A peça conta a história de Hu, que deixa sua cidadezinha e vai para grandes centros, onde não se adapta. Ele é pai de três filhas, diz o texto. E, isso eu também sei, é algo que aumenta sua desgraça. Fossem três filhos, e ele não estaria tão mal. Mulher, na China, não tem muito valor. A frase escrita no grão de areia é reproduzida em um estande em espiral a ser percorrida de fora para dentro. Termina em um centro. O desconforto é que não há mais centros a serem alcançados no pensamento atual. Nem há mais volta a aldeias – brasileira, chinesa ou o que seja – em busca de um passado cuja idealização, essa sim, pode existir em qualquer cultura.
Há mais peças de igual teor, a exposição – quase só de pinturas, um suporte portanto bem tradicional – põe em discussão justamente a ambigüidade deste título, arte contemporânea, em arte que lida com a relação de poder em dualidades bem determinadas. A nostalgia de Hu vai além da aldeia e atinge o autoritarismo de estado, decadente, e que, parece, deseja-se que seja substituído por algum outro – que impeça os abusos que ele sofre nas poucas frases do seu grão de areia. Os candidatos a tal substituição são o próprio artista quando retrata-se a si mesmo; a arquitetura monumental, fascista, representada em massas imponentes; ou a própria composição e técnica perfeita das pinturas a óleo. Ou o dinheiro. Há um fluxo muito grande de dinheiro na China de hoje e alguns destes quadros aqui comentados têm preço de mercado de vários milhões de dólares. Fala sério. A especulação pode ser tão autoritária quanto um ditador, a nos obrigar a ver de novo o que já vimos várias vezes antes e há muito tempo.
A questão da boa acolhida feita pela arte contemporânea internacionalizada aos acervos culturais locais, populares e artesanais, é bem conhecida. É uma arte que apresenta, portanto, uma abertura em relação ao fechamento do modernismo tardio, construtivista, que tinha horror a povo. O problema é quando a exposição mostra que em vez de patrimônio em constante transformação, o viés nacional parece ser, ao contrário, tradição a ser defendida, embora com concessões à vida metropolitana e cosmopolita.
Na paisagem sem título de Fang Lijun, o contorno de sua cabeça careca, enorme, centralizada e de costas para o fruidor, domina o seu assunto: cisnes sobre azul.
Li Dafang tem dois grandes óleos, Letter e Sky. Nos dois, um personagem solitário domina uma paisagem urbana decadente tratada de forma a ser vista com um ar romântico. No primeiro, um monte de escombros se faz de montanha para o personagem, talvez um catador de rua, virar um super-homem, um highlander. No segundo, um rio urbano, sujo, é pintado com uma névoa espiritualizada e o personagem se torna um herói desbravador.
Chen Wenbo, em Siyuanqiao, traz uma composição geometrizada que não perde seu referencial, uma construção arquitetônica, limpa, com superfícies chapadas e sem detalhes, distanciada portanto de seu uso humano.
Na Tiananmen Square de Yin Zhaoyang, as figuras humanas se tornam um grafismo a compor o entorno do edifício, símbolo do poder, centralizado, com um vermelho, o das bandeiras nacionais, ausente do resto do quadro, em tons neutros.
Idem para o Beijing Hotel, de Jing Kewen, que mostra uma rua central, um boulevard com árvores, carros e ônibus, também tão limpa que se pensa em um sonho de organização e controle públicos do poder. Neste quadro, as linhas, em diagonal, se encontram onde está a figura, também em vermelho, dos tetos recurvos, tradicionais, arcaicos.
Há uma sala dedicada exclusivamente à arte da chamada Revolução Cultural, com seu realismo moralista, positivista e patológico. Não sei a razão. Mas explica o resto, como eu supus neste artigo.
A técnica da pintura a óleo é primorosa em todos eles, um exercício de disciplina e obediência às regras da representação.
Não há objetos. Há uma estátua. Buda sendo tentado por uma mulher. Bem.
Agora, os que eu gostei.
Li Songsong, artista que veio pessoalmente à abertura da exposição, traz a técnica da pintura a óleo como ela foi entendida durante o período em que a pintura saiu da frontalidade e ganhou o espaço, em uma tridimensionalidade que viria a eliminar, posteriormente, as classificações antigas que determinavam o que era arte bi e tridimensional. Seu conjunto de seis quadros tem um emplastro grosso, expressionista.
Huang Yan traz uma atualização interessante, com a representação de tatuagens que, por sua vez, representam a velha e tradicional pintura chinesa de paisagens.
Qi Zhilong põe faces rosadas, pop, na moça-soldado, o que é dúbio: ele pode pretender criticar a rigidez militarista ou, pelo contrário, humanizá-la, torná-la mais palatável. Não sei.
Li Dafang e Xu Wen Tao trazem um viés homoerótico em seus quadros, o que é sempre sinônimo de abertura e quebra de tradicionalismos.
Miao Xiaochun, Shao Yinong e Mu Chen são, de todos, os que mais conseguem se livrar da repetição conformista de uma relação de poder para criticá-la decididamente. Trazem a representação de assembléias populares, salas oficiais. As salas são vazias, decadentes. Uma lâmpada apagada, dependurada por um fio, eis o seu centro.
A fórmula é a mesma dos dois primeiros. Aventura dosada com humor, apoiada no talento de Tobey Maguire. Há cenas de ação que são um show de efeitos especiais, mas Sam Raimi sabe que é preciso drama para mover a história, então intercala os elementos da melhor forma possível. Quando a ação está ficando entediante, os atores tiram as máscaras e conversam, discutem problemas, tomam um café. Se o drama começa a cansar, surge um Homem-areia aqui, um Venom ali e tudo volta aos eixos.
Homem-aranha 3 é uma continuação direta dos anteriores. O Homem-aranha, que antes era visto como uma novidade ameaçadora, se tornou o herói da cidade. Há balões, brinquedos e telões com seu rosto, as crianças o vêem como um exemplo, os pais adoram o homem mascarado que vem pendurado em edifícios para salvar os cidadãos inocentes. Não tem jornal ou revista de fofoca de Nova Iorque que não o coloque na capa. Isso mexe com o ego de Peter Parker (Tobey Maguire). Não importa o anonimato do seu eu fotógrafo, ao vestir a fantasia ele é o centro das atenções.
Do outro lado, Mary Jane (Kirsten Dunst, de Maria Antonieta e As Virgens Suicidas) estréia no teatro. Todas as críticas falam mal e ela é despedida. Como boa namorada, ela busca o apoio de Peter, mas ele está ocupado demais olhando o próprio umbigo e salvando a cidade. Empolgado com sua autoconfiança reforçada, Peter decide pedir Mary Jane em casamento, justamente quando ela prefere se afastar por se sentir incompreendida.
Problemas de relacionamento apresentados, vamos aos potencializadores. Todo mundo sabe, o Homem-aranha só é quem é por causa da morte de seu tio Ben. “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, disse o tio antes de morrer em Homem-aranha 1. Para transtornar Peter e sua tia May, a polícia descobre que o homem que matou o tio Ben ainda está solto. Coincidências da vida, ele é o Homem-areia/Flint Marko (Thomas Haden Church, do filme Sideways), um dos grandes inimigos e efeitos especiais do filme (às vezes exagerado, subestimando o talento do ator).
Para exacerbar o ego inflado de Parker, a trama traz o simbionte Venom, uma forma de vida alienígena que desenvolve uma relação de amor e ódio com o Homem-aranha. Ela se integra ao uniforme de Parker e o deixa mais forte, mais rápido, mais cruel e metido. Conforme o Homem-aranha/Peter Parker muda de caráter o filme vai aumentando o humor e Tobey Maguire aproveita para criar cenas memoráveis. Tem penteado EMO, dancinha na rua, cantada na vizinha, piruetas na boate e um belo acerto de contas com Harry Osborn (James Franco, de Tristão + Isolda), seu melhor amigo.
Como nada é simples na vida de herói, Harry Osborn é filho do Duende Verde. Ele aprimora as roupas do pai, começa a ouvir vozes, fica maluco e resolve se vingar do Homem-aranha, achando que o herói é o responsável por sua condição de órfão. Ele também aposta em um flerte com Mary Jane fragilizada para atingir Parker, formando um triângulo amoroso estilo HQ. Assim, o espectador ganha duas boas seqüências de ação no filme. A luta do Novo Duende Verde com o Homem-Aranha EMO é um dos grandes momentos, sem muitos efeitos e com boas atuações (até mesmo James Franco se esforça além do habitual).
Já que Mary Jane está sofrendo sem emprego, sem namorado, chantageada, com frieira no dedão e tudo mais, o roteiro traz mais um complicador. A loira Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard), que nos gibis foi o primeiro amor de Parker, aparece no filme como uma mulher inteligente e bonita, desestabilizando a autoconfiança de Mary Jane e seu relacionamento com Peter.
