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Category Archives: edicao_0016

lista de artigos da edição 16, ano 3 – novembro & dezembro de 2008

Gentlemen of the Road foi editado primeiramente em um suplemento do New York Times, algo nos moldes do que faz o jornal Rascunho aqui no Brasil. Um pouco depois, ele ganhou versão em livro com um capítulo bônus onde Michael Chabon explica por que um escritor de literatura dita séria, vencedor do prêmio Pulitzer, resolveu escrever literatura de gênero.

Preconceito entre mainstream e literatura fantástica de lado, vale dizer que Chabon é autor de livros tão importantes quanto diferentes. Escreveu Garotos Incríveis, um leve romance mainstream adaptado para o cinema, e Yiddish Policemen’s Union, uma história alternativa vencedora do Hugo e do Nebula Awards, se destacando dos dois lados da fronteira imaginária.

“’I don’t save lives’, Zelikman said. ‘I just prolong their futility’”.

Gentlemen of the Road me pareceu uma mistura de As viagens de Gulliver e Mil e uma noites. Conta a história de Amram, um ex-soldado africano que é ágil com o machado e descrito como um gigante, e de Zelikman, um médico magro de cabelos brancos e com ares de espantalho, apaixonado por chapéus e muito bom de espada. Os dois são amigos e seguem pelo Cáucaso por volta de 950 d.C., trabalhando como ladrões e mercenários de aluguel para sobreviver. Em uma das missões, eles acham Filaq, um adolescente que é o próximo na linha de sucessão do trono do império Khazar. Para ganhar uma recompensa, eles levam Filaq de volta ao seu castelo, encontrando uma situação mais complexa do que previam. Um general chamado Buljan assumiu o posto à força e colocou assassinos na trilha de Filaq, deixando o médico judeu e o guerreiro africano com um dilema moral: largar o garoto e ir embora para evitar problemas ou ajudar Filaq e de quebra restabelecer o equilíbrio do império Khazar? É claro que só há uma resposta possível para os dois anti-heróis.

“Zelikman was obliged to acknowledge that Filaq had a true gift for commanding soldiers, because Zelikman knew what the stripling had intuited, namely that Amram was vulnerable to a well-timed display of taunting”

Gentlemen of the road, de Michael ChabonO livro é uma aventura adolescente com espírito de road story. O autor acrescenta um personagem ou situação por capítulo, segue a mesma estrutura de apresentação de trama em cada um deles e repete fórmulas para mudar os rumos da história. Talvez seja um reflexo negativo do formato de publicação em jornal. Outro fator que atrapalha a fluidez é a forma de descrever as cenas, cheias de exemplos e figuras de linguagem, uma atrás da outra, em um suposto fluxo de pensamento que só consegue deixar as cenas confusas.

Apesar de ser uma leitura rápida e a dupla de protagonistas ser cativante e bem trabalhada, não é um dos pontos altos da carreira de Michael Chabon.

Em tempo: O texto acompanha ilustrações de Gary Gianni.

Não sou um grande fã de Woody Allen, já dormi em vários filmes dele (e só nos dele), mas Vicky Cristina Barcelona conquistou minha simpatia. Simpatia, aliás, é a palavra-chave para descrevê-lo. Foi a primeira comédia de Allen que me fez rir de verdade. Ele não aposta em uma trama original, com vinte minutos já é possível prever o final do filme, mas o diretor nunca desempenhou tão bem sua arte de sair da frente dos atores para que eles conquistem espaço em cena.

A história é mais ou menos essa: Vicky (Rebeca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) são amigas de longa data que resolvem ir para Barcelona por motivos diferentes. Vicky quer fazer pesquisas sobre cultura catalã e Cristina quer arejar a cabeça depois de atuar em um filme de 12 minutos. As duas se hospedam na casa de uma amiga de Vicky que está com um quarto vago. Um dia, visitando uma exposição, Cristina fica interessada em um pintor chamado Juan Antonio (Javier Bardem). Os boatos dizem que ele se separou recentemente da mulher de uma forma violentíssima. Ninguém sabe dizer quem bateu em quem, o que não diminui o prazer da fofoca.

Corta para um restaurante. Vicky e Cristina reencontram Juan Antonio. O convite é direto e objetivo: estou indo para Oviedo ver uma obra de arte que me inspira e gostaria que vocês fossem comigo conhecer a cidade e fazer amor. Vicky, que está para casar e é toda séria, trata Juan muito mal. Cristina, solteira e aventureira, corresponde ao charme. Por mais que Vicky insista que é uma loucura viajar com um estranho para uma cidade que ela nunca ouviu falar, as duas acabam indo com o pintor. É lá que começam os romances que movimentarão o filme e que contarão mais tarde com a presença de Maria Elena, ex-mulher de Juan, para apimentar as relações.

Se o roteiro é padrão nas artimanhas de Allen, a direção merece parabéns. Woody Allen se mostra inspirado na movimentação de câmera, escolha dos ângulos e, principalmente, na direção de atores. A beleza das locações também contribui bastante. Vicky Cristina Barcelona não lembra nem de longe a estagnação de Sonho de Cassandra ou o desperdício verborrágico de Scoop, mesmo que não alcance a maestria de Match Point (que se deve ao roteiro).

Não por acaso, as atuações de Javier Bardem e Penélope Cruz têm sido comentadas à exaustão desde a estréia em Cannes. São elogios merecidos. Bardem dá uma aula de interpretação desde sua primeira cena e valeria sozinho o ingresso. O estilo de direção de Allen casou perfeitamente com suas sutilezas de gestos e olhares. Penélope Cruz, que tem uma participação bem menor, também esbanja talento e rouba várias cenas. Sua atuação como Maria Elena (completamente louca) é um dos pontos altos do filme.
Scarlett Johansson? Ela se esforça, como sempre. Woody Allen teve o bom senso de destacar a beleza de sua atriz fetiche, escapando da armadilha de Sonho de Cassandra. Rebeca Hall também foi muito elogiada e deve chamar atenção daqui para frente. Fiquem de olho em sua participação em Frost/Nixon.

Vicky Cristina Barcelona recebeu 4 indicações ao Globo de Ouro, incluindo melhor filme, atriz (Rebeca Hall), ator (Javier Bardem) e atriz coadjuvante (Penélope Cruz). Penélope Cruz ganhou 4 prêmios, incluindo os da Associação de Críticos de Los Angeles e de Nova Iorque.

Tenho uma amiga que já foi restauradora de livros e que estremece quando digo que faço orelhas nas páginas durante a leitura. Explico que é o único jeito de me lembrar das passagens que gostaria de citar quando escrevo a resenha. Ela me fala de um marcador que parece um chapéu que cabe direitinho na orelha do livro e que um dia fará vários para mim, mas enquanto esse dia não chega, e talvez depois que ele passe, me vejo dobrando quase por compulsão as pontas das páginas e quem sofre dessa vez é o livro da Carol Bensimon, que desfila em três noveletas um apanhado de boas frases, dessas que cabem muito bem em uma resenha como a minha.

O que primeiro me chamou atenção foi a idade da Carol. Ela nasceu em 1982 e eu ando com mania de achar todo mundo da década de 80 tão novinho e um prodígio quando faz um trabalho primoroso. Aí percebo que a diferença de idade nem é tanta assim, tenho quatro anos a mais, e deixo outros fatores de lado para me concentrar só no texto que é um excelente primeiro tiro na literatura.

“O homem andava de calça social e camisa clara, mas de algum modo essa não sujava do pó nem molhava do suor. E tudo o que ele fazia era mesmo andar. De um buraco para o outro, de um barulho para o outro, andar e olhar para cima, sobre os homens, sobre o que ainda não havia. Se o gordo mandava no grito, esse mandava no silêncio”.

Falando em orelhas, a do livro que não fui eu que dobrei diz que Carol Bensimon é de Porto Alegre, já publicou contos no Zero Hora e nas revistas Ficções e Bravo! Seu próximo romance, Sinuca embaixo d’água, ganhou a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária e deve sair em 2009.

Pó de Parede, o de agora, não é bem um romance. Como disse, reúne três histórias diferentes na temática mas similares na estrutura. Seja lá o que for que se aprenda em mestrado de escrita criativa ou doutorado de literatura comparada, parece que a Carol aprendeu bem. O capricho com a estrutura das frases salta aos olhos. Às vezes salta demais, é verdade, mas se deixarmos de lado aquele papo da busca do escritor pela frase perfeita, o que resta são histórias muito bem escritas, dessas que dá gosto de ler e reler.

A que abre o livro se chama A Caixa. Comecei resistente porque remete à infância e é uma torcida de nariz automática a que tenho. Mas besteira minha. A leitura é prazerosa na medida. A Carol não tem uma narrativa simplória, ela monta as frases como um quebra-cabeça (e é contra imortalizá-los como quadros) e deixa exposto o suficiente para que se entenda com todas as letras o que ela quer dizer.

“Voltei para dentro do hotel, e cada parte tinha um nome de flor, que era para as pessoas melhor se localizarem e também para que o hotel cobrasse caro delas, porque uma ala dos jasmins valia muito mais do que um corredor sem nome”

A Caixa é um conto de remembrança. Narrado basicamente do ponto de vista de Alice ele vai e vem no tempo até que se monte não uma história, mas um sentimento geral. A maior parte vem da infância, de como Alice se sentia excluída entre os amigos, da visão que tinha dos pais meio diferentões e da casa moderna feita por um arquiteto visionário, essa sim completamente diferente. É nessa suposta exclusão que se formam as relações de amizade com Tomás, outro excluído, e com Laura, a mais improvável de escolhê-los como companhia. O legal é ser construído em cima de impressões, o que realmente dá o gosto de memórias, ao mesmo tempo borradas e coloridas. Algo que está ali, mas não está é. Quem não significa nada, mas tem toda a importância do mundo. Num desses vai e vens a novela chega ao presente, só para se fechar simbolicamente como passado, porque é lá atrás que está toda a diversão.

Assim, fui eu para Falta Céu, a segunda novela, entusiasmado e ressabiado pelo mesmo motivo. Como a Carol tem uma voz muito forte, o risco de deixar os personagens em segundo plano é grande. É uma questão de escolha.

A história muda completamente de cenário. O leitor vai para uma cidade pequena encravada no meio de duas grandes. Lá a vida é daquelas de que qualquer acontecimento vira história e quando a história acaba as pessoas reinventam para fingir que tem novidade. Carol Bensimon consegue passar muito bem esse clima, que ganha um algo mais quando surge um forasteiro e a noção de uma grande obra, seja lá o que ela for. Tem o gosto de acontecimento passo a passo, que vai se instaurando na velocidade de cimento e tijolo, mas que quando muda o entorno parece que veio de repente. Quem já viveu nessas meio-cidades sabe a sensação que é e me impressionou sentir isso vívido na literatura.

Falta Céu é um texto rico em personagens, mas a autora tem um alter ego definido. E esse alter ego passeia por fofoca de vizinho, amor de verão e outros quadros que compõem a história mais do que amarrá-la, propondo um fechamento psicológico que cabe direitinho na proposta.

“Havia um negro genial que tocava jazz no piano bar. Tocava como um doido e tocava para si, como os músicos de verdade tocam para si e, portanto, não me despertava aquela piedade de quando vemos um tecladista na praça de alimentação de um shopping. Era um músico, e não um quebrador de silêncio (…)”.

A última noveleta se chama Capitão Capivara. Curiosamente, quando Carol Bensimon se desdobra em um escritor e uma aspirante a escritora é que os personagens mais ganham vida e conseguem se impor diante da sua voz narrativa. Assim sendo, Capitão Capivara traz um prazer diferente. Permanecem o esmero com a estrutura e a construção cuidadosa para que a frase realmente possua valor agregado, mas a novelinha ganha uma graça extra na história pessoal de cada personagem. E a vivência é mais ou menos essa: há um escritor que foi pago pelo dono de um grande hotel para escrever um romance lá, usando o hotel como cenário. Só que o escritor está passando por uma crise pessoal que complicará um pouco as coisas. Há a aspirante a escritora que resolveu concorrer a uma vaga de babá no hotel. Ela trabalhará cuidando dos filhos dos hóspedes. Único porém: vestida de Capitão Capivara, uma daquelas fantasias grandes, quentes e abafadas de pelúcia que sufocam a própria voz.

Dessa vez, as histórias se cruzam com humor e se fecham narrativamente, com uma última frase digna de tudo que a antecedeu.

Pó de parede
Carol Bensimon
Não editora
122 páginas

Antes de qualquer coisa, Gomorra é muito bom. Tem uma força que talvez eu não saiba explicar nas próximas linhas, mas prometo que tentarei. Se eu não conseguir, vá ao cinema mesmo assim.

É provável que você já saiba: Gomorra foi inspirado no livro de mesmo nome escrito pelo jornalista Roberto Saviano. Não chega a ser uma adaptação. Ele não é uma obra evangélica ou religiosa. O título é uma brincadeira perigosa com Camorra, nome de um dos grupos mafiosos italianos mais fortes e influentes da atualidade. Camorra, aliás, é nome que se lê em livro e jornal. Por lá, é Il Sistema (Camorra). Como o livro fez um sucesso estrondoso, Saviano está jurado de morte e só anda com escolta policial. Ainda não li o livro, mas está na lista para 2009. A equipe do filme, parece, passou ilesa aos olhares da Camorra, que o considerou só mais um entre tantos filmes de máfia depois de acompanhar de perto parte das filmagens. Problema mesmo teve com a polícia. Uma das cenas de assassinato foi parar no youtube. De tão real a polícia acreditou e chamou o diretor para se explicar. Essas informações de bastidores dizem muito sobre o filme, que trata de poder e influência no submundo e aposta na força de suas imagens.

O cartaz picareta diz que Gomorra é o Cidade de Deus italiano. Não é. Enquanto o filme de Fernando Meirelles é um flerte assumido com a estética hollywoodiana, o filme de Matteo Garrone não tem nenhuma pretensão de ser O Poderoso Chefão das novas gerações e trabalha os elementos de linguagem para destacar a crueza do tema abordado. Trilha sonora? Às vezes, sempre disfarçada nos radinhos. Glamour? Nem pensar.

Comparar qualquer filme italiano com neo-realismo é sempre tentador, só que isso também seria picaretagem da minha parte. Olhando o currículo dos atores, vi que esse é o primeiro filme da maioria. Fora um rosto ou outro mais conhecido (como Gianfelice Imparato), a impressão que se tem é de que há não atores trabalhando com atores nos papéis principais e inúmeros não atores nos papéis secundários. O release oficial em italiano diz que há atores de teatro sem experiência no cinema, o que explica minha impressão. Uma idéia inteligente, já que dá frescor à imagem sem dispensar a base técnica.

