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Category Archives: edicao_0009

lista de artigos da edição 9, ano 2 – setembro & outubro de 2007

A mostra Reconstruções, que faz uma ponte entre a arte e a tecnologia industrial, começa hoje na Almacén Galeria.

Exposição utiliza componentes eletrônicos para ligar arte e tecnologia industrial

Aço inoxidável e componentes eletrônicos emprestaram um ar pós-pop-arte e concretista às 18 obras do escultor Gilberto Salvador, desenvolvidas durante os últimos três anos e que estão na exposição Reconstruções, na Almacén Galeria. A mostra, cuja visitação vai de 31 de outubro a 18 de novembro, é uma seqüência da realizada Galeria do Sesi, Espaço Cultural Fiesp, no ano passado.

Com obras de títulos como “La Thuerca Plata” e “Zíper Vermelho II”, a exposição faz uma ponte entre a arte e a tecnologia industrial de ponta e explicita sua escolha pelo formalismo. Estes objetos ganham uma nova poética, sob o ponto de vista do artista, como nas peças “Sorriso Bordeaux” (foto acima) e “Fritz”, que remetem às histórias em quadrinhos (Sobrinhos do Capitão).

Salvador acredita na recriação do significado de peças industriais comuns. “Os zíperes, parafusos e cadeados são temas de minha obra, e não me restrinjo ao seu significado literário e conceitual, mas são reconstruções”, explica o artista. Os conceitos geométricos e matemáticos estão presentes em cada escultura através de retas, planos, cortes e ângulos. “Dessa forma, é criada uma nova harmonia espacial que define uma nova poética para estes objetos”, acrescenta Salvador.

A aposta na exposição das novas obras de Gilberto Salvador reforça a estética concretista que a Almacén tem assumido nos últimos anos e ratifica a opção da galeria de mostrar ao público a produção atual de nomes já consagrados no cenário das artes plásticas brasileiras. O principal objetivo da Almacén é mostrar a trajetória desses artistas, a evolução de seus trabalhos, mas sem deixar de investir sempre em jovens talentos.

Serviço:
Reconstruções – Gilberto Salvador
Local: Almacén Galeria
Endereço: Avenida Ayrton Senna, 2150, Bloco G, lojas F e M – Barra da Tijuca
Visitação: de 31 de outubro (quarta-feira) a 18 de novembro (domingo).
Horários: segunda, das 12h às 22h; de terça a sábado, das 10h às 22h e domingo, das 15h às 21h.
Telefone: (21) 3325 8622
Entrada franca

Poucas vezes na vida vi um filme tão ruim quanto Justiça a qualquer preço. Quando nos primeiros cinco minutos Richard Gere cita em off “Quando você olha tempo demais dentro do abismo o abismo olha dentro de você” já é possível prever a enxurrada de mesmices que virá pela frente. Não só pela frase em si, que deve fazer Nietzsche se revirar no túmulo a cada citação, mas pelo recurso de frases de impacto em off para dizer que o filme retratará o interior em conflito do protagonista. Em outras palavras, mesmo que ele não abra mais a boca para falar diretamente com o espectador, tudo o que for exibido na tela será apenas um reflexo de seus demônios. Uma longa mistura de tortura (do espectador) e auto-análise (dos personagens) que durará 1 hora e 40 minutos.

Vamos então a “trama”.

Justiça a qualquer preçoRichard Gere interpreta o agente Errol. Ele é uma espécie de agente social que visita pessoas acusadas de abusos sexuais (o que você imaginar o filme tem). Ele deve preencher um pequeno questionário inútil, assumir que está tudo bem e que os ex-detentos realmente levam uma vida saudável. Hora de ir para casa ver televisão, beber cerveja e assistir a uma partida de beisebol. Mas quando você combate um monstro você acaba se transformando em um (desculpem não citar a frase com perfeição, mas qualquer clichê funciona aqui, já que o filme se apropria de todos eles). Errol, diferente de seus amigos de trabalho, possui consciência e é um atormentado. Ele é solitário, não tem amigos, não tem vida íntima (ele trabalha com delinqüentes sexuais, entende a lógica?). Lazer não é para pessoas como Errol. Só ele enxerga a verdade. Só ele sabe quem é bom e quem é mau. Desenvolveu um faro de hiena tão apurado que consegue saber quando um dos ex-detentos está preste a cometer outro delito. Não pode deixar os monstros andando por aí impunemente. É claro que uma pessoa como essa incomoda tanto que não é bem vista nem pelos amigos de trabalho e nem pelos predadores que ele fiscaliza. Por isso, Errol sofre muita pressão e é obrigado a se aposentar. Para fazer isso aliviado, ele precisa escolher um substituto à altura de suas paranóias. Mexendo um papel aqui e outro ali, ele escolhe Allison, a personagem de Claire Danes. O brucutu justiceiro que espanca ex-detentos escolhe a patricinha desequilibrada como a substituta ideal. Perfeito, não? Para o roteiro sim e lá pelas tantas você descobre o porquê (ou adivinha em dez minutos, o que não fará a menor diferença). Afinal, este é um filme sobre abuso sexual e a matemática só funciona se houver uma mulher na fórmula. Melhor ainda se houver uma mulher dos dois lados: do lado de quem investiga e do lado de quem é investigado (são tempos politicamente corretos, direitos iguais para todos).

Errol tem pouco tempo para treinar Allison. Os dois saem para visitar os maníacos sexuais e Allison descobre que Errol usa métodos pouco convencionais na sua missão de agente social. Ele pergunta o que não deve, ameaça, investiga. Ó, como ele é cruel. Nesse meio tempo, uma menina desaparece e Errol tem certeza de que um dos maníacos arrependidos que ele acompanha está envolvido no caso. É o jeito sem graça de fazer a trama avançar, já que os conflitos internos aqui são pura maquiagem.

Como durante o filme Errol e Allison só visitam dois desses maníacos, fica meio óbvio quem são os culpados. A polícia, é claro, só possui em seu quadro energúmenos incapazes de seguir uma pista. Em determinado momento um dos personagens se pergunta “eu não sei como a polícia não pensou nisso”, o que reflete um lapso de senso crítico do roteirista (Hans Bauer é o roteirista de Anaconda 1 e 2, preciso dizer mais?). Já que a polícia não consegue resolver o caso… surpresa… Errol e Allison precisarão salvar a menina, movendo uma investigação por conta própria que, para piorar ainda mais, irá sanar um antigo trauma de Errol.

Sobre a direção. Wai-keung Lau é o criador do filme posteriormente refilmado por Scorsese como Os Infiltrados. Com o Oscar e o sucesso da versão americana, Wai-keung conseguiu uma chance de entrar em Hollywood. A quantidade de roteiros bons não devia ser muito grande e para fingir um filme autoral que foge dos padrões da indústria local nada melhor do que falar sobre sexo e desfilar todos os tipos de perversão existentes nos livros de psicanálise. Wai-keung Lau é um cineasta experiente e sabia que não seria possível extrair muito da pífia história. Sua tática foi usar recursos de filmagem e edição para impor sua marca, o que piorou ainda mais a situação. O filme está cheio de cenas rápidas entrecortadas e os cenários estão sempre na maior escuridão, afinal a alma humana é negra e na escuridão se escondem demônios inimagináveis. Sem nenhum momento criativo, Wai-keung usa os enquadramentos mais práticos para mostrar as belas paisagens desérticas e tentar transmitir com o cenário a desolação que não consegue transmitir com a linguagem.
Para não dizer que o fiasco é total, a atuação de KaDee Strickland como a psicopata enrustida Viola merece algum destaque. Dependendo de seu desempenho em American Gangster, é possível que a carreira da moça comece a deslanchar.

Para encerrar, dois lembretes:

1. Sempre desconfie de um filme que aceita Avril Lavigne no elenco.
2. Quando você olha tempo demais para um clichê, o clichê também olha para você.

Há mais ou menos um ano Jay Vaquer lançou o cd Você não me conhece e emplacou nas rádios e na MTV o hit Cotidiano de um casal feliz. O tempo voou e o cantor divulga agora seu quarto cd, Formidável Mundo Cão, que merece um lugar em todas as listas de melhores do ano.

Jay VaquerO cd se divide de forma equilibrada entre letras e melodias leves e pesadas. Para sorte dos fãs, Jay Vaquer segue apostando na qualidade e faz questão de fugir das velhas fórmulas desgastadas que vêm assombrando grupos mais antigos. Dos momentos românticos (sim, ainda é possível usar esse termo no Brasil sem se referir a músicas vazias que se apropriaram do verbete para usá-lo como gênero musical), um dos pontos altos é a faixa Por um pouco de paz, que traz alguma paridade melódica com o primeiro cd. “Cumpro a sentença / e compenso o que a cela limita / Peço licença de meu senso / e me faço visita / Me conto como está um antigo amigo inventado / Confesso a saudade de estar comigo ao meu lado / e tento cavar um túnel / que me leve de volta / a tudo que me prendeu”. Outro destaque é Nera, que merece atenção não só pelos bons arranjos (o cd é produzido por um time de primeira), mas também por metaforizar no amor a história de Nero, o imperador que supostamente incendiou Roma.

Quando o foco é o fogo verbal, as críticas vêm na forma de pequenas histórias, beirando os limites entre música e conto.

Jay VaquerLonge Aqui, o primeiro single divulgado nas rádios e no myspace, conta a história de uma menina pressionada pela família a abandonar a namorada, abdicar de si mesma e encarnar personagens mais aceitáveis pela sociedade. “Tinha que engravidar, criar, envelhecer, morrer como todos esperavam/ Tinha que renunciar, agradar, obedecer, vencer, como todos desejavam/ Até que ela partiu/ Ela partiu pra bem longe/ Pra distante o bastante pra suportar”.

Breve conto de um velho babão é um dos grandes momentos rock do cd e explora ao máximo a potência vocal de Vaquer. “Chorava o leite derramado/tudo que havia conquistado / e no discurso decorado/tinha orgulho do passado / um passado que esquecia/toda vez que enlouquecia / se esfregando pelas raves doido de “E”.

Jay VaquerVale lembrar que as 12 faixas são assinadas pelo próprio Vaquer, que parece ser um dos poucos artistas do momento a refletir em sua música a realidade massacrante do país, estagnado diante das próprias mazelas. Tudo isso regado a muita ironia e rock’n’roll.

Para encerrar, a letra de Estrela de um Céu Nublado, provavelmente um dos hits de 2008. A música é um dueto com Meg Stock, vocalista do Luxúria (uma ótima banda da nova geração rock).

Decidiu que precisava ser alguém no mundo e não mais um na multidão
resolveu investir fundo nas aulas de interpretação
Foi morar no Rio de Janeiro, tiro certeiro pra tentar a sorte em Projacland
alugou um conjugado no catete
arrumou uma vaga de barman num bar descolado pra cacete
atores, modeletes, formadores de opinião
…wannabes de plantão
foi lá no balcão, que um assistente de direção da novela das 6 (6,6) lhe prometeu uma figuração talvez.
aí ele se animou, se empolgou, nem dormia mais! pobre rapaz
logo descobriu que o sujeito não era quem dizia ser
mas na verdade um ator desempregado, frustrado que tinha um blog pouco freqüentado…
e se sentia “só E mal acompanhado”

Nasceu pra ser uma estrela , era tudo que ele mais queria
mas o céu tava sempre nublado
Estrela que ninguém via e quando o dia amanhecia,
seu tempo já tinha passado

Conheceu Dora enquanto trabalhava no bar, servindo bebidas, ela soltando fumaça no ar
Perua desquitada que vivia da pensão do ex-marido, empresário falido que sofria de Síndrome de Dow Jones
E não é que a madame realmente tinha bons contatos em Projacland, isso foi levado em consideração
encarar a vovó podia ser a solução,
resolveu segurar o rojão
investiu naquela estranha relação
na tentação de ser famoso..
Dora resolveu que iria ajudar o garotão
Mais um que queria ser artista de televisão, ok então
Numa tarde no salão, enquanto jogava sudoku e depilava a virilha
ligou do celular da filha
para um amigo diretor picudo e lhe solicitou: receba o garoto. Quando é quem tem teste?
…enfia ele num teste!
O picudo respondeu:
agora não tem teste, mas uma festa com show do Jota Quest
…leva seu bonitinho, Dora! Confio no seu faro, conheço o rapaz lá na hora e se eu for com a cara dele, enfio num teste, eu enfio, enfio, é claro.

Nasceu pra ser uma estrela , era tudo que ele mais queria
mas o céu tava sempre nublado …
Estrela que ninguém via e quando o dia amanhecia,
seu tempo já tinha passado…

Na festa badalada, foi cantado pelo poderoso diretor
que lhe ofereceu trabalho e amor
lhe deu dicas de comportamento e recomendou :
Saia logo do armário!
Ele respondeu que não estava em nenhum armário, muito pelo contrário
Não tinha nada contra gays, só não era um
O coitado perdeu a vez.
Depois de tal afirmação, foi excluído, rejeitado, difamado

Nasceu pra ser uma estrela, era tudo que ele mais queria
mas o céu tava sempre nublado
Estrela que ninguém via e quando o dia amanhecia,
seu tempo já tinha passado

Passou a beber até cair
sacou que não teria uma chance
seu desejo distante de seu alcance
Na deprê engordou mais de 20 kg em um ano
seu maior erro foi nunca perceber o engano
jogou a toalha na vida
entregou os pontos e aos prantos/chorando pelos cantos

escreveu uma carta de despedida :
“Dora, querida, quero meu corpo cremado, para que ele seja espalhado por toda cidade cenográfica em Projacland.”

A OSB Jovem é um projeto da fundação OSB composta por jovens de até 25 anos. É um dos mais importantes investimentos nos jovens talentos musicais. Domingo passado, dia 21, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro assisti o Concerto para Flauta e Orquestra em Sol Maior de Mozart K.313, com a orquestra OSB Jovem e a solista Roseli Ribeiro Moutinho.

Roseli Ribeiro Moutinho, no camarim do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 21 de outubro de 2007Em 2006, eu, Roseli e Paula Martins, também flautista, apresentamos algumas vezes o Trio para Piano e duas Flautas Op.119 de Kuhlau. Naquela época conheci o talento fantástico e a rara musicalidade das duas.

Mozart nunca é fácil. É música nua e pura, desprovida de disfarces ou distrações. É onde o intérprete mais se expõe, uma verdadeira prova de fogo para qualquer musicista.

O que aconteceu no Municipal foi maravilhoso: Roseli mostrou toda sua palheta de timbres, toda a sua gama de dinâmicas, além de musicalidade e fraseado refinados. O acabamento foi perfeito, não havia nada de bruto, impulsivo ou impensado. Ao contrário, tudo foi cuidadosamente polido e lapidado, e o resultado foi assombroso. A cadência do primeiro movimento foi um resumo de tudo: ali Roseli mostrou que não é mais uma estudante, mas sim uma profissional competente. Todos puderam contemplar a dimensão do seu talento incomum.

A orquestra, sob a firme batuta de Marcos Arakaki, esteve a todo momento pronta para acompanhar perfeitamente a solista. A harmonia entre as duas foi essencial para o resultado sonoro obtido. Ficou evidente a concepção clássica de um concerto para solista e orquestra.

A comoção na platéia foi geral: havia os que riam de felicidade, havia os que choravam de emoção, mas uma coisa em especial me chamou a atenção: à minha frente, um senhor de meia idade não se conteve e disse a todos os presentes para que guardassem aquele momento na memória. Aquele momento, para mim, mais do que a realização que vem em reconhecimento a todo o esforço e a dedicação de Roseli, foi o passo inicial de uma carreira brilhante.

