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Category Archives: edicao_0011

lista de artigos da edição 11, ano 3 – janeiro & fevereiro de 2008

Há umas frases que faz um tempão que sumiram. Por exemplo: a exclusão de grupos sociais é uma necessidade do capitalismo. É como esse sistema econômico e político baseado no acúmulo consegue atribuir valor ao que acumula. Aquilo tem valor, é desejável acumulá-lo (seja o que for), porque aquele outro indivíduo não o possui. E só é possível acumulá-lo se poucos o possuírem. Então é isso, o excluído é excluído não porque ele é assim ou assado, fez isso ou não fez aquilo, mas porque o sistema onde ele vive quer, precisa, exclui-lo.

Monica NadorEntão a função principal da política, do governo, é tentar diminuir no que der, lutar contra, sabendo que jamais vencerá, a exclusão. Função do governo, e não do indivíduo particular, de grupos privados. E isso por um motivo muito simples. Se você, indivíduo, assume esse papel, você estará automaticamente também individualizando a outra ponta da relação. Não é mais o aleatório da exclusão cega de um sistema, mas aquele sujeito ali, que se se esforçar bastante, aprender isso ou aquilo – arte, por exemplo (partindo do pressuposto errado de que arte se aprende) – poderá safar-se da exclusão. Ou seja, se a responsabilidade de tirar alguém da exclusão é individual ou privada, a responsabilidade de sair da exclusão também passa a ser.

E não é. Dizer que é – estratégia conservadora por excelência – é uma dupla penalização.

E isso é só o começo.

Tem também o subproduto de enfraquecer o que já está fraco, que é a vontade dos governos capitalistas de assumirem sua responsabilidade social. E tem muito mais.

Então, é complicado ver a exposição de Monica Nador e seu grupo Jamac na Galeria Vermelho, uma das mais importantes de São Paulo.

Jamac quer dizer Jardim Miriam Arte Clube e é um projeto desenvolvido pela artista em uma das regiões mais violentas da periferia de São Paulo. E aí já entra uma segunda questão. O que é Jardim Miriam, a partir de que lugar esse lugar é definido como sendo Jardim Miriam. Se for de bem longe, os jardins mirians da vida serão sempre o “outro” no sentido antropológico. Serão o diferente de você, com uma unidade forçada e uma inferioridade ressaltada. (Longe aqui não precisa ser distância geográfica, pode ser distância na pirâmide do poder.)

É preciso que seja assim. Se o Jardim Miriam não for inferior, diferente e coeso não serve como receptáculo da ação de quem dele se apropria.

Monica NadorMas não é só isso. A exposição é uma exposição de arte e se dá em uma galeria de arte. Ou seja, o que você vê não é a ação artística-social no Jardim Miriam, mas um simulacro das pinturas feitas por lá, a partir de estêncil, nas suas casas e muros. Na Galeria Vermelho, você vê o que espera: quadros. É parecido com o que acontece com exposições de grafiteiros. Em um muro margeando uma linha de trem, grafiti é uma coisa. Em uma galeria, sua eficácia, potência, se desativa, vira …, sei lá, vira nada, vira um anúncio, um cartaz que se refere a uma outra coisa, a um espetáculo que está sendo encenado em outro lugar. Como quem vai na Galeria Vermelho não sai de lá correndo para pegar três ônibus e um trem até o Jardim Miriam, o simulacro ocupa o lugar da pintura dos muros e paredes e faz com que você possa assistir a esse substituto do espetáculo com toda a segurança física e moral – você está em um lugar chique e é superior socialmente a quem lá não está.

Um artista pode se apropriar de um “outro” no seu fazer artístico se: 1) ele apresenta a obra, falando pelo grupo como se fosse um porta-voz auto-intitulado, assumindo o papel de líder ou tutor pedagógico; 2) o artista se identifica com um fazer artístico (uma técnica, um tipo de material, um padrão estético) já existente anteriormente no grupo escolhido, ressaltando o que ele considera ter mais valor e assumindo uma posição supostamente não-autoral de se exprimir através do grupo – embora, claro, sua interferência, mesmo que apenas de transpor objetos para outros locais ou usos, já signifique uma modificação das condições de produção originais; 3) o artista usa o grupo como tema de sua obra, para a elucidação e comoção de platéias politicamente corretas estranhas à situação social do grupo – sem nunca esquecer que marketing é o filho mais esperto da sociologia; 4) ou, ainda, faz ações de teor estético e sensorial que tenham a finalidade de melhorar a comunidade – dentro da idéia, contestável, de que arte possa melhorar uma comunidade, assim, rapidamente, diretamente (e lembrando sempre que comunidade também é uma idéia contestável).

Não sei nem quero/posso categorizar Monica Nador.

Sei que todas essas categorias da arte de cunho social oferecem a impressão de que a “colaboração” do indivíduo “elucidado” promoverá um processo de auto-reflexão e aumento de auto-estima, tornando o grupo escolhido sujeito de sua própria reivindicação social. Oferecem mais. Quanto maior a distância entre o artista – visto como culto, tecnicamente habilitado, superior etc. – e o grupo escolhido por ele, maior será a sensação de que é possível, para este artista, transcender a especificidade de sua classe e posição social. Esta transcendência é facilmente transmissível para o fruidor da arte, que é da mesma classe e posição social do artista. Então, o resultado dessa arte pode vir a ser uma confirmação e fortalecimento do poder dessa classe. É uma classe com mais este privilégio: pode, pensa ela, transcender-se através da arte e atingir quem ela exclui no resto do seu tempo, quando não está vendo exposições. E se pode transcender e chegar até o outro, sentindo (sempre supostamente) suas experiências e opressões, pode então falar por este outro assim tão bem atingido, tomar decisões por ele – e garantir que fique excluído para todo o sempre.

Para não ser uma chata total, vou falar de uma coisa boa. A arte de Monica Nador, tanto a que ela assina individualmente quanto a que ela apresenta com sendo de autoria dela e do grupo Jamac (a primeira com moldura, a segunda sem moldura), é uma arte de padrões geometrizantes. É este o padrão de todas as artes não-eruditas do mundo. Então, isso me faz crer que ela, afinal, não está tão longe do grupo que escolheu para chamar de seu.

David Cronenberg marcou a década de 80 com o impactante remake de A Mosca, a adaptação literária de A hora da zona morta, o cultuado Videodrome e o thriller Gêmeos mórbida semelhança. Nos anos 90 filmou Madame Butterfly e levou para as telas o controverso livro Crash, que trata de pessoas que unem prazer sexual a acidentes de carro. Século XXI em cena, o diretor manteve sua abordagem de psiques perturbadas em Spider (vencedor da Palma de Ouro em Cannes e de mais 11 prêmios) e em Marcas da Violência (indicado a 2 Oscars e vencedor de 25 premiações).

Senhores do Crime

Senhores do crime soa como uma evolução do anterior, impressão reforçada pela presença de Viggo Mortensen (na tela, composição de personagem e palpites no roteiro), pelo viés psicológico sombrio e pela potencialização dos fantasmas existenciais que se materializam de formas diversas.

Os primeiros cinco minutos de Senhores do Crime mostram porque as degolas de Sweeney Todd não podem ser vistas como violentas. Navalha cega no pescoço, corte lento feito pelas mãos trêmulas de um jovem, sangue convincente escorrendo. É o que chamo de explicação de conteúdo para pessoas distraídas. Essa navalhada brutal é a força motriz de metade da trama. A outra vem da cena seguinte e é de fato a história principal. Nela, uma menina grávida entra na drogaria pedindo ajuda e desmaia com uma forte hemorragia. No hospital, a enfermeira Anna (Naomi Watts) revira sua bolsa em busca de informações e encontra um diário em russo que guarda para si. Graças à tentativa de aborto mal-sucedida, a menina acaba morrendo, deixando órfã a recém-nascida. Anna decide então traduzir o diário para procurar o endereço da família da morta e mudar o destino da filha que ela deixou. Em casa seu tio russo dá uma rápida espiada nas folhas e sugere: enterre os segredos junto com os mortos. Sem convencer o tio a fazer uma tradução, Anna folheia o diário e acha o cartão de um restaurante russo, começando a investigar a vida de Tatiana. É na porta do restaurante, sob o simpático olhar de Semyon, um chefão da máfia russa, que sua vida cruzará com a de Nikolai, o misterioso personagem de Viggo Mortensen.

A direção de Cronenberg é tradicional: planos caprichados com o vai e vem de câmera que o espectador está acostumado em qualquer filme. A maestria do que parece simples é explicitada na luta na sauna, incrivelmente orquestrada e real, onde a nudez de Viggo Mortensen demonstra como as tatuagens de um criminoso vestem seu corpo e seu nome. Também é dele o mérito por uma Londres sem pontos turísticos, em que o frio e a frieza têm papéis fundamentais. A atuação do elenco em geral é bem marcante por fugir do clichê dentro de um gênero forte e por soar autentica sem a sombra de poderoso chefão. Isso vale para Naomi Watts (King Kong e 21 gramas) e sua enfermeira Anna, Vincent Cassel (Pacto dos lobos e Doze homens e um segredo) como o mafioso em crise de identidade e para Viggo Mortensen com seu estranhíssimo Nikolai, uma mistura de motorista, guarda-costas e outras coisas mais.

O mais interessante de Senhores do Crime não é a história em si, mas o modo como ela é contada. O roteiro só diz ao espectador o indispensável sobre os personagens, nada mais. A única história revelada é a da personagem ausente, de Tatiana, a menina morta. O que surge das páginas do diário alimenta a carga sentimental que faísca entre Anna, Nikolai e os mafiosos, aumentando o peso dos fatos sem mover a trama para frente. De Tatiana descobrimos o passado e já conhecemos o futuro na cama do hospital. Dos demais, teremos apenas o presente, o corte que nos é mostrado durante a projeção.

Além de revigorar a narrativa, a idéia vai contra o conceito básico de drama em que todos os momentos de um filme levam a um grande acontecimento final. É curioso então que um filme de mafiosos seja construído sobre as ausências, sobre o peso nos ombros de não ter um passado para apoiar os pés e não saber quem está esperando na próxima esquina. É um jeito de dizer: seja você quem for, o futuro é incerto.

Em tempo: para o caso de espectadores que hibernaram nos últimos anos, Viggo Mortensen é o Aragorn de Senhor dos Anéis.

Exposição Frestas na Galeria Theodoro Braga

Galeria Theodoro Braga
Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves
Av Gentil Bittencourt, 650 – Subsolo do prédio do Centur

Frestas

Contatos:
GEORGE VENTURIERI
Gerente da Galeria Theodoro Braga
Fones: (091) 3202 4313
Fax: (091) 3202 4351
Email: gtb@fcptn.pa.gov.br
Site: www.fcptn.pa.gov.br
segunda à sexta, de 08h30 às 12h30 e 14h30 às 18h

Conduta de risco (Michael Clayton no original) é a estréia do roteirista Tony Gilroy na direção. Seu currículo inclui nada menos que Eclipse total (adaptação do melhor livro de Stephen King), Medidas extremas, Supremacia de Bourne, Ultimato de Bourne e Advogado do diabo, entre outros. É fácil notar que Gilroy vem se especializando em suspenses que usam elementos cênicos como explosões e perseguições sem deixar de lado os bons diálogos. Sendo assim, Conduta de risco se mostra uma evolução natural do processo e não espanta que tenha sido indicado a 7 Oscars, incluindo melhor direção, melhor filme e melhor roteiro.

Conduta de Risco Tilda Swinton, indicada ao Oscar de melhor atriz, já trabalhou em A Praia, Flores Partidas, Constantine e Crônicas de Nárnia. Em todos eles sua personagem tendia mais para o lado negro da força, quase uma especialização de rugas e maldade. No papel de Karen Crowder, ela encarna a chefe do departamento legal de uma empresa que produz um agrotóxico cancerígeno. Preciso dizer mais? Ela é a mulher que toma as decisões difíceis e tem que ser fria e calculista para o bem da empresa. O interessante da personagem é a forma como Gilroy encontrou para transparecer essa frieza: 1. ensaiando os discursos em casa suando frio ao escolher cada palavra e peça de roupa 2. espontânea e segura ao repetir as palavras em entrevistas e reuniões. Sempre à beira da loucura, mas mantendo a pose.

Como o tal agrotóxico é usado amplamente, são vários os casos de câncer em agricultores. Suas famílias resolvem se unir e entrar na justiça contra a fabricante U/North. Além do escândalo na mídia, a indenização é milionária e a empresa não quer pagar um centavo. Por isso contrata a renomada firma de advocacia Kenner, Bach, & Ledeen’s, que indica seu melhor advogado para defender o caso: Arthur Edens.

Para azar da U/North, além de ser uma lenda viva Arthur Edens também é maníaco depressivo e no meio do caso (que já dura seis anos) tem uma revelação, descobre que tudo que faz é errado e decide defender os agricultores. Segundo o próprio, ele se tornou Shiva, a deusa da morte. Esse momento de libertação, de rompimento do casulo, é simbolizado por um striptease no meio da audiência, culminando com Edens no estacionamento, correndo só de meias sobre a neve atrás da testemunha que quer defender. A brincadeira talvez seja uma referência ao seu papel em Full Monty, mas em Conduta de Risco tem conseqüências catastróficas que deixam Karen Crowder de cabelo em pé.

Conduta de Risco Pare resolver o problema, a firma de advogados chama Michael Clayton, personagem de George Clooney, indicado ao Oscar de ator principal. Ele é o “fixer”, uma espécie de faxineiro convocado em situações extremas para arrumar a bagunça e acompanhar o caso, analisando as melhores possibilidades, escolhendo os advogados certos, sugerindo o que dizer ou não no tribunal e por aí vai.

Michael é amigo de longa data de Arthur Edens e tenta convencê-lo a voltar a tomar os remédios e seguir com o caso, mas a situação cada vez piora mais.

Se em princípio parece que o filme fala dessa história em particular, mais adiante o espectador percebe que o verdadeiro foco é o caráter de Michael Clayton e como as inúmeras pressões profissionais e pessoais (a vida pessoal dele também não é fácil) moldam o comportamento de alguém durante os anos. A pendenga do agrotóxico é só o veículo para expor algo maior.

O diretor Tony Gilroy fez uma escolha curiosa, mantendo a câmera sempre próxima dos personagens, com raros planos abertos. É um jeito de aumentar o suspense: quanto mais fechada a câmera menos sabemos o que existirá no próximo passo e o que temos ao redor. É um modo de destacar o humano e avisar que a vida dos personagens é tão relevante quanto o todo. É um jeito de não se preocupar com a produção dos cenários e com variáveis complicadas em cenas externas. Você escolhe a opção.

Conduta de Risco

Sobre as mortes, explosões e perseguições de carro, elas existem apenas como uma auto-referência ao currículo de Tony Gilroy. O que avança o filme, felizmente, é a evolução psicológica dos personagens e o modo como tiram o peso de seus ombros.