Quem é fã de Bryce Dallas Howard pode se decepcionar. A loira faz só uma ponta. Nada que se compare a trabalhos anteriores como A vila, Marderlay ou o infantil A dama na água.
Talvez você esteja pensando que com isso tudo seria possível fazer dois filmes. Tem toda a razão. Por algum motivo inexplicável, Sam Raimi projetou Homem-aranha para ser uma trilogia, e com isso condensou vários elementos narrativos e da mitologia dos gibis em um filme só. Sorte que ele é um bom diretor, acostumado com híbridos de humor, aventura e terror desde os tempos de Uma Noite Alucinante, e se saiu bem, até mesmo conduzindo a história de Venom, o alienígena que divide opiniões dos fãs do Aranha nos HQs (a mitologia de Venom é preservada ao máximo no filme, pontuando diversas partes do roteiro).
A mais prejudicada talvez seja Mary Jane. Como Homem-aranha 3 é um filme de homenzinhos e surtos de testosterona (a disputa de egos entre Peter Parker, Harry Orbson e Eddie Brock/Venom ), Mary Jane acaba se tornando funcional, o que diminui a personagem.
O sucesso financeiro estrondoso fez o estúdio entrar em negociações com Sam Raimi para uma parte IV em 2009. Atores e diretor parecem dispostos a participar apenas se todo o elenco for mantido.
Homem-Aranha 3 custou US$265 milhões oficialmente, tornando-se o filme mais caro da história. O mesmo recorde foi batido na arrecadação. Em 10 dias o filme arrecadou mais de US$ 620 milhões mundialmente, se pagando com folga.
Jorge Durán gentilmente concedeu esta entrevista em vídeo para o Aguarrás TV. Por uma questão técnica, fomos obrigados a limitar o vídeo ao máximo permitido de 10 minutos. Colocamos aqui, então, a transcrição da entrevista exclusiva na íntegra.
1) Fale um pouco sobre o tema do filme Proibido Proibir?
O tema é centrado na vida de três universitários, um estudante de medicina, que é o Caio Blat, uma estudante de arquitetura, que é a Maria Flor, e um estudante de sociologia, o Alexandre Borges, que é, além disso, negro ou afro-brasileiro. E há uma paciente terminal, a Rosalina, uma ex-Frenética. Fora isso há personagens pequenos, como a Rita, uma colega estudante de sociologia, para criar um universo que gira fundamentalmente, no meu conceito, em torno da universidade. É uma experiência primeiramente de caráter romântico, vamos falar entre aspas. A namorada do Caio, que é a estudante de arquitetura, era na verdade namorada do estudante de sociologia. Essa menina termina se interessando pelo colega, muito amigo e companheiro de moradia dele, da zona norte do Rio.
Aquilo é uma introdução da história. O que mais me interessava era a questão do relacionamento afetivo entre eles, o relacionamento em termos da lealdade, da fraternidade, de certa ética de comportamento de caráter privado. Fora isso, há muitos comentários deles em relação ao mundo, ao longo de conversas, em relação ao próprio desejo da estudante de morar sozinha, estudantes que gostam de estudar, gostam do que fazem, gostam da universidade, tampouco são intelectuais da moda. O resto da cidade pode ter muitas coisas para se divertir, mas a vida deles se resume a estudar, viver a vida muito próximo da universidade.
Eu quis fazer isso porque a universidade é um ambiente divertido, que por outro lado traz conflitos muito profundos em relação ao mundo. O bom universitário começa a perceber de forma estruturada o mundo em que ele vive e, portanto, os conflitos que irá viver por causa das diferenças que existem.
Basicamente a história evolui para uma segunda parte, a universidade como tema se sobrepõe ao tema amoroso e os conflitos que se encontram dentro da universidade geram responsabilidade. Eles vão sendo obrigados a tomar algumas posições, pelo contato com a paciente terminal precisando da ajuda deles. A própria Letícia, que é uma menina da zona sul, começa a reparar que a vida não é só prancheta da universidade, tem um mundo que a rodeia. O contraste entre a universidade e a zona norte onde vivem os rapazes, o subúrbio da cidade, cria naturalmente um novo conhecer. E o estudante de sociologia, de origem mais pobre, que acredita conhecer muito o universo mais pobre do subúrbio, entra em conflito consigo mesmo. Por que eu me esforço tanto? Será que eu gosto tanto do que faço ou será que me esforço porque sou negro no Brasil e preciso do dobro do esforço?
Na terceira parte, a história gira em torno do encontro dos universitários com a realidade, a forma que eles se relacionam com a realidade, uma realidade dura, difícil, no intento de ajudar aquela paciente. Mais do que isso, o intento de ser fiel àquilo que já estão sentindo e que a universidade provê, que é uma ética, uma vontade de participar do mundo. Uma parte considerável dos universitários se interessa realmente em participar, e eu quis fazer um filme sobre essa parte especialmente.
2) E como foi filmar, está mais fácil de filmar ou continua complicado?
Não teve problema porque na verdade é um filme de baixo orçamento. Eu não tenho hábito de esperar ganhar o paraíso para fazer as coisas, minhas coisas são aqui na terra, uso o orçamento que eu tenho. Eu já sabia que era um filme de baixo orçamento, e nesse aspecto na criação do roteiro, eu já tenho alguma experiência. É verdade que a experiência não vale muito, mas no trabalho em cinema você já sabe o que custa caro e o que custa barato. Ninguém que trabalha há muito tempo em cinema pode dizer “ah, eu não sabia que ia custar isso”.
No primeiro dia de preparação você já sabe mais ou menos o que vai gastar. Claro que depois as coisas podem escapar de controle, mas o normal seria que não escapasse. Sempre há um custo adicional, a realidade é mais difícil, pode demorar um pouquinho mais. Mas quando um roteiro é caro ele é caro desde o início, não tem como baratear.
Então é um roteiro relativamente simples. A gente trabalhou muito, três ou quatro meses somente na pintura, organizando a produção e procurando locação por locação, que é algo que eu gosto de fazer e que não se faz mais.
A maior parte dos diretores, pelo que sei, manda uma pessoa procurar a locação, eles vão aprovar ou não as locações. Eu gosto de ver tudo. Fico muito tranqüilo se alguém me mostra um lugar e eu acho bonito. Pode ser melhor? Eu não vou ficar esperando.
Eu gosto de conhecer os limites. Pode existir um melhor mas o que eu consegui foi isso, então está bom para mim. Faço o mesmo com o elenco, faço o mesmo com tudo, com o negativo, com a câmera, o laboratório até sentir que está bem estruturado.
Portanto, quando a gente acabou o filme a gente não tinha saldo negativo. Tinha estourado um pouquinho o orçamento, o que é muito natural, não é nada grave. A Petrobrás foi muito generosa com a gente. Eles deram um bom material, deram um recurso adicional.
3) É fácil organizar uma filmagem no Fundão?
Não tem nenhum problema, nunca vi gente tão disposta a ajudar.
Eu conheço o Fundão porque tenho amigos que são professores de lá. Uma delas é minha comadre chilena, sou padrinho do filho dela no Chile e ela mora no Brasil há tanto tempo quanto eu. Ela é professora, me apresentou ao Reitor e ele me deu uma carta [de autorização] muito generosa.
A diretora de belas artes se encantou imediatamente. “Pode filmar o que quiser”. Na arquitetura também. “Entrem onde quiser”. No primeiro dia alguém ainda perguntou o que a gente estava fazendo ali e a gente mostrou as cartas.
Lembro que a gente voltou três semana depois de acabar a filmagem. Fui lá mais um dia porque ia precisar de um plano extra que inventei no final e nem montei inclusive. Chegamos à faculdade de arquitetura e um sujeito reconheceu a gente. Eu disse “vamos filmar no terceiro andar, numa salinha aberta”. Ele respondeu, “pode subir, não tem problema”.
Eu diria que isso não é um descuido. Eu acho que as pessoas apreciam que o lugar que elas trabalham seja reconhecido e faça parte de um filme. Não é um descuido [do tipo] pode entrar e sair qualquer um. Como na zona norte e no subúrbio, eu diria que era comovente o interesse das pessoas de participarem e serem filmadas. Não de uma forma chata de ficar acenando para a câmera. Qualquer pessoa que você perguntava se poderia fazer um plano dela, ela se dispunha.
No filme, tem um personagem que é professor e os professores da universidade só não entraram porque não conseguiam horário para participar da filmagem.
4) E a direção de atores. O que tem do diretor na atuação?
