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Category Archives: edicao_0013

lista de artigos da edição 13, ano 3 – maio & junho de 2008

Tenho em mãos a obra Mensagem, de Fernando Pessoa, publicada pela 7Letras agora em 2008. Não se trata de uma edição qualquer, mas sim daquela organizada por Cleonice Berardinelli e Maurício Matos designada: a “edição preparada segundo o exemplar de 1934 corrigido pelo punho do poeta”. Eis a justificativa: “optamos por respeitar a vontade de Pessoa, claramente expressa em diversos textos reunidos no seu Espólio sob a designação Lingüística e publicados no fim do século passado”.

Edição de Mensagem organizada por Cleonice Berardinelli e Maurício MatosO grande diferencial dessa edição, além do rigor de Cleonice, a maior especialista em Fernando Pessoa que eu conheço, são os capítulos “Apresentação”, “À guisa de aparato genérico – Mensagem, poemas in fieri” e “Caderno de Imagens”.

No primeiro, além de comentar o porquê das mudanças sofridas pelo titulo do livro – antes de Mensagem se chamaria Portugal -, Cleonice explica as três partes que compõe a obra – “Brasão”, “Mar Portuguez” e “O Encoberto” – e, em seguida, oferece uma leitura de cada subdivisão que compõe as partes. Uma aula e tanto!

No capítulo seguinte – e quem já assistiu às aulas da professora (ou a apresentações em encontros ou simpósios) sabe bem do que falo – Cleonice mergulha em divagações sobre Pessoa e sua obra, comentando textos já escritos por ela e por ilustres amigos, entre eles Jacinto Prado Coelho, e conta das conversas e das cartas, e de como foi presenteada com uma cópia do primeiro exemplar de Mensagem pertencente a Pessoa, e como tudo se passou nas décadas de 60, 70, 80, 90, entre estudos, pesquisas e amizades. Conhecemos um pouco mais de Pessoa e um pouco mais de Cleonice, que tem sempre histórias maravilhosas e enriquecedoras para compartilhar.

No “Caderno de Imagens”, temos a oportunidade de ver impressões de poemas com correções do punho de Fernando Pessoa, manuscritos que fazem parte de seu espólio, além de fotos, entre elas a última foto do poeta. Para aqueles que dizem só ler livros com figuras, é uma ótima pedida!

Puxa-saquismos à parte, diria que essa é uma das edições mais completas e bem preparadas que já vi (e que agora tenho!) feita com muita dedicação e cuidado. Desde as folhas de tom amarelado, que tornam a leitura mais agradável aos olhos, até a reunião do material que compõe a edição, é fácil perceber que tudo foi realizado com muito gosto e extrema satisfação. Além de todo esse trabalho de pesquisa, nos deleitamos, obviamente, com os poemas da obra. Há quem goste, há quem desgoste. Eu sou da primeira turma!

Questões da arte contemporânea, todas lá. Novidades mesmo, poucas. O 12° Salão Paulista de Arte Contemporânea, na Casa das Rosas, juntou os novos da vez.

Falo do que gosto:

Ana Zveibil no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Ana Niski Zveibil fez colagens de fotos urbanas com o mérito de, ao se olhar, a integração ser tão grande que a idéia de colagem é uma segunda idéia. A primeira é que aquela confusão de janelas, prédios e as curvas do célebre edifício Copam de Niemeyer são aquilo mesmo que se vê. Então, a sua colagem é uma acentuação sutil. E não um delírio a se apoiar no real para chegar em alguma coisa esquisita, do tipo “essência”.

Juliana Gouveia no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Juliana Gouveia faz o tradicional uso do PB para emprestar “realismo” a suas fotos. O ponto positivo é que não centraliza, não estetiza muito, só um pouquinho. O cachorro, por exemplo, está cortado.

Francis Farago no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Francis Farago é outra obra de montagem de pedaços urbanos, como a de Zveibil. Aqui, a montagem não se atém aos quatro limites de um retângulo, saindo para fora, desajeitada, deixando aparente o que é: uma montagem.

Walter Miranda no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Walter Miranda bate na tecla ecológica, esse engano da arte atual, com sua Réquiem em Gaia. Aqui, o ponto é negativo: a obra brilha, é bem cuidada, gasta recursos que seu conteúdo pede para economizar.

Vitor Mizael no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna Vitor Mizael no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Vitor Mizael faz uma instalação com uma camisa de enormes braços, cansados, caindo pelo chão da galeria, uma imagem muito boa e, o que gosto, usando ironia. Vi o massacre provocado por atividades profissionais de pouco sentido: todas aquelas que são feitas com camisa social. Mizael fez óleos também, com o mesmo tema. Também gostei do título: Auto-retrato.

Angelita Conte fez a melhor instalação da mostra com seus vultos fugidios, fora de foco, de passantes, a imagem mesmo do nosso olho desatento, sombras que passam, no más. O som que acompanha a série de imagens é também boa: os barulhos de uma rua, os mesmos para os quais também pouca atenção se dá.

Ana Nitzan no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Ana Nitzan traz a questão de gênero, também uma constante na arte atual, com seu enorme vestido feito de veludo, cabelos. Chama-se Pele do avesso.

Ana Prata no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Ana Prata pintou um carro e o que se vê da janela frontal de um carro, que é o nada. Já vi iguais mas não me impediu de gostar desse nada específico.

T. Antunes no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

T. Antunes traz uma das poucas presenças tridimensionais da mostra. Chama-se Percepção do passante II, uma escultura suscinta, com algumas áreas em textura, as áreas entrecortadas, fragmentadas, de um todo que é liso, no qual o olho escorrega, sem ver.

Amanda Mei no Salão Paulista de Arte Contemporânea - fotografia de Elvira Vigna

Amanda Mei pegou portas. O bom, aqui, é que a porta é incrustrada na parede. É a parede que, de repente, vira uma porta que, por ser incrustrada, pouca utilidade tem. Bom.

O livro Notas. Atos. Gestos. traz compositores do eixo Rio – São Paulo falando de modo peculiar sobre o processo composicional. Peculiar porque aborda tanto o que há de Dionisíaco quanto o que há de Apolíneo, o instinto e a razão, na criação musical, desmistificando a idéia do dom divino sem para tal precisar tocar no assunto. Sim, há o sopro das musas, mas também há o talento, a dedicação e zilhões de pequenas peças que se encaixam de maneira distinta até que se forme a música, essa engenhosa (curiosamente) matemática que interpretamos como arte.

O organizador Sílvio Ferraz reuniu textos – relatos composicionais – de Marisa Rezende, Denise Garcia, Rodolfo Caesar, Fernando Iazzetta, Marcos Lacerda e Rogério Costa, conseguindo manter a individualidade de estilos e a variabilidade do tema. Uma característica comum ao grupo? Todos são pesquisadores-educadores que trabalham em grandes universidades públicas, pensando a música além de seus critérios mercadológicos (que se mostram cada vez mais falidos e ultrapassados) e tendo a ética como norte de seus pensamentos.

Rogério Costa, por exemplo, aborda a arte do improviso. O subtítulo do texto fala por si só: na livre improvisação não se deve nada. Sua idéia é que a composição seja resultado de um fluxo vital musical produtivo estimulado pela criação de um lugar (espaço e tempo) que possa gerar os elementos necessários para essa fluidez. Mudando o foco do resultado para o processo, Rogério propõe a ação musical no lugar da exibição de obras primas. É um ponto para começar a leitura.

“Deve ficar evidente também que não se trata de composição de obras, pois nada se fixa e nada se repete. Também não se trata de exibição, pois o público – se houver – deve construir e criar junto com os performers. O público que acompanha uma performance de livre improvisação deve atuar como cúmplice (…) e compartilhar dos riscos que acompanham o processo”.

Já Marisa Rezende burila o pensamento por trás do tema. O que é composição?

“Compor significa, entre outras coisas, fazer escolhas (…) e poder fazer escolhas”. Como ela aponta, são duas estruturas semelhantes, mas com uma diferença básica de intenção entre elas. No primeiro caso, quem está em foco é o compositor no momento de compor, decidindo com que material irá trabalhar e que forma dará a esse material. Entram aí os códigos e o processo. O segundo caso, o do “poder fazer escolhas” traz para o centro do debate o compositor cidadão de algum tempo e lugar, que faz escolhas de alguma forma relacionada à sua condição tempo-espacial. Durante o texto, Marisa tratará do material escolhido para o pontapé inicial em uma composição – a linha melódica, talvez – e da importância do conhecimento para embasar o que temos de intuitivo. O interessante é fazer isso não só por referências, como também através de memórias.

A ênfase de Denise Garcia será a composição por metáforas, trabalhando a idéia de que as palavras criam imagens ou sensações chegando ao conceito de imagem sonora. Denise trabalha o tema de forma prática, usando metáforas e imagens postas em pé de igualdade com a teoria textual. É curioso perceber ao longo do relato que a proposta realmente funciona em sua exposição de partituras (e de seu alfabeto próprio), o que de certo modo se relaciona com a idéia de Silvio Ferraz e sua tatuagem musical, também muito visual, explorando os rascunhos escritos pelo compositor em seu período de formação.

“O propósito desse texto é uma visita a si mesmo. Talvez uma visita a outro si mesmo. Um si mesmo que não conheço mais, e que tem mais cara de um estranho do que de um mim mesmo”.

Você pode pensar: certo, mas o que há de componente visual composicional em um rascunho de uma composição além de sua quase metalinguagem? Há a inspiração. Silvio se remete a experimentações realizadas por ele entre 79 e 80 que tinham por imagem poética as poesias-imagens de Edgard Braga, especificamente Tatuagens e Algo, permitindo que o leitor conheça as imagens e acompanhe o desenvolvimento da idéia até a criação da peça final.

“Como transformar aquelas nuvens de sinais em música, isto tanto parecia difícil quanto óbvio. E a segunda opção aqui estava justamente em deixar de lado alguns dos eixos tradicionais do que se entende por música: as estruturas rítmicas estriadas e os jogos melódicos. Estavam ali no poema diversos sinais que poderiam converter-se facilmente em fonemas (…)”.

O livro traz ainda a abordagem tecnológica de Fernando Iazzetta relacionando composição e performance interativa; Rodolfo Caesar falando do frutífero território entre a teoria e a prática e Marcos Lacerda em um relato sobre etnomusicologia e o surgimento da música popular.

Notas. Atos. Gestos. tem um público certo: os iniciados em música, e que fique claro que não estou me referindo a quantidade de mp3 no seu iPod. Se você tem interesse no processo composicional, em seu aspecto mais tradicional ou na liberdade intrínseca do improviso seja por lazer, estudo ou por trabalho (inclusive como compositor-educador), você é o público alvo.

Notas. Atos. Gestos.
Editora 7 letras
Coleção Trinca-ferro
177 páginas

A arte começa onde a imitação acaba.” – Oscar Wilde

O Mube – Museu Brasileiro de Escultura mantém um atelier com aproximadamente 70 alunos por semestre. O Museu conta ainda com cursos regulares de história da arte, somando quase 400 alunos para 14 professores. No atelier, aulas de pintura, escultura, cerâmica, desenho e arte-inclusão para portadores de deficiências físicas. Em escultura usam argila, papier mâché, cimento, gesso e pedra sabão.

Clarissa Von Uhlendorff  - fotografia de Elvira VignaFui ao Mube com firme propósito de ver tudo, não apenas as peças no atelier mas o fato inegável é que os alunos, de uma forma geral, me interessam sempre mais que os artistas consagrados. Uma aluna estava expondo na lojinha, inclusive. A lojinha do Mube, aliás, é um caso interessante: é administrada pela ONG Ação, Ética e Cidadania e promove novos artistas.

Nos recebeu a gentil coordenadora do atelier, Eneida Fausto. Soube depois que ela é responsável pelas aulas para as crianças também.

Mantendo a minha já declarada opção por escrever apenas sobre aquilo que gosto, quero lhes falar sobre Clarissa Von Uhlendorff, aluna.

Von Uhlendorff cria grandes esculturas em papier mâché que parecem ferro. E a dimensão usa o ar, o vazio e então enche de leveza o seu ferro de papel, em quase uma brincadeira do papel-ferro com o leve-pesado, com o vazio-objeto. E aí nessa dança ela ainda coloca mais um elemento, esse estrutural, bem-humorado: ela faz bonecos soltos e juntos ao mesmo tempo, brincando dessa vez com a noção de indivíduo e conjunto.

Clarissa Von Uhlendorff  - fotografia de Elvira VignaExiste um aspecto básico, que todo mundo conhece, de que a escultura, o urbanismo e a arquitetura tratam do e existem no espaço público. E são, necessariamente, influenciados pela política (de pólis, lembra?), servindo à política vigente ou a questionando. As grandes peças robustas, colossais, monumentais, que tocam o céu, fazem apologia ao status quo. Refiro-me a esculturas como o Monumento às Bandeiras, em São Paulo ou ao Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro. São obras feitas para demonstrar grandeza, magnitude e, por serem públicas, demonstram a grandeza do público, ou seja, do Estado. Existe ainda a opção religiosa que, na verdade, se formos pensar bem, segue a mesma lógica e serve ao mesmo status quo.

Quando a escultura moderna consegue transcender essa fácil tentação da austeridade e robustez e torna-se orgânica e leve, como em Von Uhlendorff, e consegue finalmente, com sua mostra do vazio e na liberdade de formas, uma salutar rebeldia.  Em 2008, qualquer coisa diferente de transcendente e moderno é cópia (de Rodin, de Michelangelo, etc). E inovar em escultura quer dizer se libertar, quer dizer se soltar, quer dizer entender e assimilar o vazio. O vazio é rebelde por natureza. Os europeus só foram entender o zero com Fibonacci, em 1228. Vazio não é um conceito simples. O livre não é simples (só parece).

Von Uhlendorff é livre. E isso talvez assuste os curadores menos ousados. Perda deles. Von Uhlendorff deveria estar povoando os jardins do Mube e não contida dentro de um atelier.

Tenho certeza de que em breve estará.

Antes de iniciar o assunto em si, quero esclarecer um ponto. Isso não é uma crítica. É uma tentativa de diálogo para esclarecimento. Uma proposta de análise, surgida de minhas leituras sobre o projeto NAVE, inaugurado em 27 de maio último, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Segundo as notícias sobre a proposta, o NAVE – Núcleo Avançado em Educação, que nasceu de uma parceria entre a empresa de telecomunicações Oi, através da Oi Futuro, instituto de responsabilidade social da Oi e o Governo do Estado do Rio de Janeiro, através de sua Secretaria de Estado de Educação e de Cultura, é um projeto arrojado de escola, para Ensino Médio, que alia educação e recursos tecnológicos digitais.

O projeto, instalado no Colégio Estadual José Leite Lopes, deverá funcionar proporcionando aos alunos atividades em tempo integral e pretende atender cerca de 600 alunos, iniciando o ano letivo de 2008 com a oferta de 178 vagas. A idéia principal, divulgada pelos responsáveis, é ser uma escola pública de qualidade educacional, somada a um centro de pesquisas e inovações, no campo de soluções para o ensino, sendo, ainda um espaço para exposições e seminários, aberto à comunidade.

Há, ainda, um espaço chamado de “Usina de Expressão”, que pretende ser o “local de integração” entre a escola e o mundo exterior à escola, ou seja, um espaço destinado à comunidade, onde deverá haver eventos, debates, exposições.

Além das aulas do currículo normal do MEC, estão programadas propostas de atividades e trabalhos com conteúdos do universo digital. De programação de games, passando por roteiros para mídias digitais e geração multimídia, até TV Digital, as disciplinas propostas pretendem construir o que já é chamado de “Fábrica de Cultura Digital”. O objetivo principal, segundo os release divulgados à imprensa, é ser um centro de formação profissional de jovens para as chamadas “novas profissões”, com programadores, designers e gestores para a TV digital. A meta, declarada é “[...] prepará-los [os alunos] para que, no futuro, possam ter facilidade para exercer profissões como, por exemplo, roteirista, programador, designer e gestor, para atuar em TV digital, internet, celular e jogos eletrônicos – e em outras atividades que ainda nem existem, mas que, com certeza, existirão”.

Bom, tudo isso que digo ai acima é com base em informações disponíveis nos veículos de comunicação. O ponto que mais me chama a atenção é um em especial: Como isso será feito?

Não o “como” material, pois ao que me parece (não conheci o espaço pessoalmente, ainda, só vi o que foi divulgado à imprensa) já está devidamente viabilizado. Equipamentos e máquinas, bem como espaços físicos já estão devidamente preparados e prontos para desenvolver a proposta que, no papel, é realmente excelente. O que me intriga é o “como” pedagógico metodológico! O que pergunto é, por que, em todas as matérias e notícias que li, em nenhuma delas, as metodologias de trabalho educativo não estavam explícitas, declaradas? Quais as bases pedagógicas da proposta?

É fato, infelizmente, que a maioria das escolas públicas carecem de recursos de todo tipo, inclusive de equipamentos e tecnologias. Mas carecem também de metodologias adequadas aos “novos tempos”, não só de “novas tecnologias” que, na verdade, nem tão novas são assim… O que é anunciado como “iniciativa pioneira de parceria público-privada na Educação servirá como projeto-piloto para a Seeduc” é bastante interessante, sim, no sentido de busca de soluções para a educação. Envolver a iniciativa privada em projetos pedagógicos e educacionais é ótimo e realmente deve ser “copiado” por qualquer governo que tenha realmente intenção de buscar soluções para os problemas da educação. Acredito que isso é extremamente louvável, mas continuo “encafifada” com a parte pedagógica da “coisa”… A proposta acredita que equipar a escola é a solução para os problemas da educação?

Uma das matérias que li diz que o NAVE “desenvolverá metodologias de aprendizagem baseadas nas tecnologias de informação e comunicação, de forma a contribuir para a inserção dos jovens no cenário atual da evolução tecnológica”. Ok, pergunto: Como? Desenvolverá ainda? Não há nenhuma base para o trabalho? Nenhum projeto pedagógico? Se há, qual é?

Noutra reportagem, pude ler que a proposta é de “fazer com que os jovens pensem de forma diferente e tenham facilidade de atuar na área de novas tecnologias”. Pergunto, novamente: Como? Por mágica? Ou acreditam que a convivência com as máquinas, equipamentos e manipulação direta deles, por si só, é suficiente? Se acreditam que sim, que é suficiente, acreditam nisso por quê? Com base em quê? Não ficou claro isso pra mim.

Em uma outra reportagem, ainda, li que [...] “As novas soluções para educação presencial e a distância, desenvolvidas no centro de pesquisa, serão aplicadas na escola e difundidas para a rede de ensino na Usina de Expressão”, que é um dos espaços do projeto e que, segundo ainda as divulgações, “terá um amplo espaço com recursos multimídia e um auditório, serão promovidos seminários e exposições sobre tecnologia e educação, além de grupos de discussão”. Aqui, além do “como”, questiono o “o quê” será discutido?

Como pode haver “novas soluções para a educação” a serem aplicadas na escola com base em “espaços com recursos multimídia” e “grupos de discussão”? Que teorias pedagógicas embasam a proposta que o espaço influencia na aprendizagem? Aliás, é isso que acreditam? Se sim, de onde vem essa proposta? Ou é isso que será discutido nos “grupos de discussão”?

A própria secretária de estado de Educação do Rio de Janeiro, Tereza Porto, declarou que “A secretaria tem muito interesse em investirem projetos pedagógicos que levem tecnologia para a educação”. Ah, sim… Por quê? Qual a justificativa metodológico-educacional para esse interesse? Não ficou claro pra mim…

A declaração da diretora de educação da Oi Futuro, Samara Werner, no lançamento da proposta, me pareceu, além de também vazia de “comos” e “porquês” educacionais, é de um romantismo exagerado, quando diz que “A educação de qualidade, contemporânea, inovadora, é capaz de transformar o Brasil que temos no Brasil que queremos. Inserir as novas tecnologias no contexto da escola é fundamental para o jovem atender ás demandas do século XXI”. Tirando o “romantismo” de lado, resta a mesma questão: Como? O que é, para a proposta, “qualidade” em educação? O que é educação contemporânea e inovadora? É oferecer espaços equipados, salas modernas? É o suficiente? A educação se faz por si mesma nesses espaços?

Surge aqui, nesta declaração, desta pessoa, um vislumbre de uma possível análise dos objetivos da proposta, quando cita o termo: Demandas do século XXI. Sim, sim… Quais são elas? Digo, as demandas educacionais, porque as de mercado são claras e fazem sentido se estivéssemos falando de empresas, não de escolas.

Onde, em que bases o projeto atende, ou pretende atender às demandas educacionais? Aliás, quais as demandas educacionais, e não de mercado, que o projeto pretende atender? Qual o perfil do aluno egresso que esta proposta formará?

Este trecho, também de uma reportagem, diz:

O Nave contribuirá para a formação de jovens para atuar no mercado de tecnologia da informação, em expansão no Rio de Janeiro, principalmente com a chegada da TV digital. Com forte vocação para produção de softwares, o estado tem condições de aproveitar as oportunidades geradas por toda a cadeia produtiva relacionada às novas mídias: da programação de sistemas à criação de  roteiro de programas e games. Para isso, será preciso contornar o déficit de mão-de-obra nesse segmento – o que demonstra que várias oportunidades surgirão para os jovens do projeto.

De acordo com estatísticas do Ministério da Ciência e Tecnologia, o Brasil tem uma carência de 17 mil profissionais no setor de tecnologia, que movimenta cerca de R$ 13 bilhões por ano no país. Se esse mercado não se estruturar para a qualificação profissional, 230 mil vagas não terão condições de ser preenchidas em 2012”.

Ah, sim, nesta, ao menos, está um pouco mais claro… Pareceu-me que a proposta pedagógica é ser uma escola profissionalizante, de ensino médio, que se propõem a formar profissionais para um mercado em expansão: TV Digital. Ok, mas qual a proposta pedagógica para a efetivação dessa formação? Enfim, “como” isso será feito? Onde tem-se acesso às essas informações?

E, sendo uma escola profissionalizante, que seguirá o que chamaram de “currículo normal do MEC” e que atenda a demanda de mercado, me vem outra questão: O que há de novo nisso, pedagogicamente falando?

Centro Cultural Banco do Brasil apresenta

“Fragments”

companhia de Peter Brook apresenta no CCBB quatro textos de Samuel Beckett legendados em português, em curta temporada de uma semana

ESTRÉIA: dia 26 de junho (5a f), às 19h30

LOCAL: Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil

- Rua Primeiro de Março, 66 / Centro  Tel: 21 3808-2020

HORÁRIOS: de 5a a domingo, às   19h30           DURAÇÃO: 60 min.

IDIOMA: inglês com legenda em português.

INGRESSOS: R$10,00 e R$5,00 (meia entrada)             CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 12 anos

CURTA TEMPORADA: somente uma semana, de 26 a 29 de junho

Fragments A companhia teatral de Peter Brook aporta no Centro Cultural Banco do Brasil, para uma curta temporada de quatro apresentações do espetáculo FRAGMENTS, criado a partir de quatro textos curtos de Samuel Beckett (1906-1989). A direção é de Peter Brook, e no elenco estão Marcello Magni, Hayley Carmichael, Khalifa Natour.

FRAGMENTS reúne os textos “Berceuse” (ou “Rockaby”, em inglês) “Fragment de théâtre I” (ou “Rough for Theatre I”), “Acte sans paroles II” (ou “Act Without Words II”), “Va et viens” (ou “Come and Go”) e o poema, “Ni l’un ni l’autre” (“Neither”).

Inicialmente apresentada em francês, em outubro de 2006 no Teatro Bouffes du Nord, a peça foi remontada em inglês no Young Vic Theatre em setembro de 2007. Em junho de 2008 apresenta-se (em inglês, com legendas em português) no Festival de Londrina (FILO), seguindo para Brasília e São Paulo antes de sua chegada ao Rio.

SINOPSES

“Berceuse” / “Rockaby”

Uma mulher solitária tenta ninar a si mesma, literalmente, até morrer, tanto fisicamente e por meio da sua fala repetitiva.

“Fragment de théâtre I” / “Rough for Theatre I”

Magni é um circunspeto músico cego, Houben é um animado deficiente físico preso a uma cadeira de rodas com capacidade de recuperar rapidamente a alegria. Os dois alcançam a condição de mútua dependência rubugenta. Este texto foi encenado no Brasil por Gerald Thomas, em “Quatro Vezes Beckett” (1985), com atuações memoráveis de Sergio Britto e Rubens Correa.

“Acte sans paroles II” / “Act Without Words II”

Num drama sem palavras, dois personagens emergem de sacos gigantescos para se submeter a uma cômica rotina diária de trabalho duro em estilo de cinema mudo. Arrastam a si mesmos uns poucos centímetros à frente a cada “empurrão da vida”.

“Va et viens” / “Come and Go”

Três senhoras idosas estão sentadas num banco de parque. Cada vez que uma sai, as outras duas compartilham um terrível segredo sobre ela.

“Beckett era um perfeccionista. Mas, pode-se ser perfeccionista sem ter uma certa intuição do que é a perfeição? Atualmente, com o passar do tempo, percebemos a que ponto todos os rótulos que lhe foram atribuídos no passado – desesperado, negativo, pessimista – são falsos. Beckett, na verdade, mergulha seu olhar no abismo insondável da existência humana. Seu humor o salva – e nos salva – ele rejeita as teorias, os dogmas que nada oferecem além de piedosos consolos. Na realidade sua vida nada foi do que uma constante e difícil pesquisa da verdade. Ele coloca as pessoas exatamente como as vê, na escuridão. Ele as mergulha no vasto desconhecido, observando através das janelas delas mesmas, nos outros, o olhar dirigido tanto para o exterior como para o interior, para o alto ou para baixo. Ele compartilha da incerteza delas, de seu sofrimento. O Teatro lhe dá a possibilidade de encontrar uma unidade na qual o som, o movimento, o ritmo, a respiração e o silêncio estão reunidos com exatidão. Ele pede para ele mesmo – um objetivo inatingível, que se alimenta de sua necessidade de perfeição. Ele penetra dessa forma no caminho raro que religa o teatro grego e Shakespeare ao tempo atual – celebrando sem compromisso a verdade, uma verdade desconhecida, terrível, espantosa.”, afirma Peter Brook.