Conduta de risco foi indicado a 41 prêmios, ganhou 7 e o Oscar mais provável é o de melhor atriz coadjuvante. Mesmo que não leve nenhum, é um suspense de primeira linha que merece atenção.

Reestréia em Nova Iguaçu

Reestréia em Nova Iguaçu: ERES_KIGAL - esculturas

ERES KIGAL – esculturas

Cia. Teatro da Transcendência

Texto e Direção de Camila Diehl

com Wendell Soares, Vinícius Mochizuki, Átila Bezerra, Lucas Valentim

sábados e domingos, 20h

dias 16, 17, 23 e 24 de fevereiro/2008

ESPAÇO CULTURAL SYLVIO MONTEIRO

Rua Getúlio Vargas, 51 – Centro – Nova Iguaçu / RJ – Tel. 21 2667-2157)

70 minutos | 150 lugares | R$10 (inteira) e R$5 (meia)

Classificação: 18 anos

Iniciei o livro curioso para saber como Deise Quintiliano se sairia com Engenho e Arte: pós-modernidade e relatividade em Sartre. Se ter um bom tema em mãos não é garantia de qualidade, quando o que está em jogo é o legado de Sartre o cenário fica ainda mais complicado. O motivo é tolo mais existente: é inevitável comparar a qualidade do objeto e do produto de estudo, o interesse despertado por cada um em separado. Engenho e Arte, felizmente, constrói sua individualidade sem vampirizar suas fontes, mantendo um diálogo bem dosado com as idéias dinâmicas do pensador. Outras características positivas de Engenho e Arte são: 1. munir o leitor com informações suficientes para que ele acompanhe o pensamento proposto e 2. evitar ao máximo frases truncadas e aglomerados de palavras inatingíveis, geralmente usadas como armaduras do saber contra a lâmina da ignorância (em outras palavras, quanto mais difícil escrevo mais inteligente pareço).

Qualidades apresentadas, vamos ao tema do livro.

Engenho e Arte reúne três ensaios envolvendo o pensador Jean Paul Sartre, relembrando sua importância na década de 60 e a intensidade com que alimentou a forma de pensar da intelectualidade brasileira. O primeiro mergulha na relação de Sartre com a pós-modernidade, encontrando em sua estética elementos do pós-modernismo e contestando os que consideravam suas idéias ultrapassadas e os conceitos agregados ao que se convencionou chamar de pós- modernidade. É um texto ágil que cita grandes nomes sem ser enfadonho. Seu público-alvo são os já conhecedores da obra de Sartre, mas também é acessível aos que não tem total entrosamento com ela, sendo plenamente capaz de despertar a curiosidade dos neófitos nos meandros filosóficos.

“Reiterando sua referência a Flaubert, Sartre consente, finalmente, que as biografias são articuladas como ficções verdadeiras ou verdades ficcionais: ‘gostaria que lessem meu estudo como um romance porque, realmente, é a história de uma aprendizagem que conduz ao fracasso de toda uma vida. Gostaria ao mesmo tempo que lessem pensando que é verdade, um romance verdadeiro” – Deise Quintiliano. Na citação: Sartre.

“A filosofia de Sartre nunca perdeu de vista as noções de sujeito, de consciência, de liberdade, evidenciando uma resistência consistente diante de sistemas exterminadores do indivíduo e permitindo-lhe circular livremente do homem à obra, da obra ao homem” – Deise Quintiliano.

O segundo faz uma triangulação entre Einstein, Garcia Marquez e Sartre, cabível através do conceito de tempo vislumbrado pela física e pela arte. E se há literatura e tempo, como há o tempo no cinema, podemos incluir aí de raspão algo do pensamento de Deleuze. Não é um texto que comece tão interessante quanto o primeiro, mas ganha força com as citações de Brian Greene e quando Sartre volta ao foco, deslocando Garcia Marquez para segundo plano. Ao abordar Entre quatro paredes, a noção quântica do tempo e aquele papo infindável (não é irônico que as discussões sobre o tempo sejam eternas?) sobre a inexistência ou singularidade do tempo em cada indivíduo passa a dialogar com a morte, o marco definitivo do fim, revertido no texto de Sartre ao contar a eternidade de seus três personagens presos no inferno (uma solução do autor para manter seus três atores o tempo inteiro no palco).

“A abordagem do tempo mítico cria uma linha de fuga à rigidez do tempo cronológico por definir-se como um momento intemporal que gira em torno da repetição de si mesmo, numa temporalidade cíclica que perpassa o pensamento dos povos primitivos, dos pré-socráticos ou da filosofia nietzschiana, que impregna as reflexões da modernidade” – Deise Quintiliano.

“A luz leva tempo para chegar aos seus olhos. Tudo o que você está vendo agora já aconteceu. (…) Einstein disse que o problema do agora o preocupava seriamente. Explicou que a experiência do agora significa algo especial para os homens, essencialmente diferente do passado e futuro, mas que essa importante diferenciação não pode ocorrer na física” – Greene.

A última parte, de caráter poligonal, representa a arte do título, partindo dos ensaios de João Cabral de Melo Neto sobre Miró e da análise de Sartre sobre Alberto Giacometti. É o único texto com firulas de vocabulário, tentação justificável pela dose de poesia e pela semântica intrínseca à arte. Os que entrarem no clima da “hermenêutica estético-fenomenológica” vão aproveitar bastante do ensaio.

“Mas os surrealistas têm mais saúde: seu mito de destruição dissimula um enorme e magnífico apetite; eles querem nadificar tudo com exceção deles mesmos, como testemunha seu horror das doenças, dos vícios, da droga” – Sartre.

“Miró não era o primeiro pinto do mundo a abandonar a terceira dimensão. Mas talvez ele tenha sido o primeiro a compreender que o tratamento da superfície como superfície libertava o pintor de todo conceito de composição”. – João Cabral.

Para finalizar, lembro que a relação de Deise Quintiliano com a obra de Sartre é antiga. Representante do GES (Grupo de Estudos Sartrianos) no Brasil e autora de diversos artigos, Deise escreveu também Sartre: Philia e autobiografia (mais complexo que Engenho e arte, mas ainda assim interessante) nas celebrações do centenário do nascimento do escritor.
Quando ler na orelha do livro diz que Deise trata tudo de forma contemporânea, saiba que não é mero artifício de marketing. Pelo seu histórico e embasamento, Deise sabe a importância do chão no vôo solitário do leitor.

Existe uma diferença básica entre a música e o livro eletrônicos. A música, uma vez que é executada, não causa em seu ouvinte um prazer diferente dependendo de sua origem. O livro depende não apenas de seu conteúdo mas também de seu suporte para que a experiência do leitor seja plena. É este o motivo fundamental pelo qual a indústria fonográfica caiu antes da mídia impressa. Hoje em dia só lê jornal impresso, por exemplo, que suja dedos e não tem “busca”, quem tem em seu gestual algum tipo de prazer.

Dentre os impressos, existem aqueles que nos proporciam uma melhor ou pior experiência e os motivos de cada gradação gera incontáveis teorias, papers, teses, artigos. É, aliás, algo que me intriga e uma questão que me persegue. Isso, claro, sem sequer entrar na obscura física quântica do que vende ou não vende.

Tenho eu cá meus prazeres. A fotografia é um deles. Livros é outro. Um livro com fotografias de Felix Richter, então, é sempre uma felicidade.

Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana

Lições de um Brasil Selvagem não é lição nem de Brasil, nem de selvagem. É lição de fotografia.

Entretanto, o simples fato de ser um livro com as fotografias de Richter não é (e nem deveria ser) suficiente para uma resenha. A questão é que ele se superou. E isso não é pouca coisa.

O trabalho anterior de Richter era uma pintura. Ele agora se permite pintar sem forçar o pincel contra o papel. Explico: é necessário um amadurecimento muito grande do fotógrafo para conseguir se manter expressivo sem se tornar caricato. A exposição que eu vi na Casa do Saber, no Rio, era excelente e foi quando conheci (ao vivo e a cores) o trabalho de Richter que até então só tinha visto pela internet mas, mostrava um trabalho que, sem cuidado, poderia ficar estigmatizado facilmente, justamente por ser tão expressivo.

Não deixo de me impressionar como ele lida com cores. Mal posso esperar a próxima safra.

Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana

As fotografias atuais de Richter continuam expressivas e ele continua usando e abusando de cores. As cores lhe servem, não o contrário. Tudo, agora, com uma pitada diferente: a captação da luz aceita o que lá está, mostrando muito mais o olho do que as mãos do fotógrafo-pintor.

Felix Richter é, antes de tudo, um profissional que evolui. Vocês não fazem idéia de como esta é uma espécie em extinção (por falar em Brasil selvagem).

A Editora Céu Azul de Copacabana conseguiu fazer um livro facilmente identificável como “livro de fotografia” sem cair na mesmice de livro de centro. É um livro para manusear, para curtir. É um livro para aproveitar.

E aí, me desculpe, mas não tem ebook que dê conta.

Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter, ed. Céu Azul de Copacabana

Presenças - Daniel Cruz

Exibição Presenças
Daniel Cruz
Segunda, 18 de fevereiro de 2008, 20h
Espaço cultural Banco da Amazônia
Av. Pres. Vargas, 800 térreo
Belém/PA
Tel 4008.3670
www.bancodamazonia.com.br

Propaganda colaborativa: o fim das agências tradicionais
Sociale Comunicação democratiza a criação publicitária.

A Sociale Comunicação, agência paulistana dos sócios Franco Rosário e Flávio Demarchi, criou, em dezembro de 2006, a primeira ferramenta de propaganda colaborativa do mundo. Em 2008, após um ano de operação, a empresa lança uma nova versão de seu site aproveitando a experiência adquirida para revolucionar o mercado publicitário brasileiro.

A ferramenta foi criada para auxiliar na divulgação de empresas e entidades de todos os tamanhos. Através do site  www.sociale.com.br, empresas, profissionais liberais e entidades podem solicitar a criação de qualquer peça de comunicação através do preenchimento de um simples formulário passo-a-passo. São criados desde folhetos até sites de internet, passando por outdoors, malas-direta e logomarcas. Tudo é feito através da internet e o cliente ainda escolhe o valor do seu investimento, ou seja, quanto vai pagar pelo trabalho.

Isto é possível graças a uma rede de colaboradores de diversas áreas, profissionais especializados do mercado responsáveis pela criação das peças, sob supervisão da agência, que garante a qualidade do trabalho e o prazo de entrega.

Como funciona
Primeiro o Cliente se cadastra gratuitamente e utiliza seu e-mail e senha para acessar a área de pedidos. Escolhendo a opção “novo trabalho” é apresentado um formulário passo-a-passo que deve ser preenchido com objetividade. Entre outros itens, a empresa irá definir o valor que deseja pagar e o prazo para receber as opções criativas. O trabalho é publicado no site, e os Colaboradores que se interessarem preparam sugestões do material solicitado. No prazo combinado o Cliente visualiza, através do próprio site, as opções de trabalho e escolhe aquela que mais gostou. O trabalho é então finalizado e entregue pronto para ser utilizado ou para ir para a gráfica.

Vantagens para os pequenos
A ferramenta apresenta diversas vantagens, principalmente às pequenas e médias empresas. A principal é permitir que elas tenham acesso a materiais publicitários de qualidade pelo preço que podem pagar. Outras vantagens são praticidade (a empresa tem acesso ao website exclusivo para solicitação e acompanhamento on-line dos seus serviços de publicidade e comunicação), atendimento feito por profissionais capacitados e grande diversidade de opções adequadas à necessidade.

E por operar através da internet, a Sociale está apta a atender empresas de todo o país. Segundo seu sócio Franco Rosário, “o objetivo maior da Sociale é democratizar os serviços de comunicação. De uma maneira simples, a idéia é mostrar para os nossos clientes que é possível trabalhar adequadamente sua marca e sua comunicação, com publicidade profissional e capacitada, pagando o preço justo por isso”.

Sobre a empresa
A Sociale é a primeira ferramenta de propaganda colaborativa do mundo. Ela representa uma nova forma de pensar o  trabalho  e  a  prestação de serviços  de  comunicação e publicidade. É uma empresa com uma nova e moderna arquitetura de processos e organização que traz benefícios para seus clientes e colaboradores.

Toda vez que um cliente solicita um trabalho ele define o valor que quer investir e a data em quer recebê-lo. seus clientes e colaboradores. O trabalho é analisado e direcionado à rede de colaboradores, que, dentro dos padrões estabelecidos pelo cliente, desenvolve opções criativas. O cliente então escolhe a melhor opção e o trabalho é desenvolvido até a entrega da solução final. Esta abordagem beneficia tanto os clientes quanto os colaboradores, permitindo-lhes maximizar os benefícios e a utilização de seu tempo para realização de seus trabalhos.


Contato

Franco Rosário
www.sociale.com.br
Blogs: comunicacaodemocratica.wordpress.com | sociale.wordpress.com
franco@sociale.com.br – MSN: sociale.comunicacao@hotmail.com – Tel.: 11-3522-5188 / 11-9159-8055

Início de ano e as exposições são sempre coletivas. Tira-se o pó do acervo ou reúnem-se grupos com o título de “novos” e que raramente são de artistas que têm a ver uns com os outros – além da baixa idade e nenhum nome.

Mas eu tento.

A Emma Thomas – Roberto jurava que Emma Thomas era um trocadilho, eu achando que não: paulista é muito sério para isso – abriu com uns dez artistas (nem todos “novos”) que eu olhei daqui e dali e achei terem um apego em comum à narrativa. Não me refiro à tendência autobiográfica da arte contemporânea com seu amealhar de memorabilis, mas à criação de quase-enredos em uma serialização temporal. Talvez uma música.

Henk Niemann (fotografia de Roberto Lehmann) Henk Niemann (fotografia de Roberto Lehmann) Henk Niemann (fotografia de Roberto Lehmann)

Henk Nieman traz a história de um atropelamento. Ou melhor, uma história sobre o vazio, com uma paisagem linda e imutável, silenciosa, de um pós-atropelamento encenado. Pós, mas também pré e durante. As fotos, montadas em fila, fazem com que o fruidor se ponha ao mesmo tempo em todos os tempos. Outra coisa: o fato do atropelamento ser encenado traz uma nova possibilidade de significado. Haver encenação de ato violento para contrapô-lo a uma paz ridiculariza essa paz. Faz com que ela também pareça encenada, a põe entre umas aspas, como de fato está, quando se trata (este é o caso) de uma paz “natural” (uma praia deserta), enclavada, emoldurada, pelo urbano (no caso, uma autovia).

Lívia Benedetti (fotografia de Roberto Lehmann) Lívia Benedetti (fotografia de Roberto Lehmann)

A mesma problematização do “natural” vem com a série de paisagens de Livia Benedetti. Pedaços de fotos de palmeiras e praias têm sua linha do horizonte modificada com a colagem de papel pardo. O papel contudo vai descolando, denunciando a feitura artificial desse paraíso. Se Henk impõe a visão simultânea de três tempos, Benedetti impõe o espaço simultâneo de um horizonte que está lá e aqui, perto e longe, em cima e abaixo do fruidor.