Do diretor eu diria que tem estilo. Cada filme tem um processo diferente. Você não pode trabalhar no mesmo sentido em qualquer história. O meu primeiro longa, A cor do seu destino (1986) tinha a direção muito marcada. Antes dele eu tinha feito um média-metragem, a minha versão, e o produtor editou e fez uma longa, a versão dele. Chamava-se O escolhido de Iemanjá (1978). Em A cor do seu destino eu estava interessando em que o ator se tornasse o personagem, vestisse o personagem, e eu fazia a marcação da direção muito rigorosamente. Às vezes não, porque eu sentia que não era a melhor opção, mas no geral sim, eu tentava essa marcação, uma iluminação muito dirigida, com um espaço muito pequeno para improvisação. Também era um filme muito mais dramático, com o claro e o escuro muito marcados.
Já nesse aqui eu tinha outro sentimento, se o primeiro era sobre memória esse era sobre comportamento. Então, eu queria que o espaço dos atores fosse maior. Eu não faço ensaios, eu dirijo o ator de muito pertinho, a direção é feita junto da câmera. Eu não consigo ver os sentimentos, o olho do ator, a força com a qual ele diz as coisas em uma telinha minúscula. Então, eu diria que foi um trabalho de conduzi-los em direção aos personagens. Ajudá-los a serem o personagem. Queria que o Caio Blat entregasse tudo que ele tem de Caio Blat para o personagem, que ele se apropriasse do personagem e mostrasse sua interpretação do texto. O Caio é uma pessoa muito séria, mas tem esse sentido de humor. O lado dramático da personagem de Maria Flor é próprio dela. Claro que há uma releitura do personagem. A maneira de olhar, o sorriso, isso é muito deles, com o Alexandre também. Como ele mesmo disse, acho que o personagem sou eu.
Por isso eu fiquei muito contente. Eu sou um cara velho e é muito delicado se meter em um universo juvenil em que você acha que está filmando jovens, mas na verdade está filmando velhos com cara de jovens. Eu não queria isso.
Eu estava procurando fazer um filme sobre o comportamento dos jovens que eu vejo hoje e não dos jovens que eu vejo no cinema, dos jovens que eu vejo nos outros filmes e que são uma exceção, têm um comportamento anômalo. São perversos violentos, e não é o que se vê na universidade, não é o que você vê na [Escola de Cinema] Darcy Ribeiro.
Eu nunca vi um jovem matar a mãe, estuprar a melhor amiga, chegar drogado falando loucuras. Eles levam uma vida mais careta do que a minha. Pode não ser assim na vida privada, mas na vida pública eles são completamente [caretas]. Eles são tão universitários quanto a minha geração de universitários. A minha geração universitária era mais concentrada, mas dirigida para o mundo. Tinha um papel político, uma atividade política muito intensa. Essa geração é voltada para outros problemas, o que eu considero muito saudável, porque o mundo não está mole.
Quando saí da universidade eu tinha certeza de que iria ter trabalho. Qual era eu não sabia, mas que ia ter trabalho ia. Hoje eu acho que nenhum jovem sai da universidade com emprego garantido. Não dá para afirmar que ele vai encontrar trabalho na área que ele quer trabalhar, na área em que ele gosta de trabalhar, na área que ele vai ser feliz trabalhando. Tem tanto jovem que se forma como advogado e vira gerente de loja. Tomara que ele seja feliz, não é uma questão de qualidade é uma questão de felicidade. Agora, eu tenho muita admiração por essa geração, porque acho que é uma geração confrontada com uma realidade muito dura e ela quem tem que partir pra luta. Eu não vejo que eles esmoreçam não, eles vão firmes na luta.
Eles inventam empresas, ficam ricos, um ou outro muito raramente fica rico muito jovem, e na minha geração ninguém ficava rico tão jovem, a não ser por herança do papai e da mamãe.
5) Está feliz com a receptividade?
Eu acho que o filme é um aprendizado. Então não me deixa entusiasmado pelo contexto. É verdade que fico muito contente. Eu gostaria que o filme fosse visto, esse é o essencial. Dinheiro eu não vou ganhar nada, que o filme é de baixo orçamento e só um milagre faz com que você ganhe algum dinheiro. Então, o filme vai terminar se pagando bem, não tem problema, já vou ficar contente. Parece que o filme está se segurando nas salas de cinema, com muita demanda dos festivais no interior do Brasil. A UNE pediu entrevista por telefone, publicou na primeira página. O festival putz! também. O filme está abrindo os caminhos que existem.
Agora eu vou fazer um próximo filme e já não estou mais muito interessado naquilo que eu sei, mas no que eu não sei. Porque aquilo é a área que tenho que me aprofundar, aprimorar, estudar. É essa a área misteriosa. Eu gosto de não entender.
O roteiro de O Homem Vivo, assinado por Delson Antunes, é um mosaico de recortes e trechos da obra de Bertolt Brecht acompanhado de alguns de seus poemas inteiros e canções de Kurt Weill, Villa-Lobos, Brahms, Schumann e Charlie Chaplin. A ótima seleção de textos de Brecht, cuja morte completou 50 anos em 2006, dá um grande suporte ao espetáculo. É um prazer ouvir as palavras desse homem cuja escrita é sempre alerta à sua sociedade e à sua época, sempre vivaz, expondo as contradições sociais e humanas. Em tempos de pobreza textual e ideológica, ouvir Bertolt Brecht já é, por si só, um luxo. A contundência dos textos confirma o título do espetáculo – Brecht é um homem vivo. E exige de nós, homens de seu tempo, a mesma vida – estarmos sempre de olhos abertos, desconfiando das histórias bem contadas, das promessas dos fortes, combatendo toda a opressão (social ou doméstica), ajudando os fracos e oprimidos de toda espécie. E o mais difícil para nós hoje: reconhecer o inimigo.
Em cena, os atores Camila Amado e Orã Figueiredo são acompanhados por João Carlos Assis Brasil ao piano e pelo cantor Wladimir Pinheiro. A direção de Delson Antunes opta por criar uma situação fictícia para que os atores interpretem a obra poética de Brecht, fugindo do recital. Na primeira parte do espetáculo, Camila e Orã encarnam dois operários desempregados que caminham sem cessar, em busca de trabalho e comida, e durante sua jornada, filosofam, cantam, brincam. A eficiência desse simulacro é inconstante. Algumas vezes dá dimensão poética à solidão e desamparo dessa gente, revelando sua esperança sempre renovada de um futuro mais digno, e de certa forma, o desperdício de sua força vital nessa expectativa que dura toda a vida. A situação dos dois andarilhos é também uma metáfora de nossa existência, de nossa condição animal ao sairmos todos os dias em busca de alimento. Porém, noutras vezes, esse simulacro torna-se pouco convincente. Não há suficiente conflito dramático entre os dois desempregados, tendo os atores que buscar justificativa para que tais personagens digam aquelas palavras naquela situação específica, gerando pouca credibilidade no público que desconfia da falsidade de tal artifício. Às vezes, a cena dos dois andarilhos parece ter mais afinidade com os vagabundos beckettianos do que com as personagens do autor alemão. Na segunda parte do espetáculo, muito menor que a primeira, os atores despem seus trajes de operários, e vestindo sobretudo, boinas e charuto, interpretam os poemas onde o homem Brecht é mais presente e fala em primeira pessoa.
Interpretar Brecht exige dos atores algo mais que a construção verossímil de uma personagem: é necessário apropriar-se daquelas palavras e adotar o questionamento do autor como seu. É preciso que o público reconheça no ator afinidade com aquelas questões, sem que ocorra um fenômeno, por vezes aceitável, em outros autores ou gêneros, em que o ator apenas revela ou expõe, sem se envolver com o assunto, sem “sujar as mãos”. Em Brecht isso é impossível. Não cria credibilidade. Camila Amado consegue se apropriar do que diz. Tem afinidade ideológica com as palavras do texto, começa a falar antes mesmo de abrir a boca e não se cala depois que sua boca se fecha. Ao seu lado, Orã Figueiredo, embora bom ator, se relaciona menos visceralmente com o texto de Brecht. Parece, algumas vezes, recitar um texto decorado, perdendo de vista a motivação original daquele manifesto. A dupla de atores se relaciona bem em cena, embora Camila jogue mais que Orã. Aproveita todas as deixas que o parceiro lhe dá, está todo o tempo viva e não se ausenta durante os textos do companheiro. Orã tenta extrair alguma ironia do texto por meio de uma abordagem mais convencional, simulando por vezes um mal-humor ou desgosto, que nem sempre se coaduna com o vigor brechtiano. Camila põe bloco sobre bloco; Orã está sempre começando de novo. A dupla de atores precisa, talvez, respirar o mesmo ar em cena. Isso ainda não ocorre.