FICHA TÉCNICA

Textos: Samuel Beckett

Direção: Peter Brook

Colaboração: Lilo Baur e Marie Hélène Estienne

Elenco: Marcello Magni, Hayley Carmichael, Khalifa Natour

Iluminação: Philippe Vialatte

Espetáculo produzido pelo C.I.C .T. / Théatre des Bouffes du Nord, Paris, e por William Wilkinson para Millbrook Productions em co-produção com o Young Vic Theatre, Londres

Divulgação no Rio de Janeiro: JSPONTES COMUNICAÇÃO: João Pontes e Stella Stephany

PETER BROOK

Diretor de teatro e cinema britânico (21/3/1925). Um dos mais respeitados profissionais de teatro da atualidade. Nasce em Londres e estuda em Oxford. Começa a se interessar por teatro ainda na universidade, época em que é influenciado pelo trabalho de dramaturgos como Bertolt Brecht e Antonin Artaud. Propõe um teatro de caracterização psicológica dos personagens que torne visível a “invisível” alma humana.

Procura também imprimir caráter crítico e polêmico às montagens, substituindo a passividade do espectador pela participação do público no espetáculo. Faz sucesso a partir de 1955, quando dirige o ator Laurence Olivier na montagem de Titus Andronicus, de Shakespeare. A partir de 1962, torna-se co-diretor da tradicional Royal Shakespeare Company, ao lado de Peter Hall.

Nos anos 70, funda em Paris o Centro de Pesquisa Teatral, o qual dirige até hoje. Sua carreira é marcada por encenação de peças no circuito teatral nova-iorquino do West End e da Broadway, além de em Paris e Londres. Leva o teatro e a literatura para o cinema com A Sombra da Forca (1953), peça de John Gay, Moderato Cantabile (1960), romance de Marguerite Duras, e O Senhor das Moscas (1962), romance de William Styron. Em 1966 monta Marat-Sade, de Peter Weiss, cuja filmagem também dirige.

Em ópera, dirige “La Bohème”, “Boris Godounov”, “The Olympians”, “Salomé” e “Le Nozze de Figaro” no Covent Garden. “Faust” e “Eugene Onegin” no Metropolitan Opera House / New York; “La Tragédie de Carmen” e “Impressions of Pelleas”, no Bouffes du Nord / Paris; and “Don Giovanni” no Provence Festival.

Em 1968 transfere-se para Paris e funda o Centro Internacional de Criação Teatral, no qual trabalha até hoje na direção de atores e em novas montagens. Seu último sucesso no cinema é o filme Marabharata, de 1995.

A Galeria Tempo e a Casa do Saber convidam para a abertura da exposição de Milan Alram

Um Rio que passou…

Quarta-feira, dia 25 de junho, a partir de 19h.

Milan Alram, francês por nascimento e carioca por adoção, se notabilizou como fotógrafo na área de publicidade durante os anos de 1950 a 1970, criando expressivas imagens para as mais destacadas marcas nacionais e estrangeiras, como Coca-Cola, GE, L’Oreal, Air France, Esso.

A exposição que a Galeria Tempo e a Casa do Saber apresentam revela, no entanto, um outro olhar do fotógrafo: um Rio de Janeiro fincado no tempo – nos anos de 1950 e 1960 – com sua geografia exuberante, sua arquitetura elegante e um clima intimista que a cidade mantinha com sua gente – como a garota de Ipanema Helô Pinheiro, que posa na praia quando ainda não estava imortalizada por Tom Jobim e Vinicius de Moraes. É esse Rio fotogênico que estará em foco.

Às 20h, o historiador da Biblioteca Nacional e especialista em fotografia Joaquim Marçal falará sobre a trajetória da fotografia publicitária, contando com a presença de Milan Alram e exibindo suas imagens mais notórias. O encontro analisará o percurso que vai do uso do desenho à foto colorida nos anúncios publicitários, com projeção de imagens de propagandas da época, veiculados em revistas como O Cruzeiro e Manchete.

Milan Alram nasceu em Paris, em 1926, e veio aos 12 anos para o Brasil, com sua família. No Rio de Janeiro, estudou no Liceu Franco Brasileiro e, mais tarde, interessado em fotografia, participou das reuniões organizadas pelo Foto Clube Brasileiro, onde conheceu Hermínia e João Nogueira Borges, José Oiticica Filho, Chakib Jabor, entre outros fotógrafos. Trabalhou em diversas empresas e em 1949 começou a fotografar profissionalmente, fazendo fotografia industrial e publicitária. Foi um dos pioneiros da fotografia colorida na publicidade brasileira. Além de prestar serviços para as principais agências de propaganda, como J. W. Thompson, McCann Erickson, Grant Advertising e Standard, trabalhou para a Light por 16 anos consecutivos. Em 1967 voltou para a França com mulher e filhos, onde permaneceu até 1974, dando continuidade às suas atividades de fotógrafo publicitário. De volta ao Brasil, começou a atender aos crescentes pedidos de colegas, que revelavam seus filmes no laboratório particular de Milan. Em 1982 abriu o Kronokroma, laboratório fotográfico profissional, para atender os fotógrafos cariocas.

Joaquim Marçal é bacharel em Desenho industrial pela Escola Superior de Desenho Industrial da Uerj, mestre em Design pela PUC-Rio e doutorando em História Social pelo IFCS/UFRJ. É professor adjunto de fotografia do Departamento de Artes e Design da PUC-Rio e pesquisador da Biblioteca Nacional, onde coordenou o projeto de resgate da coleção de fotografias de D. Pedro II, hoje inscrita no programa Memória do Mundo, da Unesco. Autor de História da fotorreportagem no Brasil – a fotografia na imprensa do Rio de Janeiro de 1839 a 1900.

Todas as obras da exposição estarão à venda.

Dia/horário
25 de junho de 2008 – Quarta-feira / 19h

Valor
Evento gratuito

Faça a sua reserva pelo telefone 2227-2237.
Vagas limitadas.

Há uma pegadinha na exposição de Fabiano Gonper na Baró Cruz. Ele desenha contornos sem recheio. Quem freqüenta exposições já conhece os fios que nos guiam, invisíveis, em trilhas já trilhadas. Então eu pensei: bem, sim, contornos. O recheio seremos nós, que lá ficaremos, de frente para os contornos, vendo, na superfície da imagem, nossa imagem refletida.

Não.

Fabiano Gonper, fotografia de Elvira VignaGonper brinca conosco. Sua superfície não o é. Trama fina de nylon, furadinha, eis que nada ali se reflete, nada, nadinha. No retângulo branco da Baró Cruz, a porta e os ruídos ficam todos para trás. As narrativas que nos esperam estão esvaziadas, truncadas, umas sobre as outras, sua junção de tempo e espaço sendo como um registro vetorial (a ser mudado com facilidade). E são mudas. A exposição é um silêncio, as imagens não esperam um diálogo. Já desistiram de há muito.

Nessa desistência, crescem. Se ofertam de outro jeito, como um índice de ações corriqueiras e nem ações, estados. Um índice. Morto, emblemático – até que dele lancemos mão. Mão. Há muitas mãos. As desenhadas, a que as desenhou, pois o traço é grosso, pilô?, e as dimensões, grandes. Então a mão que desenha está lá no caminho longo, milímitro por milímetro dá para seguir junto, o desenho outra vez, agora feito pelo olho.

Fabiano Gonper, fotografia de Elvira VignaLigeiramente surreal, se a referência é antiga, ultrapassada, pois surreal virou real em algum ponto que ninguém lembra qual. É assim, hoje, sentamos em algum ônibus – como em uma das obras maiores – e em nossa volta o tudo rápido que está sempre em nossa volta, incluindo os pedaços de desenho riscados, rejeitados, não, isso não, isso é melhor não ter.

Mas, mesmo assim, na fragmentação, e isso é um ponto para o artista, a presença das políticas de gênero, de identidade. Sim, diz (não diz) ele: é assim desse jeito tênue e rápido, mas, olhe, é importante, há coisas, preste atenção, que são importantes. E, continua (não continua) ele: não descarte a banalidade, é aí que mora a vida. Pênis e armas e os auto-erotismos, os explícitos e os não, que aqui explicito, o acompanhar, por exemplo, milímetro a milímetro, na carícia de um traço já feito e que fez, antes de nós, também uma carícia, essa no nylon macio. As meninas que se viram de costas para uma janela que nada tem a lhes dar. Os vultos que passam, em câmera lenta, frente à objetiva que também se move, mas pouco, um atrito casual – os melhores.

Fabiano Gonper, fotografia de Elvira VignaSão em PB, as obras. Nessa linguagem que foi a que nos sobrou, depois que a publicidade nos roubou a possibilidade da cor. E aí, no PB usado pelos documentaristas porque, hoje, o “real” nele se abriga, é que Gonper nos lembra de um esgarçar planetário, um ritual executado em total silêncio e que antecede o nada.

Há um texto que acompanha a exposição. É do curador e artista Divino Sobral. Também poeta, e bom. É dele uma das falas para as quais damos as costas ao entrar. É o último ruído que a exposição cala.

Fica o eco:

No ato mesmo de desenhar,
A fome do papel devora o lápis,
E o desenhista devora imagens.]
Desenho vazio.
Sobra a sillhueta,
Contorno no silencioso e inquieto branco,
Sombra ao avesso.
O desenho devolve a visão àquele que olha.
E o lugar de onde se vê.
É tudo aquilo que vejo e que me vê.
Ainda que replicado, desautorizado,
Pela segunda vez gerado,
Reporta às ações do ver.
O desenho é manipulação.
O desenhista e manipulador.
O olhar é manipulador.
A imagem é manipulada e manipuladora.
A imagem sobreposta em camadas,
Acumulada na memória,
Apagada,
Resurge espectral nas paredes brancas da caverna,
Ampliada,
Revivida.
E o artista,
Sentado, observa
A imagem manipular.
No ato mesmo de desenhar
A fome do papel devora o lápis.
Erótico,
Ato gozoso. Pincel e pênis
Parte da mão. Calor do corpo
Desejo calado,
No tecido tatuado como pele.
Do leite vital derramado na superfície,
Nascem figuras
Que vêem,
Ainda que sem olhos.
No ato mesmo de desenhar,
A fome do papel devora o lápis.
A angústia transpira pelos poros do tecido,
Do papel e do corpo.
O olho vê o vazio,
O preenche,
O povoa.
No ato mesmo de desenhar,
A fome do papel devora o lápis.
A fome do desenho devora o desenhista.

Divino Sobral
Maio 2008

Fabiano Gonper, fotografia de Elvira Vigna

Fui ao ensaio aberto do espetáculo “O que eu gostaria de dizer”, dirigido por Márcio Abreu e com Luis Melo, Bianca Ramoneda e Márcio Vito no elenco. Por se tratar de um ensaio, poderia haver interrupções por qualquer motivo, principalmente para a adaptação dos movimentos dos atores num espaço diferente, como é o caso do Sesc Arena, em Copacabana.

Contudo, não houve interrupções, de modo que a peça fluiu normalmente, com o cenário, acredito eu, pronto, assim como o figurino, sonoplastia e iluminação. Tudo, aparentemente, correu como num dia normal de apresentação. Bom para os atores, melhor pra mim e para os demais expectadores, que não eram muitos, mas considerando-se a ocasião, era de bom tamanho.

Vamos ao cenário: três ambientes delimitados por armações de metal, sendo um deles a sala de estar do personagem 1, representado pelo ator Luis Melo; e os outros dois espaços, cômodos do apartamento de um casal de vizinhos, representado por Bianca Ramoneda e Márcio Vito.

A peça: Como pontapé inicial, vemos o personagem de Luis Melo, que vale ressaltar está super diferente fisicamente: parece ter engordado alguns quilos para fazer o papel, além de ter deixado a barba crescer. Irreconhecível! Voltando ao pontapé inicial… A peça tem início com a seguinte frase: “No silêncio podem estar todos os ruídos e isso não é bom”, dita pelo personagem de Luis Melo. A partir daí, o espetáculo se desenvolve mostrando o drama do casal de vizinhos, que gira em torno de seus problemas conjugais, discussões sobre o relacionamento e sobre a falta de comunicação.

Intercalando-se a esse quadro, o vizinho, personagem de Luis Melo, levanta questionamentos filosóficos acerca do silêncio, da solidão, dos desejos e relacionamentos humanos. Frequentemente retoma a frase inicial do espetáculo: “No silêncio podem estar todos os ruídos e isso não é bom”. Com uma belíssima atuação, além da aparência física, que muito contribuiu para a caracterização do personagem, o ator representa um homem de mais idade, muito solitário e reflexivo, de aspecto bagunçado, como quem está largado no mundo, e triste, talvez sem perspectivas.

O que eu gostaria de dizer é que, de acordo com a sinopse, a proposta do espetáculo seria “investigar o tema da fragilidade a partir de textos criados pelo próprio grupo e também de poemas de Gonçalo M. Tavares, extraídos do livro O homem ou é tonto ou é mulher.” Bom, a questão da fragilidade humana, no que diz respeito aos dramas pessoais, afetividade, solidão e etc. foi levantada, e estava tanto incorporada ao discurso filosófico do velho solitário, como na discussão dos vizinhos. O que me fez falta foi a poesia de Gonçalo M. Tavares. Ok, ele não estava completamente ausente. Em dado momento, no meio da briga do casal, surge uma poesia:

“Tenho flores a sair da porta dos armários e nunca tive um armário na minha vida.
Isto, claro, é muito estranho.
O normal seria eu ter um armário e não ter flores a sair dele.
Mas a verdade é que é tudo ao contrário.
Tenho flores a sair da porta de um armário que nunca tive.”

Mas não basta brotar uma poesia no meio de mil palavras. Ela tem que ser explorada e se integrar ao contexto de uma forma mais profunda, de modo que seu sentido seja incorporado aos discursos. O que quero dizer é que a emoção da poesia não contagiou os diálogos. Quando se recita uma poesia como quem dita uma lista de supermercado no meio de uma discussão, ela se perde, fica solta, não atinge quem a ouve. Além disso, na seqüência da poesia, acontecia um diálogo espirituoso, o que abafava ainda mais Gonçalo M. Tavares.

O modo como a discussão sobre o relacionamento conjugal foi conduzido acabou ficando entre Batalha de arroz num ringue para dois e a poesia de Gonçalo M. Tavares. Ou seja, ficou num entrelugar, num espaço indefinido, o que me fez sentir como se estivesse parada no meio de uma ponte, sem saber para onde andar. Aliás, uma das falas da personagem de Bianca Ramoneda menciona uma ponte que foi construída, mas que não chegou a lugar nenhum. No caso, ela relaciona a ponte com o casamento mal sucedido. Bem, eu não seria tão radical a ponto de dizer que a peça não levou a lugar nenhum. O que posso dizer é que o lugar em que a peça poderia chegar estava lá, apenas faltaram algumas tábuas.

Faltou também uma integração entre o casal de vizinhos e o velho solitário. Em que medida o discurso do casal tem ligação com as reflexões do velho? Enquanto um casamento se rompe, um velho lamenta a solidão. Até aí, tudo bem. Há uma ligação, mas ela não vai além disso, não se aprofunda. Acho até que poderíamos desmembrar a peça em duas: uma do velho e outra do casal. A primeira mais reflexiva, a segunda mais comédia.

De um modo geral, a idéia é muito boa, a sinopse chama nossa atenção. A composição do personagem de Luis Melo foi perfeita, e sua atuação, primorosa! Uma voz potente que preenchia os espaços do teatro e oferecia verdade e dramaticidade às indagações filosóficas levantadas no decorrer do espetáculo.

O que eu gostaria de dizer
19/6 a 3/8
5a a sábado, 21h
domingos, 19h30
[12 anos]
Espaço Sesc
Informações: (21) 2548-1088 ramais 228, 255 e 229
Rua Domingos Ferreira, 160
Copacabana, Rio de Janeiro/RJ

Goiaba \
Goiaba “Solaris/Barbarella”, foto de Tarso Ghelli

Galeria | ARTE EM DOBRO | RJ

a partir da primavera noturna | CLAUDIA BAKKER | exposição individual

Antes de partir para Portugal, onde fará sua primeira exposição internacional individual, a artista plástica carioca Claudia Bakker apresentará, a partir de 26 de junho, quinta-feira, na galeria Arte em Dobro, no Leblon, a exposição “A partir da primavera noturna”.

No total são 26 novos trabalhos que reúnem desenhos feitos com linha, objetos de tecidos e fotografia.

Claudia Bakker

Artista plástica residente no Rio de Janeiro, Claudia tem formaçao no Parque Lage e na Escola de Comunicaçao da UFRJ, onde fez Mestrado em Comunicação e Tecnologia da imagem (2001). Pioneira no Brasil em instalaçoes ao ar livre e efêmeras, trabalha sobre a metáfora do tempo e da cor no espaço. Desde 1994 realiza instalaçoes em diversas instituiçoes, como o Museu do Açude, Fundaçao Eva Klabin, Casa França Brasil,Paço Imperial e outros. A partir das instalações, desenvolve projetos com a fotografia, em que o registro das mesmas se transforma em outro trabalho. Dentre as várias mostras que participou,destacam-se a Coleção de Gilberto Chateaubriand no MAM, o Projeto Respiração na Fundação Eva Klabin, além de projetos no Oi Futuro e recentemente no Winzavod Center of Contemporary art em Moscow.

Saiba mais: www.claudiabakker.com.br

Galeria Arte em Dobro

Rua Dias Ferreira, 417 – 2º piso . Leblon . Telefones: 22591952 e 22948284

Abertura : dia 26 de junho, quinta-feira, às 19h
Exposição : de Segunda a Sexta, das 12h às 18h. Sábados das 10h às 14h.
até 26 de Julho, Sábado

Censura Livre | Entrada Franca

Recentemente tive a oportunidade de conversar com uma classe de artistas conterrâneos, pessoas que não via há muito tempo e que tomaram rumos diferentes na vida. Porém todos vindos da mesma universidade de artes, uns graduados mais cedo outros mais tarde. Entre tantos papos o assunto principal virou uma polêmica. E para compartilhar esta polêmica resolvi redigir este pequeno texto. O fato é a discórdia no meio das artes entre a real necessidade de se ensinar/aprender desenho aos moldes acadêmicos em tempos de arte contemporânea.

O grupo de artistas se divide entre os que acreditam na necessidade de se ensinar os cânones e as técnicas tradicionais da arte e aqueles que não acreditam de forma alguma no valor desta prática na atualidade.

Os ditos artistas acadêmicos/figurativos defendem seu ponto de vista ao afirmar que o ensino do academicismo pode ajudar até como forma de proporcionar o enriquecimento cultural e o esclarecimento dos alunos. Trata-se, portanto de uma etapa de formação necessária, assim como o são: o estágio, o conhecimento de uma língua estrangeira, a utilização de algum equipamento vital para a profissão, etc. Segundo esses o ensino do desenho acadêmico poderia facilitar para que o aluno amadurecesse seu fazer artístico, através dos muitos exercícios técnico/teóricos da arte tradicional, pois acabariam por evoluir enquanto artistas e mais tarde optar conscientemente em se libertar de tais cânones sem grandes dificuldades, ou mesmo decidir por permanecer neles sabendo do que se trata e como tirar sua produção neste meio.

Do outro lado do combate estão também senhores produtores de arte, extraordinariamente capacitados e que bradam “o não ao academicismo”. Afinal, segundo eles não é necessário de forma alguma impor ao estudante que se aprenda a criar imagens antiquadas, isso significaria um retrocesso desnecessário e uma exigência rigorosa demais. Obedecer a rígidas normas e regras de criação poderia frustrar e impedir o fluir da criatividade, sendo ainda que o momento atual é de um público livre e esclarecido, acostumado a grafismos e trabalhos artísticos não-acadêmicos. E ainda, para criar arte contemporânea e propostas inovadoras, saber desenhar como se vê, saber reproduzir literalmente o mundo a sua volta, não faz o menor sentido. Ademais, há tempos existe a máquina fotográfica. Portanto relegar ao papel do artista um ofício muito bem executado por uma máquina é no mínimo desumano.

Bem, nessas e outras reflexões venho me metendo, sem nunca tomar partido. E percebo que grandes universidades nacionais podem estar usando desse segundo discurso, o da libertação proporcionada pela contemporaneidade, para encobrir suas falhas enquanto instituições de ensino de artes. A meu ver uma instituição de arte, deveria no mínimo ser imparcial nestas questões, ali é o local da concentração do saber. E todos os saberes deveriam ser promovidos, ou ao menos respeitados e indicados como opções de caminhos a serem seguidos pelos alunos. Acredito seriamente que cabe ao aluno se decidir por qual vertente da arte deverá abraçar. E penso até que esse “abraço” pode ir e voltar, nada precisa ser eterno. Todas as artes vivem e são válidas. E sempre digo: “estamos em uma época maravilhosa em que o novo convive com o velho e vise versa, não há que se matar a pintura e não há que se abolir esse ou aquele tipo de desenho da sala de aula. Por que não podemos ver tudo?” E sigo assim, sem me posicionar, porque para mim nenhuma arte morreu, nenhum estilo é melhor que outro, nenhuma escola contribuiu mais para a cultura da humanidade do qualquer outra. E para minha surpresa, me deparei com um ótimo texto, de Antonio Henrique Amaral, publicado no Estado de São Paulo, página D6, 24 de setembro de 1995. O que ele defende é exatamente o que eu defendo, apenas com muito mais profundidade e beleza na escrita. Somos, eu e o Sr. Antonio, a favor da arte, seja ela qual for. Por isso transcrevo uma parte de sua matéria:

“Não acredito em ‘hegemonias’ e muito menos que se possam ‘recolocar as coisas no lugar’ porque as ‘coisas’ e o artista estão sempre mudando de lugar. Como diz Anthony Storr, ‘o único dogma aceitável é o de que todos os dogmas são suspeitos’.

Princípios estéticos, dogmas religiosos ou políticos sempre deságuam em atitudes sectárias e trágicos componentes autoritários: pretensiosas afirmações de que isto é vanguarda e aquilo é passado, de que é por aqui e não por ali, todas essas ‘verdades’ se desmancham como incertas e frágeis. Somos testemunhas neste século de como são passageiras as verdades éticas, estéticas e políticas que se proclamam lógicas e irrefutáveis.

No mundo das artes os sistemas conceituais de vanguarda são sistematicamente desmontados pelo imprevisível, contraditório e complexo comportamento humano. As vanguardas pós-modernistas estão sempre decretando a morte da pintura que é o cadáver que mais vive e se mexe que conheço. Os dois tempos conflitantes se encontram, desencontram e a pintura continua.

Sobre a discutível ‘supremacia da arte minimalista e abstrata’ e uma possível volta da figura não acredito que a pintura figurativa está voltando porque nunca me ocorreu que ela tivesse ido embora e só agora estivesse voltando… Como nunca engoli ‘supremacias’ de quaisquer tendências. O minimalismo e o abstracionismo são correntes da maior importância mas no meu entender, nunca foram ‘supremas’ porque nenhuma tendência o é. O pintor Francis Bacon detestava a arte abstrata que acusava de decorativa, inconseqüente e instrumento de mistificação, apenas para citar a opinião de um grande artista.

Respeito e amo a obra de muitos artistas abstratos mas se não acredito no ‘progresso’ da arte como posso acreditar em ‘supremacias’ e ‘hegemonias’? Não são elas que geram dogmáticas teorias excludentes, inquisições, fundamentalismos, intolerâncias e racismos? Minimalistas, abstratos e conceituais enriqueceram o acervo artístico da humanidade mas não excluem outras vertentes do trabalho artístico.

O absurdo, a fantasia, o desejo e o animal se misturam no homem de maneira muito mais complicada do que suspeitam intelectuais portadores do perigoso vírus do raciocínio lógico. A arte é feita sempre com as mãos, os corações e as mentes em poética intimidade. Os caminhos da arte são traçados pelos artistas e não por revistas especializadas ou Bienais. O mundo a nossa volta ‘parece’ apenas que anda muito depressa mas lá dentro da gente o tempo é bem outro. Há muito mais confusão, mistério e alternativas do que nos fazem crer os sacerdotes do Pós-Modernismo e de outros ismos recentes…”

E para acalentar meus ânimos, eis que não sou a única a duvidar de dogmas e verdades irrefutáveis. Por sorte encontrei inúmeros outros estudiosos de arte, que também vivem seu momento de recolhimento enquanto produtores de arte temendo as tais hegemonias. E muitos deles acreditam que o fato de não terem aprendido mais na universidade (a arte acadêmica) não conseguiram aprender a desenhar como gostariam, e “talvez” por isso vivam um momento de auto-análise e estudo longo, que talvez esteja durando mais do que desejassem.

Entretanto vários são os exemplos de pessoas que se tornam artistas negligenciando o papel do desenho, não vou citar nomes. Pois bem, embora não seja uma arte maior, o desenho é antes de tudo uma ferramenta de trabalho, como a escrita para um escritor. O que se espera de um artista, seja ele pintor, designer, ilustrador, programador visual, se a língua mãe de seu ofício ele não sabe executar como deveria?

Esta polêmica do desenho/arte vai longe e não termina aqui. Porém me tranqüiliza saber que o figurativo, aquela arte que retrata a realidade, onde se pode ver e reconhecer com facilidade o que está sendo tratado, está voltando, ou como disse o Sr. Antônio, nunca foi embora, assim como a pintura nunca morreu.