Lembrei-me da história de Nelson Freire quando após apresentar-se em um colégio, ainda criança, uma religiosa disse às alunas para guardarem bem aquele momento em suas memórias, pois aquele menino seria amplamente reconhecido no futuro.

Aproveitando o exemplo de Nelson Freire, digo, então, a todos os que foram ao concerto (tendo certeza de que minhas palavras carregam um vaticínio): guardem com carinho a lembrança daquele momento. Roseli é um talento raro, uma imensa promessa. Para ela, desejo sorte e reconhecimento.

Stardust é adaptação de um texto de Neil Gaiman, o autor da série de HQs Sandman e dos livros, Coraline e Deuses Americanos, entre outros. Estão lá elementos comuns ao universo de Gaiman, como o humor leve de todos os personagens e a falta de estranheza ao se deparar com magia ou seres fantásticos. O filme modifica um pouco a história de Gaiman, criando novas passagens e destacando alguns personagens, mas nada que comprometa o andamento do roteiro ou ofenda os fãs do autor britânico, muito pelo contrário. Stardust é um filme jovem com cérebro, agradando um grupo maior de espectadores sem ofender a inteligência de ninguém.

Neil Gaiman no set de StardustO filme conta a história de Tristan, fruto de um relacionamento nada convencional entre um inglês e uma moradora do reino mágico de Stormhold. Apaixonado por uma jovem (Sienna Miller) que o despreza, ele resolve dar a última cartada levando-a para um piquenique noturno. Nesse dia, uma estrela cruza o céu e eles fazem um acordo. Se ele trouxer a estrela, ela aceita se casar com ele. Só que a estrela caiu do outro lado da fronteira, o que fará Tristan retornar a Stormhold. A busca pela estrela passa a ser então a descoberta de seus sentimentos e de parte perdida do seu passado.

Regra de todo bom filme de fantasia, neste não faltarão obstáculos para Tristan enfrentar. O primeiro deles: a estrela não é um fragmento de rocha, mas uma pessoa muito mimada (por ser uma estrela). Convencê-la a ser levada amarrada de presente para uma mulher que não dá a mínima para Tristan por si só já seria uma missão difícil. Não bastasse isso, a aparição de uma estrela em Stormhold é um evento raro e muita gente de caráter duvidoso irá atrás dela. Entre eles estão os candidatos a rei Secundus, Septimus, Tertius e Primus. Filhos do rei, eles são chamados ao leito de morte do pai para decidir quem será o seu sucessor. Só que há uma regra inusitada para tal: os irmãos devem se matar e o sobrevivente assume o trono. Como os quatro ainda estão vivos, o rei decide usar um método diferente. Tira do peito um cordão com um rubi que voa e desaparece. Quem recuperar o rubi se torna rei. O cordão mágico, entretanto, acaba capturando uma estrela chamada Yvaine (Claire Danes) no caminho, aumentando o prêmio para quem o recuperar.

Stardust – O Mistério da Estrela

A queda da estrela chama a atenção também de uma família de bruxas velhas e decrépitas que precisam comer o coração da estrela para recuperar os poderes e voltarem a ser jovens. Das três irmãs, é Lamia (Michelle Pfeiffer) que sai em busca de Yvaine, aproveitando um restinho da última estrela que caiu para ter forças para na jornada.

Complicado?

No filme tudo é apresentado de forma organizada e sem exageros dramáticos. É um modo inteligente de garantir aventuras para todos os personagens (as bruxas, os candidatos a rei, a estrela perseguida e o herói acidental Tristan) e de evoluir e entrelaçar as histórias, movendo a trama para o derradeiro clímax onde todos se encontrarão.

Stardust – O Mistério da Estrela

Matthew Vaughn foi uma grata surpresa no projeto. Com pouca experiência como diretor, ele assumiu a direção, o roteiro e a produção de um projeto desacreditado pelo estúdio e conseguiu críticas positivas no mundo inteiro.

Infelizmente, nos Estados Unidos o filme foi um fracasso de bilheteria, devido à péssima estratégia de lançamento (competiu com Harry Potter) e de divulgação (não queriam assumir o filme como uma fantasia infantil). No restante do globo, o filme já arrecadou US$38 milhões e conseguiu superar os US$70 milhões que custou.

Além da atuação excelente de Michelle Pfeiffer, também se destaca Robert de Niro no papel do pirata que captura relâmpagos. Star system a parte, o humor inteligente e os efeitos especiais bem dosados já valem o ingresso.

Stardust – O Mistério da Estrela

Muita coisa mudou desde Cidade de Deus (2002). Lembro de ouvir pós-sessão e em debates que aquilo era um exagero. O espectador que não se via retratado no filme preferia não perceber o quanto de realidade havia na ficção. Criança com armamento na mão? Como pode ter isso no Brasil? Isso é coisa de guerra. E por aí vai. Em Cidade de Deus, a polícia praticamente inexistia, fazia parte do cenário, eliminando uma variável importante para explicar o ciclo da violência. Afinal, não é possível fingir que entre o leão e a grama só existe a zebra.

Curiosamente, o narrador de Cidade de Deus era um aspirante a repórter, o que na teoria lhe tornava imparcial para tratar de um assunto tão delicado. Na época, na boca do povo, o nome de Zé Pequeno.

Cinco anos depois, Tropa de Elite (que vale comentar, não é fascista). Ninguém duvida de que o filme seja um retrato da realidade, respeitando os limites de uma obra de arte. Criança com arma na mão? Que triste cotidiano.

Tropa de EliteWagner Moura interpreta o Capitão Nascimento, comandante de uma unidade do Bope que quer deixar o posto e para isso precisa encontrar um substituto à altura. Com a mulher grávida, o filho quase nascendo, Nascimento se sente pressionado a viver, sair da linha de tiro. Em Tropa de Elite, o Bope está no topo da cadeia alimentar. Eles são respeitados pelos traficantes, são honestos, estão acima da corrupção policial. Aliás, traficantes e policiais ocupam a mesma camada da pirâmide, tentando uma simbiose apoiada em balas, mas vivendo de parasitismo mútuo alimentado por drogas e dinheiro.

Paralelamente aos dramas profissionais e familiares de Nascimento, há a história de Neto e Matias. Os dois amigos de infância entram para a polícia e se deparam com um esquema de corrupção entranhado em toda a hierarquia da corporação. Matias é estudante de direito e se vê em conflito no meio dos colegas de faculdade viciados que participam de marcha pela paz, mas são amigos de traficante (fazendo supostos trabalhos sociais). Neto é menos cerebral e mais explosivo que Matias, e tenta usar a corrupção da polícia para fazer um trabalho honesto (com todos os paradoxos possíveis). O filme começa com os amigos no alto do morro, no meio de um tiroteio, cercados por traficantes. Para resolver o problema, a polícia aciona o Bope, e é assim que Nascimento esbarra com seus dois possíveis substitutos.

Mesmo antes da estréia, Tropa de Elite foi notícia com o seqüestro de parte da equipe em uma das favelas, o roubo das armas cenográficas e não-cenográficas e o vexame da pirataria, com cópia pirata indo parar até no gabinete do Gilberto Gil (e na casa de metade dos jornalistas que não queriam perder a notícia).

Tropa de EliteSó a pirataria já dava uma crítica inteira. No país, as pessoas fingem acreditar que comprar produto pirata é redistribuir renda, é ajudar a aumentar o índice de emprego. Artista é tudo rico, gravadora é tudo endinheirada. Ninguém se lembra do Zé, que trabalha de auxiliar na recepção e que no primeiro corte de gastos da empresa perde o emprego porque o bacana economizou trinta reais pra comprar mais um par de óculos Prada. É uma ilusão auto-imposta e uma desculpa de validade duvidosa.

De volta ao filme.

As atuações estão impecáveis, cada um aparecendo o quanto deve, com papéis bem-definidos e sem redundância.

Wagner Moura conseguiu um personagem eterno, Caio Junqueira e Fernanda Machado se destacam com brilho próprio e André Ramiro tem a oportunidade de explorar o único personagem do filme que realmente vivencia uma transformação e encara de frente os próprios conflitos. Jorge Padilha orquestrou as cenas de ação e os momentos dramáticos com firmeza, tentando buscar entre o preto e o branco mais do que tons de vermelho e sem apelar para a plasticidade.

O roteiro é enxuto e consistente, e só peca pela narrativa em primeira pessoa. Apesar de ser um grande facilitador na hora de contar a trama, o recurso elimina a força das histórias paralelas, colocando-as no mesmo foco de atenção. Isso mantém o filme inteiro no pico de adrenalina do Capitão Nascimento, enfraquecendo as cenas que deveriam funcionar como momentos de calmaria e diminuindo a força do clímax, do impacto final (que não é pequeno).

São 116 minutos que passam voando. Um dos melhores filmes nacionais desse início de século.

O novo livro de Richard Diegues reúne 17 contos escritos em datas esparsas, mas que carregam no cerne algo em comum: se parecem com o tipo de história contada em volta do fogareiro, dentro da barraca de camping, debaixo da coberta com a lanterna acesa ou, como diz o nome do livro, Sob a luz do abajur.

Esse não é um formato novo para o autor, que participa da série Necrópole e organizou a coletânea Visões de São Paulo – Ensaios Urbanos. Sob a luz do abajur é composto por contos curtos, entre 2 e 5 páginas, e textos introdutórios que os acompanham. Se as introduções nem sempre funcionam, os contos são em geral eficazes. A opção por narrativas diretas sem firulas ajuda a manter o fôlego e o tom de suspense.

Richard segue o clima sobrenatural que conquistou os fãs nos trabalhos anteriores, permitindo-se diversificar os temas. É perceptível desde o início a facilidade do autor em mudar sua voz. Ele soa convincente como um caminhoneiro, um executivo, uma prostituta ou um pugilista.

O abajur, por exemplo, traz como protagonista uma menina de três anos de idade e aborda o medo do escuro, sem o interruptor salvador ou a palavra de consolo dos pais. Que caiam as pedras e Santo Embuste viram o fogo para a igreja, sem medo de apertar o gatilho. Em um tom crítico, religião e ficção são colocadas no mesmo patamar. No fio da navalha, um dos mais interessantes, acompanha um sujeito com um dom peculiar, que trabalha numa cutelaria e tem entre seus fregueses alguns psicopatas adeptos do facão. Difícil não pensar no jargão “o cliente tem sempre razão” ou nesses textos que viram febre no mundo corporativo.

“Por ocasião, vou lhe dizer que é apavorante trabalhar neste lugar. Fora o cuidado ao se mover, também é necessário olhar bem onde se senta. Mas isso é simples, adquire-se o hábito depois do terceiro ou quarto corte”. – No fio da navalha.

Richard Diegues também foge de uma armadilha atroz que acompanha os contistas: o último parágrafo. Com exceção de um conto ou outro, não há frases prontas repentinas que tentam agregar um valor que o restante da história não tem ou criar uma grande virada de trama, quase ali no ponto final. O autor prefere um processo honesto, que lembra a escola tradicional dos escritores de terror.

Stephen King costuma basear seus livros em reações. Seus personagens têm uma vida comum, geralmente no Maine, e se vêem frente a frente com o inusitado. As histórias se desenvolvem com os personagens tentando se livrar das arapucas criadas por ele.

Richard escolhe outro caminho. Ele utiliza cenários cotidianos, pequenos medos que se entranham no frenesi da cidade grande e só precisam ser retrabalhados no campo da fantasia. Em seus contos, o terror não causa surpresa nos protagonistas, é parte natural da vida. É preciso lidar com a situação e encará-la de frente.

“O tiro foi certeiro. Estirei o braço à frente, fiz a mira e, mesmo antes de pensar, já havia pressionado o gatilho. Confesso: mirei entre os olhos (…) mas o que importa? Estou pouco ligando para o coice da pistola. Entre os olhos ou no centro da testa, acaba tudo da mesma maneira”.

Sob a luz do abajur tem 94 páginas e saiu pela Tarja editorial, da qual Richard Diegues é um dos editores.

Definição rápida. Hairspray é o sexy symbol de Grease e Embalos de Sábado a Noite travestido em uma dona de casa gorducha que usa vestido brilhante e salto alto. Esse é o verdadeiro motivador da compra do ingresso: ver John Travolta dançar no final.

HairsprayAgora por partes. Hairspray é a refilmagem de um musical homônimo de 1988 e também já foi uma peça da Broadway. Com poucos diálogos falados, trata-se de um musical assumido, cantado do início ao fim. É um projeto leve, sem viradas de trama ou sofrimento prolongado. O espectador não vai rir o tempo inteiro, mas certamente guardará bons momentos. Ele foi pensado como um filme família (inclinado para o lado jovem, é verdade) e lembra muito a antiga Hollywood, que não tinha necessidade de explodir cenários milionários para inflar o próprio ego. Usando a cidadezinha conservadora Baltimore, o roteiro comenta preconceitos raciais, tirania de padrões de beleza e variações do tema. Apesar de se passar em 1960, tudo soa muito atual.

O filme conta a história de Tracy Turnblad, uma adolescente fanática pelo Corny Collins Show, programa musical de fim de tarde transmitido pela TV. Seus dias no colégio são um imenso intervalo tedioso entre um programa e outro. Tudo o que ela quer é decorar as novas coreografias e músicas e, quem sabe um dia, fazer parte do elenco. Sua mãe, Edna (John Travolta) é uma dona de casa tradicional. Ela acha que a filha sonha demais e que seu destino é ser dona de lavanderia ou passar roupas como ela. Seu pai, Wilbur Turnblad (Christopher Walken), é dono de uma loja de bugigangas chamada Riso Solto e acha que a filha tem que seguir seus instintos e não desistir dos sonhos jamais.

A chance de realizá-los surge quando uma das dançarinas do programa precisa se afastar e há a seleção para substituta. Tracy (Nikki Blonsky) decide ir escondida fazer o teste comandado pela loiríssima Velma Von Tussle (Michelle Pfeiffer), mãe da atriz principal do Collins Show e coordenadora do programa. Só há um pequeno problema. Velma é uma perua que quer distância de baixinhas gordinhas como Tracy, preferindo loiras, altas e magras como a filha. Invejosa, vive arrumando brigas com Corny Collins (James Marsden) por causa do elenco, da pouca atenção dada à filha e pelo Dia do Negro, dia especial em que os negros dançam no programa (o que ela acha uma agressão à moral e aos bons costumes). Entre uma desilusão e outra, Tracy arruma um jeitinho de encontrar as pessoas certas, aprende novas danças com os amigos negros do colégio e, sempre com muito laquê no ar, consegue chamar a atenção.

O diretor Adam Shankman foi inteligente ao construir o suspense do filme em cima da primeira aparição de Travolta, das inevitáveis citações a Pulp Fiction e do momento em que o Mr. Saturday Night Fever vai para a pista de dança sacudir a perfeição de sua maquiagem. Shankman também acertou ao adotar o limite entre o natural e o caricato na direção de atores. Michelle Pfeiffer e John Travolta não caem jamais no pastelão e não por acaso têm sido muito elogiados.

A curiosidade em torno de Hairspray era grande, pois Michelle Pfeiffer vinha de um longo período de férias de Hollywood e os filmes de Travolta geram um suspense natural, já que ele costuma alternar entre sucessos incontestáveis e fracassos impressionantes. Pela atual arrecadação (US$173 milhões), Hairspray está no primeiro grupo.

Destaque também para James Marsden (Ciclope de X-Men), que finalmente conseguiu uma boa atuação, mesmo com um papel pequeno.

O espaço foi pequeno para a grandeza dos artistas”, me disse Alexandre ao saírmos do espaço oPHicina, na Vila Madalena. Ele tem razão. O grupo captura da Luz organizou uma mostra de alta qualidade (e quantidade). Ótimas e muitas ampliações. Tantas que mal couberam na casa.

