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Category Archives: edicao_0008

lista de artigos da edição 8, ano 2 – julho & agosto de 2007

Em uma exposição de fotos do Cristo Redentor, a reflexão ausente, e por isso mesmo mais presente, é sobre o conceito de “casa” em uma cidade onde a exterioridade é dominante.

A frontalidade dura, exterior, muda, geométrica e fora da escala humana da estátua-símbolo tenta sua humanização em redes e janelas (foto de Denise Cathilina), na bandeira da porta-bandeira (Milton Guran), na vida das plantas (Marcelo Tabach, Pedro Motta), em brincadeiras de criança (Walter Mesquita, Paula Trope), além da humanização inerente ao uso de tecnologias anteriores à última inventada, e que é a humanização vinda da imperfeição, da falha.

Milton Guran

Rosângela Rennó mais uma vez nos confronta, na sua exposição A última foto, na Caixa Cultural (RJ), com a falha e a intimidade, ambas as coisas cada vez mais elusivas na cidade que se quer de corpos perfeitos e expostos, mesmo se de cimento.

Zé Lobato

Somos todos turistas aqui, como os fotografados por Zé Lobato. Do lado de fora, desejamos entrar, ver de perto, participar, e mostramos nosso meio-sorriso de frustração. E a cidade é a mulher de Luiz Garrido, desejável e falsa, a mostrar um símbolo em vez da pele.

A casa antiga, cujas telhas de barro prometem um pouso mais duradouro, recebe a iluminação e o foco da foto de Patrícia Gouvêa (o Cristo aqui mal se vê, um pontinho no céu noturno). O ponto de vista, contudo, é o do edifício vizinho que a engolfa.

O símbolo da cidade tematiza a exposição através de visibilidades parciais e que registram não só essas parcialidades como o tempo curto gasto para registrá-las. Ou seja, não é só o espaço em volta que muda de fotógrafo para fotógrafo – uns mais de longe, outros na fragmentação do detalhe, na representação da representação. Mas o tempo da visão, o tempo do registro, é freqüentemente bem curto. Mais uns minutos e o Cristo do tríptico de Antonio Augusto Fontes irá sumir do quadro. Na foto de Claudia Tavares já sumiu.

É um não conseguir fazer parte. É a tentativa de fazer parte. Outro exemplo: a quebra dos contornos, agora não mais duros, na transformação do objeto em palimpsesto (Edouard Fraipont, Iuru Frigoletto, Cris Bierrenbach, Ruth Lipschits). Sem limites rígidos, tudo – e nós juntos – podemos fazer parte do mingau monocromático.

Para lidar com o desejo insatisfeito de se sentir parte, haveria duas estratégias: expôr o privado na vida cotidiana – o que as fotos mostram pouco, ou, a segunda, conviver com a privatização do que deveria ser público. Ao enquadrar as máquinas usadas nas fotos junto com as fotos tiradas, Rennó alude à questão ainda não resolvida sobre o direito de fotografar a estátua-símbolo, cujo copyright é reivindicado ao mesmo tempo pela Arquidiocese do Rio de Janeiro e por herdeiros do seu autor. Pode vir um tempo em que não será mais permitido fotografá-la, daí a retirada do valor de trabalho, de uso, das máquinas. A última foto é também a última ceia desse Cristo que, de qualquer modo, não oferecia a fartura desejada pelo nosso apetite.

olympus pen

São as máquinas, aliás, e não o Cristo, as presenças mais doloridas. Têm nomes de gente como Miranda; prometem a realidade como a Realist 35; se referem a canetas de desenho com a Olympus Pen; ou, afetivas, se tratam por diminutivos carinhosos: Beirette, Icarette, Baby Brownie. E nos parecem lindas, muito mais do que o Cristo.

De Amós Oz li recentemente dois belíssimos livros. Suas memórias, que intitulou De Amor e Trevas e a fábula De repente, nas profundezas do bosque. Embora as memórias sejam livro de mais fôlego, interessa-me aqui escrever sobre a história da vila que se viu de repente vazia de animais. O livro traz uma narrativa ágil, repleta de espanto.

O autor opta por compor na contramão do texto, isto é, faz dos homens animais fabulares. A inversão preparada e desenvolvida por Amós Oz tem o mérito de tornar os homens, a quem toda fábula se dirige, personagens que se caracterizam pela existência em um mundo provável, intangível. Fictício.

Sabe-se que as fábulas, na sua origem, promovem deslocamentos verossímeis, quando dão aos animais o dom de expressarem-se com humanidade. As falhas humanas, seus desvios, medos e alegrias estão todas representadas no texto fabular. Moralizam, promovem o bem comum e ideológico da sociedade em que foram gestadas, isto é, cumprem um papel social. Possuem eficácia.

A verossimilhança das fábulas faz com que ela perca os estatutos da ficcionalidade, pois não se fala senão de um mundo moral, pré-concebido como realidade. Não assume tal texto o estatuto de ficção, não se quer como um “como se” que caracteriza, nos tempos modernos, a ficção literária. Ler a fábula como uma ficção tem sido erro que revela não só a incompreensão do que diz como a inércia do leitor em conseguir compreender a própria literatura.

Na base desta inércia se encontram a falta de rigor da leitura e a percepção de que todo texto – desde que passível de aceitação – faz bem ao leitor. Não faz. Muitas vezes o texto é pernicioso, pois faz com que o leitor reafirme seus conceitos preconcebidos sobre a sociedade de que faz parte. Daí a proliferação de textos – muitas vezes insossos – que abundam nas propagandas de incentivo à leitura infantil (e adulta, diga-se de passagem). É, na verdade, um vale tudo – desde que se finja ler, desde que se finja compreender o fenômeno humano. Tais leitores não conseguem sair do lugar em que se entronizaram.

A obra do escritor israelita tem o grande mérito de não tratar o texto (diria maltratar) como clichê. A inversão, que permite ao leitor olhar a si mesmo como produto da fabulação, desloca o sentimento de verdade cristalizado e funda a percepção do homem em um espaço no qual sobressai a diferença. Amós Oz mergulha seus leitores na angústia do acabado, da ausência de história. O que se conta no livro é o que nele se esconde. Os animais que, de repente, conduzidos pela exclusão, somem da vila e se escondem nas profundezas do bosque, vedado à presença humana, desconectam os sentidos usuais da fábula.

Com o sumiço dos animais perdem os homens a capacidade de efabulação. Invertidos os papéis, incapazes de sonhar, incapazes de se comunicar, resta aos homens esquecer o passado e não perpetuar o presente. Sem a noção do tempo, confundidos pela memória do que foi e não mais se encontra, perdem a capacidade de se compreenderem, restando-lhes a chacota, o destrato, os muros erguidos entre eles.

Com o sumiço dos animais perdem os homens seu espelho natural, que lhes diz ainda pertencer a este mundo. Abandonados por este espelho, vagam tristes e solitários pela vila.

O homem é um paradoxo. Misto de ser natural e cultural, pertence e não compreende a natureza, apenas a percebe pelo espelho do outro, pela ação não nomeadora do outro (na anti-fábula, os animais), por isso erige sistemas e regras para buscar compreendê-la. Toda compreensão é cultural, possui linguagem. Findado o espelho, resta ao homem sua cultura que, então, se transforma num código de conduta, num regramento absoluto que termina por travar toda possibilidade de humanidade.

Amós Oz percebe e sofre com o que enxerga: quando se busca apagar as diferenças, a alteridade das culturas, corre-se o perigo de viver cerceado pelas regras que apenas dizem de uma atitude totalitária que afasta a diferença e faz com que se apague o paradoxo de que falávamos acima. Resolvido o paradoxo pela afirmação ou primazia da cultura o homem estará morto.

Na anti-fábula tanto os animais perdem o espelho dos homens quanto os homens perdem o espelho da natureza. Um e outro radicalizam. Um e outro representam metaforicamente a morte.

O belo livro de Amós revela sobre o nosso tempo sua mais terrível face.

Analisar um filme dentro do que ele se propõe. A frase tem se tornado lugar comum, geralmente usada por diretores de alguns blockbusters para justificar a falta de qualidade de seus trabalhos. Afinal, você pode oferecer divertimento sem agredir a inteligência do espectador ou ambicionar um filme de arte. Os recém-declarados rivais Ultimato de Bourne e Casino Royale que o digam. Entender a proposta do filme, entretanto, não é um caminho fundamental para se envolver com o que estamos assistindo. Ao contrário, há diretores e roteiristas que não querem que você entenda nada. Tem gente que gosta de respostas, tem quem prefira perguntas e tem os Zazou, que só querem curtir a vida. Transylvania agrada mais ao segundo grupo, mas traz elementos para os outros dois também.

O filme de Tony Gatlif (roteiro e direção) conta a saga de Zingarina, mulher que vai da França para a Romênia com sua melhor amiga Marie atrás de Milan, um grande amor que foi deportado do país. Passeando com sua intérprete Luminitsa por bares e hotéis, Zingarina tenta encontrar o músico pensando em se casar, para que ele consiga o visto permanente e os dois possam viver felizes para sempre. No meio de uma cultura e um idioma totalmente desconhecidos, a missão parece impossível e… pausa.

Filme de mulher atrás do grande amor? Você deve estar imaginando que depois de rodar todas as ruas da Romênia, Zingarina (Asia Argento) esbarra com Milan em uma esquina, a vida dos dois muda completamente e eles se casam ali mesmo, na igreja em frente, com direito a um beijo bem romântico e erros de gravação durante os créditos. Engano seu.

No começo, enquanto finge ser uma história de amor, torcemos para que Zingarina encontre Milan. E ela encontra. Está grávida dele. Ele não sabe. Nem quer saber. Some daqui de uma vez e me deixa em paz, diz ele. É este o tal do amor. Milan manda a viajante arrumar a mochila e ir embora que ele tem mais o que fazer.

Opa. E agora? Se não é esse o tema, sobre o que fala a história?

A maior qualidade de Transylvania é que ele não é um filme que tenta encontrar, mas se perder. O que parece a trama central em um momento se desmonta totalmente no outro e assim o espectador segue sem saber onde pisar, imerso na cultura romena, participando de festas ciganas, aprendendo sobre o comércio, hábitos, comidas, música, preconceitos e, é claro, bebidas e bêbados.

Transylvania fala da descoberta de si mesmo e do paradoxo (você já deve ter percebido) de que para se encontrar primeiro é preciso se perder. Pois perdida em um lugar estranho, cercada de ciganos, Zingarina vaga como Alice encontrando inúmeros personagens pelo caminho. Alguns são neutros, alguns atrapalham e outros ajudam. De parte deles até conseguimos gravar o nome, antes que desapareçam como se nunca tivessem feito da parte da nossa (da dela) vida. Não sabemos se Zingarina se transforma, porque não a conhecíamos antes da jornada, mas a sensação que fica é de que algo forte aconteceu. Tanto a ela quanto a nós.

Pelo visto, o sentido da vida não estava onde os seus antigos conceitos determinavam, e por isso ela decide testar os novos, se apropria do que não é seu como se o trouxesse desde sempre nas entranhas. Do início ao fim, Transylvania foge da linha narrativa, escolhendo curvas e nunca retas.

Quem precisa de tudo minuciosamente explicado, melhor escolher a sala do lado.

Quem gosta de se entregar ao que assiste, pode descobrir no final de que o filme fala de uma coisa totalmente diferente nas voltas e voltas que dá, assim como esse texto.
Filme bom é assim, uma experiência única para cada um que a vivencia.

Tony Gatlif recebeu o prêmio de melhor direção em Cannes em 2004 pelo trabalho anterior,  Exílios.

A exposição Tropicália, do MAM, não divide as obras participativas das geométricas, as pesadamente políticas das festivas. Está tudo junto, misturado, como misturadas estão as datas. Ficou bom, dá para ver o bom e o perigo desse bom, sempre presente quando o assunto é falar da nossa difícil brasilidade.

O Tropicalismo entrou no lugar da pop-art, que acontecia no mesmo período nos Estados Unidos. Com a pop nunca se sabe se se trata de fetiche ou pastiche. Se é reprodução irônica do consumo ou, ao contrário, se adoração fetichista desse mesmo consumo. Aqui, nenhuma dúvida. Era a ditadura e tudo que se fazia era contra.

(Não tudo, a Bossa Nova, representante do bom-mocismo do Leblon, tinha em um de seus ídolos, Vinícius de Moraes, um funcionário público cuja função como diplomata era defender a ditadura.)

No MAM, hoje, pode-se notar claramente o aspecto contestatório dessa arte na salinha de Antônio Dias com suas obras da década de 60, feitas em tecido estofado, orgânico, para mostrar vômitos e estripações; no Apague a Luz de Hans Haudenschild, com obuses e silhuetas militares. No L.U.T.E. de Rubens Gerchman (e menos, na sua Lindonéia de olho roxo); no Criança, nunca nunca verás nenhum país como este, de Helio Eichbauer, e nas cortinas vermelhas pingando sangue da maquete do cenário de O Rei da Vela. Ou ainda, na outra salinha especial, esta de Carlos Zílio, que em João incluiu o próprio nome na lista dos fichados pelo DOPS, e depois, como número, o 66 de sua prisão, em 1966.

Mas, hoje, já não se nota a contestação que havia no simples fato de se pôr na arte elementos de uma vida popular que se via esmagada pela não-política da época. Por exemplo, em Éden, de Hélio Oiticica, a pedra de brita do chão, que passa despercebida por quem por lá anda, se refere às construções das favelas, em seu nunca acabar de puxadinhos e remendos e que, na época, estavam ameaçadas de remoção e destruição pelos militares. Ou no também bem simples fato de o violoncelista suiço-baiano Walter Smetak usar utensílios domésticos e restos de coco e caçambas para deles extrair música.

De Ana Maria Maiolino há o Schiii, uma boca aberta e muda. De Nelson Leirner há um porco empalhado. Só isso, um enorme porco, que se você olhar bem, tem cara de general. De Leirner também, um Roberto Carlos em altar de santo com neón pisca-pisca a destruir os outros santos, os verdadeiros, postos sem o mesmo destaque, em volta.

Ao lado dessas obras da época, outras recentes, a chegar perto da sempre presente possibilidade de estetizar, e com isso diluir, questões complexas como a brasilidade, ou as dores da ditadura. Como lidar com o Chacrinha de Matthew Antezzo, um enorme tapete feito em 2004, onde a comunicação é representada por um telefone daqueles antigos, de disco, e onde a frase “quem não se comunica se trumbica” seria, com boa vontade, nostálgica, com má, nem sequer kitsch mais? Ou com o vídeo de Dominique Gonzales-Foerster, Bahia desorientada, de 2005, onde cajus rotundos bóiam no mar e negras de lenço branco na cabeça passeiam por praias paradisíacas?

Rivane Neuenshwander, também contemporânea, escapa disso ao manter a acidez no seu Joe Carioca, um vídeo de animação de 2005 onde o nostálgico Zé Carioca se atualiza em cenas de canibalismo e onde o mapa do Brasil recebe tratamento de código de barras.

Há males que vêm para o mal mesmo, mas que, nem por isso, deixam de ter conseqüências proveitosas. As duas ditaduras brasileiras, Vargas e 64, provocaram dois movimentos, o de Tarsila e o Tropicalismo, ambos tentando uma afirmação, uma celebração, daquilo que se pretendia calar. Seja lá o que for, como se defina, esse “aquilo” que deveria ficar calado e comprar o que lhe servem pronto. E sem esquecer que o Tropicalismo, tanto quanto o Modernismo, teve em sua política de exaltação da periferia aspectos bem polêmicos e que serviram ao conservadorismo inerente a qualquer estratificação de nacionalidade, ao caudilhismo popularesco, então como sempre, reacionário.

De 27 a 31 de agosto de 2007 acontece na UERJ a II Semana de Arte e Pesquisa do IART. No programa estão previstas palestras e mesas-redondas de especialistas de diversas áreas de conhecimento em Arte.

A abertura do evento é dia 27 de agosto, ás 18h, no auditório 91, com a palestra de Janice Caiafá e o lançamento do número 10 da revista Concinnitas, publicação do departamento.

Programação:

MESA 1. História e Confrontações
Mediador: Roberto Conduru
Terça 28, 9:00-12:00

Rafael do Sacramento Fonseca
“Michael Angelvus Pictor” – Michelangelo Buonarroti retratado por Francisco de Holanda

Ana Angélica Teixeira Ferreira da Costa
Uma história da visualidade dos séculos XVII ao XXI: formação e desenvolvimento do olhar e da subjetividade contemporânea

Fernanda Ferreira Marinho Câmara
Discussão autográfica: uma problemática atual

Kriciane de Assumpção Ferreira
Entre o táctil e o visual – sobre a natureza da produção plástica infantil

MESA 2. Espaço e Visualidade
Mediador: Vera Beatriz Siqueira
Terça 28, 18:00-21:00

Inês de Araújo
Falsas pistas

Gilton Monteiro Santos Junior
Eduardo Sued: o labirinto lírico da pintura

Joana Xênia Rabelo Ferreira
A construção do espaço em Piero della Francesca, Velásquez e Picasso

MESA 3. Transfigurações e Narrativas
Mediador: Aldo Victório
Quarta 29, 9:00-12:00

Gustavo Borges Corrêa
Drag-queens, travestis e transformistas: os travestimentos transgenéricos e as representações do feminino no carnaval carioca

Rafael do Sacramento Fonseca
Peter Greenaway, Frans Hals, Hironymus Bosch e a gula

Pablo Oliveira dos Santos Alves
Universo funk

MESA 4. Imagem e Sacralidade
Mediador: Ricardo Gomes Lima
Quarta 29, 18:00-21:00

Evelyne Azevedo
A arte de Amana: permanências e rupturas na arte do período de Akhenaton

Bony Braga Schachter
Taoísmo: arte e sacralidade

Analu Steffen
A estética diaspórica e a dádiva das Pêssankas

MESA 5. Corpo e Processualidade
Mediador: Regina de Paula
Quinta 30, 9:00-12:00

Kate Lane Costa de Paiva
O uso do corpo no candomblé: saber e memória

Maria Cristina Rezende de Campos
O corpo emana: elementos da plástica corporal xavante

Elena O’Neill
Fotografia performática

Roberta Schiberras Grigoletti
Processos, vivências, situações: sobre as delimitações da obra de arte contemporânea

MESA 6. Arquivos e Monumentos
Mediador: Roberto Corrêa dos Santos
Quinta 30, 18:00-21:00

Mariana Gomes Paulse
León Ferrari: estranhamento e intensidade

Amana Carneiro da Matta
Operações anti-monumentais e o diálogo arte-sociedade a partir das obras de Jochen Gerz e Esther Shaleu-Gerz

Cristina Thorstenberg Ribas
Desarquivando o arquivo de emergência: documentos

Cátia Alves Pinto
Projeto de catálogo de desenhos infantis

MESA 7. Imagem e Subjetividade
Mediador: Malu Fatorelli
Sexta 31, 9:00-12:00

Pablo da Cunha
Reflexões sobre a Santíssima Trindade da arte: espectador, obra e espacialidade

Daniela Corrêa Seixas
Desenhos de caderno

Monica Cauhi Wanderley
O ato subjetivo

Depois de quase meio século de leituras, o que posso esperar de um livro? No mínimo que “o inesperado faça uma surpresa”. E caso você seja daqueles que percebe em tal expectativa doses de ingenuidade, fico aqui a lamentar o seu equívoco.

