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Category Archives: edicao_0014

lista de artigos da edição 14, ano 3 – julho & agosto de 2008

Começar um texto sobre um filme que trata da época bossa do Rio de Janeiro é resistir linha após linha para não falar que a cidade não é mais assim, que nem tudo são nem eram flores. Que há algo mais cinza no Rio que nenhum filme de bossa ou Cidade de Deus irá representar, pois o Rio não se fez na violência, na música e em suas paisagens, o Rio se faz aos trancos na convivência das pessoas com essa fusão antagônica e essas pessoas sumiram das telas dos cinemas. O Rio do liquidificador fugiu das ficções brasileiras e se refugiou nas câmeras de Eduardo Coutinho, na percepção de como reagem ‘a’ aqueles que convivem ‘com’.

O Rio ainda tem samba, o Rio tem na Lapa mistura musical, social e racial transformando suas portas em fronteiras com o descaso. Do lado de fora, ambulantes bêbados e flanelinhas impondo seu ritmo aos freqüentadores, todos com um olho no trombadinha e o outro na fila do bar. Do lado de dentro, nada de utopia. Quem está lá sabe como é a cidade do lado de fora, mas isso não impede ninguém de dançar e beber até as quatro da manhã. Isso não impede o dono do bar de contratar seu próprio ambulante para vender cerveja mais barato e derrubar a concorrência desleal adotando a mesma tática ilegal. Isso não impede a multidão de deixar o carro no estacionamento ao lado do pivete cheirando cola porque as ruas não são mais tão seguras. É mais do que simplesmente seguir em frente. Bom que o diretor Walter Lima Jr. (A ostra e o vento; Ele, o boto) tenha resistido à tentação e usado a cidade só como paisagem.

O release de imprensa é muito preciso: ao ouvir no rádio que a cantora Glória (Cláudia Abreu – O caminho das nuvens) havia morrido em um acidente de carro na Itália, o cineasta Dico (Selton Melo – O cheiro do ralo, Meu nome não é Johnny) resolve fazer um documentário sobre o quarteto de bossa nova Os Desafinados, composto por amigos seus de juventude. Enquanto reúne os amigos na boate que será o cenário desse registro, conhecemos a história através das memórias dos integrantes e do material que Dico filmou quando acompanhou os amigos até Nova Iorque em busca do sucesso.

O sonho do pianista Quin (Rodrigo Santoro – Carandiru, 300 de Esparta), do saxofonista David (Ângelo Paes Leme – Muito gelo e dois dedos d’água), do baixista Geraldo (Jair de Oliveira – cantor) e do baterista PC (André Moraes – O homem que desafiou o diabo) era se apresentar no Carnegie Hall, em 1962, no show que fez da bossa sucesso mundial. Infelizmente, na reta final da seleção, o grupo é desclassificado. Espantando a tristeza, eles decidem então ir para Nova Iorque na cara e na coragem correr atrás do prejuízo e trilhar seu próprio caminho. O filme simboliza isso com um show no meio da rua, bem na porta do teatro. “Se a gente não vai entrar, o show vai ser aqui mesmo”. E dá-lhe chapéu recolhendo moedinha. A partir daí, o inevitável roteiro sobre grupos musicais vai dando o tom da história, com um gingado aqui, uma bossa ali, um saxofone no meio da noite e aquela graça de falar inglês no mundo pré-globalização.

Filmes sobre bandas não conseguem fugir de certas situações: briga, traição, golpe do empresário, o cara que larga o grupo justo no dia daquele grande show. São coisas que acontecem na realidade, mas que não necessariamente conseguem alimentar a trama de um filme. O maior equívoco de Os Desafinados (e por isso a conversa sobre o Rio lá do começo) é apresentar no roteiro a história de um grupo de dentro para fora e adotar no olhar a leitura de fora para dentro. Ser músico é mais do que a briga entre o baixista e o guitarrista. As pessoas têm desejos diferentes, família, emprego, problemas dentro e fora da banda, diferentes inspirações musicais. O glamour está nos olhos do público e é estranho quando é mostrado da perspectiva dos músicos da mesma maneira.

Há falhas no roteiro também, que podem fisgar os mais sonolentos. Na primeira parte do filme não acontece basicamente nada além da apresentação da trilha sonora. A viagem para Nova Iorque não desenvolve a história dos personagens e só serve para apresentar o romance entre Quin e Glória. É nesse romance, aliás, que recai todo o peso da evolução da trama, o bom e velho triângulo amoroso (Quin é casado e a esposa está no Rio) aqui adquirindo ares de quadrado ocasional.

O engraçado é que ainda assim Os Desafinados é um filme agradável, feito para chegar ao público, para devolvê-lo ao cinema. Tem cara de filme despretensioso, apesar do orçamento de R$7 milhões. Mesmo que o espectador cochile de vez em quando, logo vem a trilha sonora para acordá-lo.

Pontos fortes: A atuação de Rodrigo Santoro, a léguas de distância dos demais, e a idéia de (até que enfim!) mostrar que no auge do clima de bossa surgiu uma ditadura que envergonhou o país e deixou cicatrizes na América Latina.

Pontos fracos: a história contemplativa e a escolha equivocada de alguns atores. É difícil ver Alessandra Negrini fazendo papel de esposa tacanha e enganada. Não dá para ser Cleópatra num dia e dona de casa no outro. O desequilíbrio das atuações dos integrantes da banda também faz com que alguns personagens sejam ofuscados no meio do caminho.

Para fechar, um erro irresistível de se comentar: Selton Melo dubla a voz do ator que faz a sua versão mais velha. Ficou ruim demais.

E o Rio de Janeiro? Ah, esse continua lindo.

Uma das (muitas) coisas de que gosto na arte contemporânea é sua narrativa implícita. E às vezes explícita, através de títulos longos, como os de Nazareno (de quem lembrei vendo o que vi), ou nem tão longos, como os de Liliana Porter, em exposição na Brito Cimino. Esse pré-texto – o título – já retira do contemporâneo, logo de cara, a peia modernista de obra independente. Independente do quê?

A presença da narrativa me agrada porque percebo, depois de décadas de um mesmo mantra (o de que imagem é tudo, presente e futuro), um indício na arte (esse único fórum de discussão de idéias que nos resta), de que não é bem assim. É o texto, um texto, o motivo do fascínio que me prende frente aos bonequinhos de Liliana Porter.

Aliás, dois textos.

O primeiro texto se sustenta em atos congelados antes de sua completude – quem os completa somos nós como também somos nós a fornecer o contexto desse primeiro texto. Os atos, executados por bonequinhos, não têm cenário nem espaço realista. Congelados, ou seja, retirados do tempo, e, por não ter cenários, também retirados do espaço, os bonequinhos vivem no próprio texto, têm uma vida (auto)ficcional. Ao viver apenas na esfera da representação, nos fascinam por algo que não temos: coerência. Fazem o que fazem até o fim – que não há.

Há códigos que nos guiam na feitura/reconhecimento desse primeiro texto.

As propriedades denotativas dos atos congelados resultam em significação política e semiótica a partir de piscadelas de olho que a artista nos dá. Os Forced labor (trabalhos forçados) dizem respeito a tarefas femininas como tricotar e varrer – esse último com uma sobreposição: trata-se de varrer, é certo, mas o que o bonequinho-mulher varre é um pigmento azul à la Yves Klein. Ou seja, essa instalação nos remete a um feminino massacrado (o bonequinho é minúsculo e há uma enorme quantidade de pigmento para ser varrido, assim como o bonequinho que tricota, tricota um pano enorme em relação a seu tamanho). E nos remete também a uma “varrida” de um dos ícones no modernismo, com a referência à atitude arrogante e masculina do artista que registrou propriedade (copyright) sobre um determinado tom de azul.

O modernismo e seus valores, aliás, são vítimas em outros trabalhos. Os To see têm, empastelados na tinta que lhes dá o nome – Blue ou White - soldadinhos e suas armas, situações de trabalhadores braçais carregando fardos pesados, desportistas e suas bandeiras e bolas. Há referências a alguns dos principais movimentos do período como as pequenas armações construtivistas feitas com minissacos de aniagem empilhados, escadas, cercas etc.; ao cavalo das esculturas mussolinianas; ou elementos da cultura de massa (cabecinhas de personagens de Walt Disney) responsáveis pelos delitos e delirios da pop-art. Até mesmo um reloginho sem ponteiros, à la Dali, dá para descobrir por ali – esse, e aqui mais uma vez temos dois códigos sobrepostos, nos remetendo ao surrealismo e ao já referido tempo ausente de um paraíso mais para o terrível. Há um adorável site specific de dez centímetros, uma piscadela de olho para rirmos, todos juntos, frente ao bonequinho que destrói um pedaço de parede da galeria. Um mesmo riso, dessa vez às custas da transcendência que até a pouco nos era impingida, e que nos toma frente ao Conejo (coelho) que levita. Lá está o desenhinho de um coelhinho, tão pouco transcendente quanto dá para ser um desenhinho de coelhinho (mal)feito à caneta, com sua sombrinha rabiscada.

A definição que Gérard Genette dá para narrativa é bem básica: trata-se da extensão de um verbo.

E aqui entramos no segundo texto.

O primeiro texto é o que faz/não faz o bonequinho. O segundo texto é o que faz/não faz Porter. O verbo da feitura da obra está lá, à mostra, este também incompleto, falho – e perfeito. Pois como se trata de um verbo criativo, só incompleto e falho ele se torna perfeito, só incompleto e falho ele permite a criação – dela-nossa. Da artista e de quem aceita o seu convite. Nas instalações, é a tinta que foi jogada e que se vê, lá, jogada. O pano que foi arrumado em cima da prateleira e que pode ser desarrumado a qualquer momento. Idem para o pigmento. Idem para tudo. E tem a questão do tamanho também. O tamanho das figurinhas é uma declaração da distância que a artista toma em relação ao que faz. Aqui, ela/nós. Lá, muito longe, os bonequinhos. É montado, vejam, são bonequinhos, seu tamanho é ridículo. Isso é uma obra, percebam, não se esqueçam.

No vídeo, a coisa é mais direta.

Fox in the mirror dura uns 20 minutos e foi feito em 2007. Os bonequinhos em close mostram a precariedade da pintura que lhes dá boca, olhinhos, cabelo. Seus movimentos, feitos com montagem de stills, dá “pulos”. Não há ilusão. Velas em formatos humanos escorrem cera por sobre seus rostos de expressão romântica antes de se apagarem num vento. Bonequinhos caem no fundo infinito, dançam para fora do quadro da câmera, têm um brilho de plástico. E a voz da canção que escutamos sai de bocas que não se mexem. São todos, objetivamente verdadeiros e ironicamente falsos, conceitualmente narrados e formalmente vazios, materialistas e poéticos.

Nos últimos dias 20 e 21 de agosto, aconteceu em Pouso Alegre, cidade ao sul Minas Gerais, o 3º Fórum Sul Mineiro de Cultura. A iniciativa do Conservatório Estadual de Música Juscelino Kubitschek de Oliveira (CEMPA), de Pouso Alegre, já em sua terceira edição e sob coordenação da Produtora Cultura e atriz Fernanda Tersi Andrietta, reuniu convidados, palestrantes e público interessado em interessantes debates acerca do tema “A Industrialização da Cultura”.

As principais questões levantadas ao longo do evento foram: Organização da Indústria Cultural, a qualidade dos Produtos Culturais e as Políticas Culturais, as dificuldades e as conquistas da área, frutos das metas traçadas nas edições de anos anteriores e, principalmente, as relações, possíveis e futuras, para encaminhamento das necessidades levantadas.

A programação completa do fórum incluiu ainda apresentações musicais e atividades artísticas de qualidade, que podem ser conferida no blog do CEMPA.

No primeiro dia de atividades, o diálogo entre a Professora Jurema Sampaio e o artista plástico e divulgador cultural Jeferson Ferrão da Silva, girou em torno dos aspectos relacionados ao papel do professor de arte como agente de divulgação da cultura e formador de público. A professora Jurema é carioca de nascimento, tendo morado por grande parte do Brasil, conhecendo de perto as culturas das regiões por onde passou e está radicada em Campinas/SP desde 1983. É pesquisadora e entusiasta de Arte e Cultura Popular e professora da Licenciatura em Artes Visuais da Universidade Metropolitana – UNIMES Virtual, de Santos/SP. Ferrão é um reconhecido artista contemporâneo paulista, originário do Valo do Paraíba e radicado em Pouso Alegre/MG, com vasta e consistente produção própria, com temática predominantemente popular e sendo ainda o representante e incentivador inicial do já conceituado artista naïf pouso alegrense José Raimundo.

O destaque das discussões do dia foi a redundante necessidade de estreitamento de diálogos entre as áreas de cultura e educação, com ênfase especial à seriedade com que deve ser tratada a formação de professores, em especial os de arte, no sentido de procurar dotar os mesmos de ferramental técnico e teórico para que tomem real consciência de seu papel, primordial, na formação estética inicial de nossas crianças sendo eles, professores, os primeiros agentes de formação cultural de todos os cidadãos, e, por conseqüência, formadores de público, principalmente em relação aos valores da cultura popular e regional.

No mesmo dia foi apresentada, ainda, a experiência de sucesso da Cooperativa Mariense de Artesanato – COMARTE, o projeto Oficina Gente de Fibra, da cidade vizinha de Maria da Fé. O projeto, idealizado pelo artista plástico Domingos Tótora, que tem como eixos norteadores a promoção da arte relacionando a reciclagem de papel e fibras à preservação do patrimônio ecológico, é a pioneira e a mais bem sucedida das atividades da cooperativa. A COMARTE é o resultado de uma parceria entre a Prefeitura Municipal da cidade mineira de Maria da Fé com o SEBRAE MG e é formada por cinqüenta e dois cooperados. Sua renda auxilia aproximadamente trinta famílias.