Gomorra se divide em cinco narrativas que não se juntam no final. O filme estratifica as etapas e áreas de atuação da máfia e cabe ao espectador somar as informações que julgar relevantes e montar na própria cabeça a história. Matteo Garrone e a equipe de roteiristas preferiram fugir de um formato auto-explicativo. Essa opção narrativa leva a uma situação interessante que contribui para a atmosfera realista. Como o espectador não tem uma historinha para acompanhar (sabe aquele filme em que você se desliga e quando percebe já acabou?), ele é obrigado a dialogar com as cenas de forma mais individualizada, o que reforça o impacto.

As histórias:
a. Ciro e Marco têm uma visão hollywoodiana da máfia. Acham que tudo é uma grande brincadeira. Arma é poder. Resolvem ser mafiosos, roubam armas da Camorra, roubam traficantes de drogas. Acham que estão instituindo um novo centro de poder no território, mas estão mesmo é irritando o sistema e terão que lidar com as conseqüências. É a parte do filme que gera as cenas mais impactantes. “Não consigo ficar muito tempo sem atirar”, diz um deles.
Destaque para a cena dos dois de cueca testando as armas. Som e fotografia perfeitos.

b. Pasquale trabalha criando vestidos de alta costura. Mas nada de conversar com divas e grandes atrizes. Sua história é contada na fábrica onde a mão de obra é explorada para entregar as encomendas a tempo. Sua vida passa por uma mudança e tanto quando a máfia chinesa resolve entrar no ramo para competir com os italianos. Pasquale recebe uma oferta generosa para ensinar os “operários chineses” a fazer vestidos de alta costura. É claro que isso criará problemas.

c. Toto é um garoto de uns treze anos que trabalha entregando compras. Na sua ânsia de virar adulto, se espelha no que vê em volta: a máfia. Por escolha própria, se candidata a uma vaga na Camorra. Mas a Camorra está sofrendo com divisões internas. O poder é fragmentado, há algo de queda do Império Romano no ar. Isso faz com que os amigos de infância de repente passem a ser inimigos e Toto tenha que lidar com alguns dilemas morais. Destaque para o ritual de iniciação da Camorra.

d. Don Ciro tem um trabalho especial. Ele distribui o dinheiro para as famílias afiliadas ao seu clã. Sua missão é ser discreto, entrar mudo e sair calado. Infelizmente, ser discreto não ajuda em nada quanto começam as guerras internas. Um homem com dinheiro com uma lista de famílias beneficiadas é um alvo potencial. Acima de tudo, é um inimigo, pegue em armas ou não. Ajuda a reforçar a idéia de que o amigo de um dia é o inimigo de outro. Serve também para mostrar que a máfia alcança as esferas mais pobres da sociedade disfarçando a exploração com uma aura assistencialista.

e. Roberto é escolhido por Franco para ser seu ajudante. Seu trabalho é simples: encontrar bons terrenos para esconder lixo tóxico. Ele e Franco alugam os terrenos das famílias, procuram pedreiras abandonadas e transportam e enterram o lixo de grandes indústrias como se fosse lixo comum. É um trabalho simples e seguro para eles, não para os que trabalham com os tonéis. O problema aqui é a consciência de Roberto que não concorda com a praticidade de Franco. Essa parte é quase didática.

O filme é extremamente violento. Usa tanto a violência física quanto a psicológica. Apesar da descrição separada que fiz acima, Gomorra mistura todas as narrativas de forma fragmentada (a palavra-chave por aqui), indo e vindo de uma para outra para que o espectador entenda que a Camorra está em todos os lugares e tem diferentes maneiras de agir.

Para quem não compreende a mensagem visual, no final são dadas algumas informações textuais, como o número de mortes por ano, o índice de câncer próximo aos aterros clandestinos e o volume de dinheiro movimentado por dia.

Não é um soco no estômago, não foi feito para isso. Mas merece ser um dos filmes mais comentados do ano.
A força de Gomorra está no mundo real e é isso que impressiona.

“Pirandello dizia que a realidade pode se dar ao luxo de não ser verossímil, a arte não. É difícil que uma realidade tão inverossímil quanto a da Camorra pareça real. É preciso transfigurá-la” – Matteo Garrone, tradução livre.

Em 20 de dezembro de 2007, em três minutos, roubavam um Picasso (e um Portinari) do Masp.

E eu ponho isso na retrospectiva de 2008 porque acho que esse fato foi o verdadeiro início do ano da arte que agora, dezembro de 2008, temo, está longe de se encerrar.

E, na verdade, não foi no dia 20 de dezembro de 2007 que isso que eu vou comentar aqui começou. Foi muuuito antes. Em fevereiro de 2006, outro Picasso (e mais um Monet, um Matisse e um Dali) também sumiam. Dessa vez no Rio, em pleno carnaval. Estavam no simpático e desprotegido Museu da Chácara do Céu, em meio à mata atlântica. Teve também o roubo das gravuras de Debret e Rugendas da Biblioteca Mario de Andrade em SP, antes. E mais outro Portinari da Galeria Thomas Cohn. E mais moedas antigas (entre outras coisas) do Museu do Ipiranga.

E antes que algum nacionalista às avessas diga que isso é coisa do Brasil, lembro que esses roubos não são nada que se compare à perigosa Suíça, onde Picassos e Monets somem como água no ralo.

Quer dizer: grande valor, esse, o imputado à arte.

A dos séculos anteriores. Pois no mesmo dia 20 de dezembro de 2007, enquanto roubavam as duas vacas sagradas do modernismo em uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, Dona Marisa, nossa Primeira Dama, devolvia uma escultura em madeira da artista contemporânea Elisa Bracher. Motivo? A mulher de Lula achava a escultura muito feia. Detalhe: estava deteriorada. Ou seja: nenhum valor, o imputado à essa outra arte, a contemporânea.

Mas não é bem assim. Valor tem. Mas só para algumas de suas manifestações.

Em fevereiro/março de 2008, abriu a 27a Arco, na Espanha, com o Brasil como convidado de honra. Abriu com R$ 2, 6 milhões de patrocínio do dinheiro público para o traslado e montagem das obras. É pouco. É o mínimo. Deve ter havido uma conta para descobrir o mínimo possível antes de pegar mal, de parecer descaso com a “homenagem” (na verdade imposição disfarçada de patrocínio). As obras foram escolhidas por dois curadores indicados pelo mesmo governo pagador: Paulo Sergio Duarte e Moacir dos Anjos. Foram 108 artistas de 32 galerias brasileiras – e mais alguns outros, em mostras paralelas.

Trata-se de uma feira de arte das mais comerciais do mundo.

Por aqui,, alguns eventos depois (50 anos de Bossa Nova, centenário da imigração japonesa, aniversário da morte de Machado de Assis e 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Brasil), veio, então, a 28a Bienal de São Paulo.

Bienal do vazio, chamou-se.

Não foi uma escolha conceitual, nem obrigou-se, o evento, a qualquer coerência, pois vazio ficou apenas um andar do pavilhão de exposição. Os outros puderam se encher.

Mas, sim, vazio. Vazio do dinheiro institucional.

Como aplicar dinheiro em uma arte que tem grande parte de suas obras não voltada para o comércio, porque não composta de objetos?

É essa, acho eu, a frase que resume o ano.E que vem se formulando há tempos e que provavelmente continuará na mesa ano que vem e mais outros.

A arte contemporânea tem boa parte de sua melhor criação em processos únicos ainda que documentados por vídeos, fotos etc. (inclusive interativos); em materiais efêmeros, feitos mesmo para desaparecer; em armações precárias, integradas a um entorno mutável.

O problema não é dela, arte, o problema é do dinheiro. A arte prediz uma situação de mudança radical do sistema de trocas de valor. O dinheiro quer calá-la.

A Bienal do não-vazio estava lá com seus poucos objetos. E houve a Paralela.

Se a Bienal teve espaços que ficaram vazios, a Paralela, montada em um galpão reformado do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, juntou 61 artistas indicados por 11 galerias. Estava lotado.

E para quem andava tropeçando em quadros, esculturas e objetos, uma coisa podia passar despercebida. A mostra era do mercado. O dinheiro público ficou fora da Bienal. O mercado ofereceu o seu para a Paralela. Mas escolheu as obras: objetos. Coisas. O que é passível de ser trocado por dinheiro.

É essa a situação: a estrutura que cerca a arte contemporânea está às voltas com um “produto” que a agride, justamente por não ser produto.

Aguardemos os próximos capítulos.

O livro do professor João Ângelo Oliva Neto, Falo no jardim, sobre a Priapéia Grega e Latina, é uma preciosidade. Além de trazer para o português, em bela tradução, toda a poesia feita em homenagem a Priapo, um muito bem cuidado estudo sobre esta poesia se desenvolve ao longo do volume. O livro contém estudo fundamental para quem se debruça sobre a formação cultural do homem ocidental, além de trazer uma bela e decisiva iconografia deste deus cultuado nos jardins da poesia.

A base cultural a partir da qual a poesia priápica se desenvolve é definitivamente a de um outro mundo. As preocupações com o equilíbrio do corpo público e privado se estendiam ao cotidiano dos gregos. São várias as informações colhidas aqui e ali que o demonstram. Foucault, em sua Historia da sexualidade a explora e analisa. O culto do deus Priapo, embora tenha se iniciado no espaço público, aos poucos ingressado no espaço privado, está no centro destas preocupações, conforme aponta Oliva Neto.

Afresco de Priapo, da Casa dei Vettii, Pompéia - fonte: Wikimedia CommonsAs receitas para a boa sexualidade, segundo o filósofo francês, passam pelo regramento e por uma série de medidas ostensivas do equilíbrio, através dos cuidados com o corpo que perfazem um arco que vai da alimentação à época mais propícia para o acasalamento. A presença do deus itifálico é, em certa medida, também parte deste equilíbrio; o culto visava, com a prefiguração do grotesco e pela personificação do falo, o risível.

O risível, segundo Oliva Neto, permitia dupla concepção: a de não ser risível por ocupar o espaço público e assim cumprir a função para a qual estava destinado – ou seja – ser lido em sua função religiosa de proteção dos frutos, proteger e propiciar “o nascimento de particular concepção de vida”, através do grotesco. A outra concepção presente no culto ao deus era a do riso genesíaco, oriundo da plenitude amorosa e sexual que em sua função religiosa poderia significar exuberância existencial felicidade tais que ajudaria a comunicar não ser terrível a morte, mas jubilosa.

Os poemas da priapéia e os estudos do professor Oliva Neto permitem, portanto, que se vejam alguns dos ditames sobre os quais a poesia erótica se manifesta. Na sua concepção mais antiga, a morte é o limite supremo através do qual o deus se manifesta, dando aos homens a percepção da alegria, do júbilo do humano. Essa concepção gozosa da morte será decretada finda onde e quando o cristianismo se torne vitorioso. Contra, como diz Oliva Neto, o falo, a cruz. A percepção da cruz, do que representa a morte como sacrifício, vai escamotear dos homens a capacidade de jubilarem-se com o sexo e com o dizer do sexo e da sexualidade.

A percepção do riso da morte se transformará na percepção do ricto da face, distorcida pela dor. Ao se ocultar o falo desproporcional e abundante com que se celebra a vida oferece-se uma figura diáfana, limpa, e assexualizada que afasta os homens de si. Esse movimento fez com que a percepção do erótico se transformasse em algo proibido, vexatório ou ‘nojento’. Seria necessário que alguns séculos corressem até que Freud reabrisse novas possibilidades para a re-interpretação da sexualidade.

As práticas psicanalíticas não teriam, entretanto, a ver com o substrato do mundo priápico, posto que passam pela percepção da doença, do desvio e do grotesco não como incentivo à plenitude deste grotesco, mas como parte sua re-educação. Não se pode mais perceber o grotesco como grotesco, mas como desvio; em um mundo onde se cultuam as formas homogêneas do pensamento, o próprio pensamento se desveste de seu caráter propiciador da diferença e acanha toda e qualquer possibilidade que se dê fora de seu círculo.

Ao recolocar a priapéia em circulação, Oliva Neto torna possível que o homem se interrogue acerca de si mesmo e da sua concepção de sexualidade e, sobretudo, sobre a percepção do estético, daquilo que se permite ver como matéria da beleza.

O termo ‘grotesco‘ foi cunhado no século XV e se referia a uns ornamentos de paredes e vasos escavados do subsolo de Roma, durante a reconstrução da cidade sob o Papa Júlio II. Coisas estranhas e escuras que vinham de cavernas, grotas – daí o nome. Eram ornamentos pré-cristãos, da época do Império, e continham figuras humanas com cabeças ou membros de animais. Asas para voar, chifres em um registro do masculino, velozes patas de cavalo. Um humano que incluía um não-humano, presente desde sempre e até então oculto à força de um intelecto religioso e regulador. A descoberta dessa arte iria dar respaldo a um movimento que ocorreria pouco depois. Cansados da peia cristã, artistas ousavam modificar, conceitualizar, a figura humana. Foi uma descoberta importante. E era bem entendido, esse ‘grotesco’, como algo que existia antes, como uma arte anterior à atual. E que representava uma característica ‘animal’ também anterior a uma humanidade que se exigia bela (à imagem de deus), filosófica e científica. Racional, equilibrada.

É uma questão temporal, seqüencial.

O grotesco escuro, manchado, que Cadu apõe sobre seus desenhos de linhas finas, na exposição Plymouth (galeria Laura Marsiaj), é o registro do que vem depois, e não antes, de uma racionalidade.

plymouth - barbican 1 plymouth - barbican 2 plymouth - barbican 3 plymouth - barbican 4 plymouth - barbican 5 plymouth - barbican 6

A linha de seus grandes desenhos é o grafite preciso dos planos arquitetônicos ou urbanísticos. Das plantas baixas e das perspectivas. O artista tomou para modelo uma pequena cidade inglesa, destruída na Segunda Guerra. Tanto faz. Há um transbordamento do seu tema. Trata-se de uma construção racional, realizada em desenho, a técnica racional por excelência. E, sobre isso, uma pintura gestual sem contornos estabelecidos, na explicitação de um controle tentado, e tentado outra vez, sem sucesso. Não precisa ser Plymouth e Barbican, seu bairro mítico (o único a escapar das bombas). Pode ser qualquer constructo em seu enfrentamento com os fluxos da contemporaneidade. Pois aqui, ao contrário da Renascença, não é a clareza de um plano matemático, previsível, o que vem por cima. É a falência desse plano. A racionalidade é o que ficou para trás, encoberta. Sobre ela, a irracionalidade.