Erica Ferrari (fotografia de Roberto Lehmann)

E outra: Erica Ferrari pega fórmica com padrão em marrom e põe nela umas massas feitas de cera. Também é serial e também é aos poucos que percebemos que as bucólicas paisagens são na verdade fórmica estampada. A padronagem imitando madeira induz o olho do fruidor a fabricar uma profundidade que não está lá, em um “natural” dos mais artificiais.

Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann) Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann) Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann) Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann) Cris Muniz (fotografia de Roberto Lehmann)

A série de Cris Muniz é uma história de dentes repetidos até se tornarem registros, cifras musicais em sua seqüência ritmada de elementos verticais e curvos, colcheias de algum compasso antropofágico.

Alexandre Hypólito (fotografia de Roberto Lehmann) Alexandre Hypólito (fotografia de Roberto Lehmann)

Vi uma obra anterior de Alexandre Hypólito em uma galeria do Rio de Janeiro. Ele já trazia, nas suas fotos antigas coladas em madeira, uma biografia de personagens. Sofisticou-se. Continua recuperando um clima de casas – e pessoas – antigas, de vidas burguesas. Mas ultrapassa a possibilidade de fechamento. Em seu pequeno baú cheio de pessoinhas, ele usa os vários planos do objeto como chão para suas cenas anódinas. Com isso, fala de um tempo e um espaço multifacetado, problematizado. Um passado não mais estratificado mas que corre por fora da seqüência romântica. Em outra obra, um vaso de plantas, a mesma problematização. As folhas verdes tão singelas são feitas de placas de computador: a informação, a sua “vida”, portanto, é multiplicada exponencialmente – e em mais direções do que as clássicas, conservadoras, de uma geometria agora não mais euclidiana, de um tempo que estourou sua linearidade.

Paulo Bega faz montagens fotográficas de uma mesma forma repetida, o que resulta em composições geometrizadas, matemáticas, e ritmadas. Márcio Simnch traz árvores que são o registro de algo nervoso, quase o gráfico de uma sonoridade. Luis Coelho faz com que o fruidor veja o que fica quando uma paisagem passa muito rápido – como se ela nem fosse vista.

Não há ilusionismo em nenhum deles. A narrativa – ou a música – vem junto com a explicitação de sua instrumentalização. A banda toca na sua frente, o escritor rabisca o final enquanto recita o texto.

Antes de ser um filme de Tim Burton ou um filme com Johnny Depp, Sweeney Todd é um musical com dois estilos que caminham paralelos: o humor negro e o romance açucarado. Quem não estiver no clima do gênero vai considerar as músicas irônicas um momento de alívio muito curto e sofrerá com as canções melosas na voz dos atores adolescentes. Por mais depressivo e estranho que tenha ficado o resultado (e isso é um elogio), pense bem neste aspecto antes de comprar o ingresso, afinal a locadora da esquina tem títulos como Big Fish, A lenda do cavaleiro sem cabeça e Noiva Cadáver esperando para serem revistos.

Sweeney Todd A história de Sweeney Todd é simples e irrelevante: Havia um barbeiro lindo e jovem, apaixonado por uma mulher loirinha igualmente bela. Eram um casal de dar inveja, com sua filha recém-nascida no carrinho e um belo sol dourado sobre a cabeça. Tanta beleza atraiu os olhares de um juiz poderoso e sem caráter, que mandou prender o barbeiro para tentar seduzir a pobre mulher. Ela, sozinha com uma filha pequena, resistiu o quanto pôde e não teve lá um final muito feliz. Quinze anos depois, o barbeiro volta para Londres com o pseudônimo Sweeney Todd disposto a se vingar. E que melhor maneira de um barbeiro se vingar do que cortar o pescoço do juiz (ou fazer a barba mais rente de sua vida, nas palavras do personagem)? Ao voltar ao local onde morava sua amada, Todd descobre que ela morreu envenenada depois do juiz desonrá-la. Quem canta essa parte da história é a dona da loja de bolinhos que fica no andar debaixo da casa, uma loja quase fechada, cheia de baratas e poeira, que sofre com o alto preço da carne no mercado. A mulher (Mrs. Lovett – Helena Bonham Carter) convence Todd a se instalar no quarto e voltar a trabalhar até que possa se vingar do juiz. Faz isso cheia de segundas intenções, já que sempre teve uma queda por ele. Como o caminhar da vingança não vai muito bem, Todd se enfurece e decide ampliar seus planos, se vingando de todos os cidadãos londrinos. Todos são culpados e ponto final. É aí que começa o festival de gargantas cortadas que dá graça ao filme, com o sangue de um vermelho plástico esguichando sem parar. Para temperar ainda mais o humor negro, os corpos que Todd degola servem de fonte protéica para a loja de Mrs. Lovett, que volta a fazer sucesso com suas tortas de carne e derruba a concorrência. A música em que os dois analisam que profissões teriam os melhores sabores é de longe a mais interessante do filme.

Com isso já deu até para esquecer que existe uma parte entediante, não? Mas não se preocupe. Estou aqui para ajudar a lembrá-la.

Todd foi recolhido no mar por um garoto chamado Anthony Hope, um marinheiro que também estava indo para Londres. Depois de se despedir do estranho amigo, Hope começa a vagar pela cidade até que pára na janela de uma mansão que mais parece um presídio. Lá na janela, loirinha a cantar como um rouxinol, está Johanna (Jayne Wisener em seu primeiro papel). É claro que Hope se apaixona pelo triste olhar da menina e resolve salvá-la daquela vida terrível. Não por acaso, Johanna é a filha de Todd, que foi adotada pelo juiz Turpin, responsável por toda a desgraça do barbeiro. Hope então terá que driblar o esquema de segurança de Turpin se quiser se encontrar com a princesa encantada. A história dos dois (que não acrescenta nada ao filme) seria indolor se não fossem as musiquinhas. Da décima vez que Hope entoa em agudos o nome de Johanna, o tilintar da navalha de Todd passa de ameaçador a reconfortante.

Sobre os atores.

Apesar do papel sem graça de Hope, Jamie Campbell Bower é o que se sai melhor no musical, com a voz afinada e boa impostação.

Jayne Wisener, infelizmente, segue a linha de atuação “carisma zero”. Ela consegue ter a mesma cara trancada no quarto, cantando, apanhando do bedel ou trancada em um manicômio. E pior, também canta. Como em Hollywood tudo é possível (Keira Knightley foi indicada ao Oscar!), quem sabe Wisener não mostra uma atuação mais inspirada da próxima vez?

Ed Sanders (o garoto Toby), apesar da pouca idade e participação, tem uma ótima atuação. Consegue cantar sem fazer cara de “decorei o texto, gravei no estúdio e agora estou dublando”. Considerando a carga dramática geral de seu papel e de seu último gesto no filme (que supera em muito à do casal adolescente), Sanders começou muito bem a carreira.

Alan Rickman, o juiz Turpin, dispensa comentários. Seja em grandes produções como Harry Potter (ele é o professor Snape) ou em filmes menores como Snow Cake, sua atuação é muito precisa e passa longe de trejeitos estereotipados.

Helena Bonham Carter também vai bem, mas nada que impressione. Apesar da cara de mais do mesmo, ela tem o toque certo de esquisitice que comumente cerca seus papéis no cinema. Sua melhor atuação continua sendo a Ari, de Planeta dos Macacos (lembra que Mark Wahlberg dá um beijo na macaca? É ela!).

Sacha Baron Cohen, o Borat, faz uma participação especial perfeita como um falso barbeiro que concorre com Todd vendendo um tônico para crescer cabelo. É engraçado e trágico na medida, durando o necessário.

Johnny Depp foi indicado ao Oscar de ator principal pelo papel, provavelmente pela dificuldade de interpretar um personagem antipático, vingativo, sem nenhum sentimento no coração ou brilho nos olhos que não o reflexo de suas navalhas. Entre romances, humores e relances, sua história é trágica do início ao fim e Depp se saiu bem nesse padrão diferente de psicopata, mas nada marcante. Depois de três Piratas do Caribe e cinco filmes de Tim Burton, fica a pergunta se não é hora de um novo Donnie Brasco ou O último portal para variar o currículo.

Resumo da ópera (ou do musical no caso): Sweeney Todd é muito mais um filme da equipe do que do diretor. Seu toque especial está na imensa equipe de figurinistas, iluminadores, diretores de fotografia e outras funções técnicas que acompanha o diretor e que no filme roubam a cena. Tim Burton mostrou pouco de sua engenhosidade peculiar e errou ao se prender demais ao roteiro de John Logan. Para efeito de comparação, ele é roteirista de oscarizáveis como O Aviador e Gladiator e de bombas como Morcegos, Star Trek: Nemesis e O último Samurai.

Com orçamento em torno de US$50 milhões, falta pouco para Sweeney Todd ultrapassar a marca de US$100 milhões que define um blockbuster, feito corriqueiro para Tim Burton desde os tempos de Batman.

Sweeney Todd

Onde os fracos não têm vez, dos irmãos Coen, vem recebendo prêmios e elogios da crítica por onde passa. Seu público fiel (que aumentou na época de Fargo) também aprovou a película e já a aponta como obra-prima dos irmãos diretores, que de quebra ainda concorre a oito Oscars. A divulgação, entretanto, está causando certa confusão na cabeça dos espectadores, levando a caras de interrogação menos por prazer e mais por falta de entendimento. Se é verdade que o filme atualiza o gênero western? Sem dúvida. Se o espectador verá perseguições típicas de xerife e bandido? Na medida. Se o que vale no final é a lei prevalecer e o cavalo sumir no horizonte deixando um rastro de poeira? Nem pensar.

Você já ouviu falar de bardos, provavelmente. Prosadores que transmitiam histórias antigas ou atuais por onde passavam. Os fatos reais ganhavam sabor especial em suas rodas de cantigas. Um homem em fuga podia saltar um rio, um cavaleiro falar com animais, um assassino andar invisível pelas cidades. Real e imaginário viviam ali, bem na fronteira, valendo muito mais a boa história do que a fidelidade aos fatos. O Western tem muito a ver com isso. E isso vale para mocinhos e bandidos. Antes do rosto, havia a fama. As histórias sobre um pistoleiro sempre chegam primeiro à cidade que ele está indo saquear. A fama de um xerife durão serve para afastar encrenqueiros, mesmo que o xerife não levante da cadeira de balanço. E tem o homem que chega a cavalo. Não importa seu nome, ninguém sabe quem ele é. Mas ali na rua barrenta, com a roupa que veste e o olhar de esguelha que lança para o dono da funerária, o novo caubói ganha o respeito dos que estão ao seu redor.

Onde os fracos não têm vezOnde os fracos não têm vez é um filme sobre histórias, sobre os diferentes modos de contar uma história e o que aproveitamos de cada um deles. A que é contada de forma tradicional dentro do filme é a de um sujeito sortudo (nem tanto) que encontra no meio do deserto uma mala de dinheiro, fruto de uma negociação frustrada entre traficantes. Infelizmente os donos do dinheiro contratam um assassino mau que nem o pica-pau que cola na traseira dele para recuperar a grana, levando a momentos muito interessantes.

Há também as histórias faladas, a maioria delas através do xerife. Para começar há uma narrativa em off de Tommy Lee Jones sobre a evolução da violência . É uma história em que não vemos o personagem, não associamos a voz a um rosto, nem as palavras ao seu significado gráfico mais óbvio. O que temos é uma espécie de stimmung nos traços e cores de um belíssimo deserto. Mais tarde, já com rostos associados, ouvimos o que ele tem a contar para a noiva do fugitivo e para o assistente policial dele. A história sempre passa de uma fonte para a outra, como deve ser.

Ele pede à mulher que diga algo ao fugitivo, ele conta a ela a história que ouviu de alguém e que talvez não seja bem assim, ele fala para o assistente algo que acabou de ler no jornal, já processado e devidamente interpretado por ele. E há o final, depois de um corte brusco na narrativa tradicional da fuga/dinheiro, todo através de suas palavras. O que sobra não é o fato, mas o que se pode contar sobre ele.

Onde os fracos não têm vez (uma tradução inspirada de No country for old men) é também um filme sobre a construção de personagens (intimamente ligado ao ato de contar histórias), que entram e saem, aparecem e somem em cenas únicas, de conteúdo fechado, com pouco tempo para transmitir sua mensagem e compor algo maior no jogo de muitos gatos e ratos.
Para aproveitar a brincadeira, tenha em mente uma das máximas do cinema: um personagem é o que faz, o que fala e o que falam sobre ele. E isso fica mais claro nas partes que giram em torno do assassino.

Explico.

Na beira da estrada um policial acaba de prender um sujeito esquisito, com cabelo engraçado, carregando um tubo de oxigênio e uma mangueira. Há a interpretação dos fragmentos de imagem (lembra do caubói chegando a cavalo na cidade?) e não dá para entender na hora o que acontece. Na delegacia, o policial passa a sua opinião por telefone ao xerife. O que ele fala não condiz com o que vemos. O que você prejulgou no começo, o que o policial contou ao xerife e ao espectador e o que você vê com seus próprios olhos são coisas diferentes, num choque de interpretações. Outros personagens também falarão sobre o assassino, alguns contarão o que sabem do seu passado, o fugitivo passará sua impressão pelo que vive no presente e assim seguirá a corrente durante todo o filme, passando por mim, por você e por muitas pessoas com interrogações na testa ao fim da projeção.

A cereja do bolo? O humor negro irretocável dos dois bardos diretores.

A filmografia de Ethan e Joel Coen inclui Gosto de sangue, Arizona nunca mais, E aí, meu irmão, cadê você?, Matadores de velhinhas, Fargo, O homem que não estava lá (excelente) e A roda da fortuna, entre outros.

Teatro é pacto, é jogo. Ao sair de casa para assistir Entropia (no CCBB, até dia 16 de março), não esqueça esse preceito básico. O diretor Marcelo Mello concebeu com seu elenco exatamente isso: um jogo cerebral intenso e ágil, que convida sua platéia a manter-se presente, ativa, para acompanhar o raciocínio rápido e a ironia fina do texto de Rodrigo Nogueira. As palavras como moléculas que se agitam e se chocam, subindo a temperatura, liberando calor e energia.

do centro em sentido horário: Regina Melo, José de Brito, Miwa Yanagizawa, Marcello Melo, Alexandre Braga e Luisa Friese / Liliane Rovaris (de costas) - fotografia de Cláudia RibeiroTexto, a propósito, que facilmente poderia conduzir uma montagem às armadilhas do intelectualismo, da ação que se perde na idéia e que muitas vezes afunda o teatro. Vencido este desafio, a cena emerge vitoriosa e forte. Eis um bom exemplo de espetáculo que conquista este lugar, onde pode gerar inquietação, incômodo e reflexão na platéia que com ele pactua.