O inesperado tanto pode estar ao lado como distante, muito distante. Encontrá-lo vai depender do talento dos editores que no mais das vezes optam pela comodidade da compra dos best-sellers d’além mar. Exemplo: perceberam que de uns tempos pra cá o fato de escritor tal ser português já é o bastante para merecer status de “grande?” Mas aqui na minha biblioteca essa banda não toca, mas não toca mesmo! E pelo visto também não toca pros lados da Bertrand Brasil, editora que corre na contra-mão da mesmice e com conhecimento de causa, ela publica Camilo José Cela, voltou seu olhar para a Espanha e de lá trouxe o surpreendente “Maldita Morte”, de Fernando Royuela.

O inesperado em Maldita Morte surge na primeira frase, não há o menor desperdício nesse livro indispensável àqueles que ainda acreditam na literatura de qualidade e na necessidade que o homem tem de se emocionar. Parece exagero? Calma, tem mais, muito mais e se muito também aqui não direi é pensando em vocês, futuros leitores do livro, pois não quero privá-los das agradáveis surpresas que me assaltaram durante a leitura. Adianto apenas que o desfecho é obra de gênio. Duvido que vocês, chegando ao ponto final, não se sintam estimulados a recomeçar a leitura dessa grande obra literária.

O anão Gregório (também atende por Goyo, Goyto ou Gregori) é o protagonista, anfitrião e narrador. Ele acaba de receber uma visita em seus derradeiros dias. Goyo divide algumas semelhanças com o Jean-Baptiste Grenouille, desafortunado personagem principal de O Perfume, do alemão Patrick Suskind, aqui ressalto apenas a fascinação pelos perfumes, o fato de serem desprezados pelas respectivas mães e se Grenouille não tem cheiro, Goyo não passa de um anão deformado.

Antes porém de entrarmos na história propriamente dita, permita, caro leitor, breve exposição sobre o que caracteriza uma grande obra literária.

Ela obrigatoriamente precisa ser única, e, no caso, sequer a tradução a despoja dessa característica, outro aspecto é a capacidade de permitir um número incalculável de leituras, o que no entender de Umberto Eco a torna “aberta”.

Dito isso voltemos ao anão Gregório que cresceu (aqui mera força de expressão) vítima da maldade, do escárnio e da brutalidade, inclusive de seu irmão, Tranquilino, enquanto este viveu, “Um trem de carga levou-lhe pela frente a primogenitura”. Sua mãe acumulava funções em nome da sobrevivência e uma delas era a de prostituta. Como desgraça pouca é bobagem e provando que até o amor materno guarda lá suas limitações, Gregório acaba vendido ao dono de um circo que cumpria temporada na cidade. É justamente no circo que o anão gasta sua juventude expondo a bizarrice de sua condição em troca da mera garantia de sobrevivência. O circo também pode ser encarado como a metáfora da alienação que emana do capitalismo revelando o labirinto sombrio da sociedade, cada vez mais, de consumo.

Maldita Morte é o que se pode considerar um romance pós-moderno onde as fronteiras da ficção e História (a história recente da Espanha) são apagadas em nome de uma evolução ou superação do alcance da linguagem. Parece simples? Podem crer, não é. É necessário que de tal amálgama resulte uma totalidade forte e sensível o bastante, a ponto de ensejar a reflexão do leitor e que a união dialética entre o que se passa no seu âmago e o que reside fora do homem, não seja desprezada. Para tanto Fernando Royuela convocou um exército de personagens incomuns, complexos, capazes de desfiar humor e drama na medida exata. Caso me fosse perguntado sobre o objeto do romance não teria a menor dúvida em apontar a vida e sua mais talentosa coadjuvante, a liberdade.

Maldita Morte é um romance desprovido de amor, o máximo que se pode identificar seria a sua intenção, no mais, eflúvios do desejo carnal e piedade. Sendo assim, podemos então identificar uma trama sombria? Ainda não, as doses de crueldade e contradições aproximam o enredo de uma realidade bem mais cínica e que, mesmo assim, teimamos em não considerá-la sombria.

Gregório está longe de ser ou parecer um herói, o máximo que consegue é granjear a comiseração do leitor, só do leitor porque ao longo da trama não lhe é destinada a menor migalha de amor ou mesmo solidariedade. Quando algo parecido com essa dependência recíproca aparece, não é nada mais que uma simples troca de favores onde o mais frágil sempre acaba perdendo.

Ciente de sua precariedade e de seus limites, Gregório não precisa determinar o sentido de sua vida, a seu ver ele já está traçado, no entanto, embora apenas verbalmente, o anão tenta ser um homem livre e faz do cinismo sua arma mortal.

Com ele na bagagem chega a Madri nos estertores do regime franquista e logo consegue a proteção de um chefe de gang de mendigos em troca da delação de comunistas. E é justamente investido na função de espião que Goyo encontrará aquela que lhe abrirá as portas da redenção, ou da liberdade como preferirem.

O anão é um personagem dos mais complexos e suas ações, nunca desprovidas de uma ambigüidade e de uma lógica particular, provocam no leitor reações de amor e repulsa como a lembrar que no íntimo, bem lá no fundo, somos todos quase iguais, embora alguns esbanjem talento e criatividade.

Para concluir, caro leitor, Maldita Morte é um dos melhores, senão o melhor, lançamento do ano e fiquemos na expectativa de que a Bertrand não tarde em lançar os títulos de Royuela ainda inéditos por essas plagas.

Como Gregório usa e abusa do cinismo para se defender, convém lembrar que estamos na época mais cínica do ano e na dúvida do que presentear, o faça com um exemplar desse livro que também vale por uma aula de teoria literária. Em se tratando de função poética da linguagem há muito que se aprender.

Confesso que foi difícil, mas se consegui me controlar até aqui não seria agora que revelaria o magistral desenlace dessa história que não tem fim.

Maldita Morte. Bendita Literatura!


Trechos

“Ao longo da minha vida conheci uma infinidade de filhos-da-puta e a nenhum desejei uma morte ruim. Com você não vou fazer uma exceção. O ser humano perdura pelo mundo sem se dar conta da tragédia que o aguarda. Uns inventam deuses para remediar a angústia, outros, ao contrário, atendem ao imediatismo do prazer para afugentar o inevitável, mas todos no final são medidos pela rigorosa igualdade da extinção. Eu já estava advertido do fim, mas jamais pensei que fosse acontecer dessa maneira.
Sei a que veio, mas não importa. Nunca até agora tinha me enfrentado com a certeza de deixar de existir, e por isso sua presença, antes de me atemorizar, deprecia-me. Agora compreendo que minha existência tenha estado encaminhada desde o princípio para nosso encontro; que meus passos estivessem condenados até este instante, que não me fosse possível escapar ao meu destino por mais que pretendesse absurdamente, que ninguém, nem sequer os entes queridos, jamais irão chorar minha perda. Sei que você veio para se regozijar com o espetáculo de minha morte, constatei-o na ferrugem dos seus olhos, no limo de sua curiosidade, mas já não temo a inexistência.”

“’Merda de vida’, exclamou o ex-presidiário quando terminou com o prato, ‘uns buscando um amo a quem servir sem pensar e outros em busca da liberdade para poder pensar e não servir’. Aquelas palavras tiveram o efeito de sacudir minha inteligência como um choque de honradez e por elas me apercebi de que na espécie humana, embora totalmente inútil, podia haver também um fio de grandeza que transcendia a mera subsistência cotidiana; um desejo impossível por encontrar a localização da justiça e atém mesmo por praticá-la, uma vontade não cultivada de socorrer os semelhantes sob o lema de igualdade e fraternidade, que em virtude de complexos passes de mágica não desaguavam em proveito próprio. Acaba de descobrir o franciscanismo laico dos marxistas, um pensamento belo e impossível que logo haveria de mudar novamente o curso de minha existência e impulsioná-la, como se ainda fosse possível, pelos terrenos da demagogia, da farsa e do interesse.”

O artista fala de água e realmente. Se você passa, suave, são água, ondas, os desenhos feitos com os azulejos sobrepostos da exposição Sobrevôo, na Galeria Mercedes Viegas. Têm esse nome porque também podem ser vistos como paisagens áreas de campos arados, com seus desenhos sinuosos.

Mas aí você chega mais perto.

Meu negro meu madeira meu mamoré, de Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Luiz Monken tem um histórico de obras em que não dava para chegar mais perto do que já se estava: fotos de meninos de rua, lençóis rasgados, punhos ensangüentados. Ele achava que tinha saído dessa temática.

Não exatamente.

Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Se usasse hoje – passado esse tempo de denúncia – esses mesmos vestígios humanos, metonimicamente tão próximos, ele estaria apresentando uma obra cujo significado seria anterior à feitura, de uma existência independente de interpretações e, mais do que isso, com um significado e uma existência que seriam ameaçados pela interpretação artística.

Do jeito como faz, ele recupera uma hermenêutica mediada pelo pensamento. Seus azulejos brancos continuam tão acusatórios quanto o são quaisquer séries de fotos de vítimas, Carandiru, Auschwitz.

Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Mas, brancos e silenciosos, carregam suas cicatrizes reflexivamente (nos dois sentidos: há uma reflexão, um conceito, e, além disso, os azulejos refletem a luz na sua superfície e na do talhe, que é negro ou luminoso, a depender da sua posição em relação à luz). Ao pensar além de mostrar, Monken suspende a empatia acrítica e entra na política.

Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Os azulejos são quadrados brancos empilhados e cortados. Alguns não são empilhados, são só superfície. A análise formal escamoteia uma outra metonímia, não tão próxima quanto pedaços de roupa e olhares suplicantes mas, por isso mesmo, mais eficaz. Essa outra metonímia é a seguinte: o azulejo é um objeto que também remete a uma intimidade humana. É coisa de banheiro, de cozinha – e não de sala de visitas. Montados como o são, suas ondas são as camadas de uma derme de cimento, a que nos cobre e abriga. São humanos.

E são objetos (há pedras e madeiras também). Aqui, as faces expostas na sua dor e na sua acusação estão portanto objetificadas. De certa maneira igualadas, nulificadas, embora haja, a identificá-las, para cada uma, uma cicatriz única. Mas o que poderia ser um aplastramento da contundência tem, contudo, efeito contrário. São muitas as vítimas, e elas são as “nossas” vítimas. A consciência que sua presença nos dá nos forma em nossa identificação/alteridade. Auto-consicência é má-consciência, na frase lapidar de Levinas. É dessa dor que nos formamos. Dependemos dela.

Luiz Monken - fotografia de Roberto Lehmann

Mas Monken não retrata, observador ou passante, essas faces que refletem. Ele as constrói. Seu discurso não está lá para falar pelo outro, por aquele que foi machucado para que lucrássemos com isso. Ele o produz, esse outro, ele é ao mesmo tempo aquele que machuca, agride, e aquele que depois acusa os que não estão machucados. Ao recusar a passividade confortável das testemunhas, incluindo aí as de acusação, Monken também não nos permite conforto algum. Ele está lá para lembrar que a violência pertence ao campo das possibilidades. Para cada um de nós.

Saneamento Básico – o Filme é uma comédia que critica as políticas sociais e culturais do Brasil. Fala da comunidade de Linha Cristal, uma pequena vila na serra gaúcha, que não agüenta mais sentir o cheiro de esgoto da região. Eles se reúnem para montar a proposta de construção de fossa, com orçamento, prazos e comissão de acompanhamento, que será encaminhada para a prefeitura. Só há um pequeno problema: a prefeitura está sem dinheiro. Não há um centavo para obras de saneamento naquele ano. A única verba disponível é para um projeto de cinema em pequenas cidades patrocinado pelo governo federal.

Os concorrentes precisam filmar um curta de ficção de dez minutos e entregar o vídeo, projeto e roteiro na prefeitura. O vencedor leva R$10.000 de prêmio. Caso ninguém se inscreva no projeto e ganhe o concurso, a verba será devolvida para Brasília. Como todos acham um absurdo devolver dinheiro para Brasília, e a Linha Cristal precisa de verba para construir a fossa, os moradores decidem filmar um curta ecológico para ganhar o prêmio e dar um jeito no esgoto.

Saneamento Básico - fotografia de Fabio Rebelo Saneamento Básico lembra o estilo de Meu tio matou um cara. É uma comédia leve, com clima de sessão da tarde, quase uma peça de teatro, com cenas isoladas que não mantêm o fluxo da narrativa. Não há nada que lembre os trabalhos anteriores de Jorge Furtado, como Houve uma vez dois verões, O homem que copiava ou o curta Ilha das Flores.

A história, simplória demais, deixa a impressão de que só renderia um curta e não um longa. Do mesmo modo que vemos os personagens enrolando nas filmagens para que o curta chegue a dez minutos, nos sentimos enrolados com cada diálogo espremido até a última gota, sem que nenhuma informação relevante seja transmitida.

Falta ainda um pouco de ironia e sarcasmo nas tiradas que deveriam fazer rir. São raros os momentos que ultrapassam a área segura do politicamente correto, a maior parte deles com a personagem de Camila Pitanga. A atriz foi a única a achar o tom certo para a personagem, fugindo do estereótipo de pessoa tacanha que não mora em cidade grande. Apesar das alfinetadas em políticos e piadas sobre o processo de criação, Saneamento Básico não disse a que veio.

O filme conta também com Fernanda Torres, Wagner Moura, Bruno Garcia, Lázaro Ramos e Paulo José, entre outros.

Harry Potter, mais do que cultura, literatura ou cinema, representa números. Então vamos a eles:

Harry Potter e a Ordem da Fênix custou US$150 milhões. Em 20 dias arrecadou mundialmente US$700 milhões, movido por críticas razoáveis e o frenesi dos fãs que acabam de receber o último livro da série. Harry Potter e o Cálice de fogo, que teve o mesmo orçamento, arrecadou nos cinemas um total de US$892.882 milhões. Já o terceiro filme, considerado o melhor até agora, custou US$130 milhões e arrecadou US$789.805 milhões, aproximadamente. Harry Potter teve estréia mundial, já conquistou a maior parte de sua receita pelo mundo, mas ainda deve subir as cifras em pelo menos US$150 milhões. Fora a venda de dvds, brinquedos e produtos variados.

Entende-se então a preocupação dos estúdios em torno do projeto que, verdade seja dita, tem seus méritos.

Harry Potter e a Ordem da FênixUm deles é contar só com atores ingleses. Ter em um mesmo time Ralph Fiennes, Gary Oldman, Emma Thompson, Maggie Smith, Michael Gambon, Alan Rickman e Imelda Staunton deve significar alguma coisa. Por si só, a constelação já coloca o filme em um patamar superior. Vale lembrar que essa foi uma imposição da escritora JK Rowling.

Outro acerto da produção foi variar os diretores. Depois de Mike Newell (do cult Donnie Brasco e Sorriso de Monalisa), Alfonso Cuarón (Y tu mamá también, Grandes Expectativas, Filhos do Amanhã) e o inexpressivo Chris Columbus (Esqueceram de mim, Uma babá quase perfeita e O homem bicentenário), é a vez de David Yates, vindo do universo da televisão e responsável pelo próximo filme da série.

A formação de David Yates talvez explique porque Harry Potter e a Ordem da Fênix é um amontoado de diálogos que pouco giram a trama e chegam a dar sonos nos menos aficionados.

Como sempre, o filme é dividido em duas partes. Uma conta a história central do retorno de Lord Voldemort e sua rivalidade com Harry Potter, a outra enrola o espectador de formas variadas. Dessa vez coube à personagem Dolores Umbridge (Imelda Staunton) fazer esse papel. Ela é uma professora conversadora, que quer restabelecer antigos padrões de conduta na escola Hogwarts. Ela também é amiga do Ministro da Magia, que por algum motivo descabido (talvez por não ter visto os filmes anteriores) acha que o retorno de Voldemort é uma mentira de Harry Potter e Dumbledore. Graças aos seus bons contatos, Dolores vai assumindo o controle da escola e submete seus alunos a métodos disciplinares que ultrapassam os limites da tortura. Como ela é uma professora de Defesa Contra Artes das Trevas que não ensina magia, os alunos resolvem se reunir escondidos para treinar e poder se defender de Voldemort.

Sem exagerar nos efeitos especiais, o filme se baseia em diálogos contínuos para criar um clima de intrigas políticas, com traições a todo instante e, para variar, conflitos em torno do nome e fama de Harry Potter. No final, fica a impressão de que tudo não passou de uma grande enrolação, levantando preocupações quanto ao próximo filme, já que ainda faltam dois para a série terminar.

Emma Watson e Ruppert Grint, infelizmente, estão mais coadjuvantes do que nunca. Com o foco em Daniel Radcliffe, os dois atores acabam perdidos na miscelânea de estudantes de Hogwarts. Gary Oldman e Ralph Fiennes aparecem pouco, mas sempre valem um ingresso.

O grande destaque fica por conta de Evanna Lynch, que nunca atuou, mas dá um show de interpretação com a mórbida e quase psicótica Luna Lovegood. A melhor personagem entre os apáticos alunos da escola.

Se você gosta de filmes de espionagens, não deixe se afogar pelo mar de Harry Potter e Transformers e vá assistir Quebra de confiança. Apesar de não contar nem com um quinto do marketing dos jornais e não ser um blockbuster para os padrões americanos (o filme ainda não passou de US$40 milhões), Breach, no original, é um filme bem planejado, que dispensa perseguições alucinantes em avenidas movimentadas, explosões de mansões, seqüestros familiares intermináveis e coisas do tipo. Toda sua força está nas atuações, direção e roteiro. Como deveria ser sempre.


Quebra de Confiança

O filme conta a história do maior traidor que o FBI já teve. Robert Hanssen (Chris Cooper) entregou mais de 50 colegas para os russos, vendeu informações confidenciais durante anos, causou um enorme prejuízo ao órgão de inteligência americano e a morte de alguns parceiros de trabalho. Foi pego por muito pouco em 2001, meses antes de se aposentar, em uma das maiores operações já realizadas pelo FBI. Tudo isso graças ao novato Eric O’Neill (Ryan Phillippe), que tinha como sonho se tornar um agente e teve a sorte/azar de começar como assistente de Hanssen.

Em princípio, seus superiores o informaram que Hanssen era um pervertido sexual que usava a Internet para publicar textos e trocar vídeos pornográficos. Seria um escândalo, diziam. Mais tarde, Eric descobriu que estava tentando desmascarar um dos maiores espiões de todos os tempos.

Como a história é real e o espião é conhecido desde os primeiros cinco minutos, é necessário muito cuidado para manter o clima de suspense. Ele precisa girar em torno do emocional dos personagens, de seus medos e motivações, e é isso o que acontece. O diretor Billy Ray é muito habilidoso ao mostrar esse momento da vida de O’Neill, em que ele realiza seu sonho profissional e descobre que estava perseguindo uma ilusão. A amizade que desenvolve com Hanssen e sua esposa, ambos católicos fervorosos e conservadores (sim, mesmo com os vídeos pornográficos feitos em casa), acaba afetando sua mulher, Juliana O’Neill (Caroline Dhavernas), que é atéia e sente a privacidade invadida com os dois pregadores tentando convencê-la das maravilhas da religião no seio familiar. Como não podia deixar de ser, Eric, que também tem um passado religioso, começa a admirar o chefe e duvidar de que ele seja mesmo um espião.

As atuações são muito boas e fundamentais para o clima de espionagem. Chris Cooper (Capote, Syriana e a série de Bourne) consegue deixar o espectador nervoso com cara revirada de olhos que dá. Ryan Phillippe (Gosford Park, Conquista da Honra, Studio 54, Crash) não tem o brilho de Cooper mas também se destaca, mostrando os conflitos internos de Eric e os efeitos da responsabilidade que carregou sobre os ombros. Laura Linney (O Exorcismo de Emily Rose), que faz a chefe de Eric, aparece pouco, mas também tem participação fundamental.

Billy Ray assina o roteiro com os novatos William Rotko e Adam Mazer.