Além de seus seis grandes desenhos, Cadu trouxe uma instalação chamada HMV (His Master Voice). Furadeiras que tocam música. No dia em que visitei a exposição, era o barulho das furadeiras a vencer o da música, esta mal ouvida por baixo, ainda ouvida por baixo.

Uma outra instalação, O hino dos vencedores, é uma composição feita de cartões de mega-sena, essa irracionalidade tão popular.

A questão do grotesco – o da Renascença e os que a ele se seguiram, no gótico e em um certo modernismo figurativo do século XX – é que ele sempre aponta para uma impossibilidade da lógica. Mostra uma não confiabilidade radical, ao solapar a idéia de um passado, ou a de um futuro.

Cadu nasceu em 1977. Passado e futuro não têm, para ele, qualquer sentido. O que ele nos diz é que não o há para ninguém.

Haroldo de Campos publicou este belo livro no ano de 1985, pela Editora Brasiliense. Desde essa época uma e outra vez o releio. Há uma série de poemas que revelam o amor do poeta por seu ofício. Como em uma emulação dos romances de formação, o autor faz com que as trilhas de seu percurso, de sua eleição se dêem a ver. A educação dos sentidos cria um emaranhado sutil de citações que permitem refazer o percurso poético, a minimalha das construções que se fazem a partir da capacidade da razão.

O título do livro, retirado de uma citação de Karl Marx, revela a sensibilidade de leitor e propulsor da construção poética. Entenda-se. Em um país, no qual a leitura é ou inexistente ou superficial, desafiar o leitor para a percepção de uma capacidade intrínseca do saber, que é uma forma de desenvolver as sensibilidades, pressupõe o risco da ininteligibilidade. Ao propor ao leitor um mergulho nas formulações do pensamento, através de sua mínima moralia, não permite que o leitor se conforte com as convenções do poético – entre nós as convenções romântico-parnasiana – e se quede satisfeito de si e do poeta.

A intenção desta educação é outra, desloca-se na percepção com que o intelecto – ao reconhecer o texto duplo/triplo/vário – marllamaico – se constrói no abismo da linguagem que prefigura o prazer da leitura e compõe um vasto campo de sensibilidades adormecidas e/ou desconhecidas e revela, ademais, a capacidade de criar realidades ainda não pressupostas, função mesma, prepotente e percuciente, da linguagem poética. Exerce sua função de demiurgo que não deve explicações ao seu objeto – a linguagem – nem a seu outro sujeito – o leitor.

A ficção poética, desta forma, cumpre seu papel mais efetivo: dar a conhecer os traços de uma tradição e sobre eles compor traços que inovam, tencionam a língua até sua significação mais intrínseca: nomear e forjar conhecimento sobre si mesma, e, neste movimento revelar-se como o que é: uma epifania do intelecto. Ao contrário do que se supõe, a linguagem não é um instrumento realista, que revelaria um mundo que possa existir, mas é a própria criação do mundo pelo homem.

Haroldo de Campos foi poeta da sensibilidade maior, expressa na linguagem própria que criou e fez circular entre seus leitores. Essa linguagem tem seus segredos e exige do leitor intenção de desvendamento. Percebam como a linguagem diz numa espiral de significados que se dão a ver na própria construção do poético e na sua eficácia.

Tenzone

um ouro de provença

(ora direis) uma doença

de sol um sol queimado

desse vento mistral (que doura e adensa)

provedor de palavras sol-provença

ponta de diamante rima em ença

como que olha a contra-sol

e a contravento pensa

(Campos, Haroldo de. A educação dos cinco sentidos. 1985)

Tente, leitor, decifrar as citações e o que elas compõem e se surpreenda do que é capaz o poeta. Procure, por exemplo, por tenzione, procure por Bilac, por nosso João Cabral, pela Provença dos provençais, um pouco da pedra drummondiana. Descubra, force os sentidos e perceba como sua sensibilidade foi atingida.

Tenho uma relação curiosa com os livros do Daniel Galera. Gosto muito da escrita, do jeitão que ele desenvolve as frases, da escolha de palavras que tratam o sexo com naturalidade, que lembram que trepar pode ser tão cotidiano como ir até a padaria descolar um café da manhã ou arrumar as malas para ir a Buenos Aires lançar um novo livro. Por outro lado, nem sempre consigo me conectar com as histórias. De primeira, eu explicaria isso dizendo que o mundo descrito não é o meu e que assim me distancio. Mas sou um leitor voraz de fantasia e ficção, equilibro o chamado realismo mainstream com a literatura fantástica, então essa desculpa não me cabe. A possibilidade seguinte seria a escrita, mas essa opção já eliminei de antemão.

Cordilheira, de Daniel GaleraTenho um carinho especial por Até o dia em que o cão morreu, pré-cinema. Na época começava a pesquisar autores nacionais da minha geração, garimpava os livros aqui e ali, feiras de pequenas editoras, estante da Elvira Vigna. Na editora Livros do mal ele era um livro pequeno, de capa amarela, a cara de um cão muito simpático que morre logo de início. O personagem principal (era o dono do cão? Provavelmente) vaga pela cidade, tem uma namorada febril, assiste um pornô com um casal de amigos. Nas idas e vindas, cativa o leitor. Tem simpatia.

Mãos de cavalo, a entrada do Galera na Companhia das Letras, me deu um certo susto. De repente, o escritor e editor da Livros do mal se tornava um autor resenhado em tudo quanto é jornal, lido e relido de cabo a rabo, com um livro publicado por uma das grandes editoras do país. Lembro de ter visto o livro no Shopping da Gávea enquanto esperava o início de uma peça de teatro. Foi muito comentado na época (as memórias são traiçoeiras, não acreditem em mim) o esforço de se adequar ao padrão de uma grande editora. Se não me engano (novamente a memória), nessa mesma época o André Sant’anna também entrou para a companhia das letras, por isso a lembrança dos comentários que serviam para os dois. Não entendam esse esforço como um demérito. O refinamento da escrita é a única arma do autor na busca do ineditismo diante do esgotamento milenar das histórias contadas. De fato, por mais que o texto de Mãos de cavalo e Até o dia em que o cão morreu diferissem, não identifiquei na minha leitura o tal esforço descomunal. Novamente, foi um livro que me seduziu pela qualidade da escrita, pelas tramas paralelas que se encontram psicologicamente, mas não pelo enredo.

Faz tempo, mas acho que era o seguinte: um cirurgião plástico se propõe a encarar uma escalada para recuperar a adrenalina que o dia a dia de paizão (não sei se no sentido biológico) de família lhe tirou. Nesse preparo, vai revirando a infância e entre corridas de bicicleta e brigas de rua acaba descobrindo sua verdadeira dívida com o passado (a culpa não era do presente, oras), seu verdadeiro resgate de adrenalina e masculinidade. Eu, moleque de edifício com um playground gigantesco, não encontrei brechas de diálogo com as pauladas na areia batida nem na crise de casamento, mas a narrativa e a escrita davam o seu recado.

Testosterona comprovada no currículo. Foi com grande curiosidade que peguei Cordilheira, o mais recente romance de Daniel Galera. Isso porque a protagonista do livro, narrado em primeira pessoa, é uma mulher. Poderia inventar uma desculpa mais intelectualizada, roubar alguma frase de Tolstói, mas prefiro ser sincero. Queria ver o Galera na pele ficcional de uma mulher iludida.

Outro motivo foi o cenário. O livro se passa em Buenos Aires, cidade pela qual tenho um carinho teórico. Cordilheira é o primeiro livro da coleção Amores Expressos. A proposta é a seguinte: um grupo de autores viajou para cidades distintas do mundo para escrever um romance de amor, or something like that. Não sei se escolheram ou não os seus destinos, se todos serão realmente publicados, de onde veio o dinheiro, se da iniciativa pública ou privada, etc.,o que sei é que Daniel Galera viveu um mês na Argentina alimentando a história que escreveu em seu retorno e batizou de Cordilheira.

E essa história é mais ou menos assim: Anita é uma escritora brasileira que conquistou um grande sucesso de crítica com seu primeiro e único livro. Ela segue na contramão da busca pela fama e desiste de ser escritora. Chega a ter vergonha do seu trabalho, daquela história que nada mais tem a ver com ela e na qual identifica erros de uma escrita primária.

Outra contramão: Anita não vê nenhuma graça nesse papo de mulher madura se dedicar à profissão. Ela quer um filho e quer agora. Seu namorado Danilo, por sua vez, nem pensa em ser pai. Ele é do tipo que transa e ejacula fora. Quase dá para entender o desespero de Anita. A negativa de Danilo a deixa irritada, radicalmente. Anita busca apoio para a idéia da gravidez entre suas amigas deprimidas e suicidas e ganha um belo sermão. Mesmo as loucas acham a idéia de Anita maluquice. Nessa mesma época, calha de seu livro ser lançado na Argentina. Anita é convidada a viajar para lá e falar sobre ele. Apesar do desgosto que sente com o livro, a escritora aproveita a oportunidade para fugir um pouco de tudo e de todos e respirar novos ares.

A sensação de ser uma desconhecida é libertadora. Ao mesmo tempo em que não tem onde se apoiar, não precisa vestir todas as suas máscaras sociais. No começo, está lá como a escritora. A palestra em si e a festa de divulgação não são o centro do livro, mas há eventos importantes para o restante da história. Depois que o editor lê um pedaço do livro de Anita, pedaço esse em que a personagem Magnólia empurra o namorado de um desfiladeiro, um jovem escritor chamado Holden pergunta por que a personagem fez isso. Anita, totalmente desconectada da velha história, responde qualquer coisa, mas cria aí um vínculo. Depois disso, despe-se por completo e nem a máscara de escritora sustenta mais.

“A biblioteca que tínhamos em casa não era dele. Eram livros deixados pela minha mãe, que era professora de história. (…) Ainda pequeninha, com dez ou doze anos de idade, eu abria um livro atrás do outro somente para investigar aquelas inscrições que talvez me ajudassem a conhecer um pouco mais da mulher que tinha me carregado na barriga e perdido a própria vida para que eu existisse. (…) Minha mãe foi meu primeiro personagem”.

Buenos Aires vai, Buenos Aires vem, lá pela página 60 Anita começa a sair com Holden. O leitor não sabe quase nada sobre ele no começo, as informações vêm em gotas. Mistérios à parte, ele é o melhor personagem do livro. O que fica bem claro é que Anita vai tentar usar o jovem para cumprir seu objetivo de engravidar. O que ela não podia imaginar é que ele tivesse amigos bem estranhos, loucos para que ela se mande.

Vou adiantar aqui uma parte que não tem a função de ser uma virada de trama, mas como não quero dar uma de estraga prazeres fica o aviso: se você quer ler o livro com todas as surpresas pule esse parágrafo. Combinado? Combinado. Os amigos de Holden não só parecem estranhos como o são de fato. Todos são autores, com livros escritos e publicados, que decidiram viver as histórias que colocaram no papel e seguir os mesmos caminhos de seus personagens. Representam todo o tempo ritos literários que incluem mais perdas do que ganhos e mexem diretamente com a vida e a morte.

O livro tem um quê de metalinguagem óbvio, já que Anita e Galera passaram um tempo na Argentina, os personagens são escritores com eco nas próprias histórias, há referências esparsas ao mundo da literatura e outros leros mais. Entretanto, o que mais me chamou atenção nessa brincadeira foi o limite entre o real e o imaginário, a pompa do grupo de Holden ao levar a sério aquilo que para Anita soa ridículo.

A relação de Anita com o grupo não segue de maneira intensa, mas é suficiente para conduzir o livro até o final e deixar o leitor curioso diante da psicose coletiva que se desenvolve no terço final da trama.

“Me deu um nó na garganta. Imaginei Duisa na varanda da casinha de madeira instalada numa estância solitária da baía Aguirre, calada dias a fio, num frio nadado, cercada de ovelhas, longe do grande centro urbano onde cresceu, olhando a cordilheira enquanto é observada em segredo pelo marido que décadas depois (…) teria pouco mais que isso a dizer sobre ela”.

Vale repetir, Daniel Galera sabe aonde ir com sua escrita, sabe compor as frases e situações de modo que pareçam vívidas e reais. O problema de Cordilheira (ou meu, quem sabe) é a falta de empatia de Anita. Anita é vazia, simboliza um tipo de pessoa da qual prefiro me distanciar e aqui tive que acompanhá-la de perto por 60 páginas tediosas até que outros personagens tornassem sua vida fútil mais interessante. Ela é um paradoxo: consegue ser quase órfã e mimada ao mesmo tempo. Sou escritora. Não sou mais. Agora quero ser mãe de família. Você me trata bem, mas não quer me dar um filho? Então tchau. Que se dane o seu trabalho.

“Se você quer conhecer uma nação, não leia literatura. Nem uma página. Escritores de ficção têm pouco ou nada a dizer sobre seu país. Toda arte é egoísta, mas a literatura é a mais egoísta de todas. Não há como escrever honestamente sobre qualquer coisa que não seja nós mesmos”.

O filho de Anita também é metafórico para a personagem. Ela não quer uma criança, quer algo que a preencha por dentro. A obsessão pelo esperma que a complete é só mais uma entre muitas de alguém que perdeu o rumo na vida. É uma mulher que nem com tudo que passará durante a história conseguirá mudar o jeito de pensar e suprir o vazio. A metamorfose, a salvação apregoada de maneira torta pelo grupo de Holden, passará longe de Anita. E com isso, também fui me distanciando da personagem, mesmo tendo aproveitado os tais dois terços finais da história.

Lembra, guardadas as devidas proporções, a sensação que a Camila de Nome Próprio me despertou. Uma vontade de vê-la se ferrar no final, só para compensar o drama.

Daniel Galera
Cordilheira
Companhia das Letras
175 páginas

O vernissage da exposição Manifestações 3 será no dia 11 próximo, quinta-feira, de 19 às 23h, no MuBE.

A exposição vai de 12 de dezembro de 2008 a 11 de janeiro de 2009 e conta com o trabalho de vários alunos/escultores, inclusive da Clarissa Von Uhlendorff.

Não perca, vai ficar pouco tempo.

A arte é uma forma de alimentar a alma.

Existem algumas linhas de pensamento que dizem que para se ver a arte em toda sua plenitude é necessário estar alimentado fisicamente para poder digerir e apreciar cada nuance do ver-arte. Outras tentam justificar que a sensação de “ausência” não apenas colabora, como amplifica a sensação do ver.

Estaria então o observador preparado para o ato de ver?