Na relação com o público, Camila segue uma linha mais cúmplice, irônica, explorando as nuances e contradições apresentadas pelo texto; Orã é mais vigoroso e externaliza os poemas brechtianos. Consegue, com tal artifício, não deixar que os textos caiam num tom melancólico, mas por vezes seu viés histriônico parece querer extrair humor a todo custo, e falta ao ator um mergulho mais profundo no universo e na causa brechtiana. Camila extrai um humor mais inteligente, um humor não imposto por variações vocais ou gestos que sublinhem as palavras, mas uma ironia mais refinada, conquistada por olhos mais vivazes que denunciam um coração mais tocado e uma mente mais estimulada. Camila equilibra com delicadeza a dor dos desesperançados com o sorriso advindo da consciência. Sua interpretação lembra a canção de Vinícius de Moraes, em que para “se fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, ou então não se faz um samba não”. Camila consegue encarnar a tristeza e a beleza presentes em Brecht.
Vocalmente Orã tem mais vigor e uma dicção mais precisa – embora às vezes fale acima do tom. A voz de Camila Amado tem graves problemas de rouquidão. Vai melhorando no decorrer do espetáculo, conforme vai se aquecendo em cena, mas seu aquecimento vocal deveria ter se realizado antes da peça começar. A atriz tem dificuldade de administrar seu fôlego e parece, às vezes, no limiar de suas forças. Inteligentemente, Camila consegue driblar suas limitações vocais – e, de certa forma, corporais – ao se apropriar das intenções do autor. Vê-se em cena uma atriz que sabe o alcance do que está dizendo. Mas tecnicamente, o espetáculo tem pouco rigor – parece em alguns momentos estar se resolvendo à vista do público, com certo caráter improvisacional que se contrapõe ao profissionalismo exemplar do pianista João Carlos Assis Brasil. Wladimir Pinheiro também canta bem, embora aparente certa empáfia não-intencional, causando estranhamento diante da simplicidade geral e das considerações brechtianas sobre a música no teatro.
As interferências musicais são boas como música, mas fracas como motivações para que os atores esbocem uma dança ingênua ou repitam diversas vezes a caminhada desencontrada. É mais instigante e sincero quando a direção opta por não preencher os momentos musicais com movimentações dos atores, como no instante em que ficam a observar uma vela acesa.
A cenografia e o figurino de Nello Marrese são simples e eficientes – a arena torna-se um deserto em tom barrento, e os atores vestem-se como operários, com grandes aventais, carregando suas trouxas às costas. Talvez seus sapatos devessem estar mais envelhecidos e gastos, como o restante. Na segunda e última parte, envergam uma casaca e boina – signos mais do que conhecidos de Bertolt Brecht. A iluminação de Luiz Paulo Nenen tem personalidade. Consegue belos efeitos com poucas mudanças e trabalhando com poucas tonalidades. Em alguns momentos, a luz ilumina todo o espaço, a pedido dos atores, e Brecht sempre ganha com uma iluminação menos psicológica e mais franca. A preparação corporal de Ana Bevilaqua tenta solucionar alguns obstáculos naturais da atriz e a repetição da jornada dos dois operários. E, obviamente, é mais complicado conseguir um bom desempenho quando a tentativa é a de ocultar algumas falhas. As coreografias são simplistas demais, talvez tendo em vista um diálogo com a inocência chapliniana, mas sem atingi-la. Apesar disso, a direção consegue imprimir pulsação ao espetáculo, mesmo que essa cadência encontre seus empecilhos na execução de alguns passos e ações.
Apesar da excelência das palavras de Brecht, existe o perigo de que ouçamos seu grito de alerta, seus questionamentos, nos deliciemos com a beleza de sua poesia, e devoremos como bons burgueses o prato de sua revolta, sem que nada façamos, sem que nada mude em nós, como uma roupa bonita que admiramos dentro do armário, mas que nunca usamos porque falta coragem ou ocasião. A ocasião sempre se apresenta – citando Heiner Müller, “enquanto houver senhores e escravos, não estamos livres de nossa missão”. Talvez nos falte mesmo coragem. Ou pior, talvez falte esperança de que alguma revolução dê ainda resultado. Se, contudo, fizermos a revolução interior, à qual Brecht também faz alusão em seus poemas, já teremos feito muito. Ou talvez tenhamos feito tudo. E possamos nos sentir homens vivos. Há, contudo, o perigo, como Brecht já anuncia em um de seus poemas “O teatro, casa dos sonhos”, de que os atores sejam tristes enganadores apresentando um falso mundo e auxiliando os espectadores a suportarem a vida mesquinha com o anestésico do sonho e da beleza das palavras revolucionárias que já nos saciam em nossa passividade nas poltronas dos teatros.
Entrar na UFRJ para ver a exposição do fotógrafo José Eduardo Barros, no seminário sobre a barbárie, pode não ser das tarefas mais simples (eu sempre me perco no Fundão) mas sem dúvida alguma vale o esforço.
As fotografias de José Eduardo Barros são impactantes sem cair no óbvio, sem cheirar a Unicef e, ao mesmo tempo, sem precisar fazer um dramalhão mexicano para emocionar. Este é um equilíbrio muito difícil de conseguir, vocês não imaginam o quanto.
Como espectadora, eu gostaria que as fotografias fossem maiores. “Sob o cobertor” fala com muita delicadeza de toda a população marginal, invisível, excluída e coloca sobre ela um olhar doce, colocando em foco o Humano. José Eduardo Barros fala mais do que não é visto em suas composições do que seria possível se trouxesse à mostra o que o cobertor esconde. As fotografias merecem uma exposição maior.
Cada fotógrafo tem a sua linguagem. Sebastião Salgado mostra, com drama. José Eduardo Barros induz, com poesia. É através da poesia (literária ou não) que somos capazes de emocionar. E, apenas através da emoção, conseguiremos reverter este cenário de barbárie em que afundamos.
Se, ao invés da fotografia, José Eduardo Barros optasse por uma carreira em música, tenho certeza de que se uniria a Nelson Cavaquinho: Quero ter olhos para ver / A maldade desaparecer.
O mérito do fotógrafo está mais em sua linguagem do que na técnica. E isto é sempre um elogio: técnicas evoluem, mudam, se adaptam, enquanto uma boa linguagem só é possível com o amadurecimento profissional e muita, mas muita, estrada.
Jorge Durán gentilmente nos recebeu em sua residência e falou sobre cinema e seu novo filme, Proibido Proibir.
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A terceira montagem da Companhia de Teatro Íntimo, pretende refletir sobre as contradições entre liberdade do indivíduo e o casamento e o faz através do gênero policial. A narrativa é iniciada por um médico legista que, ao recompor o corpo de uma mulher esquartejada, cujas partes foram dispostas em cinemas da cidade, reintegra à existência a própria vítima, provendo-lhe de uma história. A realização cênica deste tema é um convite ao espectador para uma experiência incomum e sensível, em alguns momentos; em outros, óbvia.
Seja pela natureza do conteúdo (paixão e adultério seguidos de assassinato e esquartejamento), seja por passagens em que o objetivo do texto fica desfocado, ou talvez por alguns cacos desnecessários, a reflexão e a narrativa não conseguem se desvencilhar de clichês que poderiam ser facilmente evitados. Algumas falas e certas cenas tentam recuperar o que poderíamos chamar de uma sordidez rodriguiana, por exemplo, no momento em que se afirma que “marido serve para desconfiar” ou na cena em que o amante faz questão de que a adúltera use a aliança. Porém tais situações se perdem como triviais, pois não são aprofundadas na obsessiva densidade cênica, que repete certos motivos, mas os deixa na superfície da representação. Da mesma forma a justificativa para o olho roxo do marido traído, que cita o ex-deputado Roberto Jefferson (quisera ouvir a canção “Nervos de aço”, de Lupicínio Rodrigues, e a estante de CD caíra-lhe sobre a face) desvia a atenção do espectador, constitui digressão típica da crônica, produz uma dispersão gratuita e atenua a tensão dramática que seria melhor obtida pelo enclausuramento dos personagens um suas essências. A própria canção tema – “Nervos de Aço” – só não é mais óbvia porque teve sua inclusão estrategicamente arranjada através do canto segmentado e simultâneo de várias vozes do elenco. Outra lamentável opção se revela na imagem do vigor sexual do amante, em que, por sob a malha do ator, se põe em funcionamento um daqueles chaveiros piscantes e multicoloridos; leva ao riso da galhofa, o que definitivamente não cabe na proposta. Enfim, são pequenas inserções que, se em alguma medida recompõem o mosaico kitsch das tragédias cariocas de Nelson, ou do samba-canção-dor-de-cotolvelo de Lupicínio, não dotam o espetáculo da mesma sordidez que há no primeiro, nem da ingenuidade que há no segundo. Além disso, tais desvios do eixo dramático restringem e atenuam o principal valor do espetáculo, a experiência em que a peça pode se converter para o espectador.