Com fibras extraídas da bananeira (matéria prima descartada da colheita da banana), papel kraft reciclado e pigmentos naturais extraídos da terra. Sob a orientação de Domingos, os artesãos produzem objetos que variam de pratos com tramas feitas de corda de fibra de bananeira até molduras pintadas à mão com pigmentos de terra. A decoração das peças é feita com temas que reproduzem os motivos dos barrados decorativos e piso da igreja matriz de Maria da Fé. A Cooperativa Com Arte mantém ainda os projetos Maria do Fuxico, Arte em Papel, Embalagens em Juta, Anjos da Terra, Terra e Luz e Arte em Fibra. O trabalho é conhecido e comercializado em várias cidades do Brasil e na Alemanha, China e Dinamarca. Vale a pena conhecer o trabalho da Cooperativa que, além do imenso valor sócio-ambiental, possui qualidade plástica e estética indiscutíveis!

No final do dia, o show da cantora Carla Gomes, de Belo Horizonte – MG que, com sua voz, ao mesmo tempo forte e doce, entre interpretações de obras conhecidas, de vários artistas e canções sua autoria, encantou a platéia presente à sala de espetáculos “Sarah Lúcia Requejo Amaral”.


(foto Edson Pedro)

No segundo dia, a mesa redonda mediada pela professora Adriane Ferreira Bazzo, juntou novamente a professora Jurema e o artista Ferrão, somando ainda a presença do escritor e crítico literário Eloésio Paulo dos Reis, Professor da Universidade Federal de Alfenas/MG, autor de vários livros, dentre eles o ótimo “Os 10 Pecados de Paulo Coelho”; de Paulo Brasileiro, diretor da EPTV Sul de Minas, afiliada da Rede Globo, e coordenador do Festival Viola de Todos os Cantos, evento promovido anualmente pela emissora, de abrangência nacional e da atriz, diretora e produtora cultural Rita Miranda, Coordenadora do Movimento Cia. de Teatro, membro da Rede de Articuladores de Cultura do Estado de Minas Gerais e criadora e organizadora do festival “Extrema Mostra Teatro”, evento oficial do calendário da Secretaria de Estado de Turismo do Estado de Minas Gerais e do departamento de Municipal de Turismo e Cultura da cidade de Extrema – MG, num debate acerca da necessidade de promoção de um diálogo mais efetivo e consistente entre as ações educativas e culturais e a mídia em geral, não só na divulgação e cobertura dos eventos, mas no alcance, abrangência e responsabilidade dos veículos de comunicação na promoção da arte e cultura.

Ao fim do debate foram recolhidos, junto ao público presente, que participou do debate, subsídios para a redação do documento conclusivo desta edição do fórum, que servirá de norteador aos encaminhamentos das ações futuras dos grupos envolvidos em trabalhos pela arte e cultura em geral e, em especial, Sul Mineiras.

A terceira edição do fórum foi encerrada com um show do grupo de percussão de Belo Horizonte BorTam, na sala de espetáculos “Sarah Lúcia Requejo Amaral”, Auditório do Conservatório.


(foto Edson Pedro)

O Fórum Sul Mineiro de Cultura, que pode ser considerado como tendo sido um sucesso, já tem sua próxima edição prevista para agosto de 2009, e já está sendo pensado para dar a devida continuidade a este trabalho de imenso valor para a arte e a cultura regional, mineira e nacional.

Paralelamente ao Fórum Sul Mineiro de Cultura aconteceu também na cidade de Pouso Alegre, até o dia 22 de agosto, Dia do Folclore, a 16ª edição da já tradicional “Caipirarte”. O evento regional, sobre a cultura caipira, reuniu oficinas, workshops, apresentações, comidas típicas, exposições de artesanato, a própria edição do Fórum Sul Mineiro de Cultura e a Exposição de trabalhos da Oficina Gente de Fibra, de Maria da Fé/MG. Todos com entrada franca.

Comissão Organizadora:
Adriane Bazzo
Consuelo Gonçalves
Fernanda Tersi Andrietta

O CEMPA

O Conservatório Estadual de Música Juscelino Kubitschek de Oliveira tem mais de 50 anos de existência e, atualmente, é dirigido pela professora Regina Maria Franco Andere de Brito.

É um dos 12 Conservatórios de Minas Gerais, sendo um dos maiores e mais reconhecidos e atende a, aproximadamente, 3500 alunos da cidade de Pouso Alegre e das 36 cidades vizinhas, além de seis mil alunos da rede pública estadual, incluídos no Projeto Música na Escola.

Conservatório Estadual de Música Juscelino Kubitschek de Oliveira de Pouso Alegre
Rua Francisco Salles nº 116
Pouso Alegre – MG
(35) 3425-2800

A Soma de Nós, em cartaz até cinco de outubro no Teatro Vannucci, é uma adaptação, feita por Flávio Marinho, do texto “The sum of us“, do autor australiano David Stevens.

Num cenário que imita uma casa antiga precisando de reformas é representada a história que gira em torno da personagem Henrique. Viúvo desde que o filho era pequeno, Henrique é um pai amoroso e compreensivo, que tem prazer em dividir o lar com seu filho, Jeff, um jovem assumidamente gay. O dia-a-dia de pai e filho é retratado com a máxima normalidade, é uma rotina comum. O pai logo no início nos explica que o filho é gay, os dois aceitaram isso de forma natural e continuaram vivendo juntos, que seria puro preconceito se agisse de outra forma, pois Jeff é um ótimo rapaz, trabalhador e seu melhor amigo. O diálogo entre os dois é inacreditavelmente aberto. Falam de tudo. Como amigos da mesma idade. Não há cobranças, não há barreiras. São confidentes um do outro.

Henrique foi educado numa casa em que viu sua mãe, depois de sofrer um longo período pela morte do marido, encontrar na companheira Mary o afeto, o consolo, para continuar a vida. Henrique reconhece isso, nos conta que admirava aquele amor e seria incapaz de negar aquilo ao filho. Ele assistiu sua mãe enfrentar todos os problemas que aquela relação poderia ocasionar e só houve a separação quando ele e o irmão, percebendo que as duas já estavam muito idosas para cuidar uma da outra, resolveram separá-las, alegando que era para o bem delas. Sua mãe não questionou e morreu um tempo depois, sem nunca ter tocado no assunto. Essa mãe, sem saber, preparou o filho para ser pai de um homossexual, que tem em casa um lar onde pode ser sincero e receber todo apoio de uma pessoa que não viu na sua sexualidade um problema, não criando mais uma dificuldade além do que as que esse rapaz já iria enfrentar.

A peça não trata apenas de preconceito, ou de uma família atípica, trata de amor. Amor de várias formas, representados, predominantemente, por estes dois relacionamentos: um entre pai e filho, e o outro entre duas mulheres – a mãe de Henrique e sua companheira Mary. Vi ali representado um sentimento que supera tudo e transforma a vida não numa conjuntura mais fácil de ser vivida, mas em algo com mais sentido.

Jeff se apaixona por Greg, um jovem rapaz que, ao conhecer Henrique, revela que seu pai é bem diferente dele e é o motivo para ele não ter assumido sua sexualidade em casa. E Henrique, ao assistir essa tentativa de relacionamento do filho que não dá certo, mostra-se mais uma vez um grande amigo e incentiva Jeff a não desistir, a viver, a não se fechar para os prováveis sofrimentos e frustrações que a vida pode colocar em seu caminho. Henrique educa um filho corajoso, capaz de servir de exemplo para muitos outros.

O pai, que até então não tinha mostrado vontade de ter outro relacionamento depois da viuvez, resolve arriscar procurando uma agência de encontros e conhece Joyce, mulher solitária a quem o marido trocou por uma mais jovem. Joyce, quando descobre que Jeff é gay, mostra-se radicalmente preconceituosa e vai embora, perdendo a possibilidade de conviver com duas pessoas que sabem o que é o amor, abrindo mão de se relacionar com esses homens que tinham muita coisa a lhe ensinar.

Jeff também mostra ser o companheiro ideal do pai. É ele quem cuida de Henrique depois que este sofre um sério derrame e já não é nem mais capaz de falar, mas nem por isso deixa de participar da vida do filho. Graças ao fato de Jeff o levar para passear, eles reencontram Greg e aparentemente o desfecho é que os dois rapazes finalmente ficarão juntos.

O texto aborda temas profundos, mas não é pesado. Não parece ter a intenção de causar no espectador o desconforto de fortes emoções. Porém, mesmo sem essa aparente intenção, o texto nos faz refletir e comove de uma maneira suave. O espetáculo tem duração de 70 minutos e a soma dos atores deu um ótimo resultado. Infelizmente, o confortável teatro estava vazio, éramos apenas 25 espectadores. Isso quer dizer que muitas pessoas perderam a oportunidade de conferir essa encantadora peça nesta apresentação.

Texto: David Stevens
Tradução e adaptação: Flávio Marinho
Direção: Eduardo Figueiredo e Cíntia Alves
Elenco: Luiz Carlos de Moraes, Maurício Machado, Pedro Bosnich e Mara Manzan (participação especial)
Teatro Vannucci: Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro / RJ

Está em cartaz até 2 de novembro, no Teatro Cândido Mendes, a nova comédia da Palco Cia de Teatro, “TPM – Terapia Para Mulheres”, que faz parte da trilogia de Paula Giannini, junto com as peças “Casal TPM”, em cartaz em São Paulo, e “Tratamento para Machos”, ainda inédito.

O espaço do Teatro Cândido Mendes é muito bem aproveitado. É como uma semi-arena. A entrada dá lugar ao fundo do cenário, que, neste caso, trata-se apenas de uma espécie de lona que serve como base para a projeção de algumas imagens. Isso, somado apenas a uma cadeira rosa e um poste de strip-tease, compõe o cenário que simula o ambiente de uma rave, complementado pela música e pela iluminação típica.

O roteiro não traz nenhuma constatação ou piada inovadora. São discursos comuns encontrados em textos que abordam situações experimentadas por mulheres que sofrem de ciúme, problemas de auto-estima, relacionamento etc. A maioria das piadas já é conhecida, ou pela circulação na internet, ou por serem antigas, aumentando a probabilidade dos espectadores já terem as escutado em algum lugar, como em comentários de amigos, ou mesmo em programas televisivos.

As personagens são caricatas. A primeira se chama Neusa e entra em cena bêbada, munida de várias piadinhas populares. Já Fiona, mais afetada que a primeira, é o estereótipo de uma louca surtada. Chama atenção por sua roupa ridícula e sua falação em que nos relata seus surtos esquizofrênicos que assustaram sua família e seus ataques histéricos.

A terceira é Marlene, uma mulher que deseja loucamente entrar nos EUA e nos dá dicas de língua inglesa, com sotaque nordestino. Sua proposta é desmistificar as palavras em inglês em apenas uma única aula, com um método que ela própria desenvolveu quando estudava para entrar no país de Jorge (George Washington?) e nos conta o trauma de ter sido barrada na imigração.

A outra, um ator vestido de mulher, é uma mulher idosa que aluga vagas no quarto de empregada, nesses tempos difíceis, e se apaixona por um dos inquilinos. Ela já foi também amante de 9 presidentes, 8 vices e não sei mais quantos diplomatas. Depois, mais um ator vestido de mulher, é a vez de uma personagem que só pensa em sexo, uma ninfomaníaca com medo de se relacionar com homens. Faz conclusões engraçadas sobre os vários tipos de homens e nos conta que descobriu que seu ex-namorado é o ‘taradão do dedão do pé da Baixada Fluminense’.

A seguinte é uma mulher que tem ‘TOC’, viciada em filas e que toda vez que lava as mãos no banheiro, antes de enxaguá-las, acaba lavando a pia, a torneira e o banheiro todo. Ela possui traumas por causa da mãe, fobia de números ímpares e medos de ursinhos de pelúcia. A seguir, entra em cena uma personagem em crise conjugal, existencial etc e nos relata um cômico episódio de um ‘banho-de-lua’. Em seguida, é a vez de uma loira com 130kg que caba de completar 40 anos e é amante da comida. Gorda, mas que aos 40 anos se livrou de um peso de 90kg, se separando do marido, nos relata o diário de uma dieta e confessa que odeia o seu médico do tratamento de emagrecimento.

A última é uma mulher ciumenta que vai a tal rave atrás do marido. Diz-se uma mulher apaixonada, uma mulher que ama demais. Imagina coisas, tem ciúmes da repórter Ana Paula Padrão, que ela diz ter certeza que dança para o seu marido quando ela sai da sala. Revela que examina todas as coisas do marido, vai à cartomante, instalou câmeras em casa, contratou um detetive para seguir o marido e ela mesma seguiu o detetive para verificar se ele seguia realmente seu marido.

São, portanto, nove personagens que entram em cena individualmente e nos relatam episódios de suas vidas que nos remetem a seus problemas psicológicos. Contam traumas, suas atitudes, sentimentos, nos permitindo entrar um pouquinho nos seus mundinhos. É uma simulação de bate-papo, um desabafo de mulheres problemáticas. Às vezes, a forma extremista como se apresentam é que as fazem engraçadas, e, às vezes, é o que tira a graça também.

Sabe aquele papo com estranhos em que nos surpreendemos nos perguntamos o que estamos fazendo ali, questionando se realmente somos obrigados a escutar aquilo? Sabe aquelas pessoas que vêem num estranho um ouvinte em potencial e querem resumir sua vidinha, principalmente seus problemas, em 5 minutos? A peça tem essa essência.

Trata-se de uma terapia mesmo, mas não para nós, para elas, que criam um espaço para falar um pouco de suas neuroses. Confesso que não achei muito engraçado. Percebi que se é difícil fazer comédia, mais difícil ainda é acertar na hora de colocá-la no palco. A simulação do ridículo por si só nem sempre faz rir, mas talvez seja só a minha TPM.

Texto: Paula Giannini.
Direção: Amauri Ernani.
Elenco: Paula Giannini, Amauri Ernani, Mayra Villela, Shirley Bonani e Éris D`Souza.
Teatro Cândido Mendes: rua Joana Angélica, 63 – Ipanema.

Misha Dacic é pianista, nascido na Sérvia em 1978. Foi aluno do excelente pianista Kemal Gekic na Universidade de Novi Sad em Belgrado. Ganhou destaque internacional depois de participar do Progetto Lugano em 2003. Tocou sábado passado (dia 9) no Theatro Municipal do Rio.