Não é um tema fácil de tratar. O conceito de entropia, mesmo, é pouco compreendido pela maioria das pessoas: a energia que não é acessível para o trabalho (entenda trabalho como um conceito físico de ação ou algo que o valha), que se dissipa e mistura-se ao universo, cresce em condições naturais e não pode ser controlada. Some-se a ele (o conceito), uma enorme quantidade de referências e mesmo citações filosóficas, literárias, humanistas, pós-modernistas, que vão de Guimarães Rosa a Virgínia Wolf, de Heiner Müller a Nietzsche, passando por Caroll.

O objetivo, juntando tudo isso, é a construção em ambiente controlado de uma cidade ideal por um grupo de sábios anônimos, e na construção o conflito dos anseios ideais – e a natural desordem do que não pode ser controlado. Entropia. Confuso? Não no espetáculo. Não em cada um dos seres-atores-personagens que lhes emprestam energia, movimento e pulsação.

O texto desenha as relações em uma narrativa não-linear, vai soltando pistas, um quebra-cabeças, diversão para as mentes, construindo devagar o espaço imaginário a partir dos seres ou os seres a partir do espaço (a inversão faz parte da diversão).

A direção de Mello conduziu com inteligência o elenco bem entrosado num bate-rebate verbal instigante. Mas jogo só de palavra em teatro perde-se em chatice sonora – por melhores que sejam as vozes – se não houver ator vivo. Aqui temos um grupo bem vivo de atores (Alexandre Braga, Diogo Salles, José Brito, Liliane Rovaris, Luisa Friese, Miwa Yanagizawa e Regina Melo), com clareza de desenho de cada personagem, com inteireza de corpo e emoção contidos na sutileza, mas definitivamente em ebulição (vale aqui, na sutileza, ressaltar o trabalho de preparação corporal de Duda Maia).

Há quebras no ritmo – principalmente quando emergem as narrativas literais das cidades imaginárias (aquelas ansiadas, terceira dimensão da cena) de Ítalo Calvino (As Cidades Invisíveis), Ferreira Gullar (Cidades Inventadas), Thomas Morus (Ilha de Utopia), Platão (Atlântida), Saramago (Ensaio sobre a Cegueira) e Garcia Márquez (Cem anos de Solidão). As cidades narradas surgem no ator e na projeção de vídeo – uma sobreposição de imagens, seqüência de logotipos, colcha de retalhos.

Miwa Yanagizawa, Regina Melo e Marcelo Melo - fotografia de Cláudia RibeiroNa primeira intervenção do vídeo há uma expectativa, que move a platéia em suas cadeiras. Mas a segunda, terceira, todas as seguintes se repetem e talvez dispersem mais do que ajudem nos cortes.

Há um momento em que o olhar desiste da seqüência vertigem de imagens e prefere o contato humano, o olho do ator que fala. E anseia pela seqüência do jogo que, talvez, se fosse num fôlego só, deixaria a platéia arrepiada, com gosto de “quero mais” e um certo vazio nas entranhas, com perguntas flutuando sonoramente na cabeça.

Vale ainda citar a cenografia de Sérgio Marimba e a luz de Renato Machado, recortadas, vazadas, modulares, que funcionam em harmonia, construídas como tabuleiro do imaginário sem dimensão, que aprisiona e liberta o jogo a cada instante de virada, em perfeito diálogo com a encenação.

Por tudo e para tudo, Entropia pode ser visto e degustado. Mas não esqueça: é jogo e pacto. E a platéia não está nem pode estar de fora.

Em tempo:
Entropia, Teatro III do CCBB (1º de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro. Tel. 3808-2020).
De quarta a domingo, 19h, até 16 de março.

CONGRESSO IBÉRO-AMERICANO DE EDUCAÇÃO ARTÍSTICA
(Nomeclatura oficial de Ensino de Arte, em Portugal, sede do evento)

22, 23 e 24 de maio de 2008

Local:
Escola Superior de Educação de Beja – Portugal

Datas Importantes:
- Submissão de proposta, resumo e CVs: 5 de Fevereiro de 2008
- Confirmação da aceitação da proposta até 5 de Março de 2008
- Inscrição no congresso: até 15 de Abril de 2008
- Envio dos textos completos: 5 de Abril de 2008

Instituições organizadoras:
- APECV: Associação de Professores de Expressão e Comunicação Visual;
- Instituto Politécnico de Beja: Escola Superior de Educação de Beja;
- Universidade de Évora: NECAA – Núcleo de Educação, Cultura e Artes Aplicadas.

Mais detalhes:
http://www.rede-educacao-artistica.org/ia_02_trans_temas.htm

01. Um Grammy (Spellemannsprisen), turnê bem-sucedida, sucesso de público de crítica. Candy Store foi um jeito de fechar um ciclo e comemorar os bons ventos? Já dá pra imaginar o próximo passo?

Até agora lançamos cinco discos e temos vivido de música e com a música por oito anos. Candy Store foi um jeito agradável de dizer que precisamos de, senão umas férias, pelo menos um ano de ensaios para que possamos preparar um disco que seja de alguma forma diferente dos anteriores. Chega um certo momento em que é fácil ficar cansado do seu próprio som, e nesse ponto faz sentido fazer uma coletânea, porque força você a olhar para frente. Espero que possamos surpreender um pouco os nossos fãs da próxima vez.

Minor Majority (press photo)

02. O que mudou musicalmente de “Walking Home” para “Candy Store”?

O grupo passou por várias mudanças ao longo dos anos. Mas creio que a composição das músicas conecta tudo isso. “Walking home from Nicole’s” foi uma espécie de álbum solo para mim. Eu toquei a maioria dos instrumentos e compus todas as músicas e arranjos. “If I Told You, You Were Beautiful” foi o álbum em dupla, no qual Jon (o guitarrista) me ajudou com os arranjos das músicas. Sua guitarra foi absolutamente essencial naquele álbum e, na minha opinião, foi sua melhor performance. No nosso terceiro álbum Jon e eu decidimos que precisávamos de uma banda para tocar nossas músicas do modo que gostaríamos de ouvi-las. E embora “Up For You & I” possa ser um pouco mais dramático e melancólico do que “Reasons to Hang Around”, eles são na essência dois álbuns baseados nas mesmas idéias musicais. Eu realmente não sei como vai ser o som do próximo, mas ele só será lançado quando estiver soando bom.

03. Vi que você está escrevendo artigos sobre música para um jornal e começou fazendo um apanhado geral da música mundial no ano de 2007. No mercado nórdico, quem são os nomes despontando no momento?

Eu gosto bastante de uma banda de rock chamada El Cuero. Eles têm essa mistura realmente interessante de Neil Young e The Band. E tem um novo cantor e compositor chamado Ingrid Olava, que faz músicas muito boas e tem uma voz à altura.

Minor Majority (press photo)

04. Internet é, sem dúvida, uma ferramenta importante para os fãs. Sites como Myspace, Youtube e o próprio site da banda facilitaram a vida do Minor Majority de algum modo, ou a tríade rádio/show/cd ainda está no papel principal?

Tanto Myspace quanto Youtube são ótimos sites para espalhar música. Adoro quando as pessoas colocam músicas de apresentações diferentes por toda a Europa. É como um álbum de foto, só que não é nosso. Mas embora a internet tenha se mostrado útil, ainda dependemos das rádios, turnês e vendas de cds.

05. Escolher as músicas da coletânea não deve ter sido trabalho fácil. Vocês têm músicas que são hits obrigatórios nos shows? Que na hora de montar o setlist vocês sabem que não pode faltar?

É difícil deixar de fora músicas como “She Gave Me Away”, “(In That) Premature Way”, ” Come Back To Me” e “Supergirl”, mesmo que estejamos um pouco cansados de tocá-las. E também tem as nossas próprias favoritas, como “Smile At Everyone” e “Think I’m Up For You & I”. Essas são músicas que tocamos em quase qualquer apresentação.

06. Se vocês tivessem que se apresentar para os fãs brasileiros, que música escolheriam?

“(Think I’m) Up For You & I”


Exclusive Interview with Minor Majority

Minor Majority (press photo)

01. One Spellemannsprisen, a successful tour, recognition from audiences and critics. Candy Store was a way to end a cycle and celebrate good winds? Can you imagine the next step already?

We’ve now released five albums and lived with and of music for eight years, Candy Store was a nice way of saying we need, if not a break, then at least a year in the rehearsal room so that we can do an album which is somehow different from the previous ones. At one point it’s really easy to get tired of your own sound, and at that point it makes sense to do a compilation, because it forces you to look ahead. Hopefully we’ll be able to surprise our fans a little the next time around.

02. What changed musically between “Walking Home” and Candy Store?

There has been quite a few changes in the band over the years. But I suppose the songwriting is binding it all together. “Walking home from Nicole’s” was sort of a solo-album for me. I played most of the instruments myself and made all the songs and arrangements. “If I Told You, You Were Beautiful” was the duo album, where Jon (the guitarist) helped out with arranging the songs. His guitar playing is absolutely essential on that album, and in my opinion his best performance ever. On our third album Jon and I decided that we needed a band to perform our songs as we wished to hear them. And although “Up For You & I” might be a bit more dramatic and melancholic than “Reasons To Hang Around” it’s in essence two albums based on the same musical ideas. I really don’t know what the next album will sound like, but it’s not to be put out before it sounds good.

03. I read in the website you are writing music articles for a newspaper and that you started by doing an overview of world music in the year of 2007. In the Nordic market, who are the rising stars?

I really like a rock’n'roll band called El Cuero, they have this really nice blend of Neil Young and the Band. And there’s a new singer songwriter called Ingrid Olava who makes really good songs, and who has the voice to go with it.

Minor Majority (press photo)

04. The Internet is certainly an important tool for fans. Sites like MySpace, YouTube and the band’s own Web site made Minor Majority’s life easier somehow, or is the radio/show/cd triad still in the main role?

Both Myspace and Youtube are great sites for spreading the music. I love it when people put out songs from different concerts all over Europe, it’s like a photo album, only it’s not just yours. But even though the internet has proven useful for us, we’re still dependant on airplay, touring and cd sales.

05. Choosing the music for the greatest hits was probably not easy work. Do you have some songs that are mandatory hits at the shows? The ones that when you sit down to prepare the setlist you know they must be included?

It’s hard to leave out songs like “She Gave Me Away”, “(In That) Premature Way”, “Come Back To Me” and “Supergirl”, even though we might be a bit tired of playing them ourselves. And then we have our own favourites like “Smile At Everyone” and “Think I’m Up For You & I”. These are songs we play at almost any gig.

06. If you had to present yourselves to Brazilian fans, which track would you pick?

“(Think I’m) Up For You & I”


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Espero rever, em 2008, numa temporada mais longa, o show Três Meninas do Brasil, o delicioso encontro entre as cantoras Jussara Silveira, Rita Ribeiro e Teresa Cristina, que no fim do ano passado rendeu apenas duas apresentações no Rio e outras duas em Brasília. Numa época em que os encontros da MPB, são cada vez menos marcantes e mais comerciais (vendem CD e DVD, mas acrescentam pouco à percepção do público, às carreiras dos artistas, ou às canções do repertório), esse show merece destaque, pois recupera e agrupa canções que levam a repensar a tradicional relação entre música popular e identidade cultural no Brasil. Esse tema, que me parece longe de estar bem resolvido em muitas de nossas produções culturais mais recentes, merece ser refletido à luz do que as três meninas cantaram, sob direção musical de Jaime Alem e artística de Jean Wyllys.

A música de Moraes Moreira e Fausto Nilo, que abre e dá título ao show, é o ponto de partida para a reflexão. A canção “Meninas do Brasil” (1980), desde o seu título não deixa de, com algum gracejo, fazer contraponto ao romance Meninos do Brasil (1976), de Ira Levin, que virou filme em 1979. O livro alude ficcionalmente ao médico nazista Josef Mengele, que, após o fm da Guerra, teria se escondido entre os trópicos para dar continuidade a suas experiências genéticas e produzir os tais meninos bem de acordo com os princípios da eugenia nazista. A canção, sem deixar de recorrer aos clichês do nacionalismo, faz o contraponto político tanto com a inversão do gênero, meninos viram meninas (“mulher brasileira em primeiro lugar”, já cantava Benito di Paula), quanto com a insistência na utópica democracia racial:

Três meninas do Brasil, três corações democratas
Têm moderna arquitetura ou simpatia mulata
Como cinco fosse um trio, como um traço um fino fio
No espaço seresteiro da elétrica cultura
Deus me faça brasileiro, criador e criatura
Um documento da raça pela graça da mistura
Do meu corpo em movimento, as três graças do Brasil
Têm a cor da formosura

Essa concepção de identidade orienta o show e se explicita já no cenário: ao fundo três flores amorosas, obviamente remetendo à delicadeza das meninas, e sobre o palco um mosaico de pétalas de crepom que desenham a bandeira do Brasil, cujas cores vão se misturando na medida as cantoras dançam e passeiam sobre ela, enquanto alternam belíssimos trios, duetos e solos. Mas a idéia se manifesta principalmente no repertório que, de referenciais múltiplos, vai do bolero ao forró, passando pelo samba e pela “tecnomacumba”; de “Ludo Real” de Chico Buarque e Vinícius Cantuária a “Impossível acreditar que perdi você”, de Márcio Greyck, passando por “Isso aqui tá bom demais”, de Dominguinhos, “Poxa”, de Gilson de Souza, ou “Minha tribo sou eu”, de Zeca Baleiro. Enfim, procurando abarcar várias faces da música brasileira, o show quer ser macunaímico, ou seja, produzir unidade a partir da diversidade.

É sobre essa concepção de identidade, talvez no que ela possa ter de ingênua ou inatual, que se deve repensar a música brasileira. Nos dias de hoje, em que os discursos identitários estão mais intolerantes do que nunca (e às vezes neonazistas) e pretendem ou realçar a diferença, ou simplesmente tirar algum lucro da condição marginal ou periférica, uma proposta como a das três meninas é Pharmakon, veneno e remédio, que devemos provar.

Depois de ouvir Caetano Veloso, em canção recente (“O herói”, Cê, 2006), explicitar as contradições da heroicização do discurso rancoroso (o que mereceria reflexão em outro texto), ou assistir à “turma do deixa disso” promovendo duetos entre sambistas e rappers, há que se chamar atenção para um dos pontos mais altos do show Três meninas do Brasil. Refiro-me ao momento em que Tereza Cristina recupera, também de Caetano Veloso, “Nu com minha música”. Segue-se um trecho:

Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor
Vertigem visionária que não carece de seguidor
Nu com a minha música, afora isso somente amor
Vislumbro certas coisas de onde estou

Há nessa escolha responsabilidade e compromisso, indicação de que o cantor, ao trazer na voz a flor amorosa das três raças (nem tão tristes quanto queria Bilac), ou ao gravar na superfície das mídias releituras de nossa aquarela, não pode prescindir dessa difícil lição: vislumbrar certas coisas que não estão necessariamente nem centro nem na periferia, nem na casa grande nem na favela, nem no condomínio fechado nem na senzala, mas que são fundamentais para se produzir algum entendimento do Brasil, e para as quais vai se tornando coragem grande poder dizer sim, como quer a canção.