A platéia é levada ao espaço cênico por dois personagens que se infiltram e com ela interagem desde a fila de espera. Todos se sentem convidados a participar da festa de casamento, mas apesar da proximidade física, vão sendo compelidos a estranhar o ambiente emocional na medida em que se instaura a crise conjugal que é, quase sempre, a crise de identidade dos cônjuges. Contar com o público como elemento ativo (ou reativo) na encenação requer preparação e habilidade que os atores da Companhia de Teatro Íntimo demonstraram. Além do mais, o jogo de duplos, construído através do espelhamento manifesto do alter-ego dos personagens, requer sincronismo e precisão interpretativa, o que o elenco também realiza com perícia. Isso torna a montagem, de fato, envolvente, e vai criando a impressão de simultaneidade para tempos contínuos da história, além de distribuir espacialmente a ação, o que força o espectador a manter a atenção sempre ativa e multidirecionada. O contato dos corpos em cena, a proximidade da platéia, a narrativa que se enreda sobre si mesma e que alegoricamente é “costurada” pelo médico legista em contraponto com as lembranças filha do mágico que serrava mulheres, são os elementos que transformam Cuidado com o cão numa experiência sensível e incomum. Neste percurso, a sombra de dois Rodrigues (Nelson e Lupicínio) talvez tenha provocado alguns desvios.
A Companhia de Teatro Íntimo, também traz em seu repertório Veridiana e eu, texto do mesmo autor de Cuidado com o cão e Os Dragões, montagem baseada na obra de Caio Fernando Abreu. Note-se que a mera referência ao escritor gaúcho, cuja presença é freqüente tanto no trabalho do diretor, Renato Farias, quanto no do autor, Tarcísio Lara Puiati, revela a afinidade daqueles que pela arte querem tornar a vida uma experiência densa. Vale acompanhar de perto.
Escrita em 1974, Apareceu a Margarida de Roberto Athayde ficou consagrada como uma alegoria da ditadura militar, com sua personagem-título tirânica e obcecada pelo poder. Controladora, alucinada e contraditória, dona Margarida é uma das criações femininas mais cobiçadas do teatro nacional. Marília Pêra a interpretou em algumas montagens diferentes, sob direção de Aderbal Freire-Filho. A atual encenação fica a cargo de Bruno Garcia, com outra Marília no elenco – a Medina.
Obviamente nossa época não é mais a mesma, mas nem por isso o Brasil é um mar de rosas. Apareceu a Margarida não é uma peça datada, pois Athayde, em seu texto ambicioso, consegue ir além dos limites de uma época e mesmo de uma nação. A atual montagem se ergue sobre três equívocos: em primeiro lugar, subtrai grande parte da ação política da obra, permanecendo com seu enredo – o que não sustenta o interesse. Parece que a peça é sobre o caso particular de uma professora desequilibrada que ameaça e teme a sua turminha de alunos, e que vai deixando transparecer cada vez mais sua insanidade no decorrer da ação. Em segundo lugar, a encenação toma o texto ao pé da letra e não como metáfora ou alegoria. Apareceu a Margarida não é uma peça sobre educação, como A Aurora da Minha Vida de Naum Alves de Souza. E ficamos com a impressão de que o alcance da obra não ultrapassa o âmbito escolar. Em terceiro lugar, diretor e atriz carregaram nas tintas de uma personagem psicologizada demais, quase dramática. E dona Margarida perde seu humor. Não nos interessa exatamente um mergulho na mente conturbada da personagem: suas reminiscências ganham um caráter de sessão de psicanálise e a mesa de professor se torna um divã de consultório, e Margarida sofre. Acentua-se a solidão da personagem e a tirana deixa de ter poder sobre os espectadores-alunos: Marília Medina passa a ter tanta autoridade sobre o público quanto as nossas professoras nas classes de aula hoje em dia, ou seja, quase nenhuma. Exagera-se o enfoque sobre as passagens sexuais da peça, e a professora se torna uma tarada cujo principal objetivo é se expor diante de alunos embasbacados, enquanto ela devora eroticamente uma banana ou se esfrega num dos pés da mesa. Em dado momento, a impressão é de estarmos assistindo a um psicodrama. E Apareceu a Margarida de Roberto Athayde não é exatamente isso. Embora alguns desses elementos estejam lá, de certa forma. Mas Athayde não escreveu essa peça, preocupado com a solidão e a falta de autoridade das mestras em sala de aula.
Marília Medina deixa a desejar como intérprete de dona Margarida. A atriz não tem fôlego para a tragicomédia de Athayde. Falta-lhe controle da respiração e, embora vigorosa corporalmente, seus gestos se repetem demais, ilustrando o que já foi dito. Marília sofre quando fala de sofrimento, abre os braços em cruz quando fala de Cristo, representa cada adjetivo da última cena. Trabalha com equilíbrio bilateral, ou seja, se expressa com os braços paralelos, tensiona os ombros, enrijece os dedos indicadores, ergue o queixo e aprisiona o ar no peito, estrangulando a voz em grande parte da representação. Isso prejudica a atriz a representar a trajetória da personagem, e a impede de decolar no final da peça. Não dá muito para acreditar que a sua Margarida tenha know-how para nos ensinar os fatos da vida. A campainha que ressoa freqüentemente, alertando que a personagem saiu de seu controle, impede que Margarida cresça em sua ambição delirante de poder. A última grande cena, quando a personagem se descobre dona das coisas e do mundo porque pode manipular as palavras e tudo pode realizar ao reunir verbos, adjetivos, advérbios e sujeitos, não encontra na atual encenação a contundência necessária que leva a professora tirana a pifar. No texto, a máquina entra em colapso. No entanto, na atual encenação, ficamos frios na platéia enquanto a atriz finge que estrebucha.
Falta ironia à atriz e uma característica fundamental ao comediante – dizer uma coisa e expressar a sua antítese corporalmente, como alguém que conta um fato e pisca um olho ao final da narrativa, alertando os espectadores para que não creiam piamente no que é dito. A comédia é o riso dos rebeldes. E Marília Medina não encarna a rebeldia nem provoca o riso. Também não lança olhar crítico sobre a alegoria do poder e da tirania. Falta ritmo ágil de humor à intérprete e o espetáculo fica, por vezes, pesado. Muitas vezes Marília metralha o texto, sem preparar o efeito cômico de suas palavras. Embora aparente estar louca, falta uma outra “loucura” à intérprete, que é uma entrega verdadeira, e sem rede de proteção, ao universo delirante da peça. A atriz trabalha com poucos vetores internos e Margarida não chega a aparecer. Há pouco duelo interior em dona Margarida, pouco conflito com o público de alunos, pouco sentido no espetáculo. Marília se encaixa no tom geral de simulacro da peça, e tem dificuldade para transitar entre os diversos estados de dona Margarida. Na tentativa de compensar tal falha, a atriz passa a fingir: finge que ensina, que está nervosa, que está excitada, finge que os alunos a ameaçam, finge que xinga, finge que tem autoridade, que sofre, que lembra, finge que se desestabiliza. E o público finge que acha graça. Outro sintoma doentio de nossa época: a platéia também simula. É claro que teatro é simulacro, mas existe uma coisa chamada fé cênica. Lembram-se dela?
O enfoque da direção de Bruno Garcia não amplia o texto, mas o limita a uma visão psicológica – dona Margarida parece ser a única desequilibrada, quando o desequilíbrio da personagem é sintoma de um organismo social em crise. A interpretação de dona Margarida como uma lunática é uma leitura de superfície, uma primeira camada de compreensão. Falta uma abordagem mais arquetípica da personagem. O imaginário da encenação é pobre e acentua demasiadamente a porção sexual da personagem. A nossa sociedade já é por demais sexualizada e sublinhar as referências fálicas e inventar outras tantas é buscar o riso fácil. Falta dialogar com o momento político atual, com a nossa sociedade e com o público. Na atual montagem parece que a única tentativa de referência política se limita a uma menção de Brasília, quando Margarida fala que “pouca coisa se vê hoje em dia”. A peça chove no molhado; faltou à direção abordar a ação com mais ironia, mais maturidade teatral. Embora o espetáculo consiga provocar o riso – menos do que deveria – a encenação conduz a comédia como drama psicológico. Se a personagem passa a sofrer, o que fazemos nós? Sofremos mais. Os poucos momentos cômicos do espetáculo parecem querer extrair o riso de algumas referências externas, inseridas na ação da peça, como a banana fálica, a masturbação com o pé da mesa, a brincadeira com “pontos, vírgulas e pontos de interrogação” em determinada passagem, o figurino de prostituta na segunda parte. O texto de Roberto Athayde é longo e merece mesmo alguns cortes, mas é uma pena que a direção tenha cortado a cena em que dona Margarida enumera as diversas possibilidades que se lhe apresentam ao sair de casa para um passeio.