Os fotógrafos que mais me impressionaram:

Rodrigo Jazinski, com suas cores modernas e composições interessantes, é muito bom. As fotografias dele são depoimentos urbanos antes de se tornarem cor.

Eduardo Muylaert, com umas pbs cênicas de fazer inveja, leva o conceito de “captura da luz” ao pé da letra. Suas fotos mostram escolhas muito conscientes de luz e composição.

Matangra e sua arte moderna, colorida, urbana, adorei.
Célia Mello
Célia Mello me lebrou Doisneau com seus pbs. Ela tem duas linhas diferentes, e as suas sobreposições (no filme, “na unha”, não é manipulação digital) surpreendem com ritmo.

Bruno Sandini ainda não definiu muito bem seu estilo mas, não importa por qual caminho escolha seguir, vai ser bom. Ele se preocupa com o motivo de tudo na foto e isso, por si só, já é suficiente para definir um grande fotógrafo.

Tiago da Arcela
Tiago da Arcela é quase pop art, as cores são fortes e mesmo quando ele resolve brincar com monocromáticos consegue manter o ritmo pop.

Renato Soares mantém o seu já conhecido trabalho com índios mas a mostra traz vários formatos e até mesmo pequenas ampliações que devem ter o tamanho de mais ou menos metade de um cartão postal. O interessante em fotógrafos como o Renato é que as imagens não perdem a sua força, independente do tamanho da ampliação.

Alberto Oliveira é uma mistura entre fotógrafo e artista digital. O que gosto nele é que a manipulação é assumida e incorporada, não é uma muleta para o que não conseguiu fazer com a câmera, é uma opção consciente e parte de um projeto visual completo.

Carlos Fadon e seus reflexos. Fadon assina como fotógrafo mas deveria assinar como poeta. Concretismo puro, muito bom.

Hugo Curti
Hugo Curti, com seus horizontes baixos e plantas tranquilas.

Claudio Lunardelli é artista digital. Manipula objetos, não se limita a alterar contrastes ou a fazer sobreposições. Ele usa a ferramenta para criar novas imagens, completamente novas, que não existem no mundo real.

Outros lá estavam, todos bons.

Peter de Brito
Agora, o trabalho pelo qual eu me apaixonei foi o do Peter de Brito. Ele tem uma leveza e um carinho no olhar que há muito eu não encontrava. A série “Lápis de cor”, com fotos da Parada Gay de 2003, é de uma doçura difícil de descrever. A maioria dos fotógrafos que conheço (eu inclusive) se preocupam em conseguir a imagem exatamente como a imaginaram antes do clique. Peter consegue ver através da imagem e aceitar o outro, diferente ou não, como ele é. Isso não é apenas raro na fotografia, é raro na humanidade.

O grande Lamartine Babo não perdia uma. Piadista de primeira, dá o clima de como eram recebidas as novidades estéticas popularizadas pelos modernistas. A histórica marcha A. B. Surdo, de 1930, demonstra o marco divisório entre duas concepções estéticas e permite que se veja que, longe da tranqüila aceitação dos modernistas, vicejou durante muito tempo a predileção pela palavra cheia, retórica, que dominava tanto a poesia romântica quanto a poesia parnasiana.

Em uma outra marcha – História do Brasil, de 1934 – o grande Babo vai mostrar a aclimatação do ideário modernista. A diferença entre as duas composições é patente. Se A. B. Surdo utiliza a técnica modernista para ironizá-la; História do Brasil cai no mais puro deboche e busca o gosto modernista da paródia. Se na primeira marcha a paródia se volta contra a estética que a inaugura como forma de escrever o país e sua tradição bacharelesca; na segunda, a paródia apresenta o foco de sua ironia na própria série literária, musical e histórica, como havia proposto Oswald, no seu exemplar livro de poesias Pau Brasil.

O non-sense é em um e outro caso a intenção. O non-sense se caracteriza pela negação do sentido usual e pela criação de outro, surpreendente, desconcertante. Tomem a estrofe que fecha a música: “Seu Dromedário é um poeta de juízo, é uma coisa louca, / pois só faz versos quando a lua vem saindo / lá no céu da boca, lá no céu da boca.”. A lua, figura romântica, de poetas e sonhadores, tem seu sentido deslocado. Ao sair do céu da boca, serve como deixa para a construção de uma imagem ironicamente surrealista, na qual a ausência de sentido aponta tanto para o absurdo modernista quanto para a falência da percepção romântica. Ademais, pode-se perceber, na negação que dela faz, o correlato da negação modernista. O fato de “isto não ser marcha nem aqui nem lá na China” significa duplamente que o futurismo não é poesia nem aqui nem lá na Itália. Mas curiosamente a intuição do compositor nega com uma marcha a marcha que tecnicamente é uma marcha que se nega como marcha, numa progressão de sentido infinita. Não seria também possível ler na negação que se faz da poesia futurista sua afirmação?

A falência romântica que vai se acentuar na hilária História do Brasil. Lamartine, com seu espírito galhofeiro, acerta a mão, em cheio. As referências ao romantismo tornam-se mais claras, mais destrutivas, já que o ícone romântico aqui se transforma em pura burla. As citações de José de Alencar e Carlos Gomes, colocando lado a lado a cultura letrada e a popular, permitem perceber a aproximação que o modernismo intenta em relação a uma língua brasileira.

Curioso de se notar é a inversão que fazem modernistas e compositores populares. Se o Modernismo busca popularizar a língua literária; a música popular, por seu turno, busca difundir uma competência lingüística que se aproxima do falar culto – não esqueça o leitor que tanto Cartola quanto Ismael vão falar quase sempre em segunda pessoa – este cruzamento babélico predominará em todo o período de instalação e estabilização do projeto de uma língua brasileira. Será na verdade o nosso padrão.

Se Oswald e Mário fizeram a ponte entre a língua culta e a popular, Lamartine e Noel Rosa refizeram a ponte em sentido contrário da língua popular à culta. Neste sentido à rejeição inicial de A.B. Surdo, de Lamartine e Noel, só poderia seguir-se a confluência da História do Brasil.

A fundação da língua brasileira nasceria, portanto, da busca invertida de dois processos, que se rejeitaram e se aproximaram, quando descobriram que as possibilidades de expressão do nacionalismo, da aura brasileira, só podia nascer ao se parodiar a própria língua e a si mesma.

HIM é um dos grupos de love metal mais famosos do mundo. Criado na Finlândia, existe desde 1991 e teve diversas encarnações, um amontoado de nomes e estilos. Depois de alguns anos gravando demos, EPs e fazendo covers de Depeche Mode, Type o’Negative e até Backstreet Boys, o HIM gravou seu primeiro álbum oficial.

HIMGreatest Love Songs vol.666 saiu em 1997, com sete músicas inéditas e duas regravações: Don’t Fear de Reaper, cover do clássico do Blue Oyster Cult, e Wicked Games, a música mais conhecida de Chris Isaak. Foi o suficiente para chamar atenção do público finlandês, abrir algumas portas na Europa e até tocar nas rádios brasileiras.

Razorblade Romance veio em seguida com um som mais trabalhado e a clara intenção de aumentar a base de fãs. Os quatro singles escolhidos tinham sonoridades e públicos-alvo distintos. Poison girl, o de menor sucesso, é uma música introspectiva padrão. Right here in my arms é um rock clássico, com guitarras e vocais em equilíbrio e paradinha no refrão para a platéia acompanhar ao vivo. Em Join in me in death o destaque é o teclado, uma das marcas do HIM, acompanhando o ritmo mais calmo da bateria e a voz melódica do vocalista Ville Valo. Gone with the sin é uma balada que aposta nos tons graves de Ville, ganhando ao vivo um solo de guitarra e o coral do público.

Depois de uma parada para um trabalho paralelo sem repercussão, veio Deep shadows and Brilliant Highlights, o trabalho mais pop do HIM. Presença constante nas rádios da Finlândia e Alemanha (com presença esporádica na Itália, Suíça e Áustria), o álbum aposta mais em baladas e o lado rock é amenizado. Dos singles, In joy and sorrow e Heartache every moment são os que mais se aproximam da identidade musical construída até então.

Love Metal, o quarto cd, retoma as origens e é um dos marcos da carreira. The funeral of the hearts, uma das melhores faixas do HIM, conquistou novos mercados e chegou a 15a posição no Reino Unido, consequentemente abrindo portas nos Estados Unidos. Os singles The Sacrament e Buried alive by love repetiram o feito, com menor intensidade, apesar da boa qualidade.

Estratégia comum no mundo da música, quando novos mercados se abrem, velhas canções passam a ser desconhecidas, e nada melhor do que uma coletânea para fazer a reapresentação. And Love Said No: The Greatest Hits 1997-2004 trouxe duas inéditas e um punhado de hits. Além da faixa-título, há um excelente cover the Solitary Man, música de Neil Diamond regravada também por Johnny Cash.

A HimMania parecia se espalhar. Dark Light, o quinto de inéditas, foi lançado nos Estados Unidos, acompanhado de extensa turnê e dois singles de sucesso: Wings of a Butterfly e Killing Loneliness. Não é um trabalho superior a Love Metal e interrompe a ascensão musical que havia desde o primeiro cd, mas serviu para chamar atenção dos americanos e dar ao HIM o título de primeiro grupo finlandês a vender 500.000 cópias (disco de ouro) nos Estados Unidos.

No novo trabalho, Venus Doom (2007), o grupo decidiu que era hora de mudar. O cd tem influência direta do Metallica e do Black Sabbath. Ville Valo já admitiu que o grupo aproveitou tudo o que podia do estilo melódico e que não valia a pena se repetir, o que levou a um som mais pesado, focado totalmente nas guitarras e distante dos teclados. Não por acaso, é produzido por Tim Palmer, que já trabalhou com Ozzy, Pearl Jam, U2, The Cure e o próprio HIM.

Venus Doom tem apenas nove faixas. Passion’s Killing for está na trilha sonora de Transformers e The Kiss of a Dawn foi lançado como o primeiro single. Ainda é cedo para dizer se a mudança dará bons resultados, mas pelo menos o fantasma da estagnação parece ter ido embora.

O HIM possui vários clipes interessantes espalhados pela rede.

Ville Valo já trabalhou com um número incontável de pessoas. Vale procurar a regravação de Summer Wine (com Natalia Avelon, a música original é de 1967, com Nancy Sinatra) e a colaboração com o Apocalyptica em Bittersweet, que também conta com Lauri Ylönen, do Rasmus.

Hong Kong Song é videoarte, com tudo de bom e de ruim que a proposta possui. Tecnicamente, o filme se afasta do conceito de som como mero acréscimo de carga dramática da imagem. Os dois elementos se combinam em uma única expressão artística, incoerente se desmembrada.

A técnica não é gratuita e serve para transmitir alguns conflitos, o mais evidente deles: tradição x modernidade. Imagens aceleradas acompanham sons acelerados, o mesmo valendo para a calmaria. Ver a passagem de um carro de bombeiros, por exemplo, indica urgência, então áudio e vídeo começam a acelerar. Linguagem direta.

O entendimento destes artifícios começa na análise da sobreposição de diferentes imagens e sons, revelando uma cidade que se atropela em ritmo frenético, sem que haja tempo de conhecer o indivíduo misturado à massa. A atenção não se foca em um ponto determinado, pois se perde em meio ao turbilhão de informações, em uma montagem metafórica à rotina de formigueiro da grande metrópole. Isso fica claro em imagens de ônibus sobrepostas a cenas de pessoas caminhando, um verdadeiro atropelamento.

O ritmo cresce na pressa do cotidiano e diminui nas cenas de natureza. Não é original, mas é uma mensagem de fácil assimilação. No oriente, há um rompimento na linha do tempo muito simbólico para eles. O conceito ancestral de agricultores, pescadores e monges que são donos do próprio tempo se defronta constantemente com os padrões frenéticos do mundo globalizado. Por várias vezes o filme se utiliza desta alternância. As cenas da barca no rio são calmas, com o barulho distante do apito e o fundo de água escura. Depois, muitos carros correndo e pessoas apressadas na rua. Cresce o ritmo do som, que se torna incômodo e ruidoso. Numa mudança brusca, nos deparamos com uma árvore, perdida em meio ao caos. Através de seus galhos passam os raios do sol. Os ruídos se tornam música.

O filme volta a utilizar a água do rio ao mostrar pessoas em pequenos barcos. O efeito utilizado cria um fantasma da imagem principal e o som é seguido de seu eco. Há nessa dissociação duas idéias: a 1ª reforça a superioridade da massa em relação à identidade do indivíduo, já que o indivíduo está fora de foco, literalmente. A 2ª retoma o conflito central. Aqui, a separação do corpo e da “alma” indica a força do hábito. São pessoas que estão ali todos os dias, fazendo a mesma coisa, trabalhando mecanicamente para sobreviver, enquanto as demais correm sem a certeza do dia de amanhã. Não importa o que faça no restante do dia, uma parte do pescador sempre está no rio a trabalhar.

Apesar da velocidade do mundo, a sociedade deixa sua marca. No caso evidenciado na videoarte e na vida real, a poluição.

José Alvarenga - Fotografias Urbanas

Fotografias Urbanas
José Alvarenga
9 de outubro a 10 de novembro de 2007
AL-FARABI
Rua do Rosário, 30/32
Centro – Rio de Janeiro
Tel (21) 2233-0879

Raul Leal está chegando na frontalidade. Não na frontalidade dos modernistas, para quem a tela era exatamente isso, uma superfície plana. Seus grandes acrílicos, expostos na Galeria Café, de Ipanema, têm mais a ver com uma outra tela, a do computador, com sua frontalidade profunda, infinita mesmo, e que é o parâmetro de frontalidade de hoje.

Raul LealEle ainda não está lá, mas vai chegar. O espaço que ele constrói aponta para esse nada sem norte ou sul e que vai até perder de vista. Sua cidade (ele parte de fotografias que tira pelas ruas do Rio) é um vestígio do lugar público depois que lugares públicos foram lavados de sua utopia comunitária, do seu grude. Vai daí que as manchas mais claras nadam no nada.

As telas são azuis, a cor tradicional do infinito na pintura ocidental, e nelas os fantasmas dos que já fomos se igualam, em um mesmo tratamento, a objetos também mal delineados, apenas umas sombras, só que ao contrário: o escuro é o resto, elas são esbranquiçadas. E têm seu movimento lerdo de sombras estratificado pela interrupção de um real, marca indelével da fotografia original: os passos não são completamente dados, os gestos não se realizam de todo (como na série Do mesmo lado), uma mão fica no ar.

Essa incompletude, somada à precariedade da tinta muito lavada e monocromática, salva Raul de dicotomias antigas, como urbanização/natureza, regionalização/internacionalização (é o Rio porque o reconhecemos, mas talvez soubéssemos ser, mesmo sem este conhecimento que escapa da hermenêutica da imagem, um cenário periférico; talvez não). Ou, mais uma dicotomia, a da terra/céu: o horizonte dos seus espaços é um encontro de dois campos de tonalidade similar, sem contornos muito definidos. Na tela O princípio da distância ele mesmo quase some.

Raul LealHá uma outra tendência em Raul Leal, além da frontalidade de computador. E também aqui ele passa perto, e com sorte escapa, do modernismo: é a geometrização. Na simplificação haverá sempre um essencialismo à espreita, e é preciso ter cuidado e recuperar a fragilidade, o não-acabado, e mesmo a falta de sentido: somos mais nós, assim. A indeterminação pode ser uma exigência de seus personagens, uma exigência para a sobrevivência de quem vive em lugar nenhum.

O título fala de silêncio, o release fala de música e eu vi o tempo. Mas talvez seja a mesma coisa.