É dono de um belo timbre, mas não de grande potência sonora. A escolha do programa foi bem feita, mas a distibuição não. Pedimos bis, mas ele não deu.

O que faltou em Misha Dacic?

Misha – parêntesis: Misha é apelido de Michael em russo. Já bastou a velhinha do meu lado que adorou o concerto dessa menina -  é uma figura draculina: muito branco, de gestos fluidos, cabelos longos caindo no rosto. É o arquétipo ultra-romântico. Como tal, tem uma certa aparência doentia, e não me pareceu ter grande força física.

As peças líricas pouquíssimo tocadas de Rachmaninov foram absolutamente maravilhosas. Foram elas a “Melodia” (sem número e sem opus, no programa), o Romance Op.10 Nº6, o Prelúdio Op.32 Nº3 e a Valsa Op.10 Nº2. Duas sonatas de Scarlatti, também muitíssimo bem acabadas e bem equilibradas.

Fechando a parte solo, uma transcrição hipervirtuosística do Volodos. Se tivesse terminado aí, o recital seria algo estupendo, de primeira linha, raramente visto por aqui (veja bem, eu quis dizer TÃO estupendo e TÃO de primeira linha), mesmo que tenha faltado um quê de bombástico nos fortíssimos do Volodos.  Mas aí, sem intervalo nem nada, tivemos um concerto de Mozart. E um bem chato, por sinal, o Nº25, em sol maior. Não gostei da orquestra, uns metais e sopros desritmados, desencontrados, desequilibrados, e às vezes, simplesmente tocando notas erradas. Mais uma vez, a enorme dificuldade de tocar Mozart: não chega a ser difícil, só que não pode sair NADA errado. Alguém escreveu que tocar Mozart é como “carminhar nu pela quinta avenida: tem que se estar em boa forma para fazê-lo”.

Misha tocou muito melhor que a orquestra, me parece que as cadências foram compostas por ele. Se foram, parabéns novamente, absolutamente deliciosas. Tomou algumas liberdades, é verdade, mas foram muito bem vindas em meus ouvidos.

Daí um intervalo (mal posicionado!), e a Burleske. Talvez por já estar cansado da primeira parte tão longa, mas a Burleske foi chata. A despeito do andamento supra-Argerichiano que foi imprimido à peça (andamento com o qual eu concordo, visto que se tocar mais lento parece um cortejo fúnebre), não empolgou. E não havia nada de errado! Tudo muitíssimo bem acabado, muito criativo, muito bem tocado, muito bem equilibrado. Mas faltou alguma coisa. O quê?

Faltou um não sei o que de irracional, de visceral, de desmensurado, de impulsivo, de agressivo, de avassalador, e, em última análise, talvez de sincero e de puro. A um dado momento meus ouvidos e meu cérebro se cansaram de todo aquele toucher pensado, calculado, medido e bem acabado, e começaram a clamar por algo mais, que não veio. Não sei porquê, mas eu ansiava desesperadamente por algo simples e sincero, que também não veio. Não veio porque não existe (será? Prefiro acreditar que foi um mau momento!). Excelente pianista, de uma competência imensa, mas só isso.

Só isso.

A Elvira diz, sobre stand-up comedy que “se apóia em uma situação muito simples: quanto pior a sociedade, mais papéis o indivíduo tem de desempenhar para viver dentro dela. Desmascarar esses papéis nos faz rir. Rimos quando somos pegos. Tem a ver com constrangimento (nós) ou desfaçatez (as fotos dos jornais)“.

O teatro Miguel Falabella, no Norte Shopping é uma iniciativa interessante: com um auditório maior do que, por exemplo, o teatro do planetário da Gávea, mas ainda assim pequeno o suficiente para que todos os lugares sejam bons, é um dos poucos teatros localizados no subúrbio, com horários e preços convidativos, tanto para estudantes quanto para quem trabalha.

O texto de “Minha Mãe é uma Peça” é um excelente apanhado de lugares comuns e clichês, coisas que toda mãe fala, já falou ou vai falar. E muitas vezes nós -filhos – não sabemos (porque não somos mães, caspita).

Depois de assistir à peça, minha mãe me contou que, tal qual o ator, também fica repetindo frases como “Não vai, ah, ele pensa que vai, mas não vai. Não vai… NÃO VAI!”, sozinha em casa, na falta de alguém com quem brigar.

O ator, que também escreveu o texto, é fantástico. Paulo Gustavo sustenta, sozinho, com pouquíssimos recursos e um só cenário, um monólogo de duas horas sobre os dramas de uma mãe, divorciada, professora do estado aposentada, com dois filhos, uma tia chata, a nova mulher do ex-marido e as vizinhas. Nenhum deles aparece: os conhecemos através da mãe.

Não é uma obra prima em termos de profundidade, mas não se propõe a isso: se propõe a fazer rir, com pequenas coisas que as mães fazem e falam. E não só aos filhos, elas mesmas riem a beirar o escândalo. A frase mais sussurrada entre o público foi “É assim mesmo!”, com as variantes “Caraca, a minha mãe é assim!”, ou, mais raro “Caraca, eu falei isso hoje mesmo!”.

Devo dizer que saí do teatro uns vinte quilos mais leve, embora com uma leve – e agradabilíssima -  dor no abdôme.


Richard Diegues from Aguarrás on Vimeo.

Em Lampadário, a poeta carioca Denise Emmer, faz uma sinfonia abordando temas diversos. São poemas reluzentes. Ela, sem dúvida, usa a língua portuguesa a seu favor. Transforma luz em verbo, e faz dele poesia. As sensações que trazem, permanecem no leitor. Se a luz tem som, os sons são parecidos com estes poemas.

A poetisa explora a palavra e a transforma, utilizando uma linguagem carregada de símbolos. Ela não faz poesia abordando temas comuns – como morte, solidão, amor, perda, esperança -, faz poesia quando transpõe um sentimento para o papel.

Um dos poemas, “Dicionário da Língua Bela” – VI, descreve muito bem seu trabalho neste livro:

Dê-me a palavra que invento um bosque

Pleno de repousos e grandes baobás

Sopre-me o verbo que verso o mote

Viagem sem norte vento de além mar

Provavelmente por sua experiência na música, a sonoridade de seus poemas é marcante. E como o trovão antes do raio, o som vem antes da luz neste livro também.

Denise Emmer, filha dos escritores Dias Gomes e Janete Clair, possui uma extensa produção artística. Além de poetisa, é ficcionista, graduada em Física e Música – violoncelo – e também cantora, compositora e instrumentista. Já ganhou diversos prêmios por sua obra literária. Lampadário é o seu décimo quarto livro.

Publicado pela 7 letras este ano, Lampadário é composto por 42 poemas, tem uma bela capa de Mariana Avillez e prefácio do poeta e editor Alexei Bueno, que também colabora com vários mecanismos de imprensa.

Decifra-me ou te devoro. É o que diz a Esfinge em seu encontro com Édipo na tragédia grega de Sófocles. Mais do que um desafio, ela é a antecipação de todo o sofrimento de Édipo no processo de auto-descoberta desencadeado ao procurar saber quem é o assassino de seu pai. Mais do que uma das melhores tragédias, o texto é também o nascimento do gênero investigativo que mais tarde daria origem ao gênero policial. Você pode argumentar que Édipo Rei não tem carros de polícia perseguindo o assassino de Laios, mas a essência de um gênero vai além de seus arquétipos, caracterizando-o em grande parte pela atmosfera que consegue criar e pela capacidade de externar no grande mistério da história algo intimamente ligado ao investigador, suas dores e vivências. As mudanças vêm de dentro para fora, as informações de fora para dentro. É isso que move a trama.

Quintessência, romance de Flávio Medeiros Jr., não é uma tragédia grega. Sua história se passa milhares de anos depois, em um futuro próximo de nossos medos e distante nos avanços científicos e tecnológicos. Ainda assim, ao manter (mesmo que por acaso) um diálogo com a busca edipiana, Flávio começa com o pé direito no universo dos romances, criando uma obra de entretenimento repleta de qualidades.

“A história da humanidade é assim. Após milênios nada muda. As armas evoluem em tecnologia, mas a violência é a mesma. Antigamente os vigaristas perambulavam pelas estradas saltando de sombra em sombra; hoje permanecem sentados em salas com ar condicionado e correm o mundo pela via virtual. Mas a desonestidade, a ânsia de domínio sobre o semelhante, a ambição desmedida, nada muda”.

Um dos pontos mais interessantes de Quintessência é a utilização do real na construção da projeção futurista, o que torna sua mitologia factível e palatável para o leitor, sendo quase uma brincadeira à parte traçar os paralelos entre atualidade e ficção. Exemplos? A divisão entre as polícias civil e militar que causa tanta controvérsia no Brasil finalmente acabou. A Polícia Unificada é coesa no nome e fragmentada em sua estrutura, vivendo ainda as disputas geradas pelo processo de unificação. Com o aquecimento global, o nível dos mares realmente subiu, afetando ilhas e cidades litorâneas como o Rio de Janeiro. Se você conhece a cidade, sabe que quem mora perto do mar é a classe social mais alta e no alto do morro, a parte segura, as pessoas de menor renda. A partir disso, imagine a confusão que o derretimento das geleiras causaria por lá. No quesito poluição, o grande ícone é São Paulo. A situação piorou demais e é praticamente impossível respirar sem máscaras e filtros. Belo Horizonte é um dos poucos lugares a lembrar esse mundo ‘antigo’ em que vivemos. Ainda há natureza, água, ar e shoppings, elementos básicos da sobrevivência humana. Os shoppings, entretanto, foram levados à quase extinção. Nossa inestimável Internet evoluiu para algo mais sofisticado, chamado ultranet, facilitando o comércio eletrônico e transformando os templos do consumo em peças de museu.

É exatamente em um desses templos ainda funcionais, o BH Shopping, que começa o romance Quintessência. Reverberando o medo atual que temos de atentados, Flávio apresenta um terrorista típico. Só descobrimos que ele existe através de sua ação. Ele surge, mata, explode e desaparece. Sem nome, passado e presente, ele nada diz. Sobram corpos e mais corpos espalhados pelo chão e a sensação de fragilidade da população.

Nesse cenário caótico, os leitores são apresentados a Tom Rizzatti, policial e investigador que tentará desvendar o massacre e descobrirá que as coisas são piores do que parecem (sempre são).

Tom Rizzatti é um personagem de apelo certeiro. Está acima dos reles mortais – já que é um policial bem treinado, tem uma arma futurista de dar inveja e um prático implante no olho – e ao mesmo tempo é humano, passível de erros e distúrbios de humor como qualquer um. É aquele sujeito com quem você toma uma cerveja no bar, mas pode contar nos momentos difíceis. São das falas de Rizatti que vêm as melhores frases do livro, geralmente ironizando os demais personagens ou fazendo referências ao universo dos HQs. “Minha merda em bytes!”, diz ele cada vez que se vê surpreso. Flávio Medeiros Jr. consegue alternar os momentos de bom-humor tanto com filosofias de porta de banheiro quanto com debates mais profundos relativos aos dilemas da ciência e às mazelas da sociedade, devidamente ampliados ou restringidos pela peculiar mentalidade futurista.

“Às vezes fico pensando no bidê. Hoje quase ninguém mais tem bidê em casa. É um objeto obsoleto, inútil, que permanece de maneira insolente ocupando o espaço entre a pia e o vaso sanitário. O bidê existe de teimoso, e nem sequer sei direito para que ele serve. O bidê é o máximo da obsolescência e solidão. (…) Às vezes me sinto um bidê…”

Além da mitologia e da proposta de nova sociedade (com destaque para a visão do autor sobre a futura geração de adolescentes, suas novas gírias e gosto peculiar por música e hologramas), Flávio também acerta na estrutura escolhida para narrar a história. Como um bom livro policial, o Quintessência traz perseguições e tiroteios; do lado ficção, ele aproveita apetrechos e novidades tecnológicas; do toque de suspense, desconfianças e reviravoltas repentinas aquecem o relacionamento dos personagens, mas acima de tudo, a história avança à base de informações. É um erro corriqueiro entre novos autores achar que correrias e lutas impõem ritmo a um livro. Quintessência não sofre desse mal.

“Guinei com tudo para a esquerda e meu carro descreveu um perfeito cavalo-de-pau. Parei de frente para a pista por onde tinha vindo. Acelerei, levantando uma nuvem líquida no asfalto molhado e um cheiro de plastiborracha queimada. O Black Beetle vinha bem à frente do outro carro, e vi uma luz arredondada dos dois faróis a laser se aproximando rapidamente. Não sei se o bom e velho Cabeção foi pego de surpresa ou se pretendeu por um instante de tolice bancar o ‘matcho’, porque não se desviou nem reduziu a velocidade. Vinha direto para mim!”

Pelos elementos bem dosados, Quintessência tem boas chances de agradar a públicos diversos, seja na questão dos gêneros ou da faixa etária, já que é um livro com personagens de vigor jovem que ao mesmo tempo aborda dilemas mais adultos. Fica a torcida para que Tom Rizzatti ganhe força para aparecer em novas seqüências e que Flávio Medeiros Jr. não caia na tentação de reciclar o vilão (sim, mesmo o terror disperso tem sua cabeça pensante) ofuscando o desenvolvimento do protagonista e de seus parceiros.
Alguém aí falou na informante hacker?

Quintessência
Flávio Medeiros Jr.
Ed. Monções
227 páginas.

Primeiro uma aulinha chata. O que é arte contemporânea, meninos?

O que é, ninguém sabe. Mas dá para citar algumas características. Uma: a banalidade. Cansadíssimo da grandiloqüência modernista, masculina e arrogante, sem agüentar mais ouvir falar de sublime perto da palavra arte, o contemporâneo existe para mostrar a impossibilidade atual de qualquer delírio autopromocional. Daí que em vez de mármore, dá-lhe cotidiano, um pó de tijolo aqui, um caixote ali. Uma costura dessas assim, alinhavo, feita à mão. Duas: se você falar de abstrato ou figurativo perto de um contemporâneo ele vai achar que você é Múmia, Parte 25. Nada mais é abstrato ou figurativo, é tudo real.