Não podemos deixar de interpretar que o ver depende do ser, e como tal depende da constituição do mesmo.

É independente da arte a questão do ser, é independente do ser a questão da arte.

Arte é um conceito que ultrapassa a questão do ser. Como vida, morte, arte.

Anteriormente explanei sobre o vazio. Que é a ausência de algo que nunca sequer esteve.

Existe a idéia, existe a arte. E existiu Platão.

Temos a idéia. Algo que abrange nosso ser, em níveis de alta performance do pensamento superior, inato e abstrato. A idéia é a perfeição. A idéia é a primeira coisa que o artista perde ao lançar-se em seu trabalho, seja ele abstrato ou figurativo. A questão da idéia é tão contemporânea, afinal transmitir uma idéia é estar saltando em campo livre, alcançando qualquer observador e levando apenas a idéia.

A idéia é a arte perfeita, sem máculas, prejuízos ou trabalho, é a capacidade de transmitir algo sem precisar explicar em pormenores, é a beleza pura e simples de algo que pode ser alcançado por qualquer um, em qualquer lugar, porque intimamente ele também esteve nesse lugar, ele ainda está, ele nunca irá sair. Ali ele observa a melhor das obras de arte e ela não lhe é estranha, pelo contrário, ela é sua. Nada pode mudar o que é a arte em terreno que é apenas arte. Na idéia não existe ausência, a idéia é tudo, ela não afasta a idéia de ser, está na arte porque a arte é a suprema idéia do ser. Enquanto o alimento suporta o ser físico a arte alimenta o ser espiritual.

Se o vazio é a ausência de algo que nunca sequer esteve, a idéia é algo que nunca se ausentará, pois parte dela toda criação.

A melhor forma de se entender uma idéia, o conceito, é imaginar o melhor doce de sua infância.

Aquele insuperável.

Aquele que se derrete. Que transmite cada sensação única e intransferível a cada sentido. Você pode ter outras lembranças do doce, mas a idéia, aquele sentimento, aquele estar bem, a saciedade que ele produz, a saliva, o cheiro, o gosto, é insuperável. Porque ele é a sua idéia de doce. A sua, e apenas a sua. E por que isso acontece?

Porque é apenas uma lembrança. Lembranças são como idéias. Fazemos com elas à mesma coisa quando usamos um fato para aconselhar outros, nos limpamos todas as coisas ruins que tivemos que passar para chegar aquele momento, mudamos alguns fatos, colocamo-nos como heróis, “limpamos nossa barra”, esquecemos dos vacilos, lembramos apenas da sensação irrecuperável, do momento sublime de ter em nosso poder algo que superava qualquer outra coisa no mundo.

A idéia é isso. Mas sem a parte de limpeza. Pois ela vem antes disso.

A idéia é apenas a idéia.

Em uma pesquina na Amazon descobri Lilith Saintcrow. Ela é autora de mais de uma dezena de livros de fantasia urbana de séries variadas e participa de algumas coletâneas. Para conhecê-la, resolvi apostar na série protagonizada por Jill Kismet, uma caçadora de demônios rabugenta e boca suja que ajuda a polícia a controlar distúrbios sobrenaturais (também conhecidos como massacres generalizados) e manter a ordem dentro do possível em um grande centro urbano.

Criar universos com demônios é correr o risco de cair naquela conversa de anjo caído e tentações que ninguém agüenta mais. Atire o primeiro frasco de água benta quem ainda não ouviu a frase “vaidade é o meu pecado favorito”. Durante as primeiras cinqüenta páginas fiquei receoso de que o livro tendesse para esse lado, mas por sorte o universo de Saintcrow é mais direto e funcional, não perdendo tempo com dramas religiosos. A igreja aparece com pitadas de ironia, caçadores de demônios também vão para o inferno, e em alguns momentos de nervosismo da protagonista, mas a cereja do bolo está em outro lugar. Kismet só pensa no pessoal lá de cima para comentar de suas próprias dúvidas. Foi o jeito que Saintcrow arrumou para dizer que a força que Kismet carrega é realmente dela.

“Night rose from the alleys and bars, spreading its cloak from the east and swirling in every corner. No matter how tired I am, dusk always wakes me up like six shots of espresso and a bullet whizzing past. It’s a hunter thing. I suppose. If we aren’t night owls when we Begin, training and hunting make us so before long”.

A história começa com Kismet se lembrando do pacto que fez com o demônio Perry, um dos chefões da cidade onde se passa a história. Ela leva no pulso a marca do pacto que lhe deu poderes para combater as entidades do mal, e cada vez que precisa usar sua força extra a cicatriz queima, como uma pequena lembrança. Fugindo do clichê, em troca da força sobrenatural Kismet não vendeu a alma. Na verdade, ela precisa se encontrar de tempos em tempos com Perry, para realizar taras estranhas que arrepiam qualquer pessoa sem tendências masoquistas. A idéia do pacto foi de seu antigo mentor, Mikhail, que está morto e só aparece nas lembranças de Kismet. O motivo da morte, inclusive, é um dos mistérios do livro e Saintcrow tenta conectá-la não com a trama principal, mas com os dilemas pessoais de Kismet.

Lilith Saintcrow segue uma tendência dos livros de fantasia urbana e usa narrativa em primeira pessoa para aproximar o leitor, com um adicional de pensamentos, diálogos e lembranças que de vez em quando sobrecarregam o texto, mas o resultado final é positivo. Apesar de a história ser bem contada, com mitologia sólida e final convincente, o forte mesmo são os personagens. Lilith Saintcrow desenvolve a relação entre eles de modo muito atraente. Como muitos deles não são humanos, isso é essencial para que o leitor sinta empatia ou antipatia por eles na medida certa. O jogo de poder entre Perry e Kismet é um bom exemplo. Lilith alterna a situação entre medo e raiva, sempre no limite do psicologicamente suportável para a caçadora, evitando transformar Perry em um obstáculo intransponível ou num problema fácil demais de se resolver.

“Cities need people like us, those Who GO after things the cops can’t catch and keep the streets from boiling over. We handle nonstandard exorcisms, Traders, hellbreed, rogue Weres, scurf, Sorrows, Middle Way adepts… all the fun the nightside can come up with”.

Demônios à parte, o que me conquistou foram os metamorfos de Saintcrow. Avisando desde o primeiro volume que há espaço para todo tipo de criatura, a autora aposta aqui em uma versão felina dos lobisomens. Homens que se transformam em grandes felinos. O interessante é que para apresentá-los, ao invés de insistir nas descrições físicas que dominam o universo dos lobisomens, Saintcrow investe no comportamento social dos bichanos. Quem tem um gato em casa sabe que quando eles chegam perto da gente ficam realmente próximos, a famosa passada pela perna para agradecer. Esse é um dos elementos capturados pela autora do livro. Enquanto os humanos possuem distâncias pré-estabelecidas de acordo com a intimidade que têm com as pessoas, os felinos de Saintcrow estão sempre próximos demais para os nossos parâmetros. Ou seja, nada de apelar para garras e dentes afiados. A caracterização vem da personalidade. Ponto positivo. A elegância ao andar também foi levada em consideração.

Pequenos detalhes que no final fazem a diferença.

A leitura da obra de Henry Miller é sempre de resistência. Resistência contra o obscurantismo cultural. Resistência contra a afirmação de um pensamento cristalizado. Resistência contra a morte da arte. Acabo de ler o seu Pesadelo refrigerado, editado pela Francis Editora. O livro trata das viagens que o escritor fez em busca da América profunda, gestado na volta de Miller ao seu país, após 10 anos de ausência. Entre a França e a América, viajou cerca de um ano pela Grécia. A permanência ali fez com que escrevesse outro livro. O Colosso de Marúsia.

A experiência no mundo grego marcou-o de maneira profunda. Contrastar a viagem pelo mundo grego e pelo mundo americano é um exercício de leitura fascinante, pois um termina por dar a medida do outro. A percepção que tem Henry Miller da vida na Grécia revela as possibilidades animais e selvagens do homem. À alegria da mesa gozosa se junta o gozo da paisagem, das pessoas, de certo espírito ainda juvenil e propenso à paixão, que despreza a calcinação do ambiente pela proliferação das fábricas, do movimento em que o tempo se despe de sua condição última e definitiva de contemplação e produção artística, para erigir-se em estátua estática de um bando humano que não mais o percebe. Ao nos escrever sobre esse tempo, em que o homem perde o êxtase, a civilização do gozo pela civilização do trabalho, Henry Miller já nos fala da América.

Em seu velho carro, corta a América para nela refazer-se do exílio e tentar verificar se, por trás do horror de uma Nova Iorque calcinada pelo capitalismo e pelo consumo, poderia existir ainda um país a ser revisitado e recuperado para e pela arte. Encontra devastação, entretanto. Dos nativos destruídos à arte derruída, salvam-se os loucos, os adoecidos de uma sociedade pouco gozosa, que se rege pelo tempo demarcado, pelo trabalho, pela exploração e pelo lucro.

Seguindo os passos do Pesadelo, a troca da arte pela indústria, do homem livre pelo homem que se emprega e se destrói, verifica-se como origem de uma sociedade curiosa, que necessita do domínio (e de neo-escravos) para criar a si mesma e manter-se equilibrada como império. A arte americana vai se notabilizar como uma não arte, isto é, a conquista dos povos vai fazer da indústria – entre elas, a bélica – o instrumento de beleza de que necessitam para compor a expressão da nação. Belos serão os aviões, belas serão as bombas inteligentes, e seus heróis serão forjados neste conjunto da beleza americana.

Através da técnica e da tecnologia, a não arte erigirá o aprendizado mecânico, para derruir o artista. Em uma das passagens do livro, quando o autor vai a uma penitenciária, o responsável pelo cuidado com os presos vai impor ao autor mais uma amostra do funcionamento das instituições do país arruinado.

“Em uma de nossas penitenciárias federais, o sacerdote irlandês que me mostrou a capela apontou a janela de vitral feita por um dos presos – como se fosse uma grande piada. O que ele admirava eram as ilustrações de caixas de charuto para a Bíblia, executadas por presos que “sabiam pintar”, conforme dizia. Quando lhe disse abertamente que não concordava com sua posição, quando comecei a falar com reverência e entusiasmo sobre os esforços humildes, mas sinceros do homem que havia feito os vitrais, ele confessou que não sabia nada de arte. Só entendia que um homem sabia desenhar e o outro não. “É isso que faz de um homem um artista, saber desenhar braços e pernas, saber fazer um rosto humano, colocar um chapéu direitinho na cabeça de um indivíduo – é isso?”, perguntei. Ele coçou a cabeça perplexo. Evidentemente essa questão nunca lhe passara pela cabeça antes. “O que o sujeito está fazendo agora?”, indaguei a respeito do homem que fizera os vitrais. “Ele? Ah, nós estamos ensinando-o a copiar imagens de revistas.” “Como ele está se saindo?” “Ele não se interessa nem um pouco.”, disse o padre. “Parece não ter vontade de aprender.”

“Idiota!”, pensei comigo. Até na prisão tentam arruinar o artista. Em toda a penitenciária, a única coisa que me interessou foram aquelas janelas de vitral. Era a única manifestação do espírito humano livre da crueldade, ignorância e perversão. E eles haviam pegado esse espírito livre, um homem devoto, humilde, que amava seu trabalho, e tentavam transformá-lo em um burro educado. Progresso e iluminação! Transformar um bom presidiário em um potencial ganhador do prêmio Guggenheim. Pfu!” (Miller)

Criadora de eunucos – de seres amorfos, devorados pela gordura dos fast-foods, destituídos do tesão pela vida –  tal sociedade submete ao puritanismo seus loucos; seus jovens e homens, à mínima condição humana e, com isso, submete a arte a um ícone do mercado. Quer para seus artistas a conformidade das revistas, a conformidade de suas apreensões e um falar constante de um espiritualismo tardio, travestido de modelos cuja imagem mais torpe se revela na arqueologia da destruição com que o autor provoca nossa consciência.

Se o modo de vida americano se afigurava como uma destruição das possibilidades latentes da nova nação, na Grécia, Henry Miller encontrara algumas respostas para a renovação do processo civilizatório. Parece-me que a busca de uma América profunda, por construir, determina o fracasso da arte no processo civilizatório americano, já que o controle da beleza submete as experiências do artista a uma enfadonha fórmula que o mercado determina. Daí a beleza da leitura, a resistência com que se percebem as idiossincrasias do autor.

A exposição que encerrou o ano da Galeria Vermelho, teve curadoria de Audrey Illouz e se chamou Silêncio!

Com ponto de exclamação.

Em Tragic Muse, o romance de Henry James do final do século XIX, o personagem Nick Donner não consegue terminar o retrato de uma artista de teatro. Ele pretende descobrir uma verdade ao pintar. É para isso que pinta retratos. A artista, Miriam Rooth, pretende, ela também, ao representar seus papéis, chegar a uma verdade a respeito dos personagens encenados. A impossibilidade de conclusão da obra é a admissão de que, em um jogo de representações de representações, em ecos infinitos, não haveria mais sobre o que falar. Ou pintar.

É, no dizer do escritor, “the form without the fact”.

A não referencialidade – mesmo em artes não referenciais – a ocasionar o mutismo acontece em épocas em que o artista não tem chão no coletivo. Por exemplo, na África do Sul do apartheid, na industrialização capitalista da Inglaterra, em situações de exílio ou de ditadura. Ou, vai ver, na exposição dos intestinos de um capitalismo atual.

Não é nosso presente, aqui. Ou não ainda, a acreditar nos pessimistas.

A francesa Audrey Illouz pode ter uma experiência diferente.

Uma obra da mostra que se aproxima desse conceito que considero estrangeiro é uma instalação sonora com a cantora Alison Goldfrapp. Ela fala um mesmo texto em espanhol, holandês e francês, três línguas que ela não entende. Ao falar o que não entende, você também não entende o que ela fala, mesmo que você entenda essas línguas. Você não reconhece as palavras que, no entanto, são ditas corretamente. A menos da entonação, ritmo, acentuação das frases. A menos do contexto.

Marilá Dardot também fica perto desse silêncio proposto pela curadora, em sua tentativa – que já vi antes – de capturar a imobilizar o discurso. Entre outras coisas, trouxe um livro de páginas de vidro. E a série Paisagem sob neblina, em que textos em cinza são aplicadas sobre superfícies também em cinza, dissolvendo-se em quase e apenas uma textura.

Se Dardot é um dos que mais se aproximam de um silêncio que não vejo ter base em dissociação nossa com o coletivo, é ela também quem me deu a primeira dica de que de repente não se tratava de silêncio, mas de surdez. Uma de suas frases em cinza diz: “e ficamos os três em silêncio, observando a tempestade (f)ustigar a cidade”.