Elogio ao Silêncio, de Sergio Fingermann está no Museu de Belas Artes, um edifício neoclássico no meio do tráfego da avenida Rio Branco. E se falo isso é porque a situação do edifício meio que faz eco com o que vamos encontrar lá dentro. De lá, a exposição vai para a Pinacoteca, em São Paulo, e mais uma vez o eco.

Desculpe, mas vou precisar falar: globalização. E pior: Fukuyama.

Sergio Fingermann é o antídoto.

Não é que ele pinte o passado. Isso não faria o menor sentido. Ele pinta, com tinta a óleo e tela, representações de paredes velhas de azulejo, por onde escorrem vestígios de imagens quase apagadas, representações de cenas que só podem, pensamos, vir do passado.

É aí que ele nos pega.

As imagens funcionam porque são contemporâneas. Quer dizer, por terem sido feitas hoje, elas apontam – ao não retratar um determinado hoje, o hoje globalizado, o da universalização do liberalismo norte-americano – o hoje que Fingermann ataca.

Ele pinta o que não está lá.

No processo de feitura, veremos (não veremos) grampos de ferro enferrujados que, retirados, marcam a tela. Nos temas, são personagens com capuzes e roupas medievais que dançam, sem música, em jogos e rodas. As cores são em tons terra: ocres, sienas, pretos. São os restos desbotados de uma pintura que já quase não existe. Há referências místicas em círculos e nas formas básicas da geometria: quadriláteros, cones. Símbolos míticos como poços, véus. Máscaras que sobraram de algum Goya. Arabescos de ferro de um portão cujo vidro quebrou. Um bucolismo rural que a Monsanto enterrou. Em um dos quadros maiores, uma dança é feita no silêncio de palavras pintada: “o cavalheiro: dois passos e levanta o braço; adiante; a dama: dois passos e levanta o braço; adiante.

As coisas não estão lá. Estiveram. Voltarão a estar se você ficar quieto por tempo suficiente em frente a elas. Se conseguir que a persistência do olhar anterior – o da avenida movimentada da grande cidade – se torne transparente para acolher e se somar a essa camada nova/velha.

Que é como pode ser vivida, a contemporaneidade. Na falsa dúvida entre a universalização do liberalismo capitalista norte-americano e a ressurgência de aspectos culturais locais, Fingermann parece sugerir em suas alegorias arquétipas que a divisão entre o desejo de mobilidade (as danças, os jogos) e o de estabilidade (a composição, a deferência), de individualização (personagens) e de pertencimento (cenários), de suas pinturas e que também é a nossa, pode ser solucionada através da memória e da história.

Suas imagens vêm acompanhadas por frases.

Algumas delas:

“A pintura é preciosa, faz as coisas regressarem de sua ausência, de seu esquecimento.
O que se vê numa pintura é esse caminho, esse regresso de lá até o nosso espanto.”

“Às vezes o silêncio se transforma em esfera transparente. Imobiliza-se. Fica sendo.
É uma espécie de gerúndio. É como cápsula que se contém. Fica sendo o não-ver. Fica sendo o não-estar.”

“O olhar circunscreve algo, como faz o círculo, onde a coisa vista, real, fica presa.”

“Ontem nos deformou ou foi por nós deformado?”

“O silêncio é sentinela.
Às vezes fica sentado em corredores.
Às vezes fica encostado nas paredes, de espreita: em quartos, casas velhas, caixas, escritos esparsos, nas fotografias, nas montanhas que estão longe.
Até em certas pinturas.”

Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 22 Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 21 Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 14 Sergio Fingermann - Elogio do silêncio (detalhe da textura) Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 13 Sergio Fingermann - Elogio do silêncio # 15

Terminou na última terça-feira, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro, o ciclo “Um Painel da Música de Câmara de Camargo Guarnieri”. O evento, em quatro apresentações, teve como principal iniciativa apresentar de forma abrangente, sem distribuir peças a esmo pelo programa, sem perder o sentido de cada forma musical trabalhada, explorada ou mesmo criada pelo grande mestre, parte da obra camerística do compositor.

No primeiro encontro, o ouvinte atento, o estudante alerta, o espectador curioso, teve a oportunidade deliciosa de ouvir canções com poemas de alguns grandes escritores brasileiros, entre eles Mário de Andrade, mentor intelectual de Camargo. Talvez, de todos os encontros, tenha sido o mais oportuno, tanto para os mais entusiasmados – paradoxalmente, haja visto as obras de maior envergadura nos outros três encontros seguintes – quanto para os mais desavisados da obra de Guarnieri. Não é fácil encontrar por aí gravações dessas peças. Elas nos fazem lembrar um outro Brasil, onde a conquista da brasilidade era algo no ar, onde a apuração erudita do regionalismo não era antropológica nem caipira.

O segundo encontro, com a dedicada violinista Tânia Camargo Guarnieri, filha do compositor, e Lais de Souza Brasil, pianista experiente. Foram exploradas as sonatas para violino e piano. A Sonata nº 2 (1933), a Sonata nº 3 (1950) e a  Sonata nº 4 (1956), esta última sem dúvida o ponto alto, altíssimo, do encontro. Complexa, moderna, original, uma obra grande, verdadeira, atual.

O encontro seguinte deu lugar aos falados Ponteios. São prelúdios, mas o modernista preferiu um nome mais brasileiro, não apenas por fachada, mas, segundo o próprio, “para expressar esse caráter brasileiro”. A pianista russa radicada no Brasil, Olga Kiun, foi mais que competente. O 5º caderno (os ponteios são divididos em cadernos), último a ser exibido, foi esclarecedor. O nº 49 e nº 50 deixaram todos com a melodia na cabeça após o espetáculo, para o desespero dos que, no âmbito da música de vanguarda, odeiam melodias.

O encerramento se deu na última terça-feira, perdoando-me pelo chavão, “com chave de ouro”. Uma apresentação camerística clássica: o quarteto. Composto por um violoncelo, dois violinos (cada um fazendo uma linha, há os primeiros e os segundos violinos mesmo em orquestras sinfônicas) e uma viola. Sobre a forma de quarteto, convidam-nos à imaginação algumas histórias, não necessariamente no sentido da ciência história. A mais conhecida é de que o grande compositor clássico Haydn, um dos precursores desta forma camerística, queria compor uma sinfonia (para uma orquestra), mas o local onde haveria o espetáculo musical não tinha mais do que meia dúzia de músicos, compor para um pequeno grupo foi, então, inevitável: cada instrumento do quarteto é como se fosse um naipe de uma orquestra. Não que a formatação fosse invenção dele, mas coferir-lhe caráter autoral, e logo de um Haydn, foi coisa nova. O quarteto em questão, o Quarteto Glazunov, composto por Yuriy Rakevich, Inna Meltser, Vladmir Klementiev e Watson Clis, não prestígio à nobilíssima áurea de tradição que o formato encerra. O eslavismo exarcebado do grupo, que salta aos olhos nos nomes dos integrantes, e no nome do próprio grupo – Glazunov –, é coisa que faria o Mozart Camargo notar. Entrentanto, aos olhos de um espectador cosmopolita de um CCBB do Rio de Janeiro, talvez não tenha significado nada. Atentos, focados (parar usar um termo da moda), o grupo Glazunov, do mais alto padrão técnico, de elevada concepção artística, apresentou deslumbrante música. Como todas as obras de Guarnieri, os quartetos têm harmonia complexa, ritmo ousado, proposta avançada. As dissonâncias sempre incomodam os mais fracos, os menos interessados e os desavisados. Mas, no caso de Guarnieri, a proposta desagrada mesmo a grandes ouvintes, há que se admitir. E aqui vai a opinião do escriba, que não vale mais do que a de qualquer leitor: gosto mais das obras da maturidade de Guarnieri. Evito expor as razões para não influenciar, e nesse contexto fica difícil escolher um quarteto, dos três apresentados, senão o nº 3 (1962). Os outros, o nº 1 (1932) e o nº 2 (1944) são obras, sem dúvida, de nível elevadíssimo. O nº 2 foi premiado nos EUA, em Washington, levando o primeiro prêmio do Concurso Internacional para Quartetos.

Parabéns aos organizadores, patrocinadores e produtores. Quando escrevi, num texto este ano, sobre o centenário de Nascimento Guarnieri (1907-2007), “Viva Camargo!”, não imaginava que a vivacidade seria tanta. O último movimento apresentado no painel, o do Quarteto nº 3, chama-se “vivo e ritmado”, assim seja, Guarnieri!

Eytan Fox é conhecido no Brasil pelo longa-metragem Delicada Atração. Nele, o diretor explora o romance entre dois soldados israelenses, aproveitando o ambiente de isolamento criado pela guerra para redimensionar a questão do preconceito. Enquanto os protagonistas conquistam espaço para viver seus sentimentos (um escondido, o outro abertamente), Eytan lembra que a morte é democrática e não escolhe sexo, cor ou religião, pontuando o romance com um toque de tragédia. Em Bubble a fórmula complica um pouco mais. Dessa vez, o casal é formado por um israelense e um palestino.

É possível viver uma vida normal dentro de uma bolha e esquecer que o país/ cidade/ mundo está em guerra? Eytan usa o título Bubble para se referir tanto à zona artística de Tel Aviv onde se passa a maior parte do filme quanto ao café onde trabalha Yali (Alon Friedman), um dos personagens gays. Lá dentro, não existem problemas, só felicidade num cotidiano comum. A guerra fica em outra Israel, que só existe nos noticiários.

Yali divide o apartamento com dois amigos de longa data: Lulu, uma jovem cansada de viver à sombra de confrontos, e Noam, vendedor de uma loja de cds que faz alguns trabalhos no exército. É Noam (Ohad Knoller) que cruza o caminho do palestino Ashraf (Yousef ‘Joe’ Sweid). Quando começam a namorar, Ashraf passa a morar clandestinamente no apartamento dos três amigos, já que não possui visto permanente para viver em Israel e as idas e vindas na fronteira são uma verdadeira saga. Logo ele arruma um emprego no restaurante-café de Yali, e tem que decidir entre a nova identidade ou suas origens, conflitantes com sua opção sexual.

Eytan Fox trata inicialmente as diferenças entre os povos com um toque de humor. Ashraf precisa mudar o tipo de roupa, controlar o sotaque e escolher um nome judaico para trabalhar no café. Tudo é tratado de forma leve e os personagens parecem  interessantes.

É claro que a farsa não se mantém de pé por muito tempo e o filme adquire ares sombrios, com os temas políticos engolindo o restante.

Quando isso acontece, o diretor aproveita para ampliar os alvos de sua crítica. Aparece então o terrorismo, o preconceito do mundo árabe contra gays, a repulsa da família de Ashraf, homens-bomba fatigados emocionalmente, flagelados da guerra, amores impossíveis e outras coisas mais.

Para a transição, Eytan cria uma rave na praia, que é organizada por Lulu num protesto contra os postos de ocupação de Israel na Palestina. Ao mesmo tempo em que usa a música como símbolo da liberdade (afinal, não tem fronteiras), crítica também a alienação, deixando todos os personagens drogados de ecstasy.  É o último momento em que o espectador pode respirar antes da seqüência de desgraças.

Bubble poderia ser um excelente filme, mas a ousadia dos temas abordados não compensa os equívocos do roteiro e as falhas de direção. Tudo que Eytan acerta nos momentos felizes, ele erra nos de tensão. Por exemplo, quando o exército invade uma área repleta de terroristas, os tiros matam apenas inocentes. Os terroristas, aliás, são muito compreensivos e amorosos, cheios de boas intenções. Não é uma questão de julgamento, mas de soluções fracas para fazer a trama andar. Se fosse um filme de terror, provavelmente um dos personagens deixaria cair a chave no chão, quando o psicopata se aproxima, controlando a tremedeira só no último momento.

Querer falar de tudo ao mesmo tempo é um erro clássico, que nunca gera bons frutos.

Como bem diz a irmã de Ashraf, “isso já está parecendo novela”.

Um milionário escritor de livros policiais vivido por Michael Caine. Jude Law fazendo um ator desempregado que é amante da esposa do escritor. Uma casa com tecnologia de ponta e decoração vinda do universo de Kubrick. Kenneth Branagh explorando de todos os modos a claustrofobia do texto de Anthony Shaffer. São esses os componentes de um dos melhores filmes do ano, um thriller que beira a perfeição.

Um Jogo de Vida e Morte é uma versão de Jogo Mortal (1972), em que Caine viveu o papel que hoje é de Law. Versão e não refilmagem porque não parte do roteiro original de Jogo Mortal, mas da peça de Shaffer. Quem assina o novo roteiro é Harold Pinter, Nobel de literatura, um especialista em utilizar a paranóia como elemento de linguagem.

Um Jogo de Vida e MorteO filme começa com o carro de Milo Tindle estacionando em frente à porta de uma mansão. Depois de toques insistentes na campainha, alguém abre a porta. Não vemos quem é. Só ouvimos as apresentações. Andrew Wyke, ele diz. E assim ficam os dois parados, respiração suspensa à espera dos acontecimentos, apenas a mão para o lado de fora solícita ao cumprimento. Branagh filma de cima, faz Milo conversar com o vazio, uma escuridão que o espectador ainda não pode conhecer. É uma brincadeira com os sentidos. A importância da voz, do tom de voz, das palavras, mais do que a imagem. É também a quebra de dois mundos: o externo (que logo não terá nenhuma importância no filme) e o interno, a tal escuridão, pronta a se revelar. Quando Milo finalmente entra na mansão, a arquitetura salta aos olhos. Foi a esposa de Wyke que projetou a casa. Cada detalhe pensado para transformá-la em um personagem vivo.

Um Jogo de Vida e Morte só possui dois atores: Michael Caine e Jude Law. É um desafio de interpretação constante, de transformação e desdobramento em diferentes facetas do caráter humano. Para acompanhá-los há então a casa, fundamental para a trama, e há a direção de Branagh, tão precisa e marcante que a considero também como personagem. Branagh não desperdiça um plano sequer, explora reflexo de espelhos, jogos de luzes, imagens duplicadas, distanciamentos marcados pela mobília. Ele utiliza ângulos que obrigam o espectador a buscar constantemente novos pontos de vista, enquanto desenvolve cuidadosamente o suspense da trama.Um Jogo de Vida e Morte

O filme um híbrido curioso de teatro e cinema. Para controlar a parafernália tecnológica, Andrew Wyke usa um controle remoto (que na verdade é um iPod) que liga e desliga tudo o que ele quer em um único botão. Há cofres escondidos, aquários que se movem, paredes que abrem e fecham, câmeras por todos os lados, truques e mais truques simulando um labirinto.

Um Jogo de Vida e MorteA trama é uma desculpa para o embate intelectual e psicológico. A esposa de Andrew Wyke fugiu de casa para viver com Milo Tindle. Wyke, excêntrico como tudo que emana dessa produção, não quer dar o divórcio. A esposa (que nunca aparece) sugere então que Milo Tindle vá à casa de Wyke convencê-lo a dar o divórcio. Wyke diz que aceita o divórcio se Tindle participar de um pequeno roubo. Tindle precisa roubar o próprio Wyke, com a ajuda do mesmo. Com o cenário apresentado, a trama explicada e os personagens definidos, começa um jogo de gato e rato onde os nem sempre é possível distinguir os papéis. Intelecto e sexualidade ocupam o mesmo patamar. A inteligência é sedutora, as vitórias do intelecto são orgásticas. Tudo funcionando para ampliar a tensão.

As surpresas ficam por conta dos tais personagens definidos, que parecem dispostos a mudar a cada instante. Como a mansão e os jogos de imagens de Branagh, aqui, nada é o que parece.