Por fim, me posiciono: “acredito na arte figurativa, na necessidade do aprendizado do academicismo/figurativo/realista, na fusão entre arte e tecnologia, na praticidade da técnica e na beleza”,  por isso admiro o trabalho de um William Whitaker, exímio retratista que vende obras a mais de doze mil dólares. E dos artistas conceituais, da arte digital, da indústria do cinema, da HQ e do videogame como a equipe de artistas conceituais de Massive Black. Só para citar alguns.

Visite estes trabalhos e reflita: eles estudaram desenho acadêmico ou não? E são contemporâneos? Suas respostas provarão que o novo convive com o velho e que mesmo sabendo o velho produzimos o novo. Os rótulos são o menor de nossos problemas. E viva o hoje!

O Rio de Janeiro foi palco, entre os dias 4 e 15 de junho, da 1ª edição do FESTLIP – Festival de Teatro da Língua Portuguesa. Evento produzido pela Talu Produções, que reuniu grupos de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Portugal e Brasil.

Dez companhias de teatro, duas de cada país participante, se apresentaram no circuito SESC-Rio. E, paralelamente, à programação teatral, o Festival também realizou oficinas de teatro, palestras, uma exposição no Espaço SESC, além de uma programação musical no Circo Voador, e uma mostra gastronômica.

De forma muito organizada, o FESTLIP deu conta do que se propôs: promoveu o intercâmbio cultural entre esses países. No encerramento do Festival, com direito a vários agradecimentos e aplausos, ficou a promessa de se repetir o feito com mais grupos e mais pessoas envolvidas.

O público, através de uma votação no final de cada apresentação, escolheu o grupo ‘revelação’ dessa edição. Porém, ficou bem claro que o prêmio, na verdade, homenagearia um representante ‘da revelação do FESTLIP’. O escolhido pelo público foi o grupo brasileiro Tropa do Balaco Baco, de Pernambuco, que participou do Festival com a peça ‘A paixão e a sina de Mateus e Catirina’. Prêmio a que o diretor Romualdo Freitas disse que o grupo não queria agradecer, mas dividir. E que a Tropa do Balaco Baco, nesse dia, representava a todos que participaram. Que cada um dos participantes voltaria para sua casa sabendo, como diria Caetano, que a nossa pátria é a língua portuguesa.

Vale lembrar: A próxima edição do FESTLIP está prevista para o mês de julho de 2009, no Rio de Janeiro, com desdobramento na cidade de Luanda, em Angola.  Na 2ª Edição será aberto um edital a partir de janeiro de 2009, dentro do site do FESTLIP, para a curadoria dos grupos candidatos.  Os países elegíveis serão Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe.

O grupo moçambicano Mutumbela Gogo trouxe ao Festlip o espetáculo As Filhas da Nora, uma adaptação do texto “Casa de Bonecas”, do norueguês Henrik Ibsen, feita pelo sueco Henning Mankell – “que faz uma leitura a partir da experiência moçambicana. No texto original, a protagonista Nora abandona o marido e suas três filhas ao descobrir que sempre fora tratada como uma boneca, e não como uma mulher. É um escândalo para a sociedade. A versão de Mutumbela Gogo trata das filhas que foram deixadas pela mãe. O que terá acontecido com elas? A partir desta questão, são debatidas as contradições e relações de afeto entre os indivíduos.”

Visitando o túmulo da mãe que as abandona, morta há dez anos, duas irmãs discutem enquanto esperam a outra irmã atrasada. O cenário é simples: apenas uma réplica de uma sepultura quase no centro da arena do Espaço SESC Arena, mas, isso não diminui em nada o belíssimo espetáculo que assistimos.

As três irmãs discutem vários temas, mas o principal são os motivos que levaram a mãe a abandonar a casa quando as três ainda eram pequenas e a falta que essa mãe fez – “ela faria 62 anos e eu ainda sinto sua falta”. Num texto que transborda mágoas, aflições, dor, solidão, abandono, mas também alegrias, as personagens vão contando sua história, apresentando seus problemas atuais e relembrando os momentos felizes, outras vezes não, de suas infâncias.

Um dos motivos que elas alegam para o abandono é o fato de serem meninas, tudo o que a mãe queria era ter um menino: “Quando eu ficar velha quem vai cuidar de mim?” – diz uma delas reproduzindo a fala da mãe. Aliás, são essas reproduções da fala de terceiros, ou uma das outras, que dá uma marca especial a essa peça. Com essa técnica, em que, às vezes, as personagens são elas mesmas, às vezes, apenas transeuntes que comentam a beleza de uma das irmãs, repassando cenas do dia-a-dia ou de um passado mais remoto, as atrizes mostram que não é necessário mudar o figurino, ou mesmo o tom de voz para a platéia perceber que não estão interpretando mais suas personagens originais e sim outras pessoas. Isso tudo com uma naturalidade que dá leveza à peça e a torna muito agradável de assistir.

As personagens riem, se divertem, dançam, recompondo suas memórias, e divertem também o público. Iolanda, Graça e Isabel tiveram uma infância feliz por ter uma às outras. O abandono da mãe realmente as traumatizou, mas, agora, adultas, duas já com filhos, parecem ter uma nova percepção do fato. Como quando uma delas culpa a mãe e a outra responde que cada uma é responsável por si e que não sabem o que aconteceu para julgar. Nora queria ser livre, mas o marido não deixava. Queria estudar, trabalhar. Sempre acreditando que poderia manter o contato com as meninas, mesmo distante. Mas, o marido tornou isso impossível e elas nunca mais souberam da mãe.

Quando o texto não é engraçado, é poético. Por exemplo, uma delas conta como se lembra da mãe: lembra da mãe parada e depois indo embora numa rua cheia de poeira. Já a mais nova, que constrói a lembrança da mãe apenas com o que contam para ela, pois era muito pequena, lembra-se do cheiro de Nora – cheiro de manga.

Graça, a irmã mais velha, é uma camponesa, casada, com duas filhas, de 13 e 15 anos, que reconhece a importância do seu papel na sociedade. Sem ela, pessoas, como a irmã Isabel, não teriam o que comer. Iolanda, irmã do meio, está grávida do segundo filho, e agora vive só, pois colocou o marido para fora quando descobriu que ele tinha uma outra família, e deu à filha com a outra mulher o mesmo nome que deu à filha dela. Isabel, irmã mais nova, é solteira, preza sua liberdade. Consegue dinheiro acompanhando homens, mas deixa bem claro que não é uma prostituta – o que as irmãs duvidam. Mas Isabel prefere viver isso a fazer o que os homens mandam e apanhar de um marido como as irmãs. Elas perguntam-se: “Qual a diferença entre nós? Vivemos vidas diferentes, mas no fundo, somos iguais.” E percebem que a mãe sim era diferente, mas não aprenderam nada com ela. Nora é a heroína e culpada por estarem ali sem vida própria. Reconhecem que a mãe tentou viver sem homem e Isabel propõe que voltem a viver juntas, elas e as filhas das irmãs, voltando a ser uma família. Uma delas diz: “Isso quer dizer guerra contra os homens?” E Isabel rebate que não: “Quer dizer que eles têm que nos entender”.

O texto trata dos papéis de homens e mulheres e concluem que “as mulheres não lutam: discutem, berram, mas não lutam.” As irmãs chegam a conclusão que não têm que perguntar mais nada a mãe, mas procurar a resposta nelas mesmas. E que precisam voltar a ser irmãs. Quando forem grandes, querem ser apenas elas mesmas, nada mais. É um texto denso, que passa por vários assuntos que despertam os mais diferentes sentimentos, mas é também um texto cheio de esperança, que reconhece a necessidade da família associada, porém, à liberdade individual.

País: Moçambique
Peça: As filhas de Nora
Grupo: Mutumbela Gogo
Diretor: Manuela Soeiro
Elenco: Graça Silva, Lucrécia Paco, Yolanda Fumo

O grupo Etu-Lene apresentou-se no Festlip com o espetáculo “Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada”, no Espaço Sesc Sala Multiuso – apenas com um pano branco ao fundo compondo o cenário. Trata-se da história de um ancião que persuadiu seu filho, Caetano, a não se casar com Celina, e sim com Madó, uma menina que lhe parece a nora ideal, porque o trata muito bem. Katy-Ngotè investiu tudo na formação do único filho e, como uma espécie de gratidão por esse ato, se vê no direito de interferir na vida afetiva de Caetano – “Me orgulha ter um filho que toma as decisões conforme a minha vontade”.

Caetano mantém um relacionamento com as duas moças concomitantemente e seu pai acompanha os romances de perto, faz interferências, comentários – como quando Celina vira as costas e ele a insulta de várias formas. É gentil em sua presença, mas na ausência é bem crítico. Dando, com isso, um tom cômico à peça.

Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada - Grupo Etu-LeneAtravés de intrigas, o pai faz o filho ressaltar apenas os pontos negativos de Celina – por exemplo, o mau hábito da menina tagarelar o tempo inteiro, contado casos que acontecem em seu trabalho como enfermeira num asilo e numa maternidade, casos que ela conta também para a platéia, comicamente. Caetano, então, cede às exigências do pai e termina seu romance com Cecília. E, após saber que Madó está grávida, resolve casar-se com ela, para a alegria de seu pai.

Todavia, em meio a isso, temos a presença de Martins, o outro namorado de Madó. Ela diz que ele é o homem da sua vida e não resiste às investidas dele, mas diz também que nem só de amor se sobrevive e que será melhor ficar com Caetano, futuro engenheiro. Madó é bem dissimulada, consegue agradar pai, filho e amante – que sabe do envolvimento dela com Caetano – com muita facilidade. Porém, como ela mesma fala, esse tipo de recepção que oferece ao futuro sogro lhe custará caro, pois ela não é uma boa pessoa.

Antes de apontar Caetano como pai de seu filho, Madó diz a Martins que fará um aborto, porque não ficará com um homem sem perspectiva de vida. Mas, ele a alerta que se ela tentar interromper a gravidez, irá morrer, pois todos os fetos de sua família “não saem por extração”, dando um exemplo das superstições que ainda fazem parte do imaginário desse grupo. Martins a aconselha, então, a entregar a gravidez a Caetano, já que não a assumirá. Madó até diz que não será capaz de fazer isso, pois Caetano é uma boa pessoa, mas quando o médico confirma que um aborto seria de alto risco, ela pede desculpas a platéia por mentir ao Caetano e é isso que faz depois.

Katy-Ngotè, que se acha muito esperto, critica Celina, em sua ausência, lógico. Diz que, caso ela engravide, não haverá casamento, porque ela que vem procurar seu filho em sua casa. Manda o filho terminar com ela, pois não o educou para essa mulher se aproveitar dele – cômico, não? No entanto, como Madó é mais astuta, faz tudo para agradar o sogro – dá-lhe vinhos, faz comidas – e comporta-se muito educadamente em sua presença, cheias de princípios – não deixa, por exemplo, Caetano a beijar na rua por ser falta de respeito e ainda queixa-se ao pai dele – conquista a simpatia de Katy-Ngotè, e essa, ele permitirá que se aproveite do filho – sem saber, claro. Após o casamento, Caetano e Madó vão morar na casa de Katy-Ngotè. Mas, ela nos deixa bem claro que essa situação não durará muito tempo. Que ou o velho vai para o hospital, ou para o cemitério, pois ela irá fazer uma boa comida e colocar veneno – uma pessoa gentil, convenhamos.

O pai descobre, entretanto, que Madó está grávida de outro homem. Escuta uma conversa dela com Martins ao telefone – que ela só não o mandou matar porque não quer que o filho cresça sem conhecer o verdadeiro pai. E aí o dramalhão da história começa. O velho inicia uma discussão, seu filho chega, não admite que o pai insulte sua mulher. Madó coloca um tempero na situação: põe um contra o outro, diz que já viu o velho, várias vezes, espiando-os no quarto. O filho conclui que foi para espiar a intimidade do casal que os queria morando ali e vão às ‘vias de fato’. Rolam no chão em uma briga e o filho expulsa o pai de casa.

O pai anda pela cidade, desconsolado, questionando-se: “O que valeu investir toda a minha vida naquele cão? A mulher não presta. Fiz meu filho ficar com ela e o resultado este.” Nesse momento, Celina o encontra e, imediatamente, se mostra solicita em ajudá-lo – parece a trama de uma novela mexicana, da Globo ou qualquer coisa do gênero. Celina comovida com a atitude de Caetano de o expulsar, convida-o para ficar em sua casa. Diz que é o momento de retribuir tudo de bom que o senhor fez por ela – ela o procurou quando Caetano pôs fim a relação e o velho a consolou, foi muito gentil, disse que o filho era louco de terminar com menina tão boa.

Porém, Celina, nesse momento, vai às pressas ajudar num parto, que, por acaso, é o do filho de Madó. Esta, por sua vez, nesse momento de dor, acaba confessando que Martins é o pai do neném, gritando por ele, e Celina faz Caetano ouvir essa confissão. Caetano se desespera – Celina, comicamente se dirige a platéia: “Não lhes disse que aqui na maternidade acontece de tudo!”. Ele lhe conta o porquê se afastou dela, se arrepende de ter expulsado o pai de casa e Celina aproveita para levá-lo até o velho para se reconciliarem.

Contudo, o que surge ao fundo do cenário, é a sombra de um enforcado. Katy-Ngotè percebe que não merece tal tratamento, que não é digno da compaixão de Celina e dá cabo da própria vida. Momento de desespero das personagens. Nisso, a voz do velho revela ao filho o destino de Madó: que quando o filho esperado não é realmente da família deles, a criança não nasce. Fica presa no útero e mata, assim, também a mãe. Mais uma crendice apresentada pelo texto, que também apresenta várias ‘expressões angolanas’, que, possivelmente, perderiam o sentido se fossem adaptadas para o público brasileiro. A peça inclui música e essas expressões locais, que, muitas vezes, não acompanhamos. Entretanto, não considerei esse fato um ponto negativo, mas uma forma de apresentar e valorizar a própria cultura. Não é porque está em português que temos a necessidade de compreender todo o texto. Pegamos a essência e achei suficiente para entendermos a história.

Celina e Caetano, agora sozinhos, dão a entender que ficarão juntos. Talvez para compartilhar a dor dessa tragédia. A peça termina com uma canção africana, provavelmente, apropriada para tal situação.

Não percebi nada demais no texto. Alguns pontos engraçados, sim. Mas tudo superficial. Até o drama. Porém, há um ponto bom: fizeram os 60 minutos parecerem uma eternidade. Quando eu estiver precisando de um tempinho extra, já sei a quem recorrer. Sem ironias, agora: estou me perguntando até hoje o que faz uma peça dar certo ou errado?

País: Angola
Peça: Atiraram o velho Katy – Ngotè para sua última morada
Grupo: Etu-Lene
Diretor: Beto Cassua
Elenco: Neusa de Abreu Caleca, Ivete Lígia Ribeiro, Adão José, Avelino Sebastião, António Caetano de Oliveira

Escrita e dirigida por Edson Bueno, a peça Capitu Memória Editada esteve em cartaz nos dias 6 e 14 de junho de 2008 no Espaço Sesc Arena, em Copacabana. Representada por um grupo de cinco artistas paranaenses, entre eles o próprio diretor do espetáculo, e a convite do evento cultural FESTLIP – Festival do Teatro da Língua Portuguesa, a peça, como o título já sugere, aborda a obra Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Num ano de comemoração dos 100 anos da morte de Machado, muitos eventos culturais vêm sido promovidos pela cidade. Este espetáculo, coincidência ou não, veio visitar o Rio de Janeiro em uma data bastante representativa para a literatura nacional.

Em uma sala repleta por um público bastante diversificado – jovens adultos e jovens senhoras – encontramos no palco, ou melhor, no centro da arena, uma mobília antiga, quadros com a figura do Pão de Açúcar, velhas fotos de família e cinco atores já em encenação, cada um exercendo uma atividade.

Como o título sugere, a peça tem ligação com o romance, de modo que o público já tem uma mínima noção do que vai assistir. A surpresa do espetáculo fica por conta das estratégias de encenação, que oferecem nova roupagem ao romance. De acordo com a sinopse, o grupo de Curitiba propõe refletir o universo machadiano, sem, no entanto “levar o romance ao palco, e sim a sensação de mistério que o livro traz”. De fato, não assistimos à representação do romance, mas uma releitura deste, através de outros pontos de vista e de uma linguagem diferente.

Como leitora de Machado, pude compreender a abordagem da peça. Fico apenas na dúvida quanto ao entendimento da trama por parte daqueles que não tiveram acesso à obra Dom Casmurro. Contudo, suponho que quem estava ali presente tenha lido o romance.

Voltemos à referida “surpresa do espetáculo”, aquilo que a distancia do que seria a representação ipsis litteris do romance: A peça conta com cinco atores, cada qual representando um ou dois personagens. Um dos atores representa Bentinho quando jovem e também um jovem ator que ensaia uma peça em que representará Bentinho. Outro representa Bentinho mais velho, além de um homem contentíssimo por estar restaurando uma raridade: uma edição de 1913 da obra Dom Casmurro. Uma das duas atrizes representa Capitu. A outra dá conta de dois papéis: é mãe de Bentinho, além de modista de uma loja de roupas de época. O quinto e último ator representa Escobar, amigo de Bentinho, e também um sujeito amigo do ator que ensaia para representar Bentinho. Pode parecer confuso, mas quem se lembra, ainda que vagamente, do romance, consegue se localizar no meio desse caleidoscópio.

Vale ressaltar que representar dois papéis ao mesmo tempo e ter a capacidade de fazer com que o público entenda essa transição não é para qualquer um. Isso requer experiência por parte daquele que atua, que tem que fazê-lo muito bem, e habilidade por parte do dramaturgo, que precisa delimitar de modo suave onde começa um personagem e onde outro começa.

Outro ponto interessante de Capitu Memória Editada é a encenação de um diálogo com o público, ao qual os personagens chamam “leitor amigo”, “caro leitor”, “pasmo leitor”, “leitora amiga”.  Ainda que encenação, esse “contato” promove uma aproximação entre o palco e os expectadores, de modo que o público sente-se não só testemunha dos acontecimentos, mas cúmplice dos personagens.

Em vez de contada sob o ponto de vista de Bentinho, na primeira pessoa, como no romance machadiano, em Capitu Memória Editada todos têm voz: cada personagem expõe seu ponto de vista.  O toque de bom humor fica por conta das intervenções que um faz na memória do outro enquanto a narrativa é desenvolvida. Enquanto Bentinho novo narra um episódio que diz ter acontecido com Capitu, Bentinho velho intervém: “Isso não aconteceu!!” e Betinho replica: “Aconteceu sim!!”. Como esse, muitos outros diálogos, que por vezes acabam por reunir milagrosamente todos os nove personagens em cena, tiram muitas risadas do público.

Em outros momentos, os personagens tornam-se expectadores. Enquanto se desenrola uma cena com Capitu e Escobar, os outros três atores sentam-se em cadeiras no fundo do cenário, com pouca luz, como em segundo plano, e riem-se com o público daquilo que estão assistindo.

Muito bom ser surpreendida por uma proposta diferente para um romance tão lido e já tão estudado e esmiuçado. Em princípio estava com uma expectativa bastante negativa, pensando no quão maçante a peça poderia ser. Contudo, a releitura do romance proposta pelo grupo paranaense dá certo à medida que trás ao palco algo novo. Quantas vezes “inspirado” não acaba revelando-se “transcrição”! Nesse caso, o termo foi bem empregado. Infelizmente, o FESTLIP foi encerrado dia 15 de junho, e com o evento foram encerradas também as apresentações de Capitu Memória Editada.

Na Sala Multiuso do Espaço SESC, o grupo de teatro moçambicano Gungu, apresentou o espetáculo Mulheres com H maiúsculo, que se propõe a abordar a discussão dos papéis do homem e da mulher na sociedade.

Realmente trata-se um espaço multiuso. No início, senti falta do palco, ou, pelo menos um tablado removível. Para ter a certeza que se tratava apenas de uma primeira impressão, não quis me sentar na primeira fileira de cadeiras. Quis ter a real noção de que a ausência de um palco não seria um problema para uma humilde espectadora de 1,63 cm de altura. Não foi. Umas chegadinhas para os lados deram conta desse problema de visualização e a sala se revelou um ótimo espaço.

Partindo de um núcleo familiar composto por quatro casais – a mãe e seu falecido marido, que será “substituído” pelo cunhado, irmão mais novo do finado; a filha mais velha dessa senhora e seu marido, “um executivo próspero e bem posicionado, mas que não consegue a mesma performance em casa”; a filha do meio, recém formada, e seu marido, “um empresário analfabeto, para quem a posse de dinheiro é sinônimo de poder e grandeza”; e, a filha mais nova, Rosa, noiva de um “deputado ‘bem sucedido’” que não permite que ela trabalhe após o casamento – a peça se desenrola em um tom cômico. Porém, mesmo com essa pincelada de humor, o texto não deixa de abordar problemas da sociedade moçambicana.

Com um cenário simples, composto da representação de uma sala de estar e uma de jantar, formando dois ambientes, os atores surpreendem pela desenvoltura com que ocupam o espaço do salão entre os móveis e o público, criando um terceiro ambiente de circulação que aparentemente poderia ser apenas um espaço vazio.

A apresentação inicia-se com o jantar de comemoração da formatura de uma das filhas. Dançam alegremente, tiram fotos e inicia-se a fala das personagens. O cunhado oferece uma vaga em sua empresa para a moça recém-formada e, o outro futuro cunhado, gago, anuncia seu casamento, ato que não foi combinado previamente com a noiva e gerou uma briga entre o casal, momentos depois. A partir daí, a história desenrola-se. Tentarei ser fiel ao espetáculo, mas comentarei apenas as partes que julguei mais interessante, pois foram longos 120 minutos de espetáculo.

Uma das brigas é motivada pela reclamação de uma das casadas de que seu marido não mantém mais relações sexuais com ela. E a exclamação “Ui!” vinda da platéia, quando ela atende ao telefone e diz que o cunhado não pode atender porque está fazendo o que ele não é capaz e revela que eles não possuem mais uma vida sexual ativa, arranca várias gargalhadas de todos. A personagem masculina justifica que não falta nada em casa, que ela não tem do que se queixar. Que ele passa muito tempo no trabalho porque os problemas do povo são mais importantes que a transar com a mulher. Aqui, abre-se um parêntese no discurso conjugal, pois ele cita alguns dos problemas de Moçambique. Diz que há o problema do gás doméstico, os projetos de ajuda humanitária, e com isso não tem tempo para pensar em sexo. Que na verdade ele é um “japonês escuro”, frase hilária que mantém a platéia rindo por algum tempo, tanto quanto o discurso do noivo gago. É um japonês porque trabalha muito primeiro, que os pretos e os brancos só fazem filhos e são pobres – essa afirmação poderia nos fazer pensar em nossos problemas sociais graves e desviarmos, consequentemente, o foco do momento de lazer, mas os atores conseguem articular muito bem esse tipo de “alfinetada” com o tom humorístico da peça, pois o ator continua dizendo e apontando para nós que na ali platéia não há nenhum japonês, que estes estão ocupados, trabalhando, diferente de nós.

Já na discussão do deputado gago, noivo de Rosa, a filha mais nova, que já tem 35 anos e é a única que ainda não casou, surge a discussão dos homens machistas que não permitem que suas esposas trabalhem. Ele justifica sua posição – isso tudo no seu discurso tartamudo, lembrem-se – dizendo que seus pais são casados há 50 anos e sua mãe nunca trabalhou. Uma das mulheres afirma que os tempos mudaram e ele a repreende dizendo que trabalhar “é igual a chifres”. Então, assistimos um dos poucos momentos realmente dramáticos da peça: Rosa fala que não haverá mais casamento e a platéia se cala. Entra em cena outro aspecto ressaltado por Rosa, que as mulheres casam-se por casar, que ela não fará isso e joga na cara das irmãs que os casamentos delas foram dessa forma. Conclui que a irmã mais velha não é feliz e que ela não seguirá o mesmo exemplo.

No segundo ato, a platéia faz parte do trabalho do Presidente do conselho de Administração. Estamos numa reunião, tratando do problema do gás em Moçambique. A personagem expõe que os moçambicanos são os donos do gás, o problema é que eles exportam para a África do Sul e consomem apenas os restos. Há também o problema dos buracos nas estradas, problemas de energia, que também vai primeiro para a África do Sul e ele diz que está errado, que primeiro o consumo deveria ser deles, os donos. Esses problemas enumerados na reunião serão anotados e discutidos depois, isto é, resolvidos depois. Repete a frase várias vezes, algumas com humor: “Apontem isso na agenda, depois vamos discutir”.

No terceiro ato, a cena volta para a casa da mãe que recebe o cunhado, irmão mais novo do marido falecido, que vem para assumir o papel do homem da casa, baseando-se na tradição “ku txinga”, em que o irmão mais novo desposa a cunhada viúva.

Rosa, que é a personagem que dá movimento ao texto, é ela quem percebe que o marido da irmã a deixou de procurar porque ela não se arruma mais e veste-se como a mãe, com roupas inapropriadas para sua idade – nesse momento, interagem com platéia. Escolhem uma espectadora para usar com exemplo da roupa que uma jovem deve usar. A fazem levantar, acende-se a luz da platéia. É Rosa também quem percebe que enquanto o outro cunhado não for à escola, vai envergonhar a irmã. É ela que encontra uma maneira de se livrar do ‘novo pai’, inventando que estão cheias de dívidas e que ele como o homem da casa terá que resolver esses problemas. E é ela que prova ao noivo, que se vê enrolado numa dívida prestes a perder a casa, a importância do dinheiro fruto de seu trabalho. Noivo, que, depois de muita relutância, aceita o dinheiro e admite a importância do trabalho das mulheres na renda familiar.