E já que estamos em Caetano, termino com mais um de seus versos: em 2008, o show Três meninas do Brasil é “para lançar depois do carnaval”.

Difícil sair do cinema falando “uau” que filmão, ainda assim Eu sou a lenda é muito superior aos blockbusters habituais. Ele possui os ingredientes típicos de um filme-pipoca – explosões, correria, adrenalina – mas usa tudo de maneira dosada, sem em nenhum momento diminuir o peso da história e dos personagens. Vamos destrinchá-lo.

A história é a seguinte: uma cientista descobriu a cura do câncer. Ela modificou geneticamente um vírus (sarampo, eu acho) e o distribuiu nos pacientes, o bom e velho teste em humanos que costuma acontecer só após testes em cobaias.

Alguns anos depois, as pessoas curadas começaram a apresentar sintomas estranhos parecidos com o da raiva (entenda: morder os desavisados). Lá pelas tantas ficamos sabendo que o vírus transformou os curados em zumbis canibais super fortes e rápidos que saíram comendo todo mundo que viam pela frente. Isso leva o governo americano a isolar Nova Iorque e colocar a população em quarentena. Correria pra lá e pra cá, o Coronel Robert Neville (Will Smith) fica na cidade para descobrir a cura, já que lá é o ponto zero. O vírus se espalha e, conseqüência, fim da humanidade. Resta só Neville e sua cachorra Sam.

Eu sou a lenda (poster)O diretor Francis Lawrence só tem um longa-metragem no currículo: a adaptação / deformação do HQ Constantine. Na época, Lawrence mostrou que estava disposto a fugir de clichês e que tinha uma habilidade extra para trabalhar a iluminação inserindo-a na linguagem. Eu sou a lenda segue a fórmula, no bom sentido, e demonstra o aprimoramento do estilo do diretor. Sustentar um filme de 1h40 com apenas um ator, um cachorro e um punhado de efeitos especiais não é fácil. Como você cria o clima? Como desperta os sentimentos necessários em quem assiste? Bom momento para lembrar que além de ator existe roteirista, diretor e uma equipe imensa por trás de cada cena.

A primeira parte do filme é angustiante. Nova Iorque vazia, a vegetação dominando as ruas e prédios envoltos por plásticos (da quarentena fracassada). É um pacote de medos comuns da humanidade. A solidão é o maior deles. Se a solidão em casa, no trabalho, no colégio já sufoca, imagine olhar para o mundo e saber que não há mais ninguém. Ninguém. Outro medo é a extinção, o vírus letal. De tempos em tempos vírus surgem, geralmente em áreas rurais após se reproduzirem em algum animal, e matam. Ponto final. Não há cura, não há tempo de nosso sistema imunológico se defender. O vírus da vez no mundo real é o HN51. O vírus de Eu sou a lenda, para piorar, coloca em nossas mãos a responsabilidade de sua virulência. Faz isso transformando um sonho (cura de doenças agressivas) em pesadelo. Ele não mata, mas transforma homens supostamente civilizados em bestas movidas a instintos (a melhora do físico em troca do intelecto), lembra que somos capazes de matar uns aos outros, de destruir o que houver pela frente sem pensar. Por fim, lá está o planeta, de pé. Morremos nós, egoístas que nos achamos donos de tudo, fica ele inteiro para os que virão (e vieram logo os zumbis, não tem jeito).

Isso tudo é muito bem trabalhado por Lawrence e Will Smith, que passeia de carro pela cidade vazia, invade casas e apartamentos em busca de remédios e cds, assiste o noticiário gravado de dias anteriores. Seu personagem em nenhum momento grita, sua voz não ecoa no vazio externo, só no interno. Ele não olha para o alto atrás de respostas, sabe que ela está lá no seu laboratório, escondida em algum lugar, e ele precisa se manter de pé até encontrar. Uma das cenas mais interessantes é Smith indo à locadora alugar dvds. A locadora está cheia de manequins que ele colocou por lá com roupa e tudo. Ele entra, conversa com o atendente, flerta com um ou outro e sai. E assim segue a rotina. De noite, se tranca em casa e ouve os sons dos zumbis zanzando pela cidade.

Apresentada a situação, o cenário e os personagens, é hora de dar um passo adiante. Em um belo dia de caça, Sam (a cachorra) segue um animal e entra em um prédio escuro. Smith vai resgatá-la e somos apresentados aos antagonistas. É aí que o talento de Lawrence ao trabalhar a escuridão fica mais evidente. O que não vemos é muito assustador. É um bloco de forte suspense. Na cabeça, só temos os sons que Neville ouve ao tentar dormir e a imaginação voa longe. É claro que o zumbi em si não assusta mais ninguém, o que assusta é a idéia, o símbolo do fracasso, o inimigo que pode derrotar a última esperança (comendo-a viva). A angústia da solidão é substituída pela frustração da iminência do fracasso. O segundo ato do filme é movido por esse mesmo suspense, pelo antagonista presente ou não em cena, e tem seus bons momentos, mas já não é tão eficiente quanto o início.

Como a Alice Braga trabalha no filme, todo mundo sabe que Neville não é o único sobrevivente. A sua personagem, Anna, entra na história de forma muito obscura, salvando Neville de uma situação extremamente delicada que nem roteirista nem diretor explicam. Ela lança luz, literalmente, na vida de Neville, trazendo esperança para o personagem e renovando o fôlego do espectador. Nesse ponto, não há mais surpresas, não há nada que o roteiro possa fazer para avançar a trama. Resta o artifício das explosões e correrias que assumidamente servem só para ocupar espaço e conduzir o filme ao seu final. Você nem imagina qual seja, não é?

Em tempo 1: será que não podemos ter como efeito colateral virar vegetarianos e sair atacando chuchus e abobrinhas na feira? Por que tem que ser sempre o zumbi canibal?

Em tempo 2: por que bestas assassinas nunca atacam umas as outras?

Em tempo 3: Eu sou a lenda teve o orçamento estimado em US$150 milhões. Até agora, arrecadou US$515 milhões e deve seguir firme como a maior bilheteria da temporada.

No sábado, 26 de janeiro, houve várias aberturas de exposição, todas perto umas das outras, no centro histórico do Rio de Janeiro.

Fui. Quem sabe alguma novidade me entusiasmava.

Tinha feito o Tatsumi Orimoto há pouco em São Paulo e, quando comecei a entender o que via como dificuldades de auto-retrato, pensei: bem, ainda não me desliguei do Orimoto e de seus pães à guisa de rosto.

Pode ser.

Mas sou chegada a uma grande teoria e também pode ser – prefiro eu – que o que eu via fosse uma pequena amostragem de um momento mais amplo, o da identidade incerta em épocas de mudança de paradigmas. Não vou tão longe e englobar a humanidade inteira, está bem, metade, a do ocidente, ok, apenas a sua manifestação na arte, nem toda, a visual, bem, é melhor eu ficar com a daqui mesmo, sendo que vou ter dificuldade em definir esse “aqui”.

Mas que se não é isso é uma baita coincidência, lá isso é.
Marcus Abreu

Marcus Abreu, galeria Durexx: em Sobeátic, ele cobre com látex uma fotografia de uma sala antiga onde há uma fotografia na parede. Com o látex, o que era indistinto o fica mais ainda. Salvo o rosto do retrato da parede, nítido, e que corresponde a um buraco em branco, igualmente nítido e do mesmo tamanho, ao lado. Qual dos dois é o registro da memória?

Ainda na Durexx, uma das obras mais bonitas de todo o dia: Claudia Melli trabalha com uma caneta de nanquim branco em cima de um vidro de um azul escuro, quase preto. São umas poucas linhas, e ela constrói uma vastidão vazia, de uma noite que não acaba.

Sonia Távora

Sonia Távora, galeria Transverso: seu site specific Do outro lado transforma as linhas verticais de uma grade externa da galeria em uma grade de prisão, uma passagem impedida, que é onde ela coloca sua individualidade em forma de versos escritos de forma frágil, imperfeita, à mão.

Cleone Augusta

Cleone Augusto, também na galeria Transverso, faz formas mais ou menos humanas, de barro. Não pára de fazer, sua obra está perenemente em processo. As figuras são quase todas do mesmo tamanho. Me fez lembrar uma teoria de Darwin que diz: em uma dada população animal os sobreviventes serão sempre os do meio, nem os maiores nem os menores, serão sempre os que não se distinguem.

Fabiano Gonper

Fabiano Gonper, artista da Gentil Carioca: seu desenho, que deve um quê ao holandês Escher, é o desenho de uma mão que pega e modifica o que está desenhado. Chama-se O manipulador e poderia se referir a qualquer um de nós, que nos arrumamos, cara inclusive, para sair.

Simone Michelin

Simone Michelin, também da Gentil, fez parecido com Marcus Abreu, mas sem o pathos tão instigante dele. Sua foto da movimentada 25 de Março, em São Paulo, traz as personagens, tanto as “reais” quanto as representadas nas capas de uma banca de revistas, com os rostos substituídos por ovais em branco.

Guga Ferraz

Ainda na Gentil, uma idéia banal, a do chocolate em formato de revólver, de Guga Ferraz em sua obra Chocolate Suíço. Uma referência, talvez, à banca internacional, cúmplice e beneficiária de um dinheiro, o do tráfico, que é combatido com a outra mão do poder. Mas mesmo com este entendimento a obra fica fácil, um pouco para o lado do panfleto e me faz pensar na dificuldade em estabelecer uma identidade de contestação para os que são jovens hoje.

Edmilson Nunes, no Paço Imperial da Praça XV, volta a apresentar sua visão irônica e dolorida da Igreja Católica com a instalação Assim na terra como no céu. Ao lado, um auto-retrato. Seria um auto-retrato comum, óleo sobre tela, se ele não tivesse posto chumaços de tule preto em toda sua superfície. A imagem se anula, se distancia, fica borrada. Ele usa a mesma técnica em uma grande tela, dessas que ornamentam salas de jantar simples, não sofisticadas. A tela fica mais longe, mais borrada e, por causa disso mesmo, muito mais vívida e eficaz no que ela representa: a distância tão grande que há entre nós e a vida simples e nítida da qual tais telas são ícone.

Carlos Contente, também no Paço, desenha as paredes. Sua exposição se chama Auto-retratos também. Os rostos de seus personagens são feitos com um carimbo, todos iguais. Há um em que ele põe em destaque, separada, a figura principal de uma representação de um jantar formal, e a identifica: “fulano de tal”. Esse o nome do não-indivíduo.

No Paço ainda, a coleção de Márcio Rebello, reunindo cem auto-retratos de artistas brasileiros (Tunga, Daniel Senise, Waltércio Caldas – que aliás estava presente nas vernissages vizinhas – Siron Franco e muitos outros). Eu sei, apenas uma coincidência.

João Penoni, no Largo das Artes, põe em seu vídeo sua própria figura de costas sobreposto a paisagens que passam em ritmo acelerado. Pensei na definição de transgressão, que é quando algo que excede consegue ser visto/vivido como uma possibilidade de inclusão. A transgressão o é sempre em relação a fronteiras impostas. O agente dessa ação possível, contudo, não é identificado na obra de Penoni, e o que é aí incluído é uma paisagem sem a ação humana: praias desertas, montanhas solitárias. Uma transgressão sem testemunhos, a bem dizer, não resultante.

Glaucia Mayer

Glaucia Mayer, também no Largo, é outra que integra sua figura na obra. Aqui em carne e osso mesmo. Mas fantasiada, na verdade mais uma personagem do que uma pessoa. E seu feminino, de um cor de rosa artificial no tom e na textura, me remeteu à artificialidade de uma não-individualidade, de algo feito em série, em moldes. Mais uma dificuldade de individualização.

Só para fechar os comentários sobre o Largo, NGDG (sigla de dois artistas parceiros: Nadam Guerra e Domingos Guimaraens) faz a velha brincadeira de espelhos com o fruidor à frente: você se vê cortado, de cabeça para baixo, no lugar da “obra”. Acho que já vi bem uns 20 espelhos desses nos últimos tempos. Em frente aos espelhos, Bruno Miguel planta umas plantinhas no chão da galeria, também em um registro batido, de cunho ecológico. Mas, ao lado, Bianca Tomaselli consegue uma pequena obra-prima com seu Desenho parasita: uma superfície azulejada onde com uma makita (ferramenta de pedreiros), ela fere uma fileira de azulejos, quebrando assim a construção geométrica anterior. A personificação dos azulejos machucados, o sulco que se transfere da superfície espelhada para quem está em frente e o cunho de intimidade e de cotidiano de uma parede de azulejos brancos, eis alguns dos componentes de uma obra de surpreendente eficácia.

Ivens Machado

E no Paço, uma sala de Ivens Machado com suas Acumulações. Fiz um texto sobre uma exposição dele na Mercedes Viegas, em 2005. Eram uns sacos de entulho. Também um acúmulo. Mas depois do texto pronto e publicado me deu um estalo: aquilo eram sacos sexualizados. Masculino a mais não poder, Ivens me pareceu, então, ter representado o saco cheio de um homem de saco cheio. Não consegui me livrar dessa lembrança e vi as obras do Paço também sexualizadas. Seus paus de ponta afiadas, dezenas dele, presos frouxamente e apontando para você.

Bem. Coisas da cabeça de quem vê. Pode não ser nada disso. E pode ser que todos nós, artistas e visitantes, saibamos muito bem quem somos.

Mas eu duvido.