Um Jogo de Vida e Morte Um Jogo de Vida e Morte

A primeira idéia é a de um centro vazio. Afinal, as três novas esculturas do jovem artista português Isaque Pinheiro, na Galeria Laura Marsiaj (RJ), apontam para uma forma oca: Apego a um lugar (uma enorme asa de couro pregada na parede com fita crepe e com uma alça de mala no centro, onde se vê inclusive as etiquetas de aeroportos por onde a peça passou antes de chegar ao Rio) tem em seu centro o meio-círculo vazio da alça da mala; Reforma do perigo é um capacete de motociclista feito de mármore, e também vazio; o paletó de fita crepe usado pelo artista na performance de abertura da exposição, uma vez pendurado no cabide, mantém o formato de um corpo que não está mais lá.

Mas o centro não está vazio, bem pelo contrário.

Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro Isaque Pinheiro

Há um agenciamento ativo no centro das peças de Isaque, e que luta contra resistências. Se fosse uma metalinguagem as peças representariam um fazer poético contemporâneo a lutar pela libertação de reminiscências estéticas tradicionais. As reminiscências estão referidas. E tradicionais são: Isaque Pinheiro trabalha com mármore, nada mais neoclássico. Cita Duchamp e seu vidro quebrado, incorporado à obra, ao incorporar, ele também, uma rachadura no mármore do capacete, remendada em grampos autorais. Usa asas de couro, em uma alegoria que vem desde que o grego Ícaro tentou sobrevoar pela primeira vez o Mar Egeu.

E usa também fita crepe, esse material vagabundo, temporário e banal, a se contrapôr a um sublime desaparecido – em um dos movimentos mais característicos da arte de hoje. Que, aliás, é sempre barroca pois contém em si esta e outras tensões: a economia contida pelos limites do objeto artístico estará em expansão perene pois incorpora objetos da cultura, sem contudo abdicar do simbólico inerente a eles e anteriores a seu uso estético. O capacete mantém seu significado de liberdade motorizada, as asas idem. O paletó também, pelo contraste: é apertadinho, e a fita crepe ameaça grudá-lo ao corpo de quem o usa.

Há um aspecto muito bom no já citado agenciamento central, que seria masculino e antigo, não fora isso: malas são objetos de controle precário; o capacete de mármore é menor do que a cabeça de qualquer auto-nomeado herói do asfalto; e o paletó de fita crepe é o contrário ao do executivo de sucesso. Isaque Pinheiro age em um centro irremediavelmente contaminado pela periferia.

No catálogo do artista há uma peça que não está na exposição, é o Amor de mãe. Um mármore que representa um desses balões de encher, em formato de mão. Seria oco, se não fosse cheio.

Newton Mesquita faz exposição inédita na Almacén Galeria

Ícone da pop arte dos anos 60 expõe pela primeira vez no Rio em 21 anos

Newton MesquitaO pop arte dos anos 60 está de volta. E, para completar, um dos maiores representantes do movimento na época, Newton Mesquita, fará sua primeira exposição individual no Rio de Janeiro em 21 anos. A exposição será realizada na Almacén Galeria, apenas com obras inéditas, feitas especialmente para este evento, que ficará aberto à visitação de 27 de setembro a 14 de outubro.

Cada uma das 25 telas do pintor para esta exposição reflete a forma com que Newton olha a vida: amorosa, bonita, frágil, valiosa, presente. “Cada exposição de um artista reflete o momento que ele vivencia, seu espírito, sua visão sobre o mundo naquele período. São meus trabalhos que contam minha história”, afirma o pintor.

Pintor, escultor, desenhista, fotógrafo e arquiteto, Newton Mesquita expôs pela primeira vez em 1972, em Guarulhos, na Temporada de Arte e Cultura. O artista já lecionou na Faculdade de Arquitetura Mackenzie e dirigiu o Museu da Imagem e do Som de São Paulo entre 1991 e 1993. Entre suas principais mostras individuais estão duas exposições no Masp, em 1979 e 1980 e das mostras coletivas, merecem destaque as edições de 1979 e 1983 do Panorama de Arte Atual Brasileira. Newton recebeu o Prêmio Incentivo duas vezes, em 1976 e 1977.

Serviço:
Exposição Individual de Newton Mesquita
Visitação: segunda, das 12h às 22h; de terça a sábado, das 10h às 22h e domingo, das 15h às 21h.
Início: 27 de setembro, quinta-feira
Encerramento: 14 de outubro, domingo.
Endereço: lojas F e M do Casa Shopping. Avenida Ayrton Senna, 2150, Bloco G – Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Telefone: (21) 3325 8622
Entrada franca

Oficina de teatro Gestual

As inscrições estão abertas, vagas limitadas.

Todas as terças e quintas de outubro, da Máscara Neutra ao Clown, na Lapa.

Divulguem, compareçam.

Há uma falta de verba crônica. Conseguir orçamento é uma jornada de paciência em qualquer área artística no Brasil. No cinema, que tem lá seus custos, a coisa não é diferente e isso fica claro em A Jamaica Brasileira – Parte I, do diretor Gleyser Azevedo. Gleyser dribla as fragilidades encontrando um modo bem-humorado de tratar do tema pretendido: a difusão do Reggae em São Luís do Maranhão.

O curta utiliza depoimentos de donos de radiolas que comandam as festas por lá, tocando reggae a noite inteira com a pista lotada. Há histórias como a de um “DJ” que veio do exterior com tantos discos, mas tantos discos, que a polícia federal não acreditou que fosse coleção pessoal e cobrou uma taxa altíssima de importação. Ou ainda uma crítica à transformação da música em produto, apontando a era digital como o vilão que enfraqueceu a qualidade musical e o romantismo por trás das festas.

Jamaica Brasileira é bem-sucedido ao mostrar a importância do reggae na vida dos habitantes de São Luís e falar do ritmo como uma filosofia de vida, de convivência pacífica e celebração festiva.

O ponto alto fica por conta de Serralheiro, 65 anos, dono de uma das radiolas mais conhecidas do Maranhão. O senhor, que é semi-analfabeto, diverte em cada um dos relatos de busca por músicas novas pelo mundo, incluindo 17 viagens para a Jamaica e 26 pra Londres sem saber falar inglês. Ele confessa, inclusive, que raspava os rótulos dos discos para nenhum concorrente descobrir o que ele estava tocando. Destaque para o relato de Serralheiro perdido na Tower Records porque não conseguia achar a saída. Ele é um personagem vivo e sabe disso, mas acima de tudo, é um amante da boa música.

Jamaica Brasileira levou o prêmio de Melhor Vídeo Maranhense no 28º Festival Guarnicê de Cine e Vídeo 2005. A sessão no Oi Futuro foi a primeira fora de São Luís.

A abertura ficou por conta do Medusa Dreads, grupo de reggae brasileiro do cenário independente que está voltando à ativa. Foi um pocket show de aquecimento para a gravação do dvd e cd ao vivo. Agradou em cheio.

São três atores que fazem o papel de esculturas, um outro que é o “escultor” (único personagem a receber um nome: Eres Kigal) e mais a atriz – dublê de autora, produtora e diretora – Camila Diehl, no papel de “curadora”de uma suposta “exposição”. O embate entre os cinco é a peça Eres Kigal, do grupo Teatro da Transcendência, que se apresenta no Casarão da Bambina (Rua Bambina 141, em Botafogo, RJ).

Eres Kigal, do grupo Teatro da TranscendênciaÉ uma peça para criadores, não importa em qual arte. Qualquer um que já tenha passado uma noite a sós frente a aquilo que faz (seja texto, imagem ou a própria vida) vai adorar. Se for mulher, vai adorar em dobro: a peça tem trechos engraçados, com um feminismo sarcástico. Aliás, tem mais do que isso. A crítica vai além do lugar masculino visto como o default do criador modernista e mesmo contemporâneo. O texto critica meio que tudo.

Algumas frases:

Kigal tem uma vida aventurosa e fala “todas as línguas do planeta” mas, quando abre a boca, sai inglês. Inglês com sotaque vagabundo. Ele diz: “I feel something deeper and deeper”, sendo que o something é algo como somessingue. Sua figura, com flamejantes calças de plástico brilhante vermelho, completa o deslocamento do lugar masculino da criação artística.

Eres Kigal, do grupo Teatro da TranscendênciaCamila Diehl assume uma voz sexy-bandalha, como as que anunciam vôos e atrasos de vôos com igual entonação pausada e vazia nos aeroportos da vida. “Observem o tornozelo, a estrutura espinhal, a cutícula, a orelha. As obras são em número limitado, aproveitem nossas promoções.”

As esculturas, diz ela, foram “engendradas durante uma crise de identidade” do escultor. Criadores, diz o texto, não deveriam ser entendidos como entidades masculinas e sim femininas. Haverá, posteriormente, um pastiche de parto, com o nascimento de três bonequinhos de plástico, a explicitar que a biologia é fundante mas não suficiente. Diz ela, irônica: “a genialidade é prerrogativa masculina.” E depois faz o comentário: “cobre-se o homem de glória, viril e tolo.”

Eres Kigal, do grupo Teatro da TranscendênciaAs esculturas, jovens atores vestidos com saias que depois despem, são o pesadelo de qualquer criador, ao adquirir uma vida que entorta a segurança de quem é espelho e quem o espelhado. Uma das esculturas diz: “acho que posso ouvir uma respiração, não é minha, eu não respiro.” Não respira mas, como qualquer criação, é potencialmente destrutiva. Deixadas soltas, elas tentam comer o escultor, atacam sexualmente a curadora. Ao ver que as coisas não estão correndo bem, o escultor tenta consertá-las, quem sabe um batonzinho nos lábios resolverá tudo. “It is just a detail, a small detail.” É inútil. Nus e com pênis, as esculturas agora se dirigem ameaçadoras para a platéia. Essas aproximações com a platéia são sempre um teste para atores. Estes se saem muito bem, sem excessos mas mesmo assim intimidantes.

“I’ll tell you a story”, diz o escultor, em uma de suas tentativas de dominar a situação. Ele passa, a peça inteira, procurando um sentido transcendente naquilo que faz. Não consegue. Há corpos, há a materialidade das “obras”, e isso é tudo. “It’s just a body”. São corpos, o que sai deles são fluidos corporais, não há transcendência, não há sentido, só há beleza. As esculturas, em suas danças e andanças no palco, fazem referência a belezas anteriores: As Três Graças – reproduzidas por Rubens, Rafael e tantos outros; ou a Pietà, idem, idem.

Em geral a relação dialógica entre obras diferentes, ou entre uma obra e seu criador, parte da premissa de que estamos lidando com totalidades de limites bem delineados. Esta é uma representação artística chamada Eres Kigal, que faz referência a outras representações artísticas como as Três Graças ou que, no decorrer de sua criação recebe impulsos díspares do seu criador, que é, ele também, uma identidade definida.

Eres Kigal, do grupo Teatro da TranscendênciaO valor dessa peça é pôr em xeque a noção de identidade definida. A curadora parece ter mais consciência do processo criativo do que o escultor, os dois e as esculturas alternam a posição de poder. E também não há identidade definida em uma peça teatral que apresenta “esculturas”, categoria artística definida pela imobilidade. Em uma peça teatral que assume em seu texto a sua própria montagem e a presença do público: “acha mesmo que eles entendem alguma coisa?”

Nos agradecimentos ficcionais do texto da peça, os agradecimentos reais aos patrocinadores obtidos: a rede SBT, o clube de assinantes de O Globo, uma academia de ginástica, a Lidador. E Deus. E até nessa hora, a palavra que aponta para todas as transcendências vem em um último sarcástico lugar.

nota: Camila Diehl tem cinco de suas peças publicadas pela editora Ibis Libris. O livro se chama O teatro da transcendência e as peças são: Lilith, Aeternitatis, Sistema Quântico, Silenciosas sentinelas de pedra, Amêndoas e caracóis.

Texto e Direção – Camila Diehl
Música original – Luciano Leite Barbosa
Cenário e Figurino – Daniela Alves
Preparação corporal – Wendel Soares
Iluminação – Camila Diehl
Produção – Camila Diehl, Viviane Paganini
“Esculturas” – Vinicius Mochizuli, Átila Bezerra, Lucas Valentim
“Escultor”- Wendel Soares
“Curadora” – Camila Diehl

A imagem é provisória. A memória também, passa tempo, reconstrói o homem e os espaços: o sertão. Riobaldo, nonada, ressurge para contar a história, tiros de matador, amor trágico e velado pelo quase esquecimento.

E quem traz ele de volta para viver brevemente (provisoriamente) em nossa retina e espírito é o bando de jagunços-atores da Casa Laboratório de São Paulo, dirigidos por Cacá Carvalho, que recria no palco o sertão de Guimarães Rosa em “O Homem Provisório” (em cartaz no Sesc Copacabana até 30 de setembro).

O Homem Provisório, em cartaz no Sesc Copacabana até 30 de setembro (foto: divulgação)A representação transcende o espetáculo em encontros diversos – dos atores com o público, com o Cariri; de Guimarães com a música, com o cordel de Geraldo Alencar, com a xilogravura de Nilo; do teatro com a arte popular, com a tradição, de Cacá Carvalho, novamente, com a palavra de Rosa. Tudo ao mesmo tempo, tudo profundo e belo como um sonho que (quase) se esquece na manhã.

A Casa Laboratório, nascida de um projeto de intercâmbio com a Fundação Pontedera de Teatro (Itália), é um desses redutos de resistência do modo de fazer teatro de pesquisa em grupo.

Vem mostrando vigor desde o primeiro espetáculo (“A Sombra de Quixote”), com um grupo de jovens atores oriundos dos quatro cantos do país. Não à toa, este “Homem Provisório” tem cinco indicações ao Premio Shell de São Paulo.

Falemos do instante provisório, compreendido na hora de duração do espetáculo no palco: o desafio gigante de levar o universo de “Grande Sertão: Veredas” para a cena é vencido por caminhos simples, curiosos.

O Homem Provisório, em cartaz no Sesc Copacabana até 30 de setembro (foto: divulgação)A luz e a cenografia, feita diversas camadas de cortinas ora opacas, ora transparentes, com painéis impressos do sertão constroem um efeito de distanciamento onírico, tornam possível o sertão imaginário e simbólico de Guimarães desenhado diante da platéia como num ato de memória que cria, recria, aproxima e distancia, desmancha e refaz cada ato, cada personagem no enredo dos jagunços e da história de amor de Diadorim, na luta contra o cramunhão. Torna o público agente dessa recriação, como Riobaldo em sua travessia.

Mas o efeito plástico, ainda que belo, não daria conta de todo o universo do sertão fantástico e visceral de Rosa. Era preciso a palavra: a boa palavra. Como sintetizar o épico de Rosa para a cena? Cacá Carvalho e seus jagunços encontraram-se no Cariri com o poeta Geraldo Alencar, parceiro de Patativa do Assaré, e apresentaram a ele o Grande Sertão: Veredas e pediram um poema ao cordelista. O resultado foi uma narrativa em 120 poemas de cordel, de onde saiu a palavra da peça.

E era preciso dar espírito às palavras e à plasticidade. Trabalho para atores, dirigidos por um ator. Em quarenta dias de vivências do grupo na expedição pelo sertão do Cariri, veio ainda a religiosidade, a história entranhada e árida no lugar, a passagem de Lampião, o frescor das crianças da Fundação Casa Grande e a música, profunda e ancestral, cuja presença no espetáculo abre todos os canais de contato do público com as raízes secas desse sertão sem início ou fim. Chegou-se ao Nonada.

Tudo absorvido e transformado pelo grupo de atores, agora jagunços. Difícil destacar um ou dois do elenco composto por Dinho Lima Flor, Fabiana Barbosa, Joana Levi, Laila Garin, Leonardo Ventura, Majó Sesan, Marcelo valente e Raquel Tamoio. A força resulta do todo orgânico conquistado pelo grupo em cena, pelo canto que vibra em todos, pela entrega ao trabalho e pela visível busca por uma arte virtuosa que não se perca em mera técnica, mas que chegue carregada do espírito, do sertão que está por toda a parte, do que existe, homem humano. Nonada.