No vídeo Donnant, de Anne Durez, ondas “falam” com um corpo de mulher que, inerte, não responde. Na Stone raft uma jangadazinha existe apesar da imensidão de um chão que a ela é indiferente.

O grupo Chelpa Ferro, que se apresentou na abertura, traz a sonoridade gritante de um cotidiano que não queremos escutar.

A geladeira atulhada de Marco Paulo Rolla é algo que também não queremos ver.

E aí vem a performance de Anne Durez e Aguinaldo Bueno, que é o que faltava para me convencer de vez.

Embaixo de um monte de pedras, a artista se move muito devagar. Algumas pedras rolam. Aos poucos fica claro que há uma pessoa debaixo das pedras. Seu parceiro retira as pedras, tira o corpo da artista e o leva embora. Se você não prestar atenção, se você não “ouvir” o quase imperceptível movimento, o rolar de uma primeira pedrinha, você não saberá que há algo vivo por baixo de tanta pedra.

A Galeria apresentou o vídeo Resonating surfaces, sobre a psicanalista brasileira Suely Rolnik, uma das vítimas da ditadura militar brasileira. Me chamou a atenção uma das cenas iniciais, uma panorâmica sobre São Paulo, com a narração dizendo que a cor da cidade é cinza. O cinza do fog matutino, das águas do Tietê, do asfalto. Na tela, vermelhos, azuis e amarelos espalhados por entre os edifícios próximos ao Minhocão. Foi engraçado. Mais um caso de “surdez” ao berro das cores.

A exposição, nos diz o texto explicativo, foi baseada em uma música de Caetano Veloso, composta durante seu exílio voluntário em Londres, durante a ditadura.

Não vejo silêncio agora. Para nós. Acho que para europeus e americanos talvez haja.

O Grupo Arte e Psicanálise do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos de São Paulo organizou, neste ano de 2008, quatro reuniões no Centro Cultural b_arco, em sextas-feiras de agosto, setembro, outubro e novembro. Juntavam-se um artista, um crítico e um psicanalista para analisar a obra do artista presente.

Os críticos, nas quatro reuniões, falaram muito de si mesmo e um pouco da função da crítica, entendida como uma espécie de compadrio, de pertencimento a uma mesma ação criativa. Os críticos não fizeram crítica. Nem poderiam. Deram a idéia de pertencer a panelas.

Já os psicanalistas, sempre valeu a pena escutá-los.

A reunião que encerrou o ciclo, em 28 de novembro, tinha a video-artista Kika Nicolela, a crítica Juliana Monachesi e o psicanalista Joel Birman.

Foram apresentados alguns vídeos da artista antes do início das falas, entre eles Trópico de Capricórnio e Passenger. No primeiro, quatro travestis falam sobre suas experiências, frente à câmera; no segundo, paisagens se dissolvem como se vistas pela janela de um carro.

Birman falou da dissolução das identidades na contemporaneidade.

Eu vi mais coisa.

Vi a dissolução das identidades na contemporaneidade em pleno processo. Digo, os vídeos como parte do processo da dissolução das identidades na contemporaneidade.

Para tomar os dois vídeos citados, os dois mais impactantes, analiso primeiro a posição da câmera.

Em Trópico, a câmera, no alto, esmaga os travestis de encontro à cama. A crítica Juliana Monachesi nos informa que a artista costuma deixar seus entrevistados sozinhos em um cômodo, com a câmera, enquanto ela se retira, só aparecendo ao final. E depois edita as falas. Os travestis do vídeo apresentam uma noção passiva do mundo. Eles recebem ações, eles se pretendem um campo de prazer para um outro que os procura. Eles não demonstram, seja pelas falas editadas, seja pela postura corporal, e seja pela relação deles com a câmera, qualquer agenciamento.

Falam uma fala narcísica, fechada, impotente.

Em Passenger, a paisagem é a da janela do carona. Alguém mais dirige o carro.

Alguém mais está com a câmera. E com o poder. Alguém dirige e forma – e disforma – as identidades – sejam elas de pessoas (os travestis) ou cores (nas luzes que passam pela janela de Passenger).

A produção dessas imagens se dá, por um lado, através da atenção da artista para com seu assunto. Mas, de outro, pelo controle ou criação de sensações, o que cria condições artificiais para a primeira.

A primeira reunião trouxe as obras da artista Nazareth Pacheco, analisadas pela psicanalista Alessandra Monachesi Ribeiro. A psicanalista fez uma análise brilhante da sedução perigosa, presente nas belas lâminas cortantes de Nazareth Pacheco. Na segunda e terceira, houve a presença da ceramista Katsuko Nakano e de Rafael Campos Rocha, artista que usa a ironia e a crítica em seus trabalhos e na sua visão do trabalho alheio. As psicanalistas foram Andrea Mazagão e Leila Ripoll.

Se o evento for repetir-se ano que vem, fica a sugestão:  uma fala crítica mais preparada.

Apesar do título de comédia romântica americana genérica, A mulher do meu amigo é uma comédia romântica brasileira. O atrativo? Esse é o segundo filme do diretor Cláudio Torres, que estreou em 2004 com o enigmático Redentor. Miguel Falabella, Pedro Cardoso (antes do manifesto contra a nudez no cinema), Fernanda Montenegro e Camila Pitanga desfilavam talento e o filme tinha um quê de Glauber Rocha na condução dos personagens. O resultado geral não era redondo, mas valia pela cara de interrogação no final da sessão. Valia pelo experimentalismo. A mulher do meu amigo até repete algumas dessas características. Há a estranheza e há humor, mas dessa vez faltou história.

Resumindo a trama: Thales (Marcos Palmeira) é um advogado bem sucedido, casado com a filha ricaça do chefe. Renata (Mariana Ximenes), a tal ricaça, é linda, ninfomaníaca e mimada. Um sonho de consumo. Seu pai (Antônio Fagundes) é um tubarão dos negócios e faz tudo por dinheiro. Apesar de ter dinheiro e um mulherão, Thales está em crise existencial. Não se sente mais feliz no trabalho e o casamento está balançando. De férias na mansão que Renata ganhou de presente aos cinco anos, enquanto passa alguns dias com os amigos Rui (Otávio Muller) e Pamela (Maria Luisa Mendonça), Thales começa a repensar a vida e decide abandonar o emprego, o que muda completamente a sua vida e inicia uma série de confusões.

A mulher do meu amigo segue a nova onda do cinema nacional de adaptar peças de teatro. No caso, a peça Largando o escritório. Ainda não foi dessa vez que acertaram na transposição de linguagens. Há pequenos núcleos de trama aqui e ali e entre eles um vazio contemplativo que não alimenta o ritmo exigido pela comédia. Nesses entremeios, bate uma vontade de dormir, o pensamento vagueia pensando nas contas a pagar, um espectador olha para o outro para verificar se deixou escapar alguma informação importante, aumenta a expectativa de que o filme enfim engrene. Mas não engrena, e o ritmo segue lento até o fim.

Marcos Palmeira, que tem um bom timing para comédia, fica preso à crise existencial de Thales. Maria Luisa Mendonça, que tem uma força incrível atuando, se amarra ao papel de ingênua e romântica. Sua personagem só ganha destaque em um rápido momento de revolta, onde a atriz mostra o seu talento e foge da mesmice de Pamela.

Seria injustiça dizer que as cenas de humor não funcionam. Elas arrancaram boas risadas dos espectadores, mas novamente aponto a trama frouxa. Quando as situações começam realmente a ficar engraçadas, elas acabam e dão espaço aos dilemas morais de Thales e seu olhar perdido de bonachão. Para se ter uma idéia: assim que entrou na firma, Thales fechou um acordo que prejudicou velinhos. Por isso ele se sente culpado. Para compensar, quer agora ajudar os necessitados que não tem dinheiro para contratar advogados. Precisa mais?

A mulher do meu amigo quase chega lá. Um roteiro mais trabalhado teria rendido um filme de maior apelo, longe do besteirol de Se eu fosse você, por exemplo. Uma pena, já que o nosso cinema carece de comédias inteligentes. Entre a arte e o popular, o filme não acertou em nenhum dos dois.

Em tempo: Antônio Fagundes e Mariana Ximenes estão muito bem em seus respectivos papéis. Responsáveis pela parte mais ardilosa do filme, ajudam a história a não ser tão insossa.

A Fronteira da Alvorada é uma decepção por vários motivos. O diretor Philippe Garrel possui mais de vinte filmes no currículo e faz parte da história do cinema francês, presente desde a década de 60. O ator Louis Garrel , filho do diretor, é um dos atores da nova geração mais badalados do cinema francês e ganhou ares cults desde que apareceu em Os Sonhadores de Bernardo Bertolucci. É um ator realmente muito bom, com facilidade para o drama, a comédia e o que mais pintar. O último trabalho conjunto de pai e filho, Amantes Constantes, arrebatou mais um punhado de fãs no Brasil. E aí vem a Fronteira da Alvorada. O típico filme em que a história se perde no meio do caminho.

Louis acaba de passar pelos cinemas nacionais com Canções de Amor e Em Paris, dois filmes jovens em amplos aspectos. Fronteira da Alvorada aponta para uma direção completamente diferente. É um filme em preto e branco, com linguagem que remete à cinematografia clássica francesa, passado no presente, quase atemporal, absorvendo muito do noir ao se concentrar mais no estado psicológico dos personagens do que na história.

Falando em história, o roteiro é piegas toda vida. Carole é uma estrela de cinema que vive cercada de amigos, mas se sente só. Seu marido, um casamento impensado, passa mais tempo em Hollywood do que com ela. Com isso, ela arruma um amante: François, fotógrafo que vai até sua casa para fazer um ensaio. Os dois se dão muito bem na cama e se entendem dentro do possível fora dela, os encontros acontecem geralmente no hotel onde realizaram o ensaio fotográfico, mas andam pelas ruas juntos sem medo de serem flagrados. Pelo visto na época não existia Paparazzi. Tudo muda de figura quando o marido de Carole faz uma visita rápida ao apartamento e François quase é pego por ele. Um acesso de culpa ou malandragem o faz desistir de Carole, que enlouquece e vai parar no hospício.

Um tempo depois, François arruma uma nova namorada e não consegue decidir se realmente gosta dela ou se prefere Carole. A menina é quietinha, vem de família rica, gosta de sexo mais comportado e é meio deprimida. Tudo seria apenas um dramalhão francês lento e sem rumo se faltando 30 minutos para acabar o filme não se transformasse em um drama sobrenatural com aparições de fantasmas no espelho. Mesmo as artimanhas da atemporalidade que fazem parte do jogo costumeiro do diretor sucumbem ao peso da manifestação da psique (justo no espelho?) de François. Para quem esperava um final inteligente amarrando as duas histórias, o filme decepciona. Para os contemplativos ou insones, será possível tirar algum proveito.

Diz-se que Philippe Garrel vem gravando variações da mesma história devido a um trauma de sua vida pessoal, mas nada justifica um roteiro tão equivocado de um cineasta tão experiente.

Violência letal, renda e desigualdade no Brasil é um livro direcionado a um público específico. O ensaio de Ignácio Cano e Nilton Santos (antropólogo) disseca a influência da pobreza no índice de homicídios. Mérito dos autores, faz isso com metodologia científica e não demagogia furada, o que ajuda na hora de desconstruir alguns pensamentos já estabelecidos.

Áreas mais pobres são mais violentas? Esse seria o meu primeiro raciocínio, confesso. Mas a relação não é tão óbvia quanto parece. Nem toda região tem o perfil do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os autores exploram e expõem essas diferenças ao máximo ao comparar dados internacionais, nacionais, estaduais e municipais, o que leva o leitor a analisar a situação de diferentes perspectivas.

“Estabelecer essa relação entre renda e homicídios traria evidentes implicações para as políticas públicas: dar aos homicidas um padrão decente de vida, para que eles não tentem obtê-lo por meio do crime violento. (…) Se acreditarmos que a decisão final de uma pessoa optar pelo comportamento criminoso depende não apenas de sua postura moral, mas também de sua posição na estrutura social, não será tão fácil condená-la quanto seria se acreditarmos que a renda não tem implicações na violência”.

Outro detalhe que enriquece o texto é a inclusão da variável desigualdade social. De certo modo, isso elimina o conflito direto entre pobre e rico, o olhar excludente, mostrando que o que acontece em uma camada social afeta as outras (coisa que o Rio já descobriu).

Surpreendente também é a análise dos autores sobre a qualidade dos dados estatísticos que temos para avaliar a evolução dos casos de homicídio no Brasil. Os registros são tão precários que é até difícil acreditar.

“No Brasil, há duas fontes principais de dados relativos a homicídios: o Ministério as Saúde (atestados de óbito) e a Polícia (boletim ou registro de ocorrência)”.

O livro explica que os registros policiais são baseados em critérios jurídicos, o que pode fazer com que uma morte intencional não seja registrada como homicídio (!). Já o Ministério da Saúde incluirá como homicídio qualquer morte intencional. Assim, o latrocínio – que é o roubo seguido de morte – para um é homicídio e para o outro é crime contra a propriedade. Isso sem contar com as mortes causadas por policiais e as mortes em que não são encontrados corpos, típicas nas guerras entre facções do tráfico.

“No entanto, os estados do Nordeste parecem ter baixas taxas que também podem ser parcialmente creditadas à notificação incompleta. O caso do Maranhão é novamente evidente”.

Para encerrar, um elogio que felizmente tenho repetido por aqui. O livro é conciso e preciso. Foi feito para ser entendido. Mostra dados, tabelas, gráficos e estatísticas, mas não se esquece da fluidez. Nada de linguagem rebuscada para tentar valorizar o texto.

Não por acaso, já está na segunda edição.

Violência letal, renda e desigualdade no Brasil
Ignacio Cano e Nilton Santos
Editora 7 Letras
95 páginas

Inclui mapas coloridos de taxa estimada de homicídio por estado, suicídios por estado, homicídios por município (RJ) e homicídios para residentes de 15 a 34 anos dividido em região administrativa (RJ).

O homoerotismo não é assunto fácil de trabalhar. O erotismo por si só não o é e o fato de se lidar com o que ainda é um tabu em países retrógrados acrescenta novas pedras no caminho dos escritores. Um pensamento mais comum diz que o erotismo resvala em algum lugar entre o inócuo e a vulgaridade. Um escorregão extra e a intenção do texto se perde, flertando com o pornô ou se enfraquecendo diante do leitor. Isso é comum em filmes. O roteirista e o diretor não resistem a enfiar dezenas de problemas no filme. Não basta ser gay, é preciso ter AIDS, ex-esposa, tentar adotar um filho, perder um amigo querido e ser expulso de casa. Tudo isso nos primeiros vinte minutos. Na literatura, o problema é a questão do gênero, do gueto. Fazer literatura e literatura gay parece ser coisas distintas e sem sexo bizarro ou dramas existenciais nada tem muita graça (entenda-se: não consegue ser publicado).