OFICINA
O TREINAMENTO
E A ARTE DO ATOR

COORDENAÇÃO
Marilena Bibas

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INTERPRETAÇÃO – CORPO – VOZ

Interpretação – O Ator Criador

Técnicas Corporais – Ampliação da presença do ator – Ações Físicas

Técnicas Vocais – Trabalho sobre os ressonadores do corpo – Ações Vocais

Energia e Ação

Estudos de textos fundamentais de Brook, Grotowski e Barba

Dramaturgia do ator

Processo de criação do personagem

Montagem

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HORÁRIO

Terças e Quintas – 15:00 às 18:00 h

INÍCIO

12 de Fevereiro

INSCRIÇÕES NO LOCAL

Rua Conde de Irajá, 90 – Botafogo (Próximo ao Cobal) – Rio de Janeiro/RJ

2ª. a 6ª. de 11:00 às 18:00 H – (com Vânia)

Telefone: (21) 2539-7909

MAIS INFORMAÇÕES

Tels (21) 2537-5782 e (21) 9214-5099

PÚBLICO

Atores Profissionais e Estudantes de Teatro

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MARILENA BIBAS é Atriz, Diretora e Preparadora de Atores. Dirige o grupo OMAMË TEATRO desde 1994, com o qual já montou 13 espetáculos. Estudou no Centro di Scienze Teatrale Applicate, Teatro Porlach, Itália e participou do International School of Theatre Anthropology – ISTA, dirigida por Eugenio Barba. Recebeu bolsa de pesquisa da Rockefeller Foundation, Bellagio Center, dentro do projeto Sine Die com a artista plástica Anna Maria Maiolino e bolsa de estudos do Istituto Italiano di Cultura e Centro Ateneo Università di Roma para participação no Seminario Internazionale sulle Tecniche di Lavoro dell’ Attore em Fara Sabina e Trento, Itália. Foi professora do curso de formação da CAL Casa das Artes de Laranjeiras, durante 14 anos, nas cadeiras de Interpretação e Técnicas Corporais. Orientou cursos e oficinas no Centro Laban, Faculdades Estácio de Sá, Centro Coreográfico do Rio de Janeiro, Café Cultural. Atualmente faz parte do corpo docente da GET Escola de Formação de Atores em Linguagem de Televisão e dirige o LAC Laboratório do Ator Contemporâneo, onde recebe pessoas para treinamento avançado em Técnicas Teatrais. Como atriz, além dos trabalhos com o OMAMË TEATRO, se apresentou em espetáculos dirigidos por Jocy de Oliveira (Brasil e Alemanha), Pino di Buduo (Itália), Luigi Cinque (Itália), Aderbal Freire Filho, Antonio Amâncio, Regina Miranda (Cia. Atores-Bailarinos), Celina Sodré e Amir Haddad (com quem trabalhou por oito anos no Grupo Ta na Rua, do qual é co-fundadora). No momento Marilena Bibas apresenta o espetáculo Solo VOZES DE MULHERES (Premio Funarte Myriam Muniz) com direção teatral de Ivan Tanteri (Itália).

Meu nome não é Johnny é o mais novo filme da série “o tráfico vai ao cinema”, forte concorrente no mercado brasileiro com a linha “pó de barro” que também norteia nossa produção. Dessa vez, o ponto de vista abordado é o do sujeito gente boa, que trafica assim, só por diversão, para abastecer os amigos e animar as festinhas. Sempre bom lembrar, o filme é baseado em um livro, que é baseado em uma história real, a do João Guilherme, que não, não se chama Johnny.

Meu nome não é JohnnyEsse caminho dos fatos, da vida real até o cinema, impõe uma linearidade desnecessária ao filme, o que gera algumas barrigas, mas no geral o resultado é positivo. Se no começo parece apenas uma versão cômica de Alphadog, no decorrer “Johnny” ganha personalidade e mostra a que veio, jogando fora todo falso moralismo que poderia torná-lo descartável.

A história você já conhece dos jornais, mas vou resumi-la mesmo assim, fingindo que é novidade.

João Guilherme (ou qualquer outro nome, só não vale Johnny) era um garoto típico da zona sul do Rio. Tinha tudo o que queria, menino popular, vivia em festinhas, cercado de amigos, família praticamente estável (com pais separados, é verdade). Um dia, como os colegas se recusam a ir comprar drogas por inúmeros motivos, ele vai, descolado como só o Selton Mello (O cheiro do ralo, Lavoura Arcaica) sabe ser. Como João não tem o dinheiro na hora, entra no velho esquema de compra. O traficante passa a mercadoria adiantada e marca um dia para receber o pagamento. Como a grana aparece, João ganha a confiança do traficante e passa a ser não só consumidor como vendedor. Ponte direta.

O tráfico é uma empreitada que mata muitos e dá dinheiro para poucos. Por sorte (dele), João cai no segundo grupo. João vira o conhecido da galera, amigo de todo mundo que cheira cocaína. “A noite do Rio não termina sem o meu telefone tocar umas vinte vezes”, diz mais ou menos o personagem.

João Guilherme não é exatamente um empresário, mas segue carreira, chegando ao tráfico internacional. Por vender bem, chama atenção de fornecedores poderosos que passam a procurar João. O mesmo acontece com a polícia corrupta (aliás, personagens hilários), com a concorrência e com a polícia federal.

A ascensão e queda do simpático personagem é toda retratada no filme, com direito a julgamento, cadeia, manicômio e muitos obstáculos, porque não existe volta por cima sem eles. A parte da cadeia, inclusive, é um dos melhores momentos do filme, com ponta de ótimos atores e estoque de piadas renovado.

Além do Brasil, o filme se passa na Itália e Espanha, gerando um monte de cenas que não agregam nada muito novo, mas são importantes para balizar a noção de sucesso que o espectador terá do personagem.

Como dito, o saldo geral é positivo. A direção de Mauro Lima (de Tainá 2) é acertada, direcionando o filme ao público certo e arrancando dos atores o tom de humor necessário, sem esvaziar a parte dramática, mais acentuada na segunda metade da história.

Cássia Kiss faz uma ponta fundamental, como a juíza que conduziu o caso de Johnny/João Guilherme e sua atuação dispensa comentários. É dela, a personagem, a frase mais marcante de toda a projeção: O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos.

Valeria também para o cinema?

Em tempo: o filme custou R$5,5 milhões.

Meu nome não é Johnny - Selton Mello e Eva Todor Meu nome não é Johnny - Cleo Pires e Selton Mello Meu nome não é Johnny - Mauro Lima

Recado do fotógrafo Felix Richter:

“Prezados amigos,
Na próxima terça-feira – 22.1.2008 – estou lançando o livro “Lições de um Brasil Selvagem” – com exposição de fotografias – na Galeria Tempo.
Ficaria feliz com a presença de todos,
Abraços
Felix”

Infelizmente não poderei ir ao Rio para o lançamento mas fica aqui a dica. O Felix é um fotógrafo incrível e eu espero de todo coração que o livro dele seja um absoluto sucesso.

Parabéns, Felix!

convite para o lançamento de Lições de um Brasil Selvagem, de Felix Richter.

A Tempo fica na Av. Atlântica, 1782 loja E, tel (21) 2255-4586.

A reverência ao canônico às vezes impede o bom-humor com que alguns famosos devem ser vistos. Nem vou falar de Shakespeare. Mas Kafka era um humorista. E Rembrandt tinha, em relação ao Renascimento italiano do qual era herdeiro, uma ironia mordaz.

Tatsumi Orimoto, o retratista do homem-pão, me lembra Rembrandt.

Oh!

E agora, passada a reação ao que parece ser um ataque ao sagrado, uns pensamentos.

Tatsumi Orimoto, retrospectiva no MASP

O primeiro é sobre o retratismo, isto é, reproduzir o rosto de alguém em alguma mídia. Só aí as perguntas são três: 1) qual é a persona que o modelo usa ao posar ou ao ser surpreendido (nunca o é, na verdade), isto é, o que ele quer deixar aparente no seu rosto e o que ele se esforça para esconder; 2) qual é o balanceamento que o artista faz entre suas descobertas estéticas pessoais e o que ele acha que o retratado/mundo espera dele; 3) qual é a leitura que o fruidor, terceiro componente desse imbroglio, faz dessas duas primeiras ficções – a da cara que o retratado apresenta e a da cara que o artista irá oferecer a partir da cara que lhe está sendo oferecida. E, a quarta não é bem uma pergunta, só um aviso: o jogo de desejos e acervos dos três envolvidos é modificado continuamente a partir das circunstâncias, sempre imponderáveis, do momento do encontro.

O segundo pensamento é: que saco, eu só queria fazer/ver um retrato. É possível? Mais ou menos. Você vai continuar vendo/fazendo todas essas camadas de mentiras, mas estará sabendo disso. Rembrandt mostrou isso para você cem vezes em cem auto-retratos. E Tatsumi Orimoto outras cem.

Talvez não sejam cem as vezes em que Orimoto montou sua performance do homem-pão ou tenha fotografado sua mãe em cenários dos mais íntimos aos mais públicos. Deve ter sido mais.

Como diz Beú, o pesadelo do homem-pão é a torradeira. O pesadelo de Orimoto é fritar-se na superexposição. Ele é bom – embora não original – mas se repete. Como Rembrandt ainda aí, na repetição.

Uma das obras na exposição retrospectiva do MASP é a Pull to ear, japanese. É de 1983 e uma das menos citadas pelo marketing que cerca o artista. São perfis onde etiquetas de metal presas nas orelhas dos modelos dão opções de definição ao fruidor: latin, chinese, polish (nacionalidades); governor, editor, waitress (profissões); black, brown, purple (cores). Assim, quem vê pode montar como quiser a definição do que está vendo. Outra é a Passport photobox, uma série infinita de fotos no tamanho 4 x 6, do artista e sua mãe olhando para a câmera. Não são iguais. Qual a “melhor”?

(Não tive permissão de fotografar a exposição, daí não mostrar as imagens aqui.)

Ao pôr pães, um ítem universalmente consumível, no lugar da cara dos seus retratados, Orimoto denuncia a impossibilidade ou inutilidade de oferecer uma cara com nariz, boca e olhos feita por alguém com nariz, boca e olhos para ser consumida por outro alguém com nariz, boca e olhos – sendo que todos esses narizes, bocas e olhos não existem.

Ao retratar sua mãe com alzheimer, Orimoto busca livrar-se pelo menos da primeira mentira, a da persona imposta pelo retratado: a mãe não tem persona, é ela mesma, embora, justamente, não seja mais ela, a pessoa que foi, antes da doença.

Ao usar fotos e vídeos como registro de performances, Orimoto busca livrar-se da segunda mentira, a do compromisso que todo artista faz entre ele mesmo e as expectativas que se têm dele. Orimoto monta uma performance efêmera e a documenta, ou seja, a mantém viva através de uma máquina (fotográfica ou de filmagem) com intuito objetivo, jornalístico por assim dizer, onde sua participação autoral é diminuída.

Ao ter como estratégia o choque das culturas (performances de o homem-pão em países árabes, da mãe velha e japonesa na Turquia), Orimoto busca livrar-se da terceira mentira: seu fruidor não poderá lançar mão de seu acervo cultural para enquadrar o que vê, e mesmo seus desejos terão dificuldade em se impôr, frente ao inusitado da cena.

Rembrandt

Rembrandt se auto-retratou com chapéus ridículos, fazendo caretas, se fingindo de louco. Ele caçoou ou, para usar um termo mais chique, desconstruiu, o acervo cultural do retratismo renascentista italiano do qual era herdeiro. Como modelo de si mesmo, a persona escolhida por Rembrandt para se mostrar ao mundo não era pomposa ou socialmente agradável. E, ao deixar claro, na tela, o caminho do seu gesto, a textura da tinta usada, ele avisava ao fruidor que existia alguém que tinha feito aquilo com gestos e tintas, ele punha a superfície bidimensional do objeto em questão às claras, sem ilusão. Jean Genet gostava muito de Rembrandt e escreveu, em um artigo para a L´Express: “seu olhar não é de um outro: é o meu que eu reencontro num espelho, inadvertidamente, e na solidão e esquecimento de mim”. Quase um alzheimer.

A Bússola Dourada é uma tentativa fracassada de adaptar o romance de Philip Pullman para o cinema. Enquanto a trilogia de Senhor dos Anéis e o talento de Peter Jackson perdurar na memória dos cinéfilos, fracassos como esse parecerão ainda maiores para os fãs de fantasia. The Golden Compass, no original, é um festival de erros. O primeiro deles, minimizar o ataque direto ao catolicismo existente nos livros de Pullman. Fora a escolha do elenco e um visual caprichado (explorado em demasia), o filme não possui nenhum atrativo.

A Bússola DouradaIsso quer dizer que o elenco vale o ingresso? Não. Quer dizer que se você gosta de Nicole Kidman alugue Dogville. Se curte Daniel Craig e Eva Green reveja 007. Os três atores fazem pequenas pontas. Nicole Kidman está mais plástica do que nunca e Eva Green por pouco não entra muda e sai calada. O filme é todo centrado na menina, Lyra Belacqua (Dakota Blue Richard), que aparece bem pequena em cima de um urso no cartaz.

Então é um filme infantil? That’s the point. A trilogia de Pullman é conhecida por sua complexidade. Aborda um universo paralelo onde não existe religião. As pessoas não têm almas em seus corpos. Esses espíritos ficam do lado de fora na forma de animais diversos, os dimons, como uma companhia constante (deamons é uma palavra antiga para espírito que a igreja corrompeu para criar o termo demônio). Nesse mundo de pessoas e espíritos livres existe o Magistério, uma espécie de governo que prega dogmas dizendo o que as pessoas devem ou não fazer, no melhor estilo verdade absoluta. Alguns, entretanto, não seguem as ordens. E aí há uma influência do pó (dust). Pó? Magistério? Mas e a Bússola? Explico. Os ancestrais desse mundo de ciência muito peculiar criaram objetos que só dizem a verdade. Os tais objetos eram as Bússolas Douradas. Como ditaduras sempre vão contra verdades, as bússolas foram destruídas e sobrou apenas uma, guardada em uma universidade.

Como há uma profecia que diz que uma criança conseguirá entender a bússola (só com profecia mesmo, porque o brinquedinho é complicado), um grupo misterioso chamado Gobblers começa a seqüestrar as crianças. Um pouco mais e descobrimos que a Lyra é a criança que sabe ler a bússola, artifício ótimo para o diretor e roteirista Chris Weitz sair explicando o filme inteiro em cada olhadela que sua personagem dá no brinquedo dourado.

É mais ou menos assim: Lord Asriel (Daniel Craig) caminha na neve com seu dimon e fala para ele “Temos que tomar cuidado, Marisa Coulter colocou todos os assassinos da região para nos caçar”. Um segundo depois você ouve o primeiro tiro e começa a perseguição. Lyra dá uma espiada na bússola, aparece a imagem desfocada do urso guerreiro. Ela fecha com cara de assustada e conta a história inteira do urso. E assim segue até o fim.

Adaptar literatura para o cinema não é fácil. São linguagens totalmente diferentes, uma expressa em palavras a outra em imagens. A bússola dourada recai em um erro clássico ao fazer das imagens fundo de tela e usar diálogos enfadonhos para explicar a trama.

Tão ruim quanto o roteiro é a edição final do filme. Feita de pedaços que não se encaixam harmoniosamente, a história faz os personagens saltarem de um canto para o outro, as cenas de ação acontecerem do nada, pessoas sumirem e aparecerem conforme a vontade do diretor.

Ao ceder às pressões dos estúdios e esvaziar a trama de Pullman na tentativa de fazer um filme infantil acessível para todos, Chris Weitz conseguiu afastar o maior público interessado. Vazio e sem graça, só a igreja mesmo para achá-lo reacionário.