Sirimusa é uma montanha localizada no norte do Marrocos. Pode ser vista do outro extremo do Estreito de Gibraltar, o sul da Espanha. José Manuel León, guitarrista flamenco, inspirou-se nessa montanha para produzir seu álbum “Sirimusa”, que pode ser considerado o seu début.

Primeiro há de se esclarecer uma coisa: León não é um guitarrista, mas múltiplos. Dono de uma riqueza de timbres e dinâmicas formidável (eu confesso que não conhecia as plenas capacidades do instrumento), aliados a um senso de polifonia e uma inteligência musical incomuns, cativa o público com sua música vasta, abrangente e expressiva. León tem também uma técnica muito bem desenvolvida, o que lhe proporciona meios para exprimir suas idéias musicais – e que idéias.

Sobre a inteligência musical: é aquilo que diferencia um artista de um grande artista, e, em alguns casos, um grande artista de um gênio. É o conjunto de escolhas musicais que o artista faz, aliado à sua concepção, seu fraseado e agógica próprios, junto com o senso polifônico. Traduzindo: é a qualidade de transformar todos esses nomes em música da mais alta qualidade.

O(s) estilo(s) de León é autêntico e interessante. Não pode se negar que é um guitarrista flamenco. Mas cada peça, mesmo que composta na mesma linguagem (têm todas o mesmo traço – o traço de León) diz, claramente, uma coisa diferente. O cerne, sim, é flamenco. Mas há jazz ali no meio. E funk. E música árabe, há tanta coisa, há até Debussy!

León incorpora uma vasta gama de estilos a fim de formar o seu próprio. Posto dessa forma, tenho que ressaltar que o resultado é coerente, coeso e maravilhoso. Pela fusão de vários estilos, o artista ressalta seus gostos pessoais, transformando sua música na expressão plena de sua personalidade musical. Somos aquilo que gostamos, não é mesmo?

As improvisações (aquelas peças eram improvisações?) que ouvi essa noite me fascinaram profundamente. Acho que, nós, pianistas, pensamos que polifonia, cantabile, variação de timbres, dinâmica e agógica são exclusividade nossa. Não poderíamos estar mais enganados. Hoje eu vi que um violão não é um violão, mas vários. Ao mesmo tempo pode ser uma harpa delicada ou um berimbau ríspido, um instrumento angelical ou um instrumento percussivo e frenético.

A sensualidade da música flamenca e a dramaticidade são expressos por meio de harmonias complexas e intrincadas (acabo de entender a influência da música flamenca em Ravel), que, com a devida boa vontade do ouvinte, é capaz de transportar para longe, para as distantes terras de Marrocos e sua bela gente.

Enfim, minha concepção de música (e arte) é: expressão. O artista usou seus incomuns recursos para exprimir, projetar ao público, suas impressões a respeito de sua terra. Em dados momentos me vi numa cabana, no deserto, à luz de uma fogueira, ouvindo uma história ou conto narrada ou cantada por um trovador nômade, um menestrel marroquino. Em termos de comunicação e expressividade León é nota dez e mostrou ser um jovem artista que sabe muito bem o que quer, uma personalidade musical sólida e madura.

assista online:

A montagem de Joana Levi e Laila Garin para Dois perdidos numa noite suja, de Plínio Marcos (SESC-Copacabana), é meio tímida e mesmo assim, no único momento mais ousado – um pênis de fora, nem todo, só a ponta – provoca a retirada indignada de um pai e suas três filhas na sessão em que eu estava (12/09).

Então não dá para saber para quem a peça está sendo remontada e qual sua adeqüação a uma “atualidade” que, pelo visto, é múltipla.

Dois perdidos numa noite sujaHá coisas bem boas: o pingo d’água de um vazamento marca o tempo durante o silêncio e a escuridão das entre-cenas; o cenário e figurinos monocromáticos indicam a exclusão de uma realidade colorida, fora do alcance dos personagens (tal opção, potencialmente monótona, recebe o apoio de uma iluminação localizada a destacar riquezas tonais nas cores neutras).

Há também um bom trabalho (atores Leonardo Ventura e Marcelo Valente) na construção corporal dos personagens Tonho e Paco, com um Paco que mantém os ombros permanentemente levantados, tensos – o que lhe dá grande fragilidade. E um Tonho que se dobra em dois em uma “dor de barriga”, na hora mesmo de sua única vitória, um bem-sucedido roubo, obtendo assim o mesmo efeito de fragilidade. Ambos, então, são corporalmente, visualmente, frágeis, independente do texto.

E é esse o ponto crucial de uma peça de texto tão forte e conhecido: o balanço entre texto e visualidade.

O texto tem questões datadas. Primeiro, o bom filho (Tonho), que quer ganhar dinheiro para ajudar a família do interior, tem uma candura difícil de engolir. Depois, a tensão sexual dos dois personagens é apresentada com uma contenção que não se sustentaria hoje. A homossexualidade latente dos personagens, aliás, poderia ter sido bem mais explorada do que foi. Afora uns xingamentos de “bicha” de parte a parte, pouco se vê sobre o assunto. Paco fica de cueca duas vezes, mostra a ponta do pênis uma, e isso é meio que tudo. A homossexualidade não assumida dos dois poderia oferecer a força visual que faz falta na montagem. Moscaram, pois o texto é entendido, hoje, como espantosamente não-violento. Há uma pantomima de como Paco usará seu cano de ferro com as vítimas do assalto – e ele surra o colchão da cama. Há lições de moral cristã com Tonho dizendo: “assalto não leva a nada, você faz um hoje e se dá bem, faz um outro e pode se estrepar.” E o único tiro, o que termina a peça, nunca é dado – é substituído por um silêncio e uma luz de Instituto Médico Legal (o que também é bom, embora tenha um efeito suavizador).

Fica essa falta, somada a muitos berros vazios (exceção: a boa interpretação de um Tonho que bate na mesa de dominó e berra: “eu preciso de um sapato”, durante um piti). Não são só os berros que caem no vazio, a movimentação de camas no cenário também é aleatória. Isso tudo faz com que o texto reine sobre a visualidade. A nudez masculina (que seria vista, aqui como alhures, de forma mais ofensiva do que a feminina), somada à pegação em lutas corporais que poderiam facilmente virar estímulos eróticos (apesar do risco de saída de espectadores mais conservadores), faria maravilhas para a qualidade da visualidade.

Fazem falta também recursos tecnológicos disponíveis hoje e que poderiam tornar os flash-backs do texto mais interessantes do que apenas histórias contadas (entre outras, Tonho conta como foi procurar um emprego em um banco, Paco conta como perdeu a flauta durante uma bebedeira).

É um pouco como se a equipe estivesse às voltas com Aristóteles, que identificava a visualidade e as músicas como os elementos mais primários de uma composição dramática, na qual trama, personagens – o texto, enfim – teriam maior importância. A velha dicotomia entre corpo e mente.

Texto: Plínio Marcos
Direção: Joana Levi e Laila Garin
Elenco: Leonardo Ventura e Marcelo Valente
Iluminação: Fábio Retti
Direção de arte: Joana Levi
Produção: Leonardo Ventura

Entrevista exclusiva com Marie Darrieussecq

1. It’s been ten years since Pig Tales came out, drawing international attention and sparking interest from Godard. What is your current relationship with the book? Do writers lose their connection with what has been committed to paper?

I like the book very much, sentimentally. In my life there is a before and after Pig Tales. I was 26 and living on a grant for my PHD, I was an “old student” and I was wondering how to live and write. Pig Tales gave me the answer. I quitted everything and fulfilled my childhood dream: I now do nothing but write. The book has been translated in 45 countries.

I only open it when people ask me to read it in public, and when it happens, I think some things in it are really good, some other things are a bit “young”. Every book I write teaches me more about writing.

I don’t “lose the connection” with what has been committed to paper because all my books are fed with the same deep, archaic material coming from my childhood, and still living in my adult body and mind. Yet I tend to forget what I’ve written. I’m always more interested by the book to come than by the book I’ve just written. Of course.

2. Oscar Wilde says that a good writer has a boring life, because he places all his potential in literature. It is a sentence that has always bothered me, because I like my stories both lived and imagined. And that’s when I remember your book “Le bébé”. How much can readers see of you in your books?

My life is very boring. Very boring and very happy. The more boring and happy my life is, the more I dare plunge in dark vertigos. I wrote only once about my real life, in “le bébé”, the story of the first nine months in the life of me-as-a-mother. It was a rather happy book. I write fiction about darker things, ghosts, absence, problematic bodies, but all these themes are part of me too. When I was younger, I was constantly obsessed with the book I had in mind. Later (maybe because of my children, and also thanks to psycho-analysis) I learned how to breathe out of my writing. I learned to close the exercise-book or turn off the computer, and go back to my boring, calm, nice, ordinary though privileged life. I learned how to write AND live.

3. Absence has great strength in your literature. Phantom Husband and Undercurrents are good examples of that, I believe. Do you relate that to the feeling of inner emptiness, the difficulty in knowing one’s own place? Or is it actually the opposite, a message that life has to be more lived and less planned?

I often write about characters who lose their surroundings and their certitudes, and who find new ways of thinking, talking, loving. But my books have no messages. They ask more questions than they give answers. I think literature is a long question put in the most beautiful way. A book that explains you how to live and what to think is not a book, it’s poison for the brain. A good book opens new windows in your mind, a good book helps you find the words for your own questions. Writers have always tried to describe the sea, the absence of the loved one, the ghosts… but another writer will always find new words and go further. Literature is dynamic, alive and kicking.

4. Is contemporary literature winning the fight against videogames and digital TV? Is there some writer who stands out in your opinion?

I like many different writers. I like Stephen King and Marguerite Duras, Haruki Murakami and Faulkner, Claude Simon and Adão Iturrusgarai. People will always read, either on paper or on electronic books. I marvel at young kids standing in the street, alone, a book in their hand, lost in Harry Potter. Whatever the book is, any book can lead anybody to another book, and so on. One starts with Harry Potter and may read Joyce in the end. And now people learn to do so many things at the same time: jog, read and listen to music for example. They may even give a little phone call. I see that in the parks in Paris.

5. Books are increasingly a synonym for industry. How is it to communicate with readers of the whole world, writing poetic prose, dialoguing with fantastic realism? Do you consider yourself as part of a resistance movement? That the market pressure can make literature poorer?

Yes, I do consider myself as part of a resistance movement against ready-made thinking and ready-made sentences. Each human experience is both unique and universal. Everybody has loved and ached, but advertising and industry try to make us believe that we all do it the same way and that we all can find the same answers in consuming endlessly useless products. They create confusion between need and desire. Literature is made of real desire. In France, due to a long tradition and also to reasonable cultural politics, books that are not mere products are still accessible to a large public. There are independent book shops and independent publishing companies, and the price of books is regulated.

The way my books are read in China or in Brazil, in Suede or in India, is incredibly different. According to their culture and experience, the foreign readers can find meanings in my books that completely escaped me. In Argentina for example “My phantom husband” was read as a political book about the 30 000 persons who disappeared during the dictatorship. I never thought about it while I was writing it, but I find it’s a very beautiful way to read it.

6. What can readers expect from Tom est mort?

Well, well… Despair. Anxiety. Depression. And beauty. Beauty is not always born of pretty things. Personally, I expect a lot from my readers. I appeal to their intelligence, not to their need to be entertained.


01. Dez anos se passaram desde o lançamento de Pig Tales/Truismes, que chamou atenção do mundo e saltou aos olhos de Godard. Qual a sua relação atual com o livro? O escritor realmente perde o vínculo com o que já foi para o papel?Eu gosto muito do livro, sentimentalmente. Na minha vida existe um antes e um depois de Porcarias. Eu tinha 26 e vivia de uma bolsa de Pós-doutorado. Eu era uma “estudante profissional” e estava me perguntando como poderia viver e escrever. Porcarias me deu a resposta. Eu larguei tudo e realizei meu sonho de infância: agora eu só escrevo. O livro foi traduzido em 45 países.

Eu só abro o livro quando as pessoas me pedem para lê-lo em público. Quando isso acontece, eu penso que algumas coisas nele são realmente boas, outras são um pouco “verdes”. Cada livro que escrevo me ensina mais sobre escrever.

Eu não “perco a conexão” com o que foi colocado no papel porque todos os meus livros têm a mesma fonte: material arcaico e profundo vindo da minha infância, que continua vivo no meu corpo e mente adultos. Entretanto, eu tendo a esquecer o que eu escrevi. Estou sempre mais interessada no livro por vir do que pelo livro que acabei de escrever, é claro.

02. Oscar Wilde diz que um bom escritor tem uma vida sem graça, porque coloca todo o seu potencial na literatura. É uma frase que sempre me incomodou, porque gosto das minhas histórias vividas tanto quanto das inventadas. E aí me vem em mente seu livro “O bebê”. O quanto é possível enxergar de você em seus livros?

Minha vida é muito entediante. Muito entediante e muito feliz. E quando mais entediante e feliz é a minha vida, mas ouso mergulhar em abismos escuros. Eu escrevi somente uma vez sobre a minha vida real em “Le Bébé”, a história dos primeiros nove meses na minha vida como mãe. Esse foi um livro relativamente feliz. Eu escrevo ficção sobre coisas mais sombrias, fantasmas, ausência, corpos problemáticos, mas todos esses temas também são parte de mim. Quando eu era mais nova, ficava constantemente obcecada com o livro que tinha em mente. Mais tarde (talvez graças aos meus filhos, e também graças à psicoanálise) eu aprendi como me separar da minha escrita. Eu aprendi a fechar o livro de exercício ou desligar o computador e voltar para a minha vida entediante, calma, agradável, comum porém privilegiada. Eu aprendi a escrever E viver.

03. A ausência tem grande força na sua literatura. Phantom Husband e Undercurrents são bons exemplos disso, creio eu. Você faz um paralelo com a sensação de vazio interior, a dificuldade de saber qual o nosso lugar? Ou é exatamente o inverso, uma mensagem de que a vida tem que ser mais vivida e menos planejada?

Eu freqüentemente escrevo sobre personagens que se dissociam de seus ambientes e suas certezas, e que encontram novos modos de pensar, andar, amar. Mas os meus livros não têm mensagens. Eles oferecem mais perguntas do que respostas. Acho que literatura é uma grande pergunta feita da forma mais bela. Um livro que explica a você como viver e o que pensar não é um livro, é um veneno para o cérebro. Um bom livro abre novas janelas em sua mente, ajuda você a encontrar palavras para suas próprias perguntas. Os escritores sempre tentaram descrever o mar, a ausência do ser amado, os fantasmas… mas outros escritores sempre encontrarão novas palavras e irão além. A literatura é dinâmica, viva e pulsante.

04. O que acha da literatura contemporânea? Algum escritor tem se destacado aos seus olhos?

Eu gosto de muitos escritores diferentes. Eu gosto de Stephen King e Marguerite Duras, Haruki Murakami e Faulkner, Claude Simon e Adão Iturrusgarai. As pessoas estarão sempre lendo, sejam livros eletrônicos ou em papel. Eu admiro crianças em pé na rua, sozinhas, um livro nas mãos, perdidas em Harry Potter. Qualquer que seja o livro, pode levar a pessoa até outro livro, e assim por diante. Você começa com Harry Potter e acabar lendo Joyce. E agora as pessoas aprendem a fazer tantas coisas ao mesmo tempo: correr, ler e ouvir música, por exemplo. Elas podem até fazer uma ligação rápida. Eu vejo isso nos parques em Paris.