Corações blues e serpentinas de Lima Trindade segue na maré contrária dos exageros. É um texto de minimalismos, econômico nas palavras e direto nas intenções do que quer abordar. Com certo gingado literário, ele aposta no ritmo das frases para se desenvolver, deixando a construção da ambiência em segundo plano.

Com 15 contos divididos entre blues e chorinhos, o livro não chega a ser lírico, mas encontra sua poesia ao trabalhar o sentimento humano através de recortes do dia a dia. É aí que o homoerotismo consegue se destacar do manancial de clichês comumente tratados nesse tema e assume a posição de literatura no sentido amplo da palavra, se afastando das crendices do gueto. É claro que os gays e lésbicas do livro de Lima Trindade possuem desejos e fantasias. Só que antes de tudo eles possuem vida, são humanos. São construídos nos pequenos detalhes, naqueles micro-instantes de sensações que guardamos na memória depois que tudo mais se apaga e se supera. Como tais embriões de tempo são comuns a todos, independentes de sexo, cor ou religião, o texto abre diferentes caminhos de diálogo com o leitor, e cada um encontrará um nível de envolvimento de acordo com sua própria história.

“Mês sim, mês não, publicavam um trabalho da nova dupla dos quadrinhos nacionais. FOP nunca aceitava sua parte do dinheiro. Suze visitava o apartamento, transava, lia as paredes, desenhava e ouvia música. (…) Em pouco mais de dois anos havia publicado e republicado todo o universo imaginário da sala de seu namorado. Virara uma artista conhecida. Otávio continuava tomando Leponex e criando jogos para crianças e adultos viciados. Tirando uma convulsão ou outra, levava uma vida quase normal”.

Em um livro de contos é incomum que o leitor goste de todos, do começo ao fim. Também é assim com os escritores, acredite. O interessante na conjuntura do livro é que é disso que se trata a diversidade, da possibilidade de uma escolha ampla sem restrições pelo credo de terceiros. Fiquei surpreso com um conto meio futurista chamado Uma vez no céu escuro e brilhante ou meu encontro com o caçador de andróides ultrapassados. Teve humor sutil e soube brincar com convenções de maneira inventiva. Apesar de ter simpatizado com os personagens, meu pé atrás fica por conta de Anjinho barroco, conto que flerta com a religião católica, que é para mim o anticlímax em forma de instituição financeira.

Esse é o terceiro livro de Lima Trindade. Não é o ponto de chegada e sim parte de um processo. O importante é que o autor está no caminho certo. Acredito que o leitor vá gostar de boa parte desses blues e chorinhos por serem textos honestos e ligeiros. Serão como uma música que vem à cabeça de repente: não sabemos explicar de onde e não conseguimos parar de assoviar.

“Os andróides nunca desenvolveram um pensamento autônomo ou sentimentos. Nossa maior invenção continua sendo o computador. Eu brincava com meu Nero e via com o rabo dos olhos o coroa. Vou falar o que eu tava receoso de dizer. Após pensar bem, vejo que era um medo bobo, uma besteira diante de tanta bobagem junta. É capaz, acaso meus filhos e neto se deparem com esse texto, que jamais passem das primeiras linhas, tão acostumados a mensagens animadas estão. O homem estava vestido de calça jeans. O quê? Isso não é nada? Não é nada para vocês! Para mim, meus caros, é tudo”.

Lima Trindade já publicou Supermercado da Solidão (2005) e Todo Sol mais o Espírito Santo (2005), e é editor da revista eletrônica Verbo 21.

Corações Blues e Serpentinas
Lima Trindade
Editora Arte Paubrasil
150 páginas.

Essa é uma resenha curta, porque chega um ponto em que é impossível dissecar certos filmes para falar algo novo, e o repetido você encontra por aí, basta usar o Google. Talvez o mais interessante de Quantum of Solace, o novo filme de James Bond, seja o fato de ele ser uma continuação direta do anterior e deixar pontas soltas para os próximos. Se falarem que você não precisa ver o primeiro para entender esse, não acredite. Existe, claro, uma história independente dentro da trama maior. Investigando os responsáveis pela morte de Vesper (Eva Green) em Cassino Royal, James Bond (Daniel Craig) esbarra com um defensor do meio ambiente picareta que na verdade é peça de um grande esquema global de manipulação de governos e caça de fontes de energia e futuros potes de ouro.

Os olhos se voltam para a América Latina. Para quem é de fora deve ter um sabor exótico. Aquele papo de influência dos Estados Unidos nas eleições, Cia corrupta, escolha do presidente e/ou ditador que convém no momento. Para quem é daqui, tudo soa velho. Aturamos Evo Morales e Hugo Chávez, o tempo inteiro, problema atrás de problema, conversinha mole em todos os pronunciamentos. Com vizinhos assim, qual a graça de ver Mathieu Amalric fazendo papel de homem que pode tudo? Seria muito mais assustador ver o presidente do Paraguai pulando de bungee jumping na usina de Itaipu gritando “a energia é nossa, aha, uhu”.

Mas não quero passar a idéia de que não gostei do filme. Na verdade gosto de 007 desde que reiniciaram a franquia. Saiu o circo, entrou tanta sobriedade quanto possível. Daniel Craig é bom ator o suficiente para ir do cínico ao soturno sem perder a pose e 90% do atrativo é esse. A ucraniana Olga Kurylenko (vulgo Bond Girl) é morena o suficiente para se passar por latino-americana que perdeu a família de uma forma cruel que não me lembro qual. Geralmente personagens fortes latinos perdem a família ou dizimada por doença ou assassinada pela gangue rival. Não muda muito.

Tem também a Judi Dench, como a M., claro. É o tipo de atriz que qualquer participação especial já vale um ingresso. Menos em Crônicas de Riddick, por favor, que mau gosto tem limite. Giancarlo Giannini também é um excelente ator canastrão. Parei de dizer que ele valia um ingresso depois que vi Piazza delle cinque lune, passem longe.

O diretor é o Marc Foster, de Mais estranho que a ficção, Em busca da Terra do Nunca e o Caçador de Pipas, esse último adaptação do Best-seller que nem li nem vi. Dos outros dois gosto bastante. São filmes meio estranhos, caminham entre o real e o imaginário, uma boa bagagem para se levar para Quantum of Solace.

Os roteiristas merecem um parágrafo também. Robert Wade e Neal Purvis escreveram Die another day e The world is not enough, e ajudaram também em Cassino Royal. Paul Haggis escreveu Cassino Royal, Cartas a Iwo Jima, Crash, Garota de ouro, A conquista da honra. Tem 2 Oscars na coleção e mais 30 prêmios. É uma boa combinação. Talvez por isso o filme não seja para dumbs. Não repete a informação duas vezes. Quem entendeu ótimo, quem não entendeu vê de novo.

Ah. Tem as cenas de ação. Excelentes. Muito sangue. Muita briga. Cenários de toda parte do mundo. Fotografia caprichada. O James Bond levou aquele papo de licença para matar a sério demais, está meio enfezado, bate em todo mundo que vê pela frente. Dizem no filme que ele não dorme desde que a Vesper morreu. Se é verdade, a maquiagem para olheira deve ser muito boa.

Diz-se que o orçamento estimado do filme é de US$225 milhões. Em uma semana Quantum of Solace arrecadou US$188 milhões. Para efeitos de comparação, Cassino Royal, que é muito melhor, custou US$150 milhões e arrecadou US$594 milhões de bilheteria total. Parece que o salário de alguém teve um aumento considerável.

Quando nos deparamos com a idéia de arte nos confrontamos com a herança do que é aquilo que nomeamos como sendo arte. A idéia romântica adotada pelos pintores e herdada pela comunidade, não dão conta de todos os desenvolvimentos que aconteceram e acontecem de forma vigorosa em nosso tempo.

Teremos, como meros espectadores, a capacidade de discernir entre um fato e outro?

Que tipo de arte nos estabelece um contato maior?

Aquela que nos atinge no âmago, ao percebermos elementos que ativam os gatilhos de nossa percepção, transformando as imagens em formas capazes de serem digeridas, e essa digestão se estabelece pelo desenvolvimento do observador.

Volto ao ponto do observador, mas nos trabalhos sobre o vazio são fundamentais os conhecimentos prévios em uma pequena sentença:

O que percebo é diferente daquilo que você percebe, e aquilo que eu imagino que você perceba não corresponde à realidade que eu percebo, e depende de todas as suas vivências, dessa forma sou incapaz de concluir o que é a percepção.

Maurice de Merleau-Ponty, foi extremamente mais coerente ao escrever o resultado de minha divagação acima. Mas posso resumir que tudo o que percebemos depende de nossa observação, do que existe e daquilo que entendemos individualmente.

A compreensão não parte então da idéia de algo?

Do espaço como algo que se toma emprestado para uso e comodidade do olho?

Sim, mas seria pequeno imaginar que o vazio como forma de representação não contém mais que a ausência de uma idéia.

O vazio não se afasta da idéia, não compreende o nada, o nada é a ausência de algo que nunca sequer esteve, é a ausência de algo que se tornou ele mesmo: Vazio.

O desejo, a idéia, a cor, a forma, tudo pode ser vazio, e ao ser vazio contempla tudo.

Estranho imaginar tudo em algo vazio?

Mas esse algo é delimitado, pelo olhar e pela intenção do observador, que como escrevi observa e percebe de forma individual. O meu vazio nunca será a ausência de algo, mas o vazio de algo que ali poderia estar. É apenas uma ausência? Não se ausente de uma observação mais incontida, observe sua própria herança e perceba nela o seu vazio.

Qual o seu vazio?

Não seria essa a questão aqui?


fotografia: Yves Klein. Saut dans le vide (Salto no Vazio), 1960.

Saiu esse mês o segundo número da revista Terra Incógnita. Nem idéia? Eu explico. Organizado por Fábio Fernandes e Jacques Barcia, o e-zine tem como objetivo publicar mensalmente contos de ficção-científica nacionais que fujam do lugar comum, com o bônus de entrevistas e textos internacionais em traduções inéditas no Brasil.

A revista começa com um conto de Octávio Aragão (Intempol, A mão que cria), passado nos tempos de Jesus Cristo. Agora e na hora de nossa morte mostra um messias bem diferente da imagem cultuada nas pregações. Jesus abandona o ar hiponga profético e assume uma postura mais prática e raivosa. A primeira linha do conto dá uma boa idéia das intenções do autor:

“Ele voltou, isso era certo. O que não estava certo era todo o resto”.

Octávio escolheu Maria como sua protagonista, tirando-a do papel de coitada e apresentando-a como uma mulher forte, capaz de atitudes duras para defender seus ideais (e boa de briga, cá entre nós). Ela passa longe de pedras e lamúrias e encontra alguns personagens bíblicos clássicos, numa versão alternativa de suas histórias. Lázaro, por exemplo, que é famoso por ter voltado dos mortos, passa a ter a duvidosa fama de voltar para eles. Morto duas vezes, não é para qualquer um.

“Encontrou o que procurava à beira de uma fogueira, na quinta noite de sua peregrinação. Um animal indefinível tostava em fogo baixo. O rosto imerso em sombras escondia o olho restante, aquele que não foi perfurado por espinhos, de um azul sem paralelos neste mundo”.

Octávio optou por situar o leitor aos poucos, deixar que ele entenda com os fatos e não com as explicações do narrador o que afinal está fora da ordem mundial. Com isso, é mais profunda a imersão do leitor na sensação de estranhamento, que passa para uma nova etapa assim que Maria encontra o apóstolo Tomé transformado em mármore, entre outras situações estranhas.

O mérito do conto é potencializar o caráter fantástico inerente ao texto bíblico e impor um clima de “o que será?” até o fim, quando Maria resolve pôr ordem na casa e trabalhar suas frustrações de uma forma nada Junguiana.

Ana Cristina Rodrigues (historiadora e atual presidenta do CLFC) segue um caminho narrativo diferente. Seu conto bebe da linguagem lírica e por muitas vezes me fez sentir recitando as palavras, duplicando o sentido de transposição da informação. O Planeta negro tem como protagonista alguém que sofre. Há um sabor principalmente de desilusão, marcado pela umidade nas paredes e pela chuva fina que cai.

“Cheguei aqui há tanto tempo que não sei mais se o que escorre pelo meu rosto são lágrimas, ou essa maldita chuva”.

Uma das possibilidades do lirismo é a maleabilidade do tempo, a atemporalidade, e Ana Cristina sabe que a dor traz em si sua própria eternidade. Planeta negro junta em um mesmo instante o presente do personagem, a amargura sufocante do passado e um rasgo de esperança com o futuro. Afinal, não há temporal que não se acabe.

“Presos, traídos, uma armadilha. Todos mortos, você inclusive. Não tiveram essa compaixão comigo. Eu me atrevi a sonhar, merecia o pior dos castigos. Uma viagem de três semanas em um tubo de estase. Acordei aqui, imundo, sozinho”.

Comprovando a diversidade da revista, o conto O Abissal de Lúcio Manfredi (escritor e roteirista) é uma verdadeira viagem lisérgica, digna do narguilé de Carroll da melhor safra da lagarta. O conto inteiro propõe um incansável jogo de palavras e nunca segue o caminho fácil. Não é uma questão de fugir das retas e escolher curvas vertiginosas, pelo contrário, as maquinações cerebrais têm um quê de matemáticas que está mais próximo do retilíneo, uma lógica que faz das palavras peças de um quebra-cabeça que montam mais do que frases no final. Se a poesia contemporânea usa sua capacidade de trabalhar diversos temas ao mesmo tempo de maneira minimalista, Manfredi se estende por nove longas páginas. A melhor descrição que me vem em mente é a de um jogo cognitivo. E como todo jogo, pode vencer alguns jogadores antes do final.

“Escapo dos postes que me espreitavam da esquina, prestes a saltar sobre o meu pescoço e me empalar numa salada de maionese apodrecida. É preciso ter cuidado, as sombras se escondem nas sombras. Assobio para um táxi, ele dança uma rumba num pé só e me deixa a oscilar sobre a mesinha de centro de um bar na Cobal de Humaitá”.