Histórias populares, no mundo inteiro, são sempre maniqueístas, variações de lutas entre um bem e um mal, moralidades rígidas por um lado mas suficientemente elásticas por outro para incluir mau-caratismos e espertezas várias quando se trata de um “fraco” vencer um “forte”.

E aí vem o Brasil, a capoeira e a literatura de cordel, e o bem e o mal começam a negociar.

cordel - Histórias e Bravuras de Besouro cordel - Mestre Camisa 50 anos de lutas e vitórias cordel - Zumbi & Bimba símbolos da resistência Afro Brasileira cordel - O encontro de Luiz Gonzaga com Mestre Waldemar no céu

No cordel de apresentação de seu personagem, Lobisomem, o capoerista e cordelista Victor Alvim Itahim Garcia, do grupo Abadá Capoeira, diz a respeito de si mesmo: ninguém lá é perfeito. Ele lê este verso e começa a jogar sua capoeira dançada, uma negociação entre investidas e defesas. Mais (ou menos) do que uma luta, uma longa conversa de pernas e pés com seu oponente-parceiro.

Dele também, os versos de abertura do cordel Zumbi & Bimba:

É claro que não podemos
Nunca generalizar
A minha intenção não é
De querer polemizar
Pois todos têm liberdade
Pra sua versão contar

Ou, no cordel em que ele homenageia Mestre Camisa, fundador do grupo:

Como todo ser humano
Muitos defeitos tem
Como ninguém é perfeito
Ele erra muito também
Mas a sua intenção
É sempre fazer o bem

Lobisomem em evento de lançamento de cordel - fotografia de Roberto Lehmann É uma distância grande em relação a, por exemplo, os contos de fada originados na Europa, onde um desfile de fracos-bons e fortes-ruins têm, depois de várias crueldades de parte a parte, seu destino modificado graças à intervenção sobrenatural. Ou aos contos hollywoodianos contemporâneos, que seguem o mesmo molde.

Relatos populares têm finalidades precisas. São ensinamentos de sobrevivência e resistência para situações limites e, dentro dessa estratégia, são também instrumentos de integração universalistas. Neles, personagens locais se ligam a arquétipos universais e o indivíduo, eivado de estereótipos psicológicos e sociais – heróis, cenários específicos como encruzilhadas ou estradas, e um tempo colocado em um passado distante ou, no caso hollywoodiano um futuro igualmente distante – se transforma em um ator que exerce sua subjetividade como em um teatro. O problema é que tal linguagem anuncia a crítica e ao mesmo tempo a cancela. Ao se tornar uma encenação que se repete, mesmo se variando detalhes do rito, o relato mostrará uma crítica não mais sobre o poder que oprime o grupo social naquele momento, mas a partir de um poder, o do mito.

O que o sotaque brasileiro traz de interessante é que, ao tornar falível o bem e palatável o mal, não abre espaço para o conceito de que haja algo perfeito de antemão, algo que nós, humanos, devemos nos esforçar para alcançar e uma vez lá, não mais modificar. Sem perfeição à mão, entra obrigatoriamente a negociação.

Viva nóis.

Lobisomem em evento de lançamento de cordel - fotografia de Roberto Lehmann Lobisomem em evento de lançamento de cordel - fotografia de Roberto Lehmann Lobisomem em evento de lançamento de cordel - fotografia de Roberto Lehmann

Eu tinha uma pergunta específica para fazer às obras expostas na exposição Ver e ser visto, da Repercussivo (RJ).

Essa galeria trabalha com artistas jovens, em início da idade adulta e da profissão. Eu queria saber o quanto eles vêem do que está à sua volta e o quanto eles, ao contrário, apenas querem ser vistos. Eu queria saber se eles aspiram a uma identidade (e papel) social.

De antemão, eu achava que não.

Mas sim.

E em dois níveis, um mais profundo do que o outro.

O menos profundo fica por conta do tema, bem poucos, de cunho social ou crítico. O mais profundo vem pelo modo como seus temas – não importando quais sejam – são tratados. E há os intermediários.

Alexandre Hypólito - fotografia de Roberto LehmannAlexandre Hypólito colou uma foto de uma infância antiga em toras velhas de madeira. Integrou madeira e foto no recorte irregular e nos fios de tinta que recobrem o conjunto. O menino deixa portanto a esfera privada, biográfica e individual, para representar um tempo passado com uma relação menos intermediada de trabalho, e portanto produtora de vínculos sociais mais claros. É a madeira, achada, que denota esse uso de trabalho. Tal tempo ressurge, ao ser fotogrado, e nos critica, a partir de seu despojamento não consumista – a foto é em PB. O título dado por Hypólito, contudo, desmente essa leitura: Reo ab incunabulis – preso desde o berço – é queixa de quem ainda não se libertou de peias, não mais sociais mas psicológicas.

João Penoni também se sente preso. Sua AcroGrafia é uma montagem de fotos feitas com um personagem se exercitando em uma barra, dentro de um banheiro minúsculo. As fotos são cortadas em forma de trapézio. A escolha desse formato para as fotos produz uma ilusão de perspectiva – que se estenderia até o horizonte, caso horizonte houvesse – e isso aumenta ainda mais a claustrofobia do espaço representado. Na utilização de um cenário típico de moradias modernas e urbanas e na solidão dos movimentos de ginástica, que não têm utilidade exterior a eles mesmos, Penoni faz um bom retrato do cotidiano de grandes cidades.

Raul Leal - fotografia de Roberto Lehmann Raul Leal (díptico) - fotografia de Roberto Lehmann

Raul Leal de todos é o que mais abdica de divisões nítidas do tipo “eu vejo o mundo e eu quero ser visto pelo mundo”. Seu mundo sem contornos fixos, impressionista, integra-se e integra-o em um mesmo chão de rua. No díptico apresentado, contudo, o ponto de vista é o aéreo, que esmaga e desconsidera a figura humana.

Tereza Costa - fotografia de Roberto Lehmann

A política de gêneros está representada por dois artistas, duas mulheres. Tereza Costa mostra a sua De nenhum lugar. Para onde importa? onde uma mulher transparente, quase invisível, dá as costas ao fruidor, nega-se portanto ao confronto, à luta. Luiza Baldan faz uma comparação pouco sutil entre um ícone sexual, Marilyn Monroe, e doces ofertados em prateleira de padaria.

Sandra Schechtman - fotografia de Roberto Lehmann Sandra Schechtman, na colagem Ipê, também mostra um chão. Este é habitado pelas sombras de personagens cortados parcialmente pelas fotos. Aqui uma mão, ou um pé. Reveladora é uma inscrição fotografada em uma das tábuas do chão: um “estivemos aqui”, seguido de nomes e uma data. A tentativa tão comum e, nem por isso menos desesperada, de marcar uma presença profundamente individualista no mundo.

Paula Kossatz usa o símbolo gasto do olho que olha quem olha. O tríptico Crer para ver apresenta um olho que olha para a direita, para a esquerda e para a frente. Neste último, uma câmerazinha filma quem está na frente. Aqui nada há para ser gostado, ou não gostado. A idéia não é original. Fica a execução correta do projeto, o que é pouco.

Mel Guerra usa espelhos pintados no Cotidiano da vaidade, o que faz com que você veja a pintura e se veja ao mesmo tempo. Também um conceito pouco original, embora as pinturas sejam boas.

Rodrigo Torres é um bom pintor. Fez uma paisagem onde a silhueta de um observador, em primeiro plano, está integrada ao resto. Um registro mal visível, que não interrompe nada. Cabe aqui uma comparação interessante e altamente favorável ao jovem artista. Na recente exposição de arte chinesa contemporânea, a Coleção Uli Sigg, no CCBB, o artista chinês Fang Lijun, um dos mais importantes de sua geração, também traz um observador retratado ao observar uma paisagem. Ao contrário de Torres, porém, Fang Lijun, cujas telas valem alguns milhares de dólares, não integra seu personagem, ao contrário, faz com que ele domine seu entorno, em uma assertiva arrogante.

Também estão presentes Alexandre Mascarenhas, Raquel Garcia, Sonia Melman e Felix Richter. Este último faz parte da lista dos que integram, e se integram, ao mundo. O faz pela cor. Integrado mas não realista, Richter mostra um inferno povoado de monstros. Ou realista, se quisermos ser pessimistas.

A relação entre autor, fruidor e esse tempo sempre duplo da fotografia (o do que foi fotografado e o da fotografia propriamente dita) têm aqui uma unidade. Alguns dão as costas ao mundo, outros integram-se a ele, mesmo que ao seu chão. O tempo é o da presentificação mitológica ou histórica. E há os que registram o pouco espaço que a sociedade oferece para quem chega. Seja como for, esses artistas, todos eles, ensaiam uma resistência à apropriação hegemônica do olhar.

Quase todos. A exceção – em maior ou menor grau – ficando com os que se apóiam na excelência técnica para repetir conceitos já assimilados.

A dupla estratégia do corte e recorte da figura humana, e a da repetição, nos dípticos e trípticos presentes, traz uma contestação incipiente ao poder, incluindo o autoral. A relação entre o ver e o ser visto, apresentada com várias integrações por textura, cor e composição, se torna assim mais de interação fluida do que de oposição. O que talvez seja uma boa notícia, um individualismo renitente que se anuncia mais problematizado.

Não escondo a minha grande admiração pelo trabalho de Alberto Sughi. Gosto de tudo que ele faz, desde seus desenhos e pinturas até os artigos escritos. É com grande prazer que reproduzo aqui o email que recebi de seu filho, Mario, de igual talento e simpatia.

EXHIBITION

Alberto Sughi

Rome, Complesso del Vittoriano
Salone delle Mostre Temporanee
Via San Pietro in Carcere
Saturday 21 July – Sunday 23 September 2007

Under the patronage of the President of the Republic of Italy

“The play by Eugene Ionesco (The Rhinoceros) is obviously a metaphor representing modern society, which transforms men into monsters. Is this a possible clue one could use to interpret the work of Alberto Sughi?… Sughi has probably read Sartre’s Essay Being and Nothingness (1943) and the ideas of this philosopher seem to have entered into his work; the comparison between beings and the world of objects and acts and ‘nothingness’, conscience which tries to go beyond this limit leading to anxiety and inertia within the classes and their various roles, and particularly the image of the bourgeoisie as the sign of a crisis, in fact, of the impossibility of creating relationships, if not alienated, as we would say today. All this forms part of a critical awareness that Sughi, better than others, has succeeded in expressing through his work.” (A.C. Quintavalle).

Ritratto nella stanza

The anthological exhibition entitled “Alberto Sughi” on show at the Complesso del Vittoriano from 21 July to 23 September 2007, aims to show the artistic and ideological development of one of the most important figures in Italian and European painting over the last 50 years, and contains about eighty paintings and sixty drawings produced from 1946 to today.

Andare dove?

The exhibition “Alberto Sughi”, under the patronage of the President of the Republic of Italy and of the Ministry for Cultural Affairs, the Lazio Region and Rome City Council, has been set up and organised by Comunicare Organizzando. The curator of the exhibition is Prof. Arturo Carlo Quintavalle.

Sala d’attesa

The exhibition
Alberto Sughi is one of the major Italian artists of the generation emerging during the 1950s, which chose realism, in the context of the debate between abstract and figurative art in the post-war period. His paintings display daily life without heroes, and atmospheres which, in 1956, the critic Enrico Crispolti defined as “existential realism”.

Solitude and the inability to communicate, malaise and pleasure are the dominant themes of Sughi’s work, feelings which are rendered pictorially through a deliberately meagre, rough and almost monochrome palette.

The “Alberto Sughi” exhibition at the Vittoriano allows the visitor to follow the painter’s artistic career: his anonymous, ordinary people with eyes and gestures lacking in expression, staring at a temporal and spatial void, dramatically absorbed, denied dialogue, perhaps searching for evasive meanings. La maschera al cinema (1958), Donna sul divano rosso (1959), Uomini al bar (1960), Uomo solo al bar (1960), Pierrot (1962), Donna che si spoglia (1963), La stanza di un uomo (1968), La cena – Donna sola (1976), Ragazze al caffè (1990), Piano Bar Italia (1996), Una periferia (2004), Bar del crocevia (2006)… These titles accompany silent expectation, tense card games, smouldering cigarette butts. Scenes captured in a fleeting moment, like individual stills from a film stopped at a particular frame and isolated from its original context.

Donna al bar

During his long artistic career Alberto Sughi has been an astute observer of life, of the most characteristic aspects of modern society. His examination of poverty is ruthless, his eye is impartial and harsh, reproducing events, feelings and perversions with neither indulgence nor condemnation. His social criticism emerges against the degenerate middle classes, his anger, sadness and unease are palpable, but Sughi feels no need to take a moral standpoint, only to produce a well-documented statement within a severe context. “The painter is not only the creator of his works. He is also the first person to observe them with indulgence, and sometimes with severity. When he decides that the painting is finished, always a difficult decision to take, his judgement generally concerns the structure of the composition; the energy of the trait, the intensity of the colour, and so on. The question of the meaning of the work is a subject which, strangely, he/she only touches upon. Artistic expression is the result of a reflection that has developed over time, giving a particular quality to the artist’s work, and which then becomes one with the formal structure of the work.” (A. Sughi).

Alberto Sughi, born in Cesena in 1928, is a painter who has managed to transform the search for origins, whether Cubist or of the ideological realism of the 1950s, into an extraordinary expression of art as a form of introspection. He has managed to go beyond the idea of painting as the transcription of various themes using, for his own artistic research, the language of the Informal and the Metaphysical, the language of Dada and of Expressionism.

Sughi is extraneous to artistic movements, even though he was involved in the definition of a group, that of “existential realism”, and has managed to construct a new type of painting with a subtle narrative element, through cycles of paintings. Sughi constructs stories through a series of works, or even within a single work, and then connects them together in cycles. He has also painted large canvases, four of which will be on show in this exhibition, in some of which he has deliberately proposed a new theme, that of urban spaces and their obsessive presence, as in the painting “Città di notte” of 1958.

Sughi’s work represents an exceptional case within the panorama of Italian art. Perhaps his originality, his revolution, is elsewhere: in his capacity to perceive the relationship that has always existed between the arts, and in particular between painting and the cinema. His works from the 1950s and ‘60s interact, as no others in Italy, either before or since, with Visconti and Antonioni, Fellini, Rosi and Germi, the latter also as a personal friend. Within the context of Italian art, Sughi’s work, in its rapport with that of Francis Bacon, Alberto Giacometti, Germaine Richier and the Informal movement, represents an essential step towards a new idea of figurative art.

Alberto Sughi is certainly one of the most important painters to emerge during the complex post-war art scene, in the debate between realism and abstraction, and one of the artists who have continued their artistic research with the greatest coherence, becoming a point of reference for Italian painting, at least from the end of the 1950s and throughout the 1960s. In the 1950s and ‘60s Sughi combined the European Informal movement with American Abstract Expressionist painting to suggest a different way of developing, a path that, from the 1950s to today, has always tended towards a reflection on time and the meaning of existence, never limited to a representation of reality in pictorial form. Over the years Alberto Sughi has constructed a new kind of painting. He has chosen a very different path from other artists, even though he has always maintained a dialogue with the intellectuals connected with realism; sometimes Sughi’s work has been labelled “existential realism”, a successful formula used to identify a group of painters who were certainly realists, but also astute observers, open to new horizons.

They established a dialogue with other realities, other artistic research, as well as an awareness of the complexity of every artistic endeavour and the need to paint in a new, individual, way, differing from analytical or synthetic Cubism, and also from the Realist movement as such.

Sughi is constantly aware of the philosophies of existence and therefore also of the great intellectual crisis in Western society. He therefore undertakes a constant dialogue with artists who have expressed this crisis, from Bacon to Sutherland, and to Hopper, with the oneiric dimension of Otto Dix, or the early Grosz, or of Beckmann. The expectations, the non-events, the void within existence, the difficulties of working in the world of objects, people’s isolation; all of this is portrayed in the theatre of the ’50s, in the existential reflections of Jean Paul Sartre, and it is also in the paintings of Alberto Sughi.

However, as underlined by Arturo Carlo Quintavalle, “…it is not enough to consider the links with Francis Bacon, who adds a critical erotic element to his existentialism, bordering on the savage, which has no counterpart in Sughi’s work; it is not enough to consider Giacometti, who makes the incommunicability between individuals sublime with his filiform shadows, suspended in space, whereas, in fact, Sughi represents figures in their solidity…However, it seems to me that the originality of Sughi’s work consists in his attention to objects that are never merely the background to a scene where the protagonists are elsewhere, but that become protagonists themselves …What Sughi has discovered is therefore the annihilation of figures…which is also why there are so few portraits in Sughi’s works , why a portrait would destroy that sense of non-identity and, to some extent, the horror of belonging to the middle classes, which is the dominant theme in the painter’s compositions”.

Uomo con cane (Periferia)

The artist
Sughi was born in Cesena on 5 October, 1928. His artistic development is almost always expressed in thematic cycles, resembling cinematographic sequences. Firstly, the so-called green paintings, dedicated to the relationship between man and nature (1971-1973). Then La cena (1975-1976) and, at the beginning of the 1980s, the twenty paintings and fifteen studies of the Immaginazione e memoria della famiglia. From 1985 he produced the series La sera o della riflessione. From the year 2000 he created the Notturno cycle.

After classical studies, and artistically self-taught, he learnt the rudiments of his art from his uncle. Sughi first exhibited in a collective exhibition in Cesena in 1946 and, in the same year, he spent a period of time in Turin, where he worked as an illustrator for the newspaper Gazzetta del Popolo.

Between 1948 and 1951 he worked in Rome, where he met various artists, among whom Marcello Muccini and Renzo Vespignani from the Gruppo di Portonaccio, a fundamental meeting for Sughi, both from the personal and the artistic point of view. He returned to Cesena in 1951. These were the years when the “existential realism” movement was formed. Renato Guttuso supported it and Antonello Trombadori compared it to the style of Edward Hopper. At the beginning of the ‘70s, Sughi moved from the city of Cesena to the nearby hills of Carpineta and started work on the cycle La cena, a clear metaphor for middle class society, containing a certain Germanic realism, resembling the works of George Grosz and Otto Dix, enveloped in almost metaphysical atmospheres, isolating every character and freezing them within the scene.

Ettore Scola chose one of the paintings from the Cena cycle as a poster for his film La Terrazza, and Mario Monicelli was inspired by Sughi’s atmospheres and colours in his Un borghese piccolo piccolo. In 1978, La cena was exhibited in Moscow at the Manezh Gallery.

In 1980 Sughi started work on a new narrative cycle, entitled Immaginazione e memoria della famiglia. Together with his large triptych, Teatro d’Italia, painted between 1983 and 1984, it showed that the artist had returned to the theme of modern society. Teatro d’Italia is, in fact, a great social allegory.

Sughi has taken part in all the most important contemporary art events, from the Biennale Internazionale d’Arte in Venice to the Quadriennale in Rome – of which he has also been Director – and to numerous exhibitions. Both Italian and foreign museums have shown many retrospective exhibitions of his work. On 28 November 2005, Carlo Azeglio Ciampi presented him with the prestigious Vittorio De Sica Prize, as homage to an artist who, ever since his early works, has shown a particular feeling for the cinema, even going as far as to state that “the cinema taught me how to paint”.

Among others, the following critics have written about the work of Alberto Sughi: G. Amendola, G. Bassani, F. Bellonzi, R. Bossaglia, F. Caroli, E. Cavalli, L. Cavallo, G. Cavazzini, R. Civello, E. Crispolti, M. De Micheli, A. Del Guercio, F. Ferrarotti, D. Guzzi, P. Levi, R. Lucchese, M. Lunetta, A. Marotta, G. Menato, D. Micacchi, R. Nigro, G. Pellegrini, G. Proietti, G. Raimondi, P. Restany, M. Rosci, G. Santato, S. Sinisgalli, V. Sgarbi, F. Solmi, A. Trombadori, M. Venturoli, R. Zangheri, S. Zavoli.