Pelas articulações, notamos que o que se critica nessa peça é o papel social da mulher, que ainda é vista hoje como a pessoa que deve ficar em casa e não se meter no trabalho e decisões do marido. Tudo isso, com uma nuance bem engraçada – imaginem a conversa de um gago com um analfabeto, que apresenta um discurso bem truncado e muitas vezes difícil de entender? Pois é, é engraçado.

Em vários momentos, a platéia se sente incluída na dramatização, como quando Sassá, o rico analfabeto, está comentado o absurdo do cunhado ter preferido investir o dinheiro num carro e arriscar perder a casa, em que inclui um elemento da rotina carioca: diz que o cunhado irá dormir no carro e acordará com o barulho do som das vans gritando “Penha! São Conrado!”.

A peça não trata apenas de um “retrato da sociedade moçambicana na atualidade”, mas de um retrato da situação de muitos países que além de enfrentar problemas sociais, políticos e econômicos atuais, precisa ainda reacomodarem as tradições de seu povo. O texto humorístico é agradável, mas um pouco cansativo. Ninguém consegue rir durante duas horas. Acho que um resumo teria um resultado melhor.

País: Moçambique
Peça: Mulheres com H maiúsculo
Grupo: Gungu
Diretor: Gilberto Mendes
Elenco: Gilberto Mendes, Samuel Malumbe, Elísio Cuinica Condo, Joanett Rombe, Emelda Macamo, Cecilia Cherinza, Vasco Condo

Quando ocorre uma grande tragédia, a população se divide em três grupos: 1. os que fazem parte da tragédia e efetivamente morrem, 2. os que estão distantes e se tornam explicadores e comunicadores dos fatos e 3. os que estão próximos, mas não são afetados no momento, tendo que conviver com o fantasma do imediatismo da fatalidade. É nesse terceiro grupo que Night Shyamalan encontra material para contar a história de Fim dos Tempos, filme que explora o atual estado de paranóia do mundo pós 11 de setembro. Terroristas como vilões? Nada disso, só o bom e velho medo do desconhecido e o melhor começo de suspense da última década.

Fim dos TemposPrimeiro alguns números para desmistificar o suposto fracasso comercial de Shyamalan. Voltando dez anos, seu maior trabalho é sem dúvida O Sexto Sentido. Com um orçamento de 40 milhões (sempre em dólares), ele arrecadou 670 milhões, renovou a carreira de Bruce Willis e ainda ajudou a lançar Haley Joel Osment, o garoto-robô de Inteligência Artificial. Não existe cinéfilo que ouça a frase “I see dead people” e não a associe diretamente ao filme. É o que chamamos vulgarmente de sucesso. Só que o sucesso criou um problema para o diretor: por mais que a história fosse interessante e o roteiro bem construído, o que mais chamou a atenção dos espectadores foi a virada de trama no final, criando a falsa noção de que todos os filmes de Shyamalan teriam que ser assim. Normal que houvesse expectativa em torno do trabalho seguinte, que trazia novamente Bruce Willis no papel original e ainda contava com Samuel L. Jackson. Com um orçamento um pouco maior (75 milhões) Unbreakable dividiu público e crítica. Ninguém entendeu muito bem a história de super-herói sem herói e sem super, mas ainda assim ela arrecadou 248 milhões. O que Shyamalan estava mostrando de fato é que iria brincar de subverter gêneros ao longo da carreira. Primeiro um filme de sobrenatural sem interação conflitante entre mortos e vivos, em seguida um filme de super-heróis sem clima de HQ. Não foi surpresa que Sinais, o terceiro trabalho, fizesse a mesma coisa. Para tristeza dos fãs de ficção, o alvo da vez foram os ETs.

Sinais fala de símbolos que aparecem em plantações e anuncia uma invasão alienígena premente, mas escolhe acompanhar a reação de uma família comum (Mel Gibson e Joaquin Phoenix) à confusão mundial diante da falta de informação. Os ETs, inclusive, só aparecem mesmo nas imagens que os protagonistas assistem pela televisão. Em outras palavras: o foco do filme de ETs não eram os ETs nem a invasão. Foi nesse filme que o diretor começou a mostrar seu domínio do vazio, o uso dos silêncios e do que não está lá para dizer mais do que as imagens. Foi nele também que extrapolou sua subversão de gêneros e passou a tratar de temas e sentimentos atuais através da ficção. Mais do que ETS, o filme fala da crise das crenças diante da tecnologia e de como a mídia interfere em nossa captação de informações, contribuindo mais para formar do que dissipar a sensação de medo do que está por vir. Nada mais, nada menos. Infelizmente, a falta de ETs convincentes (os ETs são realmente ridículos) espantou platéias potenciais e o filme de 72 milhões arrecadou a bagatela de 408 milhões. Com três blockbusters no currículo Shyamalan não conseguia desassociar seu nome da palavra fracasso. A situação complicou um pouco mais quando lançou A Vila. Dessa vez, uma campanha de marketing equivocada jogou de novo o foco em cima da virada de trama. A frase no trailer que nada mostrava era a seguinte: veja o filme, não conte o final. Bem, então as viradas de trama que não se concretizaram estão de volta? Não. E descobrir isso não foi nada agradável para o público. A fábula de Shyamalan contava a história de um grupo, supostamente moradores de uma vila com ares medievais que não podiam cruzar determinada fronteira porque lá viviam monstros. Se tocassem o vermelho os monstros também apareciam e atacavam todo mundo. O exterior era o grande inimigo, o interior a segurança e a personagem principal uma cega. Shyamalan havia decidido falar do medo do povo americano de tudo que é estrangeiro. Na floresta vazia, monstros imaginários rondam à espreita esperando para atacar. Se não obedecermos às regras, por mais equivocadas que pareçam, tudo dará errado e a culpa será sua (a culpa nunca é nossa, sempre sua). Com Joaquin Phoenix e Adrien Brody no elenco, A Vila custou 60 milhões e arrecadou 256 milhões. Outro suposto fracasso, apesar do bom retorno sobre investimento.

Para piorar de vez a reputação de Shyamalan, em 2006, veio A Dama na Água. Outra vez, um erro de marketing ajudou a afundar a bilheteria. Ou você também venderia uma fábula infantil com viés de comédia sobre uma ninfa que mora na piscina de um hotel como uma história de suspense para adultos? Dessa vez, Shyamalan ficou no limite e os 70 milhões que gastou renderam apenas 72 milhões, o que significa prejuízo se considerarmos os gastos com a tal campanha de marketing.

Com esse resumo ligeiro de 10 anos é possível entender a atmosfera em torno de cada trabalho do diretor. Acredite, é sempre o mesmo repeteco entre fãs, cinéfilos, críticos e quem mais fizer parte da equação, talvez o pipoqueiro. Não importa que história ele vá contar, que estúdio esteja bancando, quem seja o protagonista da vez, a pergunta sempre é: será que dessa vez ele fará um novo O sexto sentido?

Aparentemente, Shyamalan não tem nenhuma vontade de voltar no tempo. Muito pelo contrário, Fim dos Tempos não dá pistas sobre o futuro, só funciona como um aprofundamento de todos os elementos que o diretor trabalhou até então: o medo do desconhecido, o vazio, a incomunicabilidade, o silêncio – sempre variações da ausência.

O filme tem um começo assustador e impactante visualmente, o que é fundamental para a manutenção do suspense até o fim. Nuvens brancas se formam no céu enquanto passam nomes de atores. Aos poucos a tensão da música aumenta e as nuvens vão se condensando, ficando negras, passando cada vez mais rápido. Corta para o Central Park, um dia lindo. Duas amigas conversam no banco. De repente uma delas percebe algo de errado. As pessoas, todas as pessoas, simplesmente param de andar. A amiga repete frases sem sentido. Todas as pessoas começam a se matar. Corta para uma obra. Alguns trabalhadores se divertem com piadas. Um corpo desaba ao lado deles. Um amigo morto. Enquanto chamam socorro, desaba outro corpo, e outro. De baixo para cima na perspectiva da câmera, diversos trabalhadores simplesmente saltam de encontro à morte. Algo maior está acontecendo.

É claro que mil explicações serão dadas no decorrer da história e todas serão irrelevantes. Uma vingança do planeta, um distúrbio psicológico, o governo americano testando novas armas, um vírus mortal? Não importa. O cerne de Fim dos Tempos é universal em época de Irã nuclear, sumiço de abelhas e aquecimento global: paranóia. Esse estado de tensão que transforma tudo em perigo. Se não conhecemos o inimigo não podemos reagir e rapidamente passamos a identificá-lo no pouco que entendemos, voltando nosso medo para as pessoas ao redor. E a situação só tende a piorar, já que conforme as mortes avançam diminui o número de pessoas com quem conversar e a quem recorrer. Ninguém atenderá ao telefone para ouvir socorro, nenhum cientista gritará eureca e anunciará a solução. Talvez não faça diferença para o grupo 1 e 2, mas para o 3 sobreviver é fundamental.

Em tempo: Shyamalan continua um diretor acima da média e um roteirista tentando chegar lá. Se você é fã de um bom suspense, gostou de Os Pássaros de Hitchcock e não é dependente químico de efeitos especiais, não deixe de conferir Fim dos Tempos. E se alguém falar mais tarde que foi um fracasso, agora você já sabe, essa é uma longa história.

Em tempo 2: Shyamalan disse que Fim dos Tempos é um filme B divertido. Não deixa de ter razão.

A peça Luto Clandestino, de Jacinto Lucas Pires, representada no calçadão de Copacabana pelo grupo português O Bando, é uma experiência teatral inesquecível.

Adquirimos os ingressos na bilheteria do SESC da Domingos Ferreira e nos juntamos ao grupo da Festlip, reunido na calçada, junto aos prédios, entre a Santa Clara e a Figueiredo Magalhães. Trocamos nossos documentos de identidade por MP3 Playeres e começamos a entender como iremos participar do espetáculo.

Luto Clandestino, do grupo O BandoChega a ser engraçada a curiosidade dos transeuntes, mas como em Copacabana acontece de tudo, não vi nenhum parar e perguntar o que estava acontecendo ali. Talvez porque esse bairro seja sempre palco das mais diversas situações e esses pedestres tenham a certeza que logo à frente encontraram uma cena tão excêntrica quanto essa e que se pararem em cada uma delas para se interarem nunca chegarão aos seus destinos.

A atriz inicia a interpretação na calçada em frente a que estamos, tendo, portanto, uma das pistas nos separando dela. Isso cria um clima difícil de descrever. A proposta do voyeurismo nos é dada com tanta sutileza, que quando percebemos a música clássica, que ouvimos em nossos fones, para passar o tempo e testar os aparelhos, fica apenas ao fundo da voz da atriz que parece pensar alto do outro lado da rua. O outro ator, um homem mais novo do que ela, a encontra e começam o diálogo. Aos poucos vamos percebendo que as personagens têm em comum uma dor: a morte de Martha – namorada, ou esposa, desse homem, chamado Antonio, e filha dessa senhora. E, clandestinamente, vemos e ouvimos o luto dos dois.

O barulho da rua, o movimento dos carros, os ônibus cheios, o trânsito tumultuado, um grande grupo olhando na mesma direção, cães passeando, o tempo que os atores demoram para conseguirem atravessar a Avenida Atlântica, tudo é motivo para repensarmos as coisas corriqueiras do nosso cotidiano que, muitas vezes, passam desapercebidas.

A essa altura os atores já estão na mesma calçada que nós e vamos acompanhando, também nos movendo, seus movimentos. Posicionamo-nos para melhor olharmos os atores, nos aproximamos, nos distanciamos, até notarmos que não há a mínima necessidade de ficarmos juntos e vamos, aos poucos, confortavelmente, abrindo mais espaço entre nós e entre nós e os atores. Espaço que, em vez de nos separar, incrivelmente, nos aproxima ainda mais.

As personagens conversam sobre como Marta era para cada um. Assunto iniciado pela mãe: “Ela era muito irritante, às vezes. Eu sou a mãe dela…” Ao que Antonio imediatamente responde: “A senhora não a conheceu como eu conheci.” A senhora, então, conta um episódio em que ficou vendo quanto tempo a filha agüentava tão parada. E que Marta tomou aquilo com irritação: “Que aquilo não se fazia. Espiar a filha na própria casa.” – Ainda bem que Marta está morta, se ela não gostou da mãe a observando dentro de casa, imaginem o que iria achar de 50 pessoas fofocando sua vida?

Com os relatos, percebemos que esse relacionamento entre mãe e filha era um pouco conturbado, cheio de silêncios, de mágoas. Mas, mesmo tratando-se de um drama, a peça é tão agradável, tão bem executada, que nós, espectadores, nos sentindo imensamente felizes ao ver aquele ótimo trabalho, que nos entreolhamos e sorrimos a cada minuto.

Notamos, então, mais um elemento em cena: um carro estacionado, um Corcel. Os atores entram no carro e continuam a encenar. Antonio revela o motivo da morte de Marta: eles tiveram um acidente de automóvel. Nesse momento, a música que ouvimos nos fones, parece vir do som do carro, criando um clima perfeito, a sensação é que estamos dentro do carro com eles. Antonio continua: diz que depois que viu o carro pronto, carro que Martha lhe falava ser para a vida inteira, percebeu que ela o queria para mostrá-lo à mãe.

Por meio de um texto, muitas vezes, simbólico, apesar de simples, vamos entrando em contato com a dor dessa mãe. Dor tão grande que se ela pudesse dava a própria vida para Marta. E, brilhantemente, ela consegue uma maneira de fazer isso. Pede a Antonio: “Imagina que sou a Marta. Isso, antes do desastre.” Ela o tortura com esse pedido e ele sai do carro, transtornado, batendo a porta, dizendo: “Por que tu faz isso?!” Ela também sai do veículo, vai até ele, pede desculpas, volta para o carro, mas continua a torturá-lo: “Já viste as minhas pernas? Ainda sou bastante… ?” Temos a impressão que ela quer tomar o lugar da filha. No entanto, não por uma paixão pelo genro, mas por querer acabar com aquele vazio deixado por Marta.

Descobrimos também que ele se sente culpado pelo acidente: “Vim aqui para que me perdoe. Um carro entrou na nossa frente. Não tive culpa.” Ao que a senhora responde, meio ironicamente, que todos dizem isso. Mas, ela quer que ele continue a falar: “Toda gente tem uma história. Tu tens a tua…” e pede que ele conte como foi o último dia de Martha, o dia do acidente – Será com a finalidade de começar de onde ela parou? E Antonio continua: “Era noite já. Tínhamos dado um passeio de carro e voltamos para aqui…”, e reconstitui a noite do acidente através da narração. Ela pergunta o que a filha dizia. Ele responde exaltado: “Ela cai, desmaia e morre!”

Parece que ele ao contar aquilo, tenta se livrar da culpa que o consome: “Hoje é difícil dizer as palavras todas…” Ao que a mãe argumenta: “Mas tu disseste bem. Palavras normais.” E o diálogo aflito continua. Ele diz que aquilo parece não fazer sentido e ela diz que estava escrito, tinha que ser. Nesse momento bem dramático do texto, um flanelinha grita: “Vem! Vem! Joga agora! Joga!”, mas nem isso tira a atenção dos espectadores e a senhora continua: “Imagina que dissestes essas palavras e eu sou a Marta. Tu és tu e eu a Marta”. Numa tentativa impressionante de preencher o vazio deixado pela filha. Antonio pede desculpas e diz que não pode fazer aquilo. Ela replica: “Tudo bem. Vou pôr isso no olho.” – acende um palito de fósforos e ameaça se cegar. Ele volta, apaga o fósforo e pergunta: “Tudo bem? Tudo bem, Marta?”. Ela pede que ele lhe dê as mãos, ele perdão e se beijam. Tudo isso com um tom flagrante de desespero, com a única intenção de conseguirem, juntos, uma maneira de acabar com aquele sofrimento.

A senhora sai do carro e nos diz: “Essa é a minha história, todos tem uma história. Luto contra ela, mas ela volta sempre e outra vez…”. Mas, como nos explica Jacinto Lucas Pires, na sinopse: “no essencial, trata-se de uma história simples, uma história comum: como a morte, um cigarro apagado e um automóvel num lugar escuro.”

Aplaudimos, ela tira Antonio do carro, ele parece ainda atordoado. Depois dos aplausos ela o coloca no carro novamente e vai embora. Eles não deixam de representar as personagens em nenhum momento: o ator que representa o homem sai do carro ainda como Antonio e vai embora. Cada um segue um caminho e não os vemos mais.

Essa peça trata-se, sobretudo, de um drama urbano. Além, lógico, do drama da mãe e do viúvo. O texto nos atinge porque vamos embora com a lição que todos com quem cruzamos nas ruas carregam uma história e que, infelizmente, não poderemos sintonizar nossos aparelhinhos para as ouvirmos, não teremos acesso a essas histórias sem nos expormos a um contato direto com essas pessoas.

Fui embora pensando: será que todo esse povo que anda com fone nos ouvidos está ouvindo a conversa de terceiros e eu não comprei meu ingresso? Mas nem fico tão chateada, porque sempre que posso, munida da minha antena ‘Tecsat’, procuro ouvir a conversa dos outros nos ônibus, presto atenção quando percebo alguém ao telefone, ou me aproveito de outra situação qualquer. Porém, o texto, simples, mas muito bem elaborado, que aborda vários temas psicológicos e urbanos, não nos dá somente o prazer do voyeurismo, é muito mais do que isso. Dá-nos a certeza que não se sofre sozinho nesse mundo. A certeza de que todo mundo que anda por aí tem uma história.

Peça: Luto Clandestino
País: Portugal
Grupo: O Bando
Diretor: João Brites
Texto: Jacinto Lucas Pires
Elenco: Filipe Carvalho, Paula Só
Desenho Luz e Operação de Som e Luz: João Cachulo
Desenho de Som: Sérgio Milhano

Tive o prazer de assistir à peça “A hora do arco-íris”, do Grupo português Teatro da Garagem, no Sesc Arena. Embora sinônimas, acredito que a palavra “espetáculo”, em vez de peça teatral, seja mais adequada ao que pude presenciar essa noite.

O Teatro Garagem que define seu trabalho como de “pesquisa e experimentação, através da investigação de novas formas de escrita para o teatro e de novas formas cênicas que a acompanham”, tem como diretor artístico Carlos J. Pessoa e, nesse espetáculo, conta com texto do próprio, direção de produção e interpretação por Maria João Vicente, e um elenco composto por uma atriz, Ana Palma, que iniciou seu trabalho no grupo em 2001.

O espetáculo em questão tem início antes mesmo de começar. Com as luzes semi-acesas, o público ainda se acomodando em seus lugares, pode-se verificar a silhueta de uma mulher sentada sobre um banquinho de pau, dentro de uma casinha de madeira, à beira de um deck.

Já se pode sentir uma atmosfera de solidão e angústia ao vermos aquela casinhola. Um espaço que transparece sufocamento e que faz-nos sentir, ainda que com a atuação apenas corporal, ainda muda, mas vigorosa de Ana Palma, enclausurados como a personagem. Uma casa em que cabe apenas uma pessoa, uma mulher de cabeça baixa, uma maleta de viagem. Uma casa que acomoda uma pessoa, mas não todos os seus pensamentos.

E então conhecemos Maria.

Aventurando-se na estrada e em suas memórias, Maria resgata o tempo passado, promovendo uma releitura dos seus anos, das suas escolhas, da sua vida. É sozinha em seu trailer (ou auto-caravana, como se diz em Portugal), no silêncio da estrada, que a mulher encontra vozes de outros tempos. Suas reflexões, nascidas da solidão, apontam para a ausência de todas as coisas, inclusive de si mesma. Maria é uma voz que sente o vazio da ausência.

Quem espera uma peça direta e objetiva, com uma temática leve e de fácil compreensão, deve sair decepcionado. A peça aborda um tema bastante subjetivo e denso, que é o da ausência. A encenação de Ana Palma, tão cheia de dramaticidade e intensidade, deve tocar, acredito eu, mesmo os mais insensíveis. Quem já não mergulhou em questionamentos e fez ressurgir vozes esquecidas do passado? Quem já não se sentiu sufocado estando sozinho e sozinho no meio da multidão?

Os sentidos são muito bem explorados durante todo o espetáculo. As luzes, operadas e desenhadas por Miguel Cruz, acompanham a angústia de Maria, por vezes focando apenas seu rosto, ressaltando a ausência de tudo a sua volta, inclusive de seu corpo.

Com composição, interpretação e operação de Daniel Cervantes, o som, que reproduz o canto dos pássaros, o tilintar da chuva, o latido dos cães, além de melodias em alguns momentos, funciona – e de fato funciona – como um estímulo aos sentidos, além de reforçar as emoções exploradas no palco.

Com um misto de alegria e desespero, Maria celebra o som dos pássaros, dos insetos, da natureza: é a hora das rolas, a hora das cigarras, a hora dos grilos. Com uma ingenuidade infantil, cada hora é festejada.

Mas e sua hora?

“O último sentido da vida é sentir”, diz uma das vozes do passado de Maria. E ela sente os sentidos com a intensidade de quem acaba de nascer. A chuva cai e ela pode sentir o cheiro da paisagem. É a hora da chuva.

É sentindo a água escorrer em seu rosto que Maria percebe um rasgo do sol na chuva que cai. Ao longe, forma-se o arco íris. Tudo tem sua hora; e essa é a hora de Maria.

A viagem reflexiva da personagem é dramatizada com tanta vida que, após a encenação, não tive vontade de dissociar imediatamente a atriz Ana Palma de sua personagem. Foi com muitos aplausos oferecidos por um público que teve que ficar de pé para demonstrar a imensa satisfação pelo trabalho mostrado ali, que fui embora, muito reflexiva, meio silenciosa, com um sorriso de encantamento no rosto.

É uma transformação caótica, como todas devem ser. Morte decretada do formato atual de cd, mp3 ainda nos limites entre o download gratuito e o respeito ao trabalho do artista, Internet a todo vapor e rádios se mantendo firme como medida de sucesso. Sorte nossa (minha pelo menos) que no meio do caos haja espaço para o surgimento de novas bandas no cenário brasileiro. De show em show, aumentando aos poucos a base de fãs, estão grupos como Cof Damu e Columbia, cada um na sua área fazendo um som de primeira.
Ainda não conhece? Hora de calibrar seu mp3 player.

O Columbia marca presença no circuito independente há 4 anos. Quem é fã de festivais alternativos provavelmente já esbarrou com o som de Fernanda, Bruno, Fred e Durão por aí. O quarteto aposta no rock puro e simples. A idéia é misturar os vocais femininos de Fernanda com as guitarras distorcidas do Bruno de forma harmônica, deixando de lado a barulheira e os berros repentinos.

Durante o tempo que tiveram para arredondar o som, o Columbia gravou um EP caseiro e com ele ganhou prêmios e se apresentou em palcos importantes do país, como o Circo Voador. Talvez por ter a estrada no currículo, o grupo conseguiu manter a energia dos shows em seu CD de estréia. O que você não quis dizer traz 10 canções que mostram uma identidade bem definida sem cair na homogeneidade. Os destaques ficam por conta de Amanhã, que merecidamente ganhou clip na Internet e status de single de divulgação; Marcela e Fernanda, um hit entre os fãs desde os primórdios do grupo, uma espécie de Eduardo e Mônica da nova geração; e Antes que eu fuja, típico hit instantâneo com letra leve e batida chiclete.

“Feche os olhos antes que eu fuja / Espere o refrão para me beijar / Então deixe sua pressa em casa / Ninguém vai nos separar” – Antes que eu fuja.

Definir o som do Cof Damu já é um pouco mais complicado. Para entendê-lo é essencial começar pelo nome. O grupo (que é de salvador) dizia que não conseguiria fazer um som diferenciado na terra do axé nem que a vaca tossisse. Mas fez. E assim a vaca tossiu (“cof” da “muuuú”, para quem ainda não entendeu). Pode não ser uma tossida bovina, mas é um sopro de frescor na música brasileira, e isso vale para norte, sul e sudeste.

Depois de 3 anos na estrada, Véu (a vocalista), Peu (teclado), Cláudio Lima (bateria), Karranka (guitarra), Dudare (baixo) e Fábio Abu (percussão) assinaram contrato com a Som Livre para o lançamento do cd homônimo. Nas 12 faixas eles mostram grande entrosamento e fazem um rock muito maduro, com levadas de MPB e grandes influências de rock progressivo.

Os destaques são Caprichos, altamente psicodélica com instrumental perfeito (ia falar só do solo de guitarra, mas seria injustiça grave) e letra levemente social; Nua, uma das mais redondas, um dos grandes símbolos do que o Cof Damu representa como banda, como coletivo, trazendo ainda bons jogos vocais e solo de flauta da Véu; e Grãos, de levada mais pop e letra alto astral feita na medida para as rádios.

“Tantas mãos
Ecoam a dor
De quem as têm
Quantos olhos se apagaram
Órfãos que não choram mais

Não exagere em seus caprichos
Se não conhece quem os faz
Você quem reduziu e cifrou a inocência

Transformaram a cicuta
Em água fresca
O que é real que não é fatal?

Não exagere em seus caprichos
Se não conhece quem os faz
Você quem reduziu e cifrou a inocência

Não há voz,
Não há chão,
Não há sol,
O ego já se espalhou” – Caprichos.

Infelizmente não conheço esse texto de Raul Brandão, mas, pelo menos, posso afirmar que a peça cumpre o que propõe na sinopse: “o texto trata de dois personagens: um político poderoso e um homem que adentra seu gabinete com uma bomba de grande impacto embaixo do braço. Uma representação da revolta de um indivíduo perante a crueldade, a incongruência e a degradação do mundo moderno.”

