Há umas frases que faz um tempão que sumiram. Por exemplo: a exclusão de grupos sociais é uma necessidade do capitalismo. É como esse sistema econômico e político baseado no acúmulo consegue atribuir valor ao que acumula. Aquilo tem valor, é desejável acumulá-lo (seja o que for), porque aquele outro indivíduo não o possui. E só é possível acumulá-lo se poucos o possuírem. Então é isso, o excluído é excluído não porque ele é assim ou assado, fez isso ou não fez aquilo, mas porque o sistema onde ele vive quer, precisa, exclui-lo.
Então a função principal da política, do governo, é tentar diminuir no que der, lutar contra, sabendo que jamais vencerá, a exclusão. Função do governo, e não do indivíduo particular, de grupos privados. E isso por um motivo muito simples. Se você, indivíduo, assume esse papel, você estará automaticamente também individualizando a outra ponta da relação. Não é mais o aleatório da exclusão cega de um sistema, mas aquele sujeito ali, que se se esforçar bastante, aprender isso ou aquilo – arte, por exemplo (partindo do pressuposto errado de que arte se aprende) – poderá safar-se da exclusão. Ou seja, se a responsabilidade de tirar alguém da exclusão é individual ou privada, a responsabilidade de sair da exclusão também passa a ser.
E não é. Dizer que é – estratégia conservadora por excelência – é uma dupla penalização.
E isso é só o começo.
Tem também o subproduto de enfraquecer o que já está fraco, que é a vontade dos governos capitalistas de assumirem sua responsabilidade social. E tem muito mais.
Então, é complicado ver a exposição de Monica Nador e seu grupo Jamac na Galeria Vermelho, uma das mais importantes de São Paulo.
Jamac quer dizer Jardim Miriam Arte Clube e é um projeto desenvolvido pela artista em uma das regiões mais violentas da periferia de São Paulo. E aí já entra uma segunda questão. O que é Jardim Miriam, a partir de que lugar esse lugar é definido como sendo Jardim Miriam. Se for de bem longe, os jardins mirians da vida serão sempre o “outro” no sentido antropológico. Serão o diferente de você, com uma unidade forçada e uma inferioridade ressaltada. (Longe aqui não precisa ser distância geográfica, pode ser distância na pirâmide do poder.)
É preciso que seja assim. Se o Jardim Miriam não for inferior, diferente e coeso não serve como receptáculo da ação de quem dele se apropria.
Mas não é só isso. A exposição é uma exposição de arte e se dá em uma galeria de arte. Ou seja, o que você vê não é a ação artística-social no Jardim Miriam, mas um simulacro das pinturas feitas por lá, a partir de estêncil, nas suas casas e muros. Na Galeria Vermelho, você vê o que espera: quadros. É parecido com o que acontece com exposições de grafiteiros. Em um muro margeando uma linha de trem, grafiti é uma coisa. Em uma galeria, sua eficácia, potência, se desativa, vira …, sei lá, vira nada, vira um anúncio, um cartaz que se refere a uma outra coisa, a um espetáculo que está sendo encenado em outro lugar. Como quem vai na Galeria Vermelho não sai de lá correndo para pegar três ônibus e um trem até o Jardim Miriam, o simulacro ocupa o lugar da pintura dos muros e paredes e faz com que você possa assistir a esse substituto do espetáculo com toda a segurança física e moral – você está em um lugar chique e é superior socialmente a quem lá não está.
Um artista pode se apropriar de um “outro” no seu fazer artístico se: 1) ele apresenta a obra, falando pelo grupo como se fosse um porta-voz auto-intitulado, assumindo o papel de líder ou tutor pedagógico; 2) o artista se identifica com um fazer artístico (uma técnica, um tipo de material, um padrão estético) já existente anteriormente no grupo escolhido, ressaltando o que ele considera ter mais valor e assumindo uma posição supostamente não-autoral de se exprimir através do grupo – embora, claro, sua interferência, mesmo que apenas de transpor objetos para outros locais ou usos, já signifique uma modificação das condições de produção originais; 3) o artista usa o grupo como tema de sua obra, para a elucidação e comoção de platéias politicamente corretas estranhas à situação social do grupo – sem nunca esquecer que marketing é o filho mais esperto da sociologia; 4) ou, ainda, faz ações de teor estético e sensorial que tenham a finalidade de melhorar a comunidade – dentro da idéia, contestável, de que arte possa melhorar uma comunidade, assim, rapidamente, diretamente (e lembrando sempre que comunidade também é uma idéia contestável).
Não sei nem quero/posso categorizar Monica Nador.
Sei que todas essas categorias da arte de cunho social oferecem a impressão de que a “colaboração” do indivíduo “elucidado” promoverá um processo de auto-reflexão e aumento de auto-estima, tornando o grupo escolhido sujeito de sua própria reivindicação social. Oferecem mais. Quanto maior a distância entre o artista – visto como culto, tecnicamente habilitado, superior etc. – e o grupo escolhido por ele, maior será a sensação de que é possível, para este artista, transcender a especificidade de sua classe e posição social. Esta transcendência é facilmente transmissível para o fruidor da arte, que é da mesma classe e posição social do artista. Então, o resultado dessa arte pode vir a ser uma confirmação e fortalecimento do poder dessa classe. É uma classe com mais este privilégio: pode, pensa ela, transcender-se através da arte e atingir quem ela exclui no resto do seu tempo, quando não está vendo exposições. E se pode transcender e chegar até o outro, sentindo (sempre supostamente) suas experiências e opressões, pode então falar por este outro assim tão bem atingido, tomar decisões por ele – e garantir que fique excluído para todo o sempre.
Para não ser uma chata total, vou falar de uma coisa boa. A arte de Monica Nador, tanto a que ela assina individualmente quanto a que ela apresenta com sendo de autoria dela e do grupo Jamac (a primeira com moldura, a segunda sem moldura), é uma arte de padrões geometrizantes. É este o padrão de todas as artes não-eruditas do mundo. Então, isso me faz crer que ela, afinal, não está tão longe do grupo que escolheu para chamar de seu.


Sobe de novo. Recupera o fôlego. Uma ampla maioria de assuntos pode ser explorada por ângulos diversos. Qualquer palestra sobre o uso do café no ocidente, a violência no Paquistão ou a evolução acadêmica com o advento do giz pode ser plural. Com a contracultura não é diferente. O ponto de interesse então não é a pluralidade inerente ao tema (qualquer tema), mas a proposta de trazer diferentes olhares, pontos de vista distintos para desenvolver a tal ruptura e continuidade da contracultura.