Catalogue: Skira. The catalogue, presented by Arturo Carlo Quintavalle, with an introduction and description of the works, includes an interview between the artist and the critic Sergio Zavoli, and also contains a list of exhibitions, a bibliography and a selection of texts by the artist.

FREE ENTRANCE
Opening times: every day from 10.00 a.m. to 19.30 p.m.. The exhibition closes at 19.00 p.m.
For information: tel. 06/6780664
For further information: www.albertosughi.com

Press Office: Novella Mirri: tel. 06/32652596; mobile: 335/6077971; ufficiostampa@novellamirri.it

Rome, July 2007
Translation by Joelle Mary Crowle

Os esgares de emoção que Rodin punha em suas esculturas, ou Goya em suas pinturas negras, não existem mais.

Hoje temos máscaras para essa finalidade. Mesmo quando reais é assim que recebemos as imagens da dor do noticiário policial ou do riso das colunas sociais. Algo aposto, de formas fixas e repetitivas, e que fica entre o rito e a caricatura. Nos fascina justamente por sua previsibilidade reencenada.

Ilha

Na representação artística, a face humana, quando vem, também vem com a problematização das coisas impossíveis ou falsas.

É o que vemos na exposição de Cristina Canale e Sérgio Sister, Pinturas Face a Face, do Instituto Tomie Ohtake (SP).

Menina e pescador

Cristina Canale escolhe pôr suas máscaras devagarinho. Quando põe. Às vezes só esboça. Em Menina e pescador (de 2005), as máscaras, nas figuras humanas ou nas massas de cor, mal cobrem o gesto esboçado no crayon. Em Ilha (2006), houve, em algum momento da fatura, uma expressão. Não mais. A mais emblemática das 11 telas expostas é Mãe com dois filhos (2003). Aqui, as expressões se apresentam em seus vários graus de desistência.

Mãe com dois filhos

Sérgio Sister mostra a mesma impossibilidade de representação de forma mais radical. Seus “quadros” são vazios, a humanidade está nas beiras, onde dá, quando dá. Às vezes não dá, e a beirada nem se completa, é apenas um ângulo mais ou menos reto, precário, que, se não se apoiar na parede, desaba de vez. São nove estruturas que formariam as “molduras” de quadros ausentes, feitas em alumínio pintado ou recoberto com tecido.

Sister

Tanto em um como em outro, o apontamento de uma dissonância entre matéria e voz. Em Canale, como em um teatro de bonecos, seguramos nossas máscaras sociais de família em férias e através delas falamos – ou emudecemos. Em Sister, a máscara, retirada, mostra que não há nada por trás. E a voz possível, aqui, é murmúrio. Por vezes belíssimo, como na estrutura em tons sobre tons de um mesmo vermelho-sangue.

Sister

O que poderia ser entendido como manifestação reativa, conseqüência ou apenas constatação, adquire nesses artistas, contudo, uns ares de linguagem estratégica. Mais do que uma alegorização ou uma desterritorialização, Canale e Sister mostram, nessa exposição conjunta, uma possibilidade de subjetividade nova, que fica ao largo do jogo especular.

(Jogo esse que tenta impôr à contemporaneidade seu eco ao infinito no lugar do significado perdido.)

O desconforto que as máscaras, caso estivessem presentes, trariam seria o da insuficiência.

O desconforto que sua ausência traz é compensado pelo conforto, nascente, surpreendente, de uma subjetividade que pode existir sem se submeter à gramática da superfície.

Um breque contra o fascismo.

(Na nossa época como em outras, fascistas sempre estetizam corpos, sejam eles humanos ou políticos.)

A exposição do Tomie Ohtake mostra uma outra coisa. Raras vezes se vê como uma boa curadoria pode produzir valor agregado. Sister e Canale, separadamente, poderiam ser lidos dessa ou de outras formas. Os dois juntos adquirem nova clareza, enriquecidos um pelo outro.

Atenção: não temos qualquer relação com a Federação de Arte-Educadores (e este post é de 2007!). Por favor entre em contato diretamente com eles.

É o órgão de representação nacional das Associações estaduais, Regionais e Municipais dos profissionais de arte-educação e tem, dentre seus objetivos, “o fortalecimento e valorização do ensino de arte em busca de uma educação com identidade e social e cultural brasileira”.

Surgida num momento político interessante do Brasil, nos anos de pós-ditadura, a FAEB teve participação intensa na elaboração da atual LDB (Lei de Diretrizes e Bases 9394/96) da educação brasileira, onde introduzida a obrigatoriedade do ensino de arte em todos os níveis da educação básica.

Com os atuais recursos de comunicação a FAEB mantém um grupo de discussão na Internet que tem como principal objetivo ampliar o fórum nacional de debates acerca das causas da arte-educação, bem como de fazer circular e dar acesso a todos os associados das decisões e necessidades da categoria.

Atualmente, as associações Estaduais que pertencem à FAEB são:

  • APPARTE – Associação Paraibana de Profissionais de Arte na Educação
  • Presidente – Carlos Cartaxo
  • AMAE – Associação Maranhense de Arte-Educadores
    Presidente – Cláudia Cristiane de Matos Sousa
  • APAAL – Associação de Professores de Arte de Alagoas
    Presidente Sandra Maria Amorim de Barros
  • AGA-RS – Associação Gaúcha de Arte-Educadores
    Presidente – Luciana Gruppelli Loponte
  • AAEESC – Associação de Arte-Educadores do Estado de Santa Catarina
    Presidente – Maria Cristina da Rosa
  • AERJ – Associação de Arte –Educadores do Rio de Janeiro
    Presidente – Jacqueline Mac-Dowell
  • AMARTE – Associação Mineira de Arte-Educação
    Presidente – Adriana Valéria
  • ASAE – Associação de Arte-Educadores do Distrito Federal
    Presidente – Lurdiana Costa
  • AESP – Associação dos Arte-Educadores de São Paulo
    Presidente – Maria Cristina de Campos Pires
  • AAEPA – Associação de Arte-Educadores do Pará
    Presidente – Nélia Lúcia Fonseca
  • ASMAE – Associação Sul-Matogrossense de Arte-Educadores
    Presidente – Em processo de eleição

Desde o surgimento a FAEB congrega os profissionais de arte-educação, e tem participação direta no encaminhamento e apoio de sua prática profissional, através dos seus congressos anuais, os ConFAEB. Nesses encontros, os profissionais da área trocam experiências, relatam sua prática, debatem questões pertinentes à categoria e organizam os rumos da área e, também é nos ConFAEB, que são eleitas, em assembléia, as diretorias da FAEB.

O próximo congresso, XVII ConFAEB, que tem como tema central os 20 anos da FAEB, as conquistas e os caminhos da área, acontece em Florianópolis, entre 02 e 04 de novembro de 2007.

Para participar do XVII ConFAEB, você pode inscrever seus trabalhos para seleção até 15 de agosto. O Regulamento ser encontrado no site do evento (http://www.udesc.br/aaesc) e é reproduzido abaixo.

Nos vemos em Floripa?

Regulamento do XVII ConFAEB

1. As comunicações poderão ser apresentadas em forma de relato de experiência pedagógica, extensão ou de pesquisa:

A comunicação refere-se às experiências significativas desenvolvidas por arte-educadores na escola formal e outros contextos, bem como, na formação de professores permitindo aprofundar questões teórico-práticas.

1.1.Regulamento

a) Para inscrever os trabalhos é necessário fazer a Inscrição no site e o pagamento da inscrição na conta da AAESC:

Banco BESC
Ag. 117
C/C 72844-5
Tipo 03

b) Cada participante poderá inscrever uma comunicação. As inscrições estarão abertas do dia 01/07/2007 ao dia 15/08/2007, bem como estarão disponíveis os endereços eletrônicos e postal para envio das propostas, através do site: www.udesc.br/aaesc

c) O Valor das Inscrições são de R$ 55,00 para professores e de R$30,00 para estudantes, até o dia 05 de setembro 2007, depois R$ 65,00 para professores e R$ 35,00 para estudantes.

d) Os participantes que forem selecionados receberão certificação pelo desenvolvimento de sua proposta no XVII Confaeb, após apresentação.

e) As comunicações deverão estar inscritas num dos grupos de trabalho abaixo descritos:
2. Grupos de Trabalho (GTs): Comunicações:

a) Formação de Professores de arte

b) Arte nas escolas e interdisciplinarida de

c) Ensino de arte e a educação ambiental

d) Ensino de arte: transdisciplinarida de, cidadania e inclusão

e) Currículo e avaliação no ensino de arte

f) Ensino de arte: antigas e novas tecnologias

g) História do ensino de arte no Brasil

h) Ensino de arte na EJA

i) Arte, educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental

3. Trabalhos Selecionados – XVII Confaeb

Os Trabalhos selecionados pela Comissão Científica do XVII Confaeb – Comunicações e Oficinas serão divulgadas no site www.udesc.br/ aaesc XVII Confaeb – a partir do dia 30 de agosto de 2007.

O inscrito que tiver seu trabalho aprovado deverá encaminhar seu texto completo à Coordenação do XVI I Confaeb – pelo site até 15 de setembro de 2007. os trabalhos entregues após esta data não serão publicados.

Mais informações: www.udesc.br/aaesc

Próximos sábado e domingo (28 e 29 de julho), às 14 horas, no Parque Lage, o colega Lobisomem, da Abadá Capoeira, apresentará LITERATURA DE CORDEL & CAPOEIRA para crianças dentro da programação do FESTIVAL INTERCÂMBIO DE LINGUAGENS.

Haverá contação de história do folclore através da literatura de cordel, mini-aula e roda de capoeira. Na ocasião, ele também lançará o folheto ABC DA CAPOEIRA PARA CRIANÇAS.

Os capoeiristas adultos são bem vindos para ajudar e participar da roda de capoeira.

DATA: SÁBADO E DOMINGO – 28 E 29 DE JULHO DE 2007

HORA: 14 HORAS

ENDEREÇO: PARQUE LAGE – RUA JARDIM BOTÂNICO, 414

ENTRADA FRANCA!

O Oi Futuro está exibindo curtas da Mostra Filmes Bolso do Festival Brasileiro de Cinema Universitário. Você também pode assistir pela Internet ou no portal WAP do celular. Os curtas têm de 1 a 5 minutos e passam por temas, técnicas e qualidades variadas. No portal, além de poder votar, ainda há um fórum para espectadores e cineastas trocarem idéias.

Mais importante do que o conteúdo é trazer de volta aquela idéia de que a disseminação da tecnologia torna todas as pessoas grandes músicos e cineastas. Há algo errado no raciocínio, que, aliás, não é novo. Desde que Moby gravou seu primeiro cd no estúdio caseiro ouço essa conversa, que já existe desde muito antes. Isso não anula o fato de novos veículos estarem surgindo com grande demanda ainda não explorada. Será preciso oferecer conteúdo de qualidade para telas grandes e minúsculas, filmes e desenhos que contêm com mais do que a boa vontade de quem os fez.

Escolhi alguns para quem for assistir pela Internet.

A Vingança da Bibliotecária de Santiago Dellape usa a solidão e o aspecto labirinto da biblioteca para fazer um minicurta de terror com direito a foices e assassinatos. Bruno Ferro Magosso e Elisa Carareto Alvez apresentam a animação Dia de Cão. Um cachorro assiste a TV quando um OVNI atrapalha a transmissão do programa, o bicho então dá seu jeito de espantar o disco voador. Dead Pixel, de Cristiane Fariah, apesar de simples visualmente mostra um humor mais refinado. O curta explora os efeitos catastróficos que um Dead Pixel causar nas imagens que passam na tela. Tem deboche para o Papa, Seu Madruga, Marilyn Monroe e a revelação da maldição do Dead Pixel. Malu Teodoro aparece com 360vezes4, totalmente experimental. Uma tela dividida em 4 partes, cada uma exibe um pedaço da imagem com uma trilha diferente. No decorrer, as imagens e trilhas se juntam em combinações diferentes, sem acrescentar nada demais. Célula Lar de Igor Lacerda mostra como o homem está aprisionado à tecnologia. Aqui, literalmente, já que o protagonista acaba dentro do visor do celular. Idéia boa, só faltou o retoque na técnica. Nirvana, de Felipe Valer, é um dos mais assistidos, apesar de não estar entre os mais votados. Um homem acorda em um lugar abandonado e vasculha a instalação tentando descobrir o que aconteceu. Tem bons momentos de linguagem e explora bem fotografia, pecando só pelo roteiro, que podia ser melhor amarrado para o final.

O trio Eduardo Campos, Gabriel Cavalheiro e Márcio Ribeiro animam um boneco do Homem-Aranha no curta Spider Man vs. The Fly, uma piada usando uma mosca irritante que atrapalha a meditação do herói. Em TV PONG, Fábio Correia mistura cenas de TV e de Atari para criticar os veículos de massa. É curtinho, indolor. Érick Ricco flerta com o cotidiano, filmando na cidade a movimentação de pedestres até que uma menina tenta tirar a embalagem de um pirulito. Pode ser filosófico, pode ser um protesto contra embalagens grudentas, difícil saber. O nome do curta, claro, é Pirulito.

Luiza Zanoni e Ana Lúcia Braga estão no grupo dos trabalhos mais refinados com seu curta Gosto não se discute. Feito em preto e branco e sem som, mostra o cliente de um bistrô francês reclamando o tempo inteiro da sopa que é servida. A vingança do cozinheiro é meio óbvia (é um medo comum a todos também), mas vale pelo capricho e pela fotografia. O roteiro, mesmo que incipiente, está lá, com início, meio e fim.

Para fechar, fica a dica de Zé, uma animação com a música Zé de Vanessa da Mata. Lento toda vida, conta o romance entre uma menina e um espantalho.

Quem achar Zé exagerado no drama e sentir falta de humor em animação, é só dar uma passada no youtube e assistir A volta da tia Mazela, de Gabriel Moura. Tem seus bons momentos (com paródia de Matrix). Para assistir com o filho pequeno do lado.

Um lugar na platéia (Fauteuils d’orchestre) é uma produção francesa de 2006 que virou mania nos cinemas do Rio de Janeiro. Ele conta a história de Jessica, uma jovem do interior cuja avó foi obcecada por lugares luxuosos e pela vida de artistas. De tanto ouvir a avó pescar memórias, Jéssica decide ir para Paris tentar um emprego no Hotel Ritz. Acaba mesmo como garçonete em um café nas proximidades. Para sua sorte, esse não é um café comum. Como fica perto de uma sala de leilões de arte, de um teatro e de uma sala de concertos, o local vive cheio de artistas e Jéssica acaba interagindo com diretores, atores, músicos e amantes da arte em geral.

O filme gira em torno de três histórias:

Uma atriz de televisão faz um seriado patético, mas de muito sucesso. Todo mundo a para na rua para comentar das cenas. Ironia entre as artes, ela quer é ganhar o respeito de críticos e diretores fazendo teatro e cinema. No teatro, tem que trabalhar com a filha e o ex-marido, usar roupas esquisitas, repetir diálogos ultrapassados. Quer se meter e modificar praticamente tudo, enervando o diretor. No cinema, só quer um lugar. Faria qualquer coisa para brilhar nas telas. Mal consegue parar de tremer quando vê o diretor Brian Sobinski (Sidney Pollack) no café.

Na sala de concertos, acompanhamos um pianista clássico, famoso e bem-sucedido, que começa a repensar o valor de sua arte. O que poderia fazer para levar a música até o público e vice-versa? Por que a arte está cada vez mais distante do povo? Onde Mozart foi parar no meio dessa história? Ele não agüenta mais a roupa, a gravata no pescoço, os elogios, a agenda cheia, as entrevistas pseudo-intelectuais com perguntas estúpidas do tipo “que profissão você não gostaria de ter?”. É preciso fugir para bem longe. Para complicar mais um pouco, a esposa é sua empresária e não concorda de jeito nenhum que ele abandone o sucesso e a profissão depois de anos de dedicação.

3. No estande dos leilões, um ricaço cheio de grana decide se livrar de todas as suas obras de arte. Quer vender os móveis, os quadros e as peças raras. Não quer terminar a vida como porteiro de museu. Seu filho, aparece para entender a razão disso tudo e reclamar da mulher mais nova com quem o pai anda se relacionando. Mais nova e mais magra que a esposa do filho. Assim como os demais personagens, acaba simpatizando com Jessica, pedindo conselhos e trocando idéias.

Há ainda a história de uma mulher que trabalhou no hotel e está se aposentando e, é claro, a história de Jessica costurando os blocos, sem prendê-los demais ou forçar os pontos de contato. A atriz Cécile de France (de Albergue Espanhol e Bonecas Russas) conseguiu compor com maestria a loirinha intrometida. Os demais atores também se saem muito bem, com pequenas variações.

Sem pretensões de ser um grande panorama parisiense, Um lugar na platéia foge da síndrome do cartão postal (que está para as comédias como a síndrome de crônica das misérias está para o drama). É o tipo de filme que você assiste sabendo do final feliz, mas torce mesmo assim. Alto astral, sem pieguices, a típica comédia francesa. Com muito mais Je t´aime do que os 12 curtas de Paris, eu te amo, vale ressaltar.

Um lugar na platéia (Fauteuils d’orchestre) Um lugar na platéia (Fauteuils d’orchestre) Um lugar na platéia (Fauteuils d’orchestre) Um lugar na platéia (Fauteuils d’orchestre)

As pessoas falavam com muito, muito cuidado.

Era o primeiro evento patrocinado pelo Istituto Europeo di Design, o grupo privado italiano que, em troca de ajuda na revitalização do Cassino da Urca, lá instalará a sua escola.

(O evento aconteceu no dia 16/07, no Oi Futuro – RJ).

da esquerda para a direita: Mauro Ponzé, Ricardo Macieira, Francisco Jarauta, Nádia Rebouças, Jair de Souza. Em pé no microfone, o arquiteto Ado Azevedo. (fotografia de Elvira Vigna)

O primeiro a falar foi Mauro Ponzé, diretor do IED, que ressaltou a importância histórica e a beleza natural do local.

Depois, foi a vez do arquiteto responsável pelo projeto ressaltar a importância histórica e a beleza natural do local. Mostrou um filme e apresentou sua criação. A importância histórica a ser preservada é a anterior à TV- Tupi. Haverá recuperação da fachada original do hotel-cassino. Quanto à beleza natural, ela deverá entrar pelos janelões, varandas, espaços abertos, mirante, treliças de madeira, e pelo sistema de ventilação natural. A entrada de carros se fará pela rua de trás, para não ter impacto na Av. Portugal, a principal via da Urca. Ele não disse como os carros vão chegar até a rua de trás, uma rua sem saída cujo único acesso é pela Av. Portugal.

Azevedo anunciou também que seu projeto prevê algumas atividades gratuitas à população, como biblioteca.

E com a palavra “população” chegamos ao principal apresentador da noite, o pensador espanhol Francisco Jarauta.

Francisco Jarauta (fotografia de Elvira Vigna)Ele ressaltou a importância histórica e a beleza natural do local. Disse que isso é tão importante quanto as pessoas que habitam cada lugar desse nosso mundo globalizado. Falou sobre o processo que todos sofremos, antagônico e auto-alimentador, de homogeneização global e ressurgimento de características locais. Disse que o ideal é não ser nem um nem outro mas ficar na passagem, na mestiçagem, no meio termo. É aí o ponto. Como definir a mestiçagem, o local que ele considera ideal para obter o máximo de benefícios dessa nossa época e condição. Para mostrar que não era o caso de ser muito xiita nesta questão de defesa das características locais, ele disse que considera as identidades, hoje, hiperatrofiadas, que se trata de uma obsessão do nosso tempo. Ficou a impressão de que é algo um pouco ridículo. Para reforçar que também não se deve ser muito detalhista sobre o que será ensinado em tal escola, ele falou do novo perfil pedagógico nos tempos de Google. Não se trata mais de inculcar informação, mas de fazer com que os alunos mantenham a mente aberta e aprendam a aprender, ou seja, a selecionar, eles mesmos, o que precisam dentro do enorme fluxo de informação a que estão sujeitos, dentro e fora da escola.