O cenário de Denis Netto não escapa à representação figurativa, apresentando uma sala de aula tradicional, com piso, mesa, cadeira, quadro-negro e luminárias. O figurino de Ticiana Passos é óbvio: dona Margarida de vestido amarelo e bolsa verde; signos de um Brasil mal representado na encenação. Na segunda parte, a atriz veste o clássico traje de prostituta com corpete, meia-calça, cinta-liga. A iluminação de Aurélio de Simoni é convencional. A direção de movimento de Duda Maia é presente durante todo o espetáculo, mas deixa passar algumas obviedades nos gestos da atriz. Poderia ter ajudado a atriz a manter o fôlego enquanto se movimenta, já que não há preparador vocal na ficha técnica. A direção musical de Maurício Barros e Zé Luiz Rinaldi ambienta o universo escolar com o Hino à Bandeira, ruídos de alunos ao longe que se acentuam nas reminiscências de Margarida. Não há grandes vôos na ficha técnica, em geral. E poderia haver, o texto permitia que houvesse.
Ao final, dona Margarida volta-se para o público e diz: “façam o bem”, com cara de que não vale a pena fazer o bem porque a recompensa não virá. É um dos poucos momentos em que a atriz diz uma coisa e revela outra em sua expressão facial. E talvez fosse o único momento em que ela não deveria fazê-lo. É para não fazer o bem? É para autenticarmos a lei de levar vantagem em tudo? É para nos explorarmos e violentarmos uns aos outros? É isso que quer dizer essa dona Margarida? Tem alguém aí chamado Messias? E Jesus? Tem alguém aí chamado Jesus? E Espírito Santo? Tem alguém aí chamado Espírito Santo?
Antes de começar a crítica, vale consultar a palavra sincretismo no dicionário. A soma dos significados está muito próxima da proposta de Paulo Betti e Clóvis Bueno. No Houaiss, temos “fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com reinterpretação de seus elementos”, “entendimento do mundo exterior como uma totalidade indivisível, de configuração complexa e obscura, típico das crianças e do homem dito primitivo” e “fusão de elementos culturais diversos, ou de culturas distintas ou de diferentes sistemas sociais”.
Cafundó começa com Lázaro Ramos se equilibrando em uma torre de cadeiras no meio da cidade. O modo como estão empilhadas já é mágico, praticamente flutuam. Ter alguém em cima apoiado em um pé só, nem se fala. Um grupo de pessoas se reúne em torno para assistir ao número, enquanto uma menina recolhe dinheiro. De repente, Lázaro Ramos desaparece no ar. Ficam lá as cadeiras e as pessoas tentando decodificar pela razão o que não precisa ser entendido. Mudam os truques, a atração que exercem continua.
O filme lembra sem panfletagem ou pieguice que decretar o fim da escravidão não encerrou o preconceito, e que a situação não mudou muito do fim do século XIX para cá. Paulo Betti conta no início da sessão no Odeon que uma rede de cinemas não quis exibir o filme porque o dono era católico e Cafundó, teoricamente, faz propaganda da umbanda e do candomblé. Isso mostra o amadorismo que ainda envolve determinados setores culturais no país, e o preconceito e a estagnação que o filme quer mostrar.
Cafundó – vencedor de diversos prêmios nacionais e internacionais – é uma crônica romanceada da vida de João de Camargo (Lázaro Ramos), um ex-escravo, filho de curandeira, que após receber a liberdade procura o seu lugar no mundo. Na busca por emprego João pula por casas e indústrias, sendo vítima constante da exploração alheia. Devido a situações diversas, acaba fugindo de um canto para outro para sobreviver e nessa andança sua vida muda completamente. A primeira descoberta é a dificuldade de encontrar emprego. A segunda é o amor, na figura de Rosário (Leona Cavalli), muito bem caracterizada como uma Pomba Gira. Com ela, João descobre a traição e a desilusão e mergulha na bebedeira. Trocando as pernas pela cidade, sai sem rumo e desmaia no meio da chuva, em frente a um rio e uma cruz. Ali, tem uma visão com santos e orixás. Sua missão na vida, revelam eles, é ajudar os outros.
João viveu até os 84 anos em Sorocaba, depois de ser capataz de fazendeiro e servir na guerra fundou a Igreja de Nosso Senhor do Bom Jesus da Água Vermelha, tornando-se um líder religioso respeitado. O curandeirismo de João no mundo pós-escravatura incomodou muito a igreja católica, que não aceitava que um negro usasse imagens de santos, pois isso aproximava o catolicismo do candomblé (ou as classes altas das baixas, dependendo da leitura). Quando o preconceito vinha dos negros, João era enfático ao dizer que havia um oceano de distância entre o Brasil e a África, e que falar de santo não era trair o orixá. Quando o preconceito vinha da igreja católica, extremamente influente na política, João era preso sem chance de diálogo, fato que se repetiu muitas vezes em sua vida.
Um símbolo da “totalidade indivisível” do mundo, muito antes que alguém pensasse na palavra globalização é a influência de Alan Kardec na vida de João. Como surge na França um branco que diz que falar com espíritos é normal, isso deixa de ser coisa de preto velho, ex-escravo, gente inferior. A alta sociedade e os políticos precisam se atualizar. Se o Senhor Ministro, tão viajado, chega dizendo que os franceses acreditam nisso, como pode o burguês que tanto quer copiar a Europa, dizer que João está errado?
Ao redor das descobertas de João orbitam personagens e situações que contribuem como elementos individualizados, que não precisam se integrar diretamente ao todo para fazer sentido. Isso poderia dar a idéia de narrativa quebrada e dificultar o entendimento da primeira metade do filme, mas a atmosfera lírica preenche bem os espaços deixados na história e ambienta o espectador para a etapa do filme pós-visão reveladora. A evidente influência teatral da direção, refletida no posicionamento dos atores, na hora em que entram e saem de cena com suas falas certeiras também ajuda no lirismo, assim como os padres, pregadores do fim do mundo, exus e ciganos espalhados aqui e ali.
Lázaro Ramos já participou de Jenipapo, Carandiru, Cidade baixa, O homem do ano, O homem que copiava, Madame Satã, Meu tio matou um cara e Ó pai ó, entre outros. Quem também se destaca e rouba a cena é Flávio Bauraqui, no papel de Exu. Outros trabalhos de destaque incluem Quase 2 Irmãos e Madame Satã.
Existe uma discussão antiga, sobre se a animação está mais próxima da ilustração ou do cinema. A animação usa, a grosso modo, a formação de imagem da ilustração e a persistência da visão do cinema, ficando, portanto, realmente no meio do caminho. Quando fui na Oi Futuro ver Frederico Dalton – Fotomecanismos, saí com a nítida sensação de que, assim como a animação, Dalton fica no meio do caminho. As fotos não se sustentam sozinhas mas este não é mesmo o seu objetivo.
Usando mecanismos diversos ele sugere uma idéia de movimento que não está lá. São quadros projetados nas paredes em loop. Não muitos quadros, uns dois, quando não é apenas uma imagem tremendo. E aí ele não encosta no cinema, não encosta na animação mas abandona a fotografia tradicional. Fica no meio do caminho como todos nós.
As fotos são de praias do Rio de Janeiro e a comparação com o momento que vivemos na cidade é suculenta demais para deixar passar: o Rio também está pouco nítido, repetitivo e inerte, onde o movimento é apenas uma ilusão. Nós temos consciência desta ilusão e não nos deixamos envolver pela suspensão da realidade (que nos promete sempre o cinema).
Existe uma crítica implícita também nos próprios mecanismos: “Meus mecanismos acabam por se revelar como reação crítica às poucas e limitadas condições encontradas no Brasil”, diz Frederico Dalton.
Ainda, um outro aspecto relevante, o da projeção. Projetar uma fotografia implica em uma modificação não apenas em sua fruição mas também em sua estrutura. A imagem projetada utiliza a luz e, portanto, o sistema RGB de composição. A imagem impressa utiliza pigmento e, portanto, o sistema CMYK de composição. Pode parecer a princípio um detalhe puramente técnico mas é uma forma de pensar a imagem completamente diferente. O preto passa a ser a ausência e o suporte, sucetível a interferências involuntárias como a sombra de alguém ou um deselegante flash de máquina fotográfica, passa a ser do espectador, a pertencer ao espectador e não mais ao fotógrafo ou à sala. Sempre que incluimos fatores que não controlamos na formação de uma imagem, a concepção parte do ponto de vista do espectador (assim como no cinema) e não da interpretação anterior à visualização. E aí está uma outra crítica, talvez a maior delas: a arte que não inclui o seu espectador é antiga.