05. Livros cada vez mais é sinônimo de indústria. Como é se comunicar com leitores do mundo inteiro, escrevendo prosa poética, dialogando com o realismo fantástico? Você acha que faz parte de um movimento de resistência? Que a pressão do mercado pode tornar a literatura mais homogênea é pobre?

Sim, eu me considero como parte de um movimento de resistência contra frases prontas e pensamentos prontos. Cada experiência humana é única e universal. Todos já amaram e sofreram, mas a indústria e a propaganda tentam nos fazer acreditar que todos nós sentimos isso do mesmo modo e que podemos encontrar as mesmas respostas consumindo uma infinidade de produtos inúteis. Elas confundem necessidade e desejo. A literatura é feita de desejo real. Na França, devido a uma longa tradição e também a políticas culturais razoáveis, os livros que não são meros produtos continuam acessíveis a um grande público. Existem livrarias e editoras independentes, e o preço dos livros é regulado.

O modo como meus livros são lidos na China ou Brasil, Suécia ou Índia, é incrivelmente diferente. De acordo com sua cultura e experiência, leitores estrangeiros podem achar em meus livros significados que me escaparam completamente. Na Argentina, por exemplo, “O nascimento dos fantasmas” foi lido como um livro político sobre as 30.000 pessoas que desapareceram durante a ditadura. Eu nunca pensei sobre isso enquanto o escrevia, mas eu acho que esse é uma forma muito bonita de ler o livro.

06. O que o leitor pode esperar de Tom est mort?

Bem… Desespero. Ansiedade. Depressão. E beleza. A beleza não nasce sempre de coisas belas. Pessoalmente, espero muito de meus leitores. Eu apelo para a inteligência deles e não a necessidade de serem entretidos.

Don Juan conquistava as mulheres pela palavra, era um poeta e não um marombado de academia. Daí a raiva. Criatividade dá sempre muita raiva. Há um detalhe da história que pouco ficou no imaginário popular. No final, ao visitar o túmulo do pai de uma de suas conquistas femininas, Don Juan usa o mesmo dom das palavras para zombar da estátua do seu inimigo. Suas palavras são tão poderosas que trazem a estátua à vida. E ela o mata.

Marcos CardosoA exposição Tradução, de Marcos Cardoso na Galeria Anna Maria Niemeyer, faz lembrar a história de Don Juan. E não porque se trata de obras de Picasso – um conquistador de mulheres – retrabalhadas. Mas por causa da estátua que volta à vida.

Picasso é um monumento. É difícil hoje se posicionar frente a seu nome de forma diferente da que adotamos com algo fechado, imutável, imponente. Picasso é a estátua de Picasso.

A não ser que.

Marcos Cardoso não dá a mínima para Picasso. Não chega a zombar, mas do mestre, aproveita as cores e olhe lá. Não são bem as suas cores, são parecidas, as que ele descobre nos rótulos dos produtos industrializados, nas embalagens. Pega-as dos amigos, a um passo do lixo. Sua intenção não é copiar as cores de Picasso mas torná-las mais vivas, melhores. São as cores do capitalismo, são as cores da sedução. São as melhores que há. Diz.

Marcos Cardoso Marcos Cardoso

E refaz um Picasso mole, efêmero, montável e desmontável. Não é o Picasso que ele traz à vida, é sua morte, é a sua estátua. Não é Picasso que está vivo, ele está morto e engessado, mas sua morte é revivida neste exato instante por Cardoso, e mais no próximo instante que virá. É uma morte tão atual quanto o açúcar União, o rolo de papel higiênico Personal. E será atualizada sempre, a cada nova apropriação dos últimos e recém-lançados – e já no lixo – papeizinhos industrializados. Pois rótulos e embalagens falam de uma passagem de tempo muito específica, o da circulação das mercadorias (e da nossa – indistinguíveis, ambas). É um tempo incessante, e contemporâneo.

Mozart, Molière, Delacroix, Pushkin, Byron. Na Wikipédia há uma lista deles, os que se inspiraram na história original do burlador de Sevilha. Em todos eles a imobilidade triunfa, ela mata a criatividade que a trouxe de volta à vida.

Aqui também acontece algo parecido.

Marcos Cardoso

As obras de Cardoso são heteroglóssicas e dialógicas. Adeus autor. As imagens remetem a Picasso, sua constituição a alguma lata de lixo, o plástico reflete quem se põe em sua frente, e devolve, igual, a luz que as ilumina. O preço de renovar uma morte é a dissolução de um eu.

Marcos CardosoAlém dos “Picassos”, há também um mapa do Brasil, feito com o mesmo processo de autoria difusa: o mapa é o mapa, não tem autor, e as embalagens idem. As embalagens que fazem esse Brasil são de alguma coisa que está sendo vendida em uma liquidação do tipo dois por um.

Cardoso faz o que faz e faz sabendo. Autoria e nacionalidade partilham o mesmo destino. Foram mortas pela hegemonia globalizada. Mas incomodam mesmo assim.

Ou: eu mato, eu morro e eu volto para curtir (Macalé).

Marcos Cardoso

Em 1984, por uma pequena editora,  publiquei uma coletânea de poemas amarrados na idéia dos classificados de jornal. Eu trocava, vendia, alugava, buscava coisas abstratas e concretas, o possível e o impossível, misturando tudo como só a poesia sabe fazer. O livro Classificados Poéticos, para minha surpresa, mobilizou leitores de todas as idades desde o primeiro momento.

O que acontecia com esse leitor que lia os meus classificados? Ele se lembrava que também queria trocar alguma coisa na sua vida, no seu ambiente, na sua alma. E, ao se apropriar do meu texto, sentia uma grande urgência em construir o seu próprio classificado, em participar da minha proposta. Daria para encher uma casa a quantidade de poemas escritos a partir do meu livro.

Uma vez fui ao Sul, até a cidade de Garibaldi receber um prêmio. Uma mulher se aproximou de mim e me contou que sua filha havia tido uma doença grave, ficara um tempo sem caminhar e que um poema do livro Classificados Poéticos (quero asas de borboleta azul/ para que eu encontre/ o caminho do vento/ o caminho da noite/ a janela do tempo/o caminho de mim.) foi de grande ajuda para a sua cura. Ela dizia que o poema era dela, que a borboleta azul era ela e como a borboleta ela andaria/voaria outra vez. Claro que não foi o meu poema quem a curou, mas fiquei impressionada com a firmeza com que ela se apoderou do poema.

Outra vez participei de uma festa de natal num hospício no Rio de Janeiro, no Hospital do Engenho de Dentro, onde por tantos anos trabalhou a Dra. Nise da Silveira. Uma “louca” se aproximou da mesa onde eu estava sentada com meu livros e ao começar a folhear o Classificados Poéticos, parou num poema, leu em voz alta e me disse: “fala a verdade, você é maluca também, não é? para escrever uma coisa assim tão linda…” Pronto, o meu texto já era dela.

Os textos que amo circulam por meu sangue. Alguns personagens, alguns poemas, em alguns momentos me ajudaram a viver e me ajudam a escrever. Alguns escritores têm a escrita tão límpida que são o país onde quero chegar.

Recebo muitas cartas, muitas mensagens de leitores que se emocionaram com meus poemas e querem me contar isso. O meu texto provoca outro texto, o desejo da escrita.

É a leitura quem provoca a escrita. É a leitura que, qual um terremoto, agita as águas interiores, fazendo com que o leitor sinta  a necessidade de escrever também. A escrita é uma conseqüência da leitura. Um bom texto funciona como uma bomba de dinamite no leitor. Ele quer também, ele quer alguma coisa. Alguém disse o que ele gostaria de dizer, alguém sente o que ele sente, alguém faz o que ele não tem coragem de fazer, alguém ousa e ele quer ousar, alguém sonha e ele quer sonhar. Ele então precisa dizer isso.

Quando eu era criança li um livro mágico. Falava de uma tribo na pré-história que tinha que partir antes do inverno chegar. Uma familia não podia ir pois o pai estava doente. Todos partem e a família fica. O pai morre e a mãe decide partir então para ver se alcança a tribo. Ela, seu filho de dez anos e um filho de quatro. O livro narra as peripécias da família, os perigos que têm de enfrentar até encontrar novamente a tribo. Durante a leitura me transformei no menino, mudei de sexo. Eu era ele violentamente. Quando o livro acabou eu quis escrever a minha primeira história. Eu precisava falar aquilo, a emoção.

Acredito que a leitura é a única escola possível para a escrita. E quando o leitor “fica dono” do texto, ele sente vontade de escrever.

Apesar de a Noruega ser mais conhecida pelos grupos de black metal, é impossível negar a força do pop no país. O cenário se renova constantemente, apresentando todo ano artistas que fogem dos padrões americanizados da música e seguem dispostos a conquistar seu lugar ao sol (pouco sol, é verdade).

Morten Abel - fotografia de Per HeimlyQuem faz história por lá há mais de vinte anos é Morten Abel. Ícone do rockpop, Morten liderou por 8 anos o The September When, que atingiu um grande sucesso no país, com 6 álbuns lançados. Depois de encerrar oficialmente a trajetória do grupo com a coletânea Prestige de la Norvége 89-96, ele tentou a sorte formando o Peltz. Seu único cd, Coma, chegou às lojas junto com a coletânea do antigo grupo e não conseguiu emplacar nenhum sucesso.

Para exorcizar os fantasmas, Morten iniciou a carreira solo no ano seguinte (97) e desde então não saiu do topo. Do primeiro cd, Snowboy, ele lançou Lydia e All or Nothing, dois soft rocks com violão acústico e instrumentos de sopro. Correndo por fora, veio Helicopter, com batida funkeada, elementos eletrônicos e um tom totalmente depressivo. “I came from the city made of sulfer / My breath smells of vinegar / No respect, I forgot the gallipot”, diz a letra.

No cd seguinte, Here We Go Then, You and I, Morten Abel mostrou que estava disposto a ampliar fronteiras artísticas. O carro-chefe foi Tulipz, totalmente dançante, sucesso imediato. De novo com o rock, Hard to stay awake também virou um hit de arena com refrão sing-along, por falar de madrugadas viradas com amigos em festas. O cd se transformou num dos melhores momentos da carreira.

A fórmula soft rock e música dançante se repetiu em I’ll come back and love you forever, mas sem a mesma eficiência. O que antes era uma mistura dessa vez partiu o cd em dois. O ponto alto ficou por conta de Welcome Home, que não foi lançada como single oficial.

Morten AbelVirada de século e de sintetizadores superada, Being Everything, Knowing Nothing restaurou o padrão de qualidade. As músicas Trendsetter e The Birmingham Ho colocaram Morten Abel de novo no topo, figurando entre os maiores sucessos do cantor. Não é nenhuma surpresa dizer que as duas possuem estilos completamente diferentes. A primeira, pura poesia, fala das mudanças inevitáveis da vida, construída sobre melodia delicada. “What will you say if the lights went out / And all hearts stopped beating your way / What will you say if your best friend / Wouldn’t have anything to do with you anymore”. A segunda conta a história de um cantor e uma garota que ele conhece no táxi, e que lá pelas tantas ele descobre se chamar Fred, com direito a voz grossa e tudo mais.

Quatro álbuns lançados e um punhado de hits no currículo, Morten Abel lançou sua primeira coletânea como artista solo. Ela mistura os singles, grandes momentos, lados b e versões ao vivo, com destaque para Gravedigging e a inédita Our Love is Deep, bem recebida pelas rádios.

Depois de um intervalo de dois anos, Morten Abel voltou no final de 2006 com o cd Some of us Will Make it. A música Big Brother entrou para a lista de hits instantâneos, e como não sai da lista das mais tocadas acabou ofuscando a segunda música de trabalho, Stars, e atrasando os outros singles.

Atualmente, Morten está em turnê pela Noruega, se aproximando de 50 apresentações.

Sua página apresenta um bom apanhado de vídeos do cantor, espalhados pelo youtube, myspace e outros sites mais.

Aconteceu na terça-feira passada (4/7) no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio de Janeiro o primeiro recital do ciclo Um painel da Música de Camargo Guarnieri.  Num total de quatro recitais e oito sessões, o evento relembra aquilo que já foi uma tradição em nossa cidade: os pequenos recitais e operetas da hora do almoço.

Apresentando-se às 12h30, e para o público vespertino às 18h30, com o mesmo programa, a proposta do painel é mostrar, ao longo de quatro apresentações, diferentes espectros da produção camerística de Guarnieri: das chamadas pecinhas às obras de maior envergadura, como as sonatas e os quartetos, passando inevitavelmente pelos Ponteios. Apresentaram-se neste primeiro encontro do Painel Carlos Eduardo Vieira, barítono, muito culto da obra que se propunha apresentar, Márcia Guimarães, soprano, delicadíssima, e o competente Miroslav Georgiev, piano. No programa, canções, cantigas, e excertos de operetas e outras obras para canto.

Cabe destacar, de início, que Miroslav é pianista búlgaro e mesmo com um currículo que inclui um mestrado nos E. U. A. não seria de se esperar que fosse o mais brasileiro dos pianos. Mas foi. Muito competente nos contrapontos e arranjos sofisticados de Guarnieri, foi também gracioso, teve molejo, quando a interpretação assim o guiou, sem cair em confusões culturais rítmicas, sem entrar num pagode ou numa marcha rancho a perder de vista, fenômeno compreensivelmente comum a alguns intérpretes estrangeiros (e até brasileiros, é bom que se diga), e algo notadamente fora daquilo que o trabalho exige. Carlos Eduardo Vieira foi o mestre de cerimônias ideal. Sem sugerir ou engessar interpretações, falou à platéia, ora mencionando o contexto histórico, ora dizendo alguma curiosidade. Colocou fortemente sua respeitável opinião em sua fala, mas sempre deixando a valiosíssima brecha para que o espectador exercesse o seu papel ativo. A simpatia com o público sempre amacia o ouvido e favorece a dedicação prévia do ouvinte. Vieira foi também um barítono profundo, com interpretações apegadas apesar da leveza de algumas canções, mas ficou tudo de muito bom gosto, e essa é a frase do encontro: bom gosto. Márcia Guimarães é uma soprano experiente, e não precisa que se tenha lido seu currículo para se dar conta disto. Transborda tranqüilidade em seu desempenho, mesmo para um repertório menos vultuoso, pode-se observar claramente seu domínio expressivo, mesmo ao leigo em canto, executando passagens de piano para forte que davam gosto de ouvir. Destacaram-se no programa Dengues da Mulata Desinteressada, com texto de Ribeira Couto, realmente cativante, Ronco do Eco e do Desencorajado de 1949, com texto do mentor intelectual de Camargo, Mário de Andrade. Chamou a atenção não apenas pela interpretação, bonita, mas pela belíssima composição que, confesso, foi minha primeira audição (bem como de algumas outras canções também fora minha primeira audição – atire a primeira pedra quem possui todas aquelas canções de Guarnieri na discoteca – triste realidade). A sinistra e surpreendente Seca, sob poema de Sylvia de Campos, de 1958, retrata as mazelas do povo nordestino, sem deixar de reconhecer sua força imanente num final maestoso, curiosamente heróico – a despeito do que pensam os modernistas sobre este romântico conceito. Fruto de uma redução de orquestra, o arranjo é de arregalar os olhos.Mozart Camargo Guarnieri é um dos maiores compositores do Brasil, de todos os tempos, ou como diriam os mais entusiasmados, o segundo maior nome de toda a nossa música – atrás apenas de Villa-Lobos, sendo que para alguns chega mesmo a superar o mestre –, sendo Camargo, para estes, um dos maiores de todo continente americano. A Organização dos Estados Americanos, chegou a conceder-lhe o prêmio de “Maior Compositor das Três Américas”. Exagero monumental, de aficcionados? Nem tanto, talvez. De fato, o paulista Guarnieri, como poucos músicos, como raros artistas, conseguiu condensar em sua produção a essência da Semana de 22. Mais que isso, foi capaz de fazê-lo em sua própria biografia, gerando um uníssono agradável e paradoxalmente dissonante, vivendo ele próprio no coração do modernismo, inchado de ideais, mas completo do nacionalismo autêntico, consciente e erudito, que, comparado às acepções mais correntes e atuais do conceito, para não mencionar aspectos políticos, faz-nos rir, se antes não nos apavora; é trágico, sinistro, cômico. Facetas, aliás, de boa parte da obra de Guarnieri que naquele instante, jamais poderiam saber, aludiam profeticamente à falência cultural, tão rápida, dos maiores brasileiros do século XX, todos reunidos em uma, no máximo duas gerações, todos atuantes, e cujo imprescindível legado não demorou mais que isso para ser lançado aos fundos de baú. Não vamos propor, mais uma vez, resgatar o Camargo, bem como qualquer outro. Não me recordo que esteja seqüestrado o pobre Camargo ou algo que mereça o tal resgate – palavrinha já muito desgastada em meios culturais. Proponho algo simples, direto, e sem rodeios: vamos ouvir.