Faz lembrar a história do índice dos enciclopedistas franceses. Na enciclopédia mesmo, não escreveram nada de mais, mas a organização do índice era tudo do que precisavam para espalhar suas idéias iluministas. (Um exemplo famoso e engraçado é onde eles puseram “religião”: junto com “superstições”.) Ou seja, a escolha é dos alunos, o índice, quem fará?

Esse filósofo espanhol, apresentando uma escola de design italiano, cujo projeto é implementar um processo de identidade visual de uma cidade brasileira, não critica o capitalismo, a globalização e seus resultados, reunidos no termo do momento: insustentabilidade (não por acaso, usado mais comumente na sua forma positiva, sustentabilidade). O IED tem um compromisso com a sustentabilidade. Todos nós.

Jarauta não critica e não apresenta a saída a ser gerada, ou que está sendo gerada, pelas vítimas nem um pouco inermes. Não falou da solução rizomática da favela como contraponto inteligente e eficiente à cidade genérica e destruidora de redes sociais.

Para continuar a mostrar que os tempos são esses e o melhor é aceitar e aproveitar, ele citou um velho amigo que antes de morrer lhe perguntou: “por que certas idéias se mostraram impossíveis?”

Acho que se tratava do socialismo, não ficou claro.

Mas Jarauta tem um sonho, que chama de utópico: que o mundo se torne ascético.

Agora, ao design.

Design é a formalização de coisas, sendo que atualmente as coisas vêm depois da formalização. Assim, primeiro você forma uma identidade visual e só depois você preenche essa identidade com os objetos/pessoas/empresas/cidades que serão assim identificados. Essa identidade visual, feita portanto abstratamente (a partir de signos como importância histórica e beleza natural), reforçaria a perna do ressurgimento de características locais, que se opõe e realimenta o processo globalizador. Afinal, como disse a última palestrante da noite, Nádia Reboucas, você só vende quando existe. Lapidar.

Antes dela, falou Jair de Souza. Desejou que a nova escola entenda que escolas de samba têm muito a ensinar a designers italianos.

Jarauta terminou sua apresentação desejando que a nova escola seja o lugar onde as idéias e os problemas se encontrem. A intervenção de Jair de Souza foi um aviso para que não pensemos que as idéias serão as dos designers italianos, e os problemas, os nossos.

Ricardo Macieira, Secretário Municipal das Culturas do Rio também falou. Considerava a escola extremamente importante. Algo com a vocação do Rio para o turismo.

Foi surpresa boa. Não pelo talento dos cantores, que isso eu já sabia. Mas pela fila enorme na porta (que me fez perder o início do show) e pela casa lotada. Muita gente jovem. Outro dia li alguém que se questionava por que os jovens cantores do Brasil não fazem músicas acéfalas para o público mais novo (como os artistas americanos), e querem sempre parecer novos eternos da MPB.

O Canecão respondeu bem a isso, unindo Rodrigo Maranhão e Roberta Sá no mesmo palco. A música, acima de tudo, precisa ser boa, ser legítima, ter essência, precisa ser, enfim, música, e qualquer idade saberá apreciá-la. É triste que alguns críticos ainda vejam a MPB como algo sofisticado para seletos senhores de vida ganha com aposentadoria chegando gorda na conta. Fico feliz de saber que é um conceito que passa longe da realidade. Seja no rock, pop ou choro (e tudo isso é música popular brasileira), existem diversos nomes da nova geração despontando, e ontem a frase “Nesta casa se escreve a história da música popular brasileira” superou o bordão e tornou-se real.

Quem abriu o show foi Rodrigo Maranhão. Ele e o violão em um banquinho, pernas cruzadas estilo Caetano, cheio de conversa entre as canções. Tudo tem uma história que precisa ser contada, bem antes das biografias. Servem para avisar que a canção seguinte foi composta aos quinze anos de idade, que há muito nas letras que não querem dizer nada. “Mas querem”. A banda vai aparecendo aos poucos. Amigos de peso que ajudam a dar forma à musicalidade do compositor. Entre uma conversa e outra, Rodrigo Maranhão apresentou as faixas de seu cd Bordado, lançado pela Universal. Apesar de ser o primeiro, suas canções já estão por aí, na boca de cantores como Pedro Luis, Maria Rita, Fernanda Abreu e Roberta Sá. No show, se destacam as músicas Noites no Irã, Pra tocar na rádio e Bordado.

“A barca segue seu rumo, lenta
como quem já não quer mais chegar
como quem se acostumou no canto das águas
como quem já não quer mais voltar” – Caminho das águas.

Roberta Sá lembra um tempo em que o interprete fazia mais do que ensaio de videokê. Ela presenteia o público com sua voz, corpo e alma. Assim como Rodrigo, ela pisava pela primeira vez no Canecão. Econômica nas palavras, não cansava de agradecer a presença de todos. Modéstia de quem já mostra intimidade com o palco e grande entrosamento com os músicos, num show muito bem produzido desde a apresentação. Tanto nas mais animadas quanto nas mais lentas, a cantora se saía bem. Eu Sambo mesmo e Pelas Tabelas foram tiveram ótima receptividade. Ah, se eu vou por pouco não levantou o público (de suas cadeiras desconfortáveis) para mexer as cadeiras de pé. Foi bom ver que os arranjos das versões de estúdio já amadurecera e ganharam nova vida ao vivo. Braseiro foi uma delas, explorando toda a reação do público para crescer de forma contagiante. É o tipo de evolução que gera expectativas. O show também teve Alô, fevereiro, uma prévia do novo cd que sai em Agosto (desse ano, se tudo correr bem), e Casa Pré-fabricada, lentinha cantada em coro pelos presentes.

Fim do show individual, hora de ver os dois novos talentos cantando juntos, com direito a participação de Pedro Luís. A terceira parte foi curta, mas valeu pela diversão dos três em cima do palco. Cortinas fechadas, muitos aplaudiram e tentaram um bis do bis, mas o show tinha terminado.

“Há quem não gosta do samba
Não dá valor
Não sabe compreender
Que um samba quente, harmonioso e buliçoso
Mexe com a gente dá vontade de viver
A minoria diz que não gosta mas gosta
E sofre muito quando vê alguém sambar
Faz força, se domina, finge não estar
Tomadinha pelo samba, louca pra sambar” – Roberta Sá.

O Anima Mundi deste ano estava às moscas. Vazio, com um ar triste e aquela tradicional mistureba de filmes bons e ruins no mesmo saco.

Os russos são sempre os russos, mas foi Apnée, um francês, quem salvou o festival. O filme, sozinho, revoluciona tudo o que entendemos de animação. Afinal, o que é animação? É um filme onde cada fotograma foi produzido individualmente mas que, colocados em sequência, criam a ilusão de movimento. Apnée é tudo isso e nada disso. O filme, em computação gráfica, cria a ilusão de movimento mas não tem movimento. A imagem tem um tratamento realista e o filme não é. A história é narrada através de imagens paradas mas não é fotografia. É 3D refinadíssimo e extremamente bem feito (e sabe disso). É quase um live action mas não é live. Nem action. Absolutamente fantástico. Revolucionário.

A sessão da UPA na Oi Futuro fechou com chave de ouro o Anima Mundi 2007. Os filmes por si só já seriam motivo mais que suficiente. A Oi Futuro, ainda por cima, deu um show de organização. Cadeiras marcadas, oficinas gratuitas com pouca fila e alta produtividade, tudo limpo, bem cuidado, ar condicionado decente, atendentes inteligentes e seguranças gentis e bem informados.

Felizmente para nós, a internet salva e os melhores da UPA podem ser vistos no YouTube.

Fui no centro cultural da Caixa (RJ), devo confessar, ver “Jogos Visuais – arte brasileira no Pan” com uma certa impaciência já que tudo que espero do Pan é que acabe logo. A exposição, de curadoria de Manoel Fernandes, conseguiu me dobrar.

Oriana Duarte

Oriana Duarte mostra stills ampliados com closes de uma mesma atleta. Por algum motivo obscuro, retratistas esportivos (ou de dança) gostam de mostrar o absurdo esforço físico necessário como se fosse leve, simples e fácil. Oriana foge desse lugar comum e mostra o esforço de várias formas. Uma, o próprio exercício retratado. Duas, o imenso barco vermelho no meio da sala, maior que a atleta. Três, o still pixelado de uma captura assumida e incorporada. Nada é fácil, nem mesmo fazer as fotos. Quatro, o vídeo, grande, estourado, que nos cansa por assimilação.

José Tannuri - fotografia de Clarisse Tarran

José Tannuri consegue mostrar um Rio de Janeiro em duas rodas que é caricato e simultaneamente verdadeiro e romântico. Um Brasil possível, que se inventa e reinventa, à venda na carrocinha mais próxima.

Eudes Mota

Depois vi os remos de madeira antiga de Eudes Mota. É impossível não pensar em como são similares os nossos utensílios. Remo, taco de críquete, pá de ventilador, não faz a menor diferença. Eudes esfrega na nossa cara que somos iguais. Remo, porta ou colher de pau.

A vídeo-instalação de Daisy Xavier e Célia Freitas tem um quê de psicanálise. A nadadora vai sempre em frente pela água que escorre na tela. A água que escorre, como o tempo, a natureza, a vida, o infinito, não importa, nos dá a certeza do inexorável e a nadadora que corta isso tudo nos garante que o ser humano ainda é possível. Otimistas.

Raul Mourão Ratão Diniz Bira Carvalho Bira Carvalho Adriano Rodrigues Adriano Rodrigues Adriano Rodrigues

Fotografias de esportes tem, a grosso modo, quatro possibilidades: movimento suspenso (muita luz, lentes maravilhosas, filme rápido e voilá um atleta parado no ar), movimento assumido (borrões e afins), perspectivas (ângulos incomuns, distorções de lentes, essas coisas), e portraits (geralmente em um preto e branco “expressivo”). E aí sempre me dá um pouco aquela sensação de dejá vu.

Matheus Rocha Pitta consegue fugir de tudo isso com Câmara de compensação. E consegue retratar o jogo contido tanto nas artes quanto nos esportes, levando à exposição um de seus raros momentos polissêmicos.

Felipe Barbosa Felipe Barbosa

Felipe Barbosa critica o esporte de consumo com suas bolas rotuladas, catalogadas, organizadas, penduradas na parede. Ele faz o mesmo com outra obra, ao desmontar e remontar uma bola de futebol parece lembrar que a máquina marqueteira do esporte não existe sem o indivíduo (atleta ou artista, aqui não importa).

Marcos Cardoso também remonta bolas de futebol, mas a partir de rótulos jogados fora. A crítica é a mesma mas o método tem um resultado bem mais gráfico.

Aí tem os vídeos.

Ana Vitória Mussi

Ana Vitória Mussi mostra um boxe de alto contraste que traz toda uma nova interpretação do chiaroscuro mas para quem que, como eu, não tem a menor idéia de quem foi Éder Jofre Galinho de Ouro, a mensagem se perde um pouco.

PaulaGabriela e o seu Simbiose mostra duas mulheres andando de um lado para o outro, se confundindo pela falta de foco. É o tal do “movimento assumido” que anda muito em moda ultimamente.

Alice Micelli

O vídeo da Alice Micelli, 99,9 metros rasos, mostra um corredor que vai desacelerando, parando no ar, morrendo na praia. O som vai parando junto. Hilário e angustiante ao mesmo tempo.

Marcos Chaves

Marcos Chaves e sua Foca! também mostra a repetição. É, de fato, muito difícil para o artista entender a repetição no esporte. Para o artista, o aprendizado é um caminho contínuo e normalmente muito longo. Para o atleta, a perfeição só é conseguida através da repetição. Aí um olha para o outro e enxergam focas amestradas.

Marepe mostra o aquecimento de algum time de futebol pequeno. Os jogadores cantam enquanto fazem aqueles movimentos repetitivos. Parece uma ladainha hipnótica igual a de mulheres bordadeiras, militares, religião, não faz diferença. Adorei. Marepe. Você tem razão: somos todos iguais, realmente.

AiráOCrespo & AFA (estudo)

Tem também um enorme graffitti de AiráOCrespo & AFA. Usa tinta spray e acrílica. A spray dá a cor, a textura, a luz, o movimento. A acrílica dá o drama, o foco. Sensacional. Os corredores estão todos mais ou menos na mesma linha imaginária de chegada. Pernas, pra que te quero?! Ah, eu respondo: para levantar daí e dar uma passadinha no Caixa Cultural.

A Exposição “Desenho Anônimo – Legado da Imigração no Sul do Brasil”, que termina neste dia 08 de julho, no Museu da Casa Brasileira trouxe ao conhecimento do público uma incrível coleção de peças e objetos que mostram o design executado por artesãos da imigração italiana e alemã, desde 1824 até o início do século 20.

As peças, originárias do Rio Grande do Sul, em sua maioria, e de Santa Catarina foram colecionadas e catalogadas por três décadas. São, aproximadamente, 500 peças artesanais e 75 imagens, entre postais e fotografias de época, onde o que se vê é a forma com que os imigrantes trouxeram sua influência ao povo da região, com seus hábitos e costumes, de casa e trabalho, integrando-se às comunidades onde se fixaram.

A curadoria é do arquiteto Carlito de Azevedo Moura e do artista plástico Alfredo Aquino, os objetos foram selecionados dentre as 3.500 peças e mais de 750 imagens, da Coleção Azevedo Moura. Há ainda vários documentos e o destaque, dos curadores, inclusive, é o “espremedor de frutas”. Objeto de madeira, muito simples, mas bastante funcional e de design surpreendente.

A forma como foi organizada a exposição tornou-a extremamente didática, no sentido de mostrar o modo de vida dos imigrantes junto com as características dos objetos apresentados. Muito boa também a apresentação. Simples, com projeto de montagem das arquitetas e designers gaúchas Ana Luisa Cuervo Lo Pumo, a Lui, e Maria Cristina C. de Azevedo Moura, foi criada uma cenografia com a divisão das peças em grupos temáticos, como portas, utensílios domésticos, mobiliário, recipientes, ferramentas, brinquedos, etc.

O programa musical da exposição, com temas de época dos imigrantes alemães e italianos, selecionados por Rubem Prates, responsável pela música erudita na Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi uma atração à parte.

Museu da Casa Brasileira
Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2.705
Fone/Fax: (11) 3032 3727 / 2564 / 2499
http://www.mcb.sp.gov.br

Ou: As desventuras de ser um designer no Brasil.

Começo este texto de forma catártica: ser designer é um saco!

Recentemente, uma amiga me pediu o favor de avaliar a marca de sua empresa, encomendada ao filho de uma amiga pela bagatela de oitenta reais. Boa coisa não podia vir – e realmente não veio. Ratificando minha quase incontestável certeza, me deparo com uma composição absurdamente redundante, com todos os clichês possíveis e imagináveis, cores espasmódicas (já tentou ver um verde R:95 G:255 em seu monitor?), tipologia óbvia… enfim, um carnaval de aberrações.

Com aquele embaraço e um sorriso amarelo-ovo,  tentei fazer de uma forma gentil que ela entendesse que aquilo era uma das piores coisas que já tinha visto na vida.  Entendido meu ponto de vista, após um sorriso trivial, a punhalada foi inevitável:

– Mas sabe… eu gostei. Eu mesma que pedi pra ser assim.

Foram necessários alguns segundos para que ela desconstruísse qualquer argumento que me viesse à cabeça, afinal, se ela está satisfeita com o resultado, não há Bauhaus que dê jeito nisso.

Anos de aprendizado só não são suficientes para combater o juízo de gosto. Se o cliente quer assim, e está pagando por isso, qual o direito que temos de interferir nisso?  Isso me fez refletir sobre como é sofrida a vida de um designer comum num país onde pouco se fala e nada se entende de arte.

A escola

Tudo começa com nossa infância, quando passamos  as primeiras séries da escola brincando me massinha, desenhando, pintando com o dedo e sujando nossas roupas limpinhas com o que encontramos de mais imundo. Todos esses fatores tornam esta fase a mais criativa de toda nossa vida.

Até que entramos para a alfabetização, e daí por diante não temos mais tempo para explorar a sensibilidade.  Somos, do dia para a noite,  jogados em um mundo textual e dogmático, onde m vem antes de p e b e “mim” não conjuga verbo. Matemática, ciências, línguas e outras coisas psicodélicas vão entrando no currículo escolar, que mal sobra tempo para se lembrar da arte, a não ser por aquele cala-a-boca semanal chamado educação artística. Por fim, terminamos o colégio versados em todos os campos das ciências e das letras, porém, completos ignorantes visuais.

É hora, então, de saber o que se quer da vida e prestar vestibular. Enquanto alguns pretendem seguir como advogados, médicos, engenheiros ou zootecnistas, outros não conseguem se desgrudar de seus lápis de cor, compassos e pincéis. A esses sobra apenas buscar uma profissão que concilie vocação artística e estabilidade financeira, requisitos estes que os levam a escolher o disputadíssimo e “mudernoso” curso de design gráfico, outrora conhecido com o sisudo nome de desenho industrial.

E aí começam os problemas…

A faculdade

E lá está você, lindo e formoso como membro da elite dos estudantes de design. As portas da percepção foram purificadas e agora tudo parece infinito. Palavras sensacionais como briefing, branding, budget e target começam a pipocar na sua cabeça e um novo horizonte é vislumbrado. Você fica até às 3 da manhã fazendo um resumo sobre Umberto Eco, aprende todas as técnicas, macetes e truques  possíveis dos mais modernos softwares, passa anos aprendendo sobre história e filosofia da arte,  produção gráfica, ilustração, identidade visual, teoria da cor, semiótica, gestão, multimídia e mais uma infinidade de métodos que o  torna capaz de oferecer o melhor para seus futuros clientes.

Ao longo do curso, todos os seus projetos foram aprovados com louvor pelos seus professores e agora é hora de por isso em prática. Neste momento você oficialmente deixa de ser um simples micreiro e se torna um designer, com todas as pompas necessárias ao título.  É hora de mostrar às pessoas o seu potencial de transformar imagem em dinheiro. Você está pronto para seu cliente; mas será que seu cliente está pronto para você?

A prova real

Aviso aos navegantes: faculdade não é vida real. Na faculdade a gente adquire o péssimo hábito de fazer design para outros designers.  O mercado brasileiro é uma realidade muito diferente de tudo que a gente vê nas faculdades ou nas Graphis da vida, e provavelmente a maioria dos seus clientes não vão fazer a menor idéia de que a cor do monitor não é a mesma que vai sair no papel.  Também, provavelmente, não vão aceitar aquele seu projeto lindo de desconstrução tipográfica. Infelizmente vivemos sob uma ditadura econômica e cultural, onde quase sempre um projeto gráfico é analisado baseado no gosto pessoal.  E isso não é tão difícil de entender e de aceitar.

Vivemos em um país onde 13% da população é analfabeta e que a economia informal é uma realidade.  Onde mal se tem o indispensável, muitas coisas ficam para segundo plano, como a cultura visual e a qualidade. Para que um dono de padaria vai pagar dois mil reais em um projeto de identidade visual se o filho da amiga pode fazer por bem menos? Pouco importa a qualidade, o importante é ter.  Até aí, é fácil de entender e de aceitar. O difícil mesmo é saber responder se todo designer tem  condições de recusar “100 mangos”.