O representante internacional da edição é Charles Stross, que ganhou entrevista e resenha feitas por Jacques Barcia. Stross é autor de Accelerando, Glass House, Halting State e Saturn’s Children. O conto traduzido por Ludimila Hashimoto se chama Lagostas e, segundo Fabio Fernandes, é o primeiro do romance fix-up Accelerando. Com produção constante mais para a década de 2000, ele permanece inédito no Brasil. Para quem curte termos cibertecnológicos modernéticos e tecnologia da informação, Stross é parada obrigatória. Uma ótima oportunidade para quem não lê em inglês e quer ficar por dentro do cenário mundial.

“Manfred vira a caixa entre as mãos: é um telefone descartável de supermercado, pago em dinheiro– barato, não rastreável e eficiente. É capaz até de realizar teleconferências, o que faz dele a ferramenta favorita de espiões e caloteiros em qualquer lugar”.

Canta-se por aí que o cinema argentino está léguas à frente do cinema nacional. Tirando a questão do gosto pessoal, as produções dos hermanos realmente ostentam um ar profissional da concepção à realização que nem sempre se vê por aqui. Filmes brasileiros ainda pecam muito pelo roteiro e por uma compreensão pouco nítida de que televisão, teatro e cinema possuem linguagens distintas. Mas é importante lembrar que para um filme estrangeiro chegar até o Brasil, ele passa antes por um filtro natural de aceitação no próprio país, inclusão em pacotes de venda, negociação com distribuidores, etc. Exceto por Hollywood, que exporta lixo com a mesma facilidade que vende bons filmes, não podemos tomar como regra para a produção de um país o que chega até o nosso. A vantagem e desvantagem dos festivais de cinema é a inexistência desse pré-filtro, deixando o primeiro boca a boca para você, a própria mídia só acompanha o que já foi badalado em festivais lá fora.

Confesso que até ver Leonera não conhecia o trabalho de Pablo Trapero, um dos diretores argentinos mais comentados da nova geração (começou na década de 90). Deixei passar a comédia Família Rodante e o drama Nascido e Criado, os dois anteriores, mas a qualidade de Leonera me fará conhecê-los. Como é provável que o filme passe aqui sem tradução do título, vale dizer que existe leoneira, o equivalente em português. Espiem o dicionário.

Leonera começa fingindo-se um mistério policial. Há algo de intriga e assassinato no ar. Julia (Martina Gusman) acorda em seu apartamento, deitada. Pela maquiagem, parece que veio de uma noite daquelas. A câmera é muito bem posicionada, as informações trabalhadas para aparecer aos poucos. Há primeiro o despertar que remete a uma festa noturna, alguém que chegou tão bêbado que se largou no sofá de roupa e tudo. Depois Julia estica a mão com que apoiava o rosto. Há sangue, muito sangue, o sangue de outros. Ela finalmente se vira ao se espreguiçar e descobrimos um sangramento na cabeça, seu próprio sangue. No banho, marcas profundas nas costas, vestígios de uma briga feia. De alguma forma, Julia pensa que o banho pode limpar suas memórias, apagar o que aconteceu. Ela se arruma, vai para o trabalho, mas o sangue volta a pingar. Não há outro remédio a não ser voltar para casa e encarar os fatos: dois corpos ensangüentados. O homem na cama está visivelmente morto. O do chão à beira da morte. O decorrer do filme jogará alguma luz sobre a violenta noite. A sinopse oficial conta demais sobre a história, então não a leiam por aí. O importante é que Julia liga para a polícia, totalmente histérica sem saber dizer o que aconteceu. Não demora muito, ela é acusada de assassinato e vai presa. No exame de entrada, revela-se que está grávida. Ela é enviada para uma ala onde ficam as mães e grávidas que esperam julgamento ou já foram sentenciadas, uma versão mais light da penitenciária feminina. Começa então a segunda parte do filme, a que aproveita a história para fazer denúncia social sem panfletagem. A transformação de Julia em seu martírio de mãe presidiária é explorada no roteiro por eventos bem marcados que anunciam cada um uma nova etapa da vida da protagonista. Ser mãe é uma grande responsabilidade também na prisão, parece ser a idéia, e nenhuma mãe quer ser separada dos filhos.

Apesar do mistério inicial e das boas surpresas o filme não caminha para uma grande revelação. As informações sobre o assassinato surgem para aplicar novas camadas de complexidade em nossa relação com Julia e os demais. Um filme sobre uma prisão sempre implica julgamento. É impossível não julgar. Trapero acertou ao evitar um background mais elaborado dos personagens, deixando-nos apenas com o presente. Isso gera uma mudança constante de opinião, à medida que aprendemos mais sobre Julia e o dia a dia das mães prisioneiras.

No mais, Leonera é um filme de história linear centrado em uma só personagem, o que pode ser cansativo para alguns. Por outro lado, a direção de Pablo Trapero e a atuação de Martina Gusman são excelentes e valem o ingresso. Rodrigo Santoro também está muito bem no filme. Ele faz uma participação especial que é fundamental para o entendimento da trama. Para quem ainda não conhece o trabalho de Trapero, Leonera parece um bom ponto para começar.

Está em cartaz, até 27 de novembro, na Sala Multiuso do Espaço Sesc, em Copacabana, Hotel Lancaster, que não é apenas uma peça sobre drogas, usuários e traficantes, mas um texto sobre o drama dos dependentes químicos, capazes de tudo para sustentar seus vícios, de quem lucra com esse vício e sobre as relações humanas, tão modificadas por esse drama.

O texto de Mário Bortolotto, tem direção de Marcos Loureiro e montagem do Grupo Kuringa da Cooperativa Paulista de Teatro. No elenco estão Bebel Ribeiro (Debbie), Henrique Stroeter (Odosvaldo), Jorge Cerruti (Samuel), Paulo Vinícius (Rick), Sergio Mastropasqua (Lobo), Sergio Guizé (Cláudio), Tereza Piffer (Lola), em interpretações impecáveis.

O cenário, de Rodrigo Lopez e Marcos Loureiro, é o quarto de um traficante num hotel barato, e o caos nesse quarto já espelha o caos da vida das personagens que passarão por ele. Personagens que são muito diferentes, mas que têm em comum a consciência de que fizeram escolhas erradas na vida. Não estão onde querem, não fazem o que querem. Não são felizes. Não querem assistir aos dramas das pessoas ao seu redor e muito menos os seus próprios dramas, sendo a droga a única saída para isso. E a trilha sonora, do próprio Mário Bortolotto, é também bem envolvente.

A data escolhida é uma noite de Réveillon. O slogan do hotel: “Hotel Lancaster. Mais conforto e comodidade na sua viagem.” Um lugar onde não se precisa sair do lugar para viajar e nem ligar a TV ou ler jornais para saber, ou quem sabe vivenciar, histórias bizarras da pobreza humana. Os viciados se deprimem pelo uso das drogas, que os tornam dependentes, e se deprimem por estarem naquele ambiente, procurando a droga como uma fuga. É um círculo vicioso. Quem não se droga com algo ilícito, utiliza o álcool. Não há como ficar sem nenhuma fuga naquelas condições. São muitas histórias, representadas ou contadas, mas é um texto longe de ter a intenção de ser educativo. Porém, consegue ser verossímil, principalmente pelas ótimas interpretações.

O deprimente aqui não é engraçado, mas o tom de um traficante moralista num ambiente daqueles, em que o seu produto é o que gera aquela situação, e a falta de regras, num lugar onde mais nada o surpreende, gera um pouco de comicidade. Contudo, na medida certa, sem tornar o assunto banal ou ridículo. É irônico ver um moralista fornecer o meio para essa vida deprimente dos demais e, ao mesmo tempo, o recurso para o fim dela. Não há nenhuma regra, fora o pagamento pela droga, mas a punição por essa vida aparece e, em alguns casos, salva, acabando com o sofrimento através da morte. Porém, o impressionante mesmo é como as histórias contadas para chocar o público e se mostrarem reais, somadas às vidas deprimentes, resulta numa boa peça.

Os fins trágicos são as únicas saídas para essas personagens. Incomoda ver a miséria humana. Incomoda. O texto é antigo, mas ainda incomoda. Às vezes, a forma como o tema é abordado é um pouco assustadora e parece, por breves momentos, exagerada , mas tudo é justificado e interpretado com muita competência.

Texto: Mário Bortolotto
Direção: Marcos Loureiro
Elenco: Bebel Ribeiro, Henrique Stroeter, Jorge Cerruti, Paulo Vinícius, Sergio Mastropasqua, Sergio Guizé e Tereza Piffer
Cenário: Rodrigo Lopez e Marcos Loureiro
Figurino: Rodrigo Lopez
Iluminação: Marcos Loureiro
Trilha Sonora: Mário Bortolotto

A bienal teve uma Paralela que de repente ficou maior (em tamanho) do que a Bienal.

Com um inquietante desdobramento. Trata-se de mostra paga e promovida pelos galeristas, i.e., mercado. Então, o seguinte. O poder público declara sua falência e o mercado mostra seu vigor. Uma discussão e tanto sobre o papel da coisa pública, mas eu, não sei se preguiçosa ou se covarde, debaixo do meu cobertor de lã, vou me permitir dormir até mais tarde.

Quanto às obras que nos chamaram a atenção (vi a exposição com o Elias Fajardo):

Marepe equilibrou umas cadeiras em uma estrutura desequilibrada. Gosto de esse piscar de olho com um brasileiro inconsútil, não explícito, mas nem por isso menos eficaz, pelo contrário.

Patrícia Leite trouxe duas pinturas. Uma, Janela Aberta, é bem boa, por retomar a metáfora de a pintura ser uma janela para o mundo de forma torta. Sua “janela”, vista em perspectiva, problematiza um frente-a-frente que não temos mais com nosso meio.

Marcos Chaves e Pedro Motta, fotógrafos, falam sobre a mesma coisa. Uma permanência do orgânico, do vivo, dentro do concreto urbano. Mas falam de uma distância que me remeteu ao título da exposição: De perto e de longe. Chaves está tão próximo da irrupção do que não tem controle dentro das formas retilíneas do controlado que dá para sentir a dor da pedra. Motta se atém a uma observação desvinculada. Ambos escapam do, argh, politicamente correto.

Caio Guimarães trouxe um vídeo de 5 minutos de um humor pensante, chamado El pintor tira el cine a la basura: alguém prepara uma parede para uma projeção; passam a projeção; no meio dela, a pessoa retira a tela; embrulha; joga no lixo. Um conteúdo que só existe, literalmente, enquanto durar o meio em que se exprime.

Fabiano Gonper, de quem já cobri uma exposição na Baró Cruz, levou mais de seus grandes desenhos-índices, um registro de uma “categoria”, no caso, nus masculinos.

Rosângela Rennó traz o imaterial, presente também em suas recuperações de objetos, em seus trabalhos em cima de memórias. Dessa vez, o imaterial é o que forma redemoinhos em campos e estradas. Testemunhas dessas espirais de poeira contam o que viram, e fotografaram. Alguns relatos dão, junto com as imagens, a idéia do que aparece e some, sem nada deixar. “Queria parar perto dele, mas ele não me esperou – eles nunca esperam.” “Na minha frente, exatamente na minha frente, se forma o bicho.“. Os lugares trazem campos de significação também de resquícios imateriais que escutamos e (quase) esquecemos, nós, os citadinos que não vemos redemoinhos: as fotos foram tiradas em lugares chamados Peixe Cru, BR 367, Araçuaí.

Lucas Bambozzi fez projeções de vídeos em cima de cartões postais em branco. As projeções são imperfeitas, sem foco ou enquadramento. Um pensamento sobre a perfeição como antônimo de significação. Bem bom.

Nicolás Robbio pode ter feito a obra mais bela da exposição. Retroprojetores jogam em paredes manchadas, velhas, que compõem o velho galpão industrial em que a Paralela foi montada, o recorte que produzirá a imagem de velhas persianas quebradas. Um cenário instantâneo, um drama de varetinhas, um imaginário não-tecnológico, ali, ganhando a concorrência.

Marina Rheingantz tem uma pintura que Elias Fajardo aproximou de Edward Hopper. Uma desolação de um urbano que se desdobra e fulgura ao mesmo tempo em que fracassa.

O ambiente é muito bonito, com suas estruturas metálicas características do início do XX.

Também é perto de um buraco de metrô, um must quando se trata de São Paulo. Mas faltou um ar-condicionado.

Você tem fome de quê?

Há pouco tempo foi disponibilizado na Internet o conto O caçador. Um homem com um trabuco nas mãos andando pelas ruas em busca de alimento. O único disponível? Carne humana. Sua vítima, uma garotinha, usada e abusada, com uma virada inesperada no final. Foi polêmica certa. Críticas. Elogios. E uma expectativa que enfim se cumpre.

Depois da estréia com uma ficção-científica psicológica de viagem no tempo, Tibor Moricz decidiu deixar cicatrizes nos leitores. Você vai amá-lo, você vai odiá-lo. Talvez recomende o livro, talvez o queime e durma rezando o terço. O fato é que ninguém passará incólume por Fome, livro pós-apocalíptico com potencial para romper barreiras de gêneros.

Momentos de êxtase. O mundo era perfeito. Destruído, arrasado, despovoado. Chuva e sol, florestas, vida animal quase extinta. E menininhas como esta, gazelinhas correndo por entre escombros, exibindo toda a sua graciosidade à sanha de caçadores implacáveis como eu. Doze, onze, dez anos. Tanto faz. Carne é carne. Prazer é prazer.

Fome é um fix-up, termo que nasceu pejorativo e depois adquiriu status de boa literatura. Um fix-up traz contos interligados, que vão se complementando em direção a um clímax final. É quase um romance, é mais que um livro de contos. É essa a brincadeira. Mesmo os contos que preservam a independência em termos de história, contribuem para a construção de um imaginário comum. E o imaginário do livro é sombrio e desolador. O que aconteceria se a natureza enfim cedesse ao nosso descaso e simplesmente morresse? Árvores caindo podres, oceanos mortos. Nenhuma linha verde no horizonte. A falência do planeta levando os animais à morte, entregando o homem à solidão. O domínio do planeta da pior maneira. Sem natureza e animais, rapidamente chegamos à escassez de comida. E esse é o ponto-chave de Fome: o único alimento somos nós.

Enfiou um segundo pedaço na boca. Chupou o sangue que lhe escorria pelos lábios e mastigou a carne lentamente, sorvendo os sucos. Pegou um fêmur e o lançou janela afora. Ele foi cair entre entulhos, levantando uma nuvem de pó”.