Diante de um cenário simples, mas que ganha vida com o jogo de luzes, uma platéia bem agitada, composta por vários adolescentes, acredito que em excursão escolar, assistiu a segunda apresentação, no Festlip, do espetáculo O doido e a morte, no confortável, e desta vez barulhento, Teatro SESC Ginástico.

Quatro atores do caboverdiano Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo deram vida ao texto de Raul Brandão. Quatro máscaras bem expressivas fizeram parte do figurino dos atores, que atuaram com bastante destreza no palco.

Grupo Teatral do Centro Cultural Português do MindeloVimos encenado um dia comum de trabalho, que depois se tornará incomum, de um Governador Civil: ele chega ao gabinete, toma um café, lê o jornal, bebe uma tacinha de licor, fuma um cigarro, isso tudo assessorado pelos serviços de um prestativo funcionário, o Nunes. Depois dessas árduas atividades, o político resume seu cansaço: “Muito trabalha-se nessa terra. E por falar em trabalho…” Com essa frase, nosso político lembra-se que ainda tem uma atividade muita importante em sua agenda: ele liga o som e pega seu taco de golfe. Desenrola um tapete e treina suas jogadas.

Mas seu cansativo dia não termina por aí, ele ainda tem muito que fazer em seu escritório. Chama o empregado e avisa-o que não está para ninguém, que não quer ser interrompido. E, provavelmente, com a autorização do Estado, porque deve ser para isso que ele foi eleito pelo povo, o governador pega seu caderno e dá continuidade a escrita de sua peça. Porém, logo é interrompido pela notícia da chegada de um homem, com direito a apresentação por carta do Ministério. O próprio ministro recomenda o “homem mais rico do país”.

Nesse momento, o texto recebe um tom mais cômico. Os movimentos dos dois atores são executados de acordo com o ritmo da música. O homem rico, que adentra a sala portando uma caixa, procura algo dentro do caixote que coloca sobre a mesa, acompanhado pela curiosidade do político. Diz que traz a morte consigo. E o governador, cinicamente, responde: “Pelo que vejo o negócio é grave”. Ficamos sabendo, então, que dentro da caixa está o mais poderoso dos explosivos e que aquele senhor foi o escolhido para morrer com ele. Ao que o escolhido responde mais uma vez cinicamente, arrancando risadas da platéia: “Ah! Muito obrigado!”

A essa altura já identificamos quem é o doido a que o título se refere – não, não é o político! A personagem do doido assume, então, que é Deus, e que há tempos, mais ou menos, um mês, estava passeando em seu quintal quando sentiu vontade de destruir tudo aquilo. Que é amigo da humanidade e com apenas um gesto terminará com todos os sofrimentos, tragédias, paixões… Que ao ler uma peça do senhor governador percebeu que só aquele homem seria digno de morrer com ele. Vai elevá-lo, com esta atitude, a categoria dos deuses. Que o político ao ser pulverizado pela bomba fará parte do Cosmos e termina seu discurso com a pergunta; “O que mais quer o senhor?” – Nada, né?

O político percebendo que a coisa está bem ruim para o seu lado pede autorização para chamar a mulher e lhe dizer suas últimas vontades. A mulher, figura bem caricata, fica a par da situação e, como uma boa e compreensiva esposa, mostra logo um jeito de sair bem rápido dali. O marido cobra que um dia ela lhe disse que se ele morresse, ela morreria também. A esposa responde que até morreria, mas não daquele jeito, morrer queimada não estava na lista e continua: ‘Adeus! Morrer queimada, não. Morre em paz. Descanse em paz e eu vou nessa.” Bela maneira de se despedir de um marido prestes a morrer, não?

O doido faz um discurso sobre a loucura, diz-nos que quando tinha 100% de suas faculdades não era feliz. Que um doido diz tudo o que lhe apetece e ninguém estranha. Aqui é imitado o recurso da câmera lenta, eles falam bem devagar. O político diz que não entendeu nada e o doido anda para trás, como se estivessem voltando a fita, e repete tudo bem devagar e, claro, não adianta nada. Não achei a cena engraçada, talvez esteja ficando velha e perdendo a minha sensibilidade adolescente de rir de tudo, pois os jovens que me rodeavam acharam a cena hilária e, a partir daí, a impressão que tive foi que começaram a achar engraçado o fato de achar engraçado e não consegui ouvir mais nada. Acho que teria aproveitado melhor o espetáculo se esse tal grupo tivesse tido uma síncope. Não só eu. Acredito que os outros indivíduos que pediram silêncio inúmeras vezes compartilham da mesma opinião.

O desfecho é interessante. A bomba não explode. Entram dois funcionários do manicômio – que recebem dinheiro do louco para que este possa continuar suas peripécias. O doido, que não é tão doido assim porque, na verdade, não ia explodir o país como prometera, tira, comicamente, papéis picados da caixa. Parece que o que queria era apenas perturbar a vida de um político – quem sabe em nome do povo? Pede a seus acompanhantes que tragam a caixa, pois agora irão visitar o Ministro da Cultura. E o governador ao notar que não foi explodido, refere-se ao doido, carinhosamente: “Grande filho da puta!”

No final da apresentação, após os aplausos, um dos atores explica a origem e os trabalhos do grupo e abre espaço para uma possível discussão sobre a peça, mas tudo é tão rápido, que quando me dou conta ele ri e diz: “então, vamos para casa.” E eu fui. Fui com a sensação de que nem ele nem eu estávamos muito satisfeitos com o comportamento do público.

Peça: O doido e a morte
País: Cabo Verde
Grupo: Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo
Diretor: João Branco
Elenco: João Branco, Luis Miguel Morais, Paulo Santos, Silvia Lima

Representada por um casal do grupo teatral angolano Henrique Artes, a peça Côncavo e Convexo emociona. São 50 minutos que comovem. Impossível não partilhar do drama das personagens e da cidade de Luanda.

De forma surpreendente o texto aborda a situação política, econômica e social da capital de Angola. Como nos revela a sinopse, trata-se de “uma obra recheada de drama, pois, a reflexão e a nota dominante do espetáculo é a utilização de signos através de velas, latas vazias de cervejas, baldes coloridos, mobílias velhas e cansadas. Os signos estão à espera do público que se propõe a ser a vítima desse espetáculo.” Boa sinopse, pois sabemos exatamente o que nos espera: seremos vítima de um drama. Quem passou os olhos nela, não entrou desavisado.

Apresentada, no teatro SESC Ginástico, um espaço hiper confortável e moderno, a peça já nos causa um estranhamento com seu cenário simples, porém impactante. Tendo ao fundo a foto de Luanda no alto do cenário e, no início, a Marcha Fúnebre, que já anuncia qual é o destino do relacionamento desse casal, vemos reproduzida uma casa sem luz, repleta de velas, uma casa em ruínas, palco de um relacionamento também em ruínas. Misto de silêncios e gritos. Ditos e não-ditos. As falas das personagens se cruzam e estancam umas as outras.

Trata-se de uma peça extremamente visual, inundada de símbolos que representam o relacionamento desgastado do casal. A falta no cenário, seus espaços vazios, os poucos elementos que o compõe, geram um belíssimo resultado, casado impecavelmente com o texto. As velas vão queimando, marcando a passagem do tempo, além de dar uma iluminação bem apropriada, misturando penumbra e brilho. A melodia para cada uma das personagens é diferente, o tom é distinto, e alterna-se, acompanhando as falas entrecruzadas.

Aparentemente temos um casal com problemas, e, inocentemente, poderíamos imaginar que iríamos assistir ao relato desses problemas conjugais. Porém, brilhantemente, o que ouvimos da boca das personagens são os problemas de Luanda. Melhor, a personagem feminina que se apresenta toda enfaixada, cheia de ferimentos, não é uma esposa, e sim a alegoria da própria Luanda e o texto a usa como imagem para explorar questões importantes da capital de Angola.

Essa personagem, como esposa, é convidada pelo marido para um diálogo e justifica, em seu discurso aflito, os ferimentos nas pernas, por exemplo, como o resultado da tentativa de impedir um assalto na casa da filha, e outros ferimentos por um atropelamento. Sua fala é cheia de silêncios e ao ser questionada pelo marido se sente dor, se precisa de ajuda, responde angustiadamente: “não é nada, estou habituada.” E nos perguntamos imediatamente: como pode alguém se habituar àquela dor? Luanda nos responde por meio de sua boca: “já não sou cidade, sou área habitada”.

Mais ou menos, aos quinze minutos de espetáculo, começam a referir-se diretamente aos problemas da cidade, mesmo que incluídos num discurso maior: hospital sem leitos, a chuva que traz doenças. E a semelhança com várias cidades do Brasil não é mera coincidência.

Quando começa um barulho de sirenes, o som de um helicóptero voando baixo, tiros, a personagem feminina apavora-se. O som é oriundo da memória traumática do assassinato do filho, que ela implora inutilmente para que não aconteça.

Num texto lento que agoniza junto com as personagens, muitos problemas expostos pela mulher, que podem ser superficialmente tomados como dificuldades matrimoniais, são justificados no discurso do homem por aspectos sociais, econômicos ou políticos. Até estatísticas são citadas. Essa articulação é muito bem estruturada, e os problemas da vida deles são apresentados como um reflexo dos problemas do país.

Consegui anotar, senão fielmente, pelo menos, na essência, algumas das falas das personagens. “Das filhas da minha mãe Angola, eu fui a única que não vivi guerra.” – exemplo do texto denso e impressionante de que estamos falando.

O homem pede que ela se acalme que tudo se resolverá e diz: “agarra minha mão e confie. Eu sei que é difícil confiar, mas agarra”. E ela responde, no auge da sua desesperança de cidade: “não tem energia elétrica no meu corpo. Não agarro mais nada”. Aproximando claramente o corpo da cidade ao corpo da mulher e mostrando, com essa declaração, toda sua falta de perspectiva.

Para ela, não há expectativa de melhora: “Eu sinto que meus filhos serão escravizados novamente em vão. Filhos do meu ventre estarão condenados a trabalhar.” “Estou com fome e meus filhos têm fome.” Frases desse tipo, ou como “filhos descontrolados matam por tudo e por nada”, nos remetem ao horror da guerra colonial, aos sofrimentos da descolonização, às amarguras sofridas por Angola. O texto aborda problemas sociais sérios, através da imagem de uma Luanda machucada, ferida na guerra.

Contudo, a figura masculina, que representa a esperança, apregoa que são os problemas que trazem sabedoria e mudança. Prega esperança, apesar de tanto desespero presente. Porém, enquanto ele assegura essa possibilidade positiva, Luanda está de costas para ele, desacreditada, e diz: “o sonho e a esperança são dois calmantes que a natureza ofereceu ao ser humano”. Recurso que, aparentemente, não está mais disposta a utilizar. Ela sai de cena e ele chora, jogado ao chão.

O homem solta um grito de dor acompanhado de uma trilha sonora perfeita, agonizante como o texto da peça. Não é dito nada aqui, porque nada precisa ser dito. Ele pega uma garrafa de algo alcoólico e bebe. Abre a camisa, tira-a – fica de camiseta, infelizmente, pois é belíssimo. Já aparentemente bêbado, descalça os sapatos. Pega um saco preto de lixo num dos baldes, vai apagando as velas e as recolhendo, até o cenário ficar praticamente no escuro. Escuro como a vida deles. Pouco a pouco ele vai desmontando o precário cenário, deixando no novo vazio uma angústia ainda maior.

Este homem olha a sua volta, calça Havaianas, coloca uma guia no pescoço, religiosidade que não poderia ser esquecida, põe um chapéu e pega uma rede de pesca, trazendo à tona uma das figuras mais importantes da tradição angolana: o pescador.

Nesse momento, a mulher aparece renovada, agora como uma típica luandense, e o encontro entre os dois acontece, enquanto o painel com a foto da cidade vai descendo. Então, Luanda faz uma declaração de amor ao pescador. Mais uma vez é feita a aproximação da mulher à cidade ao afirmar-se que toda a mulher é problemática. Mas não com o sentido cômico que a platéia identificou. Com um sentido dramático, relacionado aos problemas que foram apresentados anteriormente.

O espetáculo termina com a cena de um beijo apaixonado, ao som de uma música que fala sobre o pescador, selando o amor entre a cidade e seu povo. E a esperança cai sobre eles em forma de confetes.

Nesses 50 minutos, vi retratado vários dos problemas que costumo encontrar nos textos que falam de Angola. São minutos perfeitos, exatos, intensos. Trata-se de uma peça poeticamente política e dramática. Um comovente espetáculo. Uma ótima leitura que me virou do avesso. Há muito tempo um texto não me atingia em cheio como esse.

País: Angola
Grupo: Henrique Artes
Direção: Henrique Artes
Elenco: Flávio Ferrão, Hélio Taveira, Naed Branco, Ailton Silveiro, Anísia Correia.

No Espaço SESC Arena, assisti duas performances consecutivas do dramaturgo e músico caboverdiano Mário Lúcio Sousa, executadas por integrantes da Companhia de Teatro e Dança Contemporânea Raiz di Polon, também de Cabo Verde.

A peça Dom Quixote das Ilhas se propõe a uma leitura do original de Miguel de Cervantes sob uma perspectiva regional. O Dom Quixote em questão surge, com muito barulho, da sucata de uma espécie de carrinho de algum brinquedo de parque de diversão. Ao bater na lataria ele parece estar rompendo a casca de um ovo e nascer diante a platéia, ou despertar de um sono que só vai embora após a lavagem do rosto.
Unindo balé, uma dança bem expressiva, uma sonoplastia chamativa, um belo jogo de luzes e música, o bailarino move-se pela arena, rasga textos que se encontram espalhados pelo chão e cobre as costas com um livro, agasalhando-se com a palavra, elemento que ganha destaque no espetáculo.

Raiz di Polon (Cabo Verde) na FESTLIPAo cheiro de fósforos que invadem o ambiente após uma dança entre os palitos e o ator, surge uma espécie de divindade africana executando uma dança bem típica. Porém, mesmo depois de despir a saia da tal divindade e com isso livrar-se também dela, o bailarino continua mostra-nos um ótimo preparo físico com sua interpretação, que não fica devendo em nada para uma boa aula de ginástica localizada. Bastante suado, o Dom Quixote joga-se ao chão, como um morto após uma síncope. Também, pudera, depois de tanto esforço. Garanto que os espectadores ficaram cansados só de olhar.

Mesmo após esse longo exercício, a atuação continua. O ator brinca de pião, batuca um violino, faz uma vara cantar ao ser sacudida, profere gritos e, ao som do violino, agora como música de fundo, começa a patinar usando as folhas dos textos que continuam espalhadas, despedaça-as e gira em torno delas.
Sob uma luz vermelha, Dom Quixote entra em seu carrinho e parece navegar, depois brincar, ou dormir como num berço. Espalha espuma de barbear na barriga e depois o transfere para uma das mãos como se, agora, ela fosse um espelho. As luzes se apagam, vinte minutos depois do início do espetáculo.

Não sei se o espectador que não teve a curiosidade de ler a sinopse fez facilmente uma ligação entre essa peça e a obra de Cervantes, mas uma coisa é facilmente constatada através dos textos espalhados e da música que ouvimos: a importância da palavra. E isso sem pronunciar uma única frase.

Já o espetáculo Duas sem três, apresentado logo após, trata da mulher e sua simbologia na sociedade, tradição e nos rituais africanos. O dueto é representado por atrizes, e também bailarinas, do grupo, que nos mostram um delicado e, ao mesmo tempo, expressivo meio de interpretação.

Enquanto uma aspira – aqui sem nenhuma referência ao filme Tropa de Elite, por favor – o ar, a outra, de costas para a primeira, em sentidos opostos, e a alguns passos de distância, o sopra, com um leve assobio. Com isso, as duas parecem formar um só corpo, ao som de uma canção bem sonolenta. Frases soltas nos remetem a idéia de musa e nos fazem atentar para o drama das personagens: o imaginário feminino africano.

A expressão corporal das bailarinas, num cenário seco, sem excessos, cheio de gravetos, nos lembra o movimento de uma gangorra, enquanto ressoa um sussurro reproduzindo por elas, “espalhando novidades”, que nos envolve como numa ventania. E, como num eco, seguem dizendo, como se proclamassem um poema: “homens dispostos a matar, mas as informações começam a escassear-se, pouco a pouco…” Nessa altura, começam a aspirar e soprar no mesmo sentido e os versos continuam: “o tempo sem notícias corre mais lento, chega mais depressa”…

As atrizes, às vezes, dão a impressão de ser o reflexo uma da outra, mas não conseguimos definir quem origina a imagem. Dançam com suas estolas, fazem dos seus respectivos vestidos apenas saias e cobrem os seios com os tais xales, ao mesmo tempo, que dançam sensualmente. Depois, como numa brincadeira, repetem exaustivamente “Boca da água tua, com a água da boca tua”.

Agora, como numa espécie de dança doméstica, uma canta, fazendo o aspirador de microfone, enquanto a outra esfrega uma vassoura numa bacia de alumínio. Uma faz da sua cesta e seu esfregão um instrumento e temos a impressão de que a música que ouvimos sai dele. Brincam e dançam juntas como duas meninas, mas depois deixam de ser crianças. Enrolam-se num filó, fazendo uma alusão instantânea ao casamento. Sentam-se no chão e desabafam “não casaram comigo, eu sabia fazer tudo, dançava tudo”… E notamos que não estão mais apenas envolvidas no simbólico vestido de noiva, mas também nas promessas, nos elogios devido à beleza delas, na desilusão.

O que aparentava em muitos momentos uma disputa entre as duas musas, torna-se uma aflição compartilhada num continuo eco sem conclusão: “não casaram comigo porque… não casaram comigo porque… eu não…” e tudo se torna silêncio e escuro.

As peças destacam-se, sobretudo, pela combinação de teatro, expressão corporal e música. Uma demonstração artística fácil de ver, mas não muito fácil de entender. Trata-se de peças que necessitam um pouco de boa vontade por parte dos espectadores. Quem for ao teatro esperando peças leves de fácil entendimento sairá frustrado. Mesmo com um pouco de experiência na cultura africana, fui embora com a sensação de que deixei muita coisa por lá, perdida no movimento dos bailarinos.

Faço minhas as palavras de uma das espectadoras na saída do espetáculo, ao dirigir-se a pessoa que a acompanhava: “interessante”.

Peça: Dom Quixote das Ilhas
Grupo: Raiz di Polon
Diretor: Manu Preto
Direção Musical : Mário Lucio Sousa
Coreógrafo: Manu Preto
Elenco: Manu Preto

Peça: Duas sem três
Grupo: Raiz di Polon
Diretor: Mano Preto
Direto Musical : Mário Lúcio Sousa
Coreógrafa: Rosy Timas
Elenco: José Emanuel do Rosário Gonçalves Brandão, Elisabete Maria Fernandes, Luís Manuel Semedo da Rosa, José Rui Mendes Cardoso, Rosy Timas Tavares

Espaço Sesc – Teatro Arena Rua Domingos Ferreira, 160 Copacabana

Casa da Glória
Salão fotográfico nu artístico 2008

Salão fotográfico nu artístico 2008

13 de junho de 2008 (sexta-feira)
20 horas
Ladeira da Glória, 98 (ao lado da igreja do Outeiro) – Estacionamento com segurança
Contato: Rubber Seabra – 9629-0983

Três peças de Copi (Buenos Aires, 1939 – Paris, 1987), recentemente traduzidas na coleção Dramaturgias, da editora 7Letras, trazem para o público brasileiro uma excelente amostra do teatro desse desenhista, escritor, dramaturgo, desde 1962 exilado na França. Eva Perón (1969), Loretta Strong (1974) e A geladeira (1983). As datas são importantes, pois destacam a preocupação das organizadoras e tradutoras em permitir uma panorâmica na produção de Copi, selecionando um texto por década de produção do argentino.

Os textos exploram certa crueza cênica e exigem versatilidade dos atores. Loretta Strong, por exemplo lança em cena apenas a personagem principal, cujo nome é o título da peça; é um monólogo, sim, mas no fundo, potencialmente dialógico graças ao recurso do telefone, através do qual conversa com criaturas interplanetárias e fantasmagóricas, e encena a iminência apocalíptica dos anos mais densos da Guerra Fria e da corrida espacial. Já A geladeira abre-se com as seguintes indicações: “cenário: um refrigerador. Um único ator interpreta todos os personagens, mudando de roupa fora de cena ou no palco segundo as situações. Um fantoche de rato de espuma que se enfia como uma luva. A doutora Freud é uma boneca do tamanho humano.” São peças em que a coloquialidade e o deboche estão nitidamente a serviço da construção cênica densa que revigoram a leitura de questões políticas e culturais respondidas no calor da hora, como a bandeira do homoerotismo face aos preconceitos sociais e esquemas psicanalíticos, as tecnologias de ponta e a banalização dos afetos humanos, a glamourização de mitos políticos, o esvanecimento das fronteira entre o público e o privado, apenas para citarmos alguns.

As três peças traduzidas são suficientes para instigar o leitor a ler a trajetória do teatro de Copi como transição entre o legado modernista e o que pode ser chamado, pelo menos por enquanto, pós-moderno. Tanto temática quanto esteticamente, os textos são distópicos em sua jocosidade mórbida e cáustica. Correspondem aos princípios estéticos do Pânico, movimento teatral fundado em 1962 pelo dramaturgo e escritor espanhol Fernando Arrabal, pelo diretor de teatro chileno Alejandro Jodorwsky e pelo pintor Roland Topor. A simultaneidade e o humor associado ao terror são os elementos que dão a tônica das propostas dramáticas do grupo que existiu entre 1962 e 1973 e ao qual Copi se integrou. Os textos de Copi definem-se exatamente nesses termos em que Arrabal define o movimento:

“O pânico é a crítica da razão pura, é a liga sem lei e sem comando (qualquer um pode-se dizer membro, inclusive fundador), é a explosão de pan (tudo), á o respeito desrespeitoso ao deus Pan, é o hino ao talento… louco, é o anti-movimento, o rechaço à seriedade, é o canto à falta de ambigüidade, é a vontade de contribuir com noções que se acreditavam menores no mundo dos “sérios”, revolvendo os valores, é a arte de viver (que leva em conta a confusão e o acaso), é o princípio da indeterminação através da memória… E todo o contrário.” (link)

A opção pelo exílio desde o governo peronista (duramente satirizado na primeira peça da publicação) e as ditaduras latino-americanas ao longo dos anos 70 fizeram com que Copi chegasse bem tardiamente entre nós. Excelente a iniciativa da Coleção Dramaturgias. Copi é um autor importante para se pensar a cena cultural, na Europa e na América Latina, das décadas que precipitaram o fim do curto século XX.

Esqueça excessos. Um ou outro caso – e lá acorriam, qual moscas, fotógrafos, cinegrafistas. Eram os velhos bravos que assim desafiavam a assimilação gay na sociedade. Um brado, uma palavra de ordem: somos o lugar do excesso que encobre uma carência, e é isso que queremos esfregar na cara de vocês. O que vocês nunca cessaram de esfregar na nossa cara e que, agora, disso fazemos nossa identidade e nosso orgulho.

Mas eram poucos.

Freqüento paradas gays desde sempre e eles são a cada vez em menor número.

Antes vimos a exposição Retratos de um universo escondido, do fotógrafo escocês (radicado há mais de 20 anos no Brasil) Barry Michael Wolfe.

Ele montou o projeto Nome delas, com as fotos que tirou de travestis brasileiros desde 2005.

Nas fotos, uma persona se sobressai do fundo em geral preto: nostálgica, com trechos de poesias ou pensamentos encampados pela expressão do olhar que olha direto à câmera, a mulher na sua frente é de classe média ou baixa e tem um recolhimento, visível mesmo sob a maquiagem pesada. Um recolhimento de uma mulher com uma vida privada que, por causa da câmera, se expõe naquele momento ao público.

Na parada, um contrário que é a mesma coisa.

Na festa pública, alegre, onde todos juntos dançam e riem, às vezes, fora da altura dos olhos da maioria, para mim, sentada em um degrau de calçada, se torna visível as mãos dadas carinhosas e particulares, íntimas, só de dois e de ninguém mais. Momentos privados roubados de um dia público.

E é a mesma coisa, isso e o contrário disso, porque tendemos a separar: parada gay. Não é parada gay. É só parada. Todos nós na mesma. Todos nós incessantemente indo e vindo entre o privado e o público, misturados no mesmo reality show ficcionalizado. De todos os dias.

Por um tempo, paradas gays foram um lugar onde “você podia ser você mesmo”. Hoje somos nós mesmos em todos os outros dias do ano. E no dia da parada gay, alguns de nós – gays ou não – atuamos para atender a uma necessidade que é da mídia e é a nossa: estabelecer alguma diferença. Não há gays que fingem o que não são e que, na parada, “se soltam”. Há gays que são exatamente como os não-gays (ou não tão gays, seguindo uma velha sabedoria gay) e que no dia da parada gay fingem o que não são: diferentes.

É bom tirar foto. E o velho tio, vestido de alguma coisa parecida com um soldado romano se soldado romano usasse plumas de avestruz na cabeça, sorri rugas embaixo do make-up teatral ao receber o pedido:

“Cê posa junto de nóis? É para mandar para o pessoal de Franca.”

Ele posa, afetuoso com as mocinhas e mocinhos que o envolvem, uma quase-família. É preciso ter o que mandar para Franca.

As fotos de Wolfe são montadas em plásticos grandes, como se fossem banners anunciando que a Salete, a Yorrana e as Zuleikas gostam do Chico Buarque e falam frases que parecem boas de escutar em um papo que gostaríamos de ter.

Dentro e fora, na galeria do Conjunto Nacional, lugar de passagem mas fora da rua, a exposição é fisicamente descentralizada, fora do eixo principal que vai da Paulista à Santos. É, ela mesma, um apontamento para o intangível, o fora do alcance, o que não está nem lá nem cá.

É um Oscar Wilde envelhecido, a única ausência:

“Being natural is simply the most irritating pose I know.”