O designer brasileiro vai sempre estar diante de um dilema: até onde a ideologia é maior que a necessidade? Todos querem oferecer o que há de melhor, mais moderno e diferente, mas nem sempre é isso que o cliente pode ou quer pagar, e é nessas horas que os mais bacanas gritam que “é por isso que o mercado está desvalorizado”.  Meu amigo, desvalorizado está o ser humano. Se você é capaz de ganhar dinheiro e manter a sua ideologia intacta, considere-se mais que um sortudo – um abençoado. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, já dizia o velho ditado.

É por isso que eu digo: ser designer é um saco! Estuda-se anos e anos, para, quem sabe, ser tratado como a mesma figura que ganhou oitentinha da minha amiga.  Não quero, com esse texto, generalizar que todo designer é um ser frustrado e tolhido, afinal, existem casos e casos. É apenas um desabafo, um lamento de quem acha que vive em um lugar onde não só o design, mas a cultura visual, é para poucos.  Andemos então até onde nossos sapatos agüentarem. Nem todo mundo pode ser um Gringo Cardia na vida.

Este fim de semana, dentro do evento anual Santa Teresa de portas abertas, houve uma ocupação no casarão abandonado onde já funcionou a UNEI, União Nacional dos Economiários.

É uma construção antiga, jardim, escada de madeira, uns restos de azulejo português. Os artistas ocupantes, em sua maioria e cada um de um jeito, usaram o espaço para falar do próprio espaço. Como eles achavam que o casarão e seus jardins deveriam ser valorizados. Como eles achavam que deveria ser um casarão e, uma vez ele definido, qual sua relação com os espaços urbanos atuais.

Ocupação da UNEI

Tenho 60 anos. Tenho, na minha memória, casarões desse tipo vivos, não como centros culturais, sedes de instituições ou local para happenings artísticos. Mas com velhinhas que varriam a calçada, regavam as plantas e que moravam com suas filhas solteironas lá desde sempre. As tiras de papel que caem das janelas da casa, bonitas, são as cortinas de voile da minha memória vivida, e dançam no vento, igual.

Ocupação da UNEI

Vi a ocupação um pouco como, acredito, árabes ou negros devem ver uma montagem de Othello de Shakespeare. Aquilo lá na sua frente é para ser uma imagem artística de algo que você identifica como seu, mas que é vista por alguém muito diferente de você. E sem um Shakespeare para me contar piadas e fazer trocadilhos.

Ocupação da UNEI

Ao lado de uns raminhos de flores artificiais (!), América Cupello montou uns fantasminhas com imagens de fósforos queimados, ecológica. Perto, Célia Schiavo é menos dramática e veste uma árvore com um tecido onde há a impressão de mãos que a abraçam. Ilana Braia, José Nasser e Neber Nassaro fizeram uma instalação sonora onde falam lentamente dezenas de nomes de árvores brasileiras: sucupira, pau-brasil, jequitibá, samambaiaçu, carapiá. A seqüência dos nomes faz lembrar lista de mortos em alguma guerra. Eficaz.

Ocupação da UNEI

Pedro Grapiúna fez uma flor de ferro-velho, Lucas Reis pôs um tronco (bem fálico) no meio de uma cadeira. Bruno Rezende Silva montou sua Escultura efêmera com folhas de bromélias; e Almir Soares fez a Nós que aqui estamos por ti esperamos (uma corruptela de frase da Capela dos Ossos, em Évora, que, com mais cerimônia e sonoridade, não trata o visitante por tu mas por vós: nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos). Trata-se de vários pequenos túmulos onde estão “enterrados” designs modernistas de móveis de madeira com nome de bicho.

Na escada, já do lado de dentro, Luiz Fernando Sampaio pôs algumas fotos de escadas modernas, de shoppings e prédios comerciais. Nelas, homens de ternos, peruas enfeitadas e com sacolas de compras, e uma máquina de Pepsi. Chama-se Sobe e desce. Certo. Na mesma linha didática, Luiza Lis e Bruno Siniscalchi puseram uns rostos famosos com um espelho no meio e nos explicam: “direcionamos às celebridades nossas esperanças e reprovações; desta forma voyeur a sociedade consome e produz sonhos. Criamos os espelhos e, com prazer ou inconsicentemente, nos refletimos neles.

Há pontos altos. Os Cem metrônomos de Laila Terra, embora com uma idéia já vista, funciona. Alguns estão parados, outros insistem, todos no chão como soldadinhos do tempo. Enquanto isso, o sol entra pela janela. Dá bastante bem a idéia do que fica, perene, e do que passa, fugaz. Do que se mantém, indestrutível, e do que se torna nem mais símbolo mas apenas metáfora.

Célia Cotrim, com sua voz cochichada -: “o que vejo não vejo, não vejo o que vejo, vejo o quê?, tudo está no mesmo lugar mas às vezes não vejo” – é outra que fala com uma complexidade mais sofisticada do que fica, o que some.

Ocupação da UNEI Ocupação da UNEI
E Tita Bevilaqua, com uma idéia muito simples, também apresenta grande força em seu Varal da memória. Roupas. Só roupas: uma camiseta pintada, um sutiã preto. Velhas ou novas mas profundamente carregadas de um erotismo e de um uso humano – eternos.

No barzinho montado exclusivamente para atender ao público da exposição, uma constatação do involuntário, à la Shakespeare: a cerveja servida é uma Antarctica Original, marca comercial de marketing recente que traz no rótulo a mesma reprodução tipográfica com que foi lançada, em 1906. Um resumo, aliás bastante apreciado, do que eu acabava de ver.

Para ir embora, atravesso outra vez, no meio do jardim, as mesmas portas que dão para o nada, que dividem sem dividir, por onde eu já havia entrado. Sem sair.

Exílio é diferente de emigração. No primeiro, você vai embora porque entrou em choque com a sua sociedade original mas tem vínculos fortes com um grupo social menor que pode, inclusive, ser replicado no lugar de destino. No segundo, você vai embora e corta vínculos.

Exílio raramente produz uma arte de resistência cultural, no sentido de uma arte com recuperações, negociações e confrontamentos de convenções e subjetividades. A emigração sim.

A arte de Marcone Moreira, em exposição na Galeria Lurixs (RJ), tem um quê de arte de resistência cultural.

Marcone MoreiraNão porque ele more em Marabá, o que equivaleria a dizer que há um centro, a cidade grande, origem subentendida da arte contemporânea, e um rincão folclorizado, a vila ribeirinha do norte do país, para onde sua arte – se não ele próprio – teria emigrado.

Por falar da passagem – do caminhão, do barco, da madeira gasta, viajada, e da caixa de papelão corrugado que protege os objetos de consumo em sua travessia rumo ao consumidor – Marcone Moreira entende resistência cultural de uma forma mais sofisticada do que isso.

Marcone MoreiraÉ na gastura do seu material, na tinta pintada e repintada, e a toda a vez descascada, da madeira ou papelão usados que ele fala da resistência cultural. Ele diz da especificidade e diversidade, ao se apoiar no resíduo do vivido. São objetos de uso industrial ou comercial, portanto de um mainstream homogeneizador, que já resistiam, em sua sobrevida particular e única, antes de serem achados e revistos como alternativa estética. Esta revisão se dá dentro de um pensamento crítico sobre contradições e conflitos e que não exclui as sua próprias contradições e conflitos: as composições são construtivistas, geometrizadas, e estão, portanto, sujeitas a uma leitura que as desenraíza de seus sítios e funções originais, de seus contextos sociais e políticos.

Há pedaços de pontes dos bairros de palafitas que simplesmente não são mais identificáveis, ao serem postos em pé.

O embate de Marcone Moreira entre a limpeza das composições de um lado e, de outro, o lixo como suporte; entre os sintagmas nortistas e sulistas; e entre centro e margem (aliás, Margem é o nome da exposição) se radicaliza com uma certa destruição sintática. Não é só a ponte que não é mais identificável. Nas fotos, há um vestígio de presença que se reveste de um significado outro, diferente do da presença. A obra dele seria anti-autoritária se houvesse um foco em ideologia. Não há. As peças têm um poder de sedução. Ao empreender o processo de decodificar, estabelecer as mudanças de significado e o deslocamento dos contextos, e recodificar, o fruidor vê-se frente a uma beleza, o que equivale a dizer, frente a uma questão principalmente estética.

Mas mesmo que ele não queira, suas obras alargam a memória coletiva, afastam a margem um pouco mais para lá, ao integrá-la.

F. F. Moniz entrou em contato para nos contar sobre seu livro, ebook na verdade, disponível na íntegra online. Com isso, descobri o seu blog, o documentário “As inscrições latinas na paisagem carioca” e o videorelease do livro Como se tornar um assassino bem-sucedido (guia prático em 5 lições)“. A Conjvração Carnavalesca, em pdf, pode ser baixado livremente.

Livros online sempre me lembram de Marshall McLuhan (entre outras coisas, criador do termo aldeia global). Dele, as citações que mais gosto:

News, far more than art, is artifact.All advertising advertises advertising.

This information is top security. When you have read it, destroy yourself.

I may be wrong, but I’m never in doubt.

Segunda-feira, 07 de maio de 2007. Trinta atores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas, caracterizados de padres, monges, árabes, wiccas, mães de santo etc. percorreram toda a Avenida Ataulfo de Paiva, Leblon, Rio de Janeiro. O grupo partiu às 17h30 da esquina da rua Afrânio de Mello Franco até o canal da Visconde de Albuquerque, e, às 19h30, se concentrou em frente à Livraria Letras & Expressões. Ali encenaram um ato dramático de congregação múltipla das crenças em caráter holístico e musical.

Em seguida, ativistas do movimento poético da cidade juntaram-se ao ato. Poetas como Cairo Trindade, Rosália Milstajn, Pablo Mobellan, Mariana Dias e o grupo Trio Los Três deram início ao que os organizadores do evento decidiram nomear “primeiro sarau de poesia mística do Leblon”.

Motivo de toda esta badalação: o lançamento do livro Os dois Prados, de Lucho Apoelo, pela editora Antigo Leblon.

Acompanhe a seguir entrevista com o poeta e editor Érico Braga Barbosa Lima, coordenador do evento:

O EVENTO

A – Como foi a experiência de coordenar um evento de teatro itinerante em plena hora do rush, numa das ruas mais movimentadas do Leblon. É possível avaliar a recepção do público que circulava naquele momento?

EB - É possível descrever a reação do público. Se podemos arriscar uma simplificação, diria que foi um misto de surpresa genuína com ceticismo treinado. As pessoas estão acostumadas a ver tudo na televisão, mas não estão habituadas a ver as coisas fora da televisão. Tentavam racionalizar (e na maioria das vezes a racionalização – poderia dizer a ‘anestesia’ – acabava por vencer), mas não conseguiam afastar dos próprios rostos o olhar de incredulidade. Uma equipe de cinematografistas convidada para registrar o evento capturou as expressões, nuanças e a evolução das reações, material que (ajuntado a mais registros) pretendemos transformar posteriormente em documentário. Como vários dos esquetes são extraordinariamente interativos – em um deles todos os trinta atores param para rir durante um bom tempo de um transeunte escolhido ao acaso –, vale a pena conferir os resultados e verificar, conforme a observação do psicanalista Carlos Mário Alvarez, que acompanhou a ‘passeata’, como a maioria das pessoas ‘está distante de tudo’, principalmente ‘delas mesmas’. Foi um laboratório excepcional. Em todos os aspectos.
O trabalho de coordenação do ‘espetáculo’ (se podemos chamá-lo assim) ficou a cargo do diretor Cláudio Filiciano, que se empenhou na elaboração e acompanhamento das ‘coreografias’, do trabalho de corpo, do tratamento de figurino e das atuações pontuais.
Foi um belo exercício de coordenação (essa é a melhor palavra), pois foram duas horas de ‘peregrinação’ com uma equipe (entre artistas, distribuidores de panfletos, fotógrafos, câmeras de filmagem e assessores) de quase cinqüenta pessoas. E isso era só a primeira etapa da noite.

Para ver os registros, você pode acessar o youtube (há pelo menos 10 vídeos que pudemos disponibilizar de antemão) ou ir diretamente ao site do Lucho Apoelo (www.luchoapoelo.com.br) e visitar a seção de eventos. Estão todos lá.

A – E o trabalho com os atores, houve algum tipo de ensaio ou preparação, como se deu a construção dos personagens? Qual foi a estratégia dramática para que o tema fosse desenvolvido durante a atuação?

EB – Todo o trabalho foi montado em cima do conhecimento prévio que o público tem das manifestações religiosas das mais variadas (trajes, cerimoniais, comportamento, linguagem etc.). O trabalho com ‘tipos’ é calcado no imaginário popular, mas contamos, também, com o olhar antropológico de cada ator e sua contribuição personalizada. Como se tratava de uma produção de baixíssimo custo, não podíamos recorrer à criação de figurino — ele foi adaptado a partir do que havia disponível (cada ator e também das peças anteriores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas) e refinado pelos cuidados particulares dos atores. A ‘protestante’ (crente) ficou absolutamente impecável, e era de vê-la em todos os detalhes (do discurso à saia) convertendo os seguranças do Restaurante Diagonal, com as palavras de Lucho Apoelo. E isso é outro detalhe importante. Você perguntava sobre tema. Na verdade, foram trabalhados os textos de “Os dois Prados”. Foram compiladas 70 falas (máximas ou parágrafos que expressassem uma idéia, um conceito ou uma moral) e distribuídas entre os atores, que as incorporaram e as adaptaram às personalidade e trejeitos da personagem. E é curioso observar – de fato – como a fala místico-religiosa convém perfeitamente a todas as religiões embora elas se reputem diferentes e mormente se refutem. Em outras palavras: uma mesma máxima cabia ao maometano, ao judeu, ao crente, ao padre católico, à cigana e a todos eles, no momento do recitar, pareça que tinha sido baixada naquele mesmo momento como uma inspiração divina de seu próprio e íntimo (único) Deus.

Há que se louvar o trabalho do Cláudio Filiciano, o apoio de Najla Raja, e a disposição (pois foi uma ‘puxada’ física de lascar qualquer um) dos atores da Oficina de Criação da Casa dos Artistas (terceira idade). Foram perfeitos do começo ao fim – em dedicação, concentração, ritmo e resultados. Para o número reduzido de ensaios de que dispusemos, a capacidade de adaptação e improviso compensou (e sobrou) qualquer desvio do planejamento original.

A – E o recital poético, como foi preparado?

EB – Aproveitando o fato de termos à disposição atores, convidados poetas e uma casa (A livraria Letras & Expressões do Leblon) afeita a saraus e movimentos artísticos, especulou-se a possibilidade de se congregar à atividade de lançamento e da manifestação dramática, uma atividade poética. Nada mais natural. Acabaria acontecendo de qualquer forma. Procedemos, então, à produção. O que se fez, em resultados, foi consagrar a realização do Festival de Poesia mística Apoelística do Leblon, quando conclamamos os poetas convidados e presentes a compartilhar poemas de cunho místico, religioso e/ou espiritual. O cartaz segue em anexo, mas vale destacar os seguintes nomes: Mariana Dias, Ângela Carrocino, Trio Los três, Cairo Trindade, Denisis Trindade, Antonio Gutman, Reynaldo Sancjhes, Rosalia Milstajn, Rosa Born, Marcos Chrispin, Mônica Montone, Pablo Mobelan e Ricardo Oiticica (e do apoio do Poesia Simplesmente), que abrilhantaram a festa com sua participação. Óbvio que, pela quantidade de nomes, dá para se ter uma idéia de que a noite foi longa. Alguns desses poemas serão logo-logo publicados no site do Lucho Apoelo.

A EDITORA E O LANÇAMENTO

A – Há quanto tempo vocês estão no mercado e quais são as linhas editoriais da Antigo Leblon?

EB – Ainda que recente a constituição da empresa (5/04/2004), seus dois sócios militam na atividade literária há bastante tempo. São um escritor e um professor universitário com doutorado em Literatura brasileira, o que determina a inclinação ideológica pela valorização cultural da produção — e a diferencia a sociedade da maioria das editoras do País, para as quais o viés comercial é fator preponderante na seleção dos trabalhos que publicam.

A empresa tem um histórico curto e um ideário que alguns desavisados poderiam chamar de romântico e utopista, mas é inegável que tem atração pela cultura, pela qualidade literária e pelo nível de excelência, o que torna suas obras boas na medida em que nascem por necessidade e não por promessa de recompensa.

A – Você crê que o evento teve uma repercussão por si, ou funcionou como estratégia para o lançamento do livro?

EB – É difícil avaliar a repercussão de qualquer acontecimento na rua, se ela não sai nos noticiários ou na televisão. Este é o parâmetro atual prioritário de aquilatação de sucesso — o outro é o lucro. No primeiro caso, faz-se alarde, no segundo, fica-se na encolha. Nos dois casos, todos mentem, não importa quais sejam os resultados (nunca o saberemos: quem ganha dinheiro não precisa dizer, quem faz sucesso, idem). Antigamente as pessoas andavam nas ruas, brincavam nas ruas, trocavam histórias nas ruas. O que percebemos, nós da produção, os artistas e os convidados (a platéia itinerante e aqueles que seguiriam para o lançamento) é que enquanto andávamos, brincávamos e trocávamos histórias, as pessoas corriam para casa para assistir o jornal. O Leblon morreu. Hoje ele é manjedoura chique para a seguinte zoologia de turistas: aristocratas recém-domiciliados, falsos boêmios e aspirantes a intelectuais. Isso não é pessimismo: é a verdade. Por isso, posso lhe dizer o seguinte. Sim, houve repercussão intramuros, comentou-se muito entre comunidades (isoladas) de amigos. Houve muito contato pela Internet (que ironia!) e principalmente depois que viram os vídeos no youtube (mais ironia ainda!). Houve muitos entusiasmados que fizeram questão de repetir e repetir que a cidade estava precisando de coisas assim. Um deles disse que precisávamos de manifestações “espontâneas” desse tipo. Repare: se chegamos ao ponto de considerarmos coordenar trinta atores criteriosamente fantasiados e ensaiados uma manifestação “espontânea” é sinal de que as coisas vão muito mal e subconscientemente sabemos o quanto estamos sendo manipulados a cada segundo pelas instituições que nos assistem.

A – Eventos dessa natureza, que ultrapassam as portas fechadas das livrarias ou dos teatros, sobretudo os relacionados ao lançamento de um livro, não são muito freqüentes. Neste caso, a opção deveu-se a um diferencial na estratégia promocional da editora Antigo Leblon, ou foi uma opção estritamente relacionada com o livro lançado?

EB – Alguma coisa eu já respondi acima, portanto, aproveito para complementar as informações e os conceitos. No caso de Lucho Apoelo, especificamente, algo mais precisava ser feito, para além da publicação de ‘Os Dois Prados’, o que por si só já é um feito importantíssimo.

O que havia sido pensado inicialmente como estratégia editorial (havíamos planejado trabalhar com cinco atores, mas acabamos contando com a adesão voluntária de toda a companhia) acabou virando uma atuação desafiadora – até certo ponto romântica – característica a que Editora e as pessoas que atuam próxima a ela são mais do que afeitas.
Uma resposta a uma pergunta que você não fez: óbvio que foi válido. E os resultados totais estão ainda longe de terem sido aferidos.

O LIVRO

A – Fale-nos de Lucho Apoelo, como vocês o descobriram?