Aquilo lá existe. Pronto. E tem mais. Existe ali, na galeria/museu/ateliê e já existia antes, na prateleira, armário ou álbum de fotos. E aquilo – ok, obra de arte – traz, para sua existência artística, resquícios de sua realidade anterior, mais corriqueira. Então, tem às vezes um tempo duplo aí, lado a lado. Três: a política de identidade na contemporaneidade foge dessas palavras aí que eu usei e prefere falar da mesma coisa de um modo menos amplo, menos “nacional”, em localizações de gênero, de biografias pessoais que podem ou não ser verdadeiras, às vezes descambando para a invenção convicta de personagens, narrativas, autoficção. Certo, vou citar a Cindy Sherman, já que citada está, sempre, em qualquer texto sobre o assunto. É quase uma performance estática, de objeto. O objeto sendo, ele mesmo, uma ação, um desdobramento, ele mesmo contém, nele, seu ambiente.

E depois vou citar o Elias Fajardo. Não vi exposição alguma dele. Visitei o ateliê. Uma intimidade de pote de tinta, de precariedade equilibrista dos quadros grandes dependentes de paredes e pregos pequenos. Nada pomposo lá. E as pinturas – sim, são pinturas – nascem de fotos que são impressas sobre a tela ou placa, e depois pintadas e modificadas. As fotos são de ciclistas solitários que vão e voltam depois; são do Jardim Botânico onde aparece a sombra do artista, no chão, já transformado em personagem, em M. Hulot de chapéu, presente ali no que faz, modificando, e sabendo disso, o que faz com a sua presença. Nenhum delírio de poder, nenhuma ilusão de obra independente e perfeita. Nada disso. E há a série O fecho do mundo, sendo que o fecho, no caso, é fecho mesmo, éclair. Que o Aurélio, aquele besta, chama de fecho-relâmpago, traduzindo o galicismo ao pé da letra. Essa série é a que mais se aproxima da narrativa contemporânea que, sim, é imagética. Da mesma forma que a literatura contemporânea é, pois é, toda ela feita de cenas de filmes, de imagens. Os da série Fecho do mundo são uma costurinha que você abre no fecho éclair e vê outra costurinha, com a imagem de dentro se relacionando, de alguma forma no tempo, com a imagem do lado de fora. Assim, tem o barco e o barqueiro que dorme, tem a cadeira velha e a menina que espia da porta perto da cadeira. E tem a série da família de Fajardo, com três fotos sobrepostas em três estâncias costuradas. A primeira do final do século XIX, a segunda dos anos 40 do século XX e a última de agora há pouco, nos 60 anos do artista. As fotos são posadas, e o lugar é Tebas, Minas Gerais, de onde ele vem. São universais. Todos temos essa família e algum lugar parecido com Tebas de algum canto do nosso passado-presentificado por fotos (Barthes: o estar ali e o ter estado ali, sobrepostos).

Fazendo parte de esse estar-no-mundo absolutamente contemporâneo, uma compota de manga. Como tudo que fazemos de melhor na arte hoje, essa também não era durável. Comi. Era ótima.

Na série Velocidade Máxima, os ciclistas, lentos, passam por paisagens que Fajardo modificou. Uns pretos para que as árvores fossem mais para trás do que já estavam, um chão que dá umas voltas e volta de onde veio. Um ir sem saber para onde.

Essa adaptação do texto de Colin Higgins não tinha como dar errado. Texto bom, equipe boa: peça boa. Glória Menezes dispensa comentários. E não concordo que seja um texto sobre uma história de amor improvável. Qualquer um se apaixonaria por Maude. Improvável é ver algo provável ser tão bem explorado. O bom é ver uma montagem com qualidade, que, além do esperado, ainda arruma tempo para surpreender.

No Teatro do Leblon, Sala Marília Pêra, que não é das mais confortáveis, estará em cartaz, a um preço nada popular, até 26 de outubro, a peça ‘Ensina-me a viver’. Adaptada e dirigida por João Falcão, que não é só fama, ele nos mostra um trabalho impecável, o texto foi lindamente apresentado. O jovem Arlindo Lopes é um ator brilhante. O menino comprou os direitos da peça, buscou produtora e equipe e ainda representa Harold de forma excepcional. O que dizer mais?

Ilana Kaplan, Fernanda de Freitas e Augusto Madeira também não deixam por menos. Junto ao elenco de apoio, composto por Verônica Valentin, Guilherme Siman, Walisson de Souza e Jamil Pedro, os atores exageram na sintonia. E é exatamente nisso que o espetáculo é grandioso: sintonia.

O encontro entre um rapaz de 20 anos problemático com uma senhora de quase 80 anos que sabe ser feliz, ganha vida com um muito capricho. O cenário é simples, mas eficiente. A cor preta é o principal elemento que mostra como algo pode ser multifacetado. Um fundo preto e recortes de um pano preto, que são montados como cortinas, permitem uma mobilidade que constrói um jogo de cenas interessantíssimo. Trata-se de uma espécie de tela, não sei, que permite a visualização de nuances pospostos e, ao mesmo tempo, serve de base para a projeção de imagens. Isso somado a objetos de ferro, como cadeiras e esculturas, e uma iluminação inteligentíssima. São 110 minutos de espetáculo com um apelo visual cinematográfico que encanta.

A pergunta principal não nos deixa dúvidas do que faz alguém se sentir bem ao lado de outra pessoa: você conhece alguma coisa melhor do que rir junto com alguém? Pois é, isso é a essência da história de amor do casal e é o grande atrativo do texto também. Tiradas cômicas, tanto nos diálogos como nas armações de filme de terror das simulações dos suicídios de Harold para impressionar a mãe, fazem da apresentação algo agradável. È muito gostoso rir junto com eles.

Ao mesmo tempo, as cenas românticas são muito bem pensadas e encantadoras. O que era para ser drama ganha paixão, principalmente pelas interpretações. Quando Maude sai de cena dizendo a Harold que vale a pena, ela lhe garante, parece também ser um toque de uma atriz experiente para um jovem ator.

Comemorando 50 anos de carreira artística, Glória Menezes é suave e alegre. Arlindo Lopes, com uma carreira bem mais curta, é um ator completo que, ali no palco, mostra-nos, numa atuação impecável, que ele já sabe o que a colega está dizendo.

Adaptação e direção: João Falcão
Tradução: Millôr Fernandes
Elenco: Glória Menezes, Arlindo Lopes, Ilana Kaplan, Augusto Madeira, Fernanda de Freitas, Verônica Valentin, Guilherme Siman, Walisson Souza e Jamil Pedro
Cenografia: Sério Marimba
Iluminação: Renato Machado

Não chega a ser agradável, mas pelo menos obriga você a ir para frente. Falo quando você vê alguma coisa e escuta aquela vozinha de dentro da sua cabeça dizendo, ah, isso?! Já sei. E não sabe. Por exemplo, xilogravura e cerâmica que, quando separadas já se põem no centro de um popular, de uma brasilidade. Quanto mais juntas. E aí vem Laerte Ramos e você olha as xilos. Limpas, tecnológicas por assim dizer. Retas. Máquinas. E o popular e a brasilidade escoam pelo ralo. Mas claro que tem alguma coisinha por ali, sempre tem. Um olá, um eco. Você acha isso e então procura. Mas as montanhazinhas têm neve em cima, os naviozinhos são de guerra, nada a ver com a nossa história. E há uns pedacinhos que parecem quebrados mas que são, como tudo ou quase tudo, esmaltados com aquela perfeição brilhosa que só esmalte tem. Dizendo: linhas retas, universais, e agora esse brilho que também não quer saber de gestos, falhas, gambiarra alguma.

Em uma última tentativa de não sair do bem-bom do déjà-vu, você se lembra da junção tecnológico-espiritual de um Anish Kapoor e começa a procurar por algum indício de transcendência até tropeçar no óbvio: são séries. Não é nem imanência, essa outra palavra oriunda da filosofia. É indústria mesmo, coisa feita em vários exemplares. Mas em tudo aquilo há alguma coisa na torção de uma cerâmica, no bonequinho enfermeiro, na “logotipagem” das formas das xilos que provoca um quase-sorriso. É uma coisa meio alegre e, ó cabeça, você torna a lembrar do que não deve, os bonequinhos dos ceramistas nordestinos, também imersos em índices sociais: a situação de prestação de socorro médico, a formação naval, umas dobras que, bem, são quase aviõezinhos que seriam de papel não fossem de cerâmica.

Então.

E você lembra da performance que o artista acaba de fazer na Vermelho (SP). Uma coisa muito da óbvia, mas meio engraçada: a platéia da performance sendo o que aparece em vídeo na caixa de guardar o pó aspirado pelo aspirador de pó. E que se chama Do pó ao pó. Coisa rápida, o vídeo. Muito lenta, a performance. E você se pega mais uma vez pensando na construção ininterrupta de uma identidade, uma das muitas que sempre existem, possíveis, concomitantes, e que é a que junta em um mesmo espaço atual você e uma coisa que não é bem que seja antiga, é só sem tempo – serializada, indefinida, de qualquer época. Simultaneidade espacial e desencontro temporal. E é, eu sei, eu sou maluca. Mas, hein? Não parece o seu dia de hoje? Ou você vai dizer que não ficou perto de alguma coisa que não fazia parte, em absoluto, do tempo que você considera ser o presente? Uma coisa, assim, típica do Brasil, arcaico e lá adiante, na frente. Ao mesmo tempo.

Geraldo Marcolini e Sidney Philocreon

amarelonegro arte contemporânea

4 a 30 de agosto de 2008
Segunda a sexta das 11 às 19h, sábado das 11 às 16h.

Rua Viscode de Pirajá, 111 loja 6
Ipanema
Rio de Janeiro RJ
Tel (21) 2247-3086

Está em cartaz no teatro Maison de France o musical Aquarelas do Ary, sobre a vida e obra de Ary Barroso. O texto de Marcos França, com direção de Joana Lebreiro, é estrelado pelo próprio Marcos, pela graciosa Claudia Ventura e por Alexandre Dantas.

O cenário, em preto e branco, é composto por imensas partituras musicais, feitas por Jacy de Mattos Madeira. Elas e um telão, no centro, formam a base para as projeções que ilustram episódios da história de Ary e nos ajudam a compor as memórias. De forma harmoniosa, com a contribuição de um belo trabalho de iluminação, todos os elementos importantes da vida do compositor estão ali retratados: a música, com o piano e as partituras, e a boêmia, com a cerveja, que os atores bebem durante as encenações.

Desde do início tudo é muito convidativo, as cortinas nunca se fecham e as luzes não se apagam completamente. Cada um dos atores sobe ao palco individualmente, passam uma música, e, após isso, em vez da comum campainha, eles tocam o gongo, que é usado para encenar o programa de auditório.

O espetáculo começa propriamente quando Claudia, que possui uma voz belíssima, faz uma apresentação poética, animada e muito descontraída, sobre o início da vida de Ary. Os atores nos contam de forma bem agradável desde as travessuras da infância do compositor até sua morte. Passam por todas as etapas da vida dele e há momentos contados de forma bem cômica.

Os atores não cantam as músicas simplesmente, as interpretam no máximo rigor da palavra. Seus gestos e expressões acompanham suas vozes com admirável apuro. As letras das músicas de Ary Barroso são responsáveis por boa parte do texto. São elas, organizadas de forma astuciosa, que nos contam vários episódios de sua vida. É impressionante como esse gênio conseguia fazer música dos eventos mais banais do dia-a-dia.

Tudo é praticamente perfeito. A única desatenção com espectador é em relação à visualização por parte do público que assiste ao espetáculo do segundo andar, onde eu estava. Algumas cenas se passam fora do palco e, simplesmente, não podem ser vistas pelos que ocupam a partir da segunda fileira de cadeiras e os da primeira precisam debruçar-se para vê-las. Restou-nos, então, ouvi-las.

Foram 100 minutos emocionantes e o elenco foi aplaudido de pé por uns cinco minutos. Isso alude bem o belíssimo espetáculo que assistimos. E, dependendo do lugar em que o espectador se sentar, poderá facilmente defini-lo como ‘perfeito’.

Texto: Marcos França
Direção: Joana Lebreiro
Elenco: Claudia Ventura, Alexandre Dantas, Marcos França
Direção musical e arranjos: Fábio Nin
Sopros: Daniel Máximo
Percussão: Geórgia Câmara
Violão: Fábio Nin (subst. Raphael Berendt)
Piano: Ana Lucia Santoro

Redor. O livro, escrito por Masé Lemos e publicado pela 7 letras, se escreve em torno de um fingimento perspicaz. Ao anotar-se a si mesmo como uma poética sobre o ínfimo, trai sua própria vertigem. A simplicidade requerida, como bem anota Paula Glanadel, faz parte de suas intenções conscientes, mas é transtornada por uma outra consciência, mais profunda, que sabe não ser possível a simplicidade, ou que a simplicidade faz parte deste fingimento perspicaz de se fingir simples para atingir visagens outras.

O ser permanece enquanto vive; as coisas vividas se esboroam. A morte é um dos temas transversos, embutido contra a aparente platitude das coisas. A partir da morte – não da lamentação da morte, ou da dor causada pela morte – Masé Lemos vai dialogar com a reflexão limítrofe entre o que vive e o que se acaba. Tomem-se dois exemplos. Carta para a menina morta e A mariposa. As referências do diálogo são respectivamente o livro de Cornélio PenaA Menina Morta e o capítulo a Borboleta Preta, de Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas. A presença da reflexão sobre a morte em Carta se liga à reflexão sobre a escrita.