Em tempo 1. O filme custou a bagatela de US$180 milhões. Quando fez apenas US$67 milhões nos Estados Unidos, a crítica declarou o fim precoce da trilogia. Por sorte, A bússola dourada vem se recuperando no mercado internacional e já arrecadou US$300 milhões, pagando pelo menos o custo do filme (não sei quanto foi gasto no marketing).

Em tempo 2. É impressão minha ou Sam Elliot veste a mesma roupa que usou em Motoqueiro Fantasma?

Em tempo 3. Além dos humanos e seus dimons, o universo paralelo de Pullman também tem bruxas voadoras e ursos polares guerreiros, que comandam as regiões geladas do planeta. Ficou interessado? Então leia o livro.

Geraldo Marcolini
pinturas

Geraldo Marcolini - convite

inauguração: 16 de janeiro, quarta-feira, de 18h30 às 21h
exposição: 17 de janeiro a 26 de fevereiro de 2008

Centro Cultural Candido Mendes
Pequena Galeria
Rua da Assembléia, 10 subsolo
Centro
Rio de Janeiro / RJ 20011-901
Tel (21) 2531-2000 ramais 236/243

www.candidomendes.edu.br
artecentro@candidomendes.edu.br

De André Rangel Rios, li dois romances, Kant em coma e Aposta, publicados pela 7 letras, em 2006, o primeiro e 2007, o segundo. Há ainda, publicado pela Record o Dentro do teatro de Marionetes, de 2007. Os dois livros de André Rios se interligam por meio de um artifício machadiano. Os personagens se tocam, sem que, entretanto, façam parte de uma mesma proposição narrativa.

Em Kant em coma, o autor opta por apresentar um personagem que dialoga com o estatuto do trabalho universitário, com as pequenas artimanhas que fazem e que são criadas a partir da busca de um status interno, que é a garantia do sucesso entre seus pares. O personagem é, dentro deste meio, um descentrado. Nem deixa de ser o que a academia pede, nem consegue assumir-se como par de seus pares.

A metáfora da morte do pai, presente no romance, é também a metáfora da morte de um sistema de pensamento, que nasce com a formulação da racionalidade. O personagem – Vítor – abalado com a morte do pai e soterrado emocionalmente pela visão precária do mundo profissional, a ausência de discussões, de parcerias válidas, acaba por se enredar entre duas novas possibilidades, a partir do aparecimento de Maria Cristina, concorrente carimbada, por seus méritos e por sua desenvoltura, de um concurso para professor, e de Mariana, jovem que o procura. A relação de oposição entre as duas personagens, que se abeiram do mesmo ‘perigo ético’, isto é, ode se envolverem com o personagem, acabará por trazer ao romance um dinamismo, cuja base está na ação erótica – o outro princípio das reflexões, ligadas ao sentido do mundo, bastante eficaz.

Mestre da ironia do nosso tempo, André Rios neste romance formula com lucidez todo um aparato ético – ou de falsa ética – que rege as relações entre os homens. Com essa formulação abre seu outro romance. É também a morte metafórica que nele se postula. A situação dada é a de um passo além da proposta contida em Kant em coma. Cuidado, leitor, esse passo além não significa dizer de uma qualidade maior ou menor, senão que é apenas um passo no qual as decisões da percepção da falência de um discurso – o acadêmico ou racional – cede lugar para afirmação e negação de um outro. Em Aposta, o narrador se enredará na narrativa. Pesará suas possibilidades.

Em Aposta, André Rios compõe as possibilidades das linhas narrativas. Nelas envolve o narrador – duplo e assassino do autor – e o próprio autor – duplo e assassino do narrador. Em boa parte do livro estes personagens dialogam, se sacaneiam, se ironizam, assim como o leitor e, de quebra, o próprio estatuto da narrativa, pós-moderna ou não.

A morte do autor – discussão à qual atrela seu inconfundível humor – é o mote para o aparecimento do personagem narrador. A partir de seu aparecimento, o romance vai aos poucos encaminhando a leitura, para uma situação limite – a possibilidade da morte dupla. Morrendo o autor, morre com ele o narrador.

Ora, se em Kant em coma a morte tem a ver com a formulação da razão, que desanda em criação, em Aposta, a morte se formula como ficção, criação. Entretanto, tal mudança de estatuto sofrerá uma outra metamorfose, isto é, assim como o real racionalizado nos esconde uma ficção, para ser construído; a formulação do ficcional racionaliza também o real e dá a ele uma expressão, que, contudo, se baseia em operações de complexidade outra.

A rejeição de uma ordem que desmantele os sentidos do texto é em André Rios apenas uma sujeição do texto a outra ordem, na qual as artimanhas do narrar encontram seu caráter mais profícuo: o de contar para esconder, o de esconder para criar sentidos. Assim, ao perceber a necessidade de, no diálogo com o leitor, a quem os dois personagens, a autor e o narrador, pretendem convencer, insistir em sua fidelidade, com promessas de ação e erotismo – motes talvez da produção contemporânea – sobre o nada, o autor de Aposta e Kant em coma formula a necessidade de se ter um olhar irônico e desmantelador de certezas, inclusive as literárias.

Em Paris (Dans Paris) é um filme gostoso de se ver. Uso aí gostoso porque agradável poderia parecer crítica disfarçada. Para quem gosta de dramas, vale dizer que o filme não segue uma estrutura dramática. O que significa que a história inteira não empurra o espectador para um evento marcante no final (como a morte do herói após salvar a mocinha, por exemplo) e faz questão de deixar isso claro começando pela última cena.

Em Paris

O filme fala essencialmente de amor. Há o amor entre irmãos, o amor mal resolvido entre casais, o amor de cinco minutos, o amor de antigos relacionamentos, o amor entre pais e filhos e por aí vai.

Falando de um tema sério com a leveza de uma comédia, Christophe Honoré usa elementos da Nouvelle Vague para contar um dia da vida de dois irmãos. Paul (Romain Duris de O albergue espanhol, Exílios, Bonecas Russas, De tanto bater o meu coração parou) é o irmão “drama” da história. Ele teve um forte desentendimento com o grande amor de sua vida e foi para a casa do pai curtir sua profunda depressão no quarto. Lá ele volta a conviver com Jonathan (Louis Garrel de Os Sonhadores, Amantes Constantes), o irmão “comédia”. Jonathan é aquele tipo de jovem que acorda tarde, mata aula, dorme pelado, curte a vida de todo jeito e vê em cada garota a possibilidade de um novo amor (ou de ir para a cama, para ser mais preciso). Do seu modo peculiar, ele tenta decifrar o que aconteceu com Paul e tirá-lo da fossa.

O filme começa com Jonathan acordando na cama entre o seu irmão e uma garota. Ele olha para os dois como quem tenta lembrar o que aconteceu, sai devagar para não acordá-los, veste uma roupa e vai até a câmera falar com o espectador. O personagem admite que aquilo é um clichê e promete se comportar como personagem na maior parte do filme e não como narrador. Para se aproximar da estrutura dramática ele lança a pergunta: “Que tipo de história de amor pode fazer alguém querer pular de uma ponte?”. Suspense no ar.

No desenrolar, o filme mostra alguns momentos da estranha relação que Paul tinha com Anna (Joana Preiss de Paris, eu te amo), sua ex-mulher. Ambos são desenhados de modo humano para não ser possível identificar um culpado, um lado errado da história. No apartamento, ganha importância a relação dos irmãos com o pai (Guy Marchand). Sua atuação inspirada é pautada por aquela preocupação paterna constante de quem quer ajudar, mas não consegue mais adentrar o mundo pessoal dos filhos e entender o que está acontecendo (o personagem de Paul é muito fechado na maior parte da história). Nesse meio tempo, surge também a mãe (Marie-France Pisier), primeiro através dos diálogos, depois visitando o marido e os filhos para tentar ajudar Paul na noite da ceia de Natal. Apesar da pequena participação, sua personagem é verossímil e tem peso na história, contribuindo para o clima de “filme de relacionamentos”.

Em Paris é cheio de boas atuações e tem cenas memoráveis, como o diálogo musical pelo telefone, a leitura do livro infantil, a conversa na banheira, as cenas na ponte (viu, trouxe o suspense de volta).

Para cinéfilos que curtem Nouvelle Vague, ele também está cheio de referências, a mais óbvia delas a Truffaut, e pesquisá-las é um prazer à parte. Se você não precisa de explosões de Duro de Matar ou dramalhões no estilo Menina de Ouro, este pode ser o grande filme da temporada.

Gosto de começar a análise de um livro sondando as orelhas. Não por auxiliar no entendimento, mas para verificar a eficiência desse resumo apertado que tem a complicada missão de ajudar a vender o livro. O escritor Santiago Nazarian já disse que ninguém mete o dedo na sua orelha (ele mesmo a escreve) e entendo a razão. Não é incomum encontrar orelhas que ou entregam o assunto inteiro ou passam longe do que o livro se propõe.

A orelha de Por que não? Rupturas e continuidades da contracultura sofre da mesma síndrome de seu título. Veste a camisa de força da contracultura como principal legado de suas folhas. Veja só:

“Quarenta anos depois do Summer of Love de são Francisco, as práticas culturais, políticas, artísticas e comportamentais que marcaram o movimento da contracultura são avaliadas à luz de um novo ‘aqui e agora’. Partindo da proposta de refletir sobre a atualidade (ou não) da perspectiva contracultural, os textos que compõem este livro apresentam as mais diversas abordagens sobre o tema – de análises e depoimentos sobre as transformações vivenciadas na época até discussões sobre o que teria permanecido ou mudado após quatro décadas”.

Pronto. Dê uma respirada. Esse é o primeiro parágrafo da orelha do livro. Faz um bom resumo da idéia: trazer a contracultura para os dias atuais, ver o que hoje seria contracultura e o que da antiga proposta sobrevive no tempo e espaço. A idéia parece boa para mim e certamente boa para os participantes do livro, por isso não entendo a necessidade de o primeiro capítulo (18 páginas, 28 notas ao final) evocar Walter Benjamin, Nietzsche e Goethe para justificar a pertinência do assunto.

“E o passar do tempo é um aliado da crítica. O tempo queima a obra e consome seu sentido mais óbvio e imediato. Ao fazer crescer a distância entre o teor coisal e o teor da verdade, como em um processo de decantação, tudo que em uma obra é datado sobe a superfície e, nessa separação, seu teor da verdade pode ser nomeado”.

Cláudia Maria de Castro, responsável por essa parte, reconhece que mergulhar nos textos de Walter Benjamin não é para qualquer um. Perscrutar o que há de essência na forma dura do autor é missão árdua que requer paciência. Foi para mim, será para você e boa sorte. Fica a dúvida se começar o livro levantando um arame farpado como esses era a melhor solução (já que o objetivo principal do texto é justificar o que vem a seguir) ou se foi simplesmente honestidade, uma declaração de que, para entender a proposta do livro já é necessário um background cultural considerável.
Feita essa seleção de leitores, o tiro direcionado, pego então o último parágrafo da orelha:

“Temos então um multifacetado campo de observação e ângulos distintos da percepção sobre o pensamento e a atitude contraculturais. Inúmeras são as oportunidades de estendermos as linhas de continuidade-descontinuidade desse legado para a inteligibilidade do mundo contemporâneo”.

Por que não? Rupturas e continuidade da contraculturaSobe de novo. Recupera o fôlego. Uma ampla maioria de assuntos pode ser explorada por ângulos diversos. Qualquer palestra sobre o uso do café no ocidente, a violência no Paquistão ou a evolução acadêmica com o advento do giz pode ser plural. Com a contracultura não é diferente. O ponto de interesse então não é a pluralidade inerente ao tema (qualquer tema), mas a proposta de trazer diferentes olhares, pontos de vista distintos para desenvolver a tal ruptura e continuidade da contracultura.

E isso tem a ver com o texto de Luiz Camillo Osorio, que chama atenção para o ponto central do debate. 99,9% do valor de uma obra/texto/peça/monumento/pires chinês está na capacidade de dialogar não só com o tempo (contexto histórico) e o espaço (o local que sucumbiu ao global), mas com quem a vê. Seja o doutor X-Pert ou o Zé da esquina, é sua bagagem de vida que permite a pluralidade. E isso nem é arte, é biologia. A visão tem como uma das funções buscar eventos na memória que se pareçam com o que estamos vivenciando, encarando no momento e, junto com essa imagem, recapitular os sentimentos também armazenados, vindo aí prazeres e traumas. Tantas interpretações quanto olhos abertos e fechados a admirar ou repensar a obra de um artista. E “por que não?” analisar o papel do museu como espaço de exposição, colocando-o como espaço de experimentação e também o que foi a contracultura e o que ela se tornou ao ser incorporada pelo tal museu de onde deveria ter se distanciado.

Em suma, mostrar que nem só de museu e olhar bovino vive a arte, abre caminho para os capítulos seguintes.

É no texto de Paulo Henrique Britto que o livro fica mais palatável para os iniciantes e iniciados. Sem malabarismos lingüísticos, o autor vai direto ao ponto.

“A idéia da contracultura está intimamente associada à idéia de transgressão: uma ‘contracultura’ seria uma subcultura que se define em oposição à cultura dominante, numa postura transgressiva”.

Palavras. Ficam tão bem quando umas depois das outras adquirem significado inteligível.

Para tornar o capítulo ainda mais interessante, o foco é a poesia. O autor cita a geração mimeógrafo como a que mais se aproximou da contracultura e põe como alvo a produção poética e crítica construtivista-objetivista dos concretos. Adiante, analisa a produção poética atual, apontando diferenças e semelhanças com a contracultura, tarefa difícil já que a proliferação de vozes individuais desloca-se do conceito de unidade de movimentos em geral.

“Quando a ordem do dia é subverter e desconstruir, a própria idéia de transgressão perde o sentido”.

O próximo passo quem dá é Antônio Cícero, ao abordar o Tropicalismo (centrado em Caetano, é verdade) e lembrar que o AI-5 teve enorme peso na produção cultural da época.

“De fato, a recusa a separar alta e baixa cultura, radicalmente realizada na vida prática de Caetano, fazia parte de uma recusa das convenções estéticas, e, de maneira geral das convenções sociais”.

A partir daí, com uma idéia mais clara do valor contracultural e com elementos mais acessíveis para dialogar e construir significados, o leitor acompanhará a influência das drogas alucinógenas (símbolo da cultura hippie e potente filtro midriático) na contracultura. Deixará Focault descansando e esbarrará em nomes como The Doors, Raul Seixas e Jimi Hendrix. Entrará em debates (internos, porém coletivos) sobre o papel da espiritualidade na (de)formação da identidade cultural e passará pela Nova Era que, não por acaso, retoma o tema do individual preponderante ao coletivo. Pensará o papel do teatro e essa idéia antiga que temos de que ser ator de teatro é uma profissão alternativa em seus diversos significados. Esbarrará com a psiquiatria (e volta Focault, Goffman) no seu sentido mais acadêmico. Atualizará o uso das drogas, agora nas raves e boates e, após toda essa caminhada racional, colocará os pés na cena cultural das favelas brasileiras, dos quais AfroReggae e Nós do morro se tornaram boas bandeiras (um dos melhores capítulos).