EB – Fomos inicialmente sondados por um representante de uma associação que insiste em permanecer no anonimato e atende pela misteriosa sigla CLA (Confraria Lucho Apoelo). Embora reticentes, a princípio, fomos seduzidos imediatamente pela história, pela fartura do material, pelas possibilidades de sucesso e, principalmente, pela qualidade literária, coisa raríssima nesse gênero. A CLA nos forneceu cópias digitalizadas do acervo apoelístico: biografia, “Os Dois Prados”, um diário e alguns documentos esparsos. Todos eles interessantíssimos. Criação de uma mente fantasiosa ou personalidade inusitada, a pessoa de Lucho Apoelo é extremamente sedutora, pelo que de anárquico e desmistificador ele traz consigo, justamente o que se poderia julgar o antípoda do místico, normalmente um doutrinário, um moralista caturro, e com pirilampos e símbolos de artifício. E justamente esse advogado do diabo era o predecessor de toda horda mística contemporânea?!… Era bom demais para ser verdade. Óbvio que concordamos imediatamente em trazer a lume o primeiro (e talvez o mais importante) dos documentos que nos disponibilizaram. Aproveitamos e desenvolvemos uma campanha de marketing condizente com o nível de produção inicial que nos propuseram.

A – E a primeira edição de Os dois prados, de quando é, como vocês tiveram acesso a ela?

EB – A história de “Os dois prados” é extremamente interessante. Segundo as cópias dos registros, que tivemos em mãos para compilação dos dados (fornecido pela CLA), só há um único exemplar remanescente e os demais foram recolhidos e destruídos. Embora nunca tivesse redigido uma simples sentença (era um orador extraordinário e se negava a registrar o que segundo ele só podia existir dramaticamente) seus ensinamentos foram cuidadosamente transcritos por um de seus seguidores, responsável por um documento que se tornou o único e confiável evangelho da doutrina disseminada. Essas anotações teriam sido publicadas por um editor de livros científicos, em tiragem de 119 exemplares.
O material abrange, ainda, a análise de um diário mantido por outro seguidor (sem marca de autoria). Tudo isso foi, há mais de cinqüenta anos, lacrado em baú de liga de platina, sugerindo a intenção de preservar o rico acervo para posterior apreciação por parte de estudiosos munidos de recursos capazes de interpretar pelo modo mais apropriado as mensagens que continha. O cuidado com a conservação e os apetrechos utilizados mostram o alto poder aquisitivo do guardião da relíquia. É, também, indício expressivo do perfil dos integrantes do segmento social que buscava sua orientação. Muitos de seus seguidores foram notáveis representantes da aristocracia carioca. Do exame do diário, foi possível constatar que as unidades distribuídas desapareceram das estantes dos livreiros um mês, apenas, após consignadas. Há indicações de que a sede da editora responsável pela primeira e modesta tiragem situava-se nas proximidades da Praça Tiradentes, em sobrado junto àquele onde funcionou, mais tarde, a Estudantina.

Para alavancar uma nova arrancada na estratégia de marketing do nome Lucho Apoelo, estuda-se a publicação, em meados de 2008, do “diário” e uma análise das “notas”. Estão sendo feitas sondagens com alguns escritores para a elaboração da ‘biografia apoelística’. Este é um projeto para início de 2009

A – Tentando relacionar o ato dramático com o livro, será que o evento teatral itinerante, uma proposta meio carnavalizada, está à altura da seriedade esotérica e mística do autor?

EB – Segundo as informações biográficas disponíveis, era o próprio Lucho Apoelo um caminhante, um itinerante e afeito a enigmas (e a mascaradas). Seus encontros eram em locais variados e, muitas vezes, a peregrinação se convertia em uma espécie de caça ao tesouro, em que se sucediam os mapas e charadas para que conseguisse localizar o próximo ponto geográfico, com a próxima charada. No final da noite, ficavam os claudicantes discípulos surpresos em verificar que o aprendizado estava todo ali, no percurso. Não ficava ele séria e concentradamente contabilizando deuses, frases e duendes que emergissem de uma Remington 20. Era o próprio Lucho que ia à frente de seus amigos, seguidores e curiosos, pelas noites, pelos desvãos da cidade, desmistificando os seres imaginários que o ser humano insiste em materializar, com perda da inteligência literária e do poder criador da metáfora.

E há que se fazer uma distinção bem clara entre o “sério” e o “grave”. O ‘grave’, na maioria das vezes é uma pobre alma vulnerável que se esconde atrás da erudição ou da voz grossa ou de um moralismo ou doutrina quaisquer. A seriedade prescinde dessas artificialidades. Até se utiliza, sim, do humor, para desarraigar algumas tiriricas levianas ou falsos conceitos que se agarram à objetividade e à verdade.

Em uma de suas passagens biográficas (aqui, em várias acepções, do ‘anedotário’), conta-se que certa noite, esperaram vários visitantes durante horas que chegasse o ‘mago’. Como se não tivesse notícia (e o que chegava era o dia), foram indo embora, aos poucos, muito contrariados e até enfurecidos, depois de muita falação, um por um, até que o penúltimo que se ia, perguntou ao último, se ele não ia também embora. O rapaz-senhor (não era possível adivinhar a idade), de chapéu coco e terno impecável respondeu que agora já podia ir embora, pois já tinha aprendido o que faltava aprender. Era o próprio Lucho Apoelo, o primeiro a chegar, trajando roupa de época, de senhor respeitável, e que não havia sido reconhecido. Todos esperavam um ‘mago’, pelas vestimentas exóticas, pelo que pudesse ser conferido à vista. Ali o ensinamento foi de que tudo é fantasia, que se prende ao corpo e nos prende ao chão da sociedade.

A partir de então (conta-se) ia-se aos encontros como melhor lhes aprouvesse, e passaram a distinguir o ‘mestre’ pela fisionomia, pela conduta, pelas palavras. Passaram, inclusive, os discípulos, a sair com os trajes que lhe cismassem, no momento. Eram permitidas as fantasias, como expressão de sentimento e circunstância e até vistas com graça (e só por isso). A representação de textos fictícios criados pelos próprios ouvintes e dramatização de improviso eram vistos como manifestação de estado de espírito. Ele já tinha uma perspectiva interativa e lúdica e construtivista, naquela época, para muito além do estilo pergunta-resposta tradicionais. E era tudo entendido como forma… Forma, mas com algum objetivo.

A carnavalização é um ‘respiro’, e também fazia parte das experiências apoelísticas. Mas a prova mais cabal da real seriedade do autor é justamente essa representação carnavalizada que se promoveu e fez registro (e isso já foi comentado logo no início): nenhum dos seus textos, pela voz de atores maometanos vestidos de católicos, crentes vestidos de bruxos, judeus vestidos de ciganos, nenhum de seus textos em nenhum momento perdeu o seu tom de verdade.

A – Finalmente, Érico, como você avalia o resultado da iniciativa neste primeiro mês de lançamento?

EB – Este primeiro mês de lançamento teve seus escopos alcançados plenamente. Realização da dramatização peripatética, seu registro para youtube e para o posterior documentário, o lançamento e a vendagem esperada, a produção do sarau com a participação de vinte poetas que abraçaram o movimento — e são naturalmente propagadores e divulgadores do autor. E, principalmente, o início de uma movimentação necessária para, entre outras coisas, nos lembrarmos de que as pessoas existem sempre antes e também para além dos livros. Se elas não voltarem a se encontrar, conversar, reaprender a julgar as coisas e compartilhar suas impressões judicativas com seus cúmplices afetivos e intelectuais, se não voltarem a olhar as coisas, a vida, os fatos com os seus próprios olhos, estarão fadados a persistir nos mesmos atos falhos de que se aproveita fartamente a publicidade ostensiva hodierna e, em menos de dez anos estarão comprando instrução de sabão em pó OMO como se fosse poesia.

Paris, eu te amo reúne 22 diretores em 20 curtas de 5 minutos em uma homenagem à cidade do amor. As histórias são todas independentes, mas foram editadas de modo que a última cena de uma se encaixe na primeira da outra, dando a idéia de conexão e permitindo que o espectador perceba as mudanças em momentos diferentes. É possível sair de um romance conturbado de um casal cinqüentão e, dobrando o beco, esbarrar em uma vampira apaixonada, ou presenciar uma morte tristíssima e, uma quadra depois, encontrar uma turista perdida no parque, com um sotaque de fazer chorar. Do mesmo modo que enriquece a leitura e a experiência de quem assiste, põe à prova a capacidade dos diretores de impor seu próprio ritmo e ambientação, principalmente se considerarmos que o cenário e o amor não podem variar.

Além das histórias, vale muito a pluralidade das linguagens. Diretores de estilos completamente diferentes tendo que compartilhar um espaço em comum.
Como é possível imaginar, um quebra-cabeça desse tipo dificilmente se encaixa com perfeição. A qualidade dos curtas varia muito. Alguns diretores olham para Paris e deixam seu estilo de lado, outros mantêm firme o estilo e colocam a cidade de pano de fundo e uma boa parte se perde no meio do caminho. Walter Salles não se arrisca muito e segue a linha mensagem social. Seu curta mostra uma imigrante latina que, depois de deixar o filho na creche, vai para o casarão de sua patroa. Os Irmãos Coen continuam firmes na comédia, usando um turista que sofre contratempos no metrô ao não seguir com exatidão que o está escrito no manual de viajantes e encarar um casal de namorados. Gérard Depardieu se arrisca na direção com um diálogo de um velho casal que se reencontra para decidir, finalmente, pela separação. Rolam alfinetadas comentários sobre os namorados mais novo e piadas do tipo. As frases sarcásticas e rápidas fazem em 5 minutos o resumo de uma relação de anos e anos.Vincenzo Natali, autor do cult O Cubo, decidiu explorar com cores de cartoon noir o amor entre um turista e uma vampira fantasmagórica. Um dos pontos altos pela fuga do lugar comum e pelo visual roubado de Sin City. Tom Tykwer volta aos tempos de Lola e conta o amor entre um cego e uma atriz. Com seu jeito particular de dirigir, ele usa cenas aceleradas que voam pelo cotidiano, tirando a imagem do centro das atenções. Bom pela trilha sonora e pelas frases que se repetem com pequenas modificações e alteram todo o rumo dos sentimentos e da história do casal. Gus Van Sant é o único a optar por um romance homossexual e aproveita a diferença entre idiomas para expor problema da comunicação em um relacionamento. Tudo muito rápido, simples, feito em cima de um monólogo, praticamente.

Paris, eu te amo é um filme para se aproveitar aos pedaços. Tirando a média dos altos e baixos, a nota é média mesmo. Se estiver na dúvida, lembre-se de que não é todo dia que um time desses aparece na mesma sessão de cinema. Nas partes ruins, feche os olhos, reflita sobre a continuidade existencial após o caos no aeroporto ou pense no preço da pipoca. Pelo menos em três curtas (um deles desperdiçando Willem Dafoe e Juliete Binoche na mesma tacada) garanto que a dica será útil.

Aqui, a lista dos diretores:
Olivier Assayas (Irma VEP, Demonlover)
Fréderic Auburtin
Emmanuel Benbihy
Gurinder Chadha (Bride and Prejudice)
Irmãos Coen (O Homem que não estava lá, Fargo, Matador de Velhinhas)
Isabel Coixet (My life without me)
Wes Craven (Pânico e A Hora do Pesadelo)
Alfonso Cuarón (Grandes Expectativas, E tua mãe também, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban)
Gérard Depardieu (você certamente já ouviu falar dele)
Christopher Doyle
Richard Laravesese
Vincenzo Natali (O Cubo)
Alexander Payne (Sideways, About Schmidt)
Bruno Podalydès
Walter Salles (Abril Despedaçado, Central do Brasil, Terra Estrangeira)
Oliver Schmitz
Noguhiro Suwa
Tom Tykwer (Perfume, Corra Lola Corra)
Gus van Sant (Last Days, Drugstore Cowboy, Elephant)
Sylvain Chomet (Les Triplettes de Belleville).

Alguns atores:
Bob Hoskins, Elijah Wood (Senhor dos Anéis), Natalie Portman (V de Vingança), Gérad Depardieu, Gena Rowlands, Willem Dafoe (A Sombra do Vampiro, Homem Aranha, O Aviador), Juliete Binoche, Nick Nolte (48 Horas, Hotel Rwanda) , Leonor Watling (Má Educação, Minha mãe gosta de mulheres), Steve Buscemi (Fargo, Big Fish).

A editora Dantes colocou no mercado Fogo nas entranhas, a estréia de Pedro Almodóvar na literatura. O livro, que é de 1981, conta a história de Ming, um chinês milionário e cheio de mulheres que enriqueceu fabricando absorventes femininos. A história tem todo tipo de reviravolta mirabolante no melhor estilo do diretor, adaptadas para as liberdades da estrutura literária. Por exemplo, um casal que é separado em uma enxurrada, com direito a mão para o alto acenando e olhar perdido no infinito, aquele melodrama cômico que os fãs já estão acostumados.

Fogo nas entranhas mostra um Almodóvar mais distante da realidade, exagerando sua fórmula de tragédias, crises amorosas e assassinatos. Sem pudores, ele propõe um cenário de revolução sexual acidental, com todos os instintos humanos sucumbindo ao sexo. Eu explico.

Ming, cansado de ser traído e de fracassar com as mulheres, acaba morrendo. Antes, porém, termina a sua maior criação, o absorvente feminino perfeito (perfeito para a vingança dele). No dia do enterro, as amantes se reúnem de olho na fortuna de Ming e descobrem que o magnata deixou o dinheiro para elas, contrariando expectativas, já que elas são verdadeiras pistoleiras. Para que recebam a fortuna, ele impõe uma condição: elas devem experimentar o produto. Ali, no meio do enterro, cada uma dá o seu jeitinho e coloca o absorvente. O que elas não sabem, é que ele possui uma substância que resseca a mulher por dentro, deixando-a como uma espécie de lixa que torturará os futuros amantes desavisados. Para piorar a situação, o absorvente desperta um desejo sexual avassalador, que causa uma verdadeira caçada por homens, revoltas, destruição e até orgias nas igrejas. O caos e a comédia deliberados.

“Lupe também tinha mergulhado em tudo quanto é tipo de drogas. Quando parecia estar completamente perdida, foi salva por uma dessas religiões de vertente satânica, da qual também acabou se livrando. Tamanho turbilhão existencial serviu para que ela descobrisse que era lésbica. Teve muitos rolos com mulheres. Nos últimos tempos morava em Madrid, apaixonada por uma moça que preferia homens”.

O livro é rico em personagens, todos com função cômica, que aparecem e desaparecem sem muita lógica. O que importa é fazer rir. Se Almodóvar quer acelerar a trama e dar um ar de espionagem, entram tradutores nerds de chinês. Se quer começar uma guerra, coloca as mulheres armadas até os dentes atirando para todo lado. A estrutura é assim, livre, sem pensar nas amarras e nas conseqüências. Pode estar muito distante do que chamamos de literatura, mas funciona bem como pocket, leitura de metrô. Um presente extra para dar junto com o acessório que você comprou no sex shop. Se não fosse de Almodóvar, muito menos leitores saberiam de sua existência. Mas não é esse o caso. O livro se mantém desde o lançamento como sucesso de vendas da Dantes editora.

“Máximo Gómez decidiu estudar aquela língua porque queria ser original. Nada nele chamava a atenção. Saber chinês iria, pelo menos, permitir que fosse diferente dos outros”.

Na parede do ambiente doméstico montado por Ernesto Neto na Galeria Artur Fidalgo, em Copacabana, há uma frase escrita a esferográfica: idéia é isso que cabe dentro. Da frase sai uma seta indicando uma página de caderno, grudada com durex logo ao lado, contendo umas figurinhas, uns diagramas.

Ernesto Neto na Galeria Artur Fidalgo, fotografia de Elvira VignaNão sei quem escreveu isso, se o próprio artista, se algum de seus visitantes, que têm permissão de interagir com o ambiente como quiserem.

A frase oferece uma leitura não só dela mesma, rabiscada na parede, mas de toda a instalação.

Idéia é o que cabe dentro de um espaço criativo, seja ele uma página de caderno desenhada, o salão da galeria ou o ateliê particular do artista, cujos móveis e decoração são os da instalação, em uma reprodução que dizem ser exata.

E, é lícito inverter a frase, ambiente criativo é isso onde cabe uma idéia.

A instalação na Artur Fidalgo tem umas redes de nylon no teto, de onde pendem pesos. São descendentes das meias de mulher contendo bolinhas de chumbo, que o artista fez durante um tempo. A impressão, agora, é de pingos de alguma matéria quase fluida, mas consistente.

A continuar na leitura proposta pela frase da parede, os pingos ficam então sendo o depositar lento mas contínuo de uma idéia que acabará por se constituir em uma forma, como a dos apliques sinuosos, feitos em madeira de cor mais clara, que foram postos no chão.

Ernesto Neto na Galeria Artur Fidalgo, fotografia de Elvira VignaO uso da experiência, individual ou social, caiu em desuso por quase um século. Só agora reaparece. No século XIX havia, principalmente na América Latina, Brasil incluído, uma arte que se queria útil. Aqui ainda relutamos a abandonar essa vertente, mas o fizemos. Agora, volta. Na Bienal de São Paulo, no ano passado, havia uma presença maciça de arte referencial, geográfica e temporal. Mas não é uma volta, exatamente. As melhores obras têm suas referências não no tema, didáticas, mas na maneira como são feitas e nas informações, indiretas, que estão em sua volta – releases, notas, títulos, contextualizações.

Eu sei que se trata de uma reprodução do ateliê do artista porque me disseram isso, não que haja alguma coisa dentro da instalação que assim a determine. Tal informação vale como complemento de uma leitura a respeito do espaço criativo. Não é constitutivo dele.

Aliás, há uma circularidade, uma suficiência no espaço montado na galeria. Os pingos que caem, as formas no chão, é como se o espaço se bastasse a si mesmo, fosse dinâmico sem a interferência dos visitantes que por ele andam, o próprio espaço criando ao se criar.

Faz lembrar outra instalação do artista, para a 49ª Bienal de Veneza, em 2001. Quase um cérebro vivo.

Você pode estar na velocidade que for, se as coisas em torno de você também estiverem se movendo de forma igualmente veloz, haverá um momento em que a sensação é de imobilidade, uma suspensão do tempo, tudo e todos parados. Não é desagradável, pelo contrário, a atemporalidade faz com que passado, presente e futuro se igualem em uma espécie de morte ou de eternidade. Ficamos, ou melhor, temos a impressão de que ficamos, prazeirosamente estáveis – esta raridade.

A exposição 20 e poucos anos, da galeria Baró Cruz (SP), sugere que nesses jovens de 20 e poucos anos, tão fluidos e rápidos, há um desejo (algo que se fantasia em um futuro) ou uma nostalgia (algo que se fantasia em um passado) de estabilidade. No meio da velocidade.

Para começar, a figura humana.

Depois de tanto tempo em que a sua representação na arte é vista como insuficiente, ei-la de volta.

Sumiu quando o poder político, econômico e social do indivíduo nas democracias ocidentais aumentava exponencialmente no pós-guerra. Como se a figura tivesse de explodir em formas e cores porque sua estratificação engessaria a experiência humana em expansão.

Seu reaparecimento vem em um momento em que a individualidade se encolhe, diluída, necessitada mesmo de um espelho que a reafirme. Mesmo se, nessa estrada em que estamos todos, tal espelho é apenas a figura na janela do carro ao lado, viajando em igual e vertiginosa velocidade.

Os expositores, um por um.

Gabriel Jaguaribe, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP Gabriel Jaguaribe, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP Gabriel Jaguaribe, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP Gabriel Jaguaribe, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP
Gabriel Jaguaribe se demora em desenhos de detalhes, no desejo de registrar um mundo minúsculo que de outro modo nos escaparia. Usa caneta muito fina, calígrafo medieval.