O livro de Cornélio Pena, autor tão pouco lido quanto pouco estudado, é uma dessas obras que demarca as fronteiras entre uma percepção literária tomada como tradição e, de dentro desta tradição, faz surgir uma nova percepção de escrita, para a qual o evento não é o fundamental. O poema de Masé Lemos anota displicentemente: “sua arte de ficção [todas as regras] recomeçara lentamente a construir um mundo e era possível segui-lo nesses passos para fazer ecoar o silvo prolongado de uma idéia, de uma palavra em mil decifrações como ventos a se perseguirem em louca agitação.” A obra se faz a partir de uma cosmogonia. Constrói-se e formaliza o mundo e lhe dá significado. Esse significado não se encontra disposto aqui nem ali – é dado pela capacidade de refletir sobre as coisas, isto é, para a poeta, de refletir sobre as palavras, metáfora abundante na última parte do livro. Mas para que os incautos não apaguem o traço revestido pela palavra, entenda-se que palavra aqui é tomada como nomeação não da coisa em si, mas das relações que as coisas, isto é, as palavras, podem construir e constroem.

Machado. Em a Borboleta Preta, o escritor determina a morte por seus acasos. Sem o restante do livro, por mais que o capítulo seja autônomo, a reflexão se quedaria parcial ou mesmo nula, porque a arte de piparotes do autor não se faria ler. O capítulo de um livro não chega a ser uma palavra – no sentido que se toma nestes comentários. A palavra só existe enquanto palavras se posta em relação. A borboleta preta só é a borboleta preta – um significado – porque pertence a um universo que passou a existir após o livro. Assim, ao tomar o emblemático capítulo do Bruxo como referência, a autora de Redor pressupõe a incorporação em seu poema do capítulo e em seu livro do livro. Esta opção aponta para a percepção de que o livro de Masé deve ser lido como uma formulação fictícia, na qual os capítulos/poemas sucedem-se para montar um quadro de significações que seja como que um cosmo gerado no livro, por isso avisa: “A mariposa não sabe os perigos da madrugada.”

Os perigos da madrugada parecem ser de imediato um lugar comum, bem como a citação de Machado. Uma coisa simples. Entretanto o poder de driblar a citação e a simplicidade está na concepção do assombro que toda casa teve ao acordar e na necessidade de livrar-se do incômodo desta borboleta machadiana rediviva, como se a presença da bruxa significasse perigo para a simplicidade de nossas palavras cotidianas. A morte se insurge por essas brechas. A morte não como uma metafísica, mas como uma anotação sobre o ínfimo, como notação de que o ser, nada metafísico, permanece enquanto as meninas morrem, sem acontecimentos; enquanto as bruxas são jogadas do sexto andar ou enquanto as coisas se encantam em palavras.

Direto aos números. O que Batman Begins conseguiu no tempo total de exibição nos cinemas (~ US$372 milhões), sua seqüência Batman Dark Knight ultrapassou em dez dias (US$442 milhões). É muito dinheiro, muito sucesso. Se você não tem nenhum valor em mente para fazer a comparação, espie no texto anterior dados da Ancine sobre o cinema nacional ou resenhas passadas sobre blockbusters. Claro que nada ocorre por acaso. O bom resultado é fruto dos elogios recebidos em Batman Begins, da intensa campanha de marketing da Warner (que deve beirar o orçamento do filme: US$185 milhões), do trabalho para lá de competente do diretor Christopher Nolan e da infeliz morte de Heath Ledger, o ator australiano que interpreta o Coringa – provavelmente o melhor vilão desde Hannibal Lecter, de Silêncio dos Inocentes. E que ninguém me fale de Jigsaw.

Para mudar o hábito, vou começar com a atuação de Heath Ledger. Na época em que foi escolhido, muita gente ficou de pé atrás porque o ator não tinha o biótipo do personagem dos HQs. Essa birra de fã passou logo que as primeiras imagens do Coringa foram divulgadas e foi enterrada de vez quando as sessões-teste começaram. Atuações e filme só recebiam elogios. O boca a boca dava conta de uma atuação estupenda, uma releitura completamente psicótica de um vilão que faz do humor negro motor para o planejamento de crimes, mutilações e assassinatos. Ledger construiu detalhe por detalhe o assassino, cheio de tiques e olhares, transformando o Coringa em um personagem factível, compatível com a proposta do diretor de fazer de Gotham City uma cidade vulnerável como outra qualquer.

Para atualizar o personagem, Christopher Nolan trabalhou o Coringa como um terrorista. Ninguém sabe muito bem os porquês por trás dos atos. O melhor que a polícia e o governo conseguem fazer é considerá-lo louco, já que buscar explicações não muda o fato do terror que ele espalha. Coringa representa o caos absoluto, mas um caos arquitetado peça por peça, invisível, que só mostra a cara nas conseqüências, nunca durante o processo. Não é à toa que, apesar do vilão preferir usar facas nos combates, seus ataques em massa usam sempre explosões e seus testemunhos ocorrem através de vídeos caseiros (a vantagem da gasolina e da dinamite é que são baratos, diz o personagem).

Na história, o crime organizado de Gotham City mudou seus hábitos graças ao Batman. Os ladrões andam acuados e mesmo os poderosos da máfia (peça importante nos HQs) preferem evitar confrontos com o herói, amargando prejuízos cada vez maiores nas bocas de tráfico. Aliado à polícia, Batman começa a rastrear com notas marcadas os bancos que guardam o dinheiro da máfia, atacando onde realmente dói: no bolso. É aí que aparece o Coringa – uma evolução natural do padrão de vilão em resposta à evolução do herói. Disposto a chamar a atenção, o palhaço assalta um banco e rouba o dinheiro dos mafiosos. Quando estão reunidos para decidir como recuperar a grana, o Coringa reaparece e faz uma proposta: me contratem para matar o Batman, como pagamento quero metade do dinheiro. Simples assim. Para sorte ou azar de Batman, sua presença não influenciou só os bandidos. Inspirado por seus atos, pessoas comuns começam a se vestir de Batman para atacar traficantes e assaltantes, mesmo correndo o risco de morrer. Quem também dá as caras é o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart), que combate ativamente o crime em Ghotam sem uma máscara no rosto, e se torna o alvo preferencial de 10 entre 10 bandidos que não gostam muito de sua honestidade. Apesar de inspirador para os cidadãos de bem, Harvey faz Batman se sentir no caminho errado por ter que esconder o rosto para agir.

Com a quantidade de informações no parágrafo acima, fica fácil entender porque Batman – O cavaleiro das trevas é longo, truncado e confuso. Por melhor que seja o seu resultado final, uma enxugada no roteiro e uma equipe de montagem mais atenta resolveriam boa parte dos problemas e dariam menos dor de cabeça no espectador. Concordo que a idéia seja promover o caos através da falta de origem ideológica do Coringa, mas uma composição mais ordenada das cenas ajudaria como contrapeso. De câmera nervosa basta Bruxa de Blair.

Ainda assim, Batman é um filmão, imperdível para qualquer fã de ação, gibis, aventura, suspense, policial e… ponha seu adjetivo aqui. Ao trazer a mitologia dos HQs para o mundo real, Chris Nolan conseguiu montar o que será lembrado como o melhor retrato cinematográfico do mundo pós-11 de setembro. Sabe a paranóia que estava escondida ali na esquina, nas mãos de um sujeito comum, às vezes de terno e gravata, às vezes de barba e turbante? Finalmente dobrou a rua trazendo um largo sorriso no rosto.

Além do Coringa e do vilão Duas Caras (Harvey Dent após um pequeno contratempo), outros personagens clássicos que marcam presença são: O Espantalho (Cillian Murphy em rápida aparição), Lucius Fox (Morgan Freeman), Comissário Gordon (Gary Oldman, para variar impecável) e o mordomo Alfred (Michael Cane), um verdadeiro elenco de luxo.

Humor de qualidade! Essa é uma das formas como posso definir a peça “As centenárias”, representada pelas simpaticíssimas e maravilhosas Andréa Beltrão e Marieta Severo, com direção de Aderbal Freire-Filho. O texto, de Newton Moreno, escrito especialmente para a dupla, além de muito bem bolado é mesmo uma celebração da amizade que as duas mantêm desde finais dos anos 80.

Marieta e Andréa são Socorro e Zaninha, duas carpideiras que levam a vida a prantear os mortos e a contar histórias no interior do nordeste. Amigas de longa data, as mulheres, entre histórias e cantorias (as “incelenças”, cantos fúnebres das carpideiras), acabam por enganar a Morte, representada por Sávio Moll, adiando o inevitável.

A peça conta com uma narrativa não-linear, que volta ao passado e retorna ao presente constantemente. Mas tudo acontece de forma muito clara, de modo que é possível compreender o jogo temporal bastando o mínimo de atenção. Diferentemente do cinema, que conta com mil recursos para marcar o tempo, o teatro depende de pequenos detalhes, como, por exemplo, a suave tremedeira de Andréa Beltrão, que em determinados momentos marca a velhice da personagem em contraponto com a não-tremedeira, que aponta para uma idade menos avançada, quando a personagem acaba de dar à luz um menino.

O cenário é como um picadeiro de circo, tendo como peça central um caixão. As atrizes, além de interpretarem as carpideiras, utilizam-se de marionetes, ou seja, por vezes Marieta interpreta paralelamente Lampião e Socorro, através de um fantoche com a cara da personagem. Diz o diretor: “O duelo com a morte é um clássico da cultura popular, muitas vezes cantado na literatura de cordel. Daí até as feiras é um passo. E das feiras ao circo. Fazendo esse percurso naturalmente entramos na tradição popular da paródia, da bufonaria, do palhaço. Enfim, do riso que não se intimida mesmo com a morte”.

Assistir Marieta Severo e Andréa Beltrão no teatro foi umas das melhores experiências que já tive. Acostumadas a vê-las apenas em novelas ou no cinema, nunca tive acesso ao verdadeiro potencial das duas. E como se dão bem no palco… Incrível! Além de atuações fantásticas, cantam bem! Afinadíssimas! E o sotaque de nordestina da Andréa Beltrão é de fazer até defunto rir. É o tipo de atuação que não precisa de piada para ser engraçada. As duas, caladas, paradas, no meio do picadeiro já são uma comédia.

Tudo contribui para o sucesso do espetáculo. As atuações, o cenário, o figurino e até mesmo a disposição das cadeiras do teatro. É como uma semi-arena, o que faz com que todos os lugares sejam bons! Isso é um ponto essencial para quem assiste. A menos que se sente um armário ou um poste na cadeira da frente, tudo é muito confortável. A sensação é de que se está em casa, assistindo a duas amigas brincando de teatro, tamanha é a naturalidade da dupla.

A peça está em cartaz no Teatro Poeira, espaço das sócias Marieta Severo e Andréa Beltrão, inaugurado há três anos num casarão tombado, na Rua São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro. No site do teatro (www.teatropoeira.com.br) é possível acompanhar toda a história da casa de espetáculos, desde a idéia de ter um espaço reservado para as artes, passando pelas obras que o casarão sofreu, até as peças que já passaram por lá.

“As centenárias”
Com Marieta Severo, Andréa Beltrão e Sávio Moll
Direção: Aderbal Freire-Filho
Horários: sextas e sábados às 21 horas e domingos às 20 horas
Duração: 1h30
Local: Teatro Poeira
Endereço: Rua São João Batista, 104 – Botafogo
Tel: 21 2537-8053

Nome Próprio chegou aos cinemas juntamente com um manifesto de Murilo Salles: vejam o meu filme, se não conseguir um bom público no primeiro fim de semana ele sai de cartaz. É uma frase síntese para a atual situação do cinema nacional. Apesar de um filme ou outro passar da marca de 1 milhão de espectadores (escolhida cabalisticamente como signo da vitória), a maioria ninguém vê. Parte não consegue ser distribuída, parte passa pelos cinemas sem qualquer relevância para o espectador e parte ainda sofre com aquele velho preconceito do não vi e não gostei. Nessa busca pelo grande público e pelo dinheiro, fomos buscar exemplo nos maiores geradores de receita mundial – os blockbusters americanos – criando certa esquizofrenia cinematográfica tupiniquim. Com orçamentos cada vez maiores para bancar o cinema-produto, onde entram os filmes pequenos nesse novo esquema de produção?

Em qualquer parte do mundo, o cinema americano é o vilão das bilheterias, inclusive nos Estados Unidos. As grandes produções americanas canibalizam também o espaço dos seus filmes independentes (ou quase) e são a preferência de 10 entre 10 exibidores, já que passar filmes também é um comércio e os exibidores precisam ter lucro para não fechar. Mesmo Bollywood, tida como símbolo da resistência popular, começou a perder seu público para a televisão e há algum tempo suas filas não dobram mais os quarteirões. Deixando o tópico de competição de mídias para mais tarde, vamos retomar o dilema brasileiro: levar o cinema ao público ou o público ao cinema, qual a solução?

Como o orçamento de blockbuster ainda é um sonho por aqui, os produtores nacionais resolveram beber pelo menos na filosofia dos grandes estúdios: o segredo do sucesso é fazer um filme popular, fácil de entender e que possa ser visto por toda a família (ou seja, uma criança de 8 anos e sua avó de 80). O público, entretanto, vem mostrando que um bom roteiro é fundamental. A Globo Filmes, por exemplo, decidiu que a equação já se encontrava respondida na TV e exportou suas séries para a tela grande. Se Os Normais e a Grande Família foram bem de bilheteria, nomes de apelo como Casseta e Planeta não fizeram o sucesso esperado, mesmo passando de 500 mil espectadores. Outra fonte de idéias foi o teatro, que se tornou basicamente um gerador de comédias. A adaptação de peças com atores famosos ajudou a alimentar o gênero no cinema, dando espaço para filmes de qualidades diversas e público mediano, mantendo a fatia de mercado do cinema nacional. Assim como a transição da linguagem teatral para a cinematográfica não foi tão fácil quanto se imaginava (vide o fiasco de Irma Vap), a adaptação da linguagem americanizada para a “nossa brasilidade” também não teve seus tropeços, mas nas mãos certas vem mostrando bons resultados de público. Exemplos fáceis são Cidade de Deus, Tropa de Elite e Meu nome não é Johnny (ação), Se eu fosse você (comédia romântica) e Dois Filhos de Francisco (drama). Todos venderam uma imagem de superprodução, apostaram no cinema de gênero, cuidaram bem da parte técnica e levaram ao espectador personagens de fácil empatia, fosse pelos atores ou pelas situações que viviam. E com esse gancho, retomo Nome Próprio.