“No crime is vulgar but all vulgarity is a crime.”

“I would sooner have 50 unnatural vices than one unnatural virtue.”

Para o bem e para o ruim, somos comuns, nós, somos mais ou menos banais, todos nós, igualmente.

Retratos de um universo escondido, de Barry Michael Wolfe - fotografia de Elvira Vigna Retratos de um universo escondido, de Barry Michael Wolfe - fotografia de Elvira Vigna Retratos de um universo escondido, de Barry Michael Wolfe - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna Parada Gay de São Paulo em 25 de maio de 2008 - fotografia de Elvira Vigna

É a natureza humana. Ninguém gosta de ver o outro muito tempo por cima e esse outro às vezes é um artista do porte de Woody Allen. Muitos teóricos já haviam aberto a cova, jogado o corpo e o primeiro punhado de terra (ou o décimo primeiro). E então veio Match Point, indiscutível obra de mestre repleta dos fantasmas/musas preferidos de Allen, vindos dos textos de Shakespeare e Dostoievsky, com direito a influência direta de Crime e Castigo, tanto na cópia do crime quanto na subversão de seu final. Em seguida, porém, veio Scoop, uma comédia de roteiro ralo com Allen atuando ao lado de Hugh Jackman. Apesar da estrutura interna bem construída, no geral não convencia. Natural então que houvesse expectativa em relação ao projeto seguinte – O Sonho de Cassandra. Egos e âmagos precisavam com urgência sanar a dúvida que norteia tantas conversas sobre cinema: gênio ou diretor ultrapassado? Abro ou fecho a cova? Mas gastei tanto dinheiro comprando a pá!

Como era de se esperar, Allen tomou a decisão mais sábia e O Sonho de Cassandra não pende nem para um lado nem para o outro. O filme não é uma comédia, apesar de lidar diretamente com a estupidez humana, nem chega a ser um suspense, apesar da crescente tensão. Seria essencialmente um drama se não fosse Allen o maior representante do espírito fatídico de Sófocles e Eurípides, o que faz de O Sonho de Cassandra uma boa tragédia grega.

A história é simples. Dois irmãos vivem uma vida apenas razoável sem muita grana. Terry (Colin Farrell) trabalha em uma oficina e é viciado em apostas. Seja corrida ou carteado, o que importa é a adrenalina e a sensação de virar o jogo no final quando os bolsos já estavam vazios. Ian (Ewan McGregor) é mais centrado. Trabalha no restaurante do pai ajudando-o, apesar de ser louco para sair de lá e tomar novos rumos mais interessantes. É o tipo de pessoa que olha sempre adiante, em busca da chance que mudará sua vida. Um dia, Terry resolve apostar alto e passa a dever muito dinheiro e fica com agiotas no seu pé. Já Ian conhece a mulher de sua vida e decide bancar o empresário de sucesso para conquistá-la. O que ambos têm em comum? Eles precisam de muito dinheiro para consertar seus problemas e recorrem a um tio (Tom Wilkinson) bem-sucedido e milionário. Quando contam seus problemas, o tio promete ajudá-los e aproveita para pedir um favor. Precisa eliminar um funcionário disposto a denunciar fraudes de sua empresa, caso contrário irá preso.

A partir daí, a redenção dos irmãos passa a ter um preço: a morte de outra pessoa.

Em princípio os dois reagem da mesma maneira. O tio quer demais e ele não vão ultrapassar certos limites. Com o desenrolar, as nuances de personalidade que Allen cultiva na primeira parte do filme começam a nortear rumos diferentes para cada um. Terry, lembrando, extrai nas bancas de aposta o que não consegue e nem quer na vida real: emoção. Para Ian, o mundo é o tabuleiro. Outro detalhe. Se Ian conseguir o dinheiro, ganha a mulher e o emprego que sonhou para si. Se Terry conseguir o dinheiro, escapa de uma provável morte, já que agiotas não brincam em serviço. Desse ponto de vista, parece que Terry tem mais a perder se decidir não matar a testemunha, mas ao mesmo tempo a sua situação o faz encarar a possibilidade da morte, deixando-o como uma dimensão mais precisa da vida.

Parando por aqui para não estragar o final mais do que Allen já estraga, vale dizer que, ao contrário do que acontece em Match Point, a cereja do bolo de O Sonho de Cassandra não é a direção de Woody Allen (que costuma dizer que simplesmente sai da frente dos atores e deixa que façam o que sabem), mas a atuação digna de Colin Farrell e Ewan McGregor. Retirados de seu habitat natural, os dois sobrevivem com proeza e lembram que ainda têm bastante para oferecer ao mundo do cinema. Já Woody Allen…

É difícil extrair algo novo quando o assunto é Indiana Jones. Isso vale para o crítico, para os atores e para Spielberg e George Lucas também. Para a sorte de todos os envolvidos, a dupla de magos do cinema sabia disso muito bem e não se arriscou a reinventar a roda. Estão lá incríveis cenas de perseguição, o clima caricato de HQ em movimento, os heróis e vilões canastrões e os demais elementos que compõem a atmosfera de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. A novidade? O filho do arqueólogo e extraterrestres muito, muito estranhos.
Agora um pouco de números.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de CristalO novo Indiana Jones custou a bagatela de US$185 milhões de dólares. Isso equivale a 15 milhões a menos que a continuação de Crônicas de Nárnia , 75 milhões a menos que Homem Aranha 3 e 115 milhões a menos que Piratas do Caribes 3. Ou seja, dentro do universo dos blockbusters que torram o orçamento em efeitos especiais Indiana Jones é até barato. Analisando dentro da série do Dr. Jones a coisa muda um pouco de figura. Pelos dados que consegui, Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida custou US$18 milhões e arrecadou 384 milhões; Indiana Jones e o Templo da Perdição custou U$28 milhões e arrecadou mais de 330 milhões, e Indiana Jones e a Última Cruzada custou U$47 milhões e ultrapassou 470milhões nas bilheterias. Chega a ser engraçado pensar em Spielberg ou George Lucas trabalhando com um orçamento desses. Claro que há um hiato de 20 anos entre o último filme da saga e essa quarta parte, os preços mudaram, mas o potencial global de um filme também. Ninguém espera que a relação gastos/lucro vá se manter para Indiana 4, mas tratando-se do Midas Steven Spielberg é melhor não arriscar. Você nunca sabe quando ele fará um fiasco cabeça, um filmão de Oscar ou um blockbuster tradicional, como é o caso deste Indiana Jones.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de CristalAgora um pouco de nomes. Partindo do princípio que nem todos no mundo sabem quem são Steven Spielberg e George Lucas, resolvi brincar rapidamente com o currículo dos dois. George Lucas não tem um currículo muito extenso como diretor nem mesmo como produtor. Logo depois de inventar o universo de Guerras nas Estrelas, ele fundou a Lucas Film e passou a se dedicar a efeitos especiais. Ele é o diretor do primeiro Guerra nas Estrelas e da trilogia mais recente. Nos seus planos, mais alguns filhotes da fantasia intergalática e uma série para a televisão.

Steven Spielberg, por outro lado, tem um currículo considerável. Teve um começo de mestre do suspense com Encurralado e Tubarão. É um dos grandes responsáveis pela popularização de filmes com alienígenas, graças ao seu ET e Contatos Imediatos do Terceiro Grau. Dirigiu Parque dos Dinossauros e Mundo Perdido, ganhou vários Oscars com a Lista de Schindler, voltou à ficção com Inteligência Artificial, Minority Reporte a esquisita versão de Guerra dos Mundos, e ainda tem um punhado de sucessos junto com Tom Hanks, vide O resgate do soldado Ryan.

Olhando a lista de ambos, é fácil entender a pergunta que todos fizeram ao saber que um novo Indiana Jones estava a caminho: por quê? Ninguém está precisando de dinheiro, Harrison Ford já está com 65 anos e não agüenta cenas de ação e a trilogia inicial é um sucesso incontestável. Bem, talvez nem toda continuação tenha espírito caça-níquel. Vamos considerá-la mesmo sendo uma teoria inocente. Outra, quando todos começaram a se perguntar por que mais um, esqueceram que por anos a pergunta era: por que só três? Os fãs também queriam mais, não só os estúdios de olho no dinheiro.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de CristalMais, Indiana Jones arredondou a fórmula de aventura pipoca que mais tarde seria usada por inúmeros filmes tais como A Múmia e Piratas do Caribe. Então, é um prazer ver um novo trabalho dos professores, já que seus alunos ainda não entenderam muito bem que o espírito da diversão não está só nos efeitos alucinantes, mas também envolve bons atores, história interessante, figurino caprichado e outras coisas mais. Se nada disso fosse verdade, ainda restaria um argumento convincente: eles podem. Harrison Ford, Steven Spielberg e George Lucas deram vida a um dos maiores heróis do cinema, nada mais justo que o trouxessem de volta quando quisessem (fosse 1, 2 ou 19 anos depois) e como quisessem (com mais auto-referências aos 3 primeiros do que aposta em uma estrutura original).

Alguns amigos se reúnem no bar, outros gastam US$185 milhões em uma seqüência de Indiana Jones. É a vida.

Em tempo 1: talvez o maior mérito de Reino da Caveira de Cristal seja acabar com o conceito de trilogia. Apoiado nele, muitos estúdios e diretores tapeiam o público para criar um clímax que obviamente não estava no planejamento inicial e assim arrecadar bilhões.

Em tempo 2: o filme minimizou o quanto foi possível o uso de telas verdes. Há muitos cenários e filmagens em locações como a Amazônia. Ponto positivo.

Em tempo 3: Harrison Ford, além de ter feito Indiana Jones, também atuou como Deckard (Blade Runner) e Han Solo, o herói de Guerra nas estrelas.

Já faz um tempo, dizem que Nietzsche é pop. Grupos se reúnem em uma tarde de sábado não para ver futebol, mas para discutir os livros do filósofo. As senhoras enfileiradas nos assentos especiais do metrô não trazem mais Dan Brown na mão, é Nietzsche que está lá em seus mais diversos formatos. Nas escolas, claro, o bigodudo é um sucesso desde o jardim. Dizem. Nunca testemunhei nada que comprovasse a onda pop em torno do escritor. Principalmente se pensarmos em pop como forma reduzida de popular. Talvez as pessoas queiram dizer que Nietzsche é um autor acessível, não necessariamente pelo conteúdo dos textos, mas pela quantidade de livros seus que podem ser achados, seja nas livrarias ou nas bancas de jornal. Quando não há mais nada para relançar, nova capa para experimentar, tradução fresquinha para fazer, é hora de voltar os olhos para os baús e papéis perdidos. Kafka e seu pai que o digam. É assim que geralmente nascem as coleções de obras completas (póstumas), livrões pesados e impossíveis de segurar que fazem mais sentido ao lado de enciclopédias empoeiradas enfeitando as prateleiras da biblioteca. De vez em quando, felizmente, alguns dos textos escapam do todo e, mesmo com cara de material incompleto, ganham capa e edição caprichada. A grande vantagem? Cabem na bolsa, pasta, mochila e são fáceis de carregar.

Cinco prefácios para cinco livros não escritos tem mais ou menos esse clima: o de um texto fugitivo.

A edição da Ed. 7 letras traz a primeira tradução brasileira dos cinco prefácios escritos pelo filósofo. São eles: 1. Sobre o PHATOS da verdade, 2. Sobre o futuro de nossos institutos de formação, 3. O estado grego, 4. Sobre a relação da filosofia de Schopenhauer com uma cultura alemã e 5. A disputa de Homero.

Nietzsche tinha acabado de publicar O nascimento da tragédia no espírito da música (também conhecido como O nascimento da tragédia, ou Helenismo e Pessimismo)e começava a rascunhar os prefácios do que deveriam ser seus próximos cinco livros. As obras nunca foram terminadas e as idéias foram reabsorvidas em outras obras do autor, mas Nietzsche resolveu dar um fim nobre aos textos. Reuniu tudo em um único volume e os entregou para Cosima, a mulher do compositor Wagner. Para quem é novo no universo do filósofo, Nietzsche teve por muitos anos uma admiração por Wagner que beirava o amor platônico. O fim desse amor se encontra no prólogo que Nietzsche escreveu 15 anos depois para seu primeiro livro (O nascimento…), chamado de prefácio para Richard Wagner.

Para você que é fã ou estudioso do autor, o livro é um presente. Os prefácios têm a qualidade extra da clareza da linguagem, característica que foi se perdendo com o passar dos anos, com o filósofo preferindo o rebuscamento para engrandecer idéias que poderiam brilhar também na simplicidade.

É possível que o mais interessante dos prefácios seja O Estado Grego, onde Nietzsche relê a cultura grega por um olhar moderno. E o que há de interessante nisso? O olhar moderno de Nietzsche se refere a 1870-80, e é estranhamente familiar à situação geopolítica que vivemos hoje, ano de 2008. A maior diferença talvez esteja no papel da religião. Enquanto na sociedade grega a religião funcionava como um momento de luz diante das sombras da vida real, hoje a religião é o combustível dessa escuridão, com o escapismo cada vez mais distante e corrompido.

Se fosse citar trechos de todas as páginas que marquei, metade do livro estaria aqui. Escolho então os dois que refletem melhor o pensamento geral que Nietzsche queria abordar. Como comumente acontece com grandes nomes da literatura ou da filosofia, é muito mais interessante ler os textos do que ler sobre eles, por isso deixarei que falem por si.

E agora, para alcançar as mais elevadas exigências de suas metas egoístas pelos meios estatais, antes de tudo o estado deve libertar-se completamente daquelas contrações terríveis e irregulares da guerra, de modo a ser usado racionalmente; e, nessa situação, a guerra é uma impossibilidade. Aqui, convém primeiro podar e abrandar o máximo possível os impulsos políticos particulares…” – O estado grego.

Quando se fala de humanidade, a noção fundamental é a de algo que separa e distingue o homem da natureza. Mas uma tal separação não existe na realidade: as qualidades ‘naturais’ e as propriamente chamadas ‘humanas’ cresceram conjuntamente. O ser humano, em suas mais elevadas e nobres capacidades, é totalmente natureza, carregando consigo seu inquietante duplo caráter”. –A disputa de Homero

Cinco prefácios para cinco livros não escritos
Fredrich Nietzsche
Editora 7 letras, 4ª edição.
O livro tem 82 páginas.
Da página 7 à página 16, prefácio de Pedro Süssekind para os prefácios.
Da 77 em diante, notas de entendimento.

FESTIVAL DE TEATRO DA LÍNGUA PORTUGUESA
– FESTLIP –

Produzido pela Talu Produções, o evento reúne grupos de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Portugal e Brasil e promove o intercâmbio cultural com exposição, oficinas teatrais, palestras, leitura dramatizada, mostra gastronômica e musical.

Em junho, o Rio de Janeiro será palco da 1ª edição do FESTLIP – Festival de Teatro da Língua Portuguesa (www.festlip.com). De 4 a 15 de junho, grupos de teatro de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Portugal e Brasil se apresentam no circuito SESC-Rio. Ao todo são 10 companhias, duas de cada país participante, e no final da temporada o público vai eleger o grupo revelação do FESTLIP. Paralelamente à programação teatral, o Festival também realiza oficinas de teatro, palestras, exposição no Espaço SESC, além de uma programação musical no Circo Voador, na Lapa, e uma mostra gastronômica no restaurante 00, na Gávea.

Inédito, o evento é produzido pela Talu Produções, sob direção artística da atriz e produtora Tânia Pires, e tem o objetivo de enriquecer as características comuns aos diversos grupos, além de promover o intercâmbio cultural dos países participantes. “O nosso objetivo é celebrar a riqueza e a diversidade teatral dos países lusófonos através do teatro, arte mais primitiva da expressão cultural”, avalia Tânia Pires.

O FESTLIP conta com o apoio de FURNAS, Aker Solutions, Ministério da Cultura, Rede SESC-Rio, Instituto Camões, todas as Embaixadas dos países participantes, e Comunidade dos Países da Língua Portuguesa (CPLP) e tem o público estimado em 12 mil pessoas, que terão acesso a ingressos com preços populares durante todo o festival.

FESTLIP – A PROGRAMAÇÃO

A programação do FESTLIP começa no dia 4 de junho com uma cerimônia oficial de abertura no Teatro SESC-Ginástico. No dia seguinte, 5 de junho, é inaugurada a exposição “O Teatro no Brasil e a chegada da Família Real”, no Espaço SESC, com curadoria de Álvaro de Sá. A mostra é composta por gravuras e ambientação cênica e vai traçar um breve painel do teatro no Brasil no século XVIII, com suas casas de ópera e sua transformação a partir da chegada da família Real em 1808.

Oficinas com diretores brasileiros renomados como Moacyr Góes, Sérgio Ferrara e Gilberto Gawronski serão realizadas para os atores participantes, contemplando a experiência desses encenadores em trabalhar a criação cênica com atores de diversas nacionalidades. As oficinas serão abertas para espectadores estudantes de teatro e demais interessados. Ao final do ciclo de oficinas uma leitura dramatizada dirigida por Sérgio Ferrara vai apresentar o texto teatral vencedor do “Prêmio Luso-brasileiro de dramaturgia Antônio José da Silva”, de 2007, organizado pela FUNARTE e pelo Instituto Camões de Portugal. As palestras ficam a cargo do dramaturgo e jornalista brasileiro Alcione Araújo, da escritora e jornalista moçambicana Rosa Langa e do ator, diretor e produtor teatral Eduardo Cabús.

Durante os 12 dias de atividades, o FESTLIP também realiza nos sábados dias 7 e 14 de junho, uma festa no Circo Voador, reunindo músicos de todos os países participantes: Mário Lúcio de Cabo Verde, Trio Vikeya de Angola, José Mucavele de Moçambique e Vivianne Tosto, Macau e Sandra de Sá representando o Brasil. A festa que contará com a presença dos atores do FESTLIP, será aberto ao público, com entrada franca, e contará com a apresentação do DJ português Señor Pelota para encerrar a noite.

Para complementar as atividades paralelas, o FESTLIP também terá uma Mostra Gourmet, no Restaurante 00. O chef Ray Cardoso assina o cardápio inspirado na culinária típica de cada país participante.

PROGRAMAÇÃO
FESTIVAL DE TEATRO DA LÍNGUA PORTUGUESA – FESTLIP

Teatro:

- Dia: sexta-feira, 6 de junho.
Teatro Ginástico: Grupo Tropa do Balaco Baco / Brasil (Pernambuco), com o espetáculo “A paixão e a sina de Mateus e Catirina”, às 19h.
Espaço Sesc Arena: Grupo de Curitiba / Brasil, com o espetáculo “Capitu”, às 21h.
Espaço Sesc Sala Multiuso: Grupo Gungu / Moçambique, com o espetáculo “Mulheres com H maiúsculo”, às 20h.

Entrada: R$ 10,00 (inteira) / R$ 5,00 (meia) / R$ 2,50 (comerciário)

- Dia: sábado, 7 de junho
Teatro Ginástico: Grupo Henrique-Artes / Angola, com o espetáculo “Côncavo e Convexo”, às 19h.
Espaço Sesc Arena: Grupo da Garagem / Portugal, com o espetáculo “A hora do arco-íris”, às 21h.
Calçadão de Copacabana*: Grupo O Bando / Portugal, com o espetáculo “Luto Clandestino”, às 20h e às 21h.
* A apresentação deste espetáculo será realizada no calçadão de Copacabana em frente à Rua Santa Clara, com retirada de senha 1 hora antes do espetáculo no Espaço SESC.

Entrada: R$ 10,00 (inteira) / R$ 5,00 (meia) / R$ 2,50 (comerciário)

- Dia: domingo, 8 de junho
Teatro Ginástico: Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo / Cabo Verde, com o espetáculo “O doido e morte” às 19h.
Espaço Sesc Arena: Grupos Raiz di Polon / Cabo Verde, com os espetáculos “Duas sem três” e “Dom Quixote das Ilhas”, às 19h30.
Espaço Sesc Sala Multiuso: Grupo Etu-Lene / Angola, com o espetáculo “Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada”, às 19h.

Entrada: R$ 10,00 (inteira) / R$ 5,00 (meia) / R$ 2,50 (comerciário)

- Dia: quinta-feira, 12 de junho
Teatro Ginástico: Grupo Tropa do Balaco Baco / Brasil (Pernambuco) com o espetáculo “A paixão e sina de Mateus e Catirina”, às 19h.
Espaço Sesc Arena: Grupo Mutumbela Gogo / Moçambique, com o espetáculo “As filhas de Nora”, às 21h.
Calçadão de Copacabana*: Grupo O Bando / Portugal, com o espetáculo “Luto Clandestino”, às 20h e às 21h.
* A apresentação deste espetáculo será realizada no calçadão de Copacabana em frente à Rua Santa Clara, com retirada de senha 1 hora antes do espetáculo no Espaço SESC.

Entrada: R$ 10,00 (inteira) / R$ 5,00 (meia) / R$ 2,50 (comerciário)

- Dia: sexta-feira, 13 de junho
Teatro Ginástico: Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo / Cabo Verde, com o espetáculo “O doido e a morte”, às 19h.
Espaço Sesc Arena: Grupo da Garagem / Portugal, com o espetáculo “A hora do arco-íris”, às 21h.
Espaço Sesc Sala Multiuso: Grupo Gungu / Moçambique, com o espetáculo “Mulheres com H maiúsculo”, às 20h.

Entrada: R$ 10,00 (inteira) / R$ 5,00 (meia) / R$ 2,50 (comerciário)

- Dia: sábado, 14 de junho
Teatro Ginástico: Grupo Henrique-Artes / Angola, com o espetáculo “Côncavo e Convexo”, às 19h.
Espaço Sesc Arena: Grupo de Curitiba / Brasil, com o espetáculo “Capitu”, às 21h.
Espaço Sesc Sala Multiuso: Grupo Etu-Lene / Angola, com o espetáculo “Atiraram o velho Katy-Ngotè para sua última morada”, às 20h.

Entrada: R$ 10,00 (inteira) / R$ 5,00 (meia) / R$ 2,50 (comerciário)

- Dia: domingo, 15 de junho
Teatro Ginástico: Grupo Raiz di Polon / Cabo Verde, com os espetáculos “Duas sem três” e “Dom Quixote das Ilhas” às 19h.
Espaço Sesc Arena: Grupo Mutumbela Gogo / Moçambique, com o espetáculo “As filhas de Nora”, às 19h30.
Espaço Sesc Sala Multiuso: Entrega Prêmio Revelação FESTLIP, às 22h.

Entrada: R$ 10,00 (inteira) / R$ 5,00 (meia) / R$ 2,50 (comerciário)

Exposição:

- “O teatro no Brasil e a chegada da família real” – Curadoria Álvaro de Sá.
Período: de 5 a 15 de junho.
Horário: de terça-feira a domingo, das 14h às 18h.
Local: Espaço Sesc Copacabana
Entrada Franca

Oficinas Teatrais:
*para atores do FESTLIP e aberto para espectadores. Distribuição de senhas no local.

- Gilberto Gawronski
Dia: segunda-feira, 9 de junho.
Horário: das 14 às 18h
Local: SESC Arena

- Sérgio Ferrara
Dia: terça-feira, 10 de junho.
Horário: das 14 às 18h
Local: SESC Arena

- Moacyr Goes
Dia: quarta-feira, 11 de junho.
Horário: das 14 às 18h
Local: SESC Arena

Leitura dramatizada:

Vencedores de 2007 do “Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia Antônio José da Silva”, organizado pela FUNARTE e Instituto Camões, dirigida por Sérgio Ferrara com atores participantes do FESTLIP.
Dia: quarta-feira, 11 de junho.
Horário: às 19h
Local: Espaço SESC Arena

Palestras:
*distribuição de senhas no local.

- Tema: “Extrato da mulher moçambicana no teatro e nas artes com o poder de transformação”
Com escritora e jornalista moçambicana Rosa Langa
Dia: quinta-feira, 5 de junho
Horário: às 19h.
Local: Espaço SESC Arena

- Tema: “Dramaturgia: duas ou três coisas que eu sei dela”
Com o dramaturgo e jornalista brasileiro Alcione Araújo.
Dia: sexta-feira, 9 de junho
Horário: às 19h.
Local: Espaço SESC Arena

- Tema: “O Drama sem cor”
Com o ator, diretor e produtor teatral brasileiro Eduardo Cabús.
Dia: terça-feira, 10 de junho
Horário: às 19h.
Local: Espaço SESC Arena

- Tema: “Extrato da mulher moçambicana no teatro e nas artes com o poder de transformação”
Com escritora e jornalista moçambicana Rosa Langa
Dia: quarta-feira, 11 de junho
Horário: às 18h.
Local: SESC Ginástico

Mostra Gourmet:

Período: de 4 a 15 de junho
Horário: a partir das 20h30.
Local: Restaurante 00.

Festa do FESTLIP

Dia 7 de junho: apresentação dos músicos Mário Lúcio / Cabo Verde, Trio Vikéia / Angola, José Mucavele / Moçambique, Vivianne Tosto / Brasil e Macau com participação de Sandra de Sá/Brasil. A festa será encerrada pelo DJ português Señor Pelota.

Dia 14 de junho: apresentação dos músicos Mário Lúcio / Cabo Verde, Trio Vikéia / Angola, José Mucavele / Moçambique, Vivianne Tosto / Brasil e Macau com participação de Sandra de Sá / Brasil. A festa será encerrada pelo DJ português Señor Pelota.