Flamínio Jallageas força a duração de técnicas antigas que já desapareceram ou estão em vias de. Faz isso ao revivê-las em formato digital. São aguadas, aquarelas, mas não em tinta e água, e sim pixels, são manchas digitalizadas. E impressas em um papel de arroz, milenar.
Vitor Iwasso, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz, SP

Vitor Iwasso é bem direto. Faz pinturas divididas. Em uma parte há uma representação realista, na outra, formas sinuosas, livres, que espelham contudo as formas e cores usadas na representação realista. Os títulos reforçam a nostalgia/desejo. São narrativos, e narram passados distantes: Eu costumava achar que essas coisas aconteciam por uma razão. Ou: A infelicidade vem em todas as formas e tamanhos. Ele explicita em sua obra um percurso da arte, do realismo ao modernismo, e ao fazer isso emparelha seu movimento a este outro. Antes da encruzilhada.

Rafael Suriani é artista de rua. Faz figuras com caras de animais que dançam danças de rua, de periferia. Um traço rápido, fugidio, de ponta de feltro em papel qualquer, vagabundo, dobrado ou rasgado. Seria uma arte de momento. Mas ele emoldurou. Outros da mostra não o fizeram, mas ele sim. Corretas e burguesas molduras pretas, com vidro, cercam seus desenhos e determinam sua durabilidade física, seu desejo de permanência.
Verena Klary, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Verena Klary repete nos seus quadros a técnica tradicional dos grandes coloristas europeus. Ela traz assim uma simultaneidade a uma estética passada. Mas seu tema é o vento. É no meio do vento que surge a concomitância de internet e século XVIII. Um de seus pastéis se chama Me gusta el viento e, nele, além do desenho há um envelope com bilhetes na escrita descompromissada dos emails e bilhetes adolescentes.
auto-retrato de Rodrigo Bivar, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Rodrigo Bivar tem óleos (e óleo é o que há de mais tradicional, em matéria de tinta) enormes, realistas, de pernas femininas. Ao lado, o único auto-retrato com este nome de toda a exposição. É interessantíssimo. No pequeno auto-retrato, mais do que nas grandes figuras femininas, vemos uma pincelada lambida, sem volume. As pinceladas são todas horizontais, o que produz um movimento de passagem, como se a figura estivesse passando na frente do fruidor. Ou vice-versa.
Juliana Freire, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Juliana Freire usa o gerúndio para nomear suas serigrafias sobre tecido. Todas elas representam, portanto, ações petrificadas em pleno andamento. A maior delas é a Fodendo.

Rafael Carneiro é um dos que mais trazem o registro do transitório. São desenhos sujos em papel rasgado. Este contraponto – que, no entanto, não fica isolado (há outros desenhos não tão sujos em papéis igualmente rasgados) – lembra, na sua fragilidade, o movimento das feministas e dos gays, da década de 60 do século XX, a atacar com rara eficácia o domínio lógico, limpo e eficiente do universo masculino. Continua necessário, continua eficaz.

Marlin Legón fala de uma lenda folclórica, portanto atemporal, de seu país, a Argentina. A mulher que foi morta por lobos é mostrada, contudo, em uma atualização. Ou é o contrário, é a contemporaneidade urbana que é levada para esse passado distante, mítico. Na obra de Legón, a mulher e os lobos travam seu embate em um ferro-velho. E em um terreno cercado, cheio de mato, de alguma periferia.
Anderson Orui, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz Anderson Orui, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz Anderson Orui, exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Anderson Orui é o único a se aproximar da representação como instrumento de formação de símbolos. E mesmo assim, o faz para negá-los. No caso dele, é o olho, símbolo do espelho identificatório. Mas, justamente, seus olhos estão riscados ou se encontram atrás de cílios-grades, presos, portanto, em cílios-barras de ferro.

exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz exposição 20 e poucos anos, Galeria Baró Cruz

Nos outros artistas não há símbolos. Não usam a representação para elegê-los. Ou até mesmo (o que seria um passo além) para mostrar que símbolos funcionam em mão dupla: ao simbolizar em imagens uma verdade pré-existente esta verdade se torna assim verdadeira aos olhos de quem a vê. Não é o que eles buscam, a estratificação. Mas apenas um momento fugidio, embora agradável, de sensação de estabilidade. Sabem que um suposto espelho do aqui e agora deverá ser entendido apenas como um panorama eventual, produzido por critérios fluidos e recebido através de outros, mais fluidos ainda.

É uma estabilidade para lá de temporária, esta.

Anderson Orui, além de suas pinturas com os olhos riscados, traz também uma revistinha pornô em tiragem limitada, 50 exemplares. Nela, uma menina tira a roupa e se masturba em PB, fundo vermelho, página por página. Na última, o corpo depois do gozo tem a imobilidade de que fala a exposição. Foi bom, é bom. Pena que dure pouco.

A busca pela estabilidade momentânea dentro da velocidade é dita também pela curadoria. Adriano Casanova escolheu artistas que lidam com arte tecnológica de uma maneira boa, sem alarde. Ninguém berra: olha, mamãe, fiz no computador! O digital é visto aqui como deve ser visto, como mais um instrumento, a somar-se a outros instrumentos – canetas, pincéis. Vários dos artistas da mostra foram escolhidos através de seus blogs e mostruários na internet. Outros usam o tablet não porque é tablet, mas porque é o tablet o instrumento mais adequado para o fim pretendido. Há imagens vetoriais (como a do publicitário Lucas Simões), prints. E pastéis, óleo, nanquim, pilô. Misturado, invisível. A não ser que você pare, mas aí, já tanto faz.

No dia 29 de junho, 6ª feira passada, o Espaço Orlândia (Rua Jornalista Orlando Dantas 53, Botafogo, RJ) abriu suas portas ao público.

AssociadosAssociados reúne o trabalho do grupo de artistas formado por Adriano Cipriano, Aimberê César, Alê Souto, Alex Hamburger, Alex Topini, Alexandre Sá, Alexandre Vogler, Amélia Sampaio, Ana Muglia, Ana Torres, Analu Cunha, André Sheik, Arjan, Bob N., Cadu, Caroline Valansi, Chacal, Chang, Chica Granchi, Chico Fernandes, Clarisse Tarran, Claudia Hersz, Cordélia Mourão, Cristina Amiran, Dana Zaver, Daniel Feingold, Daniel Murgel, Daniel Toledo, Daniele Dal Col, David Cury, Domingos Guimaraens, Ducha, Enrica Bernardelli, Felipe Lacerda, Fernanda Antoun, Fernanda Ribeiro, Fernanda Terra, Fernando de la Roque, Franz + Saulo, Galaxi, Grupo Bando, grupo Hora do Brasil, Guga Ferraz, Guilherme Trindade, Gustavo Duarte, Gustavo Speridião, Heik Estanislav, Heleno Bernardi, Ivan Henriques, Jarbas Lopes, Joanna Chaves, Julia Debasse, Julia Milman, Julie Berranger, Julio Callado, Kenny Neoob, Khalil Charif, Lena Amorim, Ligia Teixeira, Lívia Moura, Luiz Alphonsus, Luiz Fernando Sampaio, Lula Vanderlei, Marcela Maria, Marcelo Lins, Marcelo Moraes, Márcia X, Marina Fraga, Marinho, Marisa Florido, Marta Jourdan, Maurício Ruiz, Nadam Guerra, Nelson Ricardo Martins, OPAVIVARÁ!, Pedro Urano, Ricardo Maurício, Ricardo Ventura, Roberto Cabot, Rodrigo Torres, Roma, Roosivelt Pinheiro, Simone Michelin, Suely Fahri, Tato Teixeira, Thiago de Paula, Thomas Jahan, Xico Chaves, Yoav Passy e Zé Tanuri.

Estes artistas vêm se encontrando periodicamente na casa, promovendo discussões, jantares e produzindo os trabalhos que são apresentados.

Por duas semanas a casa mantém suas portas abertas ao público, mas os artistas continuam se encontrando na casa e trabalhando até o último dia, que será marcado por um evento de encerramento.

Confira aqui algumas fotos do evento de abertura, no dia 29/07/2007.

Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann Espaço Orlândia, 29/06/07 - fotografia de Roberto Lehmann

fotografias de Roberto Lehmann

Curadoria é uma tarefa pra lá de difícil. Entrei na Galeria Tempo com isso em mente. Existem aspectos na fotografia modernista, como a geometrização da realidade, que permaneceram através do tempo: como a Tempo colocaria Fernando Lemos, German Lorca e Thomas Farkas dentro daquele contexto histórico, ainda mais considerando que são fotógrafos atuantes, contemporâneos?

O acerto não poderia ser maior.

As fotografias de Lemos, feitas entre 1949 e 1952 em Lisboa, antes dele vir para o Brasil fugindo da ditadura salazarista, foram recuperadas a partir dos negativos e tiveram cópias digitais recentes. Lorca mostra cópias vintage, ampliadas pelo próprio fotógrafo em laboratório tradicional, com papel de fibra, na época em que fez as fotos. Farkas tem ampliações recentes. Isto é relevante por conta da tecnologia de captura, ampliação e papel, que mudou muito de lá pra cá. E, assim como é relevante, poderia ser um problema sério mas felizmente as diferenças ficam em milésimo plano frente à força das imagens.

Fernando Lemos - eu poeta Fernando Lemos - gesto emoldurado

Lemos (e sua Rolleiflex) manipula contraste e foco, domina a luz, usa e abusa de duplas exposições – no próprio fotograma. Não é essa moleza de colocar camadas no software para ver se fica bom, viu?

German Lorca - 099 1 German Lorca - Andaime German Lorca - 3 pernas

Lorca é fotógrafo das antigas, laboratorista e se adaptou às novas tecnologias. Tem, inclusive, uma nova tiragem de 15 exemplares de algumas fotos selecionadas que foram corrigidas digitalmente para tirar pequenas marcas e alguns outros ajustes mínimos. É muito raro – e bom – encontrar profissionais que não deixaram o tempo passar por eles.

Thomaz Farkas - cobertura SP Thomaz Farkas - Surrealistas

Farkas talvez seja o mais “modernista” dos três. Os anos 40 no Foto-Cine Clube Bandeirante (SP) são transparentes no seu trabalho. Ele cai pesado na abstração e geometrização da realidade, ao ponto de encostar no surrealismo. E isso faz dele um fotógrafo bastante expressivo.

Então, respondendo à pergunta inicial, a Tempo conseguiu, através da narrativa (seleção) e do ritmo (disposição), formar um conjunto que não poderia existir em outra época. Saí de lá com a certeza de ter visto o crème de la crème. E este sentimento é raríssimo. Pelo menos pra as chatas de galochas como eu.

Três expoentes da fotografia moderna
– Fernando Lemos, German Lorca e Thomas Farkas
19 de junho a 04 de agosto de 2007
Galeria Tempo
Rua Visconde de Pirajá, 414 – sala 305, Ipanema – Rio de Janeiro
(21) 2227.2221 / contato@galeriatempo.com.br
Segunda a sexta, das 12h às 19h, e sábado com hora marcada.
Entrada Franca

“(…) As propostas anteriores de fotógrafos norte-americanos e europeus como Man Ray, Brassai, Moholy-Nagy, as tendências surrealistas, as teorias da Bauhaus, são, nos anos 1940 e 1950, retomadas no Brasil e suas primeiras discussões são realizadas no seio dos fotoclubes. Thomas Farkas e German Lorca, entre tantos outros, propunham imagens abstratas. Técnicas de solarização, o recorte geométrico da cena, a repetição da forma em busca de ritmo e sonoridade, representam os experimentos fotográficos desses dois artistas. Totalmente alinhado com as questões brasileiras, Fernando Lemos, em 1949, ainda em Portugal, realizou uma série de fotografias de caráter surrealista. Sua opção pela superposição de imagens feita na própria câmera fotográfica dá movimento às poses, imobilizadas tradicionalmente pelos suportes fotográficos. O desafio surrealista é percebido nos cortes que acrescentam, eliminam, deformam a realidade retratada.” – Marcia Mello, conservadora e curadora de fotografia.

Esperamos todos. Nós, na platéia. Eles dois na cena. Não há palco, estamos todos dentro de uma sala de espera. A sala é de uma puerilidade assustadora, de um lugar-comum que beira o absurdo, sala de mentirinha, com objetos que aludem a um outro tipo de teatro, uma comédia de costumes do telão pintado e cheia de detalhes inúteis – a gaiolinha, o relógio de parede, a mesinha com café, o abat-jour, o aviso de não fumar, o sagrado coração. Lá estão as quatro paredes, estamos cercados por elas – estamos dentro da cena realista. A sala tem duas portas: e por elas tudo pode entrar ou sair. Em cena, dois jovens – ele vasculha sua mochila, de onde retira uma sunga vermelha, ela lê um jornal do dia e escuta alguma música no seu walkman. A música dela não é a música da sala de espera. Isso deve ser levado em conta? Vestem-se como nós, espectadores. Isso é um sinal. E então começa a comédia. O ambiente amarelo e rosa é a sala de espera de um consultório de psicanalista e eles estão ali para ser testados. E nós também?

A moça faz palavras cruzadas – uma pista. Ele encontra um livro de Clarice Lispector. Estamos no instigante jogo de buscar sentidos, esse parece ter sido o objetivo do teatro contemporâneo e da vida contemporânea: apresentar-nos um mundo caótico ou misterioso para que nós busquemos configurá-lo numa hierarquia de sinais e lhe dar sentido. A moça puxa assunto, o rapaz responde reticente, não querendo ser invadido, tentando manter sua individualidade, sua privacidade, fazer de seu mundinho desinteressante algo em que valesse a pena prestar atenção. Afinal, ambos devem ser concorrentes para a mesma vaga. Não podemos nos entregar abertamente ao outro, estamos todos em determinado momento concorrendo com alguém para uma única vaga. E a conversa se inicia, ágil, cheia de associação de idéias. Cheia de pistas? Enquanto falam, executam pequenas ações realistas, dentro desse ambiente de casa de bonecas. Visitam vários assuntos, como a imprensa diária. Não se aprofundam em nenhum. Não há tempo para isso. O rapaz fala em holograma – milhares de imagens, você escolhe o resultado; teoria da interferência, da física quântica – somos todos a mesma pessoa; debatem semiologia – os mistérios do significado e do significante; as armadilhas do verbo, que pode confundir e dificultar a aproximação ao objeto. O que foi dito não importa, o que importa não tem nome. É um sinal para não levarmos tão a sério o que é dito? Para aguçarmos nosso olhar e nossos sentidos? Todos os sentidos? Até agora, a peça seguiu numa linguagem realista, em que até se pode falar de assuntos instigantes, mas onde a estética é soberana, uma fatia da vida, os significantes não se deixam influenciar demasiadamente pelo significado. É sempre a mesma sala de estar, o mesmo relógio marcando as horas, o mesmo samovar. O sentimento de déjà vu é apenas um detalhe.

Mas alguém cruza a cena. Um terceiro personagem. A cada dia uma pessoa diferente atravessa a sala de espera e muda a direção do espetáculo. No dia em que assisti, Gabriel Braga Nunes entrou por uma porta, disse algumas palavras ao telefone celular e saiu pela outra. E esse vento que atravessa a sala age sobre eles como um rato, parafraseando Georg Büchner.

A partir de agora, eles invertem suas atitudes, misturam suas falas, o diálogo dá marcha-a-ré. Ela age como ele, ele age como ela. E a desregulagem começa. Passamos do teatro realista ao teatro do absurdo. Referências implícitas a Ionesco, Beckett, Pinter. Será que inverteram mesmo suas identidades ou é um jogo entre eles? Ah, sim, na primeira parte, o rapaz tinha dito – somos todos a mesma pessoa… Ou será que essa é a matriz e a primeira parte era a cópia? Onde buscarmos a verdade? Como reconhecer o original e a xérox no mundo contemporâneo? Chegam de fora sons inusitados – o relincho de um cavalo, um avião que sobrevoa, outros sons. A partir de agora tudo pode, tudo é lícito, todos os signos se subvertem. De dentro do livro salta a foto de uma mulher nua, do vaso de flores sai uma garrafa de uísque, da mochila sai um picolé. O jogo de subversão dos sinais e gestos é tanto uma leitura do mundo atual, em que o sentido está alterado, quanto uma grande homenagem ao teatro, ao seu faz-de-conta genial, à sua brincadeira com os significantes e significados. No teatro, tudo pode ser, depende do olhar. A cena é um território fértil que pode ser tudo; e nós podemos ser tudo, podemos até ser uma mesinha. Dois mundos paralelos. Desde o princípio de Tempo.Depois já estamos lidando com mundos paralelos: o nosso como espectadores e o deles como atores (dentro do mesmo espaço), o mundo da comédia de costumes realista e do teatro de vanguarda, do que é visível e do que fala aos outros sentidos, o objeto fazendo seu papel ou fazendo o papel do outro. A aleatoriedade dos signos ou a falta de sentido do mundo? Ou o rodízio de significados…? As ações de repente se convertem em passes de mágica – a água se torna azul, a voz feminina se torna masculina, e tudo se equivale na sua estranheza.

As personagens saem. A cena fica vazia. Ou ocupada por nós. E por um rádio que toma vida sozinho. A luz se acende fora do cenário, vemos sua armação de madeira, se revela o artifício. O rádio dá a notícia de um meteoro na Vargem Grande, brincadeira com Orson Welles. A imprensa é uma brincadeira, é um jogo de assustar e deter a ameaça fictícia? O crime é registrado pela imprensa ou forjado por ela? Em quem acreditarmos num mundo de realismo fantástico?

Tempo.Depois
de Rodrigo Nogueira é um texto inteligente, instigante, ágil. As referências literárias e filosóficas não são poucas, o texto é uma babel. A direção de Alessandra Colasanti é irônica, acompanha o fluxo caótico do texto com muita propriedade. Sabe o que está fazendo, sabe aonde quer chegar. Em cena, Rodrigo Nogueira e Fernanda Félix têm a inquietação e habilidade necessárias para o teatro que fazem. Atores inteligentes que se colocam a serviço do teatro. Isso não é pouca coisa. O cenário de Natália Lama acerta no tom, nas cores, na miscelânea de objetos banais. A luz de Tomás Ribas está de acordo com o que o espetáculo necessita, tendo seu melhor momento no final, quando o que não é cena se ilumina para reconfigurar o que era a cena. O figurino que se pretende não-figurino é de Alessandra Colasanti. Poderia ser outro? Era necessário que esse figurino fosse o mais cotidiano possível dentro de um ambiente tão extra-cotidiano e ao mesmo tempo, tão banal. A direção musical é de Lucas Marcier e de Rodrigo Marçal, trazendo ao ambiente ora a normalidade da sala de espera; ora a ameaça dos sons inusitados de animais e máquinas ameaçadoras; ora o realismo fantástico da nossa imprensa. A equipe é homogênea em sua ambição, o teatro que buscam não é o de degustação fácil visando o sucesso relâmpago. E isso não é pouca coisa. Talvez ainda falte aos atores certo caráter palatável no uso da palavra, por vezes o fluxo alucinado do verbo descarregado dificulta a vivência ou a aparência dela, pelo menos. Em alguns momentos o jorro verbal se torna robótico em demasia, e a gradação é sacrificada. Em alguns momentos as réplicas estão na ponta da língua demais. E os desvios da linguagem e do pensamento não são levados em conta. Tudo bem que essas personagens estão agindo como máquinas que se tentam humanas (ou como homens que se tentam máquinas), mas faz falta em alguns momentos uma desregulagem no próprio fluxo, para que ele não fique da boca para fora. Mesmo que nós – hoje, e cada vez mais – falemos da boca para fora. Mas isso também é um detalhe.

Ou não é?