Nome Próprio, do cineasta Murilo Salles, traz Leandra Leal no papel de Camila, uma menina que põe toda a sua vida em um blog e faz grande sucesso entre os internautas. Camila tem muitos fãs, recebe e-mails de amigos e pessoas que não conhece, mas que se identificam com seus dramas e histórias. Muitas delas contam relacionamentos amorosos e sexuais frustrados, levando a reações diversas dos que vêem seu nome por lá. Isso, segundo o filme, gera eco em outros blogs, requisito fundamental para o sucesso na rede, dando sobrevida aos projetos de Camila, que lá pelas tantas decide escrever um livro. O desejo de Camila é intenso e desordenado, aspecto reforçado pela excelente atuação de Leandra Leal, que consegue plantar flores em um chão de concreto ao desenvolver a personagem. Se não fosse por ela, Camila soaria ainda mais vazia e fútil do que é.

O filme foi inspirado nos livros Máquina de Pinball e Cama de Gato da Clarah Averbuck, uma pioneira da migração do blog para o papel. No ponto onde queria chegar, retomando também a questão da competição entre mídias, o que me espanta em Nome Próprio é sua falta de capacidade de dialogar com um público que devia ser seu alvo principal. O filme fala sobre blogs no país que mais passa tempo conectado na Internet e, curiosamente, os blogueiros pouco enxergam de si no filme, talvez pelo isolamento egoísta de Camila, talvez porque o roteiro não tenha criado personagens para isso (de fato, mal criou uma história para sustentar seu lirismo). O filme teve estratégias de divulgação bem interessantes (e baratas), com presença no myspace, youtube, flickr, twitter, facebook, etc., mostrando entrosamento com o pensamento contemporâneo, mas aposta em uma história que posiciona a Internet como ferramenta de solidão, pensamento que tinha força quinze anos atrás, mas que agora parece ir contra a verdadeira vocação da web, vide os sites de redes sociais que proliferam sem parar. Não importa mais se na vida real a pessoa é solitária (existem os solitários, só que não podemos transformá-los em um estereótipo) se quando conectada ao mundo ela tem 300 amigos na lista do Orkut e 100 e-mails para responder por dia. A nudez da personagem que se desnuda todos os dias no site é bonita liricamente, mas não combina com alguém que destrói cada relacionamento que passa por suas mãos, sem se importar com o sentimento alheio, não é real, para uma geração que se alimenta nos atuais fast-foods de informação. Parêntese: apesar de alguns espectadores terem achado a nudez e o sexo pornográficos (ô juventude careta), achei-os recatados por esconderem o nu masculino e despirem os personagens de sua sensualidade. Deite comigo e Os Sonhadores são muito mais ousados nesse sentido, o primeiro totalmente lírico, o segundo amplamente comercial.

Isolado de um contexto, essa resenha viria com mais elogios e críticas focadas no roteiro ralo e sem agilidade. Gosto do Murilo Salles e acho importante que alguém faça cinema para os jovens, mas em uma época em que o cinema nacional luta contra um esquema canibal para manter seu público e, quem sabe, conquistar uma nova fatia de mercado, é hora de lembrar uma frase que ouvi de Cacá Diegues em uma palestra e que na época me irritou, mas agora faz sentido: não pense no que o cinema pode fazer por você, mas no que você pode fazer pelo cinema.

Para encerrar, quero repetir a pergunta que começa o texto: com orçamentos cada vez maiores para bancar o cinema-produto, onde entram os filmes pequenos nesse novo esquema de produção?

Não entram.

Número de espectadores nos cinemas brasileiros de produções lançadas em 2007*:

Os três primeiros lugares:
- Tropa de Elite: 2.417.193
- A Grande Família: 2.027.385
- O Primo Basílio: 838.726

Outros filmes com repercussão na mídia:
- Cidade dos homens: 282.085
- O Cheiro do Ralo: 172.696
- É Proibido Proibir: 37.182
- Jogo de Cena: 29.001
- Ódique? 3.204

* dados da Ancine.

O espetáculo, a céu aberto, Sonhos de uma noite de São João, inspirado na peça Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare, foi uma boa surpresa. Adaptado e dirigido por Anderson Cunha, e com supervisão de Paulo Betti, a peça simplesmente pegou a essência da história de Shakespeare e a transportou para a nossa cultura das Festas Juninas – nisso incluo todas as festinhas caipiras, julhinas, agostinas etc. Sabe aquela historinha interpretada numa boa quadrilha junina? Só que, desta vez, foi uma história baseada na de William que foi encenada. Simples, mas inacreditavelmente bem feito.

O espetáculo tem em torno de 1hora e 15 minutos e conta com 24 atores da Oficina da Casa da Gávea. Num palco montado na Praça Santos Dumont, em frente à Casa da Gávea, rodeado por cinco barracas de comidas típicas, criando um espaço bem apropriado, vemos um cenário simples, inspirado na decoração das festas juninas, mas com muito capricho, música ao vivo, um ótimo jogo de luzes e muita alegria.

A peça aproveita o nosso folclore para contar a história encantada dos casais, que aqui se chamam Rosinha e Bentinho, Gaspar e Margarida, a rainha das fadas, o rei dos duendes e o duende, chamado Curupira, responsável pelos feitiços, pela confusão de trocar os pares e de transformar a futura paixão encantada da rainha num ser com orelhas de burro. Aqui, também está incluída a parte do ensaio de uma peça que está no original, que, aliás, são as cenas mais engraçadas.

Desfeito os feitiços, todos os envolvidos acordam com a sensação de que tudo não passou de um sonho de uma noite… de São João. E, assim como em Shakespeare, a peça termina com o casamento dos casais. Entretanto, com as características e a alegria das festas juninas e com direito a encenação da peça que estava sendo ensaiada, que foi um show à parte.

O espetáculo ainda é seguido de show de forró, depois de um intervalo, e as barraquinhas continuam vendendo seus quitutes. Tudo muito agradável. Porém, o atraso de 40 minutos para o início do espetáculo acabou fazendo com que os últimos 15 minutos da apresentação fossem debaixo de chuva. Já preocupação de não incomodar os moradores das redondezas com o barulho fez com que o som fosse baixo, e se o espectador não se mantivesse bem junto a aglomeração não ouviria com clareza. Tive a impressão também, que o público não está preparado para esse tipo de evento. As conversas paralelas, os celulares com sons estridentes, não combinaram com o clima proposto. Mas, o texto ficou muito bom, a adaptação de um texto clássico para a linguagem popular deu em um ótimo resultado e a proposta de ser um evento ao ar livre fez diferença.

Adaptação e direção: Anderson Cunha
Elenco: Oficina da Casa da Gávea
Supervisão: Paulo Betti

O livro Putas Assassinas de Roberto Bolaño é mais que um livro, propõe ao leitor um desafio. Narrar as agruras do descrédito. Retirar da fantasmagoria em que o homem se converteu a capacidade de ainda possuir o que dizer. As experiências da dizimação, a construção de uma sociedade inexeqüível, absurda e cruel não permitem a tranqüilidade de uma sequer noite de sono. Em Bolaño essa fantasmagoria se transforma em potência – não uma potência de essencialidades críveis, mas no anverso da própria existência.

A bruta carnificina disfarçada de sentimentos se impõe com tal força que anula os sentimentos deixando-os penetrarem como o que são. Estupro, invasão e aniquilamento. Confundem-se talvez com o amor no que amor tem de perverso e incompreensível. Os personagens em Bolaño são seres à espera do choque, da labareda, da carbonização. Não há para eles outra saída.

Lembra-me o Buñuel do obscuro objeto do desejo. Lembra-me Kafka dos labirintos do processo. O absurdo de existir e desejar o absurdo do desejar e existir. As putas assassinas de Bolaño são capazes de sentirem que “a sensação de abandono, como se um anjo me fodesse, sem me penetrar, mas na realidade me penetrando até as tripas, é breve“. Por breves momentos elucidativos nos sentimos desgraçados, mas agraciados, postos a rodar junto com a desordem do universo, consumidos pelo braseiro deste anjo infernal que nos fode e nos salva.

Depois dos cinco dias do Verbo – o evento de performances da Vermelho – comecei a pensar a coisa como uma possibilidade real, e única, de uma diversão. Você vai lá, participa de ações e situações de prazer físico/sensorial/estético sem outra finalidade que essa mesmo. Me pareceu bom e foi bom, sentei em uma cadeira vendo as pessoas/artistas (não havia distinção muito clara, no máximo proponentes e topantes) e achei que arte bem que podia ser aquilo ali. Já foi tanta coisa, já serviu a tantos donos. Podia ser aquilo que estava acontecendo naquelas salas e pátios e seria então, essa, sua definição/estado mais atual, mais próximo a um agora de todos – já indistintos. Uma criação e a melhor delas: a que não serve para nada.

No meio de muitas, a melhor das que vi em todo o evento. Um cara nu, de pé virado para uma parede onde apoiava, precariamente, uma lâmina em escorço. Não feria os dedos e a lâmina às vezes caía. Pensei nas performances hard core onde o artista se corta, se opera, sangra, vomita quase morre. (Vai precisar morrer, aliás, pois é esse o único fim desse caminho.) O cara lá sequer se cortava. O perigo não estava na lâmina, mas na sua nudez. Sua exposição e ausência de defesa não estava nos dedos nus que equilibravam o objeto cortante no seu precário equilíbrio de encontro à parede. Mas no estar nu em meio a um dos corredores mais movimentados da galeria, por onde todos precisavam passar e se esbarrar para ir daqui para ali. Para você ver o quanto eu estava gostando. Não peguei seu nome. Pelo programa, acho que se trata de Tiago Promo, em uma performance chamada meio-dia mas não tenho certeza.

Isso, como eu disse, era uma das muitas – e boas e divertidas e cheias de gente. Havia a mocinha do Verbo People a distribuir cartõezinhos com ordens/ações a serem executadas e, para cada uma, um apliquezinho a ser colocado na roupa, pele. Os 10 x 10 cadernos instantâneos (Renato Hofer) também te dava coisas a fazer, no meio dos outros, um recreio de ações sem finalidades. Idem para a Máquina de desenhar (Michel Groisman, coletiva). Enchendo lingüiça, de Luiz Alfredo Guedes, recuperava a concretude da expressão. Para quem viu Yoko Ono e seu Half a room, a risada é a mesma. Guedes enchia lingüiça e, eu saí antes, mas acho que depois ele fritou. Vermelho na Vermelho, de Sissí Fonseca e Hugo Fortes era ele pintando o cabelo dela de vermelho, o que equivalia a um esquete de humor. Ela, muito magra e autoritária, dando ordens e lendo Nietzsche como quem lê Caras. Hilário. Enfim, vou escrever uma carta à galeria, pedindo para que o evento se torne no mínimo semestral. Esperar um ano para o próximo me parece muito.

O beijo canibal é uma experiência literária que coloca escritor, leitor e personagens no mesmo plano de observação, rompendo o limite imposto pela folha de papel como o teatro interativo faz com a quarta parede. Seu autor abdica da linearidade para narrar uma intensa relação voyeurista entre um escritor e sua personagem, optando pelos desencaixes do caos ao invés da lógica progressiva de estruturas tradicionais. Seguindo um caminho completamente fragmentado, Daniel Odier conta a história de Bird, uma jovem que é contratada por um escritor para percorrer o país em busca de vivências que possam gerar um livro. Nessa trajetória, Bird desdobra-se em várias, decompondo-se diante das mais estranhas situações e personagens. Uma mistura de realismo (quase) fantástico e road movie, candidata à paideuma* mais exigente.

Só que eu já li essa história antes, você pode dizer, e eu também quase me enganei ao ler o release. O fato é que desde seu primeiro parágrafo, O beijo canibal se distancia de tudo que é usual, preguiçoso ou clichê.

O livro gira basicamente ao redor de três personagens: Bird, o Escritor e o Camaleão. Bird é a musa inspiradora, a personagem ideal que todo escritor tenta alcançar. Ela está na obra que o Escritor personagem constrói na história do escritor Odier. Em dado momento, Bird – a personagem de Odier – descobre que é personagem do livro do Escritor e arma um encontro que o deixa conturbado diante da existência de sua personagem. Ao mesmo tempo em que o Escritor é a razão da existência de Bird, ele descobre que Bird sempre existiu, independente de seu livro, despertando seu interesse por tudo que venha dela, seja memória ou pedaço, o físico ou o abstrato. Na dualidade da criação, Escritor e Bird vão para a cama, criando o texto do livro que iremos ler e o que não iremos. Em um ato extremo, Bird beija o escritor, que é absorvido e pára em seu útero, dando a entender que um bom personagem pode fazer o nome de um escritor tanto quanto um escritor pode criar um personagem. É esse o beijo canibal, o começo de tudo.

“Sento sobre a prancha da varanda. O Índio estava se recordando de Bird, Bird ocupava aquele espaço. Eu me perguntei por que diabos aquela obsessão de preencher com tinta um espaço em branco. As ondas se desfazem incessantemente, me esvaziando pouco a pouco de minhas emoções”.

Explorando mais a proposta da dicotomia, Daniel Odier cria também o Camaleão, o alter ego do Escritor. Camaleão acompanha de perto tudo o que o Escritor faz, até que ele conhece Bird. Como o Escritor fica cada vez mais apático e cinzento, o Camaleão decidi acompanhar Bird em sua viagem, tornando-se uma espécie de anjo da guarda que inspira o ar que sai de sua boca, se aninha em seus braços enquanto dorme, bebe do que ela bebe, come do que ela come, sempre invisível. Camaleão não pode interferir em praticamente nada, por ser imaterial, e em seu distanciamento é o “personagem” que nos oferece o olhar mais preciso sobre a vida de Bird. É interessante ver como Camaleão e escritor se aproximam e se separam, movidos pelo desejo desperto pela sexualidade da protagonista. Quanto mais material e presente está o escritor, mais diluído é o Camaleão.