Frederico Dalton – Fotomecanismos
01 de maio a 01 de julho de 2007
Oi Futuro
Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Rio de Janeiro
De terça a domingo, das 11h às 20h. Entrada franca.
Informações: (21) 31313060
www.oifuturo.org.br
A Profª. Drª. Rosa Iavelberg é uma das autoras dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) na área de Artes e diretora do Centro Universitário Mariantônia, da USP (Universidade de São Paulo) onde, desde 2003, já era a coordenadora do setor educativo, tendo realizado diversos projetos voltados à formação de professores da rede municipal e ao contato de alunos dessas escolas com arte contemporânea – Lá Vai Maria, Artes e Temas Transversais e o mais recente Arte Passageira, entre outros.
É também a coordenadora do Curso de Especialização em Linguagens das Artes, na mesma instituição. Por ocasião do lançamento de seu livro mais recente, “O desenho cultivado na Infância” (Zouk Editora), nos concedeu esta entrevista.
A Profª. Rosa é ainda autora de mais dois livros, bibliografias de referência na área de Arte/Educação.
- “Ensino de Arte” (Thomson Pioneira, 2006), escrito em parceria com a Profª. Luciana Mourão Arslan.
- “Para gostar de aprender arte” (Artmed, 2003).
1. Profª. Rosa, como você avalia a atual situação do ensino de arte nas escolas brasileiras?
O quadro é diversificado. Temos projetos com qualidade, mas um número expressivo de escolas da rede pública e privada não desenvolve trabalhos adequados à aprendizagem em arte e não promove a formação cultural.
2. Qual seria, na sua visão, o ideal do ensino de arte nas escolas?
Creio que as equipes de professores e profissionais das escolas e secretarias deveriam ter autonomia para concretizar, em paradigmas contemporâneos, o desenho curricular e a orientação dos professores, com abertura a avaliadores internos e externos para acompanhar as práticas em seus resultados de aprendizagem.
Os aspectos importantes são: a formação dos professores para ensinar arte, programas de acessibilidade aos bens artísticos e culturais, com provisão de meios para acessá-los e, principalmente, a inclusão de arte como área de conhecimento na escola, como forma imprescindível à educação das crianças e jovens.
Além disto, toda ação educativa precisa ser concebida em redes institucionais envolvendo escolas, secretarias de educação e cultura, organizações não-governamentais, universidades, instituições culturais, bibliotecas, associações representativas dos profissionais da arte e da educação. Um sonho assim vale a pena e certamente nos ensinará sobre a diversidade nos espaços escolares.
3. Levando-se em consideração sua visão sobre a importância da arte da vida das pessoas, qual o prejuízo em um ensino de arte feito por pessoas consideradas não capacitadas adequadamente para isso?
O tempo didático costuma ser curto nas escolas brasileiras, se neste tempo não se oferece oportunidade de aprendizagem aos alunos, por falta de profissionais preparados, priva-se o aluno de participação sócio-cultural informada e de ações criativas, nas quais, sua subjetividade dialoga com as produções de pares e artistas em diferentes linguagens artísticas. Além disto, a precariedade das escolhas teóricas nas escolas e as orientações didáticas equivocadas podem imprimir uma visão deformada de arte, afeita a práticas sociais sem qualidade artística e estética.
4. O que deve ser entendido como “arte” na expressão “arte-educação” e por que há uma crítica negativa, dos profissionais da área, em relação à denominação “Educação Artística” para o ensino de arte nas escolas?
A terminologia arte-educação refletiu um avanço conceitual na área de Arte porque incluiu as culturas como conteúdo das aulas e a produção artística como forma contextualizada, deste modo abriu-se espaço para que a diversidade da produção artística de qualidade pudesse ser aprendida nas escolas, aproximando o que se aprende do trabalho dos artistas, críticos, historiadores de arte, agentes culturais.
Na seqüência passou-se a usar Ensino da Arte, sem medo de caracterizar ensino nos moldes da escola tradicional, mas compreendendo a necessidade de um ensino regulado pela aprendizagem, por outras palavras, pelo diálogo entre ensino e aprendizagem, porque na didática contemporânea, com foco na aprendizagem, observam-se as transformações dos níveis de saber e dos modos de aprender de sujeitos singulares (subjetividades diferenciadas), além de reconhecer as mudanças estruturais dos níveis de conhecimento em cada área de conhecimento ou linguagem específica em sua gênese.
5. Qual a importância da arte para a formação das pessoas?
Arte humaniza a formação porque garante às pessoas espaço para interações cuja principal finalidade é o valor simbólico da interlocução intersubjetiva. É possível, por intermédio da arte, colocar-se no mundo de modo autoral, não submisso, percorrendo tempos e espaços variados, gerando modos de conhecer e compreender a vida e a criação, articulando cognição, valores, ação criativa com construção de significados e ainda, percepção e atribuição de qualidades com sensibilidade.
6. Quem pode ser considerado um arte-educador?
Compreendo o arte–educador como um profissional que tem como finalidade ensinar arte com diversos objetivos. Se atua em educação escolar seus objetivos serão diferentes dos arte-educadores que trabalham em projetos sociais, instituições de saúde, presídios, centros de reabilitação. Todos educam e promovem aprendizagens, mas os propósitos sociais e educacionais se diferenciam em cada caso gerando organizações didáticas distintas.
7. Qual a formação que um arte-educador deve ter?
A formação deve perpassar no mínimo: saber sobre arte e saber sobre aprendizagem em arte. Se os modos de aprendizagem implicam em desenvolvimento de percurso de criação em arte do aluno, é necessário que o educador tenha experiência em processo de criação pessoal. Aprender para saber dar aula é um conteúdo procedimental pouco considerado na formação inicial. Responder sobre formação em algumas linhas é impossível. Mas sem dúvida os âmbitos cultural, educacional e gerencial previstos por Antonio Nóvoa tem encaixe perfeito na formação do arte-educador.
8. Como se dá esta formação?
Não se tem uma unidade nas propostas formativas. Somente uma análise de currículos e programas dos centros formativos do país, atualizada e não tendenciosa, poderia elucidar esta pergunta.
9. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases) proíbe o ensino de arte nas escolas por pessoas que não tenham formação específica nesta área?
A LDB prevê que o ensino da arte seja ministrado por profissionais com formação específica, entretanto, na prática ainda não se tem número suficiente de professores com habilitação. Existe abertura na resolução de atribuição de aulas para preencher as vagas com professores de outras áreas para que o aluno não fique sem aulas de arte. Tal fato não colabora para o ensino da arte.
10. Como avalia a formação dos arte-educadores no Brasil? Considera que, na maioria, estejam bem preparados para lecionar arte?
Creio que falta aperfeiçoamento da formação inicial e continuada, apesar de muitos esforços já realizados, a maioria dos profissionais que atuam nas escolas requer mais preparo e atualização nos conteúdos ligados à própria arte, na concepção de currículo e nas modalidades da didática contemporânea com foco na aprendizagem.
11. Em que aspectos seu livro “Ensino de Arte” (THOMSON PIONEIRA) contribui para a formação do arte-educador?
Trata-se de um livro que compõe a Coleção Idéias em Ação projetada pela professora Anna Maria Pessoa de Carvalho da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, voltada para as diversas áreas de conhecimento. A coleção é orientada principalmente para o Ensino Fundamental, no livro parte-se dos fundamentos e ações desenvolvidas na formação continuada realizada pelos professores da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, por intermédio de sua Fundação de Apoio, junto a secretarias estaduais e municipais de educação. A socialização desta experiência visou trazer para professores que atuam em sala de aula e professores em formação bases teóricas, propostas práticas e indicações de fontes de informação.
Neste livro, que escrevi com Luciana Mourão Arslan, orientado às artes visuais, o arte-educador poderá refletir sobre o ensino de arte na contemporaneidade, percorrendo aspectos como a leitura de imagens, as visitas a instituições de arte, orientações para o fazer artístico e subsídios para avaliar em arte, tarefa complexa que requer conhecimento e sensibilidade. Por fim, o livro reúne relatos de práticas seguidos de reflexão que almejam colaborar na formação do professor.
O centro Universitário Mariantônia fica na Rua Maria Antonia, 294 – Vila Buarque. São Paulo/SP. Tel.: (11) 3237-1815 / www.usp.br/mariantonia
Andanças – Vida e Obra de Arthur Bispo do Rosário é um título pretensioso para o espetáculo em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal. As declarações da diretora Paula Feitosa e do ator Alex Mello no programa da peça confirmam a intenção de apresentar quem foi e como viveu esse artista sui generis. Infelizmente o projeto ambicioso fracassa, e quem comparece ao teatro sem saber quem foi e o que fez Arthur Bispo do Rosário, sai praticamente como entrou. Ou, o que é pior, com uma noção equivocada, gerada pela confusão do que se apresenta em cena.