Local: Circo Voador – Arcos na Lapa s/n, Centro.
Horário: a partir das 22h.
Entrada Franca

ENDEREÇOS FESTLIP:
Espaço Sesc – Teatro Arena Rua Domingos Ferreira, 160 Copacabana
Espaço Sesc – Sala Multiuso Rua Domingos Ferreira, 160 Copacabana
Teatro Sesc Ginástico Av. Graça Aranha, 187 Centro
Circo Voador Arco da Lapa, s/n Lapa
Restaurante 00 Rua Padre Leonel Franca, 240
Gávea

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SOBRE OS GRUPOS E SINOPSES:

—-> Angola / Grupo Etu-Lene;
Peça: Atiraram o velho Katy – Ngotè para sua última morada
Diretor: Beto Cassua
Elenco: Neusa de Abreu Caleca, Ivete Lígia Ribeiro, Adão José, Avelino Sebastião, António Caetano de Oliveira
Duração do espetáculo: 1h15
Censura: 14 anos
O grupo se apresenta com o espetáculo Atiraram o velho Katy – Ngotè para sua última morada, a comovente história de um ancião que persuadiu seu filho, Caetano, a não se casar com a mulher que amava, e sim com Madó. O pai descobre, entretanto, que Madó está grávida de outro homem, e tenta alertar seu filho, que não lhe dá atenção. Desgostoso, decide se afastar do casal, indo morar num asilo.
O grupo teatral Etu-Lene, um dos mais populares de Angola, formou-se em Luanda em 1993 por jovens católicos que queriam revitalizar o teatro na cidade. Começaram se apresentando em igrejas, e ganharam nos últimos 14 anos os palcos angolanos e do exterior. Atualmente, dez integrantes participam da companhia, que privilegia comédias em seu repertório. O grupo conquistou prêmios importantes em seu país, como o Prêmio Cidade de Luanda, em 2001, e o Prêmio Nacional de Cultura e Artes, em 2002.

—-> Angola / Grupo Teatral Henrique-Artes;

Peça: Côncavo e Convexo
Diretor: Grupo Henrique Artes
Elenco: Flávio Ferrão, Hélio Taveira, Naed Branco, Ailton Silveiro, Anísia Correia
Duração do espetáculo: 1h20
Censura: 14 anos

O grupo apresenta o espetáculo Côncavo e Convexo, a emocionante história de um casal que sobrevive a todo tipo de embate, num roteiro baseado na situação política, econômica e cultural de Luanda, ambientada num cenário que privilegia signos como velas, latas vazias de cerveja, baldes coloridos e mobílias. O espetáculo venceu o prêmio de teatro angolense Cidade de Luanda 2008.
O Grupo Teatral Henrique-Artes surgiu em uma escola de Luanda, em 2000, e logo ganhou visibilidade no cenário artístico da cidade com espetáculos que abordam temas variados, explorando questões importantes para o indivíduo e a sociedade. O grupo ainda ganhou o prêmio de teatro da Cidade de Luanda em 2004.

—-> Moçambique / Grupo Gungu;

Peça: Mulheres com H maiúsculo
Diretor: Gilberto Mendes
Elenco: Gilberto Mendes, Samuel Malumbe, Elísio Cuinica Condo, Joanett Rombe, Emelda Macamo, Cecilia Cherinza, Vasco Condo
Duração do espetáculo: 1h40
Censura: 14 anos

O espetáculo Mulheres com H maiúsculo, procura incitar uma discussão acerca dos papéis do homem e da mulher na sociedade moçambicana. A peça gira em torno de quatro personagens: um executivo próspero e bem posicionado, que não consegue a mesma performance em casa; um deputado bem sucedido que não permite que sua noiva trabalhe; um empresário analfabeto, para quem a posse de dinheiro é sinônimo de poder e grandeza; e um homem que, por motivo da morte de seu irmão mais velho, tenta casar-se com a viúva, apoiando-se na tradição do “ku txinga”.
O Grupo Gungu foi criado em 1992 pelo escritor e diretor Gilberto Mendes, e destaca-se por suas montagens contemporâneas e a forte musicalidade em seus espetáculos, baseadas em histórias reais e contos africanos. O grupo já se apresentou em festivais da Noruega, Portugal, Espanha, França, Estados Unidos e Argentina, recebeu prêmios e menções honrosas, inclusive uma crítica do jornal português O Público que o considerou o melhor da cultura lusófona. Mendes foi premiado com Mérito Lusófono da Fundação Luso Brasileira para o Desenvolvimento da Língua Portuguesa, com o prêmio FUNDAC (Fundo Nacional da Cultura – Maputo), e recebeu medalha de honra da UNESCO.

—-> Moçambique / Mutumbela Gogo;

Peça: As filhas de Nora
Diretor: Manuela Soeiro
Elenco: Graça Silva, Lucrécia Paco, Yolanda Fumo
Duração do espetáculo: 1h20
Censura: 14 anos

O grupo moçambicano traz o espetáculo As Filhas da Nora, livre adaptação do texto de “Casa de Bonecas”, do norueguês Henrik Ibsen, feita pelo sueco Henning Mankell – que faz uma leitura a partir da experiência moçambicana. No texto original, a protagonista Nora abandona o marido e suas três filhas ao descobrir que sempre fora tratada como uma boneca, e não como uma mulher. A versão de Mutumbela Gogo trata das filhas que foram deixadas pela mãe. O que terá acontecido com elas? A partir desta questão, são debatidas as contradições e relações de afeto entre os indivíduos.
Mutumbela Gogo foi criado em 1986 pela diretora cênica Manuela Soeiro. A idéia, pioneira, era de conceber uma companhia verdadeiramente nacional, que discutisse a identidade moçambicana incorporando elementos da dança e música da região, e resgatando obras de escritores locais, ao invés de apenas reproduzir os clássicos europeus. Os espetáculos do grupo se desenrolam a partir da improvisação, o que permite observar criações coletivas em suas narrativas. No currículo da companhia, montagens em diversos países da Europa, e uma peça dirigida pelo cineasta sueco Ingmar Bergman. Mutumbela Gogo é reconhecido também pelo talento de seus atores: quase todos já participaram de filmes de diretores norte-americanos e ingleses.

—-> Cabo Verde / Raiz di Polon;

Peça: Duas sem três
Diretor: Mano Preto
Direto Musical : Mário Lúcio Sousa
Coreógrafa: Rosy Timas
Elenco: José Emanuel do Rosário Gonçalves Brandão, Elisabete Maria Fernandes, Luís Manuel Semedo da Rosa, José Rui Mendes Cardoso, Rosy Timas Tavares
Duração do espetáculo: 30min.
Censura: 14 anos

Peça: Dom Quixote das Ilhas
Diretor: Manu Preto
Direção Musical : Mário Lucio Sousa
Coreógrafo: Manu Preto
Elenco: Manu Preto
Duração do espetáculo: 30min.
Censura: 14 anos

O espetáculo Duas sem Três, do dramaturgo caboverdiano Mario Lúcio Sousa, trata da mulher e sua simbologia na sociedade e nos rituais africanos. O imaginário feminino é representado em um dueto das bailarinas da companhia.
A peça Dom Quixote das Ilhas, também escrita por Mário Lúcio Sousa, traz uma perspectiva regional para a obra de Miguel de Cervantes.
A Companhia de Teatro e Dança Contemporânea Raiz di Polon foi fundada em Cabo Verde em 1991 pelo diretor Mano Preto. O grupo destaca-se pela combinação de teatro, expressão corporal e música. Ganhou o Prêmio Especial do Júri no 5º Encontro Coreográfico da África e do Oceano Índico, e já se apresentou por toda Europa e África. Desde 1998 a companhia desenvolve um trabalho de promoção da dança contemporânea e integra o projeto Dançar o que é Nosso, um trabalho de cooperação entre a África, a América Latina e a Europa.

—-> Cabo Verde / Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo;

Peça: O doido e a morte
Diretor: João Branco
Elenco: João Branco, Luis Miguel Morais, Paulo Santos, Silvia Lima
Duração do espetáculo: 55min.
Censura: 14 anos

O grupo encena a peça O doido e a morte, do português Raul Brandão. Considerada uma pérola na história da dramaturgia portuguesa, o texto trata de dois personagens: um político poderoso e um homem que adentra seu gabinete com uma bomba de grande impacto embaixo do braço. Uma representação da revolta de um indivíduo perante a crueldade, a incongruência e a degradação do mundo moderno.
O Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo existe desde 1993 e já montou mais de 30 espetáculos, entre textos de autores consagrados com leituras “crioulas”, e de artistas caboverdianos. Participaram de inúmeros festivais e já se apresentaram em palcos de Portugal, Itália, Espanha, Holanda e Brasil, e já ganharam duas vezes o Prêmio do Mérito Teatral por Portugal e por Cabo Verde.

—-> Portugal / O Bando;

Peça: Luto Clandestino
Diretor: João Brites
Elenco: Maria Silva, Filipe Carvalho
Duração do espetáculo: 30min.
Censura: 14 anos

O espetáculo Luto Clandestino propõe ao espectador a experiência do voyerismo como parte de uma viagem introspectiva. Com fones de ouvido, o público observa pessoas desconhecidas e tem a oportunidade de matar a curiosidade a respeito de conversas íntimas, sobre medo, perversidades, amor, morte. Uma experiência de aproximação do outro que pode nos permitir enxergar melhor o mundo e a nós mesmos. O espetáculo faz-se na rua, em movimento, com 80 espectadores por apresentação. Os atores estarão equipados com sistema de emissão de rádio e o público com receptores.
O grupo Bando surgiu em 1974, em meio à agitação política e cultural por que passava Portugal. Conhecido internacionalmente, seu currículo conta mais de 65 espetáculos montados.

—-> Portugal / Grupo da Garagem;

Peça: A hora do arco-íris
Diretor: Ana Palma
Elenco: Maria João Vicente
Duração do espetáculo: 1h20.
Censura: 14 anos

A hora do arco-íris trata do teatro do qual participamos na sociedade: assumimos personagens ao longo da vida e aprendemos a viver com determinado rótulo, estigma, deveres e obrigações, de acordo com a encenação íntima em que nos inserimos. Maria vive na clausura de uma torre de marfim e faz uma análise de sua história, experimenta as vozes de personagens que fizeram ou ainda fazem parte de sua vida. Ao fazê-lo abdica, por um momento, do papel principal.
O Teatro da Garagem foi fundado em 1989, e dedica seu trabalho artístico à pesquisa e experimentação, explorando novas formas de linguagem, seja através do texto ou do desenvolvimento de novas formas cênicas. O dramaturgo Carlos J. Pessoa é o responsável pelos textos e pela direção artística do grupo.

—-> Brasil / Grupo de Curitiba

Peça: Capitu Memória Editada
Diretor: Edson Bueno
Elenco: Janja, Regina Maria Ortiz Bruel, Tiago da Luz, Marcelo Rodrigues de Oliveira
Duração do espetáculo: 1h20
Censura: 14 anos

Inspirada no romance Dom Casmurro, a peça Capitu Memória Editada está longe de ser apenas uma montagem da obra de Machado de Assis: propõe-se a refletir o universo do escritor no palco através da dúvida, do mistério, da memória e da fantasia. Além das lembranças de Bentinho, a trama também é contada por personagens paralelos e contemporâneos, que interagem com a obra de Assis e fazem referência a ele, convidando o público a preencher as lacunas, assim como fez o escritor.
O projeto Capitu Memória Editada foi iniciado pela atriz Janja, que interpreta a protagonista na peça. A adaptação e a direção do espetáculo é de Edson Bueno. A montagem é realizada desde 2005, e recebeu no ano seguinte o prêmio Gralha Azul – promovido pelo Centro Cultural Teatro Guairá, do Paraná.

—-> Brasil / Tropa do Balaco Baco (Pernambuco);

Peça: A paixão e a sina de Mateus e Catirina
Diretor: Romualdo Freitas
Elenco: Ronaldo Bryan, Pedro Gilberto, Mário Arantes, William di Castilho, Wellington França
Everaldo Marques, Givaldo Silva, Fabiana Moraes, Fábio Beserra, Fabian Queiroz, Lula Moreira, Romualdo Freitas, Wellington Santos, Dalva Laranjeiras
Duração do espetáculo: 1h20
Censura: 14 anos

O espetáculo A paixão e a sina de Mateus e Catirina é permeado de elementos do folclore nordestino. Trata-se da história de Catirina, que, grávida há mais de doze meses, tem desejo de comer língua de boi e tenta convencer Mateus, que é apaixonado por ela, a lhe presentear com a iguaria. Depois de muita insistência, Mateus arranca a língua do boi trazido especialmente do Maranhão para presentear a filha do coronel. O casal se envolve, então, em uma aventura para reanimar o animal moribundo.
A companhia Tropa do Balaco Baco – Equipe Teatral de Arcoverde surgiu da união de dois grupos teatrais de Arcoverde, cidade do sertão pernambucano. O grupo conquistou os prêmios de melhor espetáculo, direção, figurino e maquiagem da Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco – APACEPE/2008 -, no Recife, PE.

Carolina Mesquita, por email em 5 de abril de 2009, gentilmente nos alertou para um erro no texto que recebemos da assessoria de imprensa do festival:
Há um erro na sinopse do Mutumbela Gogo o grupo quando foi fundado a diretora e administradora do teatro Avenida era de fato a Manoela Soeiro, mas a encenadora e diretora artística do Mutumbela Gogo até início de 1987 era Isadora Dias (brasileira) convidada pela Manoela a fundar O Mutumbela Gogo juntamente com outros entre os quais a Lucrècia, Victor Raposo, etc. Entre as peças dirigidas por Isadora Dias encontra-se a peça teatral Quatro Peças para um Cenário Roído de Mia Couto, adaptação para a escrita dramatúrgica realizada pelo próprio Mia. Além de ser bailarina e atriz sou pesquisadora da escrita do Mia. Isadora encontra-se no Brasil e recebeu importantes prêmios em sua carreira, Itaú Cultural com Visões Silenciosas, FUNARTE, prêmio klauz Vianna em dança, Fomento e Pac.

Muito me agrada, no seu conto “A Princesa Alafiá“, a personagem principal ser uma princesa linda e representar o mesmo arquétipo junguiano das cinderelas da vida. Por outro lado, me surpreendeu que a localização fosse em um Quilombo. Como você vê a questão do cenário na literatura?

A descrição é um aspecto fundamental em um texto literário narrativo, pois com esse modo de organização do discurso o leitor tem a oportunidade de visualizar o cenário em que se desenvolve a ação e os personagens que dela participam. No caso do conto da princesa Alafiá o cenário é muito importante, uma vez que a narração pretende trabalhar com a História e formação da cultura afrobrasileira transmitindo de forma fiel os fatos que não são conhecidos através da História oficial.

A nossa tradição oral sempre foi rica em personagens negras ou mestiças. Como você vê o papel desta oralidade na formação da auto-estima infantil?

Minha proposta é trabalhar com a auto estima da criança negra, apesar da história da princesa Alafiá ser importante para todas as crianças, pois através das outras histórias que essa personagem vai contar, a criança será informada a respeito dessas das estórias pelas diversas etnias africanas que chegaram ao Brasil e formaram a cultura afrobrasileira e se reconheceram através dos personagens.

A que faixa etária se destina o seu trabalho?

A princípio achei que fosse para criança de 3 à 9 anos. Entretanto hoje vejo que esse trabalho alcança qualquer idade… Alcança pessoas que compreendem a dimensão ideológica dessa temática e principalmente aquelas que se identificam com essa princesa de pele negra, cabelos crespos olhos escuros, lutadora, guerreira… Ou seja, a mulher negra brasileira.

Você pretende musicar a Alafiá? Ou representá-la em espetáculos teatrais?

Esse conto já virou uma contação de estórias/performática, pois através de movimentos de dança de origem africana e som de tambores, onde entro para fazer a narração vestida de princesa africana. Faço essa apresentação em vários espaços e os resultados são chocantes!

Você considera que a contação de estórias pode exercer um papel importante na formação da criança? Como a contação de estórias pode ajudar a literatura?

Acho que o contato com a literatura é muito importante na formação das identidades da criança. Vou responder melhor essa questão a partir da experiência de meu trabalho.

A contação da História da Princesa Alafiá tem a intenção de trabalhar a auto-estima da criança negra, desconstruindo o conceito hegemônico de beleza, passado também pelas princesas brancas (Cinderela, Branca de Neve..).

Acredito que esse trabalho proporciona um ambiente lúdico e estimula a capacidade imaginativa do público e ao mesmo tempo contribui para a elevação da auto estima da criança negra, que está inserida de forma desigual e representada por meio de papéis sociais que reforçam os estereótipos que sustentam idéia de inferioridade do negro na sociedade.

O conto retrata a história de uma princesa negra que morava no reino de Daomé, no Continente Africano e que veio para o Brasil através do tráfico negreiro, no período da colonização portuguesa. Minha intenção ao escrever tal narrativa ficcional foi fazer frente à hegemonia dos contos de fadas conhecidos no Brasil, desconstruindo a ideologia de termos um único padrão de beleza valorizado, com o objetivo de elevar a auto-estima da criança negra brasileira.Está pautado nos vários aspectos históricos do período e mantém a mesma estrutura dos contos tradicionais: há uma princesa, mas negra, há o sofrimento, mas a princesa não necessita de um homem para resgatá-la, pois ela toma uma atitude impulsionada pelo seu “espírito” guerreiro e encontra um verdadeiro amor, mas a noção de felicidade é outra que não a de viverem felizes para sempre, imersos em riquezas, morando em um castelo.

A princesa Alafiá é uma princesa que “tem a pele negra como a noite, olhos grandes e escuros e crespos cabelos”.

Entendo que faz parte da luta pela afirmação de uma identidade que nos foi tirada e que tentamos reconstruir, a produção de uma literatura voltada para crianças e adolescentes, com o objetivo de influenciar à construção de suas identidades sócio-culturais. Pois nesse momento importante da formação da personalidade, ao se depararem com valores racistas ainda cristalizados em nossa sociedade, possam desenvolver símbolos próprios de auto – reconhecimento que elevem a sua auto estima.

A pesquisadora e escritora Sinara Rúbia apresentou recentemente o tema na Universidade Castelo Branco.

O Teatro do Planetário tem uma disposição fantástica. Não aquela coisa tradicional de platéia e palco. É um teatro semi-arena, onde a platéia faz um semicírculo, rodeando o palco. Isso devia ser modelo também para salas de concerto, tipo o La Roque d’Anthéron.

Desde o início fiquei fascinado pela disposição dos tapetes e dos bancos. Os tapetes eram de dois tipos: doze tapetes orientais de comprimentos variados e seis pequenos tapetes de grama sintética (que qualquer um juraria ser natural), dispostos em formato retangular. Os tapetes de grama sintética cobriam as pequenas áreas vazias entre os tapetes orientais, que não se encaixavam perfeitamente, mas de forma tão harmoniosa e simples que do conjunto emanava uma beleza exótica. Os quatro bancos estavam, e como eu gostei disso, dispostos simetricamente, de forma que dois bancos lado a lado compunham, aproximadamente, as arestas maiores do retângulo. A simplicidade do cenário e todo esse senso de organização me transmitiram uma sensação agradabilíssima de calma e segurança, um clima quase familiar. Aquela sensação de “quentinho” e de conforto, um ambiente aconchegante ao olhar, como se o cenário se estendesse até a platéia, e nós também fizéssemos parte do cenário.

A mudança de ambientes entre os atos era caracterizada pela mudança da disposição dos bancos, um pequeno toque de genialidade. Interessante como a simples mudança de posição dos bancos gerava uma total alteração de clima. Feng shui? Os tapetes foram cortesia da Ianni Tapetes Orientais, belo acervo.

Ao começar a peça, uma musiquinha (e nisso não há nada de pejorativo), composta de arpejos simples e harmonias delicadas, quase uma caixinha de música, com o cenário todo escuro. Um a um, os tapetes foram iluminados (ao final, as luzes se apagaram, na ordem inversa). A “musiquinha” se insinua por outras vezes durante a peça, sendo um elemento de coesão, assim como a ordem dos tapetes nos diz claramente (sem ser vulgar, grosseiro ou óbvio, apenas de forma simples e bela) “começo” e “fim”.

Entra o elenco: doze atores. Mas não sentam três em cada banco. Liubov Andreievna (sempre o nome composto, conforme a tradição russa: prenome, nome do meio, que é o nome do pai mais um sufixo, e sobrenome. Segundo essa tradição, é não apenas respeitoso mas essencial usar o prenome e o nome do meio ao se dirigir a uma pessoa com quem não se tem muita intimidade) e Gaiev sentam-se num dos bancos, deixando quatro personagens em outro.

Essa organização dos personagens nos bancos ao início tem um significado mais profundo. Separando o elenco em blocos criam-se relações não apenas entre os personagens, mas entre os blocos também. Os blocos têm um papel importante na peça (bem divididos entre os atos, como se cada ato “pertencesse” a um dos bancos, originalmente), e os personagens que sentam juntos têm muitas características em comum.

A arte que mais se aproxima da música, ao menos para o artista, é o teatro. Ambas são artes performáticas e nisso há uma espontaneidade e um fator de risco muito grande. Como disse Piotr Anderszewski, o artista estuda, pratica, ensaia, para reduzir a possibilidade de um desastre. E como disse Martha Argerich, temos que nos preparar 150%, para sermos capazes de conseguir, pelo menos, 60%.

A peça é uma delícia: quatro atos, não longos, nos quais a história se desenvolve. Logo em uma das primeiras cenas o problema é apresentado: o Jardim das Cerejeiras, nome dado à casa de Liubov Andreievna e Gaiev, seu irmão, por ter um maravilhoso jardim com lindas cerejeiras, será leiloado, devido às enormes dívidas adquiridas por ambos.

Não achei uma só heterogeneidade no elenco. Todos, todos absolutamente perfeitos. A peça também e o ambiente, igualmente maravilhosos e bem construídos.

Um pouco sobre as atuações, sem nenhum critério de ordem dos nomes, mas convenientemente arrumados em blocos. Não os de Tchekhov, os meus:

Peter Boos como Iacha (e uma breve aparição de um andarilho maltrapilho). Magnífico, foi o que, de longe, mais me fez rir, com seus modos aristocráticos e exagerados (Epikhodov também, um pouco). E o personagem, com um ar de “não agüento toda essa boçalidade, preciso ir para Paris”. O conflito com a mãe é interessantíssimo, visto que ela não aparece em nenhum momento. À simples menção do nome da mãe, ele sai do sério. Uma jóia de frescor e vida, esse personagem, tão caricato, e, por isso mesmo, tão real.

André Stock como Epikhodov. Junto com Simeonov-Pichtchik e Charlotta, Epikhodov é um personagem meio “peixe fora d’água”. É certo ser hilário com sua falta de jeito e seu apelido de “Senhor Desgraça”.

Monica Biel como Charlotta. Charlotta é uma personagem ao mesmo tempo triste e engraçada. É uma senhora de olhar perdido, criada da casa, que não se casou, não sabe ao certo sua idade e não tem família. PAra ela, como ela mesma diz, tudo “tanto faz”. À parte disso, convive bem com sua desgraça, está sempre sorrindo ou cantando.

Sidy Correa como Simeonov-Pichtchik. Ele diz que os Simeonov-Pichtchiks descendem diretamente do cavalo que Nero nomeou senador. É um personagem honrado, sincero, leal, fiel e cativante e o ator transmite isso claramente.

Aurélio de Simoni como Firs, o velho mordomo de oitenta anos. Maravilhosa interpretação, um personagem profundo, a quem é dada a responsabilidade de encerrar a peça, solitário, deitado num banco. Parabéns também a ele pela iluminação genial.

Deborah Evelyn como Liubov Andreievna. Excelente retrato do espírito generoso e decadente da mulher falida. Não tinha um tostão no bolso, mas deu esmola ao andarilho e emprestou dinheiro ao amigo necessitado. Deborah Evelyn está incrivelmente natural nesse papel, que não é simples nem fácil.

Gláucio Gomes como Gaiev. Um tantinho ranzinza e verborrágico, Gaiev é irmão de Liubov Andreievna. Só pensa em sinuca e soluções desatinadas para o problema financeiro. O ator, muitíssimo competente, transmite com simplicidade toda a falta de simplicidade de seu personagem.

Claudia Sardinha como Ánia. Ánia é a filha mais nova de Liubov Andreievna, tem dezessete anos. Gostei muito da interpretação dessa jovem atriz, muito jovem e muito talentosa. Ela conseguiu vencer o nervosismo inicial na apresentação dos personagens e brilhar.

Elisa Pinheiro como Vária e Julia Marini como Duniacha. Irriquietas e elétricas, hilárias e excelentes atrizes. Ánia é filha adotiva de vinte anos de Liubov Andreievna (fato não mencionado a não ser na apresentação dos personagens, coisa que fala um pouco mais sobre a personalidade de Liubov Andreievna). Duniacha é a criada da casa, apaixonada por Iacha. De tanto conviver com as classes altas “ficou fina” como ela mesma diz, e essa é a origem de sua azáfama.

Leandro Daniel Colombo, como Lopakhin. Lopakhin é o personagem mais denso da peça. Seu pai e seu avô foram servos na propriedade dos ancestrais de Liubov Andreievna e ele tem uma certa obsessão com isso. Junto com o rancor pelos antepassados, alimenta um enorme carinho por ela, o que delineia um conflito: mesmo entrando em “guerra” contra seus os antepassados (os dela), ama-a e quer protegê-la. Leandro Daniel Colombo executa magistralmente as dramáticas e intensas cenas do terceiro e quarto atos, quando esse conflito chega ao clímax.

Marcos Marjan, como Trofimov. É o único personagem puro em toda a peça. Feio, mas de olhos sonhadores. Tão perdido na sua utopia que nada da realidade o afeta, nem mesmo o dinheiro. Uma antevisão do socialismo utópico, da própria revolução em 1917? O ator foi terrivelmente convincente.