“Meu rosto agora. Tenho olheiras, a pele tão pálida quanto o resto. Meus olhos são amendoados, isso é clássico nos romances, mas em mim é verdade. Meus olhos são de um marrom bem escuro, quase negro. Minha testa está freqüentemente franzida. A única coisa que me atrai na velhice são as rugas. Faço tudo para tê-las o mais rápido possível”.

Outro atrativo do livro são os personagens exóticos que Bird encontra em sua viagem. O primeiro deles é um índio maconheiro, uma espécie de mentor, que a conhece desde pequena. É nele que o Escritor se fixa para saber algo sobre Bird e mais tarde, quando a obsessão sai do controle, descobrir o seu paradeiro. Há também uma prostituta que dorme em tempo integral e um homem albino parente das baleias, sempre refletindo o estado interior da protagonista na construção de seus laços sentimentais. A galeria de personagens estranhos é construída com delicadeza, fingindo-se por acaso. É responsável pela criação de livros dentro do livro, que chegam ao clímax quando Bird encontra uma comunidade de Antropófagos, rompendo novamente os limites das relações interpessoais.

“Mia:Eu era sua ama-de-leite. Como você está vendo, não tenho mais mamas, ele as comeu. Depois, ele devia ter seus dez anos, me fez uma filha, Zoe, que virou sua mulher. Eles tiveram uma filha, Jasmina. Oswald lhe passou a vara por sua vez e ela deu luz à Harmonia, que pariu a mais jovem de nós, Boto, que deve estar com quinze anos agora”.

Vivendo com o salário que o Escritor lhe envia, Bird é errática em seu caminho e comportamento. Alimenta o escritor com um quebra-cabeça de si mesma, envia fotos, fragmentos de textos, o induz a deduzir ao invés de contar com detalhes os seus dias, espalhando pelas páginas os vazios de sua vida para que o Escritor e o leitor possam completar como convier. Diz ela: eu nunca vi uma memória sem lapsos. São os lapsos que nos permitem viver. É desses lapsos que o leitor se alimentará até o fim, incansável para saber mais.

A biografia de Daniel Odier parece uma daquelas brincadeiras, artistas inventados para pregar peças nos críticos. O autor nasceu em Genebra em 1945. Estudou Belas Artes em Roma e mais tarde largou a pintura para ser escritor. As viagens pela América do Sul e Ásia serviram de inspiração para vários de seus trabalhos. A maioria foi publicada sob o pseudônimo Delacorta e transitava no universo policial. Boa parte foi adaptada para o cinema, sendo o mais famoso “Diva”, dirigido por Jean-Jacques Beineix. Atualmente, Odier divide seu tempo entre a França e os Estados Unidos, onde ensina o Shivaísmo. Não é praticamente um romance fantástico?

*Segundo Ezra Pound, Paideuma é “a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos”.

O beijo canibal
Ed. 7 letras
153 páginas de excelente qualidade.

Sempre gostei muito de performances, nunca parei para me perguntar por quê. Agora parei. Aliás, não parei, quem parou foi Amilcar Parker, que faz performances e que deu uma palestra no Centro Cultural São Paulo em 15/07 – como parte do evento Verbo, da Galeria Vermelho. Disse ele que entre a performance e seu registro acontece uma alquimia. O resto da palestra escutei mal ou não escutei de todo, porque a alquimia ficou me transformando e me explicando.

Fiquei pensando que performances me atraem porque são sempre um trabalho em andamento, no sentido de que sua repetição nunca o é, sempre com algo diferente se lhe agregando ou soltando. Pensei também que o que fascinava alquimistas era menos o ouro e mais a transformação de alguma coisa em outra coisa. A transformação.

Há sempre um intrínseco do artista, seu corpo/presença/ação. E esse intrínseco sempre se lhe (nos) escapa para um extrínseco que lhe (nos) traz o tempo e o espaço. Mas o tempo e o espaço são sempre modificados – não é o tempo compartilhado ou o espaço mútuo. Não. São feitos, montados, existem à parte. Mas fazem parte. E nos transformam e nós os transformamos.

(Há mais uma coisa que me atrai na alquimia/performance: nenhuma transcendência, só imanência manipulada, como o são todas. Também não há romantismo. Nem nesse e nem em qualquer outro processo visceral, químico, corporal – e eu também gosto disso. O que nos impede a claustrofobia do real é que não é real, e mesmo se você acha que é, ele não está estático, fechado, acabado. Muito pelo contrário. É um real que não acaba, que não se fecha. Performances não acabam: acabam seus episódios, suas atuações. Possibilidades míticas que nunca resultam, nunca saem de suas tentativas, são as tentativas, são tentativas. Performances continuam – dentro e fora, de nós e dos artistas, um looping em espiral, nunca terminando exatamente onde começou.)

Mas, como as outras alquimias, também as performances nem sempre funcionam.

No primeiro dia da Vermelho, uma que se repetiu por todo o evento, La Performola, com Carlos Monroy, era apoiada em programas randômicos computadorizados. Não tive saco.

Andréia - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás Rose Akras - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás Cris Bierrenbach - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás

Uma halterofilista (Andréia) se apresentou como “obra” de Massimo Grimaldi e Sabina Grasso. A idéia de uma pessoa ser uma obra é boa, mas você já viu halterofilistas mulheres na televisão, e isso prejudicou ou me prejudicou. A performance de comida, tradicional no evento da galeria, foi a que mais gostei. Pernas femininas (de Cris Bierrenbach) que saíam de uma caixa, cobertas de chocolate, ali para quem quisesse dar uma lambida. Quiseram. Foi engraçado lembrar a irmandade erótica que nossos sentidos compartilham entre si. E, na última do primeiro dia, 7 a 10 maneiras de perceber seu corpo, de Rose Akras, jovens de olhos vendados estimulavam seus corpos com a chama de velas, com mergulhos em baldes de água ou com movimentos repetitivos. Deve ter sido legal para eles, mas as ações alienavam os presentes, impossibilitados, em um espaço exíguo, de fazer qualquer percepção sensorial de seus próprios corpos, anestesiados pela imobilidade forçada.

Laerte Ramos - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás

No segundo dia, Laerte Ramos apresentou Do pó ao pó. Um aspirador que chupava cantinhos da galeria, sendo que seu depósito era uma caixa com telinhas de vídeo mostrando as pessoas. Achei que era muito esforço para fazer uma ilustração. Aí fui embora.

Amilcar Parker - fotografia Elvira Vigna, © Aguarrás

Na palestra de Amilcar Parker, ele mostrou o registro de uma sua performance no baú de um caminhão que trafegava por São Paulo. No baú fechado, o artista, imóvel em uma cadeira, era jogado de cá para lá ao sabor de curvas e ladeiras. Achei muito bom. Não adianta tentar ficar imóvel se o ambiente chacoalha. Aliás, foi para isso que vim para São Paulo.

Assisti, no Teatro Glória, à comédia Cine-Teatro Limite, de Pedro Brício. A história é ambientada no ano de 1944, portanto, durante a Segunda Guerra Mundial, na cidade do Rio de Janeiro. A peça começa, com as cortinas ainda cerradas, com a fala de uma espécie de narrador ou apresentador. Ele se apresenta e diz que é o protagonista de sua própria história. E, a partir, de um questionamento – “O que acontece com nossas memórias quando a gente morre?” – inicia-se o desenrolar da trama.

Num cenário simples que retrata um sobrado na Lapa, privilegiando as cores, vermelho e verde, que permanecerá em destaque durante todo o espetáculo, vemos a cena corriqueira de uma família, composta por um casal, dois filhos e uma empregada – empregada, aliás, representada por um ator vestido de mulher, responsável por quase todos os pontos realmente cômicos da peça.

Nessa família, temos um pai italiano, que possui uma banca de jornal na Cinelândia, a mãe, dona-de-casa, ex-cantora e alcoólatra, o filho mais velho, Valentino, aviador, que depois irá para a guerra e Sábato, filho que não encontrou ainda seu papel no mundo, e é em torno desta personagem e de seu drama pessoal que a história acontece.

Sábato nos é apresentado com um caderninho na mão e sua mãe reclamando que ele não arrumou um coelho para o jantar de aniversário do pai, como foi pedido. Desse pequeno acontecimento, são expostas as características desse jovem de 25 anos, que ainda mora com os pais e não possui uma profissão. Nem nos bicos que o pai lhe arruma, ele consegue ficar por um tempo – a última que aprontou, foi libertar os coelhos do açougue onde trabalhava no Passeio Público, alegando que era comunista.

Porém, Sábato tem um discurso pronto, diz que é comediógrafo e está escrevendo um filme da “comédia risível de suas vidas patéticas”. E em seu quarto, vemos o tal narrador, conversando com ele. Aos poucos vamos descobrindo que se trata de uma espécie de amigo imaginário. É o seu ídolo, o ator Totorito, para quem ele está escrevendo o filme, em que interpretará um carteiro, e parece ser a sua fonte de inspiração.

A peça também apresenta um tom político, principalmente quando outra personagem entra em cena, Aurora, ou Sara, namorada comunista de Valentino, por quem Sábato também se apaixona. Segundo a sinopse, “o getulismo, os cômicos populares, a crise econômica, o cinema hollywoodiano, as notícias de jornal e o existencialismo se misturam”. E é isso mesmo. Esses elementos são incorporados ao discurso de maneira bem inteligente.

Finalmente, Sábato toma coragem e vai mostrar ao seu ídolo o filme que escreveu para ser estrelado por ele, com quem já tem uma bela amizade em sua imaginação. Como Totorito só lhe dá 5 minutos para expor o que está no roteiro, Sábato conta com os atores que interpretam os seus familiares para compor um musical bem movimentado e engraçado do filme. É o momento de mais animação da peça.

Depois de 10 minutos de intervalo, inicia-se o segundo ato da história, e como o narrador mesmo aponta, a história mudou. A cena que encontramos é a de uma família esperando notícias do filho aviador que foi para a guerra e há quatro meses não escreve cartas. Agora as personagens vivem o drama da espera. Sábato, como um artista em crise, nem consegue ver mais seu amigo imaginário. Resume que passou um ano de sua vida escrevendo essa história para divertir as pessoas, mas que o que está acontecendo é tão mais urgente, que não pode perder mais tempo com aquilo. Vivendo uma espécie de crise de criatividade. Em outro momento, questiona se a ficção é capaz de salvar as pessoas e logo depois chega uma carta de Valentino. Não há muito mistério aqui. Nota-se logo que ele próprio escreveu a carta para trazer tranqüilidade à família. Nessas cartas, Sábato, através da voz do irmão, expõe o que gostaria de dizer no lugar de Valentino. Aliviando a dor da família, reescreve sua história.

Nos momentos finais, temos Totorito de lado, com um café e o roteiro, e as cenas continuam sendo representadas, como se estivéssemos vendo encenado o que ele está lendo. Totorito telefona e diz que irão produzir o filme, mas Sábato não está mais interessado. Diz que vai para São Paulo fugir da ficção que criou nas cartas, que não tem mais coragem de conviver com os pais. Assume que é carteiro do filme – figura imaginária que o transportava dos momentos difíceis para os momentos criativos, sempre projetando o drama na ficção, papel anteriormente destinado ao ídolo. E Totorito conclui que se essa história fosse um filme, terminaria ali. E é o que acontece.

Todas as cenas envolvem ações rotineiras com a comédia e o drama de maneira clara, humorada e descritiva. Prende a atenção do espectador a seqüência onde a figura do apresentador serve de associação da fantasia e da realidade. O espetáculo conseguiu retratar de forma especial uma família envolvida nesse período histórico tão conturbado, fugindo da melancolia própria do contexto, abordando os conflitos com feição espirituosa sem deixar de descrever fatos reais da história.

Trata-se de um making of do filme que Sábato gostaria de escrever. Texto bom. Os atores o executam muito bem. Porém, um pouco cansativo. São 120 minutos, sem os recursos que o cinema oferece. O espetáculo ganha movimento no segundo ato, que sem dúvida, passou mais rápido que os primeiros 60 minutos, mas mesmo assim percebe-se o quanto é difícil encenar um espetáculo tão longo.

Direção: Pedro Brício e Sérgio Módena.
Elenco: Erica Migon, Isaac Bernat, Rodrigo Pandolfo, Celso André, Alex Pinheiro, Gustavo Wabner, Keli Freitas e Álvaro Diniz.

A outra (The other Boleyn girl) é uma adaptação do romance de Philippa Gregory, com roteiro de Peter Morgan (O último rei da Escócia e A rainha) e direção de Justin Chadwick, estreante no mundo do cinema. Nos papéis principais estão Scarlett Johansson e Natalie Portman, certamente os principais atrativos do filme. Em linhas gerais, A outra conta a história de Maria Bolena e sua irmã Ana Bolena, a mulher que seduziu o Rei Henrique VIII e o levou a romper com o Papa, resultando na criação da Igreja Anglicana e no nascimento da Rainha Elizabeth I.

O filme é contado no ponto de vista da família Bolena, mas o verdadeiro motor da trama é o desejo do rei de ter um filho homem. Como a Rainha Catarina não consegue gerá-lo, Henrique VIII começa a pensar em arrumar uma amante que possa lhe dar um herdeiro para o trono, despertando a cobiça dos que estão ao redor. Como de hábito em filmes de corte, a decisão do rei vem acompanhada da influência do conselheiro mais próximo, geralmente o personagem que ostenta a cara de enganador sem caráter que só é amigo aos olhos do rei e dos que caem em sua conversa mole. Nesse caso, o conselheiro tem na família duas belas jovens e vê aí uma oportunidade de aumentar sua influência. Ele convence o pai das meninas a receber o rei em sua casa de campo e a oferecer uma das filhas, Ana Bolena, como amante. Tudo parece ir bem, mas devido ao temperamento impetuoso de Ana, o rei despenca em um barranco e se machuca, ficando com raiva da menina. Disposto a uma nova tentativa, o simpático conselheiro manda que Maria tente seduzi-lo. Apesar da menina se limitar a limpar os ferimentos, Henrique VIII não resiste ao seu encanto e cai no plano B mais famoso da história da Inglaterra.