Neste monólogo, Arthur Bispo do Rosário faz (ou parece ser essa a tentativa) sua peregrinação pelos hospícios, apresenta sua visão de mundo e constrói sua obra. Mas a dramaturgia de Alex Mello não faz jus ao assunto abordado, a direção é desatenta e a interpretação do único ator (o próprio dramaturgo) não é satisfatória. Apesar de Paula Feitosa afirmar que o espetáculo propicia o “tempo de desafiar todas as possibilidades do exercício de atuar” e que direção e ator chegaram aonde queriam, com algo que tivesse conexão com “dança, movimento, sem esquecer a palavra, as cantigas de roda, nosso ritmo brasileiro, nossa religiosidade e nossos hinos de fé”, o que vemos em cena é de uma pobreza ímpar. Não apenas em matéria de recursos físicos, nada há de problemático (a princípio) num espetáculo cuja produção é humilde. Mas de uma grande pobreza de recursos interpretativos, de imaginação, de possibilidades cênicas. Fato grave, de uma maneira geral, e mais grave ainda por se tratar de uma tentativa de retratar Arthur Bispo do Rosário.
Alex Mello é limitado vocal e corporalmente; durante toda a representação sua voz pouco se altera, permanecendo com uma monocórdia ressonância de cabeça – o que parece dar também uma aparente importância ao que está sendo falado. Nas poucas vezes em que o ator tenta alguma mudança vocal é nos momentos em que grita, sem nenhuma nuance ou contradição interior. Nem quando declama um texto de Artaud, sua voz se altera. Nem quando desce à platéia, sua voz se altera. Está engessado em cena. Apesar de uma anunciada disponibilidade corporal – o ator se propõe a mesclar dança e interpretação – o que vimos são movimentos repetitivos e limitados; coreografias paupérrimas (como a viagem do barquinho de papel ao som de “Marinheiro Só”), ações pouco expressivas (enrolar um pano, enfileirar palmilhas pelo chão, girar uma roda de bicicleta quando fala de roda, etc.) e uma representação caricata e desrespeitosa de desequilíbrio mental. Quem se propõe a colocar em cena um tema tão delicado, como a loucura, deveria não se contentar com uma imitação externalizada e pouco profunda, pouco justificada e pouco amparada por motivações internas – sejam intelectuais ou emocionais. Para que representar um louco aos berros e com gestos óbvios? Essa é a pergunta: para quê e por quê? O ator foge de mentirinha, é torturado de mentirinha, sofre de mentirinha. A alusão ao martírio cristão na cena do eletrochoque com fitas elásticas não provoca nenhum tipo de comoção. Sua via-sacra mística não encontra respaldo na interpretação. Seus gestos não têm controle técnico nem significação. Ações banais não revelam quem seja o místico louco, o herege devoto, o esquizofrênico atento de que fala o texto.
Aliás, para fazer uma devida homenagem a um artista tão conturbado como Bispo do Rosário, a direção de Paula Feitosa e a direção de movimento de Parisa Karimi teriam que ser mais atentas, não deixando tão desamparado o único ator. Alex Mello chega à puerilidade de montar com as palmilhas um coração flechado ao som de “Se essa rua fosse minha”. E não fica clara para a platéia o que o leva a citar nomes de mulheres enquanto se abaixa e levanta enfileirando as “palmilhas / andanças”. Toda essa pobreza nos faz perguntar: mas quem foi esse tal Arthur Bispo do Rosário para merecer tantas homenagens e reconhecimento? Em cena, o que se vê é um homem louco, chato, óbvio, sem carisma, sem talento. Mereceria um homem assim alguma reverência e destaque? O pouco que se sabe sobre Bispo do Rosário no espetáculo fica por conta da narração em off, mas em cena não se vê o que se narra. Parece uma aula mal dada sobre o artista.
Apesar de constar no texto, não se concretiza esse seu “delírio místico e de grandeza, nem a paranóia extrema e o dom artístico aguçado”; a não ser que se pense que o delírio de grandeza tenha sido suficientemente representado por pernas de pau, ou que gritos e olhos esbugalhados dêem conta da paranóia extrema. Para retratar o delírio místico, não bastam o repetitivo hino de fé (em off) nem a pergunta “você vê a cor da minha aura?” que Alex repete diversas vezes. O dom artístico aguçado fica mesmo ausente no espetáculo, tanto na cenografia e figurino, como na atuação e na direção. Falta carisma ao ator e inteligência à direção. O universo retratado é pouco crível. Nenhum conflito, cisão, divisão, ruptura são propostos em cena. A obviedade reina absoluta no palco da Justiça Federal. As ações se repetem, sem que se extraia dessa repetição nenhum sentido. É falta de imaginação mesmo. Arthur Bispo do Rosário revela em cena: “dizem que o que faço é arte, mas é minha missão na Terra”. Onde foi parar a arte de Arthur Bispo do Rosário e sua anunciada missão? No palco da Justiça Federal, ninguém a encontrará.
Andanças – Vida e Obra de Arthur Bispo do Rosário conta ainda com a participação das vozes gravadas de Milton Gonçalves e Zezé Motta. Milton ora imprime uma gravidade de narrador de História Sagrada, ora lembra alguns apresentadores, como o Homem do Sapato Branco. É evidente sua tentativa de emocionar a todo custo; mas não ultrapassa o esforço. Zezé Motta parece uma narradora de discos de história infantil. Comete grave erro de acentuação tônica, que ninguém percebeu, ao falar dos caminhos “tôrtos” da dra. Nise da Silveira, personagem aliás que passa desapercebida durante a representação. Ou será que fui eu que ouvi errado???
O cenário de Alex Mello e o figurino de Alex Mello e Fabynho Santos pretendem ser inspirados na obra do artista retratado, mas não dão conta da grandeza da obra de Bispo do Rosário. A iluminação de Silvia Schönherr é precária, usa sem nenhum critério as cores amarelo, azul, lilás e verde; é estática e amadora, e quando se altera, o faz sem justificativa dramática, sem estabelecer atmosfera alguma, deixando a luz vazar para fora da caixa cênica. É tão sem personalidade e confusa quanto o restante do espetáculo. No programa da peça, consta ainda o nome de um supervisor de iluminação, João Franco. O que a iluminadora não viu, o supervisor deixou passar.
A trilha sonora (que parece estar a cargo de Ilya São Paulo – não fica claro, no programa) é das mais empobrecidas. Quando é citado o passado de marujo da personagem, toca “Marinheiro Só”; e todo o tempo a música faz um percurso óbvio e piegas, acentuando o que já está estabelecido pela palavra ou pela ação. Algumas pérolas de cafonice completam a trilha, com “Ave-Maria” na cena do eletrochoque, e outros tantos clichês musicais. Ruídos de tráfego, sirenes de ambulância, barulhos desagradáveis lembrando atos de tortura completam a desconfortável ambiência sonora. Todo artifício técnico da trilha e das vozes gravadas de Milton e Zezé afastam ainda mais a relação com o espectador. Poderia o próprio Alex entoar o hino de fé – tema do espetáculo, mas prefeririam que ele entrasse em off. O som pessimamente editado sempre entra num volume mais alto do que deveria, em dissonância com a tonalidade presente em cena. Por vezes, a trilha ainda erra, ao estabelecer um tom mais animado, como o xaxado, que quer trazer um alívio à tensão da situação do protagonista. Mas deveria haver esse alívio? A trilha não dá descanso, ilustra e acompanha todo o tempo a ação dramática, como nos filmes de aventura da primeira metade do século XX. Não há silêncio interior possível.
Segundo o texto, os doentes mentais são como beija-flores, ficam sempre a dois metros do chão. Apesar de Alex Mello evoluir – no fim da peça – sobre pernas de pau, a peça rasteja e não ensaia nenhum vôo. O espetáculo não tem curva dramática, não atinge clímax algum, não constrói nenhum universo, não se comunica com o público, não presta a devida homenagem, não tem significação nem transcendência, não tem beleza plástica, não é contundente, não evolui, não emociona, não revela, não esclarece. Ao final, a retomada do mote inicial, em torno da aura de Arthur Bispo do Rosário, parece ainda confirmar que só os privilegiados conseguem enxergar a cor da sua aura. Se alguém enxergou o azul, não foi por conta da luz nem da interpretação, foi por ser muito generoso e iluminado como espectador.
Gostaria ainda de abrir um parêntese para os textos do programa, auto-indulgentes e com o ator lançando confetes na diretora e ela devolvendo os elogios. Quando é o que o teatro brasileiro vai abandonar esse tom caseiro e piegas de elogiar a si próprio? Deve ser sintoma de baixa auto-estima: “já que ninguém nos elogia, elogiemo-nos a nós mesmos!” Ufa, que chatice!