A oportunidade, para os cariocas, bate à porta com insistência, serão mais três encontros. Aos estudantes de música, a presença é no mínimo obrigatória, goste-se ou não de Guarnieri. A oportunidade, infelizmente, é rara. Aos outros, fortes recomendações de Camargo.

Dia 30 de agosto no Leme, Ernesto Neto, artista que é um dos donos da Galeria Gentil Carioca, no centro do Rio, se juntou com 26 participantes de uma das primeiras oficinas da Casa Daros, de Zurique, que vai se instalar onde era Anglo-Americano, em Botafogo. Cavaram buracos, encheram de gesso, e conseguiram esculturas que eram continuidade do próprio ambiente local, a areia. Um começo promissor para uma instituição estrangeira.

Casa Daros - início Casa Daros - círculo grande, do início ao fim Casa Daros - círculo grande, do início ao fim Casa Daros - círculo grande, do início ao fim Casa Daros - círculo grande, do início ao fim Casa Daros - círculo grande, do início ao fim Casa Daros - arco grande, do início ao fim Casa Daros - arco grande, do iníco ao fim. Casa Daros - arco grande, do iníco ao fim. Casa Daros - arco grande, do iníco ao fim. Casa Daros - arco pequeno Casa Daros - arco pequeno Casa Daros - arco pequeno Casa Daros - arco pequeno Casa Daros - arco pequeno Casa Daros - arco pequeno Casa Daros - um “erro” (o gesso transbordou do molde de areia)

Não é de primeira que se entende a intenção de Santiago. O próprio João Moreira Salles demorou a descobrir do que falaria no seu projeto parte documentário, parte ensaio de linguagem, mas isso está longe de ser um demérito, pelo contrário. O que se percebe logo de cara é o vai e vem no material filmado, proporcionando ao espectador múltiplas viagens pelo preço de um único bilhete.

Há, por exemplo, a que fala da memória do diretor, que visita sem visitar determinada época da infância, passeando pela casa vazia que foi redecorada pela decupagem técnica, encarando a piscina onde nadou com os pais como uma imagem estática, uma coletânea de planos esperando movimento.

Há também o olhar técnico para o material parado. O documentário quase filmado que descansa na ilha de edição, nos negativos e mídias digitais, nas lembranças do dia de gravação que insistem em evocar lembranças mais antigas e devolver à vida ao que beirava o esquecimento, obrigando Salles a “terminar” o filme que um dia largou de mão.

O catalisador disso tudo é Santiago, mordomo que serviu à família de Salles quando ele era garoto, na estadia na casa da Gávea.

Salles aproveita esse entremeio e mostra também o processo de filmagem (uma viagem pelo cinema?), como as idéias mudam no meio do caminho, o quanto as cenas supostamente espontâneas precisam ser refeitas e outros detalhes mais. Planos pretos cortam repentinamente a imagem, de modo a quebrar o vínculo e obrigar quem assiste a inúmeros recomeços, assim como ocorreu com o diretor. Há o som sem a imagem, a imagem sem o som, combinação e independência. Vale fugir das palavras tempo e memória e pensar em uma próxima, a construção. As camadas se tocam suaves num simulacro de atividade neuronal. A informação se transforma em blocos que mudamos constantemente de lugar. Tiramos e recolocamos em ordem seja para montar um documentário belo com esse ou armazenar da melhor forma o passado, o nome criado para o que é vivido e não pode ser excluído dos registros.

De forma simplista, a memória é nossa ligação com o passado e a imaginação com o futuro. É isso o que mais surpreende em Santiago (o mordomo e o filme), seus comandos peculiares de vôo.

O mordomo cria para si diversas vidas, pesquisa a aristocracia ao longo do tempo, se desloca do Egito para França para Inglaterra. Ele existe aqui no presente, lúcido e inteligentíssimo. É capaz de reviver o passado vivido e o passado criativo, onde pode ser o que quiser. O melhor disso tudo: transportou da cabeça para o papel todas as suas pesquisas. Trinta mil folhas organizadas meticulosamente. O registro dos mortos, diz ele, nomeando-se guardião de histórias.

Por algum mecanismo interno, Salles impõe entre ele e o seu objeto fílmico não só a distância segura da câmera, mas a da mulher que o ajuda na entrevista e sabe-se lá o que mais. Ele explica no final (para si mesmo) que manteve sem perceber a relação de dono da casa e empregado. Não cabem julgamentos. Todos nós sabemos o quanto as viagens pela memória podem ser complicadas. Nem todo solo no passado é confortável, há nas curvas muito terreno pedregoso.

Estou de mudança para São Paulo. Ir lá procurar apartamento e voltar para o Rio foi como deixar o futuro e pisar novamente no passado. Desenraizar de seu próprio tempo é mais complicado do que largar velhos hábitos. A rodoviária funcionando como símbolo da passagem. Aquelas casas e ruas que eu não conhecia agora eram minhas, os táxis e curvas que sabia decorados não mais me pertenciam. Dentro de casa eu esperava encontrar um outro eu, rosto antigo, saindo do banheiro de barba feita, perguntando por onde eu tinha andado.

Salles, ao que tudo indica, preferiu sentar na beira da piscina e deixar os mergulhos para “Joãozinho”.

Dito isso, Santiago é um filme que transcende. É uma experiência em todos os sentidos da palavra. Digno relato de um homem capaz de transformar um arranjo de flores em um recital de música clássica.

1. You’re a singer who moves easily between dance and rock, using something from folk. You feel at ease with funny lyrics and at the same time create poetry in the form of music. Is that the Morten Abel style?

Ive always had interest in many forms of music, jazz and classical, but since Im not an schooled musician I ended up doing what I do, and that gives me the freedom of have some fun, make noice and be a part of production and arrangements in the studio, wich I enjoy very much. One shall be careful to use humor in contemporary pop music. Ive done it (The Birmingham Ho), but some people get put off by it.

2. What do you think about this interconnected world that enables interviews like this one to be conducted? You have clips on your site and youtube… Is the world really getting smaller?

It’s great, get friends from other parts of the world. And I prefer doing interviews in writing.

3. Is there some heritage from your time at The September When in your solo career?

Yes, I think so. I tried to make my solo albums sound very different from TSW, and I think they do. But Im a melody man, and I think a strong melody links the two projects.

4. You’re now on a tour to show your new album. The public here in Brazil is known for its warmth. (and that comes from before the popularization of global warming!) The audience screams, jumps, sings along. What about in Norway? How is that vibe on the stage?

Well, I think the audience up here is a little different, but they like to drink, and the later it gets the more jumping up and down….

5a. Are there European countries more open to music from other countries?

I think people are the same everywhere. If they hear something they like, something original and true, they will listen to it no matter where it comes from. The problem is to let people know your material, but again, Youtube and the sorts has loosened that up a bit.

5b. Is there some kind of captive audience for music from Norway?

I know the italians buys a lot of norwegian music…

6. Sorry for this question, but did you really catch malaria in the Amazon? Those must have been tough times. I’m already down when I catch a cold.

I did, but I was only down for couple of days. Im fine now. Thanks, Eric


1. Você é um cantor que se move fácil entre as batidas dançantes e o rock, usando um pouco de folk. Você se sente confortável com letras divertidas e ao mesmo tempo cria poesia em forma de música. Esse é o estilo Morten Abel?

Eu sempre tive interesse em muitas formas de música, fosse clássica ou jazz, mas como eu não sou músico por formação eu acabei fazendo esse tipo de trabalho, o que me dá a liberdade de me divertir, fazer barulho e participar da produção e dos arranjos no estúdio, que é algo que eu gosto muito. Deve-se tomar cuidado ao usar humor na música pop contemporânea. É algo que já fiz (The Birmingham Ho), mas isso incomodou algumas pessoas.

2. O que você acha desse mundo interconectado que permite entrevistas como essa? Você tem clipes em seu site, youtube… O mundo está mesmo ficando pequeno?

Isso é ótimo, fazer amigos de outras partes do mundo. E eu prefiro responder entrevistas por escrito.

3. Sua carreira solo herdou algo dos tempos no The September When?

Sim, eu acho que sim. Eu tentei fazer meus álbuns solo soarem muito diferentes do TSW, e acho que consegui. Mas eu sou um homem de melodia, e acho que uma melodia forte conecta os dois projetos.

4. Você está em turnê agora. O público aqui no Brasil é conhecido pela animação. As pessoas gritam, pulam, cantam junto. E na Noruega? Como é a energia no show?

Bem, eu acho que o público aqui é um pouco diferente, mas eles gostam de beber… e quanto mais tarde fica mais eles pulam para cima e para baixo.

5. Os países europeus são mais abertos a músicas de outros países?

Eu acho que as pessoas são as mesmas em qualquer lugar. Se elas ouvem algo de que elas gostam, algo verdadeiro e original, então elas vão escutar, não importa da onde venha a música. O problema é fazer o material chegar até as pessoas. Mas, novamente, Youtube e similares facilitaram isso um pouco.

Existe um público mais aberto à música da Noruega?

Eu sei que os italianos compram bastante música norueguesa.

6. Desculpe a pergunta, mas você pegou mesmo malária na Amazônia? Devem ter sido dias difíceis. Eu já fico mal com um resfriado.

Sim, mas eu só fiquei mal alguns dias. Estou bem agora.

O português Rigo 23 escreve em inglês, espanhol, caracteres de alguma língua asiática e também em português, em seus enormes quadros da exposição Aberturas na auto-estrada, no Mac-Niterói.

History says the best way to travel to new and exciting places is aboard a hero’s ship. Though, if one is a captive indian ou an african slave one is not the hero but the merchandise and the merchandise has no history.
Ou:
After these first 500 years of success nothing like sitting back and enjoying a long failure.“, que é o que eu mais gosto.

E há outros, sobre a “humanidade” e a “demoniocracia” que chegam perto dos cartazes agit-prop da política dos anos 60.

Rigo 23

E é esta a constante. As aberturas na auto-estrada na contemporaneidade do artista são frinchas de onde é possível ver o passado. Em Bolo de sol de Taiching, a silhueta solitária de uma árvore em meio a cartazes publicitários; um vazio pardo no meio de Fazendo feito em Taiwan; uma favela carioca com um espaço para que o chão de terra apareça.

É curiosa essa busca por vestígios em um andarilho que se apresenta como nômade em um espaço que é, como os textos inscritos o demonstram, globalizado.

Uma suposição é que seja exatamente este o contexto: a ainda e sempre globalização e seu conseqüente fluxo de buscas por identidades e memórias culturais – as aberturas, quando as há. Rigo 23 (Ricardo Gouveia) buscaria, então, senão uma atividade diretamente política pelo menos uma utilidade política à sua atividade artística a partir deste contexto e símbolos.

Rigo 23

Mas o mundo onde ele busca suas aberturas é um mundo superlotado. Os quadros são cheios, detalhistas, e aí ele aborda uma segunda questão. As aberturas são não só espaços onde o passado pode se apresentar mas são também espaços vazios. Jorge Luis Borges tinha um personagem, Irineu Funes (de Funes, el memorioso), que não esquecia de nada e que, portanto, não conseguia pensar. O pensamento de Rigo, que parte dessa nostalgia por uma identidade cultural perdida (ou inventada/mitificada), parece mostrar, entre a sintetização direta das palavras-de-ordem (imagens-de-ordem?) e a análise esmiuçada de detalhes e cenas, entre seus pronomes (pró-nomes) de subordinação e de coordenação, que as aberturas a que possamos aspirar estão todas irremediavelmente entre dois mundos: o da abrangência dos detalhes nunca totalmente soldados dos espaços analógicos, e o das linhas retas dos espaços lógicos. Se ficarmos só nas analogias poéticas, ou só nas causas e conseqüências da racionalidade, não as teremos.

Edward Said não gostava de pensar as culturas em seu eixo histórico de lógicas internas e fechadas e dizia que as instâncias dialógicas globais eram hoje mais importantes do que qualquer consideração de passado nacional. É a partir dessa posição que se pode ver a exposição Analogias, do fotógrafo Salvino Campos, agora em cartaz no Mac-Niterói.

Salvino CamposA construção das 20 fotos comparativas entre Havana, Rio e Nápolis se dá a partir de um espaço-coringa (consertos de rua, jogos de tabuleiro em praças, carros velhos) que age como uma base comum, uma situação de partida, a partir do quê surgem um turbilhão de narrativas, inscritas em cada rosto, todos parecidos. São pessoas o seu tema, mesmo quando o fotografado é um velho Wolkswagen – cheio de rugas.

Salvino não faz exatamente uma coleção de sinônimos/antônimos ou mesmo de heterônimos, pois apenas em um díptico, o de uma estátua em bronze ao lado do dorso de um capoeirista, a comparação formal se estabelece como tal. Nas outras fotos não há binarismos a serem contrapostos ou integrados, mas uma segmentação fragmentária de personagens vividos. É o que os une, a vida. E é também o que os individualiza.

Salvino consegue, assim, na individualização, um benvindo breque contra mitologias fundantes, extensível inclusive ao país onde esse brasileiro escolheu viver, pois o bronze em questão é romano e antigo. E porque seus indivíduos são urbanos, eles estão dentro de uma temporalidade contínua e acelerada que se sobrepõe à espacialidade formalista em que suas belas fotos poderiam incidir. O fato de preferir o tempo ao espaço determina uma escolha de Salvino a respeito de uma velha luta dialética que cobre toda a história da arte, com significados diversos ao longo de cada momento e contexto. Em movimentos modernistas oportunamente falecidos, por exemplo, a escolha era a contrária, e formas paradas, que se pretendiam perfeitas ou pelo menos imutáveis, em muito contribuíam para uma suspeita de proximidade com o pensamento fascista que dominou boa parte do período.

Salvino CamposHoje, em que de novo se acirram blocos, a atitude do artista, ao negar o diacrônico em favor do sincrônico, é uma denúncia contra as ficções a respeito de supostos destinos a que estaria submetido o seu continente de trabalho, o europeu, em contraponto, por exemplo, às novas levas imigratórias de turcos e africanos. E também o seu continente de origem, o nosso, cujo apelido de emergente faz supôr uma superfície reta e lisa, perfeita, que precisaríamos atingir ao sair de nosso mergulho a alguma profundeza, para, enfim, termos todos licença para respirar.

E mais, são fotos. Fotos fazem com que você veja melhor o que viu antes só com os olhos. Para quem conhece as três cidades, a exposição é comovente.