Tibor optou por frases curtas, o que mais do que retratar um retorno ao raciocínio primitivo combina com a idéia de um futuro imediatista. Não há uma antecipação do amanhã que permita alongar demais os pensamentos. Quem pensa duas vezes dança. O pouco que se tem é o agora, um senso de urgência que se impregna no modus operandi , desce pela garganta e é exalado pelos poros.

O livro traz uma humanidade degenerada, sem resquícios de valores morais. Saem as conversas em bares e os passeios nos shoppings, entram bandos carniceiros em busca de alimento, certos de que a pessoa ao lado pode matá-lo a qualquer momento.

Sem máscaras sociais e entretenimento, o homem perde a capacidade de se esconder. Quem não encara a realidade de frente, se entrega ao tempo, a inanição. Por mais escuro que seja o esconderijo, por mais protegido que o personagem esteja nos escombros de um edifício antigo, ele sabe que precisa sair e procurar alimento. E que lá fora, a chance de ser morto é grande.

A doença o forçara à reflexão. Aceitar a comida pouca que lhe era atirada sem titubear, sem reclamar, sem protestar. Comer com ânsia, morder tendões, mastigar cartilagens, roer ossos. Comer o que no passado ele rejeitaria enojado. Comer para alimentar os tumores que lhe cresciam pelo corpo”.

A princípio pensei que o texto cairia no clichê de “só os mais fortes sobrevivem”, mas assim como na teoria evolucionista darwiniana, Fome também dá espaço para os mais ágeis, sortudos e espertos. E sabemos que a miséria é o melhor cenário para a proliferação de espertos em geral, carreguem armas de fogo ou a palavra do Senhor.

Antes de tudo escurecer ainda pude ver os anjos… e eles me olhavam com fome”.

Os contos sobre os reprovados na escola de Darwin são uma joelhada no estômago. Os fiapos de semelhança que mantêm com a estrutura atual de sociedade são suficientes para transportar o leitor ao cenário de desencanto e jogá-lo no chão, enquanto desfilam diferentes recortes de uma morte lenta, física e psicológica. Mas é nos contos dos aprovados, dos espertinhos, malandros e fanáticos de plantão, que o livro faz sua graça. Usando um humor nigérrimo para a composição da atmosfera apocalíptica, Tibor visitou diversos tabus, tornando a reconstrução dos dogmas religiosos um tema essencial para o que o livro se propõe. Quem está acostumado a definir o que é certo e errado em uma história irá se surpreender.

E para que os de estômago fraco não digam que não avisei: não leiam depois de comer.

Fome
Tibor Moricz
Tarja Editorial
128 páginas.

Como sempre, me diverti, inclusive no andar vazio.

A 28a Bienal de São Paulo tem, de fato, poucas obras, das quais vi ainda menos – o que me leva a um primeiro pensamento: sobre a capacidade de um adulto informado (sou eu, esse) receber e responder a experiências que exigem dele uma participação, uma colaboração, no jogo constante de significado (seriam as obras de arte, essas).

Se não for assim, claro, quanto mais melhor. Por exemplo, um tobogã e um brinquedo de escalar cubos é pouco. Hordas de consumidores, todos da mesma idade mental (baixa), excitados em busca de mais e mais, invadiram sem parar a projeção de um filme de Godard (Hard and Soft), no auditorio, em que eu tentava não perder as palavras ditas em som ruim e sentido maravilhoso.

Mas se você não vai lá para tirar foto da tela de cinema apagada (o filme atrasou alguns minutos), antes de se levantar em busca da próxima sensação, então, poucas obras está bom.

As que eu vi:

A que mais me fez rir. Sim, arte contemporânea tem senso de humor, baseado na ironia. Quanto ao cinismo, veremos mais adiante. O peruano Fernando Bryce é autor da instalação Vision de la pintura occidental. Um aparte: a instituição não pôs a identificação perto das obras. Você tem de consultor os monitores se quiser saber quem é quem. Bem, o Fernando. Ele fez reproduções, fotográficas e em desenho, do cânone artístico do ocidente. Tem de tudo. Mona Lisa, Rembrandt, Picasso, um ao lado do outro. Ao lado, fac-símiles fakes (e só aí já dá para fazer um tratado, sobre esses fac-símiles que são fac-símiles e que são falsos) da papelada burocrática que cercariam o transporte, a exposição e mesmo a informação de tais obras. Meu preferido é um papel ofício dizendo Fuerza Aerea del Peru, Vision de la Pintura Occidental, Escuela de oficiales, Departamento academico. Você já imaginou?

Depois vi alguns sobre uma das questões principais de que trata a arte de nossas vidas, e as nossas vidas: a identidade. Sophie Calle, francesa, se apresenta sob o olhar do Outro, o que é muito bom. O Outro (é Lacan, isso) sendo nossa única possibilidade de vislumbrar a imagem fugidia, inversa, defeituosa de nós mesmos, e, já disse, única. Diz Calle em um cartaz: “Segundo minhas instruções, durante o mês de abril de 1981, minha mãe foi á agência Duluc Detetives Particulares. Ela pediu que me seguissem e solicitou um relatório por escrito de como eu dispunha meu tempo, bem como uma série de fotografias como prova.” A obra é esse pedido – e chegamos à obra através do resultado desse pedido, as fotos e os dados. Fotos e dados que ja não são mais o que de fato aconteceu, mas apenas o que o detetive contratado pôde mostrar. E o que nós, aqui na Bienal de São Paulo, conseguimos ver. De Sophie Calle não sabemos nada que não esteja irremediavelmente misturado ao que chamou a atenção do detetive contratado, a Paris no outono de 1981, e a nós mesmos que podemos estar atraídos mais por um voyeurismo libidinal ou mais pelo cinza bonito do cenário, ou por qualquer coisa entre um e outro, a depender de quem somos. Ou, ainda, pelo desejo, comum a todos nós, de nos vermos pelo olhar do Outro, de contratarmos, nós, um “detetive” que pudesse nos falar de nós. Muito bom.

Erick Beltrán, do México, trouxe um El mundo explicado, também sobre identidade, mas aqui no viés biotecnológico que parece ser a tentativa desesperada dos que querem porque querem obter uma noção de identidade clara, não angustiante por dúbia, do indivíduo. Os que buscam os genes, os átomos, como se lá estivéssemos. É essa tentativa que a obra de Beltrán expõe a nu.

E Allan McCollum, de Los Angeles, com desenhos que fazem lembrar o teste de Rorschach, repetidos 1.800 vezes – o que anula o propósito semântico de sua referência. Lembrei da musica de Gracia do Salgueiro, cantada por Beth Carvalho: “Subi mais de 1.800 colinas não vi nem a sombra de quem eu desejo encontrar.” Olhei mais de 1.800 desenhos e também não vi.

A mineira Valeska Soares fez uma pilha com letras de papier machê (que quer dizer papel desmanchado, e esse campo semântico também é importante). Roberto, ao passar em frente pela primeira vez, achou que eram ossinhos. Depois viu: eram letras. E comentou: tanto faz. De fato, tanto faz. As letras, mortas e brancas como ossinhos, se referem ao texto do primeiro catálogo da primeira bienal de São Paulo, em 1951. Dentro do contexto de questionamento e renovação a que se pretende a 28a bienal, a obra, auto-referenciada, tem sua eficácia. Há o aspecto da diagese – o que faz parte da obra mas está fora dela. Tendemos a ressaltar essa característica na arte de hoje, em que a referência biográfica do artista ou a contextualização da produção é tão importante quanto o que está ali na nossa frente. Esquecemos que sempre foi assim. Ou você acha que a pintura religiosa anterior à Renascença – só para pegar alguma coisa de bem antiga – seria compreensível não fôra o fuidor pertencer ao mesmo âmbito cultural daquilo que lhe estava sendo mostrado?

E resta o cinismo.

Diz Vladimir Safatle, de quem leio o excelente Cinismo e a falência da crítica, que nossa época é cínica pois apresenta suas normatizações ao mesmo tempo em que apresenta os desvios, as transgressões possíveis dessas normas. Ele mostra como isso serve ao capitalismo tardio e sua necessidade de estabelecer metas de desejo não concretas, mutáveis, flúidas, que atendem ao canibalismo de um consumo de si mesmo. Mas isso não vem ao caso, aqui. Fiquemos com a primeira parte. A bienal, ao apresentar a obra e a não-obra, ao mesmo tempo e com igual valor, nos impede a crítica (e a auto-crítica, mas isso também extrapola aqui os limites não-agressivos desse artigo). E, e nem precisaria eu citar Safatle, pois é o óbvio: a ausência de possibilidade de crítica só serve a um senhor, o que estiver no poder naquele momento. Ou seja, o cinismo é reacionário.

Cosmologia do Impreciso (Rio de Janeiro, 7Letras, 2008) é o quarto livro do poeta Oswaldo Martins, e o mais maduro. Nele, o autor consolida uma poética que se fundamenta no profundo diálogo com as criações artísticas da tradição ocidental, e que se desdobra na crítica radical do que, nessa mesma tradição, é interdito, é reflexo hipócrita dos condicionamentos morais. Essa trajetória vem conscientemente sendo percorrida desde seu primeiro livro, desestudos (2000), e se desdobra nos seguintes, minimalhas do alheio (2002), e lucidez do oco (2004), todos pela editora 7Letras.

O intenso jogo dialógico aparece, em todos os títulos, como motor da poesia de Oswaldo Martins. É um desafio para o leitor desfiar os intertextos que cada poema instaura, não só com a literatura, mas também com a pintura, o cinema, a música, e toda forma de arte. Para exemplificar amplitude intertextual dessa poesia, basta mencionar alguns de seus poemas, como o “i modi” (em minimalhas do alheio), em que estão presentes os sonetos luxuriosos de Aretino em diálogo com as famosas gravuras de Giulio Romano e com as do Conde de Waldeck; ou o “di-glauberiana” (em lucidez do oco), em que se fundem o cinema de Glauber Rocha e a pintura de Di Cavalcanti, numa homenagem à fita em que o cineasta documenta o enterro do pintor, filme que foi cassado na justiça brasileira pela família de Di e que só recentemente passou a ser disponibilizado em domínios estrangeiros, através da internet; já no último livro são presenças marcantes Diderot em “estudos para pinturas sacras”, ao lado dos sambistas Cartola e Nelson Cavaquinho, homenageados em “cartolografia” e “cavaquinhos”, respectivamente. Como se vê o jogo de referências construídos na poesia de Oswaldo Martins evita hierarquizar o erudito ou o popular, o nacional ou o estrangeiro. E, de Modigliani ao Afrorreggae, de Man Ray ao Mallarmé mulato, essas escolhas deixam, em última análise, o poeta num lugar ideologicamente privilegiado e intelectualmente livre.

A liberdade é fundamental, justamente, para o que aparece como motivo da poesia de Oswaldo Martins, a celebração, e a crítica de tudo o que contraria a vocação humana de celebrar. Os exemplares vendidos no lançamento de cosmologia do impreciso fizeram-se acompanhar de um CD com os poemas do livro gravados por amigos do poeta; o próprio lançamento não ocorreu numa sisuda livraria, mas num bar da Lapa, famosa região boêmia do centro do Rio. As homenagens tanto nos temas dos poemas quanto nas dedicatórias e nos demais eventos em torno do livro são indícios da celebração. Por outro lado, o poeta não abre mão da reflexão sobre o fazer poético. Muitas leituras ouvidas no CD deixam pistas dos desacertos do leitor diante de tão rigorosa forma. Ao lado da celebração da poesia e da vida, o poeta dispõe a cerebração do poema e do verso, num intenso e sofisticado trabalho cujo objetivo é o desmonte crítico dos condicionamentos morais que também moldam a cultura ocidental. Desde o título de seu terceiro livro, Lucidez do oco, a aporia que cinde o humano em corpo e espírito (seja o santo ou o das luzes), vem sendo explícita e programaticamente combatida em nome liberdade e da afirmação irrefutável da vida. Agora, Cosmologia do impreciso consagra e define a cosmovisão da poesia de Oswaldo Martins. A vida e a liberdade (como condição inevitável do homem, para lembrarmos Sartre), são reafirmadas através do erótico, em sua fortuitidade mais (ex-/im-)pulsiva, numa metáfora igualmente intensa: a buceta, sintomaticamente grafada com u, ratificando o gesto transgressor, a sedição da poesia. Leia-se o título 3 da “antimetafísica das apreciações”:

quando quadros e livros
bucetas são

não são bucetas que se levam
aos livros e quadros

senão que quadros e livros
buscam

o que de buceta
são (
Cosmologia do impreciso, p. 93)

A imagem, que tanto por metonímia, numa menção evidente ao corpo, quanto por metáfora, numa substituição das obras da cultura, aqui representadas pelos livros e quadros, redunda na experiência do erotismo como pulsão para o outro, compartilhamento de corpos e de sentidos, e funda um jogo complexo em que as idéias de nascer e gozar, entrar e sair, circulam, do livro para a vida, da vida para o livro, levando à constatação de que é entre os corpos que a vida se consuma, e que a utopia da poesia, da arte, enfim, é menos alimentar o espírito que promover trocas humanas no interior desse impreciso cosmo, como vem descrito no poema imediatamente posterior:

os botequins
os mistérios
o cachimbo de baudelaire

esta mangueira de cavaquinhos ritmos
no cosmo como o cosmo é:

uma dobradura-porta
aberta para o absurdo (p. 94)

Nesse sentido, o jogo dialógico e intertextual, aquilo que se apresentou como motor, não deixa de se irmanar ao motivo, a celebração das trocas e experiências humanas. Um está para o outro e formam essa “dobradura-porta”, imagem que se revela, simultaneamente, trompe-d’oeil e passagem de fato. Os incautos e escandalizados com o texto equivocadamente tachado de pornográfico, ficam no primeiro, perdem-se na dobradura, e não desfrutam o prazer do texto, como queria Barthes. Mas os que são capazes de ainda demonstrar mínima sensibilidade à humana condição, esses entram no cosmo impreciso e celebram o encontro.

Sobre a capa da edição 16 (ano 3) do Aguarrás

detalhe da capa da edição 16

Trouxe para minha tinta a óleo uma porta de banheiro, com seus desenhos e palavrões.

Fiz isso pensando em Oswaldo Martins, que também traz, para seus versos, a sexualidade de Lapas e putas.

Oswaldo Martins foi despedido da Escola Parque (RJ) por alguns desses versos publicados.

Ele é um querido e admirado colaborador do Aguarrás desde seu início.

É profissional respeitado, com titularidade das melhores instituições de nível superior do país.

Poeta e editor conhecido.

Fica então aqui, na capa do número 16, ano 3, nossa homenagem e nosso desagravo.