Jornada concluída, retomo o início da resenha. O grande defeito de Por que não? Rupturas e continuidades da contracultura é não se livrar do malabarismo dialético na maioria dos capítulos, o que além de restringir o público-alvo e afastar leitores mais tímidos, retoma o conceito de literatura para eruditos e recoloca a arte nas paredes do museu. Seu ponto forte é a diversidade. Mais interessante se pensarmos no formato original de seminários em que é possível interagir, complementar e rebater comentários, mas que mantém parte de seu charme como livro pela riqueza de opiniões.

Editora: 7 Letras
Assunto: Sociologia
Formato: 14×21
Número de Páginas: 264
ISBN: 9788575774076
Ano: 2007

A Antologia de Poesia Portuguesa Século XVI, editada pela 7 letras e organizada por Sheila Moura Hue, possui, entre os diversos méritos, o de trazer para o leitor brasileiro uma amostra da poesia escrita à época de Camões. Dividida em diversas partes, a coletânea traz, ao todo, dez temas, que buscam abranger os modos de composição do século.

Como imitação e imitatio não possuem a mesma semântica, e também como o conceito da imitatio é de conhecimento dos poucos interessados em literatura e artes, a utilização do conceito imitação vai ser empregado, tomando a organizadora o cuidado de diferenciar tanto a produção de Camões como a de seus contemporâneos da poesia moderna. A poesia da imitatio tem seja na sátira, seja na poesia “séria” o intuito de propor uma moralidade. Nos textos lidos, tanto mais essa moralidade se expressa quanto mais o leitor mergulha no processo da comparação entre os poemas apresentados. Esta é uma das vantagens que a reunião de um grupo de poetas da mesma época apresenta, pois se pode perceber a recorrência dos temas e do tratamento poético a que são submetidos.

Se a organizadora tem o cuidado de chamar a atenção do leitor paras as diferenças entre a produção poética dos escritores clássicos e dos modernos, a medida nova, metro com o qual os poetas renascidos de Portugal diferenciaram-se dos poetas medievais, introduzida por Sá de Miranda, a partir de Petrarca, terá, por si, também a capacidade de se fazerem deduzir as diferenças entre o poetar clássico e medieval. E o leitor curioso poderá talvez montar um quadro das percepções literárias tão diversas quanto as que são suscitadas pela antologia.

Essa diversidade demonstra o quão o conceito de literatura se modificou ao longo dos tempos, desfazendo as percepções das arritmias das verdades consolidadas. Por exemplo, O Camões, cantor da Pátria portuguesa, não é senão uma visão excêntrica e romântica do Camões que louvou a expansão imperial portuguesa, em versos definitivos, mas atrelados ao conceito poético que vigia. A antologia é deliciosa quando traz lado a lado alguns dos sonetos camonianos e de outros poetas como Pero de Andrade Caminha, Diogo Bernardes cuja temática e tratamento são os mesmos, com versos que ressoam aqui e ali como cópias, mas que são, na verdade, um dos encantos da invenção poética dos poetas clássicos.

Chamam ainda atenção as subdivisões dedicadas à sátira e à poesia crítica (cuidado, leitor, a poesia crítica de que aqui se fala nada tem a ver com a que recebe o mesmo nome na atualidade. Tal poesia é crítica por atuar diretamente sobre um corpo político ou social e não sobre o próprio versejar), pois nelas é onde se pode perceber com maior acuidade o processo da moralização. Durante o período medieval, as poesias satíricas tinham já esse teor, embora mais circunscrito à vida paçã; com o advento do Renascimento tornam-se elas mais públicas, embora dirigidas pelo olhar atento da aristocracia e do clero.

Que aproveite o leitor esta antologia, pois, além de permitir essa rigorosa viagem ao tempo de Camões, ou o Poeta, como lhe chamam os portugueses, o cuidado com o qual Sheila Moura Hue traceja as notícias biográficas dos autores aqui apanhados faz desta antologia um livro do qual devem se orgulhar tanto os leitores de poesia como os seus editores.

Ontem eu li uma notícia interessante. Era sobre, a partir de ontem mesmo, dia 03/01 os moradores, comerciantes, turistas e quem quer que esteja passando por Copacabana, passava a poder utilizar acesso à Internet, por banda larga, de graça. A notícia dizia que teria sido lançado o sistema Wi-Fi no bairro, em palco montado em frente ao Copacabana Palace.

Como achei a notícia realmente interessante, divulguei em algumas listas de discussão que assino. Houve pouquíssimas reações, a maioria delas louvando a *modernidade* do fato… Moderno? Será que entendemos mesmo o conceito de moderno? Mas uma me chamou a atenção, a de um rapaz comentou uma coisa que eu realmente considerei interessante:

- “Vi essa nota na imprensa e depois li aqui. Finalmente poderei trabalhar e estudar debaixo de um guarda sol, em plena praia carioca, tomando água de coco! Hehehe!”

Juntando com umas coisas que tenho visto, ouvido, lido e pensado, fiquei, desde ontem, “matutando”. Até quando vamos encarar trabalho como ruim? Até quando o lazer será visto como desimportante, em oposição ao “nobre” trabalho? Até quando vamos ficar grudados na porcaria da modernidade sem entrar, de fato, na bendita pós-modernidade?

A última vanguarda DE FATO que tivemos está com, aproximadamente, um século de existência. Ainda consideramos *moderno* idéias, linhas, formas e pensamentos dos anos 20, do século passado! Quer um exemplo?

Cadeira Wassily, Modelo Nº. B3 - imagem wikipedia

Esta cadeira. É moderna, não? A grande maioria das pessoas diria que sim, que é moderna. Podemos mesmo ver réplicas dela compondo ambientes *modernos* e é *objeto de desejo* de muitos pseudo-moderninhos. Mas sabe de quem e de quando é o design dessa cadeira? O autor é Marcel Breuer, da Bauhaus. Seu nome é Cadeira Wassily, Modelo Nº. B3, e foi desenhada em 1925-1927. Moderno, né? Oh!…

Bauhaus, que significa “casa em construção” ainda é hoje, em pleno século XXI, o *modelo* de modernidade… Só que os projetos da Bauhaus eram pensados para produção industrial, necessidades da época do Fordismo trazido pela Revolução Industrial. Sem entrar muito na história, pois qualquer pesquisa simples pode esclarecer essas questões, o fato é que ainda temos o olhar e o fazer, na maioria das vezes, embasados na e para a produção industrial.

As propostas *inovadoras* de ensino de arte ainda estão coladas no modelo modernista prega a *expressão*; no credo modernista que Ana Mae Barbosa chama (e que eu acho perfeito!) de *Lamúria Sensibilizante*, sem levar em conta as necessidades humanas e políticas (não confundir com partidarismo ou politicagem!) dos envolvidos nos processos educativos… Não há políticas educacionais, em arte ou em qualquer outra área de conhecimento, realmente pós-modernas, onde haja uma real diferença entre a educação e o desenvolvimento humano.

E isso não só nas Artes, infelizmente. É em tudo!

Trabalhar ainda significa ir para um lugar específico, ficar lá um tempo, geralmente considerado ruim, fazendo coisas igualmente ruins. Produzir ainda está relacionado a volume de números e não à qualidade do que é produzido, muito menos ao modo como isso desenvolve o ser humano. Estudar, idem, ainda é visto como ruim e, pior, como necessariamente *supervisionável*, mensurável, ou seja, tem que ter algum *vigiando* e cobrando resultados para funcionar.

A chamada *Era da Informação*, que andaria no ritmo da pós-modernidade, caracterizada “formalmente” pela invenção do timmer, nos anos 70, que deu ao homem a capacidade de manipular o tempo, principalmente pela simulação de presença na operação de máquinas, parece não ter realmente decolado e ainda estar grudada no racionalismo da modernidade, sem a compreensão, de fato, de que a existência de uma realidade diferenciada, proporcionada pelas tecnologias digitais, permite, além da manipulação direta do tempo, uma reorganização do espaço de modo que essa relação, tempo/espaço, na modernidade caracterizada por formas específicas de comportamento, trás, também, novas formas de comportamento. E isso tanto para trabalho, quanto para lazer, educação, relações humanas, enfim, para a vida.

Na modernidade espaço e tempo eram *entidades concretas*, na pós-modernidade tempo e espaço assumem novas e diferentes formas e as relações possíveis entre e com eles é, também, se não necessariamente nova, diferente. Nos anos 50 Theillard de Chardin, em seu Fenômeno Humano, pensava a existência do que chamou de Noosfera, que seria uma espécie de rede invisível de consciência. As tecnologias digitais de comunicação e informação tornam o conceito real, mas ainda nos relacionamos com relação ao trabalho e à educação, bem como nas relações humanas, dentro do paradigma tempo/espaço da modernidade! André Lemos trata brilhantemente desse tema em seu texto “As estruturas Antropológicas do Cyberespaço”. Vale a leitura: http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/estrcy1.html

Exemplos dessa incongruência são trabalhos que poderiam ser feitos, com efetivo ganho de produtividade, em qualquer lugar conectado à Internet, tendo que ser feitos em ambientes específicos, geralmente mal dimensionados, tecnologicamente, onde as pessoas são *vigiadas* para ver se estão mesmo trabalhando… Quantos exemplos sabemos e vemos de gente que, sim, está fisicamente num lugar, mas trabalho, que é bom, nada? Quantas pessoas vão, todos os dias, a lugares onde deveriam trabalhar e, na verdade, passam dias e dias jogando conversa fora? E os cursos e aulas “à distância” onde se deve “ir a algum lugar”, fisicamente, para fazer o dito-cujo? Caramba, se eu preciso sair de casa e ir até um lugar, porque não vou direto para a escola convencional e assisto ao vivo a aula?

Parte-se do princípio que estudar e trabalhar são coisas ruins por natureza e que, desta forma, se não forem vigiados, serão burlados…

É tudo, no mínimo, patético! Não acha?

Conceito e narrativa

O livro de Márcia Bechara, Casa das Feras, editado pela 7 letras, no ano que passou, busca um difícil equilíbrio; transpor a imaterialidade do espírito em corporificação da matéria e a corporificação da matéria em imaterialidade do espírito, como se quisesse reescrever a observação do real.

Na literatura, a busca de tal reescrita é uma constante, talvez uma das mais instigantes obras que busca recontar o mundo, criar uma cosmologia própria, seja a de Bruno Schulz. Bruno, ao inverter o ponto de vista do olhar – em Lojas de Canela é a poeira em suspensão que detém a expressão do universo – constrói o aniquilamento do sujeito, fazendo com que ele seja percebido pelo objeto. Em nenhum momento o autor polonês, perseguido pelo fascismo e morto no Campo de Concentração, irá tematizar essa transformação. Ela simplesmente, como num texto poético, se apresentará.

A intenção de Márcia Bechara em seu livro é parecida, embora a matriz de sua prosa não seja a de Shulz, mas a de Clarice Lispector e a de Guimarães Rosa. Em alguns contos essa transposição do ponto de vista sobre a matéria/espírito, de que se falava, acaba por se cumprir. Entretanto, muitas vezes essa transposição só se faça porque é nomeada, explicitada pelo narrador, isto é, não se cumpre como tecido narrativo, mas como uma voz que autoriza o leitor a assim ler, como se houvesse a necessidade de um reforço, de uma explicação excêntrica ao texto.

Tomem-se dois exemplos: O conto Pedras, cuja idéia e narrativa são comoventes, e o conto de abertura da coletânea, que possui o mesmo nome do livro, Casa de Feras. Neles a inversão do olhar se evidencia. Em Pedras – o narrador é dúbio – ora se mostra como externo ao quarto do sanatório no qual Camille Claudel se isola do mundo, ora é ela mesma a pedra que chama a atenção do leitor para a relação entre Camille e a pedra que a salva do desastre.

A questão narrativa é problemática neste conto.  A primeira frase está na terceira pessoa: “era um bloco de mármore indefinido colocado em cima de uma plataforma de madeira no meio do quarto de sanatório de Camille Claudel”. (pág. 65). Mais para frente se lê: “Comecei a nascer, portanto, no primeiro olhar que Camille lançou sobre mim, no chão do catre, eu – mármore no centro, posto sobre um lençol encardido como se eu pudesse ser alguma coisa realmente delicada”.

A passagem para a primeira pessoa corresponde ao olhar de Camille sobre a pedra, que vai tomando consciência de sua materialidade e adquirindo, como pedra, uma independência narrativa que apagasse do sujeito sua capacidade de observação. É a pedra, portanto, o sujeito da narração, quem a determina e constitui. Didi-Huberman, em belíssimo texto sobre a alta-modernidade americana, já propunha essa independência do olhar do objeto. A capacidade de o homem ser olhado pelo que concebera também o concebe, o funda. Entretanto, nesta fundação não se pode sentir seja a mão do escultor, seja a voz do narrador, construindo, para além da própria pedra, para além do próprio texto, a voz que nomeia o indizível, a percepção que apura o leitor.

Nem sempre a frase engenhosa cria o significado do texto que olha. Quem determina o conceito que se expressa é a excelência narrativa. Dizer, por exemplo, que “eu queria saber pegar no pires e na xícara com delicadeza, pisar com graça, queria a vida longe do cheiro bom da selva, eu queria rapidamente me corromper para ser salva da natureza.”, embora toque na essência do humano, não é necessariamente dar tônus á narrativa, mas apreendê-la em um conceito que está aquém do próprio texto que se escreve.

A árdua escolha de Márcia Bechara cria para si mesma um terrível dilema que aos poucos irá se aplainando, se solidificando em maior e mais exata economia narrativa.

A Universidade Federal de Goiás (UFG) divulgou o lançamento de seu Portal Periódicos Eletrônicos, contando com 17 revistas que trazem resenhas e textos sobre resultados de pesquisas desenvolvidas na instituição. São cerca de 2 mil artigos científicos disponíveis para acesso gratuito, precisando somente fazer seu cadastro para obtenção de login e senha.

O projeto é da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da universidade e visa a democratização do acesso às pesquisas científicas e à qualificação dos periódicos da universidade.

O portal conta com 233 volumes publicados, cujos textos, além do português, também podem ser baixados na íntegra em inglês, francês e espanhol.

A maior parte dos artigos das publicações é assinada por pesquisadores da própria UFG e incluem pesquisas em diversas áreas do conhecimento, como cultura, filosofia, geografia, ciência animal, biologia, enfermagem e farmácia.

Entre os destaques estão as revistas Signótica, do Programa de Pós-Graduação em Letras e Lingüística da Faculdade de Letras e Sociedade e Cultura, da Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia.

O portal também está recebendo trabalhos de pesquisadores de outras instituições de ensino e pesquisa do país. Para isso, é necessário que o autor encaminhe uma cópia do texto de acordo com as normas do serviço.

Mais informações: www.revistas.ufg.br.