Anton Pavlovitch Tchekhov, importantíssimo escritor e dramaturgo russo foi um dos expoentes do conto moderno. Compartilhava a idéia da impressão total com Poe: tudo num conto tem um sentido, cada elemento deve causar uma reação pré-determinada pelo autor, no leitor ou expectador. Tchekhov era médico durante o dia e escritor durante a noite. É engraçado como uma peça escrita em 1903-04 trata de um tema (e trata desse tema de uma forma) tão atual. Podia perfeitamente ter sido escrita nos tempos do Collor, Bush ou Thatcher.

Meus parabéns ao elenco (duplamente ao Aurélio de Simoni, pela iluminação também), e ao Rostand Albuquerque pelo cenário. E se o Anton (Tchekhov) por acaso ler, a ele também.

serviço
Teatro Maria Clara Machado
Padre Leonel Franca, 240
Gávea
Rio de Janeiro, RJ
(21) 2274-7722

-> download da peça em inglês (The Cherry Orchard), no projeto Gutenberg, junto com outras de Anton Tchekhov

A fotografia documental existe há mais de cem anos e talvez por isso eu tenha saído da exposição de Lucille Kanzawa na Pinacoteca com a sensação de dejá vu que sempre tenho com imagens muito datadas.

Kanzawa conta uma fatia da história da comunidade japonesa Yuba, em Mirandópolis no interior de São Paulo. A história é comovente: ela é filha do médico que atendeu gratuitamente por décadas a comunidade. O cartaz explicativo nos conta que a cultura japonesa considera como irmão aquele do mesmo signo e aquele que está próximo.

Lucille KanzawaAs fotografias são corretas, como manda o fotojornalismo, mas esta correção deixa também transparecer uma certa estagnação, inclusive estética.

O Japão me fascina. De um lado, Ukiyo-e (que eu tanto amo), de outro tecnologia de ponta e uma modernidade mais veloz do que sou capaz de dar conta. Amo este sincretismo de tempos tão diferentes. Acredito, honestamente, que nenhuma outra cultura expressa, cria e convive com isso tão bem.

Infelizmente, entretanto, não encontrei esta ambivalência na (ótima) cafeteria da Pinacoteca. Encontrei fotografias que não conseguiram vencer o seu próprio veículo e ficaram presas em ser fotografias stricto sensu.

Agora, vá à Pinacoteca. Veja os Ukiyo-e e aproveite para tomar um café no andar debaixo e ver as fotografias. A exposição da Kanzawa é gratuita e a de Utagawa Hiroshige só custa 4 reais (2, meia). A Pinacoteca é no metrô da Luz e mesmo que você só vá tomar água olhando árvore já é bom.

- Carolina Vigna-Marú


Lucille KanzawaHá algumas armadilhas nas fotos conteudísticas. Elas não escapam de uma aspiração formal e aqui não é exceção. Lucille Kanzawa, filha de um amigo dos membros de uma comunidade japonesa em Mirandópolis, decidiu documentar o espaço de sua origem familiar. As imagens em PB, mais do que as em cores, mostram esse impasse: o importante é o que mostram, mas mostram apuradamente – composições, massas de claro/escuro. E ao dizer isso me ocorre mais uma armadilha. A fotógrafa tem por tema um espaço, mas o que ela fotografa na verdade é um tempo. No formalismo citado antes se inclui um hiato, um olhar imóvel para a câmera, uma ausência de ritmo nas linhas.É um tempo, e um tempo específico, o tema que se disfarça em geografia. E, mais uma armadilha: são fotos que se propõem espelhar uma comunidade. Assim, o registro pessoal, o que poderíamos supor como o viés único de um autor cede lugar a um estar-no-mundo comunitário, uma espécie de “voz do grupo”. A fotógrafa, na distância média que mantém de seu assunto, nos fala de sua inclusão: não se põe nem tão próxima que o agrida, nem tão longe como quem não pertence.

E, mais uma questão: ao exaltar uma vida “natural”, que “preserva tradições” e, portanto, não urbana, cosmopolita e miscigenada, Lucille Kanzawa também caminha em mais uma fina linha divisória entre uma expressão artística (mesmo se, como já falei, hesitante frente à importância do conteúdo explícito) e uma assertiva de cunho marcadamente ideológico – o que escapa ao escopo do estético embora, sim, o estético sempre se insira na historicidade.

- Elvira Vigna

(texto escrito a 4 mãos)

Comemorando 20 anos de sua criação, a peça de Plínio Marcos entra em cartaz em maio

A Mancha Roxa estréia nova temporada no Teatro Augusta Encenada pelo grupo Disritmia Cênica, A Mancha Roxa estréia sua 3ª temporada, dia 7 de maio, quarta-feira, no Teatro Augusta. Dirigida por Alexandra da Matta e encenada por sete jovens atrizes, a peça conta a história de seis mulheres que descobrem ter o vírus HIV, doença predominantemente masculina na época (anos 80) e conhecida como “mancha roxa”, ou apenas “roxa”.

O autor Plínio Marcos com toda sua ousadia denuncia um país onde a vida humana e a saúde pública são tratadas com descaso, retratando com extrema força e crueza as relações de opressão, rejeição, violência, solidariedade e rebeldia, de mulheres em situação limite. Uma realidade da época, porém não tão distante dos dias de hoje.

Em cartaz até 26 de junho, todas as quartas e quintas-feiras, às 21h, no Teatro Augusta, A Mancha Roxa celebra os 20 anos da peça, escrita em 1988 por Plínio Marcos. Também se iniciam as comemorações em homenagem aos dez anos da morte do autor, que acontece no próximo ano.

Mais informações pelo telefone (11) 3151-4141.

Sobre o Disritmia Cênica
Criado em 2005, o grupo Disritmia Cênica é formado por atores do Instituto de Arte e Ciência – INDAC (Escola profissionalizante de atores há mais de 20 anos empenhada com o ensino e a pesquisa teatral). Funcionando como um núcleo de estudos, o grupo se reúne semanalmente para leituras e exercícios teatrais. Suas peças estão sempre em busca de um teatro contemporâneo.

Sobre o autor
Um dos maiores poetas do teatro brasileiro, Plínio Marcos tem em seu tema predileto a marginália. Entre seus trabalhos, estão “Madame Blavatsky”, “Jesus Homem”, “Balada de Um Palhaço”, “Dois Perdidos numa noite suja”, “Abajur Lilás” e “Navalha na Carne”.

Informações: A Mancha Roxa, de Plínio Marcos. Drama. Em um presídio feminino, seis encarceradas sentem o drama de serem portadoras do vírus HIV, cujo nome popular nos anos 80 era justamente “a mancha roxa”. Com Grupo Disritmia Cênica. Dir: Alexandra de Matta. (45min). 16 anos. Teatro Augusta Sl. Experimental (R. Augusta, 943 – Cerqueira César-SP – Tel: 3151-4141); www.teatroaugusta.com.br ; Quartas e quintas, às 21h. Estréia 07/05 até 26/06.

No dia 16 de maio, sexta-feira, às 20h, a Fundação Logosófica promove o VI Encontro Nacional dos Docentes de Escolas Logosóficas (Endel), em Belo Horizonte, com a reunião de 464 especialistas dos Colégios Logosóficos. Além disso, para propagar os ensinamentos do educador Carlos Bernardo González Pecotche, estão programadas palestras gratuitas e abertas ao público, no mesmo dia e horário, em Brasília, Chapecó, Goiânia, Rio de Janeiro e Uberlândia. No Rio, os interessados podem conhecer a pedagogia logosófica na r. General Polidoro 36, Botafogo. Informações e inscrições: (21) 2543-1138 ou acesse www.colegiologosofico.com.br

Serviço
VI Encontro Nacional de Docentes em Escolas Logosóficas – ENDEL

Encontro em Belo Horizonte e palestras simultâneas em Brasília, Chapecó, Goiânia, Rio de Janeiro e Uberlândia.

Tema: A Pedagogia Logosófica

Data:16 de maio de 2008

Horário: das 20h às 21h15

Endereço: r. General Polidoro 36, Botafogo (próximo à estação de metrô)

Informações e inscrições: (21) 2543-1138 ou acesse www.colegiologosofico.com.br

Um dos dois curadores, o Alexandre Hypolito, falou algo sobre o embate entre o público e o privado. A gente entende o que quer. Eu andava lendo sobre a formação de sentido e/ou identidade na internet e entendi o que quis: o dentro e o fora tão misturados da rede – e, por ilação, não só na rede. Fui lá para ver se tinha montagens, colagens. Pois um dos aspectos dessa formação de sentido/identidade de grande rapidez é que ela é também, ao mesmo tempo e surpreendentemente, de grande lentidão. Digo: você vê as partinhas – que vão ser integradas ou que vão modificar o fluxo contínuo de formação do sentido/identidade – se juntando no momento mesmo em que se juntam. Hipertextos todas elas que, à medida em que o texto vai sendo elaborado, perdem seu negrito e o www iniciais, vão pegando um jeitão de frase narrativa mesmo. Ou em vez de frase, imagem momentaneamente proto-organizada. Isso, claro, antes de se abrirem – frase ou imagem – outra vez para um exterior que nem mais é exterior (da mesma maneira em que não há, a bem dizer, um interior – as peles separatórias de hoje todas furadas por piercings, problematizadas todas elas pelo oco que nos habita a nós, não mais estátuas de algum material maciço mas vasos ritualísticos, se tanto).

Em cheio.

A exposição na Emma Thomas se chama Terceiro Espaço porque junta gente do Rio e de Minas (o segundo curador, de Minas, é o Wagner Rossi) nesse terceiro espaço que não é uma coisa nem outra. E que, curiosamente, também não fica onde fica, na Rua Augusta, SP, pois tem uma entradinha de vila que a separa dos bares, ônibus, prostitutas e comércio de logo ali.

E nela, as montagens, colagens, superposições e agrupamentos que eu havia adivinhado.

Entre eles:

Paulo Narazeth - fotografia de Roberto Lehmann

Paulo Nazareth (Minas) fez uma prateleirinha de pequenas inutilidades afetivas, dessas que passam e mais rápido passariam não fossem, justamente, afetivas. Um doce não mais fabricado, um fumo de corda, carrinhos de brinquedo feitos de latinhas de um tempero não mais vendido. Um saquinho de chá usado. Um desenho onde está escrito “nostro adesivo invisibile para proteger o projeto da máquina que nada serve”. A prateleirinha uma concorrente da internet, caseira e tão lenta quanto, com seus hiperlinks de memórias.

Rodrigo Castro de Jesus - fotografia de Roberto Lehmann

Rodrigo Castro de Jesus (Minas) é o próprio vaso ritualístico. Pôs uma camada de látex em cima do corpo. Tirou. Emendou. E voilà, um corpo oquinho, com sua “pele” precária, irregular, de grandes entradas ou saídas. E mais: que corpo que nada, pedaços do corpo. Porque, justamente, ter um corpo inteiro é luxo que perdemos. Temos pênis (alguns de nós, quero dizer), panturrilhas, mãos…

Tereza Costa (Rio de Janeiro) fez algo semelhante. Rolou na tinta, grudou em um vidro essa espécie de adesivo que se formou. Uma monotipia. Se rolar outra vez dá outro resultado. Também aqui pedaços de corpo – íntimos mas externos ou, ao contrário, um lado de fora formado por um contato íntimo – que passam rápidos e lentos.

Patrícia Franca (Minas) põe esse texto perto de seus objetos-olhos: “Como uma obra de arte – ela repetiu, seu olhar indo da tela aos degraus do salão; enquanto seu olhar ia vagamente de um objeto ao outro, a velha questão que continuamente atravessa o céu do pensamento, a vasta questão, generalizada, sujeita a aparecer em tais momentos, vem se apresentar a ela: qual é o sentido da vida?” É da Virgínia Woolf.

Rodrigo Mogiz - fotografia de Roberto Lehmann

Rodrigo Mogiz (Minas) também costura pedaços. Literalmente. Com agulha e linha, ele perpassa camadas translúcidas de desenhos superpostos, um hiperlink de bordadeira, uma construção inacabada, como o são todas. Ali, a agulha ainda presente, instrumento a ser retomado a qualquer momento. Frases escritas entre os conjuntos translúcidos falam de um príncipe que se torna Adão, de uma hora em que é preciso voltar a Londres. Porque tem mais uma coisa nessa formação de sentido/identidade tão rápida e tão lenta: não há distinção entre o público e o privado e nem, tampouco, entre o fato e a ficção.

Não importa o gênero, o segredo para um bom filme está no roteiro, direção, atuação e uma idéia precisa de quem é seu público-alvo. Homem de ferro é o primeiro filme da Marvel (editora de HQs) como estúdio, o que garante uma parte da equação: eles conhecem o próprio público como ninguém. Na direção, ou por falta de dinheiro ou porque ainda há vida inteligente em Hollywood, escolheram uma figura pouco conhecida com apenas um blockbuster de gosto duvidoso no currículo: Jon Favreau, responsável por Elf (o tal blockbuster) e Zathura (da família Jumanji). Para fechar com chave de ouro, Robert Downey Jr. acorda em um belo e dia, se olha no espelho e pensa: por que não eu?

Robert Downey Jr. teve um problema com drogas, ficou um tempo fora de cena e deu a volta por cima. Mais informações você encontra no Google. Sobre a carreira dele, a verdade é que nunca foi um figurão do star system hollywoodiano, o que não o impediu de aparecer em filmes interessantes como: Short Cuts, Eros, Garotos Incríveis, Chaplin, Kiss Kiss Bang Bang, O Homem Duplo e, recentemente, Zodíaco.

Com a franquia Homem de Ferro, Downey Jr. finalmente fará seu pé de meia. Em menos de uma semana o filme alcançou a marca de US$220 milhões de bilheteria mundial. Recapitulando: sendo a primeira aposta de um estúdio, com um ator que não é associado a filmes de heróis, um diretor desconhecido e um orçamento de US$140 milhões a Marvel deve estar respirando aliviada nesse momento (sem falar das tensões com Hulk, mas isso é outra resenha).

cartaz de Homem de Ferro Ninguém pode negar que uma parte considerável dessa cifra se deve à maestria de Downey Jr. no papel, que conseguiu enriquecer o personagem com nuances de humor e um caráter duvidoso para um herói super patriótico. Mas não vamos esquecer que o ritmo do filme se deve ao roteiro de Mark Fergus e Hawk Ostby, responsáveis também por Filhos da Esperança. A brincadeira é a mesma nos dois – uma história linear com toques de roadmovie, feita de pequenas ações isoladas que vão mudando a vida do protagonista e deixam em segundo plano as inter-relações dos personagens. Todos são figurantes até que se prove o contrário, com exceção, é claro, do Homem de Ferro que na maior parte do tempo é uma armadura 3D voando por aí, com o rosto de Downey Jr. aparecendo em uma tela apertada (como se dentro da armadura, capisce?) conseguindo tirar leite de pedra.

O que realmente me chamou atenção foi a relação do filme de herói made in HQs com a noção geral da ficção-científica. Desde que Kubrick brilhantemente criou 2001: uma odisséia no espaço, o futuro estava lá adiante. Iríamos voar, conhecer novos mundos e em 2010 até faríamos contato. O universo não era mais o limite. Spielberg reforçou essa noção com seus ETs bons e maus, e Star Trek ajudou a moldar muitos dos projetos de pesquisa que viriam a seguir.

Só que o futuro chegou. Aliás, o futuro é passado. Não fizemos contato, não dominamos o espaço e cá entre nós a situação não anda nada boa. A robótica não avançou tudo o que prometia ao alcance de nossos olhos e os robôs ainda lutam para sorrir e levantar as sobrancelhas. A verdadeira saga robótica não está nas ruas nos conflitos de ciborgues rebeldes, mas nas fábricas automotivas e nas plantações de soja.

E o que virou o futuro/presente então? A genética. O mundo que sofre com a fome, os vírus que se propagam, X-Men e heróis mutantes. As ciências biomédicas ganharam de longe em Hollywood. Você pode argumentar que AI de Spielberg é relativamente recente, mas não se esqueça que ele é a finalização de um projeto original de Kubrick, e não, Eu Robô não conta, pois sofre da mesma síndrome do livre arbítrio de dezenas de filmes de qualquer gênero.

Vamos então para Matrix. As máquinas dominaram o mundo. Então é uma ficção. Mas esse é o ponto. Em 2001 e Star Treks, é o homem quem domina a máquina. A força do homem vinha da ciência e em Matrix o homem é uma espécie de super-herói com poderes divinos, cumprindo uma profecia, para recuperar seu território (não deveria ser, se os irmãos diretores tivessem se lembrado da idéia original ao fechar a trilogia, mas assim aconteceu). Pensando no novo Star Trek, perceba que ele não avança mais no tempo. As novas gerações foram deixadas de lado e a história virá para o começo de tudo a Enterprise sendo construída e fazendo o primeiro vôo, o que nada mais é do que uma forma de compensar o equilíbrio entre nosso presente-futuro e a idéia de futuro da saga. O filme que por incrível que pareça trouxe a robótica de volta ao centro do jogo foi Transformers, com seus robôs alienígenas. Ainda nele, os homens estão atrasados tecnologicamente e precisam da ajuda de outros robôs para vencer, mas a ciência tinha o peso maior da equação.

Como quem não quer nada, surge então Homem de Ferro e resgata o espírito das antigas ficções-científicas, nas quais o homem está no comando, é capaz de pesquisas avançadas, de usar a tecnologia a seu favor e domar o monstro. Aqui, a raça humana ainda não levou a rasteira. Quando Tony Stark escapa dos terroristas em uma caverna e, de volta ao seu laboratório, constrói e ajusta peça por peça a sua armadura, ele faz mais do que se tornar um super-herói e domar a ciência, ele reabre um dos nichos mais prolíficos da indústria do cinema americano.

Cosmologia do impreciso

Dia 17 de maio – no Bar do Ernesto, 41, a partir das 20:30, com direito a chorinho e samba. Não perca!

A Editora 7Letras e o Bar do Ernesto convidam para o lançamento do livro

COSMOLOGIA DO IMPRECISO

de Oswaldo Martins

sábado, 17 de maio
a partir das 20h30

Bar do Ernesto
Largo da Lapa, 41, Centro

A Companhia do Feijão reencenou o espetáculo Mire Veja, baseado no livro Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato. Quis ver o espetáculo porque o livro de Ruffato já me atrai por isso mesmo: uma transposição de semiologias, uma ida – perfeita – de um código lingüístico a outro.

Falo de Jackson Pollock.

Pintava com as telas, grandes, no chão. Jogava as tintas. As tintas caíam sobre a tela e sobre tudo mais em volta. Ele retirava as telas do chão. Pronto. Era aquilo o que ele separava para nos mostrar. No chão, o vazio onde antes estava a tela. A pintura não organizada dentro de seus quatro limites, os quatro lados de um quadro. A pintura como uma fatia de bolo que se retira de um conjunto muito maior. Eles eram muitos cavalos é uma fatia de São Paulo. Você não tem personagens ou situações ou cenários limitados pelo começo e fim de um fio narrativo, por mais fragmentado que seja. Não. Você tem uma fatia. O que te é oferecido é um pedaço. Há muito mais que não te é oferecido, que você, querendo, terá de catar. A pé ou com a cabeça.

Então, porque sempre li Ruffato como quem vê Pollock, quis ver mais esta transposição, agora cênica, do livro dele.

Pedro Pires, um dos dois diretores e autores do texto teatral, é o principal narrador, a contar algo literário. Defeito? Foi o que eu pensei no começo para depois achar que não. Uma voz, um eco, um comentarista como desses que habitam nossa própria cabeça, ao andar pelas ruas e ver o que vemos. Ele é isso mais do que narrador.

Mire Veja - fotografia de Elvira Vigna Zernesto Pessoa, o outro diretor e autor, faz um motorista de táxi – além de mais personagens. O livro de Ruffato não é engraçado, embora contenha uma não-maquiagem, uma maneira direta de viver que poderia ser engraçada, pela surpresa: burgueses, não estamos acostumados a relações sem um mínimo de regra social para servir de amortecedor. Aqui é engraçado. Muito. Gargalhadas minhas e do resto da platéia a três por dois. Pessoa é o responsável por várias delas.

Fernanda Haucke é a única do elenco original, quando a peça foi encenada pela primeira vez em 2005, que continua no elenco. Talvez por isso falte nela um certo espanto consigo mesma. É a mais “teatral” deles.

Vera Lamy me deu um dos melhores momentos de ator. Descalça – como descalços estão todos os outros (e mais falarei sobre isso daqui a pouco), escrachada a mais não poder, ela se transforma em uma perua rica com uma simples virada de corpo. Além de seu talento, conta para isso apenas com um lenço, que põe nessa hora sobre os cabelos.

Guto Togniazzolo é – também entre outras possibilidades – um desses locutores de lojas populares, de estações AM, empostando a voz para falar com grande gravidade grandes besteiras. É mais um dos hilários.

Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato A peça abre com os atores sentados entre as cadeiras destinadas ao público, o que é bom, sendo, como é, uma encenação de um pedaço de vidas que está misturado com a vida de quem lá vai para assistir. A única diferença inicial entre espectadores e atores é que os atores estão descalços.

Há, contudo, no espetáculo mais do que no livro – embora também presente no livro – uma tentativa de início e fim. O início é uma nordestina (Haucke) chegando a São Paulo, e o fim um encolhimento burguês frente à morte que acontece na porta de casa. Mas em Ruffato, essa entrada e saída não se destacam de um resto onde até mesmo as frases (ouvidas como são ouvidas as frases nas ruas, pela metade, por quem passa) às vezes param no meio, sem acabar, sem ter começado.

Uma outra dificuldade do livro, contudo, é muito bem resolvida pelo espetáculo. Eles eram muitos personagens. Na peça, os atores usam um recurso de teatro de bonecos, o que se justifica ainda mais por ser uma forma de diversão de raízes bem populares. Eles põem nas mãos os sapatos dos personagens representados: sandálias douradas, tênis velhos etc. Os braços ficam vestidos como calças. E saem pelo palco, eles mesmos e esse outro pela metade.

A sonoplastia é também um ponto alto. “O motor zunindo dentro do ouvido”, o som indistinto de gente falando no celular, de uma musiquinha, de um camelô vendendo anéis, um tunque/tunque/tunque que já não se sabe se vem de fora ou de dentro do coração.

Passear no Ibirapuera já é bom, (re)ver fotografia de qualidade é melhor ainda. A SP Arte foi um grande feirão comercial. Esse negócio de vender arte é sempre uma incógnita para mim. É um mercado tão simples e fácil de entender quanto física nuclear quântica. Por este motivo, resolvi abstrair o lado comercial e focar apenas no que era bom, no que eu gostei. Vamos a estes, então.

No Instituto Moreira Salles tinha José Medeiros, Hans Günter Flieg, Thomas Farkas, Maureen Bisilliat, Marcel Gautherot e Carlos Moskovics. Em miúdos, nenhuma grande novidade, mas grandes qualidades. Farkas (e seu fotoclubismo), o modernismo comercial de Günter Flieg e o húngaro Moskovics tem pouco mais que a época em comum. Estas organizações por data, apesar de extremamente comuns, sempre deixam a sensação de uma certa simplificação. Por outro lado, as ampliações eram todas boas, grandes, feitas para vender.

A Baró Cruz levou Alberto Simon, Cláudia Jaguaribe, Michael Wesely e Lina Kim, em uma curadoria que me agrada mais. A Lina Kim, sem dúvida alguma a minha preferida desta galeria, tira fotos de ambientes usados, marcando a presença humana sem mostrá-la diretamente. Eu já conhecia o trabalho de Kim e sempre tenho esta mesma melancolia ao vê-lo.

Rodrigo Braga, na Amparo 60

A galeria Amparo 60 (PE), tinha muitas obras interessantes mas eu fiquei hipnotizada pelo Rodrigo Braga. Ele tem uma preocupação (que compartilho) de que a idéia deve ser uma escolha anterior à técnica, então o resultado final é um discurso absolutamente coerente e sólido. A idéia define a técnica, não o contrário. Braga faz isso com maestria e usa todos os recursos à mão para que o conceito não se perca. Ao mesmo tempo, a sua fotografia é impecável e mostra que, mesmo posterior, a técnica não pode ser esquecida ou desvalorizada. Bravo, Braga!

Marcelo Cidade, na galeria Vermelho

A Vermelho tinha muita coisa misturada, mas de fotografia me chamou a atenção o Marcelo Cidade, com o suporte da fotografia dialogando com a fotografia, que dialoga com o fruidor, que dialoga com o espaço, que… Enfim, muito bom.

Mauro Piva, na Fortes Vilaça

A Fortes Vilaça (SP) tinha muitas obras interessantes e aqui tiro uma licença para comentar o trabalho de Mauro Piva, que não é fotografia e sim aquarela sobre papel. O trabalho dele é um conjunto de homens sem rosto, em pequenos quadros coloridos. As posições são bem-humoradas, quase que um convite ao lazer, ao prazer.

Deixei, de propósito, a Tempo por último. Para quem não sabe, a galeria Tempo (RJ) tem tradição em fotografia e era lá, justamente, que eu esperava encontrar a maior quantidade de obras fotográficas. Dito e feito. A maioria já era velha conhecida, como a Pat Kurs e suas polaroids ou o German Lorca e seus pratos voadores, ou mesmo como a Isabel Löfgren e o Felix Richter, um dos meus fotógrafos prediletos. Até Sebastião Salgado tinha por lá. O que eu sempre gosto na Tempo é a curadoria. É difícil preparar obras para exposição, especialmente dentro de um determinado foco, como venda ou crítica. A Tempo sempre surpreende com o bom gosto e o bom humor de suas organizações. Colocar os pingüins e a Serra Pelada, ambos do Sebastião Salgado, como um espelho um do outro e, ainda por cima, colocá-los vizinhos a Antonio Saggese necessita de um olhar muito bem-humorado.

As fotografias na SP Arte provaram é possível unir qualidade e o cuidado de uma boa curadoria com o comércio e, espero, boas vendas.