Como aula de colégio, A outra cumpre bem o seu papel, o que não acontece como sétima arte. Peter Morgan fez um roteiro mediano, competente, do tipo que poderia crescer nas mãos de um diretor experiente que soubesse explorar os círculos de intrigas e poder sem recair no clichê. Não é esse o caso. Acostumado à televisão, Chadwick explora muito pouco a linguagem cinematográfica e por vezes parece não saber onde posicionar a câmera, recheando o filme com ângulos e planos equivocados. Para azar dos espectadores, Chadwick também tem uma direção de atores frouxa, transformando as irmãs Bolena em arquétipos de menina boa e má. A personagem de Johansson (Maria Bolena) é a loira, pura e virginal que está disposta a tudo para salvar a família, inclusive abandonar o marido e engravidar do rei. Já Portman é a morena manipuladora que parte corações e nações ao meio, com direito a sorrisinho enviesado e olhar de esguelha.

Se pensarmos no que Natalie Portman conseguiu extrair de seu papel simplório em V de Vingança e na atuação de Scarlett Johansson em Match Point, o gostinho que fica A outra é o de desperdício de talento. Algo aceitável para Eric Bana e seu Henry Tudor, mas não para a dupla de atrizes.

Em tempo: a mesma história vem sendo contada na série The Tudors, com direito a muito sexo, intriga e assassinatos. Perto da série, o filme de Chadwick parece desenho de criança.

Na entrada da Oca, para quem olha para baixo, há uma praia de Copacabana de pó de mármore, e o campo semântico da palavra mármore é uma justa justaposição. Trata-se de apor a um ícone espacial um algo mais de classe, de chique. A exposição é sobre Bossa Nova e a sinuosidade das pedrinhas portuguesas estão lá em uma outra justaposição, essa agora de contigüidade e não mais de valor: Copacabana fica ao lado de Ipanema, real berço da Bossa Nova, mas carente de símbolo visual tão forte quanto. Vai então a calçada vizinha, somada ao mármore e, mais ou menos, chegamos ao destino, cujo aspecto principal é justamente esse, de ser um destino. Porque a Bossa Nova pode ser entendida como uma espécie de regionalismo – algo mais ligado a um espaço do que ao seu tempo.

O espaço, já dizíamos, é Ipanema. E o tempo é o imediatamente anterior e o imediatamente posterior ao golpe militar brasileiro. Registros temporais? Vergonhosamente ausentes, tanto do tema quanto da sua apresentação hi-tech. Estamos fora do tempo aqui. Estavam. Quanto a isso, eis uma curadoria condizente.

Há duas maneiras de se entender o regionalismo, as duas ruins. A primeira é o regionalismo de quem vem. Por exemplo: enfiar, em uma mesma visão, artistas que vêm de uma mesma região. Raramente dá certo, diferenças individuais precisando ser chutadas para baixo do mandacaru mais próximo. A segunda é o regionalismo de quem vai. Por exemplo, achar que são iguais todos os filmes sobre a periferia de São Paulo. Aí, os cineastas podem vir de qualquer lugar, mas vão todos ao mesmo boteco barra pesada onde todo mundo morre baleado. Os dois regionalismos são ruins, mas há uma diferença entre eles.

Ambos servem ao mesmo idealismo retrógrado de promoção de identidades nacionais. Se tal “região” é assim ou assado, por contraste ou similitude, inferimos que “nós” (os que não somos da “região”) somos assado ou assim. Não que as identidades, grupais ou individuais, não sejam formadas, sempre, por uma contaminação que muito tem de espelhação e esfregação. Mas ao determinar que tal grupo de tal região (origem ou destino) é, simplesmente interrompemos o processo. Quem é, é. E fica sendo. E isso vale para os assim engessados e para os que dos engessados se valem para formar, por comparação, o seu ser  igualmente estático.

A diferença é que o regionalismo de quem vem estabelece a identidade positiva dos que não pertencem ao grupo por similitude: somos (todos) antes de tudo uns fortes. E o regionalismo de quem vai firma a identidade positiva por contraste: eles são uns bandidões, nossa, que horror, vamos logo para nosso apartamento seguro.

Na circunstância específica da Bossa Nova, somos todos uns fortes da elite e, portanto, o que outros membros da elite fazem não pode estar de todo errado (sendo que os outros membros da elite, ou a ela prestando serviço, eram os generais militares).

É esse o problema com o grupo da Bossa Nova. Firmaram-se a partir de um modo de vida da zona sul carioca. Contrapunham-se a outro grupo também baseado no espaço e não no tempo, os músicos de samba dos morros cariocas. Deles tiraram uma gênese, mas, peraí, ei, a gente é chique paca, legal paca, e até convida vocês a participar aqui do palco do Teatro Opinião. Samba não é mais esfregação, é espelhação, e de alturas-valores hierarquizados. Somos todos muito legais mas a gente é mais legal. Na exposição, sem querer, isso fica muito claro em uma das frases pintadas pelas paredes: “A Bossa Nova, em sua essência, é rítmica, é o samba.”

Uma bicadinha de estruturalismo aqui: 1) bossa nova tem maiúsculas – registro de importância – negadas ao samba; 2) ahn, o que é essência, hein?, há essências? com a palavra Platão e o mundo das aparências.

Continuando com mais uma bicadinha de estruturalismo. Há outras frases na Oca. No balcão da iconografia, que vai de 1955 a 1965, aprende-se muito, muito mais do que está lá. As frases: “Eclode o movimento militar em Minas Gerais, sob o comando do general Mourão Filho”; “É editado o AI-1 que depõe o presidente e inicia as cassações”; “O marechal Castelo Branco é empossado presidente”.

Essas, as frases da curadoria. Essa, uma explicação da lingüista Eni Pulcinelli Orlandi, sobre o encobrimento do autoritarismo no discurso conivente: diz a eminente doutora da Unicamp que pode haver uso ideológico da falta de sujeito e também da voz passiva. Quem é o responsável pela ação descrita fica protegido por esse artifício. Orlandi complementa observando que a nominação e a frase básica do verbo “ser” são marcas desse endosso que se envergonha de si mesmo.

Essa a informação que não era para estar lá mas está. A que está lá de propósito segue pelo mesmo caminho: no dia 6 de maio de 1964 (um mês depois da Gloriosa) Tom Jobim foi a Nova York tratar de assuntos relacionados a sua editora, a Corcovado Music; no dia 29 de maio de 1964, a revista Life dedica texto elogiando o álbum Getz/Gilberto. Uau. Tudo a ver com a época, não?

E aí vem a melhor frase de todas. A de Lorenzo Mammi. Diz ele: ” Você imagina o ritmo, mas o ritmo nunca está lá exatamente, o violão fez uma pequena coisa com o ritmo, que é uma pequena variação, e a voz fez outra coisa com outra variação. O ritmo está no meio, mas não tem ninguém que marque o ritmo exatamente.”

Não tem mesmo. O ritmo, o tempo, ninguém marcou. Ficou essa tentativa de passar por cima dele, mas ninguém passa. Acabou que, veja só, na atemporalidade da Oca, há essa ausência que grita – mesmo que seja no silêncio de João Gilberto ou no da curadoria.

Nota: Não pudemos fotografar. Sem saber da proibição, fomos ameaçadas de processo, mesmo nos dispondo a deletar a única foto tirada – a da “praia” de Copacabana no subsolo. Mas não tem importância. Você consegue fácil imaginar: aquilo mesmo que você já conhece, só que de mármore.

Uma vez ouvi do diretor Claudio Brandão que o cinema ainda não estava preparado para receber os X-Men. Vendo Homem de Ferro e agora Incrível Hulk fica claro que além de um bom roteiro e uma boa direção, adaptações de HQ precisam usar e abusar da tecnologia para funcionar. Em 2003, quando Ang Lee decidiu levar Hulk aos cinemas, uma das maiores críticas foi a falta de qualidade do personagem. Não me refiro à pífia atuação de Eric Bana, à incompatibilidade entre o gênero e o diretor, nem à luta de Hulk com poodles assassinos, mas à falta de textura do herói, da incapacidade de fazer o espectador acreditar no que está vendo por mais incrível que a imagem possa parecer. Louis Leterrier (diretor de Danny The Dog, com trilha sonora de Massive Attack) deixou claro seu respeito por Ang Lee nas entrevistas, mas fez questão de afastar o seu filme do fiasco antecessor, acertando na essência do personagem: nada de perder tempo com filosofia, Hulk não perderia.

Incrível Hulk começa com Bruce Banner morando na favela da Rocinha e trabalhando em uma fábrica de guaraná de fundo de quintal. As cenas aéreas da favela são impressionantes e funcionam ao construir a idéia de esconderijo labiríntico que representa a psique de Hulk e seu cotidiano de eterno fugitivo. Apesar de todo cuidado de Bruce para não deixar rastros, ele sofre um pequeno acidente na fábrica e chama a atenção do exército americano (a história é longa). Com permissão do governo brasileiro, como o filme faz questão de dizer, General Ross e sua trupe chegam com tudo na favela. As cenas de perseguição são excelentes e exploram ao máximo a “geografia” do local. Chega até a dar uma esperança de que um dia o cinema brasileiro saiba usar seus cenários sem encenar suas desgraças o tempo inteiro. Depois de muito correr para lá e para cá, o exército encurrala Bruce Banner e ocorre a primeira aparição de Hulk.

O Incrível HulkO restante do roteiro repete essa fórmula até o fim. Foge, foge, foge. Fica nervoso. Se transforma. Luta, luta, luta. Foge, foge, foge. Fica nervoso… e o pior é que funciona. Ao não perder mais tempo do que o necessário com o perfil psicológico do personagem, Leterrier abriu espaço para cenas de ação e investiu pesado nelas. Outro ponto positivo foi o respeito à mitologia dos HQs e ao histórico da série de Hulk na televisão. Além do general Ross, Hulk também enfrenta Emil Blonsky, que mais tarde se transforma no Abominável e faz um bom estrago na cidade tentando chamar a atenção do herói verde esmeralda.

Sobre as atuações, não há nada de excepcional. Liv Tyler (Beleza Roubada, Senhor dos Anéis, Armageddon) é carismática e bonita o suficiente para convencer como Betty Ross, a namorada de Bruce. Edward Norton (Clube da Luta, Dragão vermelho, O Ilusionista) é um grande ator e foi uma opção melhor de Bruce Banner do que Eric Bana, mas podia ter ido além do caricato. Tim Roth (Planeta dos Macacos) sempre faz a mesma cara, seja recepcionista de hotel, macaco diabólico ou criatura mutante. Não foi diferente como militar invocado/abominável, certamente atores melhores passaram pelo teste.

Sobre os números. O Incrível Hulk custou US$150 milhões. Em um mês arrecadou US$210 milhões. Para efeitos de comparação, a primeira versão (de Ang Lee) custou US$132 milhões e arrecadou US$245 milhões. Homem de Ferro custou US$140 milhões e em dois meses arrecadou US$563 milhões.

No Centro Cultural São Paulo, acontece o Tipos Latinos 2008, a terceira bienal de tipografia latino-americana. Selecionei aqui apenas os que mais me chamaram atenção, mas são todos os tipos muito bons. A entrada é franca e o centro cultural é ótimo.

fonte: PSLa Morena
tipógrafo: Edgar Alejandro Reyes Ramirez
país: Mexico

fonte: Família Zootype
tipógrafo: Victor García
país: Argentina

fonte: Think
tipógrafo: Eduardo Rodriguez Tunni
país: Argentina

fonte: La Mancha
tipógrafo: Victor Manuel Martínez Beltrán
país: Mexico

fonte: Últimos Ritos
tipógrafo: Fernando Forero
país: Colombia

fonte: Palafito
tipógrafo: Sergio Contreras Chandia
país: Chile

fonte: Armoribat2
tipógrafos: Buggy e Matheus Barbosa
país: Brasil

fonte: Fabrica
tipógrafo: Oscar Yañez
país: Mexico

esquerda
fonte: Altazar
tipógrafo: Felipe Cáceres C.
país: Chile

direita
fonte: Señorita
tipógrafa: Paula Barahona
país: Chile

fonte: Vecchia
tipógrafo: Jesús Barrientos
país: Mexico

esquerda
fonte: Amster
tipógrafo: Francisco Gálvez Pizarro
país: Chile

direita
fonte: Chaco
tipógrafo: Rubén Fontana
país: Argentina

esquerda
fonte: Average
tipógrafo: Eduardo Rodríguez Tunni
país: Argentina

direita
fonte: Fondo
tipógrafo: Cristóbal Henestrosa
país: Mexico

esquerda
fonte: Presidencia
tipógrafo:Gabriel Martínez Meave
país: Mexico

direita
fonte: Frida
tipógrafo: Fernando de Mello Vargas
país: Brasil

esquerda
fonte: Espiral
tipógrafo: Miguel Ángel Padriñan Alba
país: Mexico

direita
fonte: Pásele
tipógrafo: Diego Negrete Olmedo
país: Mexico

visão geral da mostra

quadro explicativo da anatomia de um tipo e detalhe

Leia também: Fonte da boa

Casa da Gávea – cineclube promove

“Workshop com Jorge Mautner” / segundo encontro

Ingressos: R$20,00 e R$15,00 (sócios do Cineclube da Casa da Gávea)

Nesta terça, 01 de julho, às 20h

Jorge Mautner exibe e comenta “Jeca Tatu”, de Mazzaropi

Duração de 95 minutos

Gênero – Comédia – Preto e Branco

Ano: 1959

Sinopse

Jeca é um roceiro preguiçoso de dar dó, mas esta preguiça está com os dias contados, pois seu ranchinho esta ameaçado pela ganância de um latifundiário sem coração. Agora ele vai usar todo seu jeito matreiro para conseguir seu cantinho de terra.

Um clássico da filmografia de Mazzaropi. Às vezes engraçado, em outros momentos de uma beleza tocante, ele trata com muita singeleza a figura do homem do campo e a questão da reforma agrária neste filme que é uma declarada homenagem de Mazzaropi ao seu conterrâneo Monteiro Lobato.

www.casadagavea.org.br

Praça Santos Dumont, 116 sobrado – Gávea

Rio de Janeiro – RJ

Tel.: 21 2239-3511 / 